Poemas neste tema
Vida e Existência
Martha Medeiros
gravei tua voz no meu tímpano
gravei tua voz no meu tímpano
vez em quando labirinto
faço que sinto, vez em quando minto
vinho tinto, amor rosé
você
vez em quando instinto
vez em quando labirinto
faço que sinto, vez em quando minto
vinho tinto, amor rosé
você
vez em quando instinto
1 056
Martha Medeiros
o mistério me fascina
o mistério me fascina
porque não me explica nada
não me dá satisfação
tá pouco ligando
pro meu cárcere
e eu fico imaginando uma resposta
uma invenção
para tirar sua força
qualquer coisa como ser um morcego
que não voa
e é um pássaro
porque não me explica nada
não me dá satisfação
tá pouco ligando
pro meu cárcere
e eu fico imaginando uma resposta
uma invenção
para tirar sua força
qualquer coisa como ser um morcego
que não voa
e é um pássaro
1 183
Martha Medeiros
o mistério me fascina
o mistério me fascina
porque não me explica nada
não me dá satisfação
tá pouco ligando
pro meu cárcere
e eu fico imaginando uma resposta
uma invenção
para tirar sua força
qualquer coisa como ser um morcego
que não voa
e é um pássaro
porque não me explica nada
não me dá satisfação
tá pouco ligando
pro meu cárcere
e eu fico imaginando uma resposta
uma invenção
para tirar sua força
qualquer coisa como ser um morcego
que não voa
e é um pássaro
1 183
Sophia de Mello Breyner Andresen
Assassinato de Simonetta Vespucci
Homens
No perfil agudo dos quartos
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.
Vê como as espadas nascem evidentes
Sem que ninguém as erguesse — de repente.
Vê como os gestos se esculpem
Em geometrias exactas do destino.
Vê como os homens se tornam animais
E como os animais se tornam anjos
E um só irrompe e faz um lírio de si mesmo.
Vê como pairam longamente os olhos
Cheios de liquidez, cheios de mágoa
De uma mulher nos seus cabelos estrangulada.
E todo o quarto jaz abandonado
Cheio de horror e cheio de desordem.
E as portas ficam abertas,
Abertas para os caminhos
Por onde os homens fogem,
No silêncio agudo dos espaços,
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.
No perfil agudo dos quartos
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.
Vê como as espadas nascem evidentes
Sem que ninguém as erguesse — de repente.
Vê como os gestos se esculpem
Em geometrias exactas do destino.
Vê como os homens se tornam animais
E como os animais se tornam anjos
E um só irrompe e faz um lírio de si mesmo.
Vê como pairam longamente os olhos
Cheios de liquidez, cheios de mágoa
De uma mulher nos seus cabelos estrangulada.
E todo o quarto jaz abandonado
Cheio de horror e cheio de desordem.
E as portas ficam abertas,
Abertas para os caminhos
Por onde os homens fogem,
No silêncio agudo dos espaços,
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.
1 706
Martha Medeiros
tango ensaiado
tango ensaiado
boca pintada
só de danada
lasco um decote
profundo
rosa vermelha
batom maravilha
só de rasteira
lasco um pingente
na orelha
don’t cry for me
segunda-feira
boca pintada
só de danada
lasco um decote
profundo
rosa vermelha
batom maravilha
só de rasteira
lasco um pingente
na orelha
don’t cry for me
segunda-feira
1 100
Martha Medeiros
era uma vez uma foto em preto e branco
era uma vez uma foto em preto e branco
em que eu me via fumando um charo
com o olho vidrado em você
minhas mãos tinham algo de estátua
mas a cabeça vibrava que eu via
a boca entreaberta pedia
um beijo pra me tatuar
em que eu me via fumando um charo
com o olho vidrado em você
minhas mãos tinham algo de estátua
mas a cabeça vibrava que eu via
a boca entreaberta pedia
um beijo pra me tatuar
1 060
Martha Medeiros
quanto mais palavras saem de minha boca
quanto mais palavras saem de minha boca
mais me dou conta de que não sou eu que falo
pois o que penso não tem nada a ver
e o que faço já é outro papo
e o que pareço já nem sei contar
mais me dou conta de que não sou eu que falo
pois o que penso não tem nada a ver
e o que faço já é outro papo
e o que pareço já nem sei contar
1 158
Martha Medeiros
sou uma mulher madura
sou uma mulher madura
que às vezes anda de balanço
sou uma criança insegura
que às vezes usa salto alto
sou uma mulher que balança
sou uma criança que atura
que às vezes anda de balanço
sou uma criança insegura
que às vezes usa salto alto
sou uma mulher que balança
sou uma criança que atura
1 365
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quando Morreste de Repente Arrastando Contigo Para a Morte a Minha Infância
Morreste sozinho
Entre pinhais rios e campos
Como um homem do paleolítico no rasto da caça
Morreste em agonia
Inteiro e sereno e de bem com as coisas
Tinhas olhado com alegria a claridade da manhã de Dezembro
A terra era justa
O solo germinava
Foste velado primeiro na cabana do pescador
Depois na casa
Dormias na justiça terrestre
Na pura fidelidade à imanência
À tua maneira
Entre pinhais rios e campos
Como um homem do paleolítico no rasto da caça
Morreste em agonia
Inteiro e sereno e de bem com as coisas
Tinhas olhado com alegria a claridade da manhã de Dezembro
A terra era justa
O solo germinava
Foste velado primeiro na cabana do pescador
Depois na casa
Dormias na justiça terrestre
Na pura fidelidade à imanência
À tua maneira
969
Martha Medeiros
rock
rock
me faz sentir
de preto
gostosa
me faz dançar o pelo
me pela
me faz sentar de cócoras
me faz sentir
de preto
gostosa
me faz dançar o pelo
me pela
me faz sentar de cócoras
1 110
Martha Medeiros
eu não sou nada disso
eu não sou nada disso
que você está pensando
por isso venha com calma
que eu conheço este tipo
quem quer acertar na mosca
acaba errando de sopa
que você está pensando
por isso venha com calma
que eu conheço este tipo
quem quer acertar na mosca
acaba errando de sopa
1 109
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Minha Vida Está Vivida
Já minha morte prepara
Seu pó de beladona
Viajarei ainda para me despedir das imagens
Antes de despir a túnica do visível
Em vão me engano
Verdadeiramente sou quem fui
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
E diluída no fulgor da Primavera antiga
Se ainda busco o promontório de Sunion
É porque nele vejo a minha face despida
O mitológico mundo interior e exterior
Da minha própria unidade perseguida
Mas como despedir-me deste sal
Deste vento inventor de degraus e colunas
Como despedir-me das pedras deste mar
E deste denso amor inteiro e sem costuras
Seu pó de beladona
Viajarei ainda para me despedir das imagens
Antes de despir a túnica do visível
Em vão me engano
Verdadeiramente sou quem fui
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
E diluída no fulgor da Primavera antiga
Se ainda busco o promontório de Sunion
É porque nele vejo a minha face despida
O mitológico mundo interior e exterior
Da minha própria unidade perseguida
Mas como despedir-me deste sal
Deste vento inventor de degraus e colunas
Como despedir-me das pedras deste mar
E deste denso amor inteiro e sem costuras
1 334
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Minha Vida Está Vivida
Já minha morte prepara
Seu pó de beladona
Viajarei ainda para me despedir das imagens
Antes de despir a túnica do visível
Em vão me engano
Verdadeiramente sou quem fui
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
E diluída no fulgor da Primavera antiga
Se ainda busco o promontório de Sunion
É porque nele vejo a minha face despida
O mitológico mundo interior e exterior
Da minha própria unidade perseguida
Mas como despedir-me deste sal
Deste vento inventor de degraus e colunas
Como despedir-me das pedras deste mar
E deste denso amor inteiro e sem costuras
Seu pó de beladona
Viajarei ainda para me despedir das imagens
Antes de despir a túnica do visível
Em vão me engano
Verdadeiramente sou quem fui
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
E diluída no fulgor da Primavera antiga
Se ainda busco o promontório de Sunion
É porque nele vejo a minha face despida
O mitológico mundo interior e exterior
Da minha própria unidade perseguida
Mas como despedir-me deste sal
Deste vento inventor de degraus e colunas
Como despedir-me das pedras deste mar
E deste denso amor inteiro e sem costuras
1 334
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Minha Vida Está Vivida
Já minha morte prepara
Seu pó de beladona
Viajarei ainda para me despedir das imagens
Antes de despir a túnica do visível
Em vão me engano
Verdadeiramente sou quem fui
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
E diluída no fulgor da Primavera antiga
Se ainda busco o promontório de Sunion
É porque nele vejo a minha face despida
O mitológico mundo interior e exterior
Da minha própria unidade perseguida
Mas como despedir-me deste sal
Deste vento inventor de degraus e colunas
Como despedir-me das pedras deste mar
E deste denso amor inteiro e sem costuras
Seu pó de beladona
Viajarei ainda para me despedir das imagens
Antes de despir a túnica do visível
Em vão me engano
Verdadeiramente sou quem fui
Atravessando quartos forrados de espelhos ardentes
E diluída no fulgor da Primavera antiga
Se ainda busco o promontório de Sunion
É porque nele vejo a minha face despida
O mitológico mundo interior e exterior
Da minha própria unidade perseguida
Mas como despedir-me deste sal
Deste vento inventor de degraus e colunas
Como despedir-me das pedras deste mar
E deste denso amor inteiro e sem costuras
1 334
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Minhas Mãos Mantêm As Estrelas
Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.
1 923
Martha Medeiros
eu penso conforme o tempo
eu penso conforme o tempo
eu danço conforme o passo
eu passo conforme o espaço
eu amo conforme a fome
eu como conforme a cama
eu sinto conforme o mundo
mas no fundo
eu não me conformo
eu danço conforme o passo
eu passo conforme o espaço
eu amo conforme a fome
eu como conforme a cama
eu sinto conforme o mundo
mas no fundo
eu não me conformo
1 256
Martha Medeiros
quero um homem quente
quero um homem quente
que me queira beijar fundo e único
que me queira cheirar
mundo e tímido
que me queira beijar fundo e único
que me queira cheirar
mundo e tímido
1 087
Martha Medeiros
minha cidade
minha cidade
ontem mesmo eu a vi
tem castelos, rainhas e sapos
paetês e farrapos
bares luares quintanas
tem poeta aos milhares
mulheres mundanas
pontes piratas patrões
serestas, violões
tem casas, sobrados, chalés
mansões, chaminés
tem Zés, tem dessas manias
tchês, escocês, nacional
marias, meu deus, como tem
umidade, esta cidade
insiste em estar dentro da lei
mas ela mesma se entrega
ontem mesmo eu a vi
pegando a free-way
ontem mesmo eu a vi
tem castelos, rainhas e sapos
paetês e farrapos
bares luares quintanas
tem poeta aos milhares
mulheres mundanas
pontes piratas patrões
serestas, violões
tem casas, sobrados, chalés
mansões, chaminés
tem Zés, tem dessas manias
tchês, escocês, nacional
marias, meu deus, como tem
umidade, esta cidade
insiste em estar dentro da lei
mas ela mesma se entrega
ontem mesmo eu a vi
pegando a free-way
1 199
Sophia de Mello Breyner Andresen
1. a Respiração Dos Deuses É Um Silêncio Nu
A respiração dos deuses é um silêncio nu
E uma nudez mais aguda poisada sobre as coisas
2
Aqui minha alma se suspende
Como tocando a substância pressentida
3
Eis o centro do mundo seu umbigo
A exacta proporção de presença e vazio
E uma nudez mais aguda poisada sobre as coisas
2
Aqui minha alma se suspende
Como tocando a substância pressentida
3
Eis o centro do mundo seu umbigo
A exacta proporção de presença e vazio
1 184
Martha Medeiros
a emoção que veio vermelha
a emoção que veio vermelha
virou saudade branca
e ficou a lembrança cor-de-rosa
do teu olhar azul
do meu sorriso amarelo
e daquele nosso desejo
tão cor da pele
virou saudade branca
e ficou a lembrança cor-de-rosa
do teu olhar azul
do meu sorriso amarelo
e daquele nosso desejo
tão cor da pele
1 250
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Estes Os Dias do Novo Estio Deslumbrado
Quando depomos as grades e as barreiras
Como um vestido que foi usado contra o frio
São estes os dias em que a ferocidade depõe as suas armas
Como um vestido que foi usado contra o frio
São estes os dias em que a ferocidade depõe as suas armas
1 071
Sophia de Mello Breyner Andresen
Enigmáticos, Desertos E Suspensos
Os espaços vermelhos do poente,
Países de completa maravilha,
Cobrem o campo morto dos destroços
Um por um morremos olhos fitos
No caminho dos deuses.
Países de completa maravilha,
Cobrem o campo morto dos destroços
Um por um morremos olhos fitos
No caminho dos deuses.
1 166