Vida e Existência
Sophia de Mello Breyner Andresen
Viagem
E as palavras do poema não irrompiam já como palmeiras
Por isso abandonou a cidade — o país natal
País perdendo dia a dia o seu rosto:
A pintura a cair das paredes — cães
Farejando o lixo —
Brutais os gestos — obscenas as palavras
De cada coisa a beleza destroçada
Por isso se evadiu e para Oriente
Navegou e de noite e lentamente
E um novo dia se abriu em sua frente
E era um país de tigres e palmeiras
Como em longínquo cismar adolescente
Sophia de Mello Breyner Andresen
Carta a Maria do Carvalhal Alvito
Deste primeiro frio misturado
Com um sabor de lenha e de maçã
Algo recorda: tacteio na memória
Procurando o onde o quando o quem
E a tua casa reabre de repente as suas portas
E caminho nos quartos entre
Os raios da luz e o cismar das penumbras
E vens ao meu encontro e és meu abrigo
Pranto e saudade em cada gesto irrompem
Mas a irreversível alegria do ter sido
Não deixará jamais de estar comigo
E há um sabor de lenha e de maçã
E o tempo é jovem próximo e amigo
E rimos juntas nesse dia antigo
E entro na tua casa e és meu abrigo
Lisboa, Novembro de 1986
Sophia de Mello Breyner Andresen
Carta a Maria do Carvalhal Alvito
Deste primeiro frio misturado
Com um sabor de lenha e de maçã
Algo recorda: tacteio na memória
Procurando o onde o quando o quem
E a tua casa reabre de repente as suas portas
E caminho nos quartos entre
Os raios da luz e o cismar das penumbras
E vens ao meu encontro e és meu abrigo
Pranto e saudade em cada gesto irrompem
Mas a irreversível alegria do ter sido
Não deixará jamais de estar comigo
E há um sabor de lenha e de maçã
E o tempo é jovem próximo e amigo
E rimos juntas nesse dia antigo
E entro na tua casa e és meu abrigo
Lisboa, Novembro de 1986
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cânon
Pois o Filho do Homem na véspera da sua morte
Se sentou à mesa entre os homens
E abençoou o pão e o vinho e os repartiu
E aquele que pôs com ele a mão no prato o traiu
E uma noite inteira no horto agonizou sozinho
Pois os seus amigos tinham adormecido
E no tribunal esteve só como todos os acusados da terra
E muitos o renegaram
E à hora do suplício ouviu o silêncio do Pai
Porém ao terceiro dia ergueu-se do túmulo
E partilhou a sua ressurreição com todos os homens
1993
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cânon
Pois o Filho do Homem na véspera da sua morte
Se sentou à mesa entre os homens
E abençoou o pão e o vinho e os repartiu
E aquele que pôs com ele a mão no prato o traiu
E uma noite inteira no horto agonizou sozinho
Pois os seus amigos tinham adormecido
E no tribunal esteve só como todos os acusados da terra
E muitos o renegaram
E à hora do suplício ouviu o silêncio do Pai
Porém ao terceiro dia ergueu-se do túmulo
E partilhou a sua ressurreição com todos os homens
1993
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrita Ii
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Koré
A pesada palidez sagrada do Pártenon
Reina sobre o dia
Folhagens dançam movidas pelo vento
Na mesa ao lado a Koré de nariz direito e cabelo entrançado
Serve de intérprete e erguendo a sua taça
Brinda com os comerciantes tedescos que saquearam
A Grécia e a Europa quase toda
Mas que após a derrota de seus generais
Ganharam a guerra
O café tem pó — relíquia dos turcos
Porém no vinho resinado no frescor da vinha
Na fina suave brisa nas pálidas colunas
Algo dos deuses súbito visita
A luz do instante
Sophia de Mello Breyner Andresen
Beira-Mar
A maré alta sete vezes cresce
Sete vezes decresce o seu inchar
E a métrica de um verso a determina
Crianças brincam nas ondas pequeninas
E com elas em brandíssimo espraiar
Em volutas e crinas brinca o mar
Outubro de 1997
Sophia de Mello Breyner Andresen
Elegia
A não esperar por ti pois não te encontrarás
No instante de dizer sim ao destino
Incerta paraste emudecida
E os oceanos depois devagar te rodearam
A isso chamaste Orpheu Eurydice —
Incessante intensa a lira vibrava ao lado
Do desfilar real dos teus dias
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontro do fracasso —
Quem se lembra do fino escorrer da areia na ampulheta
Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada
Ou no secreto jardim à beira-rio
Em Junho
1994
Sophia de Mello Breyner Andresen
Elegia
A não esperar por ti pois não te encontrarás
No instante de dizer sim ao destino
Incerta paraste emudecida
E os oceanos depois devagar te rodearam
A isso chamaste Orpheu Eurydice —
Incessante intensa a lira vibrava ao lado
Do desfilar real dos teus dias
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontro do fracasso —
Quem se lembra do fino escorrer da areia na ampulheta
Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada
Ou no secreto jardim à beira-rio
Em Junho
1994
Sophia de Mello Breyner Andresen
Elegia
A não esperar por ti pois não te encontrarás
No instante de dizer sim ao destino
Incerta paraste emudecida
E os oceanos depois devagar te rodearam
A isso chamaste Orpheu Eurydice —
Incessante intensa a lira vibrava ao lado
Do desfilar real dos teus dias
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontro do fracasso —
Quem se lembra do fino escorrer da areia na ampulheta
Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada
Ou no secreto jardim à beira-rio
Em Junho
1994
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Activista Cultural
O ouvido não ouve a flauta da penumbra
Nem reconhece o silêncio
O pensamento nada sabe dos labirintos do tempo
O olhar toma nota e não vê
Sophia de Mello Breyner Andresen
Foi No Mar Que Aprendi
Ao olhar sem fim o sucessivo
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos de espuma
Por isso nos museus da Grécia antiga
Olhando estátuas frisos e colunas
Sempre me aclaro mais leve e mais viva
E respiro melhor como na praia
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. Navegámos Para Oriente
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento
Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes
Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas
E extinguiram-se em nós memória e tempo
1977
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fechei À Chave
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça — incorruptível
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fechei À Chave
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça — incorruptível
Sophia de Mello Breyner Andresen
Será Possível
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
— Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta — só perdido?
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ariane Em Naxos
Junto de um mar inteiramente azul
Invocavam deixadas
No deserto fulgor de Junho e Sul
Junto de um mar azul de rochas negras
Porém Dionysos sacudiu
Seus cabelos azuis sobre os rochedos
Dionysos pantera surgiu
E pelo Deus tocado renasceu
Todo o fulgor de antigas primaveras
Onde serei ou fui por fim ser eu
Em ti que dilaceras
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ariane Em Naxos
Junto de um mar inteiramente azul
Invocavam deixadas
No deserto fulgor de Junho e Sul
Junto de um mar azul de rochas negras
Porém Dionysos sacudiu
Seus cabelos azuis sobre os rochedos
Dionysos pantera surgiu
E pelo Deus tocado renasceu
Todo o fulgor de antigas primaveras
Onde serei ou fui por fim ser eu
Em ti que dilaceras
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ariane Em Naxos
Junto de um mar inteiramente azul
Invocavam deixadas
No deserto fulgor de Junho e Sul
Junto de um mar azul de rochas negras
Porém Dionysos sacudiu
Seus cabelos azuis sobre os rochedos
Dionysos pantera surgiu
E pelo Deus tocado renasceu
Todo o fulgor de antigas primaveras
Onde serei ou fui por fim ser eu
Em ti que dilaceras
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lamentação de Adriano Sobre a Morte de Antinoos
Porque estás morto
E contigo morreu o meu projecto de viver a condição divina
Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Memória
Foi morto e foi esquecido
Malhas que o império tece
Mesmo depois de perdido
Sophia de Mello Breyner Andresen
Torso
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Torso
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos