Poemas neste tema
Vida e Existência
Fernando Pessoa
Tenho um desejo comigo/Que me traz longe de mim.
Tenho um desejo comigo
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.
985
Fernando Pessoa
IX - Now is she gowned completely, her face won
IX
Now is she gowned completely, her face won
To a flush. Look how the sun
Shines hot and how the creeper, loosed, doth strain
To hit the heated pane!
She is all white, all she's awaiting him.
Her eyes are bright and dim.
Her hands are cold, her lips are dry, her heart
Pants like a pursued hart.
Now is she gowned completely, her face won
To a flush. Look how the sun
Shines hot and how the creeper, loosed, doth strain
To hit the heated pane!
She is all white, all she's awaiting him.
Her eyes are bright and dim.
Her hands are cold, her lips are dry, her heart
Pants like a pursued hart.
1 247
Fernando Pessoa
Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,
Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,
Qual aquilo que gosta.
Pares quem os fados diferentes
Como rios diversos,
Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte,
Sempre ao mar em que acabam.
Gostemos pois aquilo em que pusémos
O gosto inaprendido,
Temos as tenras tardes, não (...)
Qual aquilo que gosta.
Pares quem os fados diferentes
Como rios diversos,
Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte,
Sempre ao mar em que acabam.
Gostemos pois aquilo em que pusémos
O gosto inaprendido,
Temos as tenras tardes, não (...)
1 256
Fernando Pessoa
Nem relógio parado, nem a falta
Nem relógio parado, nem a falta
Da água em clepsidra, ou na ampulheta a areia
Tiram o tempo ao tempo.
Da água em clepsidra, ou na ampulheta a areia
Tiram o tempo ao tempo.
1 612
Fernando Pessoa
THINGS THAT HAPPEN IN SOCIETY
Apollo married and Hercules married, and this was in real life.
The wife of Hercules loved beautiful rather than strong men,
And strong and not beautiful men was the taste of Apollo's wife.
The wife of Hercules loved beautiful rather than strong men,
And strong and not beautiful men was the taste of Apollo's wife.
1 302
Fernando Pessoa
A tua boca de riso
A tua boca de riso
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.
2 120
Fernando Pessoa
Sorrow sits by my side
Sorrow sits by my side
Fondling my careless hair.
She is the lady of golden
Gestures to silence beholden.
Only she does not deride
My dreams and what makes them fair.
Now she doth cease and whisper
The use of dreams to my soul.
She tells me they mean God's blessing
The spirit's shining releasing
From the world's weight and sister
To life's unchanging whole.
Fondling my careless hair.
She is the lady of golden
Gestures to silence beholden.
Only she does not deride
My dreams and what makes them fair.
Now she doth cease and whisper
The use of dreams to my soul.
She tells me they mean God's blessing
The spirit's shining releasing
From the world's weight and sister
To life's unchanging whole.
1 195
Fernando Pessoa
IV - Leva-me longe, meu suspiro fundo.
IV
Leva me longe, meu suspiro fundo,
Além do que deseja e que começa,
Lá muito longe, onde o viver se esqueça
Das formas metafísicas do mundo.
Aí que o meu sentir vago e profundo
O seu lugar exterior conheça,
Aí durma em fim, aí enfim faleça
O cintilar do espírito fecundo.
Aí... mas de que serve imaginar
Regiões onde o sonho é verdadeiro
Ou terras para o ser atormentar?
É elevar demais a aspiração,
E, falhado esse sonho derradeiro,
Encontrar mais vazio o coração.
Leva me longe, meu suspiro fundo,
Além do que deseja e que começa,
Lá muito longe, onde o viver se esqueça
Das formas metafísicas do mundo.
Aí que o meu sentir vago e profundo
O seu lugar exterior conheça,
Aí durma em fim, aí enfim faleça
O cintilar do espírito fecundo.
Aí... mas de que serve imaginar
Regiões onde o sonho é verdadeiro
Ou terras para o ser atormentar?
É elevar demais a aspiração,
E, falhado esse sonho derradeiro,
Encontrar mais vazio o coração.
1 286
Fernando Pessoa
Trazes os brincos compridos,
Trazes os brincos compridos,
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.
1 897
Fernando Pessoa
Trazes os brincos compridos,
Trazes os brincos compridos,
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.
1 897
Fernando Pessoa
EPITAPH OF THE CATHOLIC CHURCH
Friends, tread in peace, here lies the devil;
The world hath now but little evil.
The world hath now but little evil.
1 371
Fernando Pessoa
POEMA PIAL
Casa Branca — Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês)
Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.
Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.
Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.
Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.
Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.
Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.
Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.
Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.
Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.
Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.
Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.
Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.
Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
2 165
Fernando Pessoa
POEMA PIAL
Casa Branca — Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês)
Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.
Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.
Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.
Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.
Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.
Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.
Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.
Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.
Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.
Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.
Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.
Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.
Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
2 165
Fernando Pessoa
Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
E o que outro tiveres?
Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
E o que outro tiveres?
1 303
Fernando Pessoa
Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
E o que outro tiveres?
Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
E o que outro tiveres?
1 303
Fernando Pessoa
TRIFLES
They wear no real greatness who have faith
In God: or Matter, in Life's In or Out.
Only perpetual doubt is truly great,
And the pain of perpetual doubt.
In God: or Matter, in Life's In or Out.
Only perpetual doubt is truly great,
And the pain of perpetual doubt.
1 376
Fernando Pessoa
Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
E ver é ser alheio. Meu passado
Só por visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que me sinto
Chegou hoje à estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a exacta forma
Que tem para consigo?
E ver é ser alheio. Meu passado
Só por visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que me sinto
Chegou hoje à estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a exacta forma
Que tem para consigo?
840
Fernando Pessoa
Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
E ver é ser alheio. Meu passado
Só por visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que me sinto
Chegou hoje à estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a exacta forma
Que tem para consigo?
E ver é ser alheio. Meu passado
Só por visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que me sinto
Chegou hoje à estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a exacta forma
Que tem para consigo?
840
Fernando Pessoa
Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
E ver é ser alheio. Meu passado
Só por visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que me sinto
Chegou hoje à estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a exacta forma
Que tem para consigo?
E ver é ser alheio. Meu passado
Só por visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que me sinto
Chegou hoje à estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a exacta forma
Que tem para consigo?
840
Fernando Pessoa
Concentra-te, e serás sereno e forte;
Concentra-te, e serás sereno e forte;
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.
Tudo mais empobrece, porque é pobre.
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.
Tudo mais empobrece, porque é pobre.
1 182
Fernando Pessoa
TO MY DEAREST FRIEND
When I am dead you'll write - I know you will -
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.
This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.
After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.
Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.
This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.
After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.
Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.
1 533
Fernando Pessoa
TO A MATERIALIST
Thou dost explain by Law the weaving
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
1 386