Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Fronteiras Não Fronteiras
As fronteiras são estas não fronteiras.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
934
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Dias
Cada página um dia
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
1 001
António Ramos Rosa
Onde a Terra Será Branca
Onde a terra será branca. Num domínio
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
1 013
António Ramos Rosa
Unidade do Silêncio
Unidade do silêncio com o corpo da água
irradiação de uma montanha
cimo e abismo numa única linha
melancolia viva e fresca floresta e pomba
a beleza frágil a beleza serena
arde a opacidade arde a madeira do mundo
revela-se a superfície fundamental
invulnerável a harmonia que inunda
Frases frases já não complicadas
mas orientadas
para a plenitude do ser
Redes vindas do ignorado disseminam-se
Uma paciência de mil árvores
Dilata-se a estrela de água
Praias praias onde os segredos se desvelam
Por toda a parte mediações para o desconhecido
Vagas vagas de ligeireza primaveril
Clara visão do fundo vibrante continuidade
igual a tudo na soberania do simples
irradiação de uma montanha
cimo e abismo numa única linha
melancolia viva e fresca floresta e pomba
a beleza frágil a beleza serena
arde a opacidade arde a madeira do mundo
revela-se a superfície fundamental
invulnerável a harmonia que inunda
Frases frases já não complicadas
mas orientadas
para a plenitude do ser
Redes vindas do ignorado disseminam-se
Uma paciência de mil árvores
Dilata-se a estrela de água
Praias praias onde os segredos se desvelam
Por toda a parte mediações para o desconhecido
Vagas vagas de ligeireza primaveril
Clara visão do fundo vibrante continuidade
igual a tudo na soberania do simples
1 094
António Ramos Rosa
Mediadora Caminhante
Perdida em suave lucidez
na dolência do vazio. Nada
decifra, caminha claramente
nas diurnas arenas derradeiras.
Um inesgotável desejo de nascer
ou ser o odor da terra. Quem é a incógnita
soberana? Uma vigília
de praias. Uma tranquilidade de árvores.
Tudo é liso e repousa. Escuta
os ramos do silêncio, a simplicidade
do sangue. Perdida em suave
lucidez.
na dolência do vazio. Nada
decifra, caminha claramente
nas diurnas arenas derradeiras.
Um inesgotável desejo de nascer
ou ser o odor da terra. Quem é a incógnita
soberana? Uma vigília
de praias. Uma tranquilidade de árvores.
Tudo é liso e repousa. Escuta
os ramos do silêncio, a simplicidade
do sangue. Perdida em suave
lucidez.
1 109
António Ramos Rosa
Mediadora do Corpo
Vive no meio de um incêndio
entre o silêncio e a água.
Azul veloz, o sangue do desejo.
Ninguém a defende da perfeita
noite. Move-se entre espelhos
e sombras. Cumpre-se a matéria
com as feridas do vento.
Incendeia os sulcos dos acordes.
Um tremor de planeta, um som negro,
reflexos de um confuso esplendor.
Pólen de pedra nos flancos.
Um voo permanente, submerso,
através dos dédalos, dos círculos,
das móveis dunas do deserto.
Estrela, sim, estrela de argila
em núpcias consigo e com o mundo.
entre o silêncio e a água.
Azul veloz, o sangue do desejo.
Ninguém a defende da perfeita
noite. Move-se entre espelhos
e sombras. Cumpre-se a matéria
com as feridas do vento.
Incendeia os sulcos dos acordes.
Um tremor de planeta, um som negro,
reflexos de um confuso esplendor.
Pólen de pedra nos flancos.
Um voo permanente, submerso,
através dos dédalos, dos círculos,
das móveis dunas do deserto.
Estrela, sim, estrela de argila
em núpcias consigo e com o mundo.
1 110
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Frutos Nocturnos
Estão acesos os obscuros
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
1 093
António Ramos Rosa
Mediadora da Construção
Construir um corpo com as sílabas
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.
No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.
Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.
Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento
ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.
No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.
Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.
Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento
ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.
523
António Ramos Rosa
A Esfera Unificada
Próxima a folhagem dos cabelos
cordial suave a cor das árvores
todas as estruturas simplificadas ébrias
o silêncio mais denso e subtil
já sem fronteiras vasto rio tranquilo através de tudo
momento de permanência imponderável
avanço sobre praias de reminiscências subtílimas
sentidos radiantes
profundo despertar em calma limpidez
abertura tão longa e verde
as palavras dizem finalmente as legendas do longínquo
por toda a parte frémitos florescências
as superfícies serenas respondem
uma outra orientação mais ligeira mais livre
libertou-me da névoa habitual
os cimos emergem
vacuidade residência na vacuidade
em tudo a entrega à palpitação esquecida
quanta coisa eliminada elidida
pelo esplendor da esfera unificada
cordial suave a cor das árvores
todas as estruturas simplificadas ébrias
o silêncio mais denso e subtil
já sem fronteiras vasto rio tranquilo através de tudo
momento de permanência imponderável
avanço sobre praias de reminiscências subtílimas
sentidos radiantes
profundo despertar em calma limpidez
abertura tão longa e verde
as palavras dizem finalmente as legendas do longínquo
por toda a parte frémitos florescências
as superfícies serenas respondem
uma outra orientação mais ligeira mais livre
libertou-me da névoa habitual
os cimos emergem
vacuidade residência na vacuidade
em tudo a entrega à palpitação esquecida
quanta coisa eliminada elidida
pelo esplendor da esfera unificada
1 132
António Ramos Rosa
Mutação da Distância
Mutação da distância
Uma íntima brisa se levanta
Ritmos unânimes
consonantes com ignorados fundamentos
Apoteose oculta desenrola-se num branco fausto
Nunca abrira esta porta e no entanto abriu-se
como se fosse o caminho de sempre
O ruído o repouso o movimento
transformaram-se numa dicção das coisas
A interrogação desposa a textura iminente
Aproximam-se superfícies
Uma sombra vai e vem até se transformar em pedra
Ilhas de sílabas vão formando um arquipélago verde
Revelação de outro sabor ignorado
Carícias de carícias vibrações mais finas
Pela transparência desnudado dilato-me na densidade
Prolonga-se o imponderável o mínimo o subtil
Tácita no sangue lavra a flora do permanente
Uma íntima brisa se levanta
Ritmos unânimes
consonantes com ignorados fundamentos
Apoteose oculta desenrola-se num branco fausto
Nunca abrira esta porta e no entanto abriu-se
como se fosse o caminho de sempre
O ruído o repouso o movimento
transformaram-se numa dicção das coisas
A interrogação desposa a textura iminente
Aproximam-se superfícies
Uma sombra vai e vem até se transformar em pedra
Ilhas de sílabas vão formando um arquipélago verde
Revelação de outro sabor ignorado
Carícias de carícias vibrações mais finas
Pela transparência desnudado dilato-me na densidade
Prolonga-se o imponderável o mínimo o subtil
Tácita no sangue lavra a flora do permanente
935
António Ramos Rosa
Mediadora da Página
Desaparece. Renasce.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas
intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio
requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas
intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio
requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
1 034
António Ramos Rosa
Mediadora da Página
Desaparece. Renasce.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas
intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio
requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas
intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio
requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
1 034
António Ramos Rosa
Mediadora da Página
Desaparece. Renasce.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas
intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio
requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas
intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio
requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
1 034
António Ramos Rosa
Mediadora da Ausência
O sol é uma noite suave.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.
Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.
De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.
Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.
Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.
De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.
Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
553
António Ramos Rosa
Mediadora do Olvido
Não soam grandes vozes no olvido.
Move-se a água não sulcada
de viagens.
Marcas de luz percorrem o silêncio.
Não sinais já. Indícios esquivos.
Simples estar aqui flutuando
no inocente instante.
O eco de uma festa.
A sede de sentido, o ressurgir
no abandono da água do silêncio.
Gestação réptil.
Afirma-se o impenetrável na silenciosa memória.
Move-se a água não sulcada
de viagens.
Marcas de luz percorrem o silêncio.
Não sinais já. Indícios esquivos.
Simples estar aqui flutuando
no inocente instante.
O eco de uma festa.
A sede de sentido, o ressurgir
no abandono da água do silêncio.
Gestação réptil.
Afirma-se o impenetrável na silenciosa memória.
910
António Ramos Rosa
Mediadora do Olvido
Não soam grandes vozes no olvido.
Move-se a água não sulcada
de viagens.
Marcas de luz percorrem o silêncio.
Não sinais já. Indícios esquivos.
Simples estar aqui flutuando
no inocente instante.
O eco de uma festa.
A sede de sentido, o ressurgir
no abandono da água do silêncio.
Gestação réptil.
Afirma-se o impenetrável na silenciosa memória.
Move-se a água não sulcada
de viagens.
Marcas de luz percorrem o silêncio.
Não sinais já. Indícios esquivos.
Simples estar aqui flutuando
no inocente instante.
O eco de uma festa.
A sede de sentido, o ressurgir
no abandono da água do silêncio.
Gestação réptil.
Afirma-se o impenetrável na silenciosa memória.
910
António Ramos Rosa
Mediadora Negra Ii
Cresce num turbilhão de areia
e vidro. É uma evidência negra.
Entre oblíquas aves gira.
Dorme nas gargantas da sombra.
O centro cintila? Relâmpagos
rápidos não arredondam o campo.
Como unir a terra à estrela?
Seu ardor negro separa.
Vibra a língua, vibra o corpo
da água cega que a nutre,
sem esplendor de inteligência.
Muralhas, muralhas densas.
Não perfaz, não principia
por terras, máquinas, sombras.
Gritos vãos e nenhum canto.
Sangue frio do movimento.
e vidro. É uma evidência negra.
Entre oblíquas aves gira.
Dorme nas gargantas da sombra.
O centro cintila? Relâmpagos
rápidos não arredondam o campo.
Como unir a terra à estrela?
Seu ardor negro separa.
Vibra a língua, vibra o corpo
da água cega que a nutre,
sem esplendor de inteligência.
Muralhas, muralhas densas.
Não perfaz, não principia
por terras, máquinas, sombras.
Gritos vãos e nenhum canto.
Sangue frio do movimento.
1 163
António Ramos Rosa
Mediadora Terrestre
A sua língua é um jovem animal.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!
Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!
Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
1 010
António Ramos Rosa
Jardim Sol
A lucidez é uma música da água
a respiração compreende sem imagens
Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma
A facilidade é um rio
e um silêncio animal
Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído jardim
sol
O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
a respiração compreende sem imagens
Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma
A facilidade é um rio
e um silêncio animal
Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído jardim
sol
O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
1 136
António Ramos Rosa
Mediadora da Escrita
Precipita-se ou vacila cintilante
subterrânea selvagem
a transparente espuma atravessando.
Desenhando os obstinados traços
busca a figura do desejo e do repouso
numa superfície plana e verde.
Espessa e subtil entre o fulgor e a névoa,
interrompe, acumula, esquece,
forma a sua própria forma. Contornos
mais vibrantes do que o círculo.
A face que ela imprime é a do corpo.
subterrânea selvagem
a transparente espuma atravessando.
Desenhando os obstinados traços
busca a figura do desejo e do repouso
numa superfície plana e verde.
Espessa e subtil entre o fulgor e a névoa,
interrompe, acumula, esquece,
forma a sua própria forma. Contornos
mais vibrantes do que o círculo.
A face que ela imprime é a do corpo.
580
António Ramos Rosa
Mediadora do Acaso
Nua, no acaso,
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,
hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso
subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,
hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso
subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
1 085
António Ramos Rosa
Na Iminência
Lentidão de membros voluptuosa
Um turbilhão compacto de sinais evola-se
Este é o vazio secreto da iminência
Do fundo das pedras nasce uma respiração
A serenidade da suspensão não insegura
mas atenta vibrante o esplendor
que se demora em seu arco de estar
Sabemos na claridade um saber de vento e ervas
Ser aqui
no sopro da aragem vago e amplo
De novo a promessa nos limites
Eclipse talvez de tanta coisa
Terra que promete o corpo que o corpo compreende
Ar ignorado ar do ignorado
aérea lucidez nos corpos nus
Um turbilhão compacto de sinais evola-se
Este é o vazio secreto da iminência
Do fundo das pedras nasce uma respiração
A serenidade da suspensão não insegura
mas atenta vibrante o esplendor
que se demora em seu arco de estar
Sabemos na claridade um saber de vento e ervas
Ser aqui
no sopro da aragem vago e amplo
De novo a promessa nos limites
Eclipse talvez de tanta coisa
Terra que promete o corpo que o corpo compreende
Ar ignorado ar do ignorado
aérea lucidez nos corpos nus
1 048