Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Espaço Soberano
Ela é uma evidência na distância
entre as árvores profunda como a morte.
Soberana iminência se decanta, desmesura
que vagarosa se expande até ao esquecimento.
E são palavras de retorno à sombra húmida
e ao que se abre na luz silenciosamente.
O enigma tem um rosto de sono fulgurante.
Os pássaros embriagam-se com as litanias nos arbustos.
A conivência é completa na amplitude aveludada.
entre as árvores profunda como a morte.
Soberana iminência se decanta, desmesura
que vagarosa se expande até ao esquecimento.
E são palavras de retorno à sombra húmida
e ao que se abre na luz silenciosamente.
O enigma tem um rosto de sono fulgurante.
Os pássaros embriagam-se com as litanias nos arbustos.
A conivência é completa na amplitude aveludada.
1 077
António Ramos Rosa
Mulher Barroca
Uma mulher dorme na areia. É uma hélice
de cristal e veludo.
Mas também de barro e cinza e também pedra.
O seu sexo é um tambor donde surgem insectos,
nenúfares, serpentes.
Nos seus olhos há pássaros que nunca conheceram a plenitude da distância.
Quando se levanta em seu redor ondulam os caminhos.
Amor, sentirá amor esta mulher de álcool e madeira?
A sua voz é redonda como uma concha e os seus dedos cantam
as anémonas e os caracóis obscuros que adormecem entre os ossos.
De lâmpada a lâmpada, circula com a sua cabeça transparente
ignorando a nostalgia dos pulsos e a anarquia do vento.
Vagarosa como no centro de um escuro diamante
ela coloca os pés nus sobre um fogo apagado.
de cristal e veludo.
Mas também de barro e cinza e também pedra.
O seu sexo é um tambor donde surgem insectos,
nenúfares, serpentes.
Nos seus olhos há pássaros que nunca conheceram a plenitude da distância.
Quando se levanta em seu redor ondulam os caminhos.
Amor, sentirá amor esta mulher de álcool e madeira?
A sua voz é redonda como uma concha e os seus dedos cantam
as anémonas e os caracóis obscuros que adormecem entre os ossos.
De lâmpada a lâmpada, circula com a sua cabeça transparente
ignorando a nostalgia dos pulsos e a anarquia do vento.
Vagarosa como no centro de um escuro diamante
ela coloca os pés nus sobre um fogo apagado.
610
Carlos Drummond de Andrade
Pacto
Que união floral existe
entre as mulheres e Di Cavalcanti?
Se o que há nelas de fero ou triste
a ele se entrega, confiante?
Que chave lhe deram, em São Cristóvão,
para abrir a porta dos olhos,
— e no labirinto escuro se acendem
lumes de paixão, ignotos?
Quem lhe soprou a ciência plástica
de resumir em cor o travo
das mais ácidas, o mel intenso
das suburbanas, o peso imenso
de corpos que sonham dar-se?
E o que ele aprendeu do corpo
sem alma, porque toda a alma,
como uma víbora calma,
coleia na pele do rosto?
E essa pegajosa linguagem
de desejo a surdir da gruta,
e esse suspiro, ai Deus, telúrico,
de sangue moreno-sulfúrico?
É o Rio que, feito rio
de vivências, lhe flui nas tintas
de um calor pedindo nudez?
O engenho de cana avoengo,
a mastigar doçuras de vez?
São os instintos em grinalda,
num movimento lento e grave,
tão majestoso que a pintura antiga
explode nos jogos modernos
da angústia?
Tudo é pergunta, na criação,
e tudo canta, é boca,
no belveder dos sessenta anos,
entre nuvens escravas.
Multiamante,
Di Cavalcanti fez pacto com a mulher.
entre as mulheres e Di Cavalcanti?
Se o que há nelas de fero ou triste
a ele se entrega, confiante?
Que chave lhe deram, em São Cristóvão,
para abrir a porta dos olhos,
— e no labirinto escuro se acendem
lumes de paixão, ignotos?
Quem lhe soprou a ciência plástica
de resumir em cor o travo
das mais ácidas, o mel intenso
das suburbanas, o peso imenso
de corpos que sonham dar-se?
E o que ele aprendeu do corpo
sem alma, porque toda a alma,
como uma víbora calma,
coleia na pele do rosto?
E essa pegajosa linguagem
de desejo a surdir da gruta,
e esse suspiro, ai Deus, telúrico,
de sangue moreno-sulfúrico?
É o Rio que, feito rio
de vivências, lhe flui nas tintas
de um calor pedindo nudez?
O engenho de cana avoengo,
a mastigar doçuras de vez?
São os instintos em grinalda,
num movimento lento e grave,
tão majestoso que a pintura antiga
explode nos jogos modernos
da angústia?
Tudo é pergunta, na criação,
e tudo canta, é boca,
no belveder dos sessenta anos,
entre nuvens escravas.
Multiamante,
Di Cavalcanti fez pacto com a mulher.
1 101
António Ramos Rosa
No Centro Tranquilo
Casa: com o rumor das dunas e das aves
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.
Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.
Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.
Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.
Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
536
Carlos Drummond de Andrade
Os Poderes Infernais
O meu amor faísca na medula,
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.
Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.
Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe
o que sou, o que sobro, esmigalhado.
O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado.
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.
Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.
Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe
o que sou, o que sobro, esmigalhado.
O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado.
1 332
António Ramos Rosa
Incesto
Querer ainda um âmbito para um peito ou um ombro
e o gozo na beleza e o descanso nas árvores.
Ser a terra com as vertentes e os túmulos
e no fundo obscuro produzir a alta delícia.
E a fome e a sede na sua forma feminina
em que se misturam substâncias brancas e negras.
E o corpo a corpo com a noite para o âmbito completo
no esquecimento e no ócio num vegetal incesto.
Quem reina sobre o meu ventre e sobre as tuas ancas?
O meu corpo é uma caverna aberta até aos astros.
Quem me aboliu maternamente até ser o sorriso
de ninguém que reconhece em si a irmã amante?
e o gozo na beleza e o descanso nas árvores.
Ser a terra com as vertentes e os túmulos
e no fundo obscuro produzir a alta delícia.
E a fome e a sede na sua forma feminina
em que se misturam substâncias brancas e negras.
E o corpo a corpo com a noite para o âmbito completo
no esquecimento e no ócio num vegetal incesto.
Quem reina sobre o meu ventre e sobre as tuas ancas?
O meu corpo é uma caverna aberta até aos astros.
Quem me aboliu maternamente até ser o sorriso
de ninguém que reconhece em si a irmã amante?
1 331
Carlos Drummond de Andrade
A Goeldi
De uma cidade vulturina
vieste a nós, trazendo
o ar de suas avenidas de assombro
onde vagabundos peixes esqueletos
rodopiam ou se postam em frente a casas inabitáveis
mas entupidas de tua coleção de segredos,
ó Goeldi: pesquisador da noite moral sob a noite física.
Ainda não desembarcaste de todo
e não desembarcarás nunca.
Exílio e memória porejam das madeiras
em que inflexivelmente penetras para extrair
o vitríolo das criaturas
condenadas ao mundo.
És metade sombra ou todo sombra?
Tuas relações com a luz como se tecem?
Amarias talvez, preto no preto,
fixar um novo sol, noturno; e denuncias
as diferentes espécies de treva
em que os objetos se elaboram:
a treva do entardecer e a da manhã;
a erosão do tempo no silêncio;
a irrealidade do real.
Estás sempre inspecionando
as nuvens e a direção dos ciclones.
Céu nublado, chuva incessante, atmosfera de chumbo
são elementos de teu reino
onde a morte de guarda-chuva
comanda
poças de solidão, entre urubus.
Tão solitário, Goeldi! mas pressinto
no glauco reflexo furtivo
que lambe a canoa de teu pescador
e na tarja sanguínea a irromper, escândalo, de teus negrumes
uma dádiva de ti à vida.
Não sinistra,
mas violenta
e meiga,
destas cores compõe-se a rosa em teu louvor.
vieste a nós, trazendo
o ar de suas avenidas de assombro
onde vagabundos peixes esqueletos
rodopiam ou se postam em frente a casas inabitáveis
mas entupidas de tua coleção de segredos,
ó Goeldi: pesquisador da noite moral sob a noite física.
Ainda não desembarcaste de todo
e não desembarcarás nunca.
Exílio e memória porejam das madeiras
em que inflexivelmente penetras para extrair
o vitríolo das criaturas
condenadas ao mundo.
És metade sombra ou todo sombra?
Tuas relações com a luz como se tecem?
Amarias talvez, preto no preto,
fixar um novo sol, noturno; e denuncias
as diferentes espécies de treva
em que os objetos se elaboram:
a treva do entardecer e a da manhã;
a erosão do tempo no silêncio;
a irrealidade do real.
Estás sempre inspecionando
as nuvens e a direção dos ciclones.
Céu nublado, chuva incessante, atmosfera de chumbo
são elementos de teu reino
onde a morte de guarda-chuva
comanda
poças de solidão, entre urubus.
Tão solitário, Goeldi! mas pressinto
no glauco reflexo furtivo
que lambe a canoa de teu pescador
e na tarja sanguínea a irromper, escândalo, de teus negrumes
uma dádiva de ti à vida.
Não sinistra,
mas violenta
e meiga,
destas cores compõe-se a rosa em teu louvor.
1 141
António Ramos Rosa
Um Rosto Ou Uma Folha
É um rosto ou uma folha com um hálito de sangue.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
1 113
António Ramos Rosa
Vagas de Amplitude
Vagas de amplitude sobre o país mesquinho.
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
606
Carlos Drummond de Andrade
Prece de Mineiro No Rio
Espírito de Minas, me visita,
e sobre a confusão desta cidade,
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.
Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça:
não quero ser um móvel num imóvel,
quero firme e discreto o meu amor,
meu gesto seja sempre natural,
mesmo brusco ou pesado, e só me punja
a saudade da pátria imaginária.
Essa mesma, não muito. Balançando
entre o real e o irreal, quero viver
como é de tua essência e nos segredas,
capaz de dedicar-me em corpo e alma,
sem apego servil ainda o mais brando.
Por vezes, emudeces. Não te sinto
a soprar da azulada serrania
onde galopam sombras e memórias
de gente que, de humilde, era orgulhosa
e fazia da crosta mineral
um solo humano em seu despojamento.
Outras vezes te invocam, mas negando-te,
como se colhe e se espezinha a rosa.
Os que zombam de ti não te conhecem
na força com que, esquivo, te retrais
e mais límpido quedas, como ausente,
quanto mais te penetra a realidade.
Desprendido de imagens que se rompem
a um capricho dos deuses, tu regressas
ao que, fora do tempo, é tempo infindo,
no secreto semblante da verdade.
Espírito mineiro, circunspecto
talvez, mas encerrando uma partícula
de fogo embriagador, que lavra súbito,
e, se cabe, a ser doidos nos inclinas:
não me fujas no Rio de Janeiro,
como a nuvem se afasta e a ave se alonga,
mas abre um portulano ante meus olhos
que a teu profundo mar conduza, Minas,
Minas além do som, Minas Gerais.
e sobre a confusão desta cidade,
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.
Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça:
não quero ser um móvel num imóvel,
quero firme e discreto o meu amor,
meu gesto seja sempre natural,
mesmo brusco ou pesado, e só me punja
a saudade da pátria imaginária.
Essa mesma, não muito. Balançando
entre o real e o irreal, quero viver
como é de tua essência e nos segredas,
capaz de dedicar-me em corpo e alma,
sem apego servil ainda o mais brando.
Por vezes, emudeces. Não te sinto
a soprar da azulada serrania
onde galopam sombras e memórias
de gente que, de humilde, era orgulhosa
e fazia da crosta mineral
um solo humano em seu despojamento.
Outras vezes te invocam, mas negando-te,
como se colhe e se espezinha a rosa.
Os que zombam de ti não te conhecem
na força com que, esquivo, te retrais
e mais límpido quedas, como ausente,
quanto mais te penetra a realidade.
Desprendido de imagens que se rompem
a um capricho dos deuses, tu regressas
ao que, fora do tempo, é tempo infindo,
no secreto semblante da verdade.
Espírito mineiro, circunspecto
talvez, mas encerrando uma partícula
de fogo embriagador, que lavra súbito,
e, se cabe, a ser doidos nos inclinas:
não me fujas no Rio de Janeiro,
como a nuvem se afasta e a ave se alonga,
mas abre um portulano ante meus olhos
que a teu profundo mar conduza, Minas,
Minas além do som, Minas Gerais.
1 313
Carlos Drummond de Andrade
Ciência
Começo a ver no escuro
um novo tom
de escuro.
Começo a ver o visto
e me incluo
no muro.
Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.
E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga.
um novo tom
de escuro.
Começo a ver o visto
e me incluo
no muro.
Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.
E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga.
1 398
Carlos Drummond de Andrade
Ciência
Começo a ver no escuro
um novo tom
de escuro.
Começo a ver o visto
e me incluo
no muro.
Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.
E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga.
um novo tom
de escuro.
Começo a ver o visto
e me incluo
no muro.
Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.
E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga.
1 398
Carlos Drummond de Andrade
Ciência
Começo a ver no escuro
um novo tom
de escuro.
Começo a ver o visto
e me incluo
no muro.
Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.
E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga.
um novo tom
de escuro.
Começo a ver o visto
e me incluo
no muro.
Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.
E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga.
1 398
António Ramos Rosa
Terra
Terra verde e ensanguentada
e negra sob as folhas,
quero pintar o teu sono, a espádua nua
que estremece entre as árvores e a espuma obscura.
Desço aos teus húmidos patamares,
às clareiras onde a paz da seiva é o ignorado.
Bebo perto da tua sede
a água incerta e fresca da primeira manhã.
Toco as tuas espigas verdes e pesadas
e um seio inchado pelo fluxo da sombra.
Escorrem delgadas línguas entre ciprestes,
cabeleiras amarelas entre braços.
Ouço o fundo clamor das entranhas vermelhas
e os suspiros tíbios de um corpo juvenil.
Um sossegado barco preso a uma muralha
diz o vazio verde e o seu cego rumor.
Terra, quantos latidos, quantos metais furiosos,
quantas vacilações, quantos volumes densos!
Crispada a mão quer afagar as tuas ancas,
o teu púbis violento e fulgurante.
Ó generoso corpo que te curvas a um vento cálido
e voas como pólen à deliciosa superfície,
que estas palavras sejam papel, areia ou lua,
mas que sejam também as coxas negras
e o teu ventre escuro de soberana mãe.
e negra sob as folhas,
quero pintar o teu sono, a espádua nua
que estremece entre as árvores e a espuma obscura.
Desço aos teus húmidos patamares,
às clareiras onde a paz da seiva é o ignorado.
Bebo perto da tua sede
a água incerta e fresca da primeira manhã.
Toco as tuas espigas verdes e pesadas
e um seio inchado pelo fluxo da sombra.
Escorrem delgadas línguas entre ciprestes,
cabeleiras amarelas entre braços.
Ouço o fundo clamor das entranhas vermelhas
e os suspiros tíbios de um corpo juvenil.
Um sossegado barco preso a uma muralha
diz o vazio verde e o seu cego rumor.
Terra, quantos latidos, quantos metais furiosos,
quantas vacilações, quantos volumes densos!
Crispada a mão quer afagar as tuas ancas,
o teu púbis violento e fulgurante.
Ó generoso corpo que te curvas a um vento cálido
e voas como pólen à deliciosa superfície,
que estas palavras sejam papel, areia ou lua,
mas que sejam também as coxas negras
e o teu ventre escuro de soberana mãe.
1 204
Carlos Drummond de Andrade
Úni Dúni Têni
Úni dúni têni
salamêni.
Balança, meu bem, balança
entre um e outro trapézio.
No verde tom da esperança,
a cor de prata do césio.
Circula o risco no espaço
como sangue nas artérias.
Os saltos mais perigosos
são fiorituras aéreas.
No limite da coragem,
no vão entre céu e terra,
um anjo luminescente
zomba da morte e da guerra.
É anjo? ou mulher? ou homem?
Sobre a pergunta sem nexo,
o novo arco-íris desdobra
todos os raios do sexo.
salamêni.
Balança, meu bem, balança
entre um e outro trapézio.
No verde tom da esperança,
a cor de prata do césio.
Circula o risco no espaço
como sangue nas artérias.
Os saltos mais perigosos
são fiorituras aéreas.
No limite da coragem,
no vão entre céu e terra,
um anjo luminescente
zomba da morte e da guerra.
É anjo? ou mulher? ou homem?
Sobre a pergunta sem nexo,
o novo arco-íris desdobra
todos os raios do sexo.
1 335
Carlos Drummond de Andrade
Inquérito
Pergunta às árvores da rua
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.
Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.
Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.
Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.
Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.
A ti mesmo, nada perguntes.
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.
Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.
Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.
Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.
Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.
A ti mesmo, nada perguntes.
781
Carlos Drummond de Andrade
Inquérito
Pergunta às árvores da rua
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.
Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.
Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.
Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.
Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.
A ti mesmo, nada perguntes.
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.
Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.
Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.
Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.
Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.
A ti mesmo, nada perguntes.
781
Carlos Drummond de Andrade
Inquérito
Pergunta às árvores da rua
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.
Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.
Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.
Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.
Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.
A ti mesmo, nada perguntes.
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.
Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.
Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.
Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.
Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.
A ti mesmo, nada perguntes.
781
Carlos Drummond de Andrade
Nudez
Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.
Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.
Nem era dor aquilo que doía;
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.
Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.
Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.
Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.
Nem era dor aquilo que doía;
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.
Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.
Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
1 235
Carlos Drummond de Andrade
Nudez
Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.
Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.
Nem era dor aquilo que doía;
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.
Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.
Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.
Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.
Nem era dor aquilo que doía;
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.
Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.
Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
1 235
António Ramos Rosa
O Corpo Inacessível
Cabeça adormecida iluminada nas varandas,
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
599
António Ramos Rosa
Na Erosão de Um Corpo
Como se não houvesse circunstâncias nem mensagem
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
preparo um exercício sobre algo que ignoro.
Esqueço ou simplesmente imagino uma linha de água.
Não sinto o espírito amoroso, a confiança do corpo,
a força do silêncio. Sigo com os dedos a erosão
de uma matéria calcinada e a poeira de uma ferida.
Nenhuma figura flutua, nenhuma palavra se anima.
Meandros, que meandros felizes fluíam outrora no corpo?
Que constelações poderão surgir agora deste branco eclipse?
É a pele, é a mobilidade das fibras que decide.
Para avançar procuro a conivência das pedras.
Quero subscrever as frases do vento, a firmeza móvel.
Quero a claridade do enigma no seu âmbito obscuro.
É talvez uma génese no deserto com o vento e com o sal.
Pressinto um rosto com um sabor a folhas e a sombra.
Estou perto de um rio. Toquei o osso das palavras.
990
António Ramos Rosa
O Fogo Na Pele
Saborear a saliva do ar e o suor
de uma paisagem escura que se inclina
para um barco de raízes. Aderir
à afirmação da pedra impenetrável.
Entrar, estar no simples alcance do presente.
O fogo está na pele e é a urgência do ócio.
As pupilas de resina vêem os círculos de terra.
Nas axilas do vento há palavras redondas.
Os arbustos giram com as suas pedras verdes.
de uma paisagem escura que se inclina
para um barco de raízes. Aderir
à afirmação da pedra impenetrável.
Entrar, estar no simples alcance do presente.
O fogo está na pele e é a urgência do ócio.
As pupilas de resina vêem os círculos de terra.
Nas axilas do vento há palavras redondas.
Os arbustos giram com as suas pedras verdes.
1 113
António Ramos Rosa
Onde o Vagar Se Inclina
A minha casa é onde o ócio se insinua
em limpa lentidão e em si repousa
até rodear a solidão e ser a concha
em que o vagar se inclina e é uma aura.
E tudo é intimidade silenciosa
em que há um ritmo de equivalências puras.
A atenção flui numa vigília imponderável.
O espaço se alarga em íntimas planícies
por onde ver acende abismos leves
que nos dão a luz mais recôndita do espírito.
E uma nuvem branca passa e o mundo se abre
em torno do anel onde estarmos é ser.
em limpa lentidão e em si repousa
até rodear a solidão e ser a concha
em que o vagar se inclina e é uma aura.
E tudo é intimidade silenciosa
em que há um ritmo de equivalências puras.
A atenção flui numa vigília imponderável.
O espaço se alarga em íntimas planícies
por onde ver acende abismos leves
que nos dão a luz mais recôndita do espírito.
E uma nuvem branca passa e o mundo se abre
em torno do anel onde estarmos é ser.
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