Poemas neste tema
Vida e Existência
Fernando Pessoa
Quando se amam, vívidos,
Quando se amam, vívidos,
Dois seres juvenis e naturais,
Parece que harmonias se derramam
Como perfumes pela terra em flor.
Mas eu, ao conceber-me amando, sinto
Como que um gargalhar hórrido e fundo
Da existência em mim, como ridículo
E desusado no que é natural.
Nunca, senão pensando no amor,
Me sinto tão longínquo e deslocado,
Tão cheio de ódios contra o meu destino
De raivas contra a essência do viver.
E nasce então em mim de tal sentir,
Um negrume de tédio e ódio imenso
Que torna os grandes crimes e os mais torpes
Inadequadas cousas ao que sinto
Em sua humilde e popular vileza.
Dois seres juvenis e naturais,
Parece que harmonias se derramam
Como perfumes pela terra em flor.
Mas eu, ao conceber-me amando, sinto
Como que um gargalhar hórrido e fundo
Da existência em mim, como ridículo
E desusado no que é natural.
Nunca, senão pensando no amor,
Me sinto tão longínquo e deslocado,
Tão cheio de ódios contra o meu destino
De raivas contra a essência do viver.
E nasce então em mim de tal sentir,
Um negrume de tédio e ódio imenso
Que torna os grandes crimes e os mais torpes
Inadequadas cousas ao que sinto
Em sua humilde e popular vileza.
1 267
Fernando Pessoa
O horror metafísico de Outrem!
O horror metafísico de Outrem!
O pavor de uma consciência alheia,
Como um deus a espreitar-me! Quem me dera
Ser a única consciência animal
Para não ter olhares sobre mim!
Dos olhos de cada um me fita, vivo,
O mistério de ver; e o horror de verem-me
Abisma-me.
Não posso conceber-me outro, ou pensar
Que a consciência que de mim é gémea
Possa ter outra forma, e um conteúdo
Diferentemente diferente. Só vejo
Homens, bichos, as feras e as aves,
Horrivelmente vivas e fitando.
Sou como um Deus supremo que se houvesse
Reconhecido em mim o único,
E a cujo olhar inúmero se abeira
O horror de mais inúmeros olhares.
Ah, se em mim se reflecte o transcendente
Brilho além de Deus!
O pavor de uma consciência alheia,
Como um deus a espreitar-me! Quem me dera
Ser a única consciência animal
Para não ter olhares sobre mim!
Dos olhos de cada um me fita, vivo,
O mistério de ver; e o horror de verem-me
Abisma-me.
Não posso conceber-me outro, ou pensar
Que a consciência que de mim é gémea
Possa ter outra forma, e um conteúdo
Diferentemente diferente. Só vejo
Homens, bichos, as feras e as aves,
Horrivelmente vivas e fitando.
Sou como um Deus supremo que se houvesse
Reconhecido em mim o único,
E a cujo olhar inúmero se abeira
O horror de mais inúmeros olhares.
Ah, se em mim se reflecte o transcendente
Brilho além de Deus!
1 332
Fernando Pessoa
Perdido / No labirinto de mim mesmo, já
Perdido
No labirinto de mim mesmo, já
Não sei qual o caminho que me leva
Dele à realidade humana e clara
Cheia de luz, onde sentir-me irmãos.
Por isso não concebo alegremente,
Mas com profunda pesadez em mim,
Esta alegria, esta felicidade,
Que odeio e que me fere.
Ouvir um riso
Amarga-me a alma — mas por quê não sei.
Sinto como um insulto esta alegria...
Toda a alegria. Quase que sinto
Que rir é rir... não de mim mas, talvez
Do meu ser.
Um insulto ao mistério estar a rir
E tendo o horror, do poder durar eterno
Do incompreendido! Estranho!
Felicidade, (...) composto
De sensualidade e infantilismo...
Como te posso eu ter, felicidade?
No labirinto de mim mesmo, já
Não sei qual o caminho que me leva
Dele à realidade humana e clara
Cheia de luz, onde sentir-me irmãos.
Por isso não concebo alegremente,
Mas com profunda pesadez em mim,
Esta alegria, esta felicidade,
Que odeio e que me fere.
Ouvir um riso
Amarga-me a alma — mas por quê não sei.
Sinto como um insulto esta alegria...
Toda a alegria. Quase que sinto
Que rir é rir... não de mim mas, talvez
Do meu ser.
Um insulto ao mistério estar a rir
E tendo o horror, do poder durar eterno
Do incompreendido! Estranho!
Felicidade, (...) composto
De sensualidade e infantilismo...
Como te posso eu ter, felicidade?
1 330
Fernando Pessoa
Vejo que delirei.
Vejo que delirei.
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esperança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh Fausto!
(Expira)
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esperança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh Fausto!
(Expira)
1 412
Fernando Pessoa
Vejo que delirei.
Vejo que delirei.
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esperança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh Fausto!
(Expira)
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esperança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh Fausto!
(Expira)
1 412
Fernando Pessoa
Tão linda e finda a memoro!
Tão linda e finda a memoro!
Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
Nas goelas do coração?
Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
Nas goelas do coração?
1 349
Fernando Pessoa
OXFORD SHORES'
OXFORD SHORES'
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
1 185
Fernando Pessoa
OXFORD SHORES'
OXFORD SHORES'
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
1 185
Fernando Pessoa
O único mistério no universo
O único mistério no universo
É haver um mistério do universo.
Sim, este sol que sem querer ilumina
A terra e as árvores, e as estações todas;
As pedras em que eu piso, as casas brancas,
Os homens, o convívio humano, a história,
O que se passa — tradição ou fala —
Entre alma e alma — as vozes, as cidades —
Tudo nem traz consigo a explicação
De existir, nem tem boca com que fale.
Por que razão não raia o sol dizendo
O que é? Por que motivo sossegado
Existem pedras sob os meus passos, e ar
Que eu respiro, e eu preciso respirar?
Tudo é uma máquina monstruosa e absurda.
Com todo o corpo e o ver [?], terra da alma,
Ignoramos.
Por que há? Por que há um universo?
Por que é um universo que é este?
Por que é assim composto o universo?
Por que há? Por que há o que há?
Por que há mundo, e porque é que há mundo assim?
For que há aqui, dores, consciência e diferença?
É haver um mistério do universo.
Sim, este sol que sem querer ilumina
A terra e as árvores, e as estações todas;
As pedras em que eu piso, as casas brancas,
Os homens, o convívio humano, a história,
O que se passa — tradição ou fala —
Entre alma e alma — as vozes, as cidades —
Tudo nem traz consigo a explicação
De existir, nem tem boca com que fale.
Por que razão não raia o sol dizendo
O que é? Por que motivo sossegado
Existem pedras sob os meus passos, e ar
Que eu respiro, e eu preciso respirar?
Tudo é uma máquina monstruosa e absurda.
Com todo o corpo e o ver [?], terra da alma,
Ignoramos.
Por que há? Por que há um universo?
Por que é um universo que é este?
Por que é assim composto o universo?
Por que há? Por que há o que há?
Por que há mundo, e porque é que há mundo assim?
For que há aqui, dores, consciência e diferença?
1 577
Fernando Pessoa
Longe de mim em mim existo
Longe de mim em mim existo
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.
1 287
Fernando Pessoa
Não me concebo amando, nem dizendo
Não me concebo amando, nem dizendo
A alguém «eu te amo», sem que me conceba
Sob uma outra alma que não é a minha
Toda a expansão e transfusão de vida
Me horroriza como a avaro a ideia
De gastar e gastar inutilmente,
Inda que no gastar se esboce gozo,
Um terror como de crime,
Uma frieza como ante o impossível
Tolhe a própria visão dum meu amor
Dentro em meu ser. Sentir amor, talvez,
Pois quem sabe o que está fadado
(...) ;mas amar, amar,
Nunca... não só o horror de (...)
Mas o pudor de dizer o que sinto
E ser amante aos olhos e ouvidos
Duma alma consciente, o entregar-me
Eu, o mistério de uma consciência,
Ao mistério duma outra consciência.
O poder estar inerte e (...)
Que só concebo como meu.
A vida é o esquecer-se continuamente
Mas eu, nesta minha intensa vida,
Vivi em mim tão solitariamente,
Que não sei esquecer-me, nem tirar
De mim meus olhos d'alma; e em cada gesto
De amor que eu fazia, analisá-lo
Até lhe descobrir o horror e (...)
Da essência do mistério; e ao ver tão perto
Como entre minhas mãos o revelado
Horror de tudo, logo deixarei
A possibilidade de amar
Cair delas tremendo. Do universo
A alma misteriosa eu sempre atento
Em toda a parte vejo; se já estas
Inanimadas cousas que me cercam
Me dão, nas muitas horas em que as fito,
Não com os sentidos mas com a alma logo,
Directamente como com a vista,
Me torturam, no auge do terror
Pelo mistério que não são e são;
Quanto mais — oh horror de o conceber! —
Ao ouvir vozes íntimas de alma
De um ser amante — minhas ou para mim —
Ao ouvir assim perto, ao ver assim
Próximo da minha alma sempre atenta
Uma voz do mistério feito vida —
Quanto mais, como se a solução
Do mistério mesmo me turbasse
Até à morte de terror e espanto,
Não se me esfriaria em medo a alma
Ao ver em um olhar brilhar o horror
De haver consciência e existências.
Não é o acanhamento virginal
Que da própria luxúria se perturba,
Nem o ideal pudor, por delicada
A alma, do que em amar é grosseria
Inevitavelmente; não o medo
De ser inapreciado ou ser troçado;
Nem terror de impotência a Ser (...)
Me ocupa. É mais negro sentimento
Mais íntimo, mais frio e mais ligado
Ao que, de continuado pensamento,
Me é o que eu chamo a alma que é minha.
E isto
Decerto lograria a incompreensão
Que primordial não é no meu temer
E a troça da alma no olhar espreitando
E (...) de quem é
Diferente de todos e de tudo,
Como um universo à parte, grande nisto
Mas sem poder d'alguém ser entendido
Senão por louco, ou desvairado ou triste,
Injúrias de insuficiência e acanhamento
De compreensão.
A alguém «eu te amo», sem que me conceba
Sob uma outra alma que não é a minha
Toda a expansão e transfusão de vida
Me horroriza como a avaro a ideia
De gastar e gastar inutilmente,
Inda que no gastar se esboce gozo,
Um terror como de crime,
Uma frieza como ante o impossível
Tolhe a própria visão dum meu amor
Dentro em meu ser. Sentir amor, talvez,
Pois quem sabe o que está fadado
(...) ;mas amar, amar,
Nunca... não só o horror de (...)
Mas o pudor de dizer o que sinto
E ser amante aos olhos e ouvidos
Duma alma consciente, o entregar-me
Eu, o mistério de uma consciência,
Ao mistério duma outra consciência.
O poder estar inerte e (...)
Que só concebo como meu.
A vida é o esquecer-se continuamente
Mas eu, nesta minha intensa vida,
Vivi em mim tão solitariamente,
Que não sei esquecer-me, nem tirar
De mim meus olhos d'alma; e em cada gesto
De amor que eu fazia, analisá-lo
Até lhe descobrir o horror e (...)
Da essência do mistério; e ao ver tão perto
Como entre minhas mãos o revelado
Horror de tudo, logo deixarei
A possibilidade de amar
Cair delas tremendo. Do universo
A alma misteriosa eu sempre atento
Em toda a parte vejo; se já estas
Inanimadas cousas que me cercam
Me dão, nas muitas horas em que as fito,
Não com os sentidos mas com a alma logo,
Directamente como com a vista,
Me torturam, no auge do terror
Pelo mistério que não são e são;
Quanto mais — oh horror de o conceber! —
Ao ouvir vozes íntimas de alma
De um ser amante — minhas ou para mim —
Ao ouvir assim perto, ao ver assim
Próximo da minha alma sempre atenta
Uma voz do mistério feito vida —
Quanto mais, como se a solução
Do mistério mesmo me turbasse
Até à morte de terror e espanto,
Não se me esfriaria em medo a alma
Ao ver em um olhar brilhar o horror
De haver consciência e existências.
Não é o acanhamento virginal
Que da própria luxúria se perturba,
Nem o ideal pudor, por delicada
A alma, do que em amar é grosseria
Inevitavelmente; não o medo
De ser inapreciado ou ser troçado;
Nem terror de impotência a Ser (...)
Me ocupa. É mais negro sentimento
Mais íntimo, mais frio e mais ligado
Ao que, de continuado pensamento,
Me é o que eu chamo a alma que é minha.
E isto
Decerto lograria a incompreensão
Que primordial não é no meu temer
E a troça da alma no olhar espreitando
E (...) de quem é
Diferente de todos e de tudo,
Como um universo à parte, grande nisto
Mas sem poder d'alguém ser entendido
Senão por louco, ou desvairado ou triste,
Injúrias de insuficiência e acanhamento
De compreensão.
1 391
Fernando Pessoa
Epílogo?
(Fausto (numa cama) acordando, abre as olhos)
Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.
A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.
Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.
A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.
Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
1 467
Fernando Pessoa
Epílogo?
(Fausto (numa cama) acordando, abre as olhos)
Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.
A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.
Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.
A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.
Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
1 467
Fernando Pessoa
Epílogo?
(Fausto (numa cama) acordando, abre as olhos)
Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.
A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.
Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.
A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.
Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
1 467
Fernando Pessoa
Do eterno erro na eterna viagem,
Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
929
Fernando Pessoa
Do eterno erro na eterna viagem,
Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
929
Fernando Pessoa
Ah não poder tirar de mim os olhos,
Ah não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.
Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)
Oh tortura, tortura, longa tortura!
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.
Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)
Oh tortura, tortura, longa tortura!
973
Fernando Pessoa
Ah não poder tirar de mim os olhos,
Ah não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.
Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)
Oh tortura, tortura, longa tortura!
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.
Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)
Oh tortura, tortura, longa tortura!
973
Fernando Pessoa
Ah não poder tirar de mim os olhos,
Ah não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.
Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)
Oh tortura, tortura, longa tortura!
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.
Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)
Oh tortura, tortura, longa tortura!
973
Fernando Pessoa
SONG
Sun to-day and storm to-morrow.
Never can we know
When is joy or when is sorrow,
Happiness or woe...
The clock strikes. To-day is gone.
Man, proud man, oh think thereon!
From delight we pass to sadness
From a smile to tears;
And the boldness of our gladness
Dies within our fears.
The clock strikes. An hour is past.
Think, oh think, how all doth waste!
Never can we know
When is joy or when is sorrow,
Happiness or woe...
The clock strikes. To-day is gone.
Man, proud man, oh think thereon!
From delight we pass to sadness
From a smile to tears;
And the boldness of our gladness
Dies within our fears.
The clock strikes. An hour is past.
Think, oh think, how all doth waste!
1 475
Fernando Pessoa
THOUGHT
How great a thing is thought! as through the gloom
Of stormy skies the sudden lightning curls,
As slow the storm in patience grim unfurls
Its mighty volume of resounding boom,
Thought comes, more bright than Reason's sun which hurls
Its constant beams around till verge of doom -
Or as the silver‑chequered shades which loom
'Neath Fancy's moon in windy queerest whirls.
Thought comes, but blinds the glaring mental sight,
But shakes our mind with echoes of its roar
And bears its force beyond our visual scope;
Horrible beauty and unpitying might
That often kills and tears, to rise no more,
The frailest fabric of a dreary hope.
Of stormy skies the sudden lightning curls,
As slow the storm in patience grim unfurls
Its mighty volume of resounding boom,
Thought comes, more bright than Reason's sun which hurls
Its constant beams around till verge of doom -
Or as the silver‑chequered shades which loom
'Neath Fancy's moon in windy queerest whirls.
Thought comes, but blinds the glaring mental sight,
But shakes our mind with echoes of its roar
And bears its force beyond our visual scope;
Horrible beauty and unpitying might
That often kills and tears, to rise no more,
The frailest fabric of a dreary hope.
1 061
Fernando Pessoa
É abismadamente curioso
É abismadamente curioso
E transcendentemente negro e fundo
Ver os seres, os entes a mover-se
A rir a (...), a falar, a (...)
Na luz e no calor; e neles todos
Um mistério que torna tudo negro
E faz a vida horror incompreendido.
Uma noite de Tudo que é um Nada
Um abismo de Nada que é um Tudo.
E transcendentemente negro e fundo
Ver os seres, os entes a mover-se
A rir a (...), a falar, a (...)
Na luz e no calor; e neles todos
Um mistério que torna tudo negro
E faz a vida horror incompreendido.
Uma noite de Tudo que é um Nada
Um abismo de Nada que é um Tudo.
1 674
Fernando Pessoa
DEATH IN LIFE
Another day is past, and while it past,
What have I pondered or conceived or read?
Nothing! Another day has gone to waste.
Nothing! Each hour as it is born is dead.
I have done nothing. Time from me has fled,
And unto Beauty not a statue raised!
By thought's firm power no creed nor lie debased
By this young useless and wearied.
Is it my lot then ever to remain
Like a grain of sand upon the beach,
A thing at will of wind, at will of sea?
Alas, that aught that wishes and has pain,
Because e'er fall'n from what its power should reach
Less than a thing inanimate should be!
What have I pondered or conceived or read?
Nothing! Another day has gone to waste.
Nothing! Each hour as it is born is dead.
I have done nothing. Time from me has fled,
And unto Beauty not a statue raised!
By thought's firm power no creed nor lie debased
By this young useless and wearied.
Is it my lot then ever to remain
Like a grain of sand upon the beach,
A thing at will of wind, at will of sea?
Alas, that aught that wishes and has pain,
Because e'er fall'n from what its power should reach
Less than a thing inanimate should be!
1 580
Fernando Pessoa
Em cada Consciência o Grande Horror
Em cada Consciência o Grande Horror
Mostra através da máscara os seus olbos.
E o carnal,
Em toda a sua extensão
De nudez da carne e da alma, mirra
Minha alma do pavor de colocar
A mão, na escuridão, sobre a fronte
Do Mistério.
A cópula dos entes, o contacto
Carnal das almas, pávido encontrar-se
Do horror de uma alma com o de outra alma,
Do mistério de um ser com o de outro ser,
Quintessenciar-se local, tangível
Do Mistério, (...)
Escrever
Em palavras de carne, sentindo
O horror e o mistério do Universo.
Com que gesto de alma
Dou o passo de mim até à posse
Do corpo de outro, horrorosamente
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele
Como eu sou eu.
Mostra através da máscara os seus olbos.
E o carnal,
Em toda a sua extensão
De nudez da carne e da alma, mirra
Minha alma do pavor de colocar
A mão, na escuridão, sobre a fronte
Do Mistério.
A cópula dos entes, o contacto
Carnal das almas, pávido encontrar-se
Do horror de uma alma com o de outra alma,
Do mistério de um ser com o de outro ser,
Quintessenciar-se local, tangível
Do Mistério, (...)
Escrever
Em palavras de carne, sentindo
O horror e o mistério do Universo.
Com que gesto de alma
Dou o passo de mim até à posse
Do corpo de outro, horrorosamente
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele
Como eu sou eu.
1 083