Poemas neste tema
Vida e Existência
José Saramago
Meias-Solas
Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
1 167
José Saramago
Meias-Solas
Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
1 167
José Saramago
Meias-Solas
Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
1 167
José Saramago
Quando Os Homens Morrerem
Sinal de Deus não foi, que Deus não há
(Ou se há, vive longe e nos engana),
Mas a gaivota que sobre mim voou,
E o grito que lançou,
Foi um sinal de vida não humana.
Recordação seria doutras eras
Em que homem não ainda,
Só promessa?
Ou presságio seria?
(Ou se há, vive longe e nos engana),
Mas a gaivota que sobre mim voou,
E o grito que lançou,
Foi um sinal de vida não humana.
Recordação seria doutras eras
Em que homem não ainda,
Só promessa?
Ou presságio seria?
1 070
José Saramago
Quando Os Homens Morrerem
Sinal de Deus não foi, que Deus não há
(Ou se há, vive longe e nos engana),
Mas a gaivota que sobre mim voou,
E o grito que lançou,
Foi um sinal de vida não humana.
Recordação seria doutras eras
Em que homem não ainda,
Só promessa?
Ou presságio seria?
(Ou se há, vive longe e nos engana),
Mas a gaivota que sobre mim voou,
E o grito que lançou,
Foi um sinal de vida não humana.
Recordação seria doutras eras
Em que homem não ainda,
Só promessa?
Ou presságio seria?
1 070
José Saramago
Corpo-Mundo
Que caminhos do teu corpo não conheço,
À sombra de que vales não dormi,
Que montanhas não escalei, que lonjuras
Não abarquei nos olhos dilatados,
Que torrentes não passei, que rios fundos
A nudez do meu corpo não transpôs,
Que praias perfumadas não pisei,
Que selvas e jardins, que descampados?
À sombra de que vales não dormi,
Que montanhas não escalei, que lonjuras
Não abarquei nos olhos dilatados,
Que torrentes não passei, que rios fundos
A nudez do meu corpo não transpôs,
Que praias perfumadas não pisei,
Que selvas e jardins, que descampados?
1 350
José Saramago
Se Não Tenho Outra Voz
Se não tenho outra voz que me desdobre
Em ecos doutros sons este silêncio,
É falar, ir falando, até que sobre
A palavra escondida do que penso.
É dizê-la, quebrado, entre desvios
De flecha que a si mesma se envenena,
Ou mar alto coalhado de navios
Onde o braço afogado nos acena.
É forçar para o fundo uma raiz
Quando a pedra cabal corta caminho
É lançar para cima quanto diz
Que mais árvore é o tronco mais sozinho.
Ela dirá, palavra descoberta,
Os ditos do costume de viver:
Esta hora que aperta e desaperta,
O não ver, o não ter, o quase ser.
Em ecos doutros sons este silêncio,
É falar, ir falando, até que sobre
A palavra escondida do que penso.
É dizê-la, quebrado, entre desvios
De flecha que a si mesma se envenena,
Ou mar alto coalhado de navios
Onde o braço afogado nos acena.
É forçar para o fundo uma raiz
Quando a pedra cabal corta caminho
É lançar para cima quanto diz
Que mais árvore é o tronco mais sozinho.
Ela dirá, palavra descoberta,
Os ditos do costume de viver:
Esta hora que aperta e desaperta,
O não ver, o não ter, o quase ser.
1 065
José Saramago
Exílio
Mais valera que fossem pedras secas,
Caminhos de nó cego e de moscardos,
Ou paisagens sulfúreas, onde os passos,
Como de sombra vaga, não soassem.
Mas o mato rescende, e sob o vento
As nuvens, como um corpo, vão roçando
Quatro montes irónicos que desenham,
Impossíveis, as formas doutro corpo.
Caminhos de nó cego e de moscardos,
Ou paisagens sulfúreas, onde os passos,
Como de sombra vaga, não soassem.
Mas o mato rescende, e sob o vento
As nuvens, como um corpo, vão roçando
Quatro montes irónicos que desenham,
Impossíveis, as formas doutro corpo.
1 306
José Saramago
Amanhecer
Navego no cristal da madrugada,
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
1 143
José Saramago
Baralho
Lanço na mesa as cartas de jogar:
Os amores de cartão e as espadas,
Os losangos vermelhos de ouro falso,
A trilobada folha que ameaça.
Caso e descaso as damas e os valetes.
Andam os reis pasmados nesta farsa.
E quando conto os pontos da derrota,
Sai-me de lá a rir, como perdido,
Na figura do bobo o meu retrato.
Os amores de cartão e as espadas,
Os losangos vermelhos de ouro falso,
A trilobada folha que ameaça.
Caso e descaso as damas e os valetes.
Andam os reis pasmados nesta farsa.
E quando conto os pontos da derrota,
Sai-me de lá a rir, como perdido,
Na figura do bobo o meu retrato.
1 182
José Saramago
Baralho
Lanço na mesa as cartas de jogar:
Os amores de cartão e as espadas,
Os losangos vermelhos de ouro falso,
A trilobada folha que ameaça.
Caso e descaso as damas e os valetes.
Andam os reis pasmados nesta farsa.
E quando conto os pontos da derrota,
Sai-me de lá a rir, como perdido,
Na figura do bobo o meu retrato.
Os amores de cartão e as espadas,
Os losangos vermelhos de ouro falso,
A trilobada folha que ameaça.
Caso e descaso as damas e os valetes.
Andam os reis pasmados nesta farsa.
E quando conto os pontos da derrota,
Sai-me de lá a rir, como perdido,
Na figura do bobo o meu retrato.
1 182
José Saramago
Analogia
Que é o mar? Lonjura desmedida
De largos movimentos e marés,
Como um corpo dormente que respira?
Ou isto que mais perto nos alcança,
Bater de azul na praia rebrilhante,
Onde a água se torna aérea espuma?
Amor será o abalo que percorre
No vermelho do sangue as veias tensas
E os nervos arrepia como um gume?
Ou antes esse gesto indefinível
Que o meu corpo transporta para o teu
Quando o tempo recolhe ao seu começo?
Como é o mar, amor é paz e guerra,
Acesa agitação, calma profunda,
Roçar leve de pele, unha que ferra.
De largos movimentos e marés,
Como um corpo dormente que respira?
Ou isto que mais perto nos alcança,
Bater de azul na praia rebrilhante,
Onde a água se torna aérea espuma?
Amor será o abalo que percorre
No vermelho do sangue as veias tensas
E os nervos arrepia como um gume?
Ou antes esse gesto indefinível
Que o meu corpo transporta para o teu
Quando o tempo recolhe ao seu começo?
Como é o mar, amor é paz e guerra,
Acesa agitação, calma profunda,
Roçar leve de pele, unha que ferra.
1 545
José Saramago
Praia
Circular, o poema te rodeia:
Em voltas apertadas vem cercando
O teu corpo deitado sobre a areia.
Como outra abelha em busca doutro mel,
Os aromas do jardim abandonando,
Vai rasando o poema a tua pele.
Em voltas apertadas vem cercando
O teu corpo deitado sobre a areia.
Como outra abelha em busca doutro mel,
Os aromas do jardim abandonando,
Vai rasando o poema a tua pele.
1 376
José Saramago
Arte de Amar
Metidos nesta pele que nos refuta,
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.
1 135
José Saramago
Arte de Amar
Metidos nesta pele que nos refuta,
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.
1 135
José Saramago
Aspa
Sobre o leito desmanchado te derrubo,
Onde atiças o desejo que acendi.
À glória do teu corpo, de mim, subo:
Não cantam anjos, mas do céu bem perto,
De um suor de agonia recoberto,
Tudo se cumpre na aspa que escolhi.
Onde atiças o desejo que acendi.
À glória do teu corpo, de mim, subo:
Não cantam anjos, mas do céu bem perto,
De um suor de agonia recoberto,
Tudo se cumpre na aspa que escolhi.
1 210
José Saramago
Num Repente, Não Ando
Num repente, não ando, e num repente
O gesto se estilhaça, como o vidro
Das vogais remoídas a pedradas.
Olhos vivos, na cauda do pavão,
De seca pontaria me enquadraram,
Cegos de trinta sóis em madrugadas.
Como, entre dentes, areia prisioneira
No só riscar do esmalte se defende,
Faço de versos gumes contra o nada.
E suspenso de mim, a voz suspensa,
Na cegueira dos sóis abro candeias
Que a minha mão transporta em alvorada.
O gesto se estilhaça, como o vidro
Das vogais remoídas a pedradas.
Olhos vivos, na cauda do pavão,
De seca pontaria me enquadraram,
Cegos de trinta sóis em madrugadas.
Como, entre dentes, areia prisioneira
No só riscar do esmalte se defende,
Faço de versos gumes contra o nada.
E suspenso de mim, a voz suspensa,
Na cegueira dos sóis abro candeias
Que a minha mão transporta em alvorada.
1 155
José Saramago
Poente
Que podes mais dizer-me que não saiba,
Veio do sol sangrada para a terra,
Manso esgarçar de névoa refrangida
Entre o azul do mar e o céu vermelho?
Já há tantos poentes na lembrança,
Tantos dedos de fogo sobre as águas,
Que todos se confundem quando, noite,
Posto o sol, se fecham os teus olhos.
Veio do sol sangrada para a terra,
Manso esgarçar de névoa refrangida
Entre o azul do mar e o céu vermelho?
Já há tantos poentes na lembrança,
Tantos dedos de fogo sobre as águas,
Que todos se confundem quando, noite,
Posto o sol, se fecham os teus olhos.
1 583
José Saramago
Poente
Que podes mais dizer-me que não saiba,
Veio do sol sangrada para a terra,
Manso esgarçar de névoa refrangida
Entre o azul do mar e o céu vermelho?
Já há tantos poentes na lembrança,
Tantos dedos de fogo sobre as águas,
Que todos se confundem quando, noite,
Posto o sol, se fecham os teus olhos.
Veio do sol sangrada para a terra,
Manso esgarçar de névoa refrangida
Entre o azul do mar e o céu vermelho?
Já há tantos poentes na lembrança,
Tantos dedos de fogo sobre as águas,
Que todos se confundem quando, noite,
Posto o sol, se fecham os teus olhos.
1 583
José Saramago
Pois o Tempo Não Pára
Pois o tempo não pára, nem importa
Que vividos os dias aproximem
O copo de água amarga colocado
Onde a sede da vida se exaspera.
Não contemos os dias que passaram:
Hoje foi que nascemos. Só agora
A vida começou, e, longe ainda,
Pode a morte cansar à nossa espera.
Que vividos os dias aproximem
O copo de água amarga colocado
Onde a sede da vida se exaspera.
Não contemos os dias que passaram:
Hoje foi que nascemos. Só agora
A vida começou, e, longe ainda,
Pode a morte cansar à nossa espera.
1 580
José Saramago
Pois o Tempo Não Pára
Pois o tempo não pára, nem importa
Que vividos os dias aproximem
O copo de água amarga colocado
Onde a sede da vida se exaspera.
Não contemos os dias que passaram:
Hoje foi que nascemos. Só agora
A vida começou, e, longe ainda,
Pode a morte cansar à nossa espera.
Que vividos os dias aproximem
O copo de água amarga colocado
Onde a sede da vida se exaspera.
Não contemos os dias que passaram:
Hoje foi que nascemos. Só agora
A vida começou, e, longe ainda,
Pode a morte cansar à nossa espera.
1 580
José Saramago
Pois o Tempo Não Pára
Pois o tempo não pára, nem importa
Que vividos os dias aproximem
O copo de água amarga colocado
Onde a sede da vida se exaspera.
Não contemos os dias que passaram:
Hoje foi que nascemos. Só agora
A vida começou, e, longe ainda,
Pode a morte cansar à nossa espera.
Que vividos os dias aproximem
O copo de água amarga colocado
Onde a sede da vida se exaspera.
Não contemos os dias que passaram:
Hoje foi que nascemos. Só agora
A vida começou, e, longe ainda,
Pode a morte cansar à nossa espera.
1 580
José Saramago
Arte Poética
Vem de quê o poema? De quanto serve
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
1 443
José Saramago
Balança
Com pesos duvidosos me sujeito
À balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
Se julgar, assistir, ou ser julgado.
Ponho no prato raso quanto sou,
Matérias, outras não, que me fizeram,
O sonho fugidiço, o desespero
De prender violento ou descuidar
A sombra que me vai medindo os dias;
Ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
Traições naturais e relutâncias,
Ponho o que há de amor, a sua urgência,
O gosto de passar entre as estrelas,
A certeza de ser que só teria
Se viesses pesar-me, poesia.
À balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
Se julgar, assistir, ou ser julgado.
Ponho no prato raso quanto sou,
Matérias, outras não, que me fizeram,
O sonho fugidiço, o desespero
De prender violento ou descuidar
A sombra que me vai medindo os dias;
Ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
Traições naturais e relutâncias,
Ponho o que há de amor, a sua urgência,
O gosto de passar entre as estrelas,
A certeza de ser que só teria
Se viesses pesar-me, poesia.
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