Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Através do Dia E da Rua
Para acordar no dia
na confusão real.
Lâmpadas, olhos fáceis.
Fachadas, pedras, faces.
Sou eu que componho a face
deste dia e desta rua.
Sou eu que componho a sombra
que no dia se esconde e rompe.
Sou eu que passo entre as árvores
do próprio dia que sou.
Não posso criar outro dia
nem outra rua.
E a sombra?
Sou eu a rua ou o dia
que arrasta a sombra?
Sou eu que passo pela rua
que comigo próprio caminha.
É a rua o dia em que passo.
É a sombra do próprio dia.
São árvores, pedras e livros
rompendo por entre os passos
na margem de um muro alto
com o vento a bater de frente.
Com o sangue a bater bem alto,
a sombra a bater no dia.
na confusão real.
Lâmpadas, olhos fáceis.
Fachadas, pedras, faces.
Sou eu que componho a face
deste dia e desta rua.
Sou eu que componho a sombra
que no dia se esconde e rompe.
Sou eu que passo entre as árvores
do próprio dia que sou.
Não posso criar outro dia
nem outra rua.
E a sombra?
Sou eu a rua ou o dia
que arrasta a sombra?
Sou eu que passo pela rua
que comigo próprio caminha.
É a rua o dia em que passo.
É a sombra do próprio dia.
São árvores, pedras e livros
rompendo por entre os passos
na margem de um muro alto
com o vento a bater de frente.
Com o sangue a bater bem alto,
a sombra a bater no dia.
549
António Ramos Rosa
Através do Dia E da Rua
Para acordar no dia
na confusão real.
Lâmpadas, olhos fáceis.
Fachadas, pedras, faces.
Sou eu que componho a face
deste dia e desta rua.
Sou eu que componho a sombra
que no dia se esconde e rompe.
Sou eu que passo entre as árvores
do próprio dia que sou.
Não posso criar outro dia
nem outra rua.
E a sombra?
Sou eu a rua ou o dia
que arrasta a sombra?
Sou eu que passo pela rua
que comigo próprio caminha.
É a rua o dia em que passo.
É a sombra do próprio dia.
São árvores, pedras e livros
rompendo por entre os passos
na margem de um muro alto
com o vento a bater de frente.
Com o sangue a bater bem alto,
a sombra a bater no dia.
na confusão real.
Lâmpadas, olhos fáceis.
Fachadas, pedras, faces.
Sou eu que componho a face
deste dia e desta rua.
Sou eu que componho a sombra
que no dia se esconde e rompe.
Sou eu que passo entre as árvores
do próprio dia que sou.
Não posso criar outro dia
nem outra rua.
E a sombra?
Sou eu a rua ou o dia
que arrasta a sombra?
Sou eu que passo pela rua
que comigo próprio caminha.
É a rua o dia em que passo.
É a sombra do próprio dia.
São árvores, pedras e livros
rompendo por entre os passos
na margem de um muro alto
com o vento a bater de frente.
Com o sangue a bater bem alto,
a sombra a bater no dia.
549
António Ramos Rosa
Antes da Noite
Eu não fabrico a água.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
1 004
António Ramos Rosa
Antes da Noite
Eu não fabrico a água.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
1 004
António Ramos Rosa
Na Margem do Dia
Afirmas no quadrado
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.
Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.
A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,
de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.
Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.
Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.
Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.
Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.
Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.
Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.
A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,
de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.
Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.
Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.
Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.
Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.
Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
993
António Ramos Rosa
Na Margem do Dia
Afirmas no quadrado
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.
Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.
A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,
de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.
Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.
Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.
Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.
Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.
Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.
Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.
A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,
de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.
Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.
Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.
Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.
Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.
Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
993
António Ramos Rosa
Iminência
Corda tensa bem viva,
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?
Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.
Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.
Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.
Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.
Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.
Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.
Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.
Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?
Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.
Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.
Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.
Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.
Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.
Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.
Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.
Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
1 015
António Ramos Rosa
Estou Em Minha Casa
Estou em minha casa
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
1 026
António Ramos Rosa
Esplendor Calcinado
Calcando o solo, colado ao vento,
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.
Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.
Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.
Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.
Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.
Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.
Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.
Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?
Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!
Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.
Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.
Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.
Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.
Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.
Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.
Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.
Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.
Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.
Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?
Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!
Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.
Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.
Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
1 144
António Ramos Rosa
Entre a Parede E o Silêncio
Entre a parede e o silêncio
há talvez uma palavra
que eu tenho de formar.
Ou não há nada e eu quero
não me perder.
Entretanto… a luz pode surgir.
O dia é claro. A parede nua.
E mal respiro. Perco o meu dia.
Tudo é instantâneo ou não,
fulgura ou não,
ou vale a pena ou não
— mas poderei expor-me ainda mais
como uma pedra nua?
Aspiro ao instante exacto
em que a palavra surja.
Quero o olhar mais limpo,
a linguagem sem véus como a parede.
E esse momento em que eu seria eu,
o movimento entre mim e o dia.
Poderei caminhar, dizer bom dia
se o tiver dito ou o souber dizer
pelas palavras mesmas que disser,
por essa única que soube ou não formar.
há talvez uma palavra
que eu tenho de formar.
Ou não há nada e eu quero
não me perder.
Entretanto… a luz pode surgir.
O dia é claro. A parede nua.
E mal respiro. Perco o meu dia.
Tudo é instantâneo ou não,
fulgura ou não,
ou vale a pena ou não
— mas poderei expor-me ainda mais
como uma pedra nua?
Aspiro ao instante exacto
em que a palavra surja.
Quero o olhar mais limpo,
a linguagem sem véus como a parede.
E esse momento em que eu seria eu,
o movimento entre mim e o dia.
Poderei caminhar, dizer bom dia
se o tiver dito ou o souber dizer
pelas palavras mesmas que disser,
por essa única que soube ou não formar.
1 076
António Ramos Rosa
Momento 1
O calor dum sopro
sobre as colheres limpas
a construção repetida de bocas díspares
sobre um grande lago quase inexistente
O recomeço é uma hora de simplicidade
extremamente ténue
De novo voltamos
a uma hora mais leve
a um cavalo que segue silencioso
na infinita lisura do momento
sobre as colheres limpas
a construção repetida de bocas díspares
sobre um grande lago quase inexistente
O recomeço é uma hora de simplicidade
extremamente ténue
De novo voltamos
a uma hora mais leve
a um cavalo que segue silencioso
na infinita lisura do momento
1 117
António Ramos Rosa
A Paixão do Ar
Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
571
António Ramos Rosa
A Polpa do Sabor
A polpa fresca, lâmina rápida que se crispa e salta viva.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
1 022
António Ramos Rosa
A Polpa do Sabor
A polpa fresca, lâmina rápida que se crispa e salta viva.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.
A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.
Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
1 022
António Ramos Rosa
A Mão Que Principia Ao Alto
a Luiza Neto Jorge
A mão que principia ao alto
o traço. Rápido
antes de saber, surpresa e gosto.
Uma forma se diz, lábio primeiro,
experiência de nada, a língua alteia-se
sobre um fundo vago que desliza.
Um ombro se desenha, perfil do ar.
A força se forma, delicada,
juvenil seta que prolonga e curva,
alvo de um seio esboçado em branco aberto.
Crespa, como um nervo que entesa, aponta
ao círculo cheio que do corpo arroja,
o golfo elástico de uma anca ao braço
rasga entre vagas livres.
O tronco em chama calma, ascende, acende
a cabeça de suaves veias leves.
E a boca sóbria sem muros abre-se ao ar,
de um obscuro centro conjugados arcos
libertam-se em cadeia firme e alta,
sustidos por uma espádua onde se dobram,
e retensos se erguem nomes novos.
O muro interior soprado, toalha de ar,
dança à distância da mão regendo o corpo,
rede viva de veias sem limites
que altos dedos trémulos conduzem
à clara praia onde se lêem linhas.
A mão que principia ao alto
o traço. Rápido
antes de saber, surpresa e gosto.
Uma forma se diz, lábio primeiro,
experiência de nada, a língua alteia-se
sobre um fundo vago que desliza.
Um ombro se desenha, perfil do ar.
A força se forma, delicada,
juvenil seta que prolonga e curva,
alvo de um seio esboçado em branco aberto.
Crespa, como um nervo que entesa, aponta
ao círculo cheio que do corpo arroja,
o golfo elástico de uma anca ao braço
rasga entre vagas livres.
O tronco em chama calma, ascende, acende
a cabeça de suaves veias leves.
E a boca sóbria sem muros abre-se ao ar,
de um obscuro centro conjugados arcos
libertam-se em cadeia firme e alta,
sustidos por uma espádua onde se dobram,
e retensos se erguem nomes novos.
O muro interior soprado, toalha de ar,
dança à distância da mão regendo o corpo,
rede viva de veias sem limites
que altos dedos trémulos conduzem
à clara praia onde se lêem linhas.
812
António Ramos Rosa
Lâmpada Oscilante
O que eu diria, caminho pobre,
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
1 139
António Ramos Rosa
Campo E Corpo
Não houve antes nem haverá depois.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
1 162
António Ramos Rosa
De Bruços Sobre a Margem
A mão seca o abre: é um sabor vago.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.
Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.
O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.
Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.
Lenta paixão do olhar.
Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.
Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.
Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.
A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.
Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.
Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.
O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.
Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.
Lenta paixão do olhar.
Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.
Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.
Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.
A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.
Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
1 058
António Ramos Rosa
De Bruços Sobre a Margem
A mão seca o abre: é um sabor vago.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.
Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.
O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.
Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.
Lenta paixão do olhar.
Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.
Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.
Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.
A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.
Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.
Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.
O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.
Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.
Lenta paixão do olhar.
Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.
Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.
Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.
A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.
Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
1 058
António Ramos Rosa
Um Pouco À Frente
Extrema e vaga lâmpada, um pouco à frente, onde o corpo vai entrar, murmúrio morno.
Mão desligada, levemente alta — para o sabor do olhar.
Volátil molde onde a língua ondula. Ténues linhas dos cabelos da terra pela face.
Uma água lenta e madura de terra. Todo o braço vivo na corrente — o pé sorve a poeira irredutível.
Mão desligada, levemente alta — para o sabor do olhar.
Volátil molde onde a língua ondula. Ténues linhas dos cabelos da terra pela face.
Uma água lenta e madura de terra. Todo o braço vivo na corrente — o pé sorve a poeira irredutível.
989
António Ramos Rosa
São Os Lábios, As Suas Letras
São os lábios, as suas letras
e esta mão que desliza,
esta janela e esta mesa…
O que eu desejo, o que eu escrevo
não é a claridade nem o meu olhar.
Um imperceptível movimento,
um antegosto…
Não. O meu desejo
só o saberei no sabor
das palavras com que o persigo
e o vou perdendo…
Qual o seu hálito?
De pedra e água.
É aqui mesmo que o saboreio
onde o ignoro.
Bafo de animal — rio.
Mão calma.
Instantânea força sábia.
Tentá-la!
Mão que tempera o sono.
Dorso que sobe da água.
Duas ou três palavras
para captá-lo nu e vivo.
Um lápis. Um papel deslumbrante,
tudo consinto, ó lisa força que
amacias os músculos e o olhar,
ó palavra flexível e palpitar da sombra
para a vivaz vertigem!
Não há razão para desesperar.
Não posso ser senão o que sou
no momento em que adiro e ardo!
e esta mão que desliza,
esta janela e esta mesa…
O que eu desejo, o que eu escrevo
não é a claridade nem o meu olhar.
Um imperceptível movimento,
um antegosto…
Não. O meu desejo
só o saberei no sabor
das palavras com que o persigo
e o vou perdendo…
Qual o seu hálito?
De pedra e água.
É aqui mesmo que o saboreio
onde o ignoro.
Bafo de animal — rio.
Mão calma.
Instantânea força sábia.
Tentá-la!
Mão que tempera o sono.
Dorso que sobe da água.
Duas ou três palavras
para captá-lo nu e vivo.
Um lápis. Um papel deslumbrante,
tudo consinto, ó lisa força que
amacias os músculos e o olhar,
ó palavra flexível e palpitar da sombra
para a vivaz vertigem!
Não há razão para desesperar.
Não posso ser senão o que sou
no momento em que adiro e ardo!
985
António Ramos Rosa
Ritmo do Ritmo
Era a mão que me conduzia por entre os troncos e as folhas.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
782
António Ramos Rosa
Ritmo do Ritmo
Era a mão que me conduzia por entre os troncos e as folhas.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
782
António Ramos Rosa
Parede E Altamente a Luz Soou…
Ali se é livre no saber-se leve
e centrado Escreve esses largos traços
esse pautado repetido multiforme
e temperado gosto da laranja
Ali se sabe quanto no segredo
foi só verdade obscura e agora é luz
é vórtice renascido nas agulhas
de um tapete alerta e sobtudo
Ali se encrespa sob o tecto a noite
ou floresta ou mulher intacta e verde
coluna lenta ao sol das areias
Ali nos damos todos à matéria
branca e vermelha de ossos redivivos
o esqueleto alimento de homem forte
*
Essa é a palavra que jorrou
como uma cor e encontrou o espaço
e em espaço convertida outra palavra
como árvore árvore de sol se renovou
Assim acesa brilha branca e alta
lâmpada sob os pés tapete longo
e orelha envolvendo o nosso olhar
e abraço dado ainda a dar parede
Cobertos descobrimos o aberto
que há no dentro deste espaço aberto
É todo o olhar e o ouvir no centro
onde os raios da laranja se despedem
como cavalos desabridos e domados
no pulso que os estampa sobre o chão
*
É terra vitoriosa e são as cascas
da árvore que tombou sobre o telhado
e a pedra do mar vertida em tempo
e a palavra de um bicho que acordou
São duras rectas vertigens trucidadas
que em feixe a mão desalinhou
e sob graves pentes desnudada
a matéria casta ser e nada
Assim a terra dormida despertou
e subiu de nós um mar de coisas vivas
num arremesso de forças despejadas
Parede e altamente a luz soou
de pedras de silêncios terras vozes
As mãos duras detonaram sol
e centrado Escreve esses largos traços
esse pautado repetido multiforme
e temperado gosto da laranja
Ali se sabe quanto no segredo
foi só verdade obscura e agora é luz
é vórtice renascido nas agulhas
de um tapete alerta e sobtudo
Ali se encrespa sob o tecto a noite
ou floresta ou mulher intacta e verde
coluna lenta ao sol das areias
Ali nos damos todos à matéria
branca e vermelha de ossos redivivos
o esqueleto alimento de homem forte
*
Essa é a palavra que jorrou
como uma cor e encontrou o espaço
e em espaço convertida outra palavra
como árvore árvore de sol se renovou
Assim acesa brilha branca e alta
lâmpada sob os pés tapete longo
e orelha envolvendo o nosso olhar
e abraço dado ainda a dar parede
Cobertos descobrimos o aberto
que há no dentro deste espaço aberto
É todo o olhar e o ouvir no centro
onde os raios da laranja se despedem
como cavalos desabridos e domados
no pulso que os estampa sobre o chão
*
É terra vitoriosa e são as cascas
da árvore que tombou sobre o telhado
e a pedra do mar vertida em tempo
e a palavra de um bicho que acordou
São duras rectas vertigens trucidadas
que em feixe a mão desalinhou
e sob graves pentes desnudada
a matéria casta ser e nada
Assim a terra dormida despertou
e subiu de nós um mar de coisas vivas
num arremesso de forças despejadas
Parede e altamente a luz soou
de pedras de silêncios terras vozes
As mãos duras detonaram sol
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