Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Uma Frase
Uma frase sem cor mas com o sabor do vento.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
1 065
António Ramos Rosa
Uma Frase
Uma frase sem cor mas com o sabor do vento.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
1 065
António Ramos Rosa
Um Rosto Ou Uma Folha
É um rosto ou uma folha com um hálito de sangue.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
1 112
António Ramos Rosa
Presente
Neste círculo de pedras simplifica-se a ausência.
Eclipse na cabeça onde germina o branco.
Abolição no presente, soberania do gérmen
que dorme acordado entre o todo e o nada.
Quem não tem nome é um filho do vento
mais perto do enigma do ar e da distância.
O nada em pleno rosto volve-se o instante azul.
O fundo inacessível torna-se a superfície.
O inominado ilumina-se nos seus sombrios flancos.
O inerte mutismo vibra no silêncio que é o vento.
Eclipse na cabeça onde germina o branco.
Abolição no presente, soberania do gérmen
que dorme acordado entre o todo e o nada.
Quem não tem nome é um filho do vento
mais perto do enigma do ar e da distância.
O nada em pleno rosto volve-se o instante azul.
O fundo inacessível torna-se a superfície.
O inominado ilumina-se nos seus sombrios flancos.
O inerte mutismo vibra no silêncio que é o vento.
1 205
António Ramos Rosa
Corpo Escrito
Como pintar um corpo ainda submerso pela lama?
Como libertá-lo, libertando a alegria e o alento dos flancos?
Como trazê-lo à superfície sem sufocar o enigma e o sol sonhado?
Entre o sono e a lava uma frase terrestre diz a noite e a folhagem.
As pernas densas estão presas na ganga sombria e nas folhas negras.
Quem tocará, ó mãos do desejo, as suas pálpebras fechadas?
Mas já na garganta nua germina um grito que ilumina o cimo.
Levanta-se para beber e se banhar sob a abóbada
do livro. A água é a mais fresca e a mais obscura.
É ainda a criança na folhagem e um torvelinho
vermelho e violeta e a nuvem que precede a chama.
Entrega-se já à luz e ao tempo que é um barco
carregado de terra. A ausência arde nos seus ombros.
Inclina-se sobre um cristal ou sobre uma sombra tão preciosa
que poderia ser uma prova como um anel de fogo.
Um arco se organiza sobre um tumulto voluptuoso
e na alta gruta desfilam os sortilégios.
A língua adere à ignorância incandescente.
Que próxima está a árvore que obscurece o sentido!
Como libertá-lo, libertando a alegria e o alento dos flancos?
Como trazê-lo à superfície sem sufocar o enigma e o sol sonhado?
Entre o sono e a lava uma frase terrestre diz a noite e a folhagem.
As pernas densas estão presas na ganga sombria e nas folhas negras.
Quem tocará, ó mãos do desejo, as suas pálpebras fechadas?
Mas já na garganta nua germina um grito que ilumina o cimo.
Levanta-se para beber e se banhar sob a abóbada
do livro. A água é a mais fresca e a mais obscura.
É ainda a criança na folhagem e um torvelinho
vermelho e violeta e a nuvem que precede a chama.
Entrega-se já à luz e ao tempo que é um barco
carregado de terra. A ausência arde nos seus ombros.
Inclina-se sobre um cristal ou sobre uma sombra tão preciosa
que poderia ser uma prova como um anel de fogo.
Um arco se organiza sobre um tumulto voluptuoso
e na alta gruta desfilam os sortilégios.
A língua adere à ignorância incandescente.
Que próxima está a árvore que obscurece o sentido!
1 256
António Ramos Rosa
Mutação
Inacabado e sem saber
qual o sinal
submerso na montanha silenciosa e vazia
nada me ilumina.
Quebradas as antenas, onde o horizonte?
Onde estão as raízes, onde está a folhagem?
É demasiado escuro para a adesão solidária.
A pulsação tornou-se ténue, incoerente.
Pedras e sombras caem sobre os ombros.
Como me posso mover?
Acordes, acordes ainda vibrantes, vivacidade pura.
Talvez a visão sem imagens na claridade imóvel.
Talvez a incoerência leve das perspectivas nuas.
Como se uma porta se abrisse para o mar.
Ó esquecido assombro, ó sede imensa
de estar vivo no ser e no desejo coincidentes!
Ser a fonte e a semente e a pedra e ser o vento
e ser um pequeno círculo pintado a cal sobre o vazio.
Já se abrem as corolas amarelecidas sobre a mesa,
já as primeiras palavras são de um verde sombrio
e as evidências, através de tudo, fluem rápidas, transparentes.
qual o sinal
submerso na montanha silenciosa e vazia
nada me ilumina.
Quebradas as antenas, onde o horizonte?
Onde estão as raízes, onde está a folhagem?
É demasiado escuro para a adesão solidária.
A pulsação tornou-se ténue, incoerente.
Pedras e sombras caem sobre os ombros.
Como me posso mover?
Acordes, acordes ainda vibrantes, vivacidade pura.
Talvez a visão sem imagens na claridade imóvel.
Talvez a incoerência leve das perspectivas nuas.
Como se uma porta se abrisse para o mar.
Ó esquecido assombro, ó sede imensa
de estar vivo no ser e no desejo coincidentes!
Ser a fonte e a semente e a pedra e ser o vento
e ser um pequeno círculo pintado a cal sobre o vazio.
Já se abrem as corolas amarelecidas sobre a mesa,
já as primeiras palavras são de um verde sombrio
e as evidências, através de tudo, fluem rápidas, transparentes.
1 041
António Ramos Rosa
Mutação
Inacabado e sem saber
qual o sinal
submerso na montanha silenciosa e vazia
nada me ilumina.
Quebradas as antenas, onde o horizonte?
Onde estão as raízes, onde está a folhagem?
É demasiado escuro para a adesão solidária.
A pulsação tornou-se ténue, incoerente.
Pedras e sombras caem sobre os ombros.
Como me posso mover?
Acordes, acordes ainda vibrantes, vivacidade pura.
Talvez a visão sem imagens na claridade imóvel.
Talvez a incoerência leve das perspectivas nuas.
Como se uma porta se abrisse para o mar.
Ó esquecido assombro, ó sede imensa
de estar vivo no ser e no desejo coincidentes!
Ser a fonte e a semente e a pedra e ser o vento
e ser um pequeno círculo pintado a cal sobre o vazio.
Já se abrem as corolas amarelecidas sobre a mesa,
já as primeiras palavras são de um verde sombrio
e as evidências, através de tudo, fluem rápidas, transparentes.
qual o sinal
submerso na montanha silenciosa e vazia
nada me ilumina.
Quebradas as antenas, onde o horizonte?
Onde estão as raízes, onde está a folhagem?
É demasiado escuro para a adesão solidária.
A pulsação tornou-se ténue, incoerente.
Pedras e sombras caem sobre os ombros.
Como me posso mover?
Acordes, acordes ainda vibrantes, vivacidade pura.
Talvez a visão sem imagens na claridade imóvel.
Talvez a incoerência leve das perspectivas nuas.
Como se uma porta se abrisse para o mar.
Ó esquecido assombro, ó sede imensa
de estar vivo no ser e no desejo coincidentes!
Ser a fonte e a semente e a pedra e ser o vento
e ser um pequeno círculo pintado a cal sobre o vazio.
Já se abrem as corolas amarelecidas sobre a mesa,
já as primeiras palavras são de um verde sombrio
e as evidências, através de tudo, fluem rápidas, transparentes.
1 041
António Ramos Rosa
Um Obscuro Jardim
Lembro-me ou esqueço um obscuro jardim,
um lagarto de cinza, um lagarto de sombra
já não cintila entre os gerânios e as rosas.
Lembro-me ou esqueço, alguém escreve
com sílabas de orvalho que nada significam.
Tudo está e não está nesse jardim obscuro
onde a cinza é um espelho do fluxo do silêncio.
Lembro-me ou esqueço os frutos de oiro
e de veludo amadurecidos, a boca de musgo,
a voz da água, a cicatriz incandescente
da grande pedra. Que volúvel sossego
tão anterior a tudo na nudez do sono
e na alegria fiel à sombra que germina!
um lagarto de cinza, um lagarto de sombra
já não cintila entre os gerânios e as rosas.
Lembro-me ou esqueço, alguém escreve
com sílabas de orvalho que nada significam.
Tudo está e não está nesse jardim obscuro
onde a cinza é um espelho do fluxo do silêncio.
Lembro-me ou esqueço os frutos de oiro
e de veludo amadurecidos, a boca de musgo,
a voz da água, a cicatriz incandescente
da grande pedra. Que volúvel sossego
tão anterior a tudo na nudez do sono
e na alegria fiel à sombra que germina!
1 210
António Ramos Rosa
O Fogo Na Pele
Saborear a saliva do ar e o suor
de uma paisagem escura que se inclina
para um barco de raízes. Aderir
à afirmação da pedra impenetrável.
Entrar, estar no simples alcance do presente.
O fogo está na pele e é a urgência do ócio.
As pupilas de resina vêem os círculos de terra.
Nas axilas do vento há palavras redondas.
Os arbustos giram com as suas pedras verdes.
de uma paisagem escura que se inclina
para um barco de raízes. Aderir
à afirmação da pedra impenetrável.
Entrar, estar no simples alcance do presente.
O fogo está na pele e é a urgência do ócio.
As pupilas de resina vêem os círculos de terra.
Nas axilas do vento há palavras redondas.
Os arbustos giram com as suas pedras verdes.
1 111
António Ramos Rosa
Quase
Quase vejo uma face cega e tranquila entre o sono e a morte.
Quase se ilumina uma imagem de água na veracidade do enigma.
Quase a nitidez de um círculo de paz, quase uma sílaba,
quase uma constelação do ar, quase uma confiança
no vazio. Ou nem sequer um marulho ou vibração clara
porque a mão escreve crivada de fulgores vazios
e todas as corolas se apagam no deserto.
É quase a transparência, é quase o limiar.
Extinguiram-se os sonhos e os caminhos, extinguiu-se a água
e o gérmen, que é semelhante à água. Não há fundo,
e já não ouço o tropel dos apelos, o rumor dos ombros.
Com os olhos desertos procuro a respiração do mar.
Quase se ilumina uma imagem de água na veracidade do enigma.
Quase a nitidez de um círculo de paz, quase uma sílaba,
quase uma constelação do ar, quase uma confiança
no vazio. Ou nem sequer um marulho ou vibração clara
porque a mão escreve crivada de fulgores vazios
e todas as corolas se apagam no deserto.
É quase a transparência, é quase o limiar.
Extinguiram-se os sonhos e os caminhos, extinguiu-se a água
e o gérmen, que é semelhante à água. Não há fundo,
e já não ouço o tropel dos apelos, o rumor dos ombros.
Com os olhos desertos procuro a respiração do mar.
1 053
António Ramos Rosa
Na Transparência de Um Outono
Que na transparência de um outono
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
1 177
António Ramos Rosa
Na Transparência de Um Outono
Que na transparência de um outono
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
1 177
António Ramos Rosa
Onde Ainda Não Nasci
Será montanha e amoroso destino.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
1 066
António Ramos Rosa
Onde Ainda Não Nasci
Será montanha e amoroso destino.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
1 066
António Ramos Rosa
Na Erosão de Um Corpo
Como se não houvesse circunstâncias nem mensagem
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
990
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever semear um pouco de cegueira
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
1 162
António Ramos Rosa
Vagas de Amplitude
Vagas de amplitude sobre o país mesquinho.
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
605
António Ramos Rosa
A Presença
Entre o não saber e o poder
a mais ligeira ponte.
Entre as ruínas dos olhos e a limpidez da luz
as frágeis escadas de sombra.
Entre a língua cega e as palavras intactas
a mão que procura o hálito de um deus
na revelação do mar e do poema.
O que se resolve em espuma no final de uma frase,
o que vem do fundo ininteligível da noite
e é uma súbita ordenação transparente
e o frémito de um equilíbrio, uma modulação, uma frescura
e o reino absoluto no instante, o verdadeiro lugar
e um grito, um grito de alegria na sua forma pura.
Simplicidade da presença discreta, furtiva e no entanto límpida.
Coerência fragílima, claridade confiante à beira de ser nada.
Era o que esperava, era o que não esperava no imediato sabor
das palavras e das coisas.
a mais ligeira ponte.
Entre as ruínas dos olhos e a limpidez da luz
as frágeis escadas de sombra.
Entre a língua cega e as palavras intactas
a mão que procura o hálito de um deus
na revelação do mar e do poema.
O que se resolve em espuma no final de uma frase,
o que vem do fundo ininteligível da noite
e é uma súbita ordenação transparente
e o frémito de um equilíbrio, uma modulação, uma frescura
e o reino absoluto no instante, o verdadeiro lugar
e um grito, um grito de alegria na sua forma pura.
Simplicidade da presença discreta, furtiva e no entanto límpida.
Coerência fragílima, claridade confiante à beira de ser nada.
Era o que esperava, era o que não esperava no imediato sabor
das palavras e das coisas.
995
António Ramos Rosa
Incesto
Querer ainda um âmbito para um peito ou um ombro
e o gozo na beleza e o descanso nas árvores.
Ser a terra com as vertentes e os túmulos
e no fundo obscuro produzir a alta delícia.
E a fome e a sede na sua forma feminina
em que se misturam substâncias brancas e negras.
E o corpo a corpo com a noite para o âmbito completo
no esquecimento e no ócio num vegetal incesto.
Quem reina sobre o meu ventre e sobre as tuas ancas?
O meu corpo é uma caverna aberta até aos astros.
Quem me aboliu maternamente até ser o sorriso
de ninguém que reconhece em si a irmã amante?
e o gozo na beleza e o descanso nas árvores.
Ser a terra com as vertentes e os túmulos
e no fundo obscuro produzir a alta delícia.
E a fome e a sede na sua forma feminina
em que se misturam substâncias brancas e negras.
E o corpo a corpo com a noite para o âmbito completo
no esquecimento e no ócio num vegetal incesto.
Quem reina sobre o meu ventre e sobre as tuas ancas?
O meu corpo é uma caverna aberta até aos astros.
Quem me aboliu maternamente até ser o sorriso
de ninguém que reconhece em si a irmã amante?
1 328
António Ramos Rosa
No Centro Tranquilo
Casa: com o rumor das dunas e das aves
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.
Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.
Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.
Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.
Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
534
António Ramos Rosa
Ele
Quem era ele? Onde se encontrava ele?
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
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António Ramos Rosa
Ele
Quem era ele? Onde se encontrava ele?
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
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António Ramos Rosa
Ele
Quem era ele? Onde se encontrava ele?
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
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António Ramos Rosa
Um Excesso de Transparência E de Leveza
Expectativa na nulidade em que nenhum impulso se gera ainda. Escuto ou não, e não é o silêncio que oiço nem o murmúrio do vazio. Quero começar a partir do momento em que sinta o tremor lúcido de uma palavra que surja de uma evidência misteriosa, inelutável, pura. Por enquanto, escrevo sem escrever, isto é, sem necessidade. Ignoro, porém, se estas palavras prematuras não irão precipitar o momento da eclosão em que o silêncio espontaneamente se manifesta através de uma formulação que seria a própria pulsação do informulado. Estou completamente árido, nulo, apagado. É, todavia, nesta clareira de cal que devo permanecer. Ninguém aparecerá, nenhuma presença viva virá acender a paisagem. Continuo a escrever no meio das pedras, sem sequer o rumor da folhagem. As palavras, que são as palavras que vagarosamente vou juntando sem felicidade, quase sem ardor nem gosto? O momento único não surge, talvez nunca venha a surgir. Mas é na expectativa desse momento único que continuo a escrever desesperadamente e contudo com uma certa confiança, confiança que move estas precárias e quase nulas palavras. Tão devagar escrevo e tudo é ausência ou separação. Porque nem sequer a passageira luz da alegria? Onde há palavras porque não está a nascente, porque não a brisa? Na verdade, o que procuro é um espaço para respirar. Que as minhas palavras desenhem uma paisagem aérea, silenciosa, inicial. Dir-se-ia que algo me impede de forçar, de pesar, como se a eclosão da palavra viva só se desse num excesso de transparência e de leveza! Estou perdido de não chegar a nada, mas agora leve, mais leve, vou abrindo o espaço adolescente em que o movimento se inclina para a frescura de uma primeira idade. Algo passa inteiro, animal ou deus, e a sua ausência é a completa felicidade de um sulco que é tanto silêncio como palavra nua. Passam as figuras sem se revelar, profundas e ausentes, e os seus gestos cintilam nas misteriosas expressões. O firme timbre das frases repercute a passagem vibrante das imagens que se libertam nas águas. Algumas abrem-se em curvas de concavidades. Escrevo agora na companhia efémera de presenças puras. Poderão as palavras dizer as cores, a doçura, o perfume que transforma o exílio no claro paraíso do silêncio? Agora escrevo na coincidência e na amplitude do aberto. As pobres palavras tornam-se ardentes, unificadas, vivas evidências de uma nudez enigmática. Quantos caminhos se abrem na página respirável, quanto azul se propaga nas palavras nuas, quanta sombra pelo calor adentro!
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