Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
A Substância Dos Amantes
No escuro círculo em que se expande a ferida
palpita o abismo de uma forma feminina.
Que corpo de nebulosas e de cinza, uma árvore ainda?
Como semear neste corpo o esperma cintilante?
Toda a energia toda a ternura toda a chama
poderão reacender a substância dos amantes?
Aqui, na saliva do sabor, no vazio do gérmen,
a força cresce para abolir e renascer
na órbita do vento em seus flancos de horizonte.
Vermelha é a corola que se abre ao espaço inteiro.
Uma única pulsação de árvore liberta,
sílaba plena de água e sol numa boca silenciosa,
nascente que se enreda nas árvores, numa lua lúcida,
braços que poderiam abraçar a cintura da terra,
amor do fundo com sangue onde se reflecte o firmamento.
palpita o abismo de uma forma feminina.
Que corpo de nebulosas e de cinza, uma árvore ainda?
Como semear neste corpo o esperma cintilante?
Toda a energia toda a ternura toda a chama
poderão reacender a substância dos amantes?
Aqui, na saliva do sabor, no vazio do gérmen,
a força cresce para abolir e renascer
na órbita do vento em seus flancos de horizonte.
Vermelha é a corola que se abre ao espaço inteiro.
Uma única pulsação de árvore liberta,
sílaba plena de água e sol numa boca silenciosa,
nascente que se enreda nas árvores, numa lua lúcida,
braços que poderiam abraçar a cintura da terra,
amor do fundo com sangue onde se reflecte o firmamento.
1 004
António Ramos Rosa
Nascimento
Na sua pele azulada e branca de astros
estão os anéis em que se inscreve o universo.
As galáxias brilham nos seus olhos. O orvalho vibra.
Ela é o canto de todas as palavras, de todas as carícias.
Solidão e fogo, plenitude, espuma, velocidade ardente.
Quem escreve este corpo escreve o latido do sangue,
a cabeça estrelada, o calor delicado? Quem modela
metal ou música, silêncio vegetal, ondas, espaços?
Uma colina, um ombro. Uma cabeleira respira. Vertiginosa ternura.
O mundo principia leve sob uma imensa pálpebra.
Longínqua sempre no silêncio entreaberto
com a larga lentidão dos músculos dos rios,
tão semelhantes à terra em seus anéis de sombra e musgo
e de água e luz, e o mar nos seus joelhos.
Tu nasces dos seus flancos e da sua branca membrana.
estão os anéis em que se inscreve o universo.
As galáxias brilham nos seus olhos. O orvalho vibra.
Ela é o canto de todas as palavras, de todas as carícias.
Solidão e fogo, plenitude, espuma, velocidade ardente.
Quem escreve este corpo escreve o latido do sangue,
a cabeça estrelada, o calor delicado? Quem modela
metal ou música, silêncio vegetal, ondas, espaços?
Uma colina, um ombro. Uma cabeleira respira. Vertiginosa ternura.
O mundo principia leve sob uma imensa pálpebra.
Longínqua sempre no silêncio entreaberto
com a larga lentidão dos músculos dos rios,
tão semelhantes à terra em seus anéis de sombra e musgo
e de água e luz, e o mar nos seus joelhos.
Tu nasces dos seus flancos e da sua branca membrana.
1 095
António Ramos Rosa
Nascimento
Na sua pele azulada e branca de astros
estão os anéis em que se inscreve o universo.
As galáxias brilham nos seus olhos. O orvalho vibra.
Ela é o canto de todas as palavras, de todas as carícias.
Solidão e fogo, plenitude, espuma, velocidade ardente.
Quem escreve este corpo escreve o latido do sangue,
a cabeça estrelada, o calor delicado? Quem modela
metal ou música, silêncio vegetal, ondas, espaços?
Uma colina, um ombro. Uma cabeleira respira. Vertiginosa ternura.
O mundo principia leve sob uma imensa pálpebra.
Longínqua sempre no silêncio entreaberto
com a larga lentidão dos músculos dos rios,
tão semelhantes à terra em seus anéis de sombra e musgo
e de água e luz, e o mar nos seus joelhos.
Tu nasces dos seus flancos e da sua branca membrana.
estão os anéis em que se inscreve o universo.
As galáxias brilham nos seus olhos. O orvalho vibra.
Ela é o canto de todas as palavras, de todas as carícias.
Solidão e fogo, plenitude, espuma, velocidade ardente.
Quem escreve este corpo escreve o latido do sangue,
a cabeça estrelada, o calor delicado? Quem modela
metal ou música, silêncio vegetal, ondas, espaços?
Uma colina, um ombro. Uma cabeleira respira. Vertiginosa ternura.
O mundo principia leve sob uma imensa pálpebra.
Longínqua sempre no silêncio entreaberto
com a larga lentidão dos músculos dos rios,
tão semelhantes à terra em seus anéis de sombra e musgo
e de água e luz, e o mar nos seus joelhos.
Tu nasces dos seus flancos e da sua branca membrana.
1 095
António Ramos Rosa
Entre Duas Páginas
Aqui as palavras chegam ou não chegam.
Entre duas páginas ninguém dorme, ninguém morre.
Apago com a tua pele a pele do muro.
Estou rodeado de indícios silenciosos.
Leio axilas, pedras, dorsos, mãos.
Há uma pedra enterrada na carne ou uma árvore.
Apunhalo um punhal que não se apaga.
Repito com um lábio o que o outro cala.
Escuto o rumor de feridas que não sangram.
Não canto a luz na pedra fecundada.
Queria dizer, queria dizer a nudez da tua pele,
os ventos afectuosos, a chuva nos teus ombros,
queria tocar, queria tocar-te, queria encontrar-me,
queria saciar a sede que inventa tantos nomes,
queria libertar a língua e ser o mundo.
Entre duas páginas ninguém dorme, ninguém morre.
Apago com a tua pele a pele do muro.
Estou rodeado de indícios silenciosos.
Leio axilas, pedras, dorsos, mãos.
Há uma pedra enterrada na carne ou uma árvore.
Apunhalo um punhal que não se apaga.
Repito com um lábio o que o outro cala.
Escuto o rumor de feridas que não sangram.
Não canto a luz na pedra fecundada.
Queria dizer, queria dizer a nudez da tua pele,
os ventos afectuosos, a chuva nos teus ombros,
queria tocar, queria tocar-te, queria encontrar-me,
queria saciar a sede que inventa tantos nomes,
queria libertar a língua e ser o mundo.
1 111
António Ramos Rosa
A Mulher
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
1 276
António Ramos Rosa
A Mulher
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
1 276
António Ramos Rosa
O Leitor
Alguém diz procura, procura a ligeireza
e o repouso das árvores, a água das vogais.
Afirma e nega a noite, abre e cerra os olhos,
vê as brilhantes partículas de poeira.
Reconhece os sentidos, os cintilantes livros.
Cálida respiração de uma colina, óleo
da lua na alcova das pálpebras, olho
que dissolve os espelhos, que abre a boca
das grutas: aparição sem nome
de alguém que é apenas sombra e folhas.
Não há ninguém no quarto subterrâneo,
ninguém, ninguém, ó caracol dos ecos,
ninguém a não ser esta lâmpada sonolenta,
esta escrita dos teus olhos viajantes
nas páginas onde cai a oblíqua sombra.
e o repouso das árvores, a água das vogais.
Afirma e nega a noite, abre e cerra os olhos,
vê as brilhantes partículas de poeira.
Reconhece os sentidos, os cintilantes livros.
Cálida respiração de uma colina, óleo
da lua na alcova das pálpebras, olho
que dissolve os espelhos, que abre a boca
das grutas: aparição sem nome
de alguém que é apenas sombra e folhas.
Não há ninguém no quarto subterrâneo,
ninguém, ninguém, ó caracol dos ecos,
ninguém a não ser esta lâmpada sonolenta,
esta escrita dos teus olhos viajantes
nas páginas onde cai a oblíqua sombra.
604
António Ramos Rosa
Escrita Ou Corpo
Ele prepara os incertos lugares. Escreve
o que escreveria um réptil pulsando sobre as pedras.
Segue a linha do braço da mulher até ao obscuro
lábio. Penetra na musgosa gruta
incandescente. Que perfume ancestral,
que orvalho ardente! Ele aprende a suavidade
da sombra e a luz de um aroma. É uma escrita
de voluptuosas armas nas páginas do vento.
Quando a pedra encontra a transparência
ou a transparência se tornou uma pedra,
abre-se o espaço das palavras que nós somos.
Monotonia alegre de uma serpente de água.
Que insensatez tão certa, nada começa, nada acaba.
Quantos astros cintilam sob as pálpebras!
Quantos barcos se acendem na folhagem!
o que escreveria um réptil pulsando sobre as pedras.
Segue a linha do braço da mulher até ao obscuro
lábio. Penetra na musgosa gruta
incandescente. Que perfume ancestral,
que orvalho ardente! Ele aprende a suavidade
da sombra e a luz de um aroma. É uma escrita
de voluptuosas armas nas páginas do vento.
Quando a pedra encontra a transparência
ou a transparência se tornou uma pedra,
abre-se o espaço das palavras que nós somos.
Monotonia alegre de uma serpente de água.
Que insensatez tão certa, nada começa, nada acaba.
Quantos astros cintilam sob as pálpebras!
Quantos barcos se acendem na folhagem!
586
António Ramos Rosa
Violenta No Obscuro
Por ímpetos de acaso tacteias o obscuro
violentamente nua na loucura das sílabas.
Com a agilidade do vento atravessas florestas
e torrentes. Num branco turbilhão te envolves
até te confundires toda com a areia
e a água. Não tens ainda um rosto, não inventaste
o rosto. Teus ombros acordam e devastam.
Propagas-te sem caminhos na fúria do desejo.
Entre pastores obscuros fertilizas a distância.
Sobes à tua sombra, mais vermelha do que nunca.
Em tuas formas de fogo e sangue e sémen
segues uma ordem secreta, uma coerência natural.
Quem poderá dizer, dançando como danças,
como vais terminar? Tu principias sempre.
És o corpo inesperado que se abre a todo o espaço.
violentamente nua na loucura das sílabas.
Com a agilidade do vento atravessas florestas
e torrentes. Num branco turbilhão te envolves
até te confundires toda com a areia
e a água. Não tens ainda um rosto, não inventaste
o rosto. Teus ombros acordam e devastam.
Propagas-te sem caminhos na fúria do desejo.
Entre pastores obscuros fertilizas a distância.
Sobes à tua sombra, mais vermelha do que nunca.
Em tuas formas de fogo e sangue e sémen
segues uma ordem secreta, uma coerência natural.
Quem poderá dizer, dançando como danças,
como vais terminar? Tu principias sempre.
És o corpo inesperado que se abre a todo o espaço.
562
António Ramos Rosa
O Que Designa o Desejo
O que designa o desejo, os primeiros dedos da água,
as colinas redondas, o orvalho sobre o seio,
alguma vespa febril, esguias formas nuas,
um animal, uma onda ou sucessivas ondas
de esfera em esfera e em espiral subindo.
Terrível turbilhão, prodigiosa dança
em que a energia se expande em oceanos de espaço
e os relâmpagos são lábios ou folhas que se alongam.
Que ligeira espuma nos dentes, que brisas tão marinhas,
que oscilantes planetas, que perfeitas carícias!
O ardor da terra canta a capacidade de estrela.
Palavras, mas só redondas pedras, corolas
de sangue, lâminas, ombros, garganta,
veias. Os cavalos remotos libertaram-se.
São longos os campos de seda acariciados.
as colinas redondas, o orvalho sobre o seio,
alguma vespa febril, esguias formas nuas,
um animal, uma onda ou sucessivas ondas
de esfera em esfera e em espiral subindo.
Terrível turbilhão, prodigiosa dança
em que a energia se expande em oceanos de espaço
e os relâmpagos são lábios ou folhas que se alongam.
Que ligeira espuma nos dentes, que brisas tão marinhas,
que oscilantes planetas, que perfeitas carícias!
O ardor da terra canta a capacidade de estrela.
Palavras, mas só redondas pedras, corolas
de sangue, lâminas, ombros, garganta,
veias. Os cavalos remotos libertaram-se.
São longos os campos de seda acariciados.
1 013
António Ramos Rosa
O Corpo Isolado, Maciço Provocante: a Ilha Lisa
O corpo isolado, maciço provocante: a ilha lisa
a velocidade do corpo na brancura: a cor do vinho
uma imagem fixa que persiste: a língua negra
forma excessiva do dia vegetação branca: os arames tremem
a insistência de um silêncio insuportável: os olhos líquidos
Agora o punho quase submerso revolve a água: o sol vacila
um campo inerte iluminado: a torre verde
depois
o centro neutro
silencioso de uma escrita flexível e furtiva
reflexos
sobreposições de letras
números
leitura do mais longínquo ao mais próximo
da profundeza indistinta aos incertos jogos
de uma incessante superfície branca e negra
a velocidade do corpo na brancura: a cor do vinho
uma imagem fixa que persiste: a língua negra
forma excessiva do dia vegetação branca: os arames tremem
a insistência de um silêncio insuportável: os olhos líquidos
Agora o punho quase submerso revolve a água: o sol vacila
um campo inerte iluminado: a torre verde
depois
o centro neutro
silencioso de uma escrita flexível e furtiva
reflexos
sobreposições de letras
números
leitura do mais longínquo ao mais próximo
da profundeza indistinta aos incertos jogos
de uma incessante superfície branca e negra
1 050
António Ramos Rosa
Mediadora Límpida
Delicada insondável
a mediadora límpida
desliza sem rumor
no repouso do seu espaço
Serenidade vivaz
íntima na distância
habitação de altura
esplendor do branco
Tão nada como imagem
profunda em transparência
Demora nos instantes
unidos do silêncio
Ouvem-se cantos de água
inundação de ser
Abolição de um reino
palácio de palavras
Libertos os contrários
toda a bruma se evola
Nitidez de perfis
Rio luminoso e lúcido
Secreta calma intensa
como um lento prodígio
intocável suprema
do mundo espaço vivo
Não se prolongam ecos
nem ressoam pisadas
em sua esfera estática
sem fuga nem exílio
Sua nudez e assombro
paixão silenciosa
concavidade presente
onde se descobre o ar
Pura firmeza de estar
à superfície ondula
em misteriosa leveza
habitação segredada.
a mediadora límpida
desliza sem rumor
no repouso do seu espaço
Serenidade vivaz
íntima na distância
habitação de altura
esplendor do branco
Tão nada como imagem
profunda em transparência
Demora nos instantes
unidos do silêncio
Ouvem-se cantos de água
inundação de ser
Abolição de um reino
palácio de palavras
Libertos os contrários
toda a bruma se evola
Nitidez de perfis
Rio luminoso e lúcido
Secreta calma intensa
como um lento prodígio
intocável suprema
do mundo espaço vivo
Não se prolongam ecos
nem ressoam pisadas
em sua esfera estática
sem fuga nem exílio
Sua nudez e assombro
paixão silenciosa
concavidade presente
onde se descobre o ar
Pura firmeza de estar
à superfície ondula
em misteriosa leveza
habitação segredada.
532
António Ramos Rosa
Mediadora Das Alturas
Clara ligeireza
na mais clara distância.
Silêncio ardente e suave.
Subtil incêndio.
Que tão leve tumulto
nas ligeiras alturas!
Tão íntima e calada
no imponderável.
Nos ares constrói a fábula
de um suavíssimo surgir.
Que cálidas certezas
entre nuvens e ares!
Nascer sempre, nascer
em errantes delícias,
na fácil transparência.
Que grácil equilíbrio!
na mais clara distância.
Silêncio ardente e suave.
Subtil incêndio.
Que tão leve tumulto
nas ligeiras alturas!
Tão íntima e calada
no imponderável.
Nos ares constrói a fábula
de um suavíssimo surgir.
Que cálidas certezas
entre nuvens e ares!
Nascer sempre, nascer
em errantes delícias,
na fácil transparência.
Que grácil equilíbrio!
1 009
António Ramos Rosa
Não Sei Escrever
Não sei escrever, oscilo no obscuro, a terra adormeceu.
Formas obscuras, ecos, sons, suspiros
e areias estéreis, o móvel sono do vento.
A calma completa do inerte sobre as pálpebras.
Vacuidade mineral sem vibrações.
Escrevo titubeante. Nada se move. Desço talvez
a uma sombra. Procuro minúsculos
prodígios, descubro insectos, pedras negras.
Onde o corpo errante? Que seja agora a folha
e o sangue verde, a pulsação do vento.
Escrevo, não sei escrever. Nada tenho a dizer.
Respiro algumas vezes. Respiro. É uma nuvem
incandescente na folhagem. É um espaço fundo e plano
e alto. O corpo inteiro na claridade azul.
Não está comigo agora e é um planeta branco.
Formas obscuras, ecos, sons, suspiros
e areias estéreis, o móvel sono do vento.
A calma completa do inerte sobre as pálpebras.
Vacuidade mineral sem vibrações.
Escrevo titubeante. Nada se move. Desço talvez
a uma sombra. Procuro minúsculos
prodígios, descubro insectos, pedras negras.
Onde o corpo errante? Que seja agora a folha
e o sangue verde, a pulsação do vento.
Escrevo, não sei escrever. Nada tenho a dizer.
Respiro algumas vezes. Respiro. É uma nuvem
incandescente na folhagem. É um espaço fundo e plano
e alto. O corpo inteiro na claridade azul.
Não está comigo agora e é um planeta branco.
1 143
António Ramos Rosa
Mediadora do Silêncio
Onde o incandescente
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?
Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.
Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.
Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?
Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.
Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.
Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
993
António Ramos Rosa
Maravilha Imóvel
Ninguém responde, nada responde. Não, tu não existes.
E todavia conheço as tuas pausas, o teu ardor, as vogais
incandescentes. Contigo escrevo na água, permaneço,
vibro, ondulo. Dilato-me. Alcanço o solo.
A minha boca ascende lentamente fulgurando.
És tu o corpo já sem distância, sem fronteiras?
O informulável, inacessível, ausente já?
O olhar penetrou até ao fundo o corpo amado.
Múltiplas as figuras multiplicam o deserto.
Que palavras se incendeiam, que cinzas ainda ardem?
Tudo se consumou. A maravilha imóvel
é agora uma cabeleira apagada, e não o azul
e não o verde. E no entanto algo flui e continua.
Como se a mão tocasse as veias negras da figura
ou as veias brancas, o silêncio desenhado.
E todavia conheço as tuas pausas, o teu ardor, as vogais
incandescentes. Contigo escrevo na água, permaneço,
vibro, ondulo. Dilato-me. Alcanço o solo.
A minha boca ascende lentamente fulgurando.
És tu o corpo já sem distância, sem fronteiras?
O informulável, inacessível, ausente já?
O olhar penetrou até ao fundo o corpo amado.
Múltiplas as figuras multiplicam o deserto.
Que palavras se incendeiam, que cinzas ainda ardem?
Tudo se consumou. A maravilha imóvel
é agora uma cabeleira apagada, e não o azul
e não o verde. E no entanto algo flui e continua.
Como se a mão tocasse as veias negras da figura
ou as veias brancas, o silêncio desenhado.
1 090
António Ramos Rosa
Caminhar Através de Corredores Intermináveis
Caminhar através de corredores intermináveis
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem
Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável
Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho
É este o corpo idêntico nu e nulo?
A figura desvanece-se por ser tão só imagem?
Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem
Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável
Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho
É este o corpo idêntico nu e nulo?
A figura desvanece-se por ser tão só imagem?
Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
665
António Ramos Rosa
Caminhar Através de Corredores Intermináveis
Caminhar através de corredores intermináveis
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem
Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável
Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho
É este o corpo idêntico nu e nulo?
A figura desvanece-se por ser tão só imagem?
Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem
Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável
Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho
É este o corpo idêntico nu e nulo?
A figura desvanece-se por ser tão só imagem?
Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
665
António Ramos Rosa
Sem Segredo Algum
Rodeio-te de nomes, água, fogo, sombra,
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.
A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.
O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.
A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.
O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.
1 244
António Ramos Rosa
Sem Segredo Algum
Rodeio-te de nomes, água, fogo, sombra,
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.
A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.
O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.
A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.
O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.
1 244
António Ramos Rosa
Corpo de Argila
Aqui, para que se abram os poros na floresta.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.
A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.
A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
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António Ramos Rosa
Corpo de Argila
Aqui, para que se abram os poros na floresta.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.
A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.
A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
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António Ramos Rosa
Falo de Um Desequilíbrio
Falo de um desequilíbrio gracioso
de um corpo. Linhas que se desagregam quase
unidas, na violência da sombra, por um raio de sol.
Pressinto a terra da minha sede, a terra do meu desejo,
escura, saborosa. E falo aqui da noite
e da figura frágil que eu amo, o seu espaço
que ignoro, o seu quarto intacto, o seu odor de rapariga.
Estes traços são negros como árvores. Uma parede
abriu-me os olhos: vejo linhas que dançam e brilham,
segredos que cintilam, sopros cegos, vocábulos da terra.
Oscilante, sempre, uma figura está entre as árvores, triste.
Que sei eu destas pétalas, destes pulsos, desta água?
Há uma felicidade fulgurante na sua nostalgia.
Eu desejo as palavras das suas fibras, a saliva da sua língua.
Desejaria habitar o seu caminho, bater à sua porta.
Eu não pertenço a nenhum reino, sou uma árvore
que não sabe ser imóvel para estar em tudo.
Sou esta mão que procura as evidências mais simples.
A figura amanhece entre oblíquas brisas, solitária.
Nada obscurece o canto da água nem as mãos antigas.
de um corpo. Linhas que se desagregam quase
unidas, na violência da sombra, por um raio de sol.
Pressinto a terra da minha sede, a terra do meu desejo,
escura, saborosa. E falo aqui da noite
e da figura frágil que eu amo, o seu espaço
que ignoro, o seu quarto intacto, o seu odor de rapariga.
Estes traços são negros como árvores. Uma parede
abriu-me os olhos: vejo linhas que dançam e brilham,
segredos que cintilam, sopros cegos, vocábulos da terra.
Oscilante, sempre, uma figura está entre as árvores, triste.
Que sei eu destas pétalas, destes pulsos, desta água?
Há uma felicidade fulgurante na sua nostalgia.
Eu desejo as palavras das suas fibras, a saliva da sua língua.
Desejaria habitar o seu caminho, bater à sua porta.
Eu não pertenço a nenhum reino, sou uma árvore
que não sabe ser imóvel para estar em tudo.
Sou esta mão que procura as evidências mais simples.
A figura amanhece entre oblíquas brisas, solitária.
Nada obscurece o canto da água nem as mãos antigas.
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António Ramos Rosa
Figuras do Ar E da Terra
A língua liberta-se no silêncio e no espaço.
As graciosas folhas, as feridas nas colinas, os declives
incendeiam-se no azul. Alguma coisa se altera
subtil, inominável. Figuras do ar
enlaçam-se, dissipam-se, renovam-se.
É a hora da paixão das árvores e da inocência selvagem.
Entre o verde divisam-se flancos amorosos.
Uma espádua adormece na brancura dos murmúrios.
Sobre as coxas da terra caem as cascatas obscuras.
A vida ondula como uma árvore sob o sol.
Em suave indolência de seiva os músculos movem-se.
Respiram os contrários em formas simultâneas.
É uma fábula completa, é um país de silêncios.
Vibra, vibra o anel verde-negro da sombra.
Belo é o desejo e belo é o seu espaço.
As graciosas folhas, as feridas nas colinas, os declives
incendeiam-se no azul. Alguma coisa se altera
subtil, inominável. Figuras do ar
enlaçam-se, dissipam-se, renovam-se.
É a hora da paixão das árvores e da inocência selvagem.
Entre o verde divisam-se flancos amorosos.
Uma espádua adormece na brancura dos murmúrios.
Sobre as coxas da terra caem as cascatas obscuras.
A vida ondula como uma árvore sob o sol.
Em suave indolência de seiva os músculos movem-se.
Respiram os contrários em formas simultâneas.
É uma fábula completa, é um país de silêncios.
Vibra, vibra o anel verde-negro da sombra.
Belo é o desejo e belo é o seu espaço.
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