Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Creio Em Teu Silêncio, Na Tua Pele de Luz,
Creio em teu silêncio, na tua pele de luz,
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.
O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.
De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.
Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.
O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.
De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.
Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.
1 093
António Ramos Rosa
A Estância do Dia
Compacta, volumosa barra (de sono e luz)
— o longo
elemento prenhe que perdura,
o corpo, esta madeira
da estância — actual em consistência fresca,
no lugar em que pouso, lugar dela,
pausa em que me apoio, estação una.
Habitável espaço pleno,
o surdo nome espesso, o ócio,
espraia sua toalha branca de horizonte interno.
Surde, no papel, o solo,
o lugar sem suporte, assomo
de estar
— até à fronte o intervalo abrindo
para o olhar que o perde e que o renova
ao fim de outro intervalo
— fluxo entre rupturas,
permanecendo todavia em todo o campo vivo,
o lugar do fogo entre pedras calmas,
visível figura respirável
no disperso centro do ar
em circular transparência global.
— o longo
elemento prenhe que perdura,
o corpo, esta madeira
da estância — actual em consistência fresca,
no lugar em que pouso, lugar dela,
pausa em que me apoio, estação una.
Habitável espaço pleno,
o surdo nome espesso, o ócio,
espraia sua toalha branca de horizonte interno.
Surde, no papel, o solo,
o lugar sem suporte, assomo
de estar
— até à fronte o intervalo abrindo
para o olhar que o perde e que o renova
ao fim de outro intervalo
— fluxo entre rupturas,
permanecendo todavia em todo o campo vivo,
o lugar do fogo entre pedras calmas,
visível figura respirável
no disperso centro do ar
em circular transparência global.
987
António Ramos Rosa
A Estância do Dia
Compacta, volumosa barra (de sono e luz)
— o longo
elemento prenhe que perdura,
o corpo, esta madeira
da estância — actual em consistência fresca,
no lugar em que pouso, lugar dela,
pausa em que me apoio, estação una.
Habitável espaço pleno,
o surdo nome espesso, o ócio,
espraia sua toalha branca de horizonte interno.
Surde, no papel, o solo,
o lugar sem suporte, assomo
de estar
— até à fronte o intervalo abrindo
para o olhar que o perde e que o renova
ao fim de outro intervalo
— fluxo entre rupturas,
permanecendo todavia em todo o campo vivo,
o lugar do fogo entre pedras calmas,
visível figura respirável
no disperso centro do ar
em circular transparência global.
— o longo
elemento prenhe que perdura,
o corpo, esta madeira
da estância — actual em consistência fresca,
no lugar em que pouso, lugar dela,
pausa em que me apoio, estação una.
Habitável espaço pleno,
o surdo nome espesso, o ócio,
espraia sua toalha branca de horizonte interno.
Surde, no papel, o solo,
o lugar sem suporte, assomo
de estar
— até à fronte o intervalo abrindo
para o olhar que o perde e que o renova
ao fim de outro intervalo
— fluxo entre rupturas,
permanecendo todavia em todo o campo vivo,
o lugar do fogo entre pedras calmas,
visível figura respirável
no disperso centro do ar
em circular transparência global.
987
António Ramos Rosa
Escrever-Te É Preparar-Me Para Um Novo Dia,
Escrever-te é preparar-me para um novo dia,
uma luta de abraços e de flores no mar.
Escrever-te é enamorar-me do primeiro nome, a terra,
a casa, o chão; ligá-los músculo a músculo
até ao sabor quente do teu bafo animal.
A ferida, a raiva ferida, arrebatada
pelo teu corpo disparado, no silêncio
de um campo de ervas altas; o silêncio
dos nomes do campo concentrado
num muro branco.
O canto e o encanto das coisas nomeadas,
pedra alta, fria chuva, olhos acesos,
ervas e flores,
a geometria do teu andar desperta
e da dureza da terra faz o lugar voltar
ao seu lugar primeiro, ao teu nome de terra.
uma luta de abraços e de flores no mar.
Escrever-te é enamorar-me do primeiro nome, a terra,
a casa, o chão; ligá-los músculo a músculo
até ao sabor quente do teu bafo animal.
A ferida, a raiva ferida, arrebatada
pelo teu corpo disparado, no silêncio
de um campo de ervas altas; o silêncio
dos nomes do campo concentrado
num muro branco.
O canto e o encanto das coisas nomeadas,
pedra alta, fria chuva, olhos acesos,
ervas e flores,
a geometria do teu andar desperta
e da dureza da terra faz o lugar voltar
ao seu lugar primeiro, ao teu nome de terra.
1 149
António Ramos Rosa
Todas As Possíveis Possibilidades
a Rui-Mário Gonçalves
Todas as possíveis possibilidades de ver
claras e sóbrias
se unem e resultam
determinadas, como uma árvore
sem as folhas.
Porque tendem todas para os dedos do espaço,
porque atingiram o ser do nervo,
a textura única.
Facilidade pura.
Olhá-las é um acto
de nervos límpidos:
estaladas,
cantam.
Chegaram a si mesmas,
hastes e panos,
uma vela
de veias
rectilínea.
Relação liberta, livre.
Todas as possíveis possibilidades de ver
claras e sóbrias
se unem e resultam
determinadas, como uma árvore
sem as folhas.
Porque tendem todas para os dedos do espaço,
porque atingiram o ser do nervo,
a textura única.
Facilidade pura.
Olhá-las é um acto
de nervos límpidos:
estaladas,
cantam.
Chegaram a si mesmas,
hastes e panos,
uma vela
de veias
rectilínea.
Relação liberta, livre.
529
António Ramos Rosa
Bloco Intacto
Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
1 144
António Ramos Rosa
Oh, Porque Sim
E fa di clarità l’aer tremare.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
1 108
António Ramos Rosa
As Tuas Armas São Lentas
As tuas armas são lentas
servas compreendem lúcidas reflectem
as tuas armas secretas e patentes
Sorves-te como um sopro em corpo e firmas-te
As tuas ancas desligam-se despenham-se
As tuas servas surpreendem
Nunca têm a febre alta
Caminham no silêncio das tuas pernas
As tuas armas são pequenas e longas
Tecem no espaço as linhas de uma águia
Desfazem um a um os mitos dos enlaces
A tua vista alcança o ponto cego da luz
A tua linguagem é o silêncio sem eco
Tornaste-te num muro alto que não vejo:
o espaço nu
servas compreendem lúcidas reflectem
as tuas armas secretas e patentes
Sorves-te como um sopro em corpo e firmas-te
As tuas ancas desligam-se despenham-se
As tuas servas surpreendem
Nunca têm a febre alta
Caminham no silêncio das tuas pernas
As tuas armas são pequenas e longas
Tecem no espaço as linhas de uma águia
Desfazem um a um os mitos dos enlaces
A tua vista alcança o ponto cego da luz
A tua linguagem é o silêncio sem eco
Tornaste-te num muro alto que não vejo:
o espaço nu
1 056
António Ramos Rosa
Onde É Aqui
Onde é aqui,
o centro,
onde se respira,
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.
Onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
Respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.
Onde é aqui,
a fome nua,
a árvore exacta
no centro
da alegria,
a luz e o olhar
aberto ao mar.
Onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
Onde o fogo acende
o pulso do poema.
o centro,
onde se respira,
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.
Onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
Respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.
Onde é aqui,
a fome nua,
a árvore exacta
no centro
da alegria,
a luz e o olhar
aberto ao mar.
Onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
Onde o fogo acende
o pulso do poema.
1 171
António Ramos Rosa
A Face do Ar
O rosto nu perante o mar.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.
1 068
António Ramos Rosa
Alta No Chão
Alta no chão,
ainda há pouco erguida.
Agora lâmina,
lenha penetrável,
ardente, cega.
Rastejante boca
que a língua me inunda.
ainda há pouco erguida.
Agora lâmina,
lenha penetrável,
ardente, cega.
Rastejante boca
que a língua me inunda.
1 056
António Ramos Rosa
Não Que Dance, a Folha
Não que dance, a folha
que dirias contra
a noite. Não que a febre
um incêndio pelo pulso alastre
até à terra obscura. Nada,
esta ligeireza simples, estas palavras
ninguém as grita. Espero que
a sombra de outro corpo ao meu
as dei. Um canto
que eu não sei se
as move, ou outro espaço
mas só a sombra
delas.
Antes, depois, já,
quando, um frémito feliz
as traça, o nó
desata, outras minhas
no intervalo que abrem
cessam,
quando, e sem porquê.
que dirias contra
a noite. Não que a febre
um incêndio pelo pulso alastre
até à terra obscura. Nada,
esta ligeireza simples, estas palavras
ninguém as grita. Espero que
a sombra de outro corpo ao meu
as dei. Um canto
que eu não sei se
as move, ou outro espaço
mas só a sombra
delas.
Antes, depois, já,
quando, um frémito feliz
as traça, o nó
desata, outras minhas
no intervalo que abrem
cessam,
quando, e sem porquê.
959
António Ramos Rosa
Boca Para Ler, Para Abrir E Devorar
Boca para ler para abrir e devorar
pernas para lamber fluindo como as colinas do olhar
Boca para o meio-dia solar
pernas para correr sob o arco das montanhas
Boca para lábio a lábio língua a língua ler
Ventre retirado para sentir a fuga viva vir para a frente
Púbis para a espiga alta e pulsante soluçar
Catre rubro e suave para adormecer acordado
aí onde o sim diz a água do sim
terra que bate e bate lenta forte e doce
olho de água olho de terra abrindo e dando
pernas para lamber fluindo como as colinas do olhar
Boca para o meio-dia solar
pernas para correr sob o arco das montanhas
Boca para lábio a lábio língua a língua ler
Ventre retirado para sentir a fuga viva vir para a frente
Púbis para a espiga alta e pulsante soluçar
Catre rubro e suave para adormecer acordado
aí onde o sim diz a água do sim
terra que bate e bate lenta forte e doce
olho de água olho de terra abrindo e dando
1 171
António Ramos Rosa
Na Solidão Renovada
Com os dentes.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
1 166
António Ramos Rosa
Se Há Cães de Sono…
Se há cães de sono que meus pulsos rasgam
cães de dentes em lava,
se há algas nos teus olhos,
se escrevo no papel a baba dos teus beijos
nenhum vagar de sombra
nenhum campo natural do vivo olhar.
Se nos teus olhos vejo um vale,
se posso dizer casa, vento, nu,
nenhuma terra pousa sobre a terra,
sobre a mão que escreve
nem a sombra cai.
Que escrevo então, nudez sem corpo,
janela sobre um mar sem mar,
mão sem mão,
porque persigo um rastro sem faro, opaco e frio?
Que face ou região, círculo aberto,
página que no silêncio não ascende,
sopro que não sobe à boca, lua morta?
Se não te quero, imagem fútil,
luva de nada,
porque insisto no pálido círculo deste campo?
Se não há sol nem mãos que o arrebatem,
se árvores não vejo, nem destroços restam,
um tudo há-de nascer, ou já nasce de nada,
de cães de raiva insone, cães insones?
Oh, dormir sem nada mais, dormir apenas,
dormir para acordar
como se houvera um acordar de vez.
cães de dentes em lava,
se há algas nos teus olhos,
se escrevo no papel a baba dos teus beijos
nenhum vagar de sombra
nenhum campo natural do vivo olhar.
Se nos teus olhos vejo um vale,
se posso dizer casa, vento, nu,
nenhuma terra pousa sobre a terra,
sobre a mão que escreve
nem a sombra cai.
Que escrevo então, nudez sem corpo,
janela sobre um mar sem mar,
mão sem mão,
porque persigo um rastro sem faro, opaco e frio?
Que face ou região, círculo aberto,
página que no silêncio não ascende,
sopro que não sobe à boca, lua morta?
Se não te quero, imagem fútil,
luva de nada,
porque insisto no pálido círculo deste campo?
Se não há sol nem mãos que o arrebatem,
se árvores não vejo, nem destroços restam,
um tudo há-de nascer, ou já nasce de nada,
de cães de raiva insone, cães insones?
Oh, dormir sem nada mais, dormir apenas,
dormir para acordar
como se houvera um acordar de vez.
1 086
António Ramos Rosa
Maio de 68
a Eduardo Prado Coelho
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
684
António Ramos Rosa
Maio de 68
a Eduardo Prado Coelho
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
684
António Ramos Rosa
Bater o Metal
É para bater e para ver. Para bater e para ver. Para bater. Para bater na fronte do silêncio. Bater na fronte. Bater.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
1 190
António Ramos Rosa
Bater o Metal
É para bater e para ver. Para bater e para ver. Para bater. Para bater na fronte do silêncio. Bater na fronte. Bater.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
1 190
António Ramos Rosa
Bater o Metal
É para bater e para ver. Para bater e para ver. Para bater. Para bater na fronte do silêncio. Bater na fronte. Bater.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
1 190
António Ramos Rosa
A Fogo E Pedra
Neste campo — qual campo?
não me entrego,
rompo.
Avanço a fogo e pedra
e terra.
*
O triângulo da fronte
pulsa com o ventre
magramente
ao vento.
Arde nuamente
arde alto
com o ventre
ao vento.
*
Por detrás da sombra
da pedra
por baixo da sombra
da pedra
por baixo por detrás
do silêncio
da pedra
o silêncio da pedra
*
Meu país de palavras. País de pedra. Que atravesso, país que treme, hesita, rompe. Nu. Vivo. Pobre.
*
Digo para dizer — esta parede
que não vês,
este ar que não respiras.
Entre a palavra e a figura
treme o nada
a boca branca
*
Nada, ou ainda a pedra, ou ainda a terra, ou ainda o fogo. Nada. A fronte nua interior, boca de ar e morte. E uma pequena rua longa e branca, a rua nua, a rua de um corpo para a via láctea do dia. As árvores brancas. Caminho sem cessar. Não sou vosso habitante de comércio entre portas. Rebento as minhas barricas de ar.
*
Adiro
à minha boca
de terra
ó carne da carne
tumor
de silêncio
vermelho
*
No lugar da árvore. No lugar do ouvido. No lugar do chão. Unidade crepitante no silêncio aberto no trânsito. Tronco, calma bomba indeflagrável, dádiva da identidade.
*
A breve lâmina que nos separa, ou muro ou chama. Contra a esquina, arde. Contra o céu, arde. Na terra, ondula e chama, chama. A breve lâmina, ou rasga ou chama.
*
Neste chão
onde passam as palavras
se brilham
— de quem são?
*
Demasiado alto para
o sono
e o amor.
Contra a vertigem
sonâmbula
esta barragem de pedra
*
Por um país mais lento, filho do ócio
armado ao ombro do ócio,
no ócio da alegria
do ócio.
Ervas de ócio, folhas de ócio,
inimaginável figura do ócio
descabelada, branca e nua
caindo lenta
lenta
lenta,
imponderável, lenta,
interminável.
*
Minhas armas quotidianas para rir, para quebrar, para desarmar.
*
Penso numa linguagem desconcertantemente simples, falsamente transparente, um pouco tosca. Térrea e pétrea. E aí brilha uma lâmpada, uma pedra, o ar. Uma linguagem de restituição.
*
Algo se soltou no corpo
algo se abriu
e a boca.
O corpo abriu-se.
A boca em uníssono com o corpo.
Pela primeira vez
pela primeira vez
a boca foi a boca do corpo.
não me entrego,
rompo.
Avanço a fogo e pedra
e terra.
*
O triângulo da fronte
pulsa com o ventre
magramente
ao vento.
Arde nuamente
arde alto
com o ventre
ao vento.
*
Por detrás da sombra
da pedra
por baixo da sombra
da pedra
por baixo por detrás
do silêncio
da pedra
o silêncio da pedra
*
Meu país de palavras. País de pedra. Que atravesso, país que treme, hesita, rompe. Nu. Vivo. Pobre.
*
Digo para dizer — esta parede
que não vês,
este ar que não respiras.
Entre a palavra e a figura
treme o nada
a boca branca
*
Nada, ou ainda a pedra, ou ainda a terra, ou ainda o fogo. Nada. A fronte nua interior, boca de ar e morte. E uma pequena rua longa e branca, a rua nua, a rua de um corpo para a via láctea do dia. As árvores brancas. Caminho sem cessar. Não sou vosso habitante de comércio entre portas. Rebento as minhas barricas de ar.
*
Adiro
à minha boca
de terra
ó carne da carne
tumor
de silêncio
vermelho
*
No lugar da árvore. No lugar do ouvido. No lugar do chão. Unidade crepitante no silêncio aberto no trânsito. Tronco, calma bomba indeflagrável, dádiva da identidade.
*
A breve lâmina que nos separa, ou muro ou chama. Contra a esquina, arde. Contra o céu, arde. Na terra, ondula e chama, chama. A breve lâmina, ou rasga ou chama.
*
Neste chão
onde passam as palavras
se brilham
— de quem são?
*
Demasiado alto para
o sono
e o amor.
Contra a vertigem
sonâmbula
esta barragem de pedra
*
Por um país mais lento, filho do ócio
armado ao ombro do ócio,
no ócio da alegria
do ócio.
Ervas de ócio, folhas de ócio,
inimaginável figura do ócio
descabelada, branca e nua
caindo lenta
lenta
lenta,
imponderável, lenta,
interminável.
*
Minhas armas quotidianas para rir, para quebrar, para desarmar.
*
Penso numa linguagem desconcertantemente simples, falsamente transparente, um pouco tosca. Térrea e pétrea. E aí brilha uma lâmpada, uma pedra, o ar. Uma linguagem de restituição.
*
Algo se soltou no corpo
algo se abriu
e a boca.
O corpo abriu-se.
A boca em uníssono com o corpo.
Pela primeira vez
pela primeira vez
a boca foi a boca do corpo.
1 163
António Ramos Rosa
Aqui Mereço-Te
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
1 042
António Ramos Rosa
Terra Imponderável
Uma toalha de água e de ar,
imponderável terra
de um longo instante suave.
Região de luz que toca as franjas
doces do ser: sem distância, distante.
Estou (estava) numa nuvem clara
sem linguagem nem corpo.
Um prolongado sim de todo o sangue calmo.
Imóvel barco ou suspensão que inunda.
Abrigo sem abrigo, morada do espaço.
Para além da mãe nocturna, da súplica e do abraço,
para além do pai funéreo, da cal e cinza pétrea,
o infindável átrio, a água libertada.
As palavras dizem os arcos do ar,
as mãos salvas conhecem-se, sem gestos.
Cheguei à fronte deste instante — à minha fronte,
os sonhos que tive desfizeram-se,
percorro agora a terra onde eles nascem,
os lábios livres cegos vêem e caminham.
Ouso ser simples como o pão e a água.
imponderável terra
de um longo instante suave.
Região de luz que toca as franjas
doces do ser: sem distância, distante.
Estou (estava) numa nuvem clara
sem linguagem nem corpo.
Um prolongado sim de todo o sangue calmo.
Imóvel barco ou suspensão que inunda.
Abrigo sem abrigo, morada do espaço.
Para além da mãe nocturna, da súplica e do abraço,
para além do pai funéreo, da cal e cinza pétrea,
o infindável átrio, a água libertada.
As palavras dizem os arcos do ar,
as mãos salvas conhecem-se, sem gestos.
Cheguei à fronte deste instante — à minha fronte,
os sonhos que tive desfizeram-se,
percorro agora a terra onde eles nascem,
os lábios livres cegos vêem e caminham.
Ouso ser simples como o pão e a água.
1 188
António Ramos Rosa
No Lugar da Árvore
No lugar da árvore. Longa e ampla.
Tronco, não obstáculo,
roda única sem rumor.
Minha mão de silêncio sem espanto.
Fazes-me maior
perto do ar.
Toda a leveza do ouvido, rede aérea,
onde sorrio e vejo
os animais claros do dia.
Próximo estou do justo
centro da coluna.
O corpo surdo e denso, só com o vinho do ar.
Desço ao nível da pedra,
pedra clara e sem canto.
Pousada, a árvore dá-me a pausa
a partir do chão.
Um pacto
de fiel invenção.
Já afasto os meus passos.
O timbre das palavras será o deste solo.
Tronco, não obstáculo,
roda única sem rumor.
Minha mão de silêncio sem espanto.
Fazes-me maior
perto do ar.
Toda a leveza do ouvido, rede aérea,
onde sorrio e vejo
os animais claros do dia.
Próximo estou do justo
centro da coluna.
O corpo surdo e denso, só com o vinho do ar.
Desço ao nível da pedra,
pedra clara e sem canto.
Pousada, a árvore dá-me a pausa
a partir do chão.
Um pacto
de fiel invenção.
Já afasto os meus passos.
O timbre das palavras será o deste solo.
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