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Poemas neste tema

Vida e Existência

Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Impossível Partida

Como poder-te penetrar, ó noite erma, se os meus olhos cegaram nas luzes
da cidade
E se o sangue que corre no meu corpo ficou branco ao contato da carne
indesejada?...
Como poder viver misteriosamente os teus recônditos sentidos
Se os meus sentidos foram murchando como vão murchando as rosas
colhidas
E se a minha inquietação iria temer a tua eloquência silenciosa?...
Eu sonhei!... Sonhei cidades desaparecidas nos desertos pálidos
Sonhei civilizações mortas na contemplação imutável
Os rios mortos... as sombras mortas... as vozes mortas...
...o homem parado, envolto em branco sobre a areia branca e a quietude na
face...
Como poder rasgar, noite, o véu constelado do teu mistério
Se a minha tez é branca e se no meu coração não mais existem os nervos
calmos
Que sustentavam os braços dos Incas horas inteiras no êxtase da tua
visão?...
Eu sonhei!... Sonhei mundos passando como pássaros
Luzes voando ao vento como folhas
Nuvens como vagas afogando luas adolescentes...
Sons... o último suspiro dos condenados vagando em busca de vida...
O frêmito lúgubre dos corpos penados girando no espaço...
Imagens... a cor verde dos perfumes se desmanchando na essência das
coisas...
As virgens das auroras dançando suspensas nas gazes da bruma
Soprando de manso na boca vermelha dos astros...

Como poder abrir no teu seio, ó noite erma, o pórtico sagrado do Grande Templo

Se eu estou preso ao passado como a criança ao colo materno
E se é preciso adormecer na lembrança boa antes que as mãos
desconhecidas me arrebatem?...
1 204
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Impossível Partida

Como poder-te penetrar, ó noite erma, se os meus olhos cegaram nas luzes
da cidade
E se o sangue que corre no meu corpo ficou branco ao contato da carne
indesejada?...
Como poder viver misteriosamente os teus recônditos sentidos
Se os meus sentidos foram murchando como vão murchando as rosas
colhidas
E se a minha inquietação iria temer a tua eloquência silenciosa?...
Eu sonhei!... Sonhei cidades desaparecidas nos desertos pálidos
Sonhei civilizações mortas na contemplação imutável
Os rios mortos... as sombras mortas... as vozes mortas...
...o homem parado, envolto em branco sobre a areia branca e a quietude na
face...
Como poder rasgar, noite, o véu constelado do teu mistério
Se a minha tez é branca e se no meu coração não mais existem os nervos
calmos
Que sustentavam os braços dos Incas horas inteiras no êxtase da tua
visão?...
Eu sonhei!... Sonhei mundos passando como pássaros
Luzes voando ao vento como folhas
Nuvens como vagas afogando luas adolescentes...
Sons... o último suspiro dos condenados vagando em busca de vida...
O frêmito lúgubre dos corpos penados girando no espaço...
Imagens... a cor verde dos perfumes se desmanchando na essência das
coisas...
As virgens das auroras dançando suspensas nas gazes da bruma
Soprando de manso na boca vermelha dos astros...

Como poder abrir no teu seio, ó noite erma, o pórtico sagrado do Grande Templo

Se eu estou preso ao passado como a criança ao colo materno
E se é preciso adormecer na lembrança boa antes que as mãos
desconhecidas me arrebatem?...
1 204
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Viagem À Sombra

Tua casa sozinha — lassidão infinita dos devaneios, dos segredos. Frocos
verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo,
grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade
inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de
inocência ainda.

És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de
odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos
de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis
falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes
ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.

E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança!
— o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que
irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita
graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as
trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o
abismo?

Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos
ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei,
fêmea! — Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! — teu
corpo barroco em bolero e rumba. — Mais! — dança! dança! — canta,
rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne
dos batráquios…)

Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica — oh mulher, anjo, cadáver da
minha angústia! — sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no
momento desta sombra, na sombra desta agonia — minha — minha —
minha — oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...

Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as
pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um
simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Invocação À Mulher Única

Tu, pássaro — mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do
amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o
frio das águas — tu
Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba
as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que
três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha
carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de
um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça,
fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa
velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas
— negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento —
afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais
oportuna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu
ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito,
amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra —
perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros
— mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias
— mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar
de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —
fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do
sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é
o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu
partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da
minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e
desdobrada — por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e
dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a
minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!
1 132
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Invocação À Mulher Única

Tu, pássaro — mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do
amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o
frio das águas — tu
Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba
as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que
três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha
carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de
um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça,
fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa
velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas
— negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento —
afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais
oportuna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu
ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito,
amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra —
perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros
— mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias
— mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar
de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —
fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do
sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é
o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu
partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da
minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e
desdobrada — por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e
dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a
minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Invocação À Mulher Única

Tu, pássaro — mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do
amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o
frio das águas — tu
Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba
as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que
três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha
carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de
um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça,
fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa
velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas
— negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento —
afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais
oportuna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu
ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito,
amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra —
perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros
— mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias
— mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar
de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —
fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do
sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é
o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu
partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da
minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e
desdobrada — por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e
dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a
minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!
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