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Poemas neste tema

Vida e Existência

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

2. o Círculo de Cal

Lugar último indecifrável     noite e mar
com que principio um não à morte no verão das veias
algo se rasga ventre e boca contra o vento
assalto às vértebras no nevoeiro do promontório
língua ou boca que abro ao vasto círculo
âmbito do silêncio branco    lugar mortal    oceano
um grito me percorre e rasga os olhos
a espuma verde o suor na boca a voragem do silêncio

Nenhum lugar para a boca     rosto sufocado
palavra regelada     brancura escura
como romper o círculo de cal
como fundar o lugar do fogo silencioso?

Seriam lábios, ombros, púbis e o rosto
no desejo liberto, mas
como libertar a mão
e figurar o rosto
rosto sem lábios máscara do mar
ventre dos dentes putrefacção da pedra
inércia de ombros     obstáculo informe

Apelo ao espaço às ervas do silêncio ao ar
As omoplatas cerram-se cerra-se o horizonte
É preciso que sulque a areia que uma sílaba trema
que se dilacere o espaço um corpo um ventre

Que aqui não é o lugar
aqui não é aqui ou é a extrema cerração
Onde o verde nesta aridez do sempre?
Mas escrevo
abro um buraco na terra
afundo-me como um osso no silêncio dos ossos

Supérflua pobre escrita inútil
precisava de garras ou de outra luta escrita
uma outra mão a outra mão que desescreve
que desespera e pulveriza e liberta o sentido

Libertarei a água desta pedra ou deste ventre
Gritarei gritarei sobre as formigas verdes
espalharei no vento nomes subversos
Consagrarei uma alta pedra a um silêncio novo
Abrirei um olho na pedra um olho lúcido liberto

Inventarei outra escrita entre os muros
Anularei a magia branca da esperança vã
Ó pedra verde ou porque não a vagina viva
a voracidade audaz de uma ruptura nova

Onde os companheiros desta extrema terra?
Eu direi o ângulo do ângulo a assimetria das cores
a chama dos seios abertos dos corpos vivos
eu direi a vida do instante no instante livre
abrirei a clareira onde o rosto ama o silêncio
onde o silêncio se ama e a terra se consagra

E tu estarás aqui contra a morte
e contra a morte da linguagem morta
ouro novo do humor das árvores
cinema dos membros revoltados livres
cimo do chão repleto de amorosos corpos
subversiva ternura contra os aparelhos sinistros
e jovens jovens jovens com as armas do amor
1 100
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

2. o Círculo de Cal

Lugar último indecifrável     noite e mar
com que principio um não à morte no verão das veias
algo se rasga ventre e boca contra o vento
assalto às vértebras no nevoeiro do promontório
língua ou boca que abro ao vasto círculo
âmbito do silêncio branco    lugar mortal    oceano
um grito me percorre e rasga os olhos
a espuma verde o suor na boca a voragem do silêncio

Nenhum lugar para a boca     rosto sufocado
palavra regelada     brancura escura
como romper o círculo de cal
como fundar o lugar do fogo silencioso?

Seriam lábios, ombros, púbis e o rosto
no desejo liberto, mas
como libertar a mão
e figurar o rosto
rosto sem lábios máscara do mar
ventre dos dentes putrefacção da pedra
inércia de ombros     obstáculo informe

Apelo ao espaço às ervas do silêncio ao ar
As omoplatas cerram-se cerra-se o horizonte
É preciso que sulque a areia que uma sílaba trema
que se dilacere o espaço um corpo um ventre

Que aqui não é o lugar
aqui não é aqui ou é a extrema cerração
Onde o verde nesta aridez do sempre?
Mas escrevo
abro um buraco na terra
afundo-me como um osso no silêncio dos ossos

Supérflua pobre escrita inútil
precisava de garras ou de outra luta escrita
uma outra mão a outra mão que desescreve
que desespera e pulveriza e liberta o sentido

Libertarei a água desta pedra ou deste ventre
Gritarei gritarei sobre as formigas verdes
espalharei no vento nomes subversos
Consagrarei uma alta pedra a um silêncio novo
Abrirei um olho na pedra um olho lúcido liberto

Inventarei outra escrita entre os muros
Anularei a magia branca da esperança vã
Ó pedra verde ou porque não a vagina viva
a voracidade audaz de uma ruptura nova

Onde os companheiros desta extrema terra?
Eu direi o ângulo do ângulo a assimetria das cores
a chama dos seios abertos dos corpos vivos
eu direi a vida do instante no instante livre
abrirei a clareira onde o rosto ama o silêncio
onde o silêncio se ama e a terra se consagra

E tu estarás aqui contra a morte
e contra a morte da linguagem morta
ouro novo do humor das árvores
cinema dos membros revoltados livres
cimo do chão repleto de amorosos corpos
subversiva ternura contra os aparelhos sinistros
e jovens jovens jovens com as armas do amor
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

3. Para o Incêndio da Festa

Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue

O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar

Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue

Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa

Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia

Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca     estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa

Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa

E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa

Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza

Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?

Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste

Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa

Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
1 232
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

3. Para o Incêndio da Festa

Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue

O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar

Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue

Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa

Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia

Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca     estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa

Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa

E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa

Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza

Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?

Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste

Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa

Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
1 232
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Palavra No Deserto

à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?

Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.

A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.

Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?

Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?

Será este o sinal? As palavras nascem?

Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.

O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
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