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Poemas neste tema

Vida e Existência

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Como Quem Aflui Para o Que Nasce

ao Rui Knopfli


Como quem aflui para o que nasce,
um bicho fino e vertebrado
se desloca. Em sua boca vive
um desejo de ramos sem desenlace prévio.
As confusas cores animam-se: quase
se lêem, se desligam.
São as palavras, ou as casas, sombras vistas,
a confusão reúne assim dispersa,
num curso lento em que se apaga o rosto
e as veias se difundem
numa nova árvore.
Nada é real, tudo é real se for,
uma legível vela se respira
ou a língua que murmura: árvore, veias.
Um bicho há pouco inerme solto corre
e no espaço anima-se
sobre a terra verte
sua forma animal futura estende.

Ardor de ser, de tudo igual a tudo,
igual a si, assim o espaço vence.
Até chegar aqui e diz: agora.
Tudo o incita no presente e nunca
se detém, senão num ímpeto
radioso em que animal se estende.
Percorre todo o espaço que concentra,
animal de nomes, brilha de ser fácil:
porque a rua não é senão a rua,
nem a árvore tem outro nome: é árvore.
Com os nomes caminha o bicho solto
que se enuncia e o todo vive em sua marcha.
Por vezes límpido, ou obscuro, vibra inesperado.
No movimento dele e do seu espaço acordo,
descentro-me ou disparo, reúno-me, caminho,
tudo animal, assim o espaço volve
à claridade de ser espaço e tudo é novo,
em sua língua a vida vive em alto número.

Por ser a sua língua se desfaz
numa maré escura ou num vazio hiato.
Por ser já nada vejo e tudo é vago
neste momento em que o desejo acorda.
Que irei escrever sem o tremor da luz?
De memória nada direi, pois nada sei,
senão quando irrompe e aí está: estilhas unas
se formam e são as folhas da língua, mais que o ruído,
que estremecem presentes: porta ou telha vibram
e no nítido tremor tudo aflui por sob
a sombra que se esvai; de novo a terra é terra,
de novo se compõe a vida animalmente:
começo onde aflui o que nasce, novas áreas,
novos níveis se definem, as veias repercutem
este rumor de língua: metal das próprias coisas,
e sou ligeiro com as palavras deste dia,
e sou azul com o céu, verde com as árvores verdes,
presente para o presente, movo-me e não cesso.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Trabalho da Folha

É por um outro incompreensível
poema
que escrevo

contra a claridade nula
o mito de uma palavra única
o incessante rumor
a inútil passagem
suspendo
o fogo rápido da mão
o som de lâmina que apaga

E agora digo a água
sombria a escoar-se igual ao tempo
a casa que escrevo no gosto de se abrir
os limites invisíveis
sem o fogo do espaço
que a palavra verde em vão separa

Verdes parêntesis
(não de flores lembradas
ou glória das mãos
à beira de água)
Verdes, ou azuis já, cinza,
em móveis signos,
indecifráveis, claros

As sombras que se lêem,
folhas, arcos, sons
— ao mesmo tempo a água deste muro,
os intervalos E uma alta
pedra, figura nula no papel,
rupturas sucessivas,
rede ou roda, nomes
da febre que percorrem
Intermináveis

Impenetrável, não ascende
Não é oca, mas não sabe
Surda, anula, e contra ela
calco ou cedo Nunca
escuto E a mão
o círculo não limita
No branco da elipse
demora
ar suposto, ou quase, ou quase o espaço

Se ao espelho ofereço
a obscura face
eu nada vejo Escrevo, avanço
negando o nada dessa fauce
Se se abre alguma vez
foi-se

Cerradamente oponho os traços
sucessivos, tensos
ao fosso aberto
em movimentos que me surgem
me alimentam
na luta — vã? — por novo espaço

Pela febre de ler
umas gotas (não de água, mas
de um som de folhas
e no espaço)
Aqui
eu digo: instante
nulo
E contra a fuga, a fronte
sem outra luz além da página
onde surgir a água
da palavra

Resistir, entregar-me? A quê? E quando?
Por ler a boca a página ou o verde
na conjunção de acaso,
necessária árvore e todavia
feita de vãos, involuntários, voluntários, surtos
pela água onde o silêncio em vão se faz
no trabalho da folha Neste
instante
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Antes do Sol

Mão, não te apresses para os desenhos da luz.
O sol ainda não chegou.
Desta doçura matinal e indecisa
colho uma haste débil, quero moldá-la
no espaço: a clara espiga do dia.
Aí vem o sol: aquece o dorso e o quarto,
mas não encontrei ainda a linha viva
das palavras no branco,
alento puro.
Manchas de luz na página e na mão;
vou descer as persianas, desço-as; ondulam listas
de luz e sombra no papel.
Um galo canta, e o chilrear dos pássaros.
Mas não basta este silêncio de casulo cálido.
Uma pressa obscura e ansiosa
— para quê? Abrir na folha
o caminho em que respiro o ar do dia.
Atento em vão (de novo canta o galo)
— quem acorda a terra onde as palavras vibram?
Um frémito de inatenção, uma falha
que se abre — e eu vou dizer a clara
árvore ou espiga luminosa, ainda indecisa
e já aguda na água a luz incide.
Como igualar esta igualdade pura?
Eis a distância fatal que nos separa e onde caio.
Recomeço, recomeçar... Oh a urgência viva
do sopro no espaço verdadeiro, na folha alta!
Mas não te precipites... Pondera a própria água
que em ti pulsa... lança-te só quando se ergue a onda
— mas não és tu mesmo que a levantas, se te ergues?
Assim, tentas e pesas. Caminhas para uma praia,
caminhas numa praia onde a água aviva as pedras,
onde o esplendor igual te aniquila e te salva.
És um corpo aberto, móveis hastes respiram
e no espaço se unem, num obscuro tremor.
Uma espiga de luz condensa grão a grão
as palavras do dia, quando o sol já vai alto.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Antes do Sol

Mão, não te apresses para os desenhos da luz.
O sol ainda não chegou.
Desta doçura matinal e indecisa
colho uma haste débil, quero moldá-la
no espaço: a clara espiga do dia.
Aí vem o sol: aquece o dorso e o quarto,
mas não encontrei ainda a linha viva
das palavras no branco,
alento puro.
Manchas de luz na página e na mão;
vou descer as persianas, desço-as; ondulam listas
de luz e sombra no papel.
Um galo canta, e o chilrear dos pássaros.
Mas não basta este silêncio de casulo cálido.
Uma pressa obscura e ansiosa
— para quê? Abrir na folha
o caminho em que respiro o ar do dia.
Atento em vão (de novo canta o galo)
— quem acorda a terra onde as palavras vibram?
Um frémito de inatenção, uma falha
que se abre — e eu vou dizer a clara
árvore ou espiga luminosa, ainda indecisa
e já aguda na água a luz incide.
Como igualar esta igualdade pura?
Eis a distância fatal que nos separa e onde caio.
Recomeço, recomeçar... Oh a urgência viva
do sopro no espaço verdadeiro, na folha alta!
Mas não te precipites... Pondera a própria água
que em ti pulsa... lança-te só quando se ergue a onda
— mas não és tu mesmo que a levantas, se te ergues?
Assim, tentas e pesas. Caminhas para uma praia,
caminhas numa praia onde a água aviva as pedras,
onde o esplendor igual te aniquila e te salva.
És um corpo aberto, móveis hastes respiram
e no espaço se unem, num obscuro tremor.
Uma espiga de luz condensa grão a grão
as palavras do dia, quando o sol já vai alto.
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