Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
4. Não Será o Anjo do Losango Azul
4
Não será o anjo do losango azul
mas arma negra de água e ferro
para abrir as feridas das pernas longas
obscenas e negras ou de mortal brancura.
Quem abre o triângulo exacto e crespo
fere a árvore da imagem
fere o vidro
do não retido ou não saber do gesto.
Não ser a limpidez das pernas nuas
mas abrir o sexo da árvore obscura
terminar o luto da terra sem a terra.
Não será o anjo do losango azul
mas arma negra de água e ferro
para abrir as feridas das pernas longas
obscenas e negras ou de mortal brancura.
Quem abre o triângulo exacto e crespo
fere a árvore da imagem
fere o vidro
do não retido ou não saber do gesto.
Não ser a limpidez das pernas nuas
mas abrir o sexo da árvore obscura
terminar o luto da terra sem a terra.
930
António Ramos Rosa
As Musas
Donde estou vejo-a nua com os joelhos sustentando a lua. O céu como se fosse a sua enorme sombra multiplicada está cheio de estrelas: estrelas na sombra do seu corpo. É como se fosse universal. Há o campo que nos envolve inteiro, ora num abraço raso de planícies, ora num abraço curvo de montanhas. Ergue-se por fim e os seus passos ardentes encaminham-se para as nascentes dos rios gerando ininterruptamente as manhãs. As suas palavras são totais de sílabas translúcidas. Na sua pele dura há a força da conquista e da marcha.
*
Ela tem os olhos sangrentos e serenos. São os seus olhos de sangue, de ondas de sangue em movimento. A sua boca cerra-se num silêncio de fogo, num silêncio terrível como se temesse desencadear, abrindo-a, a tempestade dos mundos, a hecatombe redentora. É a própria boca da vontade, do amor que não perdoa. A vingança nela tem outro nome: a justiça. Ela é todo o passado, todo o presente e todo o futuro.
*
É a figura de um pequeno grito, de um queixume de uma vida inteira. O seu corpo é como uma sombra de costureirinha. Tem os olhos frescos de luz: a luz neles parece uma lágrima. Olha para o lado da aurora, numa vaga expectativa feliz como se o sol a fosse tornar invisível, confundi-la com o murmúrio do mundo. É como uma flor uma nuvenzinha, mas o seu coração é uma minúscula semente duríssima: e é só por isso que não voa, que não se desfaz e há-de incorporar-se no grande coro da alegria que vai nascer.
*
É toda tristeza, indefinida de contornos, serenidade curiosa e plena. Ela sabe que o sol vai nascer e a vida vai tornar-se natural e feliz como se de toda a eternidade este momento tivesse sido preparado. Acaricia as flores e come os frutos, na antemanhã do mundo, com a tristeza de quem perdeu universos mas com a serenidade de quem sabe que a manhã que vai nascer criá-los-á aos milhares para a sua abundante tristeza se disseminar nos infinitos limites dos mundos.
*
Traz o sol atado aos cabelos e com as mãos distribui as noites e os dias, as estrelas e os planetas. Da sua ampla mão de deusa casta e fecunda cai um rio de sangue sobre a terra. Nas suas pupilas rebrilha todo o mar e todos os campos e todas as aves se cruzam, desenhando os seus voos em precipitadas e dolentes curvas que, entrelaçando-se, formam o oval dos seus olhos um móvel rendilhado em perpétuo e ininterrupto movimento.
*
Já não há nela memória presente do passado. É virgem da primeira hora do mundo, nasceu com o estabelecimento da alegria total, por isso os seus olhos rebrilham só de presente e futuro, só da primavera inicial, só das primaveras futuras. As estações, os dias e as horas combinam-se nos seus olhos em serenos cambiantes donde o medo é ausente. A natureza é um plácido domínio que ela conquistou com clara heroicidade. O seu peito infla do fôlego harmónico das cidades, é monumental e humana, poderosa e natural, da estatura de todas as possibilidades abertas.
*
É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho cego, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.
*
É um esqueleto. Flores, frutos, searas, um homem com um tractor. Crianças que brincam. É um esqueleto, oculto entre a seara, de um homem de outros tempos, um longínquo homem, eu, tu, nós.
*
É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e um músico da cidade compuseram. Ela é preguiça de felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.
*
É a negra mulher de cor de pó de carvão e desastre, com um hálito de minas, um punho de fogo e um verdadeiro sorriso de aurora. É surpreendente este perfil duplo, trágico e voluntarioso, de carvão e de sol, como uma noite-manhã, um parto subterrâneo da vontade, cujos filhos serão os claros dominadores das profundezas da terra.
*
É toda mar e vento e praia com um adejar de gaivotas nos cabelos. É todo o sol em todo o mar, todo o vento, toda a imensa frescura da terra e do céu e do mar combinados. O seu sexo oculta os palácios submarinos das imaginações ardentes: o leite dos seus seios não é amargo nem doce, tem a frescura dos rios e a sua pureza. A canção que ela canta só os peixes a ouvem, tão subtil é, como se estivesse sempre longe, com a cabeça nas nuvens, os olhos perdidos nos horizontes. É um murmúrio que se distingue tão vago como uma nuvem que se confunde com o céu. O seu sangue é uma tumultuosa cascata que purifica o ar com uma névoa cristalina e serenamente apoteótica. O seu lenço é um crepúsculo e o seu adeus uma ondulada mão desfazendo-se entre mar e céu.
*
Ela tem os olhos sangrentos e serenos. São os seus olhos de sangue, de ondas de sangue em movimento. A sua boca cerra-se num silêncio de fogo, num silêncio terrível como se temesse desencadear, abrindo-a, a tempestade dos mundos, a hecatombe redentora. É a própria boca da vontade, do amor que não perdoa. A vingança nela tem outro nome: a justiça. Ela é todo o passado, todo o presente e todo o futuro.
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É a figura de um pequeno grito, de um queixume de uma vida inteira. O seu corpo é como uma sombra de costureirinha. Tem os olhos frescos de luz: a luz neles parece uma lágrima. Olha para o lado da aurora, numa vaga expectativa feliz como se o sol a fosse tornar invisível, confundi-la com o murmúrio do mundo. É como uma flor uma nuvenzinha, mas o seu coração é uma minúscula semente duríssima: e é só por isso que não voa, que não se desfaz e há-de incorporar-se no grande coro da alegria que vai nascer.
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É toda tristeza, indefinida de contornos, serenidade curiosa e plena. Ela sabe que o sol vai nascer e a vida vai tornar-se natural e feliz como se de toda a eternidade este momento tivesse sido preparado. Acaricia as flores e come os frutos, na antemanhã do mundo, com a tristeza de quem perdeu universos mas com a serenidade de quem sabe que a manhã que vai nascer criá-los-á aos milhares para a sua abundante tristeza se disseminar nos infinitos limites dos mundos.
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Traz o sol atado aos cabelos e com as mãos distribui as noites e os dias, as estrelas e os planetas. Da sua ampla mão de deusa casta e fecunda cai um rio de sangue sobre a terra. Nas suas pupilas rebrilha todo o mar e todos os campos e todas as aves se cruzam, desenhando os seus voos em precipitadas e dolentes curvas que, entrelaçando-se, formam o oval dos seus olhos um móvel rendilhado em perpétuo e ininterrupto movimento.
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Já não há nela memória presente do passado. É virgem da primeira hora do mundo, nasceu com o estabelecimento da alegria total, por isso os seus olhos rebrilham só de presente e futuro, só da primavera inicial, só das primaveras futuras. As estações, os dias e as horas combinam-se nos seus olhos em serenos cambiantes donde o medo é ausente. A natureza é um plácido domínio que ela conquistou com clara heroicidade. O seu peito infla do fôlego harmónico das cidades, é monumental e humana, poderosa e natural, da estatura de todas as possibilidades abertas.
*
É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho cego, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.
*
É um esqueleto. Flores, frutos, searas, um homem com um tractor. Crianças que brincam. É um esqueleto, oculto entre a seara, de um homem de outros tempos, um longínquo homem, eu, tu, nós.
*
É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e um músico da cidade compuseram. Ela é preguiça de felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.
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É a negra mulher de cor de pó de carvão e desastre, com um hálito de minas, um punho de fogo e um verdadeiro sorriso de aurora. É surpreendente este perfil duplo, trágico e voluntarioso, de carvão e de sol, como uma noite-manhã, um parto subterrâneo da vontade, cujos filhos serão os claros dominadores das profundezas da terra.
*
É toda mar e vento e praia com um adejar de gaivotas nos cabelos. É todo o sol em todo o mar, todo o vento, toda a imensa frescura da terra e do céu e do mar combinados. O seu sexo oculta os palácios submarinos das imaginações ardentes: o leite dos seus seios não é amargo nem doce, tem a frescura dos rios e a sua pureza. A canção que ela canta só os peixes a ouvem, tão subtil é, como se estivesse sempre longe, com a cabeça nas nuvens, os olhos perdidos nos horizontes. É um murmúrio que se distingue tão vago como uma nuvem que se confunde com o céu. O seu sangue é uma tumultuosa cascata que purifica o ar com uma névoa cristalina e serenamente apoteótica. O seu lenço é um crepúsculo e o seu adeus uma ondulada mão desfazendo-se entre mar e céu.
1 271
António Ramos Rosa
As Musas
Donde estou vejo-a nua com os joelhos sustentando a lua. O céu como se fosse a sua enorme sombra multiplicada está cheio de estrelas: estrelas na sombra do seu corpo. É como se fosse universal. Há o campo que nos envolve inteiro, ora num abraço raso de planícies, ora num abraço curvo de montanhas. Ergue-se por fim e os seus passos ardentes encaminham-se para as nascentes dos rios gerando ininterruptamente as manhãs. As suas palavras são totais de sílabas translúcidas. Na sua pele dura há a força da conquista e da marcha.
*
Ela tem os olhos sangrentos e serenos. São os seus olhos de sangue, de ondas de sangue em movimento. A sua boca cerra-se num silêncio de fogo, num silêncio terrível como se temesse desencadear, abrindo-a, a tempestade dos mundos, a hecatombe redentora. É a própria boca da vontade, do amor que não perdoa. A vingança nela tem outro nome: a justiça. Ela é todo o passado, todo o presente e todo o futuro.
*
É a figura de um pequeno grito, de um queixume de uma vida inteira. O seu corpo é como uma sombra de costureirinha. Tem os olhos frescos de luz: a luz neles parece uma lágrima. Olha para o lado da aurora, numa vaga expectativa feliz como se o sol a fosse tornar invisível, confundi-la com o murmúrio do mundo. É como uma flor uma nuvenzinha, mas o seu coração é uma minúscula semente duríssima: e é só por isso que não voa, que não se desfaz e há-de incorporar-se no grande coro da alegria que vai nascer.
*
É toda tristeza, indefinida de contornos, serenidade curiosa e plena. Ela sabe que o sol vai nascer e a vida vai tornar-se natural e feliz como se de toda a eternidade este momento tivesse sido preparado. Acaricia as flores e come os frutos, na antemanhã do mundo, com a tristeza de quem perdeu universos mas com a serenidade de quem sabe que a manhã que vai nascer criá-los-á aos milhares para a sua abundante tristeza se disseminar nos infinitos limites dos mundos.
*
Traz o sol atado aos cabelos e com as mãos distribui as noites e os dias, as estrelas e os planetas. Da sua ampla mão de deusa casta e fecunda cai um rio de sangue sobre a terra. Nas suas pupilas rebrilha todo o mar e todos os campos e todas as aves se cruzam, desenhando os seus voos em precipitadas e dolentes curvas que, entrelaçando-se, formam o oval dos seus olhos um móvel rendilhado em perpétuo e ininterrupto movimento.
*
Já não há nela memória presente do passado. É virgem da primeira hora do mundo, nasceu com o estabelecimento da alegria total, por isso os seus olhos rebrilham só de presente e futuro, só da primavera inicial, só das primaveras futuras. As estações, os dias e as horas combinam-se nos seus olhos em serenos cambiantes donde o medo é ausente. A natureza é um plácido domínio que ela conquistou com clara heroicidade. O seu peito infla do fôlego harmónico das cidades, é monumental e humana, poderosa e natural, da estatura de todas as possibilidades abertas.
*
É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho cego, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.
*
É um esqueleto. Flores, frutos, searas, um homem com um tractor. Crianças que brincam. É um esqueleto, oculto entre a seara, de um homem de outros tempos, um longínquo homem, eu, tu, nós.
*
É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e um músico da cidade compuseram. Ela é preguiça de felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.
*
É a negra mulher de cor de pó de carvão e desastre, com um hálito de minas, um punho de fogo e um verdadeiro sorriso de aurora. É surpreendente este perfil duplo, trágico e voluntarioso, de carvão e de sol, como uma noite-manhã, um parto subterrâneo da vontade, cujos filhos serão os claros dominadores das profundezas da terra.
*
É toda mar e vento e praia com um adejar de gaivotas nos cabelos. É todo o sol em todo o mar, todo o vento, toda a imensa frescura da terra e do céu e do mar combinados. O seu sexo oculta os palácios submarinos das imaginações ardentes: o leite dos seus seios não é amargo nem doce, tem a frescura dos rios e a sua pureza. A canção que ela canta só os peixes a ouvem, tão subtil é, como se estivesse sempre longe, com a cabeça nas nuvens, os olhos perdidos nos horizontes. É um murmúrio que se distingue tão vago como uma nuvem que se confunde com o céu. O seu sangue é uma tumultuosa cascata que purifica o ar com uma névoa cristalina e serenamente apoteótica. O seu lenço é um crepúsculo e o seu adeus uma ondulada mão desfazendo-se entre mar e céu.
*
Ela tem os olhos sangrentos e serenos. São os seus olhos de sangue, de ondas de sangue em movimento. A sua boca cerra-se num silêncio de fogo, num silêncio terrível como se temesse desencadear, abrindo-a, a tempestade dos mundos, a hecatombe redentora. É a própria boca da vontade, do amor que não perdoa. A vingança nela tem outro nome: a justiça. Ela é todo o passado, todo o presente e todo o futuro.
*
É a figura de um pequeno grito, de um queixume de uma vida inteira. O seu corpo é como uma sombra de costureirinha. Tem os olhos frescos de luz: a luz neles parece uma lágrima. Olha para o lado da aurora, numa vaga expectativa feliz como se o sol a fosse tornar invisível, confundi-la com o murmúrio do mundo. É como uma flor uma nuvenzinha, mas o seu coração é uma minúscula semente duríssima: e é só por isso que não voa, que não se desfaz e há-de incorporar-se no grande coro da alegria que vai nascer.
*
É toda tristeza, indefinida de contornos, serenidade curiosa e plena. Ela sabe que o sol vai nascer e a vida vai tornar-se natural e feliz como se de toda a eternidade este momento tivesse sido preparado. Acaricia as flores e come os frutos, na antemanhã do mundo, com a tristeza de quem perdeu universos mas com a serenidade de quem sabe que a manhã que vai nascer criá-los-á aos milhares para a sua abundante tristeza se disseminar nos infinitos limites dos mundos.
*
Traz o sol atado aos cabelos e com as mãos distribui as noites e os dias, as estrelas e os planetas. Da sua ampla mão de deusa casta e fecunda cai um rio de sangue sobre a terra. Nas suas pupilas rebrilha todo o mar e todos os campos e todas as aves se cruzam, desenhando os seus voos em precipitadas e dolentes curvas que, entrelaçando-se, formam o oval dos seus olhos um móvel rendilhado em perpétuo e ininterrupto movimento.
*
Já não há nela memória presente do passado. É virgem da primeira hora do mundo, nasceu com o estabelecimento da alegria total, por isso os seus olhos rebrilham só de presente e futuro, só da primavera inicial, só das primaveras futuras. As estações, os dias e as horas combinam-se nos seus olhos em serenos cambiantes donde o medo é ausente. A natureza é um plácido domínio que ela conquistou com clara heroicidade. O seu peito infla do fôlego harmónico das cidades, é monumental e humana, poderosa e natural, da estatura de todas as possibilidades abertas.
*
É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho cego, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.
*
É um esqueleto. Flores, frutos, searas, um homem com um tractor. Crianças que brincam. É um esqueleto, oculto entre a seara, de um homem de outros tempos, um longínquo homem, eu, tu, nós.
*
É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e um músico da cidade compuseram. Ela é preguiça de felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.
*
É a negra mulher de cor de pó de carvão e desastre, com um hálito de minas, um punho de fogo e um verdadeiro sorriso de aurora. É surpreendente este perfil duplo, trágico e voluntarioso, de carvão e de sol, como uma noite-manhã, um parto subterrâneo da vontade, cujos filhos serão os claros dominadores das profundezas da terra.
*
É toda mar e vento e praia com um adejar de gaivotas nos cabelos. É todo o sol em todo o mar, todo o vento, toda a imensa frescura da terra e do céu e do mar combinados. O seu sexo oculta os palácios submarinos das imaginações ardentes: o leite dos seus seios não é amargo nem doce, tem a frescura dos rios e a sua pureza. A canção que ela canta só os peixes a ouvem, tão subtil é, como se estivesse sempre longe, com a cabeça nas nuvens, os olhos perdidos nos horizontes. É um murmúrio que se distingue tão vago como uma nuvem que se confunde com o céu. O seu sangue é uma tumultuosa cascata que purifica o ar com uma névoa cristalina e serenamente apoteótica. O seu lenço é um crepúsculo e o seu adeus uma ondulada mão desfazendo-se entre mar e céu.
1 271
António Ramos Rosa
6. Aquela Linha Ou Esta ——
6
Aquela linha ou esta ——
para a figura aberta para o voo
da figura destruída ou destruída folha.
Ontem era manhã da mão e ave
emboscada na folhagem e agora o que
resta do acto ainda é o acto aqui acto do pássaro.
Vi-o. Não o vi na visão gasta. Aqui
sem número no escuro da mão desgasta
finda destruindo o nome — pássaro.
Aquela linha ou esta ——
para a figura aberta para o voo
da figura destruída ou destruída folha.
Ontem era manhã da mão e ave
emboscada na folhagem e agora o que
resta do acto ainda é o acto aqui acto do pássaro.
Vi-o. Não o vi na visão gasta. Aqui
sem número no escuro da mão desgasta
finda destruindo o nome — pássaro.
1 006
António Ramos Rosa
Pedra Plana,…
Pedra plana, quase escrita e indelével, e a pulsação plana aflora o corpo e a frase estala, pedra e toalha, sinal vivo do caminho que não espera, que avança como se o mar aflorasse e o corpo vivo chegasse ao cimo da água, à frase sem memória, fonte de desejo.
1 283
António Ramos Rosa
21. Não Ao Espelho Em Que Ela Se Retira
21
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
1 095
António Ramos Rosa
21. Não Ao Espelho Em Que Ela Se Retira
21
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
1 095
António Ramos Rosa
21. Não Ao Espelho Em Que Ela Se Retira
21
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
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António Ramos Rosa
21. Não Ao Espelho Em Que Ela Se Retira
21
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
1 095
António Ramos Rosa
Não Reflectir Não Pousar Isto É Uma
Não reflectir não pousar isto é uma
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
1 028
António Ramos Rosa
Adormecendo, Procura Como Que
Adormecendo, procura como que
uma folha perdida, branca.
Como se a vida fosse lisa
respira um sono à beira de água.
Acordá-lo seria destruí-lo.
Agora ele é o bafo da folhagem,
uma pedra sem arestas e sem nome,
um campo de murmúrios,
um começo infinito.
uma folha perdida, branca.
Como se a vida fosse lisa
respira um sono à beira de água.
Acordá-lo seria destruí-lo.
Agora ele é o bafo da folhagem,
uma pedra sem arestas e sem nome,
um campo de murmúrios,
um começo infinito.
936
António Ramos Rosa
Semelhante À Dança a Dança Mesma
Semelhante à dança a dança mesma
dos sinais como pedras sobre a água
como figuras
nas varandas
palavras queimadas numa boca negra
mas as flores
vermelhas de novo e violentas
Semelhante à dança de água e fogo
imagem desnudada
pelos punhos
nas muralhas
o corpo aberto na sombria terra
perfeição vermelha apaixonada
da imagem
inacessível
semelhante
à inviolada folha
dos sinais como pedras sobre a água
como figuras
nas varandas
palavras queimadas numa boca negra
mas as flores
vermelhas de novo e violentas
Semelhante à dança de água e fogo
imagem desnudada
pelos punhos
nas muralhas
o corpo aberto na sombria terra
perfeição vermelha apaixonada
da imagem
inacessível
semelhante
à inviolada folha
972
António Ramos Rosa
Aqui Se Abre Um Parêntese
Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
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António Ramos Rosa
Aqui Se Abre Um Parêntese
Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
983
António Ramos Rosa
Seja o Que For Murmúrio Muro
Seja o que for Murmúrio muro
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca
Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui
Vocábulo nu Palavra nula
no muro
As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo
As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo
Podes dizer agora que a imagem
é nula como o corpo
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca
Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui
Vocábulo nu Palavra nula
no muro
As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo
As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo
Podes dizer agora que a imagem
é nula como o corpo
1 038
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever para
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
638
António Ramos Rosa
Acende-Se o Desejo E É Tão Precária a Voz!
Acende-se o desejo e é tão precária a voz!
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
534
António Ramos Rosa
Acende-Se o Desejo E É Tão Precária a Voz!
Acende-se o desejo e é tão precária a voz!
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
534
António Ramos Rosa
Acende-Se o Desejo E É Tão Precária a Voz!
Acende-se o desejo e é tão precária a voz!
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
534
António Ramos Rosa
A Rua Em Que Marcha Define-O
A rua em que marcha define-o.
As árvores de que necessita
caminham com ele
e atravessam-no.
Para onde vai?
Ninguém o vê
(pois só aqui o distinguimos
entre ramos claros
de palavras).
As árvores de que necessita
caminham com ele
e atravessam-no.
Para onde vai?
Ninguém o vê
(pois só aqui o distinguimos
entre ramos claros
de palavras).
1 067
António Ramos Rosa
Uma Caligrafia Calma
Quem dispõe de uma cor
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
1 057
António Ramos Rosa
Se Fosse o Espaço Ou o Corpo
Se fosse o espaço ou o corpo
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
543
António Ramos Rosa
Se Fosse o Espaço Ou o Corpo
Se fosse o espaço ou o corpo
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
543
António Ramos Rosa
Ó Treva Ó Música Na Extensão do Vazio
Ó treva ó música na extensão do vazio
e o silêncio no teu pulso o silêncio dos teus ombros
como eu amo esses silêncios como eu amo o silêncio dos teus olhos
quero escrever aqui os cristais vibráteis
dessa folha frágil e violenta a que chamo o teu corpo
Ó treva ó música música entre os juncos claros
música sobre a mesa de madeira nua
música da tua língua enrolada e lisa como um jarro
ó treva e música dos teus olhos ó frémito
das tuas ancas rodando contra o furor das ondas contra uma quilha ardente
Ó música entre o branco e o negro ó migrações silenciosas
das aves do sangue ó longas pulsações do ventre
o que te atravessa identicamente o que arde na consistência indemne
ó espessura vermelha ó murmúrio da fábula e da folhagem
há um fragmento imóvel há um peixe de sombra na parede
Ó música ó treva somos nós que nos abrimos
como podemos estar tão perto do limiar da folha
como escrever estes silêncios estas latentes lâmpadas
e o silêncio no teu pulso o silêncio dos teus ombros
como eu amo esses silêncios como eu amo o silêncio dos teus olhos
quero escrever aqui os cristais vibráteis
dessa folha frágil e violenta a que chamo o teu corpo
Ó treva ó música música entre os juncos claros
música sobre a mesa de madeira nua
música da tua língua enrolada e lisa como um jarro
ó treva e música dos teus olhos ó frémito
das tuas ancas rodando contra o furor das ondas contra uma quilha ardente
Ó música entre o branco e o negro ó migrações silenciosas
das aves do sangue ó longas pulsações do ventre
o que te atravessa identicamente o que arde na consistência indemne
ó espessura vermelha ó murmúrio da fábula e da folhagem
há um fragmento imóvel há um peixe de sombra na parede
Ó música ó treva somos nós que nos abrimos
como podemos estar tão perto do limiar da folha
como escrever estes silêncios estas latentes lâmpadas
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