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Vida e Existência

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IN THE STREET

I pass before the windows lit
        With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
        The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.

And I feel cold and feel alone,
        Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
        As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.

If l were born not to aspire
        Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
        Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;

Could I no more aspire than these,
        Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
        Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.

But oh! I have within my heart
        Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
        An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.

I, the eternally excluded
        From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
        The soul that gave it birth ­-
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.

And cold before the normal, cold
        And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
        That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.

How good after dinner to chat
        And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
        An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.

A home, a rest, a child, a wife ­-
        None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
        That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.

Some in some theatre are away
        Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
        That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.

A cosiness these homes must steep
        In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
        ......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?

Oh joy! oh height of happiness!
        To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
        By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.

I weep sad tears - oh, not to live
        As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
        Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.

Sometimes I dream that I might sit
        By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
        In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.

Sometimes I dream one of these homes
        Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
        Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.

But as the thought of such a glad
        Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
        As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.

I dread to think of a life sweet
        By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
        And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.

So always incompatible
        And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
        That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.

And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
        Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.

I pass. The windows are behind,
        And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
        I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ODE MARCIAL [b]

ODE MARCIAL

Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!

Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!

Helahoho! helahoho!

A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)

Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.

Helahoho! helahoho!

Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.

Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.

Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.

Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.

Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.

Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?

Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ruído longínquo e próximo não sei porquê

Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não ha luar sobre as indecisões...

Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.

Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.

Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...

Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
(Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...
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