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Poemas neste tema

Vida e Existência

Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Romanza

Branca mulher de olhos claros
De olhar branco e luminoso
Que tinhas luz nas pupilas
E luz nos cabelos louros
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?

Andavas sempre sozinha
Sem cão, sem homem, sem Deus
Eu te seguia sozinho
Sem cão, sem mulher, sem Deus
Eras a imagem de um sonho
A imagem de um sonho eu era
Ambos levando a tristeza
Dos que andam em busca do sonho.

Ias sempre, sempre andando
E eu ia sempre seguindo
Pisando na tua sombra
Vendo-a às vezes se afastar
Nem sabias quem eu era
Não te assustavam meus passos
Tu sempre andando na frente
Eu sempre atrás caminhando.

Toda a noite em minha casa
Passavas na caminhada
Eu te esperava e seguia

Na proteção do meu passo
E após o curto caminho
Da praia de ponta a ponta
Entravas na tua casa
E eu ia, na caminhada.

Eu te amei, mulher serena
Amei teu vulto distante
Amei teu passo elegante
E a tua beleza clara
Na noite que sempre vinha
Mas sempre custava tanto
Eu via a hora suprema
Das horas da minha vida.

Eu te seguia e sonhava
Sonhava que te seguia
Esperava ansioso o instante
De defender-te de alguém
E então meu passo mais forte
Dizia: quero falar-te
E o teu, mais brando, dizia:
Se queres destruir... vem.

Eu ficava. E te seguia
Pelo deserto da praia
Até avistar a casa
Pequena e branca da esquina.
Entravas. Por um momento
Esperavas que eu passasse
Para o olhar de boa-noite
E o olhar de até-amanhã.

Quase um ano o nosso idílio.
Uma noite... não passaste.
Esperei-te ansioso, inquieto

Mas não vieste. Por quê?
Foste embora? Procuraste
O amor de algum outro passo
Que em vez de seguir-te sempre
Andasse sempre ao teu lado?

Eu ando agora sozinho
Na praia longa e deserta
Eu ando agora sozinho
Por que fugiste? Por quê?
Ao meu passo solitário
Triste e incerto como nunca
Só responde a voz das ondas
Que se esfacelam na areia.

Branca mulher de olhos claros
Minha alma ainda te deseja
Traze ao meu passo cansado
A alegria do teu passo
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?

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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Sursum

Eu avanço no espaço as mãos crispadas, essas mãos juntas — lembras-te?
— que o destino das coisas separou
E sinto vir se desenrolando no ar o grande manto luminoso onde os anjos
entoam madrugadas...
A névoa é como o incenso que desce e se desmancha em brancas visões que
vão subindo...
— Vão subindo as colunas do céu... (cisnes em multidão!) como os olhares
serenos estão longe!...
Oh, vitrais iluminados que vindes crescendo nas brumas da aurora, o sangue
escorre do coração dos vossos santos
Oh, Mãe das Sete Espadas... Os anjos passeiam com pés de lã sobre as
teclas dos velhos harmônios...
Oh, extensão escura de fiéis! Cabeças que vos curvais ao peso tão leve da
gaze eucarística
Ouvis? Há sobre nós um brando tatalar de asas enormes
O sopro de uma presença invade a grande floresta de mármore em ascensão.
Sentis? Há um olhar de luz passando em meus cabelos, agnus dei...
Oh, repousar a face, dormir a carne misteriosa dentro do perfume do
incenso em ondas!
No branco lajedo os passos caminham, os anjos farfalham as vestes de seda
Homens, derramai-vos como a semente pelo chão! O triste é o que não pode
ter amor...
Do órgão como uma colmeia os sons são abelhas eternas fugindo,
zumbindo, parando no ar
Homens, crescei da terra como as sementes e cantai velhas canções
lembradas...
Vejo chegar a procissão de arcanjos — seus olhos fixam a cruz da
consagração que se iluminou no espaço
Cantam seus olhos azuis, tantum ergo! — de suas cabeleiras louras brota o
incêndio impalpável da destinação

Queimam... alongam em êxtase os corpos de cera, e crepitando serenamente
a cabeça em chamas
V oam — sobre o mistério voam os círios alados cruzando o ar um frêmito
de fogo!...
Oh, foi outrora, quando nascia o sol — Tudo volta, eu dizia — e olhava o
[céu onde eu não via Deus suspenso sobre o caos como o impossível
equilíbrio
Balançando o imenso turíbulo do tempo sobre a inexistência da humana
serenidade.
1 122
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Sursum

Eu avanço no espaço as mãos crispadas, essas mãos juntas — lembras-te?
— que o destino das coisas separou
E sinto vir se desenrolando no ar o grande manto luminoso onde os anjos
entoam madrugadas...
A névoa é como o incenso que desce e se desmancha em brancas visões que
vão subindo...
— Vão subindo as colunas do céu... (cisnes em multidão!) como os olhares
serenos estão longe!...
Oh, vitrais iluminados que vindes crescendo nas brumas da aurora, o sangue
escorre do coração dos vossos santos
Oh, Mãe das Sete Espadas... Os anjos passeiam com pés de lã sobre as
teclas dos velhos harmônios...
Oh, extensão escura de fiéis! Cabeças que vos curvais ao peso tão leve da
gaze eucarística
Ouvis? Há sobre nós um brando tatalar de asas enormes
O sopro de uma presença invade a grande floresta de mármore em ascensão.
Sentis? Há um olhar de luz passando em meus cabelos, agnus dei...
Oh, repousar a face, dormir a carne misteriosa dentro do perfume do
incenso em ondas!
No branco lajedo os passos caminham, os anjos farfalham as vestes de seda
Homens, derramai-vos como a semente pelo chão! O triste é o que não pode
ter amor...
Do órgão como uma colmeia os sons são abelhas eternas fugindo,
zumbindo, parando no ar
Homens, crescei da terra como as sementes e cantai velhas canções
lembradas...
Vejo chegar a procissão de arcanjos — seus olhos fixam a cruz da
consagração que se iluminou no espaço
Cantam seus olhos azuis, tantum ergo! — de suas cabeleiras louras brota o
incêndio impalpável da destinação

Queimam... alongam em êxtase os corpos de cera, e crepitando serenamente
a cabeça em chamas
V oam — sobre o mistério voam os círios alados cruzando o ar um frêmito
de fogo!...
Oh, foi outrora, quando nascia o sol — Tudo volta, eu dizia — e olhava o
[céu onde eu não via Deus suspenso sobre o caos como o impossível
equilíbrio
Balançando o imenso turíbulo do tempo sobre a inexistência da humana
serenidade.
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Vale do Paraíso

Quando vier de novo o céu de maio largando estrelas
Eu irei, lá onde os pinheiros recendem nas manhãs úmidas
Lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas
Será como sempre, na estrada vermelha a grande pedra recolherá sol
E os pequenos insetos irão e virão, e longe um cão ladrará
E nos tufos dos arbustos haverá enredados de orvalho nas teias de aranha.
As montanhas, vejo-as iluminadas, ardendo no grande sol amarelo
As vertentes algodoadas de neblina, lembro-as suspendendo árvores nas
nuvens
As matas, sinto-as ainda vibrando na comunhão das sensações
Como uma epiderme verde, porejada.
Na eminência a casa estará rindo no lampejar dos vidros das suas mil
janelas
A sineta tocará matinas e a presença de Deus não permitirá a Ave-Maria
Apenas a poesia estará nas ramadas que entram pela porta
E a água estará fria e todos correrão pela grama
E o pão estará fresco e os olhos estarão satisfeitos.
Eu irei, será como sempre, nunca o silêncio sem remédio das insônias
O vento cantará nas frinchas e os grilos trilarão folhas secas
E haverá coaxos distantes a cada instante
Depois as grandes chuvas encharcando o barro e esmagando a erva
E batendo nas latas vagas monotonias de cidade.

Eu me recolherei um minuto e escreverei: — “Onde estará a volúpia?...”
E as borboletas se fecundando não me responderão.

Será como sempre, será a altura, será a proximidade da suprema
inexistência
Lá onde à noite o frio imobiliza a luz cadente das estrelas
Lá onde eu irei.
1 184
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Vale do Paraíso

Quando vier de novo o céu de maio largando estrelas
Eu irei, lá onde os pinheiros recendem nas manhãs úmidas
Lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas
Será como sempre, na estrada vermelha a grande pedra recolherá sol
E os pequenos insetos irão e virão, e longe um cão ladrará
E nos tufos dos arbustos haverá enredados de orvalho nas teias de aranha.
As montanhas, vejo-as iluminadas, ardendo no grande sol amarelo
As vertentes algodoadas de neblina, lembro-as suspendendo árvores nas
nuvens
As matas, sinto-as ainda vibrando na comunhão das sensações
Como uma epiderme verde, porejada.
Na eminência a casa estará rindo no lampejar dos vidros das suas mil
janelas
A sineta tocará matinas e a presença de Deus não permitirá a Ave-Maria
Apenas a poesia estará nas ramadas que entram pela porta
E a água estará fria e todos correrão pela grama
E o pão estará fresco e os olhos estarão satisfeitos.
Eu irei, será como sempre, nunca o silêncio sem remédio das insônias
O vento cantará nas frinchas e os grilos trilarão folhas secas
E haverá coaxos distantes a cada instante
Depois as grandes chuvas encharcando o barro e esmagando a erva
E batendo nas latas vagas monotonias de cidade.

Eu me recolherei um minuto e escreverei: — “Onde estará a volúpia?...”
E as borboletas se fecundando não me responderão.

Será como sempre, será a altura, será a proximidade da suprema
inexistência
Lá onde à noite o frio imobiliza a luz cadente das estrelas
Lá onde eu irei.
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Vale do Paraíso

Quando vier de novo o céu de maio largando estrelas
Eu irei, lá onde os pinheiros recendem nas manhãs úmidas
Lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas
Será como sempre, na estrada vermelha a grande pedra recolherá sol
E os pequenos insetos irão e virão, e longe um cão ladrará
E nos tufos dos arbustos haverá enredados de orvalho nas teias de aranha.
As montanhas, vejo-as iluminadas, ardendo no grande sol amarelo
As vertentes algodoadas de neblina, lembro-as suspendendo árvores nas
nuvens
As matas, sinto-as ainda vibrando na comunhão das sensações
Como uma epiderme verde, porejada.
Na eminência a casa estará rindo no lampejar dos vidros das suas mil
janelas
A sineta tocará matinas e a presença de Deus não permitirá a Ave-Maria
Apenas a poesia estará nas ramadas que entram pela porta
E a água estará fria e todos correrão pela grama
E o pão estará fresco e os olhos estarão satisfeitos.
Eu irei, será como sempre, nunca o silêncio sem remédio das insônias
O vento cantará nas frinchas e os grilos trilarão folhas secas
E haverá coaxos distantes a cada instante
Depois as grandes chuvas encharcando o barro e esmagando a erva
E batendo nas latas vagas monotonias de cidade.

Eu me recolherei um minuto e escreverei: — “Onde estará a volúpia?...”
E as borboletas se fecundando não me responderão.

Será como sempre, será a altura, será a proximidade da suprema
inexistência
Lá onde à noite o frio imobiliza a luz cadente das estrelas
Lá onde eu irei.
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Bom Ladrão

São horas, inclina o teu doloroso rosto sobre a visão da velha paisagem
quieta
Passeia o teu mais fundo olhar sobre os brancos horizontes onde há imagens
perdidas
Afaga num derradeiro gesto os cabelos de tuas irmãs chorando
Beija uma vez mais a fronte materna.
São horas! Grava na última lágrima toda a desolação vivida
Liberta das cavas escuras, ó grande bandido, a tua alma, trágica esposa
E vai — é longe, é muito longe! — talvez toda uma vida, talvez nunca...
Foi outrora... Dizem que primeiro ele andou de mão em mão e muito
poucos o quiseram
E que por ele foi transformada a face da vida e que de medo o enterraram
E que desde então ninguém se atreve a penetrar a terra bendita.
É a suprema aventura — vai! ele está lá... — é tão maior que Monte-Cristo!
Está lá voltado paradamente para as estrelas claras
Aberto para a pouca fé dos teus olhos
Palpável para a insaciedade dos teus dedos.
Está lá, o grande tesouro, num campo silencioso como os teus passos
Sob uma laje bruta como a tua inteligência
Numa cova negra como o teu destino humano.
No entanto ele é luz e beleza e glória
E se tu o tocares, a manhã se fará em todos os abismos
Rompe a terra com as mesmas mãos com que rompeste a carne
Penetra a profundidade da morte, ó tu que jogas a cada instante com a tua
vida
E se ainda assim te cegar a dúvida, toca-o, mergulha nele o rosto sangrento
Porque ele é teu nesse momento, tu poderás levá-lo para sempre
Poderás viver dele e só dele porque tu és dele na eternidade.
Porém será muito ouro para as tuas arcas...
Será, deixa que eu te diga, muito ouro para as tuas arcas...

Olha! a teus pés Jerusalém se estende e dorme o sono dos pecadores
Além as terras se misturam como lésbicas esquecidas
Mais longe ainda, no teu país, as tuas desoladas te pranteiam
V olta. Traze o bastante para a consolação dos teus aflitos
Tua alegria será maior porque há ulcerados nos caminhos
Há mulheres perdidas chorando nas portas
Há judeus a espoliar pelas tavernas
V olta... Há tanto ouro no campo-santo
Que tua avareza seria vã para contê-lo
V olta... Ensina à humanidade a roubar o arrependimento
Porque todo o arrependimento será pouco para a culpa de ter roubado...

Porém tu serás o bom ladrão, tu estarás nas chagas do peito...
1 142
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Bom Ladrão

São horas, inclina o teu doloroso rosto sobre a visão da velha paisagem
quieta
Passeia o teu mais fundo olhar sobre os brancos horizontes onde há imagens
perdidas
Afaga num derradeiro gesto os cabelos de tuas irmãs chorando
Beija uma vez mais a fronte materna.
São horas! Grava na última lágrima toda a desolação vivida
Liberta das cavas escuras, ó grande bandido, a tua alma, trágica esposa
E vai — é longe, é muito longe! — talvez toda uma vida, talvez nunca...
Foi outrora... Dizem que primeiro ele andou de mão em mão e muito
poucos o quiseram
E que por ele foi transformada a face da vida e que de medo o enterraram
E que desde então ninguém se atreve a penetrar a terra bendita.
É a suprema aventura — vai! ele está lá... — é tão maior que Monte-Cristo!
Está lá voltado paradamente para as estrelas claras
Aberto para a pouca fé dos teus olhos
Palpável para a insaciedade dos teus dedos.
Está lá, o grande tesouro, num campo silencioso como os teus passos
Sob uma laje bruta como a tua inteligência
Numa cova negra como o teu destino humano.
No entanto ele é luz e beleza e glória
E se tu o tocares, a manhã se fará em todos os abismos
Rompe a terra com as mesmas mãos com que rompeste a carne
Penetra a profundidade da morte, ó tu que jogas a cada instante com a tua
vida
E se ainda assim te cegar a dúvida, toca-o, mergulha nele o rosto sangrento
Porque ele é teu nesse momento, tu poderás levá-lo para sempre
Poderás viver dele e só dele porque tu és dele na eternidade.
Porém será muito ouro para as tuas arcas...
Será, deixa que eu te diga, muito ouro para as tuas arcas...

Olha! a teus pés Jerusalém se estende e dorme o sono dos pecadores
Além as terras se misturam como lésbicas esquecidas
Mais longe ainda, no teu país, as tuas desoladas te pranteiam
V olta. Traze o bastante para a consolação dos teus aflitos
Tua alegria será maior porque há ulcerados nos caminhos
Há mulheres perdidas chorando nas portas
Há judeus a espoliar pelas tavernas
V olta... Há tanto ouro no campo-santo
Que tua avareza seria vã para contê-lo
V olta... Ensina à humanidade a roubar o arrependimento
Porque todo o arrependimento será pouco para a culpa de ter roubado...

Porém tu serás o bom ladrão, tu estarás nas chagas do peito...
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