Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Aqui Se Abre Um Parêntese
Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
978
António Ramos Rosa
Aqui Se Abre Um Parêntese
Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
978
António Ramos Rosa
Eis a Primeira Proposição Clara
Eis a primeira proposição clara
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
996
António Ramos Rosa
Que Sinal Acender?
Que sinal acender?
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
986
António Ramos Rosa
Que Sinal Acender?
Que sinal acender?
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
986
António Ramos Rosa
1. a (In)Coerência do Fogo
O desenho a fogo: os dedos e o sopro.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?
O corpo e essa onda, essa pedra — é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto — o mar.
O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras
Onde o corpo onde o desejo
perante o vento
a frágil força do corpo (aranha inerme)?
Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar
Eu continuo com estas pedras no deserto — no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento — e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?
Mas se não fosse o deserto — se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras
— e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte este céu deserto
esta outra morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa do externo
com a morte no deserto
com as sílabas no deserto
Mas se o silêncio da praia — onde o mar? —
o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro — e a respiração do mar?
Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?
Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?
Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto
Mas isto é, isto é, como se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?
Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco — em frente o mar?
Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?
A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.
A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.
As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?
O corpo e essa onda, essa pedra — é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto — o mar.
O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras
Onde o corpo onde o desejo
perante o vento
a frágil força do corpo (aranha inerme)?
Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar
Eu continuo com estas pedras no deserto — no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento — e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?
Mas se não fosse o deserto — se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras
— e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte este céu deserto
esta outra morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa do externo
com a morte no deserto
com as sílabas no deserto
Mas se o silêncio da praia — onde o mar? —
o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro — e a respiração do mar?
Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?
Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?
Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto
Mas isto é, isto é, como se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?
Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco — em frente o mar?
Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?
A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.
A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.
As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
1 132
António Ramos Rosa
A Mão Seria de Fugitiva Espécie
A mão seria de fugitiva espécie
no ar
de algum arbusto
e que desejo extremo
o pulso
sobre a boca suspensa
O corpo no interior da chama verde
da folhagem
o corpo no interior do corpo ardente
braço dentro
do fogo
sobre
o rosto da figura ilesa
roxo sobre a erva
O espírito das pernas tão redondas lentas
o penetrante gesto no puro ardor
das folhas
no ar
de algum arbusto
e que desejo extremo
o pulso
sobre a boca suspensa
O corpo no interior da chama verde
da folhagem
o corpo no interior do corpo ardente
braço dentro
do fogo
sobre
o rosto da figura ilesa
roxo sobre a erva
O espírito das pernas tão redondas lentas
o penetrante gesto no puro ardor
das folhas
996
António Ramos Rosa
O Flanco Negro a Decisão da Perna
O flanco negro a decisão da perna
a redondez de todo o ser no seio
a bondade da boca
os dentes
só os dentes
como um número
As vermelhas virilhas com os lábios
de púrpura
ferida acesa
o frenesim suave das sílabas do corpo
a chama alta no ventre da árvore
a língua
sobre a língua
a branca volúpia do umbigo
a palavra rasgada
a sangue
e ferida
a negro
a palavra de estar sob o bojo do barco
a redondez de todo o ser no seio
a bondade da boca
os dentes
só os dentes
como um número
As vermelhas virilhas com os lábios
de púrpura
ferida acesa
o frenesim suave das sílabas do corpo
a chama alta no ventre da árvore
a língua
sobre a língua
a branca volúpia do umbigo
a palavra rasgada
a sangue
e ferida
a negro
a palavra de estar sob o bojo do barco
989
António Ramos Rosa
Se Existe Uma Figura Ela É Volátil
Se existe uma figura ela é volátil
feita do próprio ar
e da lacuna
que é o centro do vácuo do estar
e se a figura dança ainda é
uma figura de ar
que enlaça o ar do corpo
o corpo todo ar
feita do próprio ar
e da lacuna
que é o centro do vácuo do estar
e se a figura dança ainda é
uma figura de ar
que enlaça o ar do corpo
o corpo todo ar
1 013
António Ramos Rosa
Se Existe Uma Figura Ela É Volátil
Se existe uma figura ela é volátil
feita do próprio ar
e da lacuna
que é o centro do vácuo do estar
e se a figura dança ainda é
uma figura de ar
que enlaça o ar do corpo
o corpo todo ar
feita do próprio ar
e da lacuna
que é o centro do vácuo do estar
e se a figura dança ainda é
uma figura de ar
que enlaça o ar do corpo
o corpo todo ar
1 013
António Ramos Rosa
A Partir da Ausência
Imaginar a forma
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro
Não existir
Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro
Um muro vivo preso a mil raízes
Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo
Onde agora a mão se perde
E era o espaço
Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?
As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro
Não existir
Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro
Um muro vivo preso a mil raízes
Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo
Onde agora a mão se perde
E era o espaço
Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?
As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
1 136
António Ramos Rosa
A Mais Simples Palavra
a Maria João Fernandes
A mais simples palavra
nesse lugar-limite
constituído de evidências, sucessivas folhas
no exercício da espera
sobre as pedras nuas
a palavra do exílio ou o ar na ferida
aroma do momento imóvel
o espaço no rosto
a limpidez dos dedos
entre as ervas
e
nada
— imóvel lugar
sem a língua loquaz
momento de luz ocre
num muro do tempo
na
amplitude visível
ao ritmo da respiração silenciosa
A mais simples palavra
nesse lugar-limite
constituído de evidências, sucessivas folhas
no exercício da espera
sobre as pedras nuas
a palavra do exílio ou o ar na ferida
aroma do momento imóvel
o espaço no rosto
a limpidez dos dedos
entre as ervas
e
nada
— imóvel lugar
sem a língua loquaz
momento de luz ocre
num muro do tempo
na
amplitude visível
ao ritmo da respiração silenciosa
1 160
António Ramos Rosa
Na Lentidão
A lentidão animal.
A casa intensa: nuvem clara, espessa.
Prolongado retorno
ao lugar que retém o sono
do espaço vivo.
Aqui se forma um corpo:
os seus limites tremem.
Uma árvore dorme.
Um nome de ar se abre
para o corpo, para o seu campo claro.
O braço entrego à lenta
roda branca.
Regresso de um regresso
ao solidário solo.
A casa intensa: nuvem clara, espessa.
Prolongado retorno
ao lugar que retém o sono
do espaço vivo.
Aqui se forma um corpo:
os seus limites tremem.
Uma árvore dorme.
Um nome de ar se abre
para o corpo, para o seu campo claro.
O braço entrego à lenta
roda branca.
Regresso de um regresso
ao solidário solo.
965
António Ramos Rosa
O Seio Jovem
O seio jovem,
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.
Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.
Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.
Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?
Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?
Mas quem o vê não o vê.
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.
Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.
Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.
Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?
Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?
Mas quem o vê não o vê.
1 138
António Ramos Rosa
Alberto Burri
Vestuário ou pele
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga um campo
uma costura um caminho de poeira
Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho
Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra a noite o fogo
Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga um campo
uma costura um caminho de poeira
Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho
Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra a noite o fogo
Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
597
António Ramos Rosa
Alberto Burri
Vestuário ou pele
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga um campo
uma costura um caminho de poeira
Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho
Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra a noite o fogo
Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga um campo
uma costura um caminho de poeira
Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho
Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra a noite o fogo
Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
597
António Ramos Rosa
Alberto Burri
Vestuário ou pele
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga um campo
uma costura um caminho de poeira
Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho
Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra a noite o fogo
Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga um campo
uma costura um caminho de poeira
Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho
Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra a noite o fogo
Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
597
António Ramos Rosa
Semelhante À Dança a Dança Mesma
Semelhante à dança a dança mesma
dos sinais como pedras sobre a água
como figuras
nas varandas
palavras queimadas numa boca negra
mas as flores
vermelhas de novo e violentas
Semelhante à dança de água e fogo
imagem desnudada
pelos punhos
nas muralhas
o corpo aberto na sombria terra
perfeição vermelha apaixonada
da imagem
inacessível
semelhante
à inviolada folha
dos sinais como pedras sobre a água
como figuras
nas varandas
palavras queimadas numa boca negra
mas as flores
vermelhas de novo e violentas
Semelhante à dança de água e fogo
imagem desnudada
pelos punhos
nas muralhas
o corpo aberto na sombria terra
perfeição vermelha apaixonada
da imagem
inacessível
semelhante
à inviolada folha
968
António Ramos Rosa
A Mulher Sem
Tu és a mulher agora sem a música
sem os espelhos e os cabelos
sem palavras como pálpebras ou espáduas
sem ombros
nua
mas sem ventre
sem púbis
sem sexo
extenuada na página deserta
derrubada como um grito
contra o muro
presa de um soluço na parede
rompendo como uma chama escura
em busca de outros nomes
que não lembrem a água
do teu corpo
que não vejam senão a cegueira
desse instante
branco
em que viste a outra face da distância
o abismo da outra face das palavras
sem os espelhos e os cabelos
sem palavras como pálpebras ou espáduas
sem ombros
nua
mas sem ventre
sem púbis
sem sexo
extenuada na página deserta
derrubada como um grito
contra o muro
presa de um soluço na parede
rompendo como uma chama escura
em busca de outros nomes
que não lembrem a água
do teu corpo
que não vejam senão a cegueira
desse instante
branco
em que viste a outra face da distância
o abismo da outra face das palavras
576
António Ramos Rosa
É a Superfície o Que Se Passa À Superfície
É a superfície o que se passa à superfície
língua folhagem
instantâneo caminho sopro
de sinais
E dizer é aqui no muro
no escuro da pedra
uma visão que dilucida a fome
das mãos
e torna a precária erva um bem dizível
É o que passa e jorra não sei de
que lado do silêncio que ilumina
a macia terra cega
e não só lâmpada não só arco ou anca
mas a mesa árida mas o rosto de lama
língua folhagem
instantâneo caminho sopro
de sinais
E dizer é aqui no muro
no escuro da pedra
uma visão que dilucida a fome
das mãos
e torna a precária erva um bem dizível
É o que passa e jorra não sei de
que lado do silêncio que ilumina
a macia terra cega
e não só lâmpada não só arco ou anca
mas a mesa árida mas o rosto de lama
1 132
António Ramos Rosa
Seja o Que For Murmúrio Muro
Seja o que for Murmúrio muro
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca
Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui
Vocábulo nu Palavra nula
no muro
As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo
As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo
Podes dizer agora que a imagem
é nula como o corpo
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca
Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui
Vocábulo nu Palavra nula
no muro
As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo
As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo
Podes dizer agora que a imagem
é nula como o corpo
1 037
António Ramos Rosa
Uma Caligrafia Calma
Quem dispõe de uma cor
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
1 054
António Ramos Rosa
Atravessar o Deserto
Repetem-se as palavras como a erva.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
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António Ramos Rosa
Atravessar o Deserto
Repetem-se as palavras como a erva.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
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