Poemas neste tema
Vida e Existência
Pablo Neruda
Veio a Morte de Paul
Nestes dias recebi a morte
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
1 054
Pablo Neruda
Veio a Morte de Paul
Nestes dias recebi a morte
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
1 054
Pablo Neruda
Este Sino Roto
Este sino roto
quer ainda cantar,
o metal agora é verde,
o sino tem a cor da selva,
cor da água de poça no bosque,
cor do dia nas folhas.
O bronze roto e verde,
o sino de bruços
e dormido
foi enredado pelas enredadeiras
e a cor de ouro duro do bronze
passou à cor da rã,
foram as mãos da água,
a umidade da costa
que deu verdura ao metal,
ternura ao sino.
Este sino roto
arrastado no brusco matagal
do meu jardim selvagem,
sino verde, ferido,
funde suas cicatrizes na erva,
não chama a mais ninguém,
não congrega
junto à sua copa verde
mais que uma borboleta que palpita
sobre o metal caído e voa
fugindo com asas amarelas.
quer ainda cantar,
o metal agora é verde,
o sino tem a cor da selva,
cor da água de poça no bosque,
cor do dia nas folhas.
O bronze roto e verde,
o sino de bruços
e dormido
foi enredado pelas enredadeiras
e a cor de ouro duro do bronze
passou à cor da rã,
foram as mãos da água,
a umidade da costa
que deu verdura ao metal,
ternura ao sino.
Este sino roto
arrastado no brusco matagal
do meu jardim selvagem,
sino verde, ferido,
funde suas cicatrizes na erva,
não chama a mais ninguém,
não congrega
junto à sua copa verde
mais que uma borboleta que palpita
sobre o metal caído e voa
fugindo com asas amarelas.
1 428
Pablo Neruda
A Boca Que Canta
Vou desde os pinhais
até as bocas descidas do Danúbio,
o ar azul sacode
as vidas e a vida.
O ar limpa o fundo
dos salões, entra
pelas janelas
um vento de bandeiras populares.
Apagando nesta hora,
Romênia, com tuas mãos os farrapos
de teu povo, mostraste
uma nova cabeça, novos olhos,
nova boca que canta,
e não só uma raça de pastores
mostras hoje na terra,
mas uma deslumbrante
construção que caminha.
até as bocas descidas do Danúbio,
o ar azul sacode
as vidas e a vida.
O ar limpa o fundo
dos salões, entra
pelas janelas
um vento de bandeiras populares.
Apagando nesta hora,
Romênia, com tuas mãos os farrapos
de teu povo, mostraste
uma nova cabeça, novos olhos,
nova boca que canta,
e não só uma raça de pastores
mostras hoje na terra,
mas uma deslumbrante
construção que caminha.
1 247
Pablo Neruda
XXIII - Os homens
Porque si coincidíssemos ali
como os elefantes moribundos
dispostos ao oxigênio total,
se armados os saciados e os famintos,
os árabes e os bretões, os de Tehuantepec
e os de Hamburgo, os duros de Chicago e os senegaleses,
todos, si compreendêssemos que ali guardam as chaves
da respiração, do equilíbrio
baseados na verdade da pedra e do vento,
se assim fosse e corressem as raças despovoando as nações,
se navegássemos em tropel até a Ilha,
se todos ficassem sábios de repente e fossemos
a Rapa Nui, a mataríamos,
a mataríamos com imensas pisadas, com dialetos,
escarros, batalhas, religiões,
y ali também acabaria o ar,
cairiam ao solo as estátuas,
virariam mastros sujos os narizes de pedra
y tudo morreria amargamente.
como os elefantes moribundos
dispostos ao oxigênio total,
se armados os saciados e os famintos,
os árabes e os bretões, os de Tehuantepec
e os de Hamburgo, os duros de Chicago e os senegaleses,
todos, si compreendêssemos que ali guardam as chaves
da respiração, do equilíbrio
baseados na verdade da pedra e do vento,
se assim fosse e corressem as raças despovoando as nações,
se navegássemos em tropel até a Ilha,
se todos ficassem sábios de repente e fossemos
a Rapa Nui, a mataríamos,
a mataríamos com imensas pisadas, com dialetos,
escarros, batalhas, religiões,
y ali também acabaria o ar,
cairiam ao solo as estátuas,
virariam mastros sujos os narizes de pedra
y tudo morreria amargamente.
1 236
Pablo Neruda
A Noite Na Ilha
Toda a noite dormi contigo
junto ao mar, na ilha.
Eras selvagem e doce entre o prazer e o sonho,
entre o fogo e a água.
Talvez fosse já muito tarde
quando os nossos sonhos se uniram
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
Talvez o teu sonho
se tivesse separado do meu
e pelo mar obscuro
me procurasse
como antes,
quando ainda não existias,
quando sem dar por ti
naveguei por onde andavas,
e os teus olhos procuravam
o que agora
– pão, vinho, amor e cólera –
te dou às mãos cheias
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Toda a noite dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra obscura roda
com vivos e com mortos,
e ao acordar subitamente
no meio da sombra
o meu braço enlaçava-te a cintura.
Nem a noite, nem o sonho
nos puderam separar.
Dormi contigo
e ao acordar, a tua boca,
saída do teu sonho,
deu-me o sabor de terra,
de água marinha, de algas,
do fundo da tua vida,
e recebi o teu beijo
húmido com a madrugada
como se me tivesse chegado
do mar que nos rodeia.
junto ao mar, na ilha.
Eras selvagem e doce entre o prazer e o sonho,
entre o fogo e a água.
Talvez fosse já muito tarde
quando os nossos sonhos se uniram
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
Talvez o teu sonho
se tivesse separado do meu
e pelo mar obscuro
me procurasse
como antes,
quando ainda não existias,
quando sem dar por ti
naveguei por onde andavas,
e os teus olhos procuravam
o que agora
– pão, vinho, amor e cólera –
te dou às mãos cheias
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Toda a noite dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra obscura roda
com vivos e com mortos,
e ao acordar subitamente
no meio da sombra
o meu braço enlaçava-te a cintura.
Nem a noite, nem o sonho
nos puderam separar.
Dormi contigo
e ao acordar, a tua boca,
saída do teu sonho,
deu-me o sabor de terra,
de água marinha, de algas,
do fundo da tua vida,
e recebi o teu beijo
húmido com a madrugada
como se me tivesse chegado
do mar que nos rodeia.
2 542
Pablo Neruda
Índia, 1951
Na Índia
de novo,
outra vez
o aroma
de frutas mortas, o
grasnido
de corvos.
Senti que se oprimia
dentro de um vaso quebrado
meu coração, ouvi
passos,
passos que morreram,
passos.
Ramagem
de raças e de túnicas,
Índia,
materna, entrelaçada,
angusta, cruel, remota,
eras a mesma.
Os grandes rios sepultando corpos,
a cor de açafrão nas colinas,
mas agora
não era minha juventude, minha solitária adolescência vagante.
Agora
as flores me esperavam,
caíram em meu colo,
e um nome,
uma carta,
uma simples sílaba
vinha
lá do cárcere para reconhecer-me.
Terras de Telenghana,
mártires, criaturas
colhidas entre
dois fogos,
as metralhadoras do governo,
os cárceres
do Nizam de Hyderabad.
Camponeses caídos
nas que já creram
terras suas,
agora
com Parlamento próprio,
sem ingleses,
e a velha miséria,
a fome
ululando nas aldeias.
Esperando,
esperando
sempre viveu a Índia,
sentada
junto ao rio do tempo,
esperando.
Passavam os guerreiros
de pés ensanguentados,
os príncipes
comedores de pérolas,
os ingleses
impassíveis,
os sacerdotes frios
como sáurios,
estudando o umbigo
da terra e do céu,
todos
devorando-te algo,
passageiros, piratas, mercenários,
e tu, mãe do mundo,
sentada junto ao rio
do tempo
fiando e esperando.
Agora os poetas,
Sirdard Jaffris ou o outro,
o magro ou o barbudo,
saíam do cárcere.
A poesia
na Índia
entrava no calabouço,
saía e regressava,
aprendendo
a liberdade entre os prisioneiros,
conhecendo
as penas,
os dialetos, as dores,
as palavras secretas
dos ensimesmados camponeses,
a queixa dolorosa,
as abertas feridas,
a doçura rebelde
que avança levantando seu estandarte
de estrelas e pombas.
Útero da terra, território
fechado em que fermentam
as uvas da História.
Antiga irmã
dos velhos planetas,
eu soube agora,
escutando os cantos nos povoados,
as iras debulhadas,
os punhos no vento,
soube
que se levantarão tuas estaturas,
que se acumulará teu poderio,
que darás a teu povo
o pão que lhe negavas,
e que já não veremos
passar detrás do ouro,
cruzar detrás do rito
deslumbrador da teogonia,
a fome com sua escova
varrendo pobres ossos e sujeiras
no lado do caminho.
Índia, levanta
tua juventude, incita
teu relógio para marcar a hora que vem.
Adianta-te e colhe
no horário o alto meio-dia.
São antigas tuas flechas.
Sobe-as à tua testa e crava
no horário teu destino.
de novo,
outra vez
o aroma
de frutas mortas, o
grasnido
de corvos.
Senti que se oprimia
dentro de um vaso quebrado
meu coração, ouvi
passos,
passos que morreram,
passos.
Ramagem
de raças e de túnicas,
Índia,
materna, entrelaçada,
angusta, cruel, remota,
eras a mesma.
Os grandes rios sepultando corpos,
a cor de açafrão nas colinas,
mas agora
não era minha juventude, minha solitária adolescência vagante.
Agora
as flores me esperavam,
caíram em meu colo,
e um nome,
uma carta,
uma simples sílaba
vinha
lá do cárcere para reconhecer-me.
Terras de Telenghana,
mártires, criaturas
colhidas entre
dois fogos,
as metralhadoras do governo,
os cárceres
do Nizam de Hyderabad.
Camponeses caídos
nas que já creram
terras suas,
agora
com Parlamento próprio,
sem ingleses,
e a velha miséria,
a fome
ululando nas aldeias.
Esperando,
esperando
sempre viveu a Índia,
sentada
junto ao rio do tempo,
esperando.
Passavam os guerreiros
de pés ensanguentados,
os príncipes
comedores de pérolas,
os ingleses
impassíveis,
os sacerdotes frios
como sáurios,
estudando o umbigo
da terra e do céu,
todos
devorando-te algo,
passageiros, piratas, mercenários,
e tu, mãe do mundo,
sentada junto ao rio
do tempo
fiando e esperando.
Agora os poetas,
Sirdard Jaffris ou o outro,
o magro ou o barbudo,
saíam do cárcere.
A poesia
na Índia
entrava no calabouço,
saía e regressava,
aprendendo
a liberdade entre os prisioneiros,
conhecendo
as penas,
os dialetos, as dores,
as palavras secretas
dos ensimesmados camponeses,
a queixa dolorosa,
as abertas feridas,
a doçura rebelde
que avança levantando seu estandarte
de estrelas e pombas.
Útero da terra, território
fechado em que fermentam
as uvas da História.
Antiga irmã
dos velhos planetas,
eu soube agora,
escutando os cantos nos povoados,
as iras debulhadas,
os punhos no vento,
soube
que se levantarão tuas estaturas,
que se acumulará teu poderio,
que darás a teu povo
o pão que lhe negavas,
e que já não veremos
passar detrás do ouro,
cruzar detrás do rito
deslumbrador da teogonia,
a fome com sua escova
varrendo pobres ossos e sujeiras
no lado do caminho.
Índia, levanta
tua juventude, incita
teu relógio para marcar a hora que vem.
Adianta-te e colhe
no horário o alto meio-dia.
São antigas tuas flechas.
Sobe-as à tua testa e crava
no horário teu destino.
1 195
Pablo Neruda
IX - Os homens
Nos ensinaram a respeitar a igreja,
a não tossir, a não cuspir no átrio,
a não lavar roupa no altar
e não é assim: a vida rompe as religiões
e é esta ilha em que habitou o Deus Vento
a única igreja viva e verdadeira:
− vão e vêm as vidas, morrendo e fornicando −
aqui na ilha de Páscoa, onde tudo é altar,
onde tudo é oficina do desconhecido,
a mulher amamenta sua nova criatura
sobre os mesmos degraus que pisaram seus deuses.
Aqui, para viver! Más também nós?
Nós, os transeuntes, os equivocados de estrela,
naufragaríamos na ilha como em uma lagoa,
num lago em que todas as distâncias terminam,
na aventura imóvel mais difícil do homem.
a não tossir, a não cuspir no átrio,
a não lavar roupa no altar
e não é assim: a vida rompe as religiões
e é esta ilha em que habitou o Deus Vento
a única igreja viva e verdadeira:
− vão e vêm as vidas, morrendo e fornicando −
aqui na ilha de Páscoa, onde tudo é altar,
onde tudo é oficina do desconhecido,
a mulher amamenta sua nova criatura
sobre os mesmos degraus que pisaram seus deuses.
Aqui, para viver! Más também nós?
Nós, os transeuntes, os equivocados de estrela,
naufragaríamos na ilha como em uma lagoa,
num lago em que todas as distâncias terminam,
na aventura imóvel mais difícil do homem.
1 118
Pablo Neruda
IX - Os homens
Nos ensinaram a respeitar a igreja,
a não tossir, a não cuspir no átrio,
a não lavar roupa no altar
e não é assim: a vida rompe as religiões
e é esta ilha em que habitou o Deus Vento
a única igreja viva e verdadeira:
− vão e vêm as vidas, morrendo e fornicando −
aqui na ilha de Páscoa, onde tudo é altar,
onde tudo é oficina do desconhecido,
a mulher amamenta sua nova criatura
sobre os mesmos degraus que pisaram seus deuses.
Aqui, para viver! Más também nós?
Nós, os transeuntes, os equivocados de estrela,
naufragaríamos na ilha como em uma lagoa,
num lago em que todas as distâncias terminam,
na aventura imóvel mais difícil do homem.
a não tossir, a não cuspir no átrio,
a não lavar roupa no altar
e não é assim: a vida rompe as religiões
e é esta ilha em que habitou o Deus Vento
a única igreja viva e verdadeira:
− vão e vêm as vidas, morrendo e fornicando −
aqui na ilha de Páscoa, onde tudo é altar,
onde tudo é oficina do desconhecido,
a mulher amamenta sua nova criatura
sobre os mesmos degraus que pisaram seus deuses.
Aqui, para viver! Más também nós?
Nós, os transeuntes, os equivocados de estrela,
naufragaríamos na ilha como em uma lagoa,
num lago em que todas as distâncias terminam,
na aventura imóvel mais difícil do homem.
1 118
Pablo Neruda
Foi Sangrenta
Foi sangrenta toda a terra do homem.
Tempo, edificações, rotas, chuva,
apagam as constelações do crime,
o certo é que um planeta tão pequeno
foi mil vezes coberto pelo sangue,
guerra ou vingança, armadilha ou batalha,
caíram homens, foram devorados,
depois o esquecimento foi limpando
cada metro quadrado: alguma vez
um vago monumento mentiroso,
às vezes uma cláusula de bronze,
depois conversações, nascimentos,
municipalidades, e o esquecimento.
Que artes temos para o extermínio
e que ciência para extirpar lembranças!
Está florido o que foi sangrento.
Preparar-se, rapazes,
para outra vez matar, morrer de novo,
e cobrir com flores o sangue.
Tempo, edificações, rotas, chuva,
apagam as constelações do crime,
o certo é que um planeta tão pequeno
foi mil vezes coberto pelo sangue,
guerra ou vingança, armadilha ou batalha,
caíram homens, foram devorados,
depois o esquecimento foi limpando
cada metro quadrado: alguma vez
um vago monumento mentiroso,
às vezes uma cláusula de bronze,
depois conversações, nascimentos,
municipalidades, e o esquecimento.
Que artes temos para o extermínio
e que ciência para extirpar lembranças!
Está florido o que foi sangrento.
Preparar-se, rapazes,
para outra vez matar, morrer de novo,
e cobrir com flores o sangue.
697
Pablo Neruda
Foi Sangrenta
Foi sangrenta toda a terra do homem.
Tempo, edificações, rotas, chuva,
apagam as constelações do crime,
o certo é que um planeta tão pequeno
foi mil vezes coberto pelo sangue,
guerra ou vingança, armadilha ou batalha,
caíram homens, foram devorados,
depois o esquecimento foi limpando
cada metro quadrado: alguma vez
um vago monumento mentiroso,
às vezes uma cláusula de bronze,
depois conversações, nascimentos,
municipalidades, e o esquecimento.
Que artes temos para o extermínio
e que ciência para extirpar lembranças!
Está florido o que foi sangrento.
Preparar-se, rapazes,
para outra vez matar, morrer de novo,
e cobrir com flores o sangue.
Tempo, edificações, rotas, chuva,
apagam as constelações do crime,
o certo é que um planeta tão pequeno
foi mil vezes coberto pelo sangue,
guerra ou vingança, armadilha ou batalha,
caíram homens, foram devorados,
depois o esquecimento foi limpando
cada metro quadrado: alguma vez
um vago monumento mentiroso,
às vezes uma cláusula de bronze,
depois conversações, nascimentos,
municipalidades, e o esquecimento.
Que artes temos para o extermínio
e que ciência para extirpar lembranças!
Está florido o que foi sangrento.
Preparar-se, rapazes,
para outra vez matar, morrer de novo,
e cobrir com flores o sangue.
697
Pablo Neruda
O Anjo da Guarda
Em minha casa, de menino, me disseram,
“Escuta. Há um anjo
que vai contigo e te defende:
um anjo da Guarda”.
Eu cresci, dolorido, nos rincões.
E o pranto acumulado fui deixando
cair de gota em gota em minha escrita.
Adolescente fui, de perigo em perigo,
de noite a noite, com minha própria espada
defendendo meu pão e meu poema,
cortando o lugar da rua escura
que devia cruzar, armazenando
minha solitária força no vazio.
Quem não veio à minha porta para quebrar alguma coisa?
Quem não me trouxe corrosiva lava?
Quem não levou uma pedra venenosa
à velocidade de minha existência?
O proprietário me expulsou iroso.
O elegante desdenhou meu rosto.
E de sua letrinha mexicana
ou de cinzentos silabários,
malévolos barbudos, mercadores
de rosas mortas, poetas
sem poesia, deslizaram tinta
contra minha combatente cabeleira.
Abriram poços de alma lamacenta
para que eu caísse entre seus dentes,
coroaram meu canto com facas,
mas não quis fugir, nem defender-me:
cantei, cantei enchendo-me de estrelas,
cantei sem que ninguém me defendesse,
exceto o azul aço de meu canto.
“Escuta. Há um anjo
que vai contigo e te defende:
um anjo da Guarda”.
Eu cresci, dolorido, nos rincões.
E o pranto acumulado fui deixando
cair de gota em gota em minha escrita.
Adolescente fui, de perigo em perigo,
de noite a noite, com minha própria espada
defendendo meu pão e meu poema,
cortando o lugar da rua escura
que devia cruzar, armazenando
minha solitária força no vazio.
Quem não veio à minha porta para quebrar alguma coisa?
Quem não me trouxe corrosiva lava?
Quem não levou uma pedra venenosa
à velocidade de minha existência?
O proprietário me expulsou iroso.
O elegante desdenhou meu rosto.
E de sua letrinha mexicana
ou de cinzentos silabários,
malévolos barbudos, mercadores
de rosas mortas, poetas
sem poesia, deslizaram tinta
contra minha combatente cabeleira.
Abriram poços de alma lamacenta
para que eu caísse entre seus dentes,
coroaram meu canto com facas,
mas não quis fugir, nem defender-me:
cantei, cantei enchendo-me de estrelas,
cantei sem que ninguém me defendesse,
exceto o azul aço de meu canto.
1 449
Pablo Neruda
O Anjo da Guarda
Em minha casa, de menino, me disseram,
“Escuta. Há um anjo
que vai contigo e te defende:
um anjo da Guarda”.
Eu cresci, dolorido, nos rincões.
E o pranto acumulado fui deixando
cair de gota em gota em minha escrita.
Adolescente fui, de perigo em perigo,
de noite a noite, com minha própria espada
defendendo meu pão e meu poema,
cortando o lugar da rua escura
que devia cruzar, armazenando
minha solitária força no vazio.
Quem não veio à minha porta para quebrar alguma coisa?
Quem não me trouxe corrosiva lava?
Quem não levou uma pedra venenosa
à velocidade de minha existência?
O proprietário me expulsou iroso.
O elegante desdenhou meu rosto.
E de sua letrinha mexicana
ou de cinzentos silabários,
malévolos barbudos, mercadores
de rosas mortas, poetas
sem poesia, deslizaram tinta
contra minha combatente cabeleira.
Abriram poços de alma lamacenta
para que eu caísse entre seus dentes,
coroaram meu canto com facas,
mas não quis fugir, nem defender-me:
cantei, cantei enchendo-me de estrelas,
cantei sem que ninguém me defendesse,
exceto o azul aço de meu canto.
“Escuta. Há um anjo
que vai contigo e te defende:
um anjo da Guarda”.
Eu cresci, dolorido, nos rincões.
E o pranto acumulado fui deixando
cair de gota em gota em minha escrita.
Adolescente fui, de perigo em perigo,
de noite a noite, com minha própria espada
defendendo meu pão e meu poema,
cortando o lugar da rua escura
que devia cruzar, armazenando
minha solitária força no vazio.
Quem não veio à minha porta para quebrar alguma coisa?
Quem não me trouxe corrosiva lava?
Quem não levou uma pedra venenosa
à velocidade de minha existência?
O proprietário me expulsou iroso.
O elegante desdenhou meu rosto.
E de sua letrinha mexicana
ou de cinzentos silabários,
malévolos barbudos, mercadores
de rosas mortas, poetas
sem poesia, deslizaram tinta
contra minha combatente cabeleira.
Abriram poços de alma lamacenta
para que eu caísse entre seus dentes,
coroaram meu canto com facas,
mas não quis fugir, nem defender-me:
cantei, cantei enchendo-me de estrelas,
cantei sem que ninguém me defendesse,
exceto o azul aço de meu canto.
1 449
Pablo Neruda
Faz Tempo
Faz tempo, numa viagem
descobri um rio,
era apenas um menino, um cão,
um pássaro, aquele rio nascente.
Sussurrava e gemia
entre as pedras
da ferruginosa cordilheira,
implorava existência
entre a solidão de céu e neve,
lá longe, acima.
Eu me senti cansado
como um cavalo velho
junto à criatura natural
que começava a correr,
a saltar e crescer,
a cantar com voz clara,
a conhecer a terra,
as pedras, o transcurso,
a caminhar noite e dia,
a converter-se em trovão,
até chegar a ser vertiginoso,
até chegar à tranqüilidade,
até ser largo e presentear a água,
até ser patriarcal e navegado,
este pequeno rio,
pequeno e torpe
como um peixe metálico
deixando aqui escamas ao passar,
gotas de prata agredida,
um rio
que chorava ao nascer,
que ia crescendo
ante meus olhos.
Ali nas cordilheiras de minha pátria
alguma vez e faz tempo
eu vi, toquei e ouvi
o que nascia:
um latido, um som entre as pedras
era o que nascia.
descobri um rio,
era apenas um menino, um cão,
um pássaro, aquele rio nascente.
Sussurrava e gemia
entre as pedras
da ferruginosa cordilheira,
implorava existência
entre a solidão de céu e neve,
lá longe, acima.
Eu me senti cansado
como um cavalo velho
junto à criatura natural
que começava a correr,
a saltar e crescer,
a cantar com voz clara,
a conhecer a terra,
as pedras, o transcurso,
a caminhar noite e dia,
a converter-se em trovão,
até chegar a ser vertiginoso,
até chegar à tranqüilidade,
até ser largo e presentear a água,
até ser patriarcal e navegado,
este pequeno rio,
pequeno e torpe
como um peixe metálico
deixando aqui escamas ao passar,
gotas de prata agredida,
um rio
que chorava ao nascer,
que ia crescendo
ante meus olhos.
Ali nas cordilheiras de minha pátria
alguma vez e faz tempo
eu vi, toquei e ouvi
o que nascia:
um latido, um som entre as pedras
era o que nascia.
1 084
Pablo Neruda
Faz Tempo
Faz tempo, numa viagem
descobri um rio,
era apenas um menino, um cão,
um pássaro, aquele rio nascente.
Sussurrava e gemia
entre as pedras
da ferruginosa cordilheira,
implorava existência
entre a solidão de céu e neve,
lá longe, acima.
Eu me senti cansado
como um cavalo velho
junto à criatura natural
que começava a correr,
a saltar e crescer,
a cantar com voz clara,
a conhecer a terra,
as pedras, o transcurso,
a caminhar noite e dia,
a converter-se em trovão,
até chegar a ser vertiginoso,
até chegar à tranqüilidade,
até ser largo e presentear a água,
até ser patriarcal e navegado,
este pequeno rio,
pequeno e torpe
como um peixe metálico
deixando aqui escamas ao passar,
gotas de prata agredida,
um rio
que chorava ao nascer,
que ia crescendo
ante meus olhos.
Ali nas cordilheiras de minha pátria
alguma vez e faz tempo
eu vi, toquei e ouvi
o que nascia:
um latido, um som entre as pedras
era o que nascia.
descobri um rio,
era apenas um menino, um cão,
um pássaro, aquele rio nascente.
Sussurrava e gemia
entre as pedras
da ferruginosa cordilheira,
implorava existência
entre a solidão de céu e neve,
lá longe, acima.
Eu me senti cansado
como um cavalo velho
junto à criatura natural
que começava a correr,
a saltar e crescer,
a cantar com voz clara,
a conhecer a terra,
as pedras, o transcurso,
a caminhar noite e dia,
a converter-se em trovão,
até chegar a ser vertiginoso,
até chegar à tranqüilidade,
até ser largo e presentear a água,
até ser patriarcal e navegado,
este pequeno rio,
pequeno e torpe
como um peixe metálico
deixando aqui escamas ao passar,
gotas de prata agredida,
um rio
que chorava ao nascer,
que ia crescendo
ante meus olhos.
Ali nas cordilheiras de minha pátria
alguma vez e faz tempo
eu vi, toquei e ouvi
o que nascia:
um latido, um som entre as pedras
era o que nascia.
1 084
Pablo Neruda
Ode E Germinações
I
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
1 483
Pablo Neruda
Ode E Germinações
I
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
1 483
Pablo Neruda
8
Abelha branca zumbe, ébria de mel em minh’alma
e te torce em lentas espirais de fumo.
Sou o desesperado, a palavra sem eco,
o que perdeu tudo, e o que tudo teve.
Última amarra, estala em ti minha ansiedade última.
Em minha terra deserta és a última rosa.
Ah silenciosa!
Cerra teus olhos profundos. Lá esvoaça a noite.
Ah! Despe teu corpo de estátua temerosa.
Tens olhos profundos onde se agita a noite.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.
Teus seios parecem os caracóis brancos.
Veio dormir em teu ventre uma mariposa de sombra.
Ah silenciosa!
Eis aqui a solitude de onde estás ausente.
Chove. O vento do mar caça gaivotas errantes.
A água anda descalça pelas ruas molhadas.
Daquela árvore queixam-se, meio enfermas, as folhas.
Abelha branca, ausente, zunindo em minha alma.
Renasces no tempo, delgada e silenciosa.
Ah silenciosa!
e te torce em lentas espirais de fumo.
Sou o desesperado, a palavra sem eco,
o que perdeu tudo, e o que tudo teve.
Última amarra, estala em ti minha ansiedade última.
Em minha terra deserta és a última rosa.
Ah silenciosa!
Cerra teus olhos profundos. Lá esvoaça a noite.
Ah! Despe teu corpo de estátua temerosa.
Tens olhos profundos onde se agita a noite.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.
Teus seios parecem os caracóis brancos.
Veio dormir em teu ventre uma mariposa de sombra.
Ah silenciosa!
Eis aqui a solitude de onde estás ausente.
Chove. O vento do mar caça gaivotas errantes.
A água anda descalça pelas ruas molhadas.
Daquela árvore queixam-se, meio enfermas, as folhas.
Abelha branca, ausente, zunindo em minha alma.
Renasces no tempo, delgada e silenciosa.
Ah silenciosa!
1 286
Pablo Neruda
Enigmas Para Intranquilos
Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
1 199
Pablo Neruda
Enigmas Para Intranquilos
Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
1 199
Pablo Neruda
Enigmas Para Intranquilos
Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
1 199
Pablo Neruda
As Tuas Mãos
Quando as tuas mãos saem,
amor, até mim,
que me traz o seu voo?
Porque se detiveram
na minha boca, de súbito,
porque as reconheço
como se acaso, antes,
lhes tivesse tocado,
como se antes de existirem
tivessem percorrido
a minha testa, a minha cintura?
A sua suavidade vinha
voando sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
sobre a primavera,
e quando as puseste
no meu peito,
reconheci essas asas
de pomba dourada,
reconheci esse giz
e essa cor de trigo.
Os anos da minha vida
percorri-os à sua procura.
Subi as escadas,
atravessei os recifes,
levaram-me os comboios,
as águas trouxeram-me,
e na pele das uvas
senti o teu toque.
A madeira de súbito
trouxe-me o teu contacto,
a amêndoa anunciava-me
a tua suavidade secreta,
até que as tuas mãos
se fecharam no meu peito
e ali como duas asas
chegou ao fim a sua viagem.
amor, até mim,
que me traz o seu voo?
Porque se detiveram
na minha boca, de súbito,
porque as reconheço
como se acaso, antes,
lhes tivesse tocado,
como se antes de existirem
tivessem percorrido
a minha testa, a minha cintura?
A sua suavidade vinha
voando sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
sobre a primavera,
e quando as puseste
no meu peito,
reconheci essas asas
de pomba dourada,
reconheci esse giz
e essa cor de trigo.
Os anos da minha vida
percorri-os à sua procura.
Subi as escadas,
atravessei os recifes,
levaram-me os comboios,
as águas trouxeram-me,
e na pele das uvas
senti o teu toque.
A madeira de súbito
trouxe-me o teu contacto,
a amêndoa anunciava-me
a tua suavidade secreta,
até que as tuas mãos
se fecharam no meu peito
e ali como duas asas
chegou ao fim a sua viagem.
1 996
Pablo Neruda
As Tuas Mãos
Quando as tuas mãos saem,
amor, até mim,
que me traz o seu voo?
Porque se detiveram
na minha boca, de súbito,
porque as reconheço
como se acaso, antes,
lhes tivesse tocado,
como se antes de existirem
tivessem percorrido
a minha testa, a minha cintura?
A sua suavidade vinha
voando sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
sobre a primavera,
e quando as puseste
no meu peito,
reconheci essas asas
de pomba dourada,
reconheci esse giz
e essa cor de trigo.
Os anos da minha vida
percorri-os à sua procura.
Subi as escadas,
atravessei os recifes,
levaram-me os comboios,
as águas trouxeram-me,
e na pele das uvas
senti o teu toque.
A madeira de súbito
trouxe-me o teu contacto,
a amêndoa anunciava-me
a tua suavidade secreta,
até que as tuas mãos
se fecharam no meu peito
e ali como duas asas
chegou ao fim a sua viagem.
amor, até mim,
que me traz o seu voo?
Porque se detiveram
na minha boca, de súbito,
porque as reconheço
como se acaso, antes,
lhes tivesse tocado,
como se antes de existirem
tivessem percorrido
a minha testa, a minha cintura?
A sua suavidade vinha
voando sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
sobre a primavera,
e quando as puseste
no meu peito,
reconheci essas asas
de pomba dourada,
reconheci esse giz
e essa cor de trigo.
Os anos da minha vida
percorri-os à sua procura.
Subi as escadas,
atravessei os recifes,
levaram-me os comboios,
as águas trouxeram-me,
e na pele das uvas
senti o teu toque.
A madeira de súbito
trouxe-me o teu contacto,
a amêndoa anunciava-me
a tua suavidade secreta,
até que as tuas mãos
se fecharam no meu peito
e ali como duas asas
chegou ao fim a sua viagem.
1 996
Pablo Neruda
1
Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.
Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.
Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
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