Poemas neste tema
Vida e Existência
Allen Ginsberg
A Kerouac no Hospital
Gentis nos faz a morte; a dor que mata
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
789
Allen Ginsberg
A Kerouac no Hospital
Gentis nos faz a morte; a dor que mata
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
789
Allen Ginsberg
História de Gregory Corso
Na primeira vez que fui
ao campo a New Hampshire
lá pelos oito anos de idade
havia uma garota
que eu costumava amolar com um pedaço de pau.
Apaixonados,
tiramos nossas roupas ao luar
em minha noite de despedida
mostrando nossos corpos um ao outro
aí corremos cantarolando de volta pra casa.
10 de dezembro, 1951
ao campo a New Hampshire
lá pelos oito anos de idade
havia uma garota
que eu costumava amolar com um pedaço de pau.
Apaixonados,
tiramos nossas roupas ao luar
em minha noite de despedida
mostrando nossos corpos um ao outro
aí corremos cantarolando de volta pra casa.
10 de dezembro, 1951
409
Allen Ginsberg
História de Gregory Corso
Na primeira vez que fui
ao campo a New Hampshire
lá pelos oito anos de idade
havia uma garota
que eu costumava amolar com um pedaço de pau.
Apaixonados,
tiramos nossas roupas ao luar
em minha noite de despedida
mostrando nossos corpos um ao outro
aí corremos cantarolando de volta pra casa.
10 de dezembro, 1951
ao campo a New Hampshire
lá pelos oito anos de idade
havia uma garota
que eu costumava amolar com um pedaço de pau.
Apaixonados,
tiramos nossas roupas ao luar
em minha noite de despedida
mostrando nossos corpos um ao outro
aí corremos cantarolando de volta pra casa.
10 de dezembro, 1951
409
Allen Ginsberg
Sutra do girassol
Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e me sentei à sombra enorme de uma locomotiva da Southern Pacific para olhar o sol que se punha entre as colinas de casas como caixotes e chorar.
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
1 134
Allen Ginsberg
Sutra do girassol
Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e me sentei à sombra enorme de uma locomotiva da Southern Pacific para olhar o sol que se punha entre as colinas de casas como caixotes e chorar.
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
1 134
Affonso Romano de Sant'Anna
Wild Life
Ninguém se arrepende do passado
ou planeja o futuro:
– é simplesmente um lindo dia na savana
quando
súbito
uma hiena fareja sorrateira
o filhote de zebra recém-nato
os abutres comem restos da placenta
que a mãe zebra deixou sobre a campina
o leão alcança o corpo da girafa
a águia arrebata a lebre na colina
e o leopardo o tigre e a pantera
seguem os rastros da vítima na neblina.
É simplesmente um lindo dia na savana.
De repente
a morte repentina.
ou planeja o futuro:
– é simplesmente um lindo dia na savana
quando
súbito
uma hiena fareja sorrateira
o filhote de zebra recém-nato
os abutres comem restos da placenta
que a mãe zebra deixou sobre a campina
o leão alcança o corpo da girafa
a águia arrebata a lebre na colina
e o leopardo o tigre e a pantera
seguem os rastros da vítima na neblina.
É simplesmente um lindo dia na savana.
De repente
a morte repentina.
998
Affonso Romano de Sant'Anna
Wild Life
Ninguém se arrepende do passado
ou planeja o futuro:
– é simplesmente um lindo dia na savana
quando
súbito
uma hiena fareja sorrateira
o filhote de zebra recém-nato
os abutres comem restos da placenta
que a mãe zebra deixou sobre a campina
o leão alcança o corpo da girafa
a águia arrebata a lebre na colina
e o leopardo o tigre e a pantera
seguem os rastros da vítima na neblina.
É simplesmente um lindo dia na savana.
De repente
a morte repentina.
ou planeja o futuro:
– é simplesmente um lindo dia na savana
quando
súbito
uma hiena fareja sorrateira
o filhote de zebra recém-nato
os abutres comem restos da placenta
que a mãe zebra deixou sobre a campina
o leão alcança o corpo da girafa
a águia arrebata a lebre na colina
e o leopardo o tigre e a pantera
seguem os rastros da vítima na neblina.
É simplesmente um lindo dia na savana.
De repente
a morte repentina.
998
Allen Ginsberg
Um supermercado na Califórnia
Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no
supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que
caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisseia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no
supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que
caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisseia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
1 867
Affonso Romano de Sant'Anna
Coisas da Primavera
O que fazer contigo loira primavera
que me chegas entreabrindo o mel das coxas?
O equinócio de tuas ancas me ilumina
a corola de tua boca tem zumbidos
e a cabeleira luminosa aflora
enquanto tuas pupilas me devoram.
que me chegas entreabrindo o mel das coxas?
O equinócio de tuas ancas me ilumina
a corola de tua boca tem zumbidos
e a cabeleira luminosa aflora
enquanto tuas pupilas me devoram.
1 174
Allen Ginsberg
Kral Majales
E os Comunistas não têm nada a oferecer a não ser lentes e bochechas gordas e policiais mentirosos
e os Capitalistas proferem Napalm e dinheiro em valises verdes para a Nudez,
e os Comunistas criam indústria pesada mas o coração também é pesado
e os lindos engenheiros estão todos mortos, os técnicos secretos conspiram para seu próprio glamour
no Futuro, no Futuro, mas agora bebem vodka e lamentam as Forças de Segurança,
e os Capitalistas bebem gin e whisky em aeroplanos mas deixam milhões de morenos Indianos famintos
e enquanto as bundas de Comunistas e Capitalistas se embolam o homem Justo é preso ou roubado ou tem a sua cabeça cortada,
mas não como Kabir, e o pigarro do homem Justo sobre as nuvens na luz do sol é uma saudação à saúde do céu azul.
Pois eu fui preso três vezes em Praga, uma por cantar bêbado na rua Narodni,
uma chutado no passeio público da meia-noite por um tira bigodudo que gritava BOUZERANT,
uma por perder minha caderneta com opinões sobre sexo e sonhos políticos não usuais,
e eu fui expulso de Havana num aeroplano por detetives de uniforme verde,
e fui expulso de Praga num aeroplano por detetives de terno tcheco,
Jogadores de baralho saídos de Cézanne, os dois estranhos carneirinhos que entraram na sala de Josef K pela manhã
também entraram na minha, e comeram à minha mesa, e examinaram meus escritos,
e seguiram-me noite e dia da casa dos amantes aos cafés do Centrum –
E eu sou o Rei de Maio, que é o poder da juventude sexualizada,
e eu sou o Rei de Maio, que é indústria e eloqüência e ação em amour,
e eu sou o Rei de Maio, que é os longos cabelos de Adão e a Barba do meu próprio corpo
e eu sou o Rei de Maio, que é Kral Majales na língua da Tchecoslováquia,
e eu sou o Rei de Maio, que é a velha poesia Humana, e 100.000 pessoas procuram por meu nome,
e eu sou o Rei de Maio, e em alguns minutos aterrisarei no Aeroporto de Londres
e eu sou o Rei de Maio, naturalmente, pois sou de origem eslava e um Judeu Budista
que cultua o Sagrado Coração de Cristo o corpo azul de Krishna as costas retas de Ram
as guias de Xangô o nigeriano cantando Shiva Shiva de um jeito inventado por mim,
e o Rei de Maio é uma honraria médio-européia, minha no século XX apesar das naves espaciais e
da Máquina do Tempo, porque eu ouvi a voz de Blake numa visão,
e repito aquela voz. E eu sou o Rei de Maio que dorme com adolescentes sorridentes.
E eu sou o Rei de Maio, que tinha que ser expelido de meu Reino com Honra, como os velhos,
para mostrar a diferença entre o Reino de César e o Reino de Maio do Homem –
e eu sou o Rei de Maio porque eu coloquei o dedo na testa para saudar uma garota pesada e
luminosa que tremia as mãos ao dizer “um momento, Senhor Ginsberg”
antes um gordo garoto à paisana pisou entre nossos corpos –eu estava indo para a Inglaterra –
e eu sou o Rei de Maio, de volta para ver Bunhill Fields e caminhar em Hampstead Heath,
e eu sou o Rei de Maio, num aeroplano gigante que toca o céu de Albion tremendo de medo
enquanto o aeroplano urra para pousar no concreto cinza, balança e expele ar
e rola lentamente para uma parada sob as nuvens com parte do paraíso azul ainda visível.
E no entanto e eu sou o Rei de Maio, os Marxistas me bateram pela rua, me prenderam à noite
inteira na Delegacia de Polícia, seguiram-me pela primavera de Praga, me detiveram em
segredo e deportaram-me de nosso reino num aeroplano.
E por isso escrevi este poema num jato sentado no meio do Paraíso.
07 de Maio, 1965
e os Capitalistas proferem Napalm e dinheiro em valises verdes para a Nudez,
e os Comunistas criam indústria pesada mas o coração também é pesado
e os lindos engenheiros estão todos mortos, os técnicos secretos conspiram para seu próprio glamour
no Futuro, no Futuro, mas agora bebem vodka e lamentam as Forças de Segurança,
e os Capitalistas bebem gin e whisky em aeroplanos mas deixam milhões de morenos Indianos famintos
e enquanto as bundas de Comunistas e Capitalistas se embolam o homem Justo é preso ou roubado ou tem a sua cabeça cortada,
mas não como Kabir, e o pigarro do homem Justo sobre as nuvens na luz do sol é uma saudação à saúde do céu azul.
Pois eu fui preso três vezes em Praga, uma por cantar bêbado na rua Narodni,
uma chutado no passeio público da meia-noite por um tira bigodudo que gritava BOUZERANT,
uma por perder minha caderneta com opinões sobre sexo e sonhos políticos não usuais,
e eu fui expulso de Havana num aeroplano por detetives de uniforme verde,
e fui expulso de Praga num aeroplano por detetives de terno tcheco,
Jogadores de baralho saídos de Cézanne, os dois estranhos carneirinhos que entraram na sala de Josef K pela manhã
também entraram na minha, e comeram à minha mesa, e examinaram meus escritos,
e seguiram-me noite e dia da casa dos amantes aos cafés do Centrum –
E eu sou o Rei de Maio, que é o poder da juventude sexualizada,
e eu sou o Rei de Maio, que é indústria e eloqüência e ação em amour,
e eu sou o Rei de Maio, que é os longos cabelos de Adão e a Barba do meu próprio corpo
e eu sou o Rei de Maio, que é Kral Majales na língua da Tchecoslováquia,
e eu sou o Rei de Maio, que é a velha poesia Humana, e 100.000 pessoas procuram por meu nome,
e eu sou o Rei de Maio, e em alguns minutos aterrisarei no Aeroporto de Londres
e eu sou o Rei de Maio, naturalmente, pois sou de origem eslava e um Judeu Budista
que cultua o Sagrado Coração de Cristo o corpo azul de Krishna as costas retas de Ram
as guias de Xangô o nigeriano cantando Shiva Shiva de um jeito inventado por mim,
e o Rei de Maio é uma honraria médio-européia, minha no século XX apesar das naves espaciais e
da Máquina do Tempo, porque eu ouvi a voz de Blake numa visão,
e repito aquela voz. E eu sou o Rei de Maio que dorme com adolescentes sorridentes.
E eu sou o Rei de Maio, que tinha que ser expelido de meu Reino com Honra, como os velhos,
para mostrar a diferença entre o Reino de César e o Reino de Maio do Homem –
e eu sou o Rei de Maio porque eu coloquei o dedo na testa para saudar uma garota pesada e
luminosa que tremia as mãos ao dizer “um momento, Senhor Ginsberg”
antes um gordo garoto à paisana pisou entre nossos corpos –eu estava indo para a Inglaterra –
e eu sou o Rei de Maio, de volta para ver Bunhill Fields e caminhar em Hampstead Heath,
e eu sou o Rei de Maio, num aeroplano gigante que toca o céu de Albion tremendo de medo
enquanto o aeroplano urra para pousar no concreto cinza, balança e expele ar
e rola lentamente para uma parada sob as nuvens com parte do paraíso azul ainda visível.
E no entanto e eu sou o Rei de Maio, os Marxistas me bateram pela rua, me prenderam à noite
inteira na Delegacia de Polícia, seguiram-me pela primavera de Praga, me detiveram em
segredo e deportaram-me de nosso reino num aeroplano.
E por isso escrevi este poema num jato sentado no meio do Paraíso.
07 de Maio, 1965
750
Allen Ginsberg
Kral Majales
E os Comunistas não têm nada a oferecer a não ser lentes e bochechas gordas e policiais mentirosos
e os Capitalistas proferem Napalm e dinheiro em valises verdes para a Nudez,
e os Comunistas criam indústria pesada mas o coração também é pesado
e os lindos engenheiros estão todos mortos, os técnicos secretos conspiram para seu próprio glamour
no Futuro, no Futuro, mas agora bebem vodka e lamentam as Forças de Segurança,
e os Capitalistas bebem gin e whisky em aeroplanos mas deixam milhões de morenos Indianos famintos
e enquanto as bundas de Comunistas e Capitalistas se embolam o homem Justo é preso ou roubado ou tem a sua cabeça cortada,
mas não como Kabir, e o pigarro do homem Justo sobre as nuvens na luz do sol é uma saudação à saúde do céu azul.
Pois eu fui preso três vezes em Praga, uma por cantar bêbado na rua Narodni,
uma chutado no passeio público da meia-noite por um tira bigodudo que gritava BOUZERANT,
uma por perder minha caderneta com opinões sobre sexo e sonhos políticos não usuais,
e eu fui expulso de Havana num aeroplano por detetives de uniforme verde,
e fui expulso de Praga num aeroplano por detetives de terno tcheco,
Jogadores de baralho saídos de Cézanne, os dois estranhos carneirinhos que entraram na sala de Josef K pela manhã
também entraram na minha, e comeram à minha mesa, e examinaram meus escritos,
e seguiram-me noite e dia da casa dos amantes aos cafés do Centrum –
E eu sou o Rei de Maio, que é o poder da juventude sexualizada,
e eu sou o Rei de Maio, que é indústria e eloqüência e ação em amour,
e eu sou o Rei de Maio, que é os longos cabelos de Adão e a Barba do meu próprio corpo
e eu sou o Rei de Maio, que é Kral Majales na língua da Tchecoslováquia,
e eu sou o Rei de Maio, que é a velha poesia Humana, e 100.000 pessoas procuram por meu nome,
e eu sou o Rei de Maio, e em alguns minutos aterrisarei no Aeroporto de Londres
e eu sou o Rei de Maio, naturalmente, pois sou de origem eslava e um Judeu Budista
que cultua o Sagrado Coração de Cristo o corpo azul de Krishna as costas retas de Ram
as guias de Xangô o nigeriano cantando Shiva Shiva de um jeito inventado por mim,
e o Rei de Maio é uma honraria médio-européia, minha no século XX apesar das naves espaciais e
da Máquina do Tempo, porque eu ouvi a voz de Blake numa visão,
e repito aquela voz. E eu sou o Rei de Maio que dorme com adolescentes sorridentes.
E eu sou o Rei de Maio, que tinha que ser expelido de meu Reino com Honra, como os velhos,
para mostrar a diferença entre o Reino de César e o Reino de Maio do Homem –
e eu sou o Rei de Maio porque eu coloquei o dedo na testa para saudar uma garota pesada e
luminosa que tremia as mãos ao dizer “um momento, Senhor Ginsberg”
antes um gordo garoto à paisana pisou entre nossos corpos –eu estava indo para a Inglaterra –
e eu sou o Rei de Maio, de volta para ver Bunhill Fields e caminhar em Hampstead Heath,
e eu sou o Rei de Maio, num aeroplano gigante que toca o céu de Albion tremendo de medo
enquanto o aeroplano urra para pousar no concreto cinza, balança e expele ar
e rola lentamente para uma parada sob as nuvens com parte do paraíso azul ainda visível.
E no entanto e eu sou o Rei de Maio, os Marxistas me bateram pela rua, me prenderam à noite
inteira na Delegacia de Polícia, seguiram-me pela primavera de Praga, me detiveram em
segredo e deportaram-me de nosso reino num aeroplano.
E por isso escrevi este poema num jato sentado no meio do Paraíso.
07 de Maio, 1965
e os Capitalistas proferem Napalm e dinheiro em valises verdes para a Nudez,
e os Comunistas criam indústria pesada mas o coração também é pesado
e os lindos engenheiros estão todos mortos, os técnicos secretos conspiram para seu próprio glamour
no Futuro, no Futuro, mas agora bebem vodka e lamentam as Forças de Segurança,
e os Capitalistas bebem gin e whisky em aeroplanos mas deixam milhões de morenos Indianos famintos
e enquanto as bundas de Comunistas e Capitalistas se embolam o homem Justo é preso ou roubado ou tem a sua cabeça cortada,
mas não como Kabir, e o pigarro do homem Justo sobre as nuvens na luz do sol é uma saudação à saúde do céu azul.
Pois eu fui preso três vezes em Praga, uma por cantar bêbado na rua Narodni,
uma chutado no passeio público da meia-noite por um tira bigodudo que gritava BOUZERANT,
uma por perder minha caderneta com opinões sobre sexo e sonhos políticos não usuais,
e eu fui expulso de Havana num aeroplano por detetives de uniforme verde,
e fui expulso de Praga num aeroplano por detetives de terno tcheco,
Jogadores de baralho saídos de Cézanne, os dois estranhos carneirinhos que entraram na sala de Josef K pela manhã
também entraram na minha, e comeram à minha mesa, e examinaram meus escritos,
e seguiram-me noite e dia da casa dos amantes aos cafés do Centrum –
E eu sou o Rei de Maio, que é o poder da juventude sexualizada,
e eu sou o Rei de Maio, que é indústria e eloqüência e ação em amour,
e eu sou o Rei de Maio, que é os longos cabelos de Adão e a Barba do meu próprio corpo
e eu sou o Rei de Maio, que é Kral Majales na língua da Tchecoslováquia,
e eu sou o Rei de Maio, que é a velha poesia Humana, e 100.000 pessoas procuram por meu nome,
e eu sou o Rei de Maio, e em alguns minutos aterrisarei no Aeroporto de Londres
e eu sou o Rei de Maio, naturalmente, pois sou de origem eslava e um Judeu Budista
que cultua o Sagrado Coração de Cristo o corpo azul de Krishna as costas retas de Ram
as guias de Xangô o nigeriano cantando Shiva Shiva de um jeito inventado por mim,
e o Rei de Maio é uma honraria médio-européia, minha no século XX apesar das naves espaciais e
da Máquina do Tempo, porque eu ouvi a voz de Blake numa visão,
e repito aquela voz. E eu sou o Rei de Maio que dorme com adolescentes sorridentes.
E eu sou o Rei de Maio, que tinha que ser expelido de meu Reino com Honra, como os velhos,
para mostrar a diferença entre o Reino de César e o Reino de Maio do Homem –
e eu sou o Rei de Maio porque eu coloquei o dedo na testa para saudar uma garota pesada e
luminosa que tremia as mãos ao dizer “um momento, Senhor Ginsberg”
antes um gordo garoto à paisana pisou entre nossos corpos –eu estava indo para a Inglaterra –
e eu sou o Rei de Maio, de volta para ver Bunhill Fields e caminhar em Hampstead Heath,
e eu sou o Rei de Maio, num aeroplano gigante que toca o céu de Albion tremendo de medo
enquanto o aeroplano urra para pousar no concreto cinza, balança e expele ar
e rola lentamente para uma parada sob as nuvens com parte do paraíso azul ainda visível.
E no entanto e eu sou o Rei de Maio, os Marxistas me bateram pela rua, me prenderam à noite
inteira na Delegacia de Polícia, seguiram-me pela primavera de Praga, me detiveram em
segredo e deportaram-me de nosso reino num aeroplano.
E por isso escrevi este poema num jato sentado no meio do Paraíso.
07 de Maio, 1965
750
Affonso Romano de Sant'Anna
Mudam-Se Os Tempos
Estão, de novo, mudando o mundo
sem minha permissão
(embora a cumplicidade obrigatória).
Expulsam as raposas e castores de suas tocas
e trocam de endereço as oliveiras.
Há muito já obrigavam os pássaros a portar gravatas
e forçavam os peixes a nadar de costas.
Ontem de manhã arredondaram o último quadrado
e hoje à meia-noite
prometem aprisionar a fugitiva elipse.
sem minha permissão
(embora a cumplicidade obrigatória).
Expulsam as raposas e castores de suas tocas
e trocam de endereço as oliveiras.
Há muito já obrigavam os pássaros a portar gravatas
e forçavam os peixes a nadar de costas.
Ontem de manhã arredondaram o último quadrado
e hoje à meia-noite
prometem aprisionar a fugitiva elipse.
580
Allen Ginsberg
Para Lindsay
Vachel, as estrelas se apagaram
a escuridão caiu na estrada do Colorado
um automóvel arrasta-se lento na planície
pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
o inconsolável caixeiro viajante acende um cigarro
Há 27 anos em outra cidade
eu vejo sua sombra na parede
você de suspensórios sentado na cama
a mão de sombra encosta uma pistola na sua cabeça
seu vulto cai no assoalho
a escuridão caiu na estrada do Colorado
um automóvel arrasta-se lento na planície
pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
o inconsolável caixeiro viajante acende um cigarro
Há 27 anos em outra cidade
eu vejo sua sombra na parede
você de suspensórios sentado na cama
a mão de sombra encosta uma pistola na sua cabeça
seu vulto cai no assoalho
1 517
Allen Ginsberg
Para Lindsay
Vachel, as estrelas se apagaram
a escuridão caiu na estrada do Colorado
um automóvel arrasta-se lento na planície
pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
o inconsolável caixeiro viajante acende um cigarro
Há 27 anos em outra cidade
eu vejo sua sombra na parede
você de suspensórios sentado na cama
a mão de sombra encosta uma pistola na sua cabeça
seu vulto cai no assoalho
a escuridão caiu na estrada do Colorado
um automóvel arrasta-se lento na planície
pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
o inconsolável caixeiro viajante acende um cigarro
Há 27 anos em outra cidade
eu vejo sua sombra na parede
você de suspensórios sentado na cama
a mão de sombra encosta uma pistola na sua cabeça
seu vulto cai no assoalho
1 517
Affonso Romano de Sant'Anna
Novo Gênesis
No primeiro dia
o Demônio criou o universo e tudo o que nele há
e viu que era bom.
No segundo dia
criou a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça, a soberba, a ira
a que chamou de sete virtudes capitais
e viu que era bom.
No terceiro dia criou as guerras.
No quarto dia criou as epidemias.
No quinto dia criou a opressão.
No sexto dia criou a mentira
e no sétimo dia, quando ia descansar,
houve uma rebelião na hierarquia dos anjos
e um deles, de nome Deus,
quis reverter a ordem geral das coisas,
mas foi exilado
na pior parte do Inferno – os Céus.
Desde então
o Demônio e suas hostes continuam firmes
na condução dos negócios universais,
embora volta e meia um serafim, um querubim
e algum filho de Deus, desencadeiem protestos, milagres, revoluções
querendo impingir o Bem onde há o Mal.
Porém não têm tido muito êxito até agora,
exceto em alguns casos particulares
que não alteraram em nada a marcha geral da história.
o Demônio criou o universo e tudo o que nele há
e viu que era bom.
No segundo dia
criou a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça, a soberba, a ira
a que chamou de sete virtudes capitais
e viu que era bom.
No terceiro dia criou as guerras.
No quarto dia criou as epidemias.
No quinto dia criou a opressão.
No sexto dia criou a mentira
e no sétimo dia, quando ia descansar,
houve uma rebelião na hierarquia dos anjos
e um deles, de nome Deus,
quis reverter a ordem geral das coisas,
mas foi exilado
na pior parte do Inferno – os Céus.
Desde então
o Demônio e suas hostes continuam firmes
na condução dos negócios universais,
embora volta e meia um serafim, um querubim
e algum filho de Deus, desencadeiem protestos, milagres, revoluções
querendo impingir o Bem onde há o Mal.
Porém não têm tido muito êxito até agora,
exceto em alguns casos particulares
que não alteraram em nada a marcha geral da história.
1 078
Affonso Romano de Sant'Anna
Fim/Começo Dos Tempos
Porque o século ia acabar
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
1 080
Affonso Romano de Sant'Anna
Fim/Começo Dos Tempos
Porque o século ia acabar
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
1 080
Affonso Romano de Sant'Anna
Fim/Começo Dos Tempos
Porque o século ia acabar
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
1 080
Affonso Romano de Sant'Anna
Epifania Num Bar de Aix
Sempre pensei, seria assim a maturidade:
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
nenhum conflito insolúvel,
a natureza fluindo pelos poros e, na alma,
um filtro apaziguante.
De repente, olhando o passado, nada me abomina.
De repente, sempre me pareceu ter tudo o que não tive.
Se entrasse um coro de arcanjos cantando
pela porta barulhenta desse bar
nenhum espanto causariam, viriam
sobre mim naturalmente pousar.
Visto assim na multidão, não me destaco.
Mas neste bar pareço ter raízes de araucária
ou uma montanha radiante sob o gelo.
Se a mulher que eu amo entrasse neste instante
nada perturbaria, apenas tomaria, em mim, o seu lugar
e minha felicidade assim duplicaria.
Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
– Que posso querer mais?
1 096
Affonso Romano de Sant'Anna
Além do Entendimento
A essa altura
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.
O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
– estatelado –
mais pareço
um cata-vento.
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.
O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
– estatelado –
mais pareço
um cata-vento.
1 108
Affonso Romano de Sant'Anna
O Morto Cresce
O morto cresce estranhamente, logo que morre.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
1 408
Affonso Romano de Sant'Anna
O Morto Cresce
O morto cresce estranhamente, logo que morre.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
1 408
Affonso Romano de Sant'Anna
O Morto Cresce
O morto cresce estranhamente, logo que morre.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
A barba brota-lhe no rosto
e as unhas se alongam.
O morto cresce em nossa mente.
Súbito, recrudesce o afeto
ampliam-se as lembranças,
dilata-se a biografia
nas conversas e jornais.
O morto, antes de morrer completamente
instala-se no nosso espanto
iludindo a própria morte.
Depois, a urgência da vida
toma conta de nossos dias
e o morto se conforma
encolhe-se
e fica amortecido num canto da memória
até morrer de novo
dentro de nossa morte.
1 408