Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
68. Descontínuas, Desfechadas Linhas
68
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
1 093
António Ramos Rosa
68. Descontínuas, Desfechadas Linhas
68
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
1 093
António Ramos Rosa
64. Mão Sem Sombra Sensível Veio
64
Mão sem sombra sensível veio
de água estranha escrita
do animal sem referência a terra
na ansiosa paciência da sua teia.
Na ferida ardente de uma página
domina a feliz respiração
antes do aparecimento da folhagem.
Soletrar o espaço o quanto de água
sobre a brilhante sede de uma parede ardente
e respirando o espaço no espaço da água
quadriculada de um claro verde.
Mão sem sombra sensível veio
de água estranha escrita
do animal sem referência a terra
na ansiosa paciência da sua teia.
Na ferida ardente de uma página
domina a feliz respiração
antes do aparecimento da folhagem.
Soletrar o espaço o quanto de água
sobre a brilhante sede de uma parede ardente
e respirando o espaço no espaço da água
quadriculada de um claro verde.
1 060
António Ramos Rosa
70. Incide a Água Onde Ainda É Água
70
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.
Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.
As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.
Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.
As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
1 133
António Ramos Rosa
70. Incide a Água Onde Ainda É Água
70
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.
Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.
As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.
Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.
As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
1 133
António Ramos Rosa
66. Arma de Folhas E de Folhas
66
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.
O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.
Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.
O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.
Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
1 117
António Ramos Rosa
77. Inflectida a Figura Recebe a Face
77
Inflectida a figura recebe a face
que vive no discurso das pedras dos detritos.
Na ausência da paisagem a ausência da figura.
Ó noite não ó dia manhã da vida forte
aí a face na multidão vestida
ou na nudez da cama do miserável quarto.
Com o suor da face e as pernas negras húmidas
com a humildade do sono na urina breve
vive a figura aqui
Vive? Respira pobre.
Inflectida a figura recebe a face
que vive no discurso das pedras dos detritos.
Na ausência da paisagem a ausência da figura.
Ó noite não ó dia manhã da vida forte
aí a face na multidão vestida
ou na nudez da cama do miserável quarto.
Com o suor da face e as pernas negras húmidas
com a humildade do sono na urina breve
vive a figura aqui
Vive? Respira pobre.
1 043
António Ramos Rosa
Consonância do Intacto
Consonância do intacto
com o corpo
nudez
de pedra
exacta
com o corpo
nudez
de pedra
exacta
1 057
António Ramos Rosa
86. Desobstruindo o Espaço Só Esta Mancha
86
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.
Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?
Dando lugar ao espaço à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.
Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?
Dando lugar ao espaço à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
872
António Ramos Rosa
Entre Dois Espaços Duas Sombras Altas
Entre dois espaços duas sombras altas
o movimento da montanha o vazio
nos passos
talvez o texto da terra talvez a terra e a mão
antes das pálpebras no ar
Caminho não de lábios mas de sombras
sobre a raiz do lápis sobre o pulso
caminho ou não
no círculo
dos passos
e esta é a frase do caminho
ou a lucidez do braço
o movimento da montanha o vazio
nos passos
talvez o texto da terra talvez a terra e a mão
antes das pálpebras no ar
Caminho não de lábios mas de sombras
sobre a raiz do lápis sobre o pulso
caminho ou não
no círculo
dos passos
e esta é a frase do caminho
ou a lucidez do braço
1 110
António Ramos Rosa
67. Veria Aqui o Rosto, o Punho Frágil
67
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.
Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.
Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.
Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.
Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
1 081
António Ramos Rosa
78. Rosto Para Dizer o Rosto Rápido
78
Rosto para dizer o rosto rápido
pássaro quotidiano obscuro e vivo
poema da duração da alegria
do instante / do rosto pássaro.
Impulso e ombro táctil quase o beijo
sobre lábios de silêncio e de palavras
lábios lábios com seus dentes brancos
o que dizem o que falam negro e branco.
Aqui recuperada a perda exacta
da fala viva do rosto pássaro
no instante de dizer exaltação perdida.
Rosto para dizer o rosto rápido
pássaro quotidiano obscuro e vivo
poema da duração da alegria
do instante / do rosto pássaro.
Impulso e ombro táctil quase o beijo
sobre lábios de silêncio e de palavras
lábios lábios com seus dentes brancos
o que dizem o que falam negro e branco.
Aqui recuperada a perda exacta
da fala viva do rosto pássaro
no instante de dizer exaltação perdida.
1 007
António Ramos Rosa
Que Importam Estas Pálpebras Na Cerração
Que importam estas pálpebras na cerração
da terra
um olho dilacerado vê a nudez de um corpo
obstinada desordem dos membros dissolvidos
o latejante trajecto da obscura mão
atinge o vazio de um centro o limite vivo
boca na árvore
iluminado seio caminho
do pulso
da terra
um olho dilacerado vê a nudez de um corpo
obstinada desordem dos membros dissolvidos
o latejante trajecto da obscura mão
atinge o vazio de um centro o limite vivo
boca na árvore
iluminado seio caminho
do pulso
533
António Ramos Rosa
Progridem Os Silêncios
Progridem os silêncios
— tudo é oco ou opaco?
a pressão do tempo cai sobre a nuca negra
o mundo da língua é o murmúrio de um barco
e um ritmo subsiste um perfume de pedra
uma laranja um copo um fragmento a folha
a gravidade cálida nos elementos livres
o negro
transmite
o branco a intensidade silenciosa
— tudo é oco ou opaco?
a pressão do tempo cai sobre a nuca negra
o mundo da língua é o murmúrio de um barco
e um ritmo subsiste um perfume de pedra
uma laranja um copo um fragmento a folha
a gravidade cálida nos elementos livres
o negro
transmite
o branco a intensidade silenciosa
1 068
António Ramos Rosa
88. Como Dizê-Lo: Ei-Lo, Aqui
88
Como dizê-lo: ei-lo, aqui
não imagem, não aspecto da figura
mas o incêndio de todas as imagens.
Como dizer a referência absoluta
irreal da folhagem no cavalo
da fuga absoluta, pedra e não pedra
água e não água, terra absoluta.
Como dizer-te, tu que não és tu nem nada
que és a figura desfeita na terra putrefacta
este resto impuro onde se afunda a boca.
Março-Maio de 1978
Como dizê-lo: ei-lo, aqui
não imagem, não aspecto da figura
mas o incêndio de todas as imagens.
Como dizer a referência absoluta
irreal da folhagem no cavalo
da fuga absoluta, pedra e não pedra
água e não água, terra absoluta.
Como dizer-te, tu que não és tu nem nada
que és a figura desfeita na terra putrefacta
este resto impuro onde se afunda a boca.
Março-Maio de 1978
1 001
António Ramos Rosa
62. Não a Raiva Perspicaz E Ainda Ordenadora
62
Não a raiva perspicaz e ainda ordenadora
mas a perna límpida, mas a perna negra
será obsessão atravessando a página
até à periferia ou à margem de cada
verso ou linha do texto ou do poema
ou não poema. Tudo o que é poema,
inanição — a lâmpada da inanição existe
num bairro pobre a uma esquina visível.
Essa lâmpada é de um amarelo de larva
e revela toda a solidão inenarrável.
Ela é a lâmpada mais triste: o informulado existe.
Não a raiva perspicaz e ainda ordenadora
mas a perna límpida, mas a perna negra
será obsessão atravessando a página
até à periferia ou à margem de cada
verso ou linha do texto ou do poema
ou não poema. Tudo o que é poema,
inanição — a lâmpada da inanição existe
num bairro pobre a uma esquina visível.
Essa lâmpada é de um amarelo de larva
e revela toda a solidão inenarrável.
Ela é a lâmpada mais triste: o informulado existe.
1 047
António Ramos Rosa
71. Eis a Frescura No Côncavo Das Pedras
71
Eis a frescura no côncavo das pedras
e a fábula dos insectos na folhagem
eis o sinal da manhã e a invenção
da mão na água e o sopro subtil.
Tudo isto eu saberia, eu vou saber, eu sei
porque não sei na procura dos sinais
a maravilha no limiar das formas
em que aprendo a ser o que já sou.
Eu aprenderei a partir sem conhecer
para onde vou nem olharei atrás
eu aprenderei que o presente é o presente.
Eis a frescura no côncavo das pedras
e a fábula dos insectos na folhagem
eis o sinal da manhã e a invenção
da mão na água e o sopro subtil.
Tudo isto eu saberia, eu vou saber, eu sei
porque não sei na procura dos sinais
a maravilha no limiar das formas
em que aprendo a ser o que já sou.
Eu aprenderei a partir sem conhecer
para onde vou nem olharei atrás
eu aprenderei que o presente é o presente.
1 057
António Ramos Rosa
71. Eis a Frescura No Côncavo Das Pedras
71
Eis a frescura no côncavo das pedras
e a fábula dos insectos na folhagem
eis o sinal da manhã e a invenção
da mão na água e o sopro subtil.
Tudo isto eu saberia, eu vou saber, eu sei
porque não sei na procura dos sinais
a maravilha no limiar das formas
em que aprendo a ser o que já sou.
Eu aprenderei a partir sem conhecer
para onde vou nem olharei atrás
eu aprenderei que o presente é o presente.
Eis a frescura no côncavo das pedras
e a fábula dos insectos na folhagem
eis o sinal da manhã e a invenção
da mão na água e o sopro subtil.
Tudo isto eu saberia, eu vou saber, eu sei
porque não sei na procura dos sinais
a maravilha no limiar das formas
em que aprendo a ser o que já sou.
Eu aprenderei a partir sem conhecer
para onde vou nem olharei atrás
eu aprenderei que o presente é o presente.
1 057
António Ramos Rosa
81. Verde E Tu Verás Por Sobre o Sono
81
Verde e tu verás por sobre o sono
das marés o único céu abrindo o mar
ou senão o campo em que verás o céu das árvores.
E o animal que não dança mas que exalta
o corpo da mulher da lança
ela própria a lança o pulso que a persegue.
A lisa redondez é toda ela face
figura sem imagem e imagem de outra imagem
— verde e tu verás a extrema lança: verde.
Verde e tu verás por sobre o sono
das marés o único céu abrindo o mar
ou senão o campo em que verás o céu das árvores.
E o animal que não dança mas que exalta
o corpo da mulher da lança
ela própria a lança o pulso que a persegue.
A lisa redondez é toda ela face
figura sem imagem e imagem de outra imagem
— verde e tu verás a extrema lança: verde.
1 053
António Ramos Rosa
83. o Pulso Activo. a Água Dos Insectos
83
O pulso activo. A água dos insectos
abertura e queda noutro poema visto
e fogo oculto solicitando a pedra
a queda de uma cor talvez vermelha.
O corpo sob a nuvem, o pulso activo,
o corpo descoberto sob o lençol da pedra
com os lábios devorando os lábios livres
e com a água de um ventre harmonioso.
E o ser translúcido sob o pulso activo
o ser da queda na abertura viva
a terra descoberta na transparência da água.
O pulso activo. A água dos insectos
abertura e queda noutro poema visto
e fogo oculto solicitando a pedra
a queda de uma cor talvez vermelha.
O corpo sob a nuvem, o pulso activo,
o corpo descoberto sob o lençol da pedra
com os lábios devorando os lábios livres
e com a água de um ventre harmonioso.
E o ser translúcido sob o pulso activo
o ser da queda na abertura viva
a terra descoberta na transparência da água.
1 062
António Ramos Rosa
69. Pedra E a Perfeição, Essa Frescura
69
Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pobreza numa festa.
Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.
Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.
Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pobreza numa festa.
Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.
Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.
535
António Ramos Rosa
80. Anca, E Depois Campo, E Forte
80
Anca, e depois campo, e forte
a curva dançante mas discreta e dura
ela é campo não azul, corpo e dança
a deusa dos olhos e da rua e da dança.
Ela é o corpo, ela é a dança, ela é a rua
e os olhos brilham a boca arde no campo
arde no brilho do pássaro vivamente
desloca a pedra para que ela passe.
Anca na boca na língua quadril forte
dança no campo sem flores no passeio
passa sobre a capa da visão translúcida.
Anca, e depois campo, e forte
a curva dançante mas discreta e dura
ela é campo não azul, corpo e dança
a deusa dos olhos e da rua e da dança.
Ela é o corpo, ela é a dança, ela é a rua
e os olhos brilham a boca arde no campo
arde no brilho do pássaro vivamente
desloca a pedra para que ela passe.
Anca na boca na língua quadril forte
dança no campo sem flores no passeio
passa sobre a capa da visão translúcida.
1 222
António Ramos Rosa
Dói-Me Uma Noite de Terra Sobre a Fronte
Dói-me uma noite de terra sobre a fronte
mínimo coral nocturno suspensão presente
— promontório
sem a memória das imagens
no círculo
dos derradeiros insectos
mínimo coral nocturno suspensão presente
— promontório
sem a memória das imagens
no círculo
dos derradeiros insectos
1 010
António Ramos Rosa
48. Um Caduco Tema Levanta a Cabeleira
48
Um caduco tema levanta a cabeleira
na tessitura cálida a crespa cabeleira
mais escura: assim as línguas tensas
ou um punhado de estrelas no ondear das ondas.
Cintilações que em ancas reverberam
e fragrâncias da inocência da água
de um seio, a teia canta, a teia tensa
e o corpo é lobo e pomba, é recesso e fragrância.
Alguns dirão: subsiste o tema: mas só palavras se levantam
só palavras se lêem no vento das candeias
só a língua é legível e acende a íris.
Um caduco tema levanta a cabeleira
na tessitura cálida a crespa cabeleira
mais escura: assim as línguas tensas
ou um punhado de estrelas no ondear das ondas.
Cintilações que em ancas reverberam
e fragrâncias da inocência da água
de um seio, a teia canta, a teia tensa
e o corpo é lobo e pomba, é recesso e fragrância.
Alguns dirão: subsiste o tema: mas só palavras se levantam
só palavras se lêem no vento das candeias
só a língua é legível e acende a íris.
1 006