Poemas neste tema
Vida e Existência
José Saramago
Nesta Esquina do Tempo
Nesta esquina do tempo é que te encontro,
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.
Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do teu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito
Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando,
Sobre as águas, as margens e os lírios
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.
Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do teu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito
Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando,
Sobre as águas, as margens e os lírios
1 734
José Saramago
15
Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as coisas
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
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José Saramago
15
Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as coisas
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
941
José Saramago
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Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as coisas
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo
Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela
Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável
Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro
Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível
Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado
E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes
Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas
E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma
Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra
E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar
O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos
Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes
Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
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José Saramago
8
Está determinado que hoje se travará uma grande batalha e não obstante o número de mortos previsto assim se fará
Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento
Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham
Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos
Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres
Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra
Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega
Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores
Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas
Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo
Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se
Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar
Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas
Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados
Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular
E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento
Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham
Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos
Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres
Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra
Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega
Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores
Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas
Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo
Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se
Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar
Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas
Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados
Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular
E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
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José Saramago
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Está determinado que hoje se travará uma grande batalha e não obstante o número de mortos previsto assim se fará
Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento
Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham
Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos
Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres
Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra
Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega
Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores
Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas
Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo
Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se
Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar
Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas
Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados
Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular
E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento
Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham
Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos
Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres
Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra
Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega
Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores
Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas
Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo
Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se
Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar
Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas
Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados
Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular
E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
994
José Saramago
Compensação
Caminho de palavras vou abrindo,
Ao coração das coisas apontado.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Puder ainda, com os ecos deste canto,
Já do coração das coisas afastado,
Mover um coração, se valho tanto.
Ao coração das coisas apontado.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Puder ainda, com os ecos deste canto,
Já do coração das coisas afastado,
Mover um coração, se valho tanto.
1 138
José Saramago
Labirinto
Em mim te perco, aparição nocturna,
Neste bosque de enganos, nesta ausência,
Na cinza nevoenta da distância,
No longo corredor de portas falsas.
De tudo se faz nada, e esse nada
De um corpo vivo logo se povoa,
Como as ilhas do sonho que flutuam,
Brumosas, na memória regressada.
Em mim te perco, digo, quando a noite
Vem sobre a boca colocar o selo
Do enigma que, dito, ressuscita
E se envolve nos fumos do segredo.
Nas voltas e revoltas que me ensombram,
No cego tactear de olhos abertos,
Qual é do labirinto a porta máxima,
Onde a réstia de sol, os passos certos?
Em mim te perco, insisto, em mim te fujo,
Em mim cristais se fundem, se estilhaçam,
Mas quando o corpo quebra de cansado
Em ti me venço e salvo, me encontro em ti.
Neste bosque de enganos, nesta ausência,
Na cinza nevoenta da distância,
No longo corredor de portas falsas.
De tudo se faz nada, e esse nada
De um corpo vivo logo se povoa,
Como as ilhas do sonho que flutuam,
Brumosas, na memória regressada.
Em mim te perco, digo, quando a noite
Vem sobre a boca colocar o selo
Do enigma que, dito, ressuscita
E se envolve nos fumos do segredo.
Nas voltas e revoltas que me ensombram,
No cego tactear de olhos abertos,
Qual é do labirinto a porta máxima,
Onde a réstia de sol, os passos certos?
Em mim te perco, insisto, em mim te fujo,
Em mim cristais se fundem, se estilhaçam,
Mas quando o corpo quebra de cansado
Em ti me venço e salvo, me encontro em ti.
2 261
José Saramago
Virgindade
Não essa que o pudor um dia larga,
Não essa que foi miragem e é negaça.
A porta derradeira é a que importa:
Caçador que porfia, mata caça.
Não essa que foi miragem e é negaça.
A porta derradeira é a que importa:
Caçador que porfia, mata caça.
1 229
José Saramago
Nesta Secreta Guerra
Nesta secreta guerra em que persisto,
Tudo está certo, não desejo paz.
E se nem sempre fujo ao velho jeito
(Herdado doutra era)
De bater com os punhos no meu peito,
Não é por gosto de gritar desgraça,
Mas porque a vida passa,
E mesmo quando aceito,
O coração à espera desespera.
Tudo está certo, não desejo paz.
E se nem sempre fujo ao velho jeito
(Herdado doutra era)
De bater com os punhos no meu peito,
Não é por gosto de gritar desgraça,
Mas porque a vida passa,
E mesmo quando aceito,
O coração à espera desespera.
1 038
José Saramago
Nesta Secreta Guerra
Nesta secreta guerra em que persisto,
Tudo está certo, não desejo paz.
E se nem sempre fujo ao velho jeito
(Herdado doutra era)
De bater com os punhos no meu peito,
Não é por gosto de gritar desgraça,
Mas porque a vida passa,
E mesmo quando aceito,
O coração à espera desespera.
Tudo está certo, não desejo paz.
E se nem sempre fujo ao velho jeito
(Herdado doutra era)
De bater com os punhos no meu peito,
Não é por gosto de gritar desgraça,
Mas porque a vida passa,
E mesmo quando aceito,
O coração à espera desespera.
1 038
José Saramago
Espaço Curvo E Finito
Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
1 400
José Saramago
Espaço Curvo E Finito
Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
1 400
José Saramago
Sala de Baile
Cubo de luz vermelha onde se agitam,
O corpo não, o vulto recortado,
A cadência tenaz que rasa e foge
A imprecisa linha dos instintos.
Um pouco mais de som ou de alegria,
A ameaça da morte ou da esperança
Como vento salgado em ferida exposta:
Seria o vulto corpo, o corpo dança.
O corpo não, o vulto recortado,
A cadência tenaz que rasa e foge
A imprecisa linha dos instintos.
Um pouco mais de som ou de alegria,
A ameaça da morte ou da esperança
Como vento salgado em ferida exposta:
Seria o vulto corpo, o corpo dança.
1 093
José Saramago
Nave
Do granito do chão rompem colunas,
Harpa de pedra rude e natural
Entre a laje e o tecto retesada,
São os dorsos curvados como dunas,
Sob o vento calado e musical
Que varre a nave toda para o nada.
Harpa de pedra rude e natural
Entre a laje e o tecto retesada,
São os dorsos curvados como dunas,
Sob o vento calado e musical
Que varre a nave toda para o nada.
1 122
José Saramago
Hibernação
No regaço do tempo me conchego:
Passam e passam os dias em modorra
E bolor, que os gestos entorpece.
Não há nesta dormência outro sossego
Que estar ciente o corpo da desforra,
Se a hora prometida lhe amanhece.
Passam e passam os dias em modorra
E bolor, que os gestos entorpece.
Não há nesta dormência outro sossego
Que estar ciente o corpo da desforra,
Se a hora prometida lhe amanhece.
1 137
José Saramago
Um Zumbido, Apenas
Cai a mosca na teia. As finas patas
Da aranha recolhida se distendem,
E nos palpos gulosos, entre os fios,
O zumbido enrouquece, e pára, cerce.
O que viveu, morreu. Abandonado
Ao balouço do vento, o corpo seco
Bate a conta do tempo que me rola
Num casulo de estrelas sufocado.
Da aranha recolhida se distendem,
E nos palpos gulosos, entre os fios,
O zumbido enrouquece, e pára, cerce.
O que viveu, morreu. Abandonado
Ao balouço do vento, o corpo seco
Bate a conta do tempo que me rola
Num casulo de estrelas sufocado.
1 168
José Saramago
Meias-Solas
Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
1 178
José Saramago
Meias-Solas
Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
1 178
José Saramago
Meias-Solas
Bem sei que as meias-solas que deitei
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
Nas botas aprazadas não resistem
À calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
Mas quieto quem pode, mesmo vendo
Que é desta caminhada que me morro.
1 178
José Saramago
A Um Cristo Velho
Se podes quanto dizem, Cristo velho,
De caruncho mordido, desprezado,
Coberto de poeira que envenena
A negrura da chaga do teu lado,
Se podes quanto dizem, quem te crê
Ou te traz nessa crença maltratado,
Podes fazer agora o que não ousam
Os que fingem de amor e de sagrado:
Vem a ser esta missa doutra lei,
A comunhão de Cristo e do pecado,
Eis a fé do poeta que te encontra
No teu pasmo de deus desafiado.
De caruncho mordido, desprezado,
Coberto de poeira que envenena
A negrura da chaga do teu lado,
Se podes quanto dizem, quem te crê
Ou te traz nessa crença maltratado,
Podes fazer agora o que não ousam
Os que fingem de amor e de sagrado:
Vem a ser esta missa doutra lei,
A comunhão de Cristo e do pecado,
Eis a fé do poeta que te encontra
No teu pasmo de deus desafiado.
1 049
José Saramago
Premonição
Morto, absorto e lasso no regaço,
Um rastro de sombra de mastro
Ou gume de quilha que tomba traverso
Da ilha: reverso do lume, da tersa
Coluna rompente do ventre, laguna
Salobra que sobra do mar, ou cobra
Cortada segundo o buraco, ou boca de saco
Ao fundo juntada. Ou letra riscada.
Absorto e lasso e morto no regaço,
Ponho a sombra do mastro ou o seu rastro
Ao comprido do corpo e do cansaço.
Um rastro de sombra de mastro
Ou gume de quilha que tomba traverso
Da ilha: reverso do lume, da tersa
Coluna rompente do ventre, laguna
Salobra que sobra do mar, ou cobra
Cortada segundo o buraco, ou boca de saco
Ao fundo juntada. Ou letra riscada.
Absorto e lasso e morto no regaço,
Ponho a sombra do mastro ou o seu rastro
Ao comprido do corpo e do cansaço.
1 249
José Saramago
Premonição
Morto, absorto e lasso no regaço,
Um rastro de sombra de mastro
Ou gume de quilha que tomba traverso
Da ilha: reverso do lume, da tersa
Coluna rompente do ventre, laguna
Salobra que sobra do mar, ou cobra
Cortada segundo o buraco, ou boca de saco
Ao fundo juntada. Ou letra riscada.
Absorto e lasso e morto no regaço,
Ponho a sombra do mastro ou o seu rastro
Ao comprido do corpo e do cansaço.
Um rastro de sombra de mastro
Ou gume de quilha que tomba traverso
Da ilha: reverso do lume, da tersa
Coluna rompente do ventre, laguna
Salobra que sobra do mar, ou cobra
Cortada segundo o buraco, ou boca de saco
Ao fundo juntada. Ou letra riscada.
Absorto e lasso e morto no regaço,
Ponho a sombra do mastro ou o seu rastro
Ao comprido do corpo e do cansaço.
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José Saramago
Retrato do Poeta Quando Jovem
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Onde brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Onde brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
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