Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Através da Memória
a Jorge de Sena
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
EDNA St. VINCENT MILLAY*
Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.
A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
duma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas, solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem dum espelho,
com a auréola duma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.
Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.
Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.
Já
essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mãos suaves.
Mas nunca
ele cantara assim.
* Estes versos são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte», de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema «Através da Memória» foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, é também extraída da referida tradução.
Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
EDNA St. VINCENT MILLAY*
Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.
A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
duma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas, solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem dum espelho,
com a auréola duma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.
Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.
Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.
Já
essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mãos suaves.
Mas nunca
ele cantara assim.
* Estes versos são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte», de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema «Através da Memória» foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, é também extraída da referida tradução.
635
António Ramos Rosa
Porque Não Soube Merecer a Glória, a Mais Suave
Porque não soube merecer a glória, a mais suave
de me deitar a teu lado
e que do sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi
não sei quem sou
de me deitar a teu lado
e que do sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi
não sei quem sou
633
António Ramos Rosa
No Coração da Neve
No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
1 122
António Ramos Rosa
Agora estou entre Sombras e Sombras
Agora estou entre sombras e sombras
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz
Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos
Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas
Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?
Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo
muito para além dos olhos sujos dos homens
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz
Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos
Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas
Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?
Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo
muito para além dos olhos sujos dos homens
1 112
António Ramos Rosa
Agora estou entre Sombras e Sombras
Agora estou entre sombras e sombras
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz
Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos
Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas
Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?
Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo
muito para além dos olhos sujos dos homens
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz
Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos
Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas
Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?
Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo
muito para além dos olhos sujos dos homens
1 112
António Ramos Rosa
A Ciência Das Canções
a Alberto de Lacerda
A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal
Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova incessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto
irradia
A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal
Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova incessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto
irradia
1 153
António Ramos Rosa
Em Miseráveis Quartos
Em miseráveis quartos
eu descobri a luz
os bêbedos sorriam
por vezes
Entre a fome e o medo
entre a fome e o medo
meu corpo respirava
a tua luz
E o pão era de sangue
com restos de cinza
Apenas os telhados
ondulavam ao sol
Perdido pelas calçadas
um íntimo suor
escorria-me pela cara
Esse suor dizia
mais sobre a verdade
que todas as palavras
eu descobri a luz
os bêbedos sorriam
por vezes
Entre a fome e o medo
entre a fome e o medo
meu corpo respirava
a tua luz
E o pão era de sangue
com restos de cinza
Apenas os telhados
ondulavam ao sol
Perdido pelas calçadas
um íntimo suor
escorria-me pela cara
Esse suor dizia
mais sobre a verdade
que todas as palavras
1 183
Francisco Mallmann
V
esse é um exercício de morte
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
781
Francisco Mallmann
V
esse é um exercício de morte
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
781
Francisco Mallmann
V
esse é um exercício de morte
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
781
Francisco Mallmann
V
esse é um exercício de morte
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
781
António Ramos Rosa
O Único Sabor
a Manuel Pinto
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor dum relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor dum relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.
1 221
António Ramos Rosa
O Único Sabor
a Manuel Pinto
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor dum relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor dum relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.
1 221
António Ramos Rosa
O Único Sabor
a Manuel Pinto
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor dum relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor dum relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.
1 221
António Ramos Rosa
O Tempo Concreto
O tempo duro
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo
O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa
O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso
O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos
O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas
O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados
O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada
O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais
O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil
O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos
O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo
O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa
O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso
O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos
O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas
O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados
O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada
O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais
O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil
O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos
O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
762
António Ramos Rosa
Deixas Passar os Barcos e as Nuvens
Je laisse passer les bateaux les nuages.
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
907
António Ramos Rosa
Deixas Passar os Barcos e as Nuvens
Je laisse passer les bateaux les nuages.
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
907
António Ramos Rosa
Deixas Passar os Barcos e as Nuvens
Je laisse passer les bateaux les nuages.
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
907
António Ramos Rosa
Antecipação À Velhice
Põe o tempo o cuidado
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
667
António Ramos Rosa
Antecipação À Velhice
Põe o tempo o cuidado
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
667
António Ramos Rosa
Antecipação À Velhice
Põe o tempo o cuidado
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
667
António Ramos Rosa
Antecipação À Velhice
Põe o tempo o cuidado
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
667
António Ramos Rosa
Antecipação À Velhice
Põe o tempo o cuidado
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
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