Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Braço Feliz Ardente
Braço feliz ardente
pulso dentro
de um rasgar de acender
a nudez verde
parte de ser
a delícia da parte
o todo de encanto caindo sobre a face
Verão animal
da mão
até ao seio
a frescura do centro
a bondade mais grossa mais divina
O ser redondo
em partes
num tumulto
de espuma sobre lábios
e cabelos
até que o silêncio beije a praia rasa
pulso dentro
de um rasgar de acender
a nudez verde
parte de ser
a delícia da parte
o todo de encanto caindo sobre a face
Verão animal
da mão
até ao seio
a frescura do centro
a bondade mais grossa mais divina
O ser redondo
em partes
num tumulto
de espuma sobre lábios
e cabelos
até que o silêncio beije a praia rasa
529
António Ramos Rosa
3. Para o Incêndio da Festa
Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
1 244
António Ramos Rosa
3. Para o Incêndio da Festa
Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
1 244
António Ramos Rosa
Na Dispersão Unida
Na dispersão unida
rua e corpo
no quarto
ferida a ferida
dada
A boca toca
a página
toca
o braço
do próprio ser na boca doutro
que
lhe dá a língua suprema sem saber
se arde se não
tão boa a nudez nua
arde laranja arde ardente
até ao terceiro grito branco
e
se abre a boca até ao centro negro
num felino incêndio de rasgadas partes
tudo redondo e suave em superfície
rua e corpo
no quarto
ferida a ferida
dada
A boca toca
a página
toca
o braço
do próprio ser na boca doutro
que
lhe dá a língua suprema sem saber
se arde se não
tão boa a nudez nua
arde laranja arde ardente
até ao terceiro grito branco
e
se abre a boca até ao centro negro
num felino incêndio de rasgadas partes
tudo redondo e suave em superfície
1 115
António Ramos Rosa
Antes do Poema
à Eusa
e ao António
O que antes se desenha antes
do poema e da folhagem o branco quarto é o animal branco
antes da boca e do barco no próprio muro
gota de água que encerra
o ponto do espaço em que as formas
se debruçam sobre um olho negro um olho verde
nulo
aqui onde tudo pode começar nada começa
livre e branco (livro branco)
luz nua que atravessa o espaço
das palavras nunca ditas
asas que nunca voaram actos incidências pausas
estático e branco e nulo um grande passo
para começar de vez o inacabável
princípio
o corpo insondável na água nua
o que nunca se encontrará secretamente
em vocábulos vivos através da página
um olhar que se encerra no seu espaço puro
onde se desenha um dedo de ar
a insinuação de um sulco
a ficção do início a boca ausente
do poema
eu não escrevo no lugar que se abriu
estou dentro e fora de uma caverna branca mas fechada
continuo sempre dentro dentro e sempre fora
sem encontrar o lugar material e transparente e nulo
que seria a boca do poema e do corpo vivo
se encontro a palavra encontro o muro antes da palavra antes do mundo
nada encontro que não seja o ar da árvore que não rompe
porque as palavras separam-se das palavras
e apagam o silêncio branco do lugar
no não princípio de um muro sem princípio nem fim
dia único e neutro de sol implacável sobre o muro
Aqui é para sempre estar-se fixo e perdido
com as palavras só sem as palavras
porque nada dizem não dizem o nada
deste lugar ausente
onde a diferença é nula
de palavra a palavra
Aqui é um espaço um lugar Posso habitá-lo
mesmo sem ervas sem sombras unicamente branco?
Um desejo o futuro de um desejo no espaço irrespirável
Como pode ser um lugar invisível não é visível o branco
o nu o nulo?
Eu disse um espaço para respirar E digo um braço
para continuar mas não descrevo
este lugar
nu
onde dar um passo é construir a boca
do chão
habitar o lugar
repetir a diferença de palavra a palavra
num eterno num secreto
recomeçar
Este lugar é impossível mas é um lugar que nasce
de um extremo É um lugar muito rápido e
no entanto para descrevê-lo são necessárias pausas
numa vertigem lenta minuciosa
É um lugar compacto e lúcido Atravessa-o uma trave
de sinais brancos Uma frescura perpassa
no cimo de um arvoredo que não está lá
Nada se passa senão qualquer coisa que passa
e não se sabe bem se passou E é apenas esta
habitação a cair no nulo que suspensa
é a palavra do invisível lugar ausente
Disse que o lugar era compacto e todavia que leveza
que ténue é a folhagem invisível!
A dor torna-se branca Na nudez nua
o corpo delicia-se na superfície livre
que se abre no interior e as imagens brancas
aguardam as cores iminentes Sente-se
os animais próximos
um rumor da água rasa diz um segredo de folhas
como se algo estivesse a passar-se ou algo fosse passar-se
mas nada nada se sabe e é exactamente aí
que o eu principia
a sua própria fábula
O ilegível rumor nas palavras legíveis
o legível rumor nas palavras ilegíveis
Tudo se anuncia tudo é possível porque se está no centro
ou no extremo de algo impossível e irredutivelmente obscuro
Mas que claridade nas palavras desertas!
Que volúpia ténue como se o ar fosse um rosto
como se o corpo se desse na água nua invisível
como se tudo começasse ó boca do poema!
Nada começa afinal E é esse o preço e o prémio
Tudo cessou há muito O que se ouve é o futuro
começo e onde estou é o livre intervalo
que o rastro das palavras restitui
Assim tudo é possível até o próprio princípio
É iminente a cor no muro As vozes de todo o mundo
Mas sobretudo a ausência de tudo abre o caminho
que não se descobre senão nas trevas do lugar
É aqui sabe-se que é aqui e não aqui sabe-se
que os animais caminham na claridade
que o corpo se anuncia
através das palavras mais cinzentas
mais nuas
mais nulas
O deserto é fecundo Fica sempre à beira de
nada
de
tudo
Há uma língua que inunda a língua ferida
no deserto A língua consumida exausta terminada
Já nada se espera desta língua perdida
Esta língua feriu-se no extremo do possível
e eis que ela diz a própria limpidez
das palavras nuas como o corpo entrevisto
como a água que passa invisível na berma
como o leve sorriso que paira no lugar
Lugar branco pedra negra palavra dita sobre o mar
quem a ouve ouvirá mais do que o sussurro das ondas
quem a compreende compreenderá o ar
compreenderá o nulo e leve sorriso que paira no lugar?
As palavras perpassam Que aconteceu? Ou algo
acontece ou acontecerá? O que está antes ou depois ou entre
é o ar e a folhagem o quarto branco
o espaço livre intermitente a água
o possível de tudo a repetição da diferença
o princípio de tudo?
e ao António
O que antes se desenha antes
do poema e da folhagem o branco quarto é o animal branco
antes da boca e do barco no próprio muro
gota de água que encerra
o ponto do espaço em que as formas
se debruçam sobre um olho negro um olho verde
nulo
aqui onde tudo pode começar nada começa
livre e branco (livro branco)
luz nua que atravessa o espaço
das palavras nunca ditas
asas que nunca voaram actos incidências pausas
estático e branco e nulo um grande passo
para começar de vez o inacabável
princípio
o corpo insondável na água nua
o que nunca se encontrará secretamente
em vocábulos vivos através da página
um olhar que se encerra no seu espaço puro
onde se desenha um dedo de ar
a insinuação de um sulco
a ficção do início a boca ausente
do poema
eu não escrevo no lugar que se abriu
estou dentro e fora de uma caverna branca mas fechada
continuo sempre dentro dentro e sempre fora
sem encontrar o lugar material e transparente e nulo
que seria a boca do poema e do corpo vivo
se encontro a palavra encontro o muro antes da palavra antes do mundo
nada encontro que não seja o ar da árvore que não rompe
porque as palavras separam-se das palavras
e apagam o silêncio branco do lugar
no não princípio de um muro sem princípio nem fim
dia único e neutro de sol implacável sobre o muro
Aqui é para sempre estar-se fixo e perdido
com as palavras só sem as palavras
porque nada dizem não dizem o nada
deste lugar ausente
onde a diferença é nula
de palavra a palavra
Aqui é um espaço um lugar Posso habitá-lo
mesmo sem ervas sem sombras unicamente branco?
Um desejo o futuro de um desejo no espaço irrespirável
Como pode ser um lugar invisível não é visível o branco
o nu o nulo?
Eu disse um espaço para respirar E digo um braço
para continuar mas não descrevo
este lugar
nu
onde dar um passo é construir a boca
do chão
habitar o lugar
repetir a diferença de palavra a palavra
num eterno num secreto
recomeçar
Este lugar é impossível mas é um lugar que nasce
de um extremo É um lugar muito rápido e
no entanto para descrevê-lo são necessárias pausas
numa vertigem lenta minuciosa
É um lugar compacto e lúcido Atravessa-o uma trave
de sinais brancos Uma frescura perpassa
no cimo de um arvoredo que não está lá
Nada se passa senão qualquer coisa que passa
e não se sabe bem se passou E é apenas esta
habitação a cair no nulo que suspensa
é a palavra do invisível lugar ausente
Disse que o lugar era compacto e todavia que leveza
que ténue é a folhagem invisível!
A dor torna-se branca Na nudez nua
o corpo delicia-se na superfície livre
que se abre no interior e as imagens brancas
aguardam as cores iminentes Sente-se
os animais próximos
um rumor da água rasa diz um segredo de folhas
como se algo estivesse a passar-se ou algo fosse passar-se
mas nada nada se sabe e é exactamente aí
que o eu principia
a sua própria fábula
O ilegível rumor nas palavras legíveis
o legível rumor nas palavras ilegíveis
Tudo se anuncia tudo é possível porque se está no centro
ou no extremo de algo impossível e irredutivelmente obscuro
Mas que claridade nas palavras desertas!
Que volúpia ténue como se o ar fosse um rosto
como se o corpo se desse na água nua invisível
como se tudo começasse ó boca do poema!
Nada começa afinal E é esse o preço e o prémio
Tudo cessou há muito O que se ouve é o futuro
começo e onde estou é o livre intervalo
que o rastro das palavras restitui
Assim tudo é possível até o próprio princípio
É iminente a cor no muro As vozes de todo o mundo
Mas sobretudo a ausência de tudo abre o caminho
que não se descobre senão nas trevas do lugar
É aqui sabe-se que é aqui e não aqui sabe-se
que os animais caminham na claridade
que o corpo se anuncia
através das palavras mais cinzentas
mais nuas
mais nulas
O deserto é fecundo Fica sempre à beira de
nada
de
tudo
Há uma língua que inunda a língua ferida
no deserto A língua consumida exausta terminada
Já nada se espera desta língua perdida
Esta língua feriu-se no extremo do possível
e eis que ela diz a própria limpidez
das palavras nuas como o corpo entrevisto
como a água que passa invisível na berma
como o leve sorriso que paira no lugar
Lugar branco pedra negra palavra dita sobre o mar
quem a ouve ouvirá mais do que o sussurro das ondas
quem a compreende compreenderá o ar
compreenderá o nulo e leve sorriso que paira no lugar?
As palavras perpassam Que aconteceu? Ou algo
acontece ou acontecerá? O que está antes ou depois ou entre
é o ar e a folhagem o quarto branco
o espaço livre intermitente a água
o possível de tudo a repetição da diferença
o princípio de tudo?
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António Ramos Rosa
Antes do Poema
à Eusa
e ao António
O que antes se desenha antes
do poema e da folhagem o branco quarto é o animal branco
antes da boca e do barco no próprio muro
gota de água que encerra
o ponto do espaço em que as formas
se debruçam sobre um olho negro um olho verde
nulo
aqui onde tudo pode começar nada começa
livre e branco (livro branco)
luz nua que atravessa o espaço
das palavras nunca ditas
asas que nunca voaram actos incidências pausas
estático e branco e nulo um grande passo
para começar de vez o inacabável
princípio
o corpo insondável na água nua
o que nunca se encontrará secretamente
em vocábulos vivos através da página
um olhar que se encerra no seu espaço puro
onde se desenha um dedo de ar
a insinuação de um sulco
a ficção do início a boca ausente
do poema
eu não escrevo no lugar que se abriu
estou dentro e fora de uma caverna branca mas fechada
continuo sempre dentro dentro e sempre fora
sem encontrar o lugar material e transparente e nulo
que seria a boca do poema e do corpo vivo
se encontro a palavra encontro o muro antes da palavra antes do mundo
nada encontro que não seja o ar da árvore que não rompe
porque as palavras separam-se das palavras
e apagam o silêncio branco do lugar
no não princípio de um muro sem princípio nem fim
dia único e neutro de sol implacável sobre o muro
Aqui é para sempre estar-se fixo e perdido
com as palavras só sem as palavras
porque nada dizem não dizem o nada
deste lugar ausente
onde a diferença é nula
de palavra a palavra
Aqui é um espaço um lugar Posso habitá-lo
mesmo sem ervas sem sombras unicamente branco?
Um desejo o futuro de um desejo no espaço irrespirável
Como pode ser um lugar invisível não é visível o branco
o nu o nulo?
Eu disse um espaço para respirar E digo um braço
para continuar mas não descrevo
este lugar
nu
onde dar um passo é construir a boca
do chão
habitar o lugar
repetir a diferença de palavra a palavra
num eterno num secreto
recomeçar
Este lugar é impossível mas é um lugar que nasce
de um extremo É um lugar muito rápido e
no entanto para descrevê-lo são necessárias pausas
numa vertigem lenta minuciosa
É um lugar compacto e lúcido Atravessa-o uma trave
de sinais brancos Uma frescura perpassa
no cimo de um arvoredo que não está lá
Nada se passa senão qualquer coisa que passa
e não se sabe bem se passou E é apenas esta
habitação a cair no nulo que suspensa
é a palavra do invisível lugar ausente
Disse que o lugar era compacto e todavia que leveza
que ténue é a folhagem invisível!
A dor torna-se branca Na nudez nua
o corpo delicia-se na superfície livre
que se abre no interior e as imagens brancas
aguardam as cores iminentes Sente-se
os animais próximos
um rumor da água rasa diz um segredo de folhas
como se algo estivesse a passar-se ou algo fosse passar-se
mas nada nada se sabe e é exactamente aí
que o eu principia
a sua própria fábula
O ilegível rumor nas palavras legíveis
o legível rumor nas palavras ilegíveis
Tudo se anuncia tudo é possível porque se está no centro
ou no extremo de algo impossível e irredutivelmente obscuro
Mas que claridade nas palavras desertas!
Que volúpia ténue como se o ar fosse um rosto
como se o corpo se desse na água nua invisível
como se tudo começasse ó boca do poema!
Nada começa afinal E é esse o preço e o prémio
Tudo cessou há muito O que se ouve é o futuro
começo e onde estou é o livre intervalo
que o rastro das palavras restitui
Assim tudo é possível até o próprio princípio
É iminente a cor no muro As vozes de todo o mundo
Mas sobretudo a ausência de tudo abre o caminho
que não se descobre senão nas trevas do lugar
É aqui sabe-se que é aqui e não aqui sabe-se
que os animais caminham na claridade
que o corpo se anuncia
através das palavras mais cinzentas
mais nuas
mais nulas
O deserto é fecundo Fica sempre à beira de
nada
de
tudo
Há uma língua que inunda a língua ferida
no deserto A língua consumida exausta terminada
Já nada se espera desta língua perdida
Esta língua feriu-se no extremo do possível
e eis que ela diz a própria limpidez
das palavras nuas como o corpo entrevisto
como a água que passa invisível na berma
como o leve sorriso que paira no lugar
Lugar branco pedra negra palavra dita sobre o mar
quem a ouve ouvirá mais do que o sussurro das ondas
quem a compreende compreenderá o ar
compreenderá o nulo e leve sorriso que paira no lugar?
As palavras perpassam Que aconteceu? Ou algo
acontece ou acontecerá? O que está antes ou depois ou entre
é o ar e a folhagem o quarto branco
o espaço livre intermitente a água
o possível de tudo a repetição da diferença
o princípio de tudo?
e ao António
O que antes se desenha antes
do poema e da folhagem o branco quarto é o animal branco
antes da boca e do barco no próprio muro
gota de água que encerra
o ponto do espaço em que as formas
se debruçam sobre um olho negro um olho verde
nulo
aqui onde tudo pode começar nada começa
livre e branco (livro branco)
luz nua que atravessa o espaço
das palavras nunca ditas
asas que nunca voaram actos incidências pausas
estático e branco e nulo um grande passo
para começar de vez o inacabável
princípio
o corpo insondável na água nua
o que nunca se encontrará secretamente
em vocábulos vivos através da página
um olhar que se encerra no seu espaço puro
onde se desenha um dedo de ar
a insinuação de um sulco
a ficção do início a boca ausente
do poema
eu não escrevo no lugar que se abriu
estou dentro e fora de uma caverna branca mas fechada
continuo sempre dentro dentro e sempre fora
sem encontrar o lugar material e transparente e nulo
que seria a boca do poema e do corpo vivo
se encontro a palavra encontro o muro antes da palavra antes do mundo
nada encontro que não seja o ar da árvore que não rompe
porque as palavras separam-se das palavras
e apagam o silêncio branco do lugar
no não princípio de um muro sem princípio nem fim
dia único e neutro de sol implacável sobre o muro
Aqui é para sempre estar-se fixo e perdido
com as palavras só sem as palavras
porque nada dizem não dizem o nada
deste lugar ausente
onde a diferença é nula
de palavra a palavra
Aqui é um espaço um lugar Posso habitá-lo
mesmo sem ervas sem sombras unicamente branco?
Um desejo o futuro de um desejo no espaço irrespirável
Como pode ser um lugar invisível não é visível o branco
o nu o nulo?
Eu disse um espaço para respirar E digo um braço
para continuar mas não descrevo
este lugar
nu
onde dar um passo é construir a boca
do chão
habitar o lugar
repetir a diferença de palavra a palavra
num eterno num secreto
recomeçar
Este lugar é impossível mas é um lugar que nasce
de um extremo É um lugar muito rápido e
no entanto para descrevê-lo são necessárias pausas
numa vertigem lenta minuciosa
É um lugar compacto e lúcido Atravessa-o uma trave
de sinais brancos Uma frescura perpassa
no cimo de um arvoredo que não está lá
Nada se passa senão qualquer coisa que passa
e não se sabe bem se passou E é apenas esta
habitação a cair no nulo que suspensa
é a palavra do invisível lugar ausente
Disse que o lugar era compacto e todavia que leveza
que ténue é a folhagem invisível!
A dor torna-se branca Na nudez nua
o corpo delicia-se na superfície livre
que se abre no interior e as imagens brancas
aguardam as cores iminentes Sente-se
os animais próximos
um rumor da água rasa diz um segredo de folhas
como se algo estivesse a passar-se ou algo fosse passar-se
mas nada nada se sabe e é exactamente aí
que o eu principia
a sua própria fábula
O ilegível rumor nas palavras legíveis
o legível rumor nas palavras ilegíveis
Tudo se anuncia tudo é possível porque se está no centro
ou no extremo de algo impossível e irredutivelmente obscuro
Mas que claridade nas palavras desertas!
Que volúpia ténue como se o ar fosse um rosto
como se o corpo se desse na água nua invisível
como se tudo começasse ó boca do poema!
Nada começa afinal E é esse o preço e o prémio
Tudo cessou há muito O que se ouve é o futuro
começo e onde estou é o livre intervalo
que o rastro das palavras restitui
Assim tudo é possível até o próprio princípio
É iminente a cor no muro As vozes de todo o mundo
Mas sobretudo a ausência de tudo abre o caminho
que não se descobre senão nas trevas do lugar
É aqui sabe-se que é aqui e não aqui sabe-se
que os animais caminham na claridade
que o corpo se anuncia
através das palavras mais cinzentas
mais nuas
mais nulas
O deserto é fecundo Fica sempre à beira de
nada
de
tudo
Há uma língua que inunda a língua ferida
no deserto A língua consumida exausta terminada
Já nada se espera desta língua perdida
Esta língua feriu-se no extremo do possível
e eis que ela diz a própria limpidez
das palavras nuas como o corpo entrevisto
como a água que passa invisível na berma
como o leve sorriso que paira no lugar
Lugar branco pedra negra palavra dita sobre o mar
quem a ouve ouvirá mais do que o sussurro das ondas
quem a compreende compreenderá o ar
compreenderá o nulo e leve sorriso que paira no lugar?
As palavras perpassam Que aconteceu? Ou algo
acontece ou acontecerá? O que está antes ou depois ou entre
é o ar e a folhagem o quarto branco
o espaço livre intermitente a água
o possível de tudo a repetição da diferença
o princípio de tudo?
1 072
António Ramos Rosa
Que Sinal Acender?
Que sinal acender?
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
990
António Ramos Rosa
Que Sinal Acender?
Que sinal acender?
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
990
António Ramos Rosa
Boca Completa
a Teresa Rita
e a António José Saraiva
Estar sobre o opaco Livre
Imediato
Estar no negro A coisa mesma
sem intervalo
Amar sobre A pedra a boca
do morto e vivo sempre
Delinear os dedos da própria coisa
Tocar as vértebras do seu silêncio
Dentro Dentro dela
Onde nos chamam Onde nos requerem
Onde as bocas da terra nos respiram
Dentro Dentro imediatamente dentro
da própria coisa negra
Dizer o silêncio o repouso o movimento
desse braço intenso sobre a terra
O compacto completo e nu num ápice
tocado vertiginosamente como um olho
por outro olho
Unidade límpida central feliz
Ser tocado estremecido respirado
pelo próprio centro da coisa obscura
e clara Água água densa e límpida
Água de uma visão sobre madeira
Corpo de metal lúcido
Haste caindo como uma palavra sobre
um animal
Urgência de ser em estar perfeito
Nudez de dentro
Fim do deserto
Princípio da palavra
Boca completa
e a António José Saraiva
Estar sobre o opaco Livre
Imediato
Estar no negro A coisa mesma
sem intervalo
Amar sobre A pedra a boca
do morto e vivo sempre
Delinear os dedos da própria coisa
Tocar as vértebras do seu silêncio
Dentro Dentro dela
Onde nos chamam Onde nos requerem
Onde as bocas da terra nos respiram
Dentro Dentro imediatamente dentro
da própria coisa negra
Dizer o silêncio o repouso o movimento
desse braço intenso sobre a terra
O compacto completo e nu num ápice
tocado vertiginosamente como um olho
por outro olho
Unidade límpida central feliz
Ser tocado estremecido respirado
pelo próprio centro da coisa obscura
e clara Água água densa e límpida
Água de uma visão sobre madeira
Corpo de metal lúcido
Haste caindo como uma palavra sobre
um animal
Urgência de ser em estar perfeito
Nudez de dentro
Fim do deserto
Princípio da palavra
Boca completa
557
António Ramos Rosa
Boca Completa
a Teresa Rita
e a António José Saraiva
Estar sobre o opaco Livre
Imediato
Estar no negro A coisa mesma
sem intervalo
Amar sobre A pedra a boca
do morto e vivo sempre
Delinear os dedos da própria coisa
Tocar as vértebras do seu silêncio
Dentro Dentro dela
Onde nos chamam Onde nos requerem
Onde as bocas da terra nos respiram
Dentro Dentro imediatamente dentro
da própria coisa negra
Dizer o silêncio o repouso o movimento
desse braço intenso sobre a terra
O compacto completo e nu num ápice
tocado vertiginosamente como um olho
por outro olho
Unidade límpida central feliz
Ser tocado estremecido respirado
pelo próprio centro da coisa obscura
e clara Água água densa e límpida
Água de uma visão sobre madeira
Corpo de metal lúcido
Haste caindo como uma palavra sobre
um animal
Urgência de ser em estar perfeito
Nudez de dentro
Fim do deserto
Princípio da palavra
Boca completa
e a António José Saraiva
Estar sobre o opaco Livre
Imediato
Estar no negro A coisa mesma
sem intervalo
Amar sobre A pedra a boca
do morto e vivo sempre
Delinear os dedos da própria coisa
Tocar as vértebras do seu silêncio
Dentro Dentro dela
Onde nos chamam Onde nos requerem
Onde as bocas da terra nos respiram
Dentro Dentro imediatamente dentro
da própria coisa negra
Dizer o silêncio o repouso o movimento
desse braço intenso sobre a terra
O compacto completo e nu num ápice
tocado vertiginosamente como um olho
por outro olho
Unidade límpida central feliz
Ser tocado estremecido respirado
pelo próprio centro da coisa obscura
e clara Água água densa e límpida
Água de uma visão sobre madeira
Corpo de metal lúcido
Haste caindo como uma palavra sobre
um animal
Urgência de ser em estar perfeito
Nudez de dentro
Fim do deserto
Princípio da palavra
Boca completa
557
António Ramos Rosa
Quem Vive No Silêncio, Quem Vibra No Silêncio,
Quem vive no silêncio, quem vibra no silêncio,
Quem subiu à torre do silêncio.
Quem viu a equivalência espaço e fogo.
Quem construiu a casa no centro do labirinto.
Eu acendo apenas estas poucas palavras
com alguma sombra e a transparência fulva
do ar; animais na clareira,
a fundação do corpo pelo mais forte alento.
Quem domina o ar e permanece em terra,
quem foge de uma sombra para uma sombra menor,
quem procura procura com uma lâmpada branca.
Quem subiu à torre do silêncio.
Quem viu a equivalência espaço e fogo.
Quem construiu a casa no centro do labirinto.
Eu acendo apenas estas poucas palavras
com alguma sombra e a transparência fulva
do ar; animais na clareira,
a fundação do corpo pelo mais forte alento.
Quem domina o ar e permanece em terra,
quem foge de uma sombra para uma sombra menor,
quem procura procura com uma lâmpada branca.
983
António Ramos Rosa
Quem Vive No Silêncio, Quem Vibra No Silêncio,
Quem vive no silêncio, quem vibra no silêncio,
Quem subiu à torre do silêncio.
Quem viu a equivalência espaço e fogo.
Quem construiu a casa no centro do labirinto.
Eu acendo apenas estas poucas palavras
com alguma sombra e a transparência fulva
do ar; animais na clareira,
a fundação do corpo pelo mais forte alento.
Quem domina o ar e permanece em terra,
quem foge de uma sombra para uma sombra menor,
quem procura procura com uma lâmpada branca.
Quem subiu à torre do silêncio.
Quem viu a equivalência espaço e fogo.
Quem construiu a casa no centro do labirinto.
Eu acendo apenas estas poucas palavras
com alguma sombra e a transparência fulva
do ar; animais na clareira,
a fundação do corpo pelo mais forte alento.
Quem domina o ar e permanece em terra,
quem foge de uma sombra para uma sombra menor,
quem procura procura com uma lâmpada branca.
983
António Ramos Rosa
Os Membros Desterrados Tão Longe do Amor
Os membros desterrados tão longe do amor
o pobre sexo amado no seu pequeno púbis
o seu nome perdido a sua glória exausta
a terra alucinada por um odor atroz
a cidade traída e a dor da ferida única
a dor de não saber trémula de sangue
Que bandeira vibrar que não seja a mais negra
que pedra senão a singular
e que outros nomes senão os mais pobres
a pobre mão o sexo a boca os dedos
lívidos
o pobre sexo amado no seu pequeno púbis
o seu nome perdido a sua glória exausta
a terra alucinada por um odor atroz
a cidade traída e a dor da ferida única
a dor de não saber trémula de sangue
Que bandeira vibrar que não seja a mais negra
que pedra senão a singular
e que outros nomes senão os mais pobres
a pobre mão o sexo a boca os dedos
lívidos
932
António Ramos Rosa
As Formas do Teu Ser São Várias,
As formas do teu ser são várias,
mas negam a inércia, arrancam-te
do chão. Tens o poder e a altura precisas
para a vasta geografia dos campos e das casas.
És vertical no peso, na verdade do nome
do princípio ao fim, firme de seres terra
e o cheiro que tens é de um livre universo:
a terra pode esperar, confia em teu galope.
Porque te quero único, por não ser e
para ser, quantas vezes te falho
sem a paciência
da tua impaciência nobre de cavalo.
Mas o teu galope liberta o meu alento
e o meu desejo corre sobre a planície branca,
a teu lado chispando a rubra fúria,
com a garganta ébria
de uma implacável frescura.
mas negam a inércia, arrancam-te
do chão. Tens o poder e a altura precisas
para a vasta geografia dos campos e das casas.
És vertical no peso, na verdade do nome
do princípio ao fim, firme de seres terra
e o cheiro que tens é de um livre universo:
a terra pode esperar, confia em teu galope.
Porque te quero único, por não ser e
para ser, quantas vezes te falho
sem a paciência
da tua impaciência nobre de cavalo.
Mas o teu galope liberta o meu alento
e o meu desejo corre sobre a planície branca,
a teu lado chispando a rubra fúria,
com a garganta ébria
de uma implacável frescura.
1 067
António Ramos Rosa
O Cavalo Que Respira a Manhã E Bebe o Sol.
El muro al sol respira, vibra, ondula
…………………………………
el hombre bebe sol, es agua, es tierra.
OCTAVIO PAZ
O cavalo que respira a manhã e bebe o sol
é água e terra como o homem que o lê
nas letras desta página ou deste muro
onde o sol respira, vibra, ondula.
A leitura é de sangue por um cimo límpido,
por um planeta verde e por um céu vermelho,
por um amor transparente, pela liberdade ardente
de um voo sobre a terra, rente aos muros.
Quem compreende a aliança entre cavalo e homem
compreende a mulher e a solidão da montanha.
Eu adormeço aqui entre céu e amizade
com a cabeça reclinada na visão da margem
em que as longas mãos se dão nuas e quentes
na aliança do cavalo, do homem e a mulher.
…………………………………
el hombre bebe sol, es agua, es tierra.
OCTAVIO PAZ
O cavalo que respira a manhã e bebe o sol
é água e terra como o homem que o lê
nas letras desta página ou deste muro
onde o sol respira, vibra, ondula.
A leitura é de sangue por um cimo límpido,
por um planeta verde e por um céu vermelho,
por um amor transparente, pela liberdade ardente
de um voo sobre a terra, rente aos muros.
Quem compreende a aliança entre cavalo e homem
compreende a mulher e a solidão da montanha.
Eu adormeço aqui entre céu e amizade
com a cabeça reclinada na visão da margem
em que as longas mãos se dão nuas e quentes
na aliança do cavalo, do homem e a mulher.
1 200
António Ramos Rosa
Onde Não Treme a Sombra
Onde não treme a sombra
e a cabeça treme com a brecha
e nenhum horizonte e sem a mão
que cega cor se acende algum
amor ou raiva algum alento algum
alguém?
Onde o espaço se desfaz delidamente
onde o osso não resiste
onde a pedra é sonâmbula
onde não se ouve já senão
um rumor duro espesso e duro
como um silêncio iminente
um silêncio não ainda não
e ainda se vive de um ainda não
e a cabeça treme com a brecha
e nenhum horizonte e sem a mão
que cega cor se acende algum
amor ou raiva algum alento algum
alguém?
Onde o espaço se desfaz delidamente
onde o osso não resiste
onde a pedra é sonâmbula
onde não se ouve já senão
um rumor duro espesso e duro
como um silêncio iminente
um silêncio não ainda não
e ainda se vive de um ainda não
1 043
António Ramos Rosa
O Meu Trabalho É Este Sobre a Página Branca
O meu trabalho é este sobre a página branca
com a lâmpada branca desvendar as cores
do dia e do cavalo, o crescimento sóbrio,
dilatação de vasos, circulação de rios.
Ordenar lá do fundo o vigor que me impele
e me converte na força da página vivida
por um sangue de amar e de rasgar as folhas,
unir na casa única a multiplicidade.
Meu amor — agora sim — posso dizer amor
através de insectos e serpentes e fetos
sobre a baba e o ranho do nascimento puro.
Atravessei os pântanos e afundei-me no lodo.
Caminho tropeçando e aos nervos do cavalo
arranco este galope, este vagar de estar.
com a lâmpada branca desvendar as cores
do dia e do cavalo, o crescimento sóbrio,
dilatação de vasos, circulação de rios.
Ordenar lá do fundo o vigor que me impele
e me converte na força da página vivida
por um sangue de amar e de rasgar as folhas,
unir na casa única a multiplicidade.
Meu amor — agora sim — posso dizer amor
através de insectos e serpentes e fetos
sobre a baba e o ranho do nascimento puro.
Atravessei os pântanos e afundei-me no lodo.
Caminho tropeçando e aos nervos do cavalo
arranco este galope, este vagar de estar.
993
António Ramos Rosa
Por Um Pouco de Sombra Após a Luz do Muro,
Por um pouco de sombra após a luz do muro,
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.
Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.
É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.
E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.
Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.
É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.
E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
1 118
António Ramos Rosa
Quem Me Deu o Braço E o Ombro E o Fruto
Quem me deu o braço e o ombro e o fruto
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros
Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu
Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros
Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu
Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
1 148
António Ramos Rosa
Quem Me Deu o Braço E o Ombro E o Fruto
Quem me deu o braço e o ombro e o fruto
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros
Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu
Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros
Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu
Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
1 148
António Ramos Rosa
Sinto a Perfeição de Um Corpo
Sinto a perfeição de um corpo
e nos seus olhos perpassa um pouco o medo.
Serei eu quem tu vês?
Quem me abraçou outro dia não é já quem me abraça?
Sinto o não e o sim — e a inflexão da noite.
Vivo à superfície de um corpo negro e fundo.
O amplexo é real
e o que escrevo é o frémito.
Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.
Tenho os olhos fechados de abertos de ternura.
Tenho um pouco a paz de uma noite vivida.
e nos seus olhos perpassa um pouco o medo.
Serei eu quem tu vês?
Quem me abraçou outro dia não é já quem me abraça?
Sinto o não e o sim — e a inflexão da noite.
Vivo à superfície de um corpo negro e fundo.
O amplexo é real
e o que escrevo é o frémito.
Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.
Tenho os olhos fechados de abertos de ternura.
Tenho um pouco a paz de uma noite vivida.
1 001
António Ramos Rosa
Ausência do Poema? Clamor de Nada.
Ausência do poema? Clamor de nada.
Ou a harmonia inesperada. O corte brusco
de um apelo, pura invenção ainda!
Chamo-te meu desejo, minha terra,
meu chão, montanha, meu cavalo,
chamo-te sobre a terra, este papel.
Mas é o ventre vivo que te chama!
Longe da vida, não sei que vida seja,
se no abrupto seio da treva súbito
nasce o apelo cerrado a uma outra vida.
Esta só de linhas, ou de ímpetos no vácuo,
sabe que morrerá de sua morte. Mas
a ignorância surge e nela a esperança!
Ou a harmonia inesperada. O corte brusco
de um apelo, pura invenção ainda!
Chamo-te meu desejo, minha terra,
meu chão, montanha, meu cavalo,
chamo-te sobre a terra, este papel.
Mas é o ventre vivo que te chama!
Longe da vida, não sei que vida seja,
se no abrupto seio da treva súbito
nasce o apelo cerrado a uma outra vida.
Esta só de linhas, ou de ímpetos no vácuo,
sabe que morrerá de sua morte. Mas
a ignorância surge e nela a esperança!
1 152
António Ramos Rosa
Eis Uma Parede o Nome E a Sombra do Cavalo
Eis uma parede o nome e a sombra do cavalo
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
1 130
António Ramos Rosa
Eis Uma Parede o Nome E a Sombra do Cavalo
Eis uma parede o nome e a sombra do cavalo
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
1 130