Poemas neste tema
Vida e Existência
Fernando Pessoa
Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?
Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?
Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não ha luar sobre as indecisões...
Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.
Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.
Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...
Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
(Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?
Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?
Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não ha luar sobre as indecisões...
Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.
Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.
Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...
Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
(Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...
1 074
Fernando Pessoa
Diálogo na treva?
Cresce em mim uma onda de agonia
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
1 359
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [c]
SAUDAÇÃO
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
1 114
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [c]
SAUDAÇÃO
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
1 114
Fernando Pessoa
Quando for a Grande Partida,
Quando for a Grande Partida,
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
1 359
Fernando Pessoa
Quando for a Grande Partida,
Quando for a Grande Partida,
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
1 359
Fernando Pessoa
Quando for a Grande Partida,
Quando for a Grande Partida,
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
1 359
Fernando Pessoa
Morto, hei-de estar a teu lado
Morto, hei-de estar a teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.
1 412
Fernando Pessoa
Os mistérios profundos e horrorosos;
Os mistérios profundos e horrorosos;
Haver isto que há, este ser
E haver um ser, maior horror ainda
De poucos, ou dum só, compreendido.
E haver eu ser eu.
Haver isto que há, este ser
E haver um ser, maior horror ainda
De poucos, ou dum só, compreendido.
E haver eu ser eu.
910
Fernando Pessoa
Os mistérios profundos e horrorosos;
Os mistérios profundos e horrorosos;
Haver isto que há, este ser
E haver um ser, maior horror ainda
De poucos, ou dum só, compreendido.
E haver eu ser eu.
Haver isto que há, este ser
E haver um ser, maior horror ainda
De poucos, ou dum só, compreendido.
E haver eu ser eu.
910
Fernando Pessoa
Subiste à glória pela descida abaixo.
Subiste à glória pela descida abaixo.
Paradoxo? Não: a realidade.
O paradoxo é o que é palavras
A realidade é o que és.
Subiste porque desceste.
Está bem.
Amanhã talvez eu faça a mesma coisa.
Por ora, se calhar, invejo-te.
Não sei se te invejo a vitória.
Não sei se te invejo o consegui-la.
Mas realmente creio que te a invejo
Sempre é vitória...
Façam um embrulho de mim
E depois deitem-me ao rio.
E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem.
Isso é importante.
Não esqueçam o «se calhar».
Isso é que é importante.
Porque tudo é se calhar...
Paradoxo? Não: a realidade.
O paradoxo é o que é palavras
A realidade é o que és.
Subiste porque desceste.
Está bem.
Amanhã talvez eu faça a mesma coisa.
Por ora, se calhar, invejo-te.
Não sei se te invejo a vitória.
Não sei se te invejo o consegui-la.
Mas realmente creio que te a invejo
Sempre é vitória...
Façam um embrulho de mim
E depois deitem-me ao rio.
E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem.
Isso é importante.
Não esqueçam o «se calhar».
Isso é que é importante.
Porque tudo é se calhar...
1 207
Fernando Pessoa
Entremos na morte com alegria! Caramba
Entremos na morte com alegria! Caramba
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor de [...] e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também
Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo
Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?
Eu sou Eu .
Viva eu porque estou morto! Viva!
Eu sou eu .
Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.
Eu, assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo,
Animando a monotonia dos espaços abstractos
Com a minha presença subtilíssima.
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor de [...] e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também
Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo
Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?
Eu sou Eu .
Viva eu porque estou morto! Viva!
Eu sou eu .
Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.
Eu, assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo,
Animando a monotonia dos espaços abstractos
Com a minha presença subtilíssima.
1 456
Fernando Pessoa
Entremos na morte com alegria! Caramba
Entremos na morte com alegria! Caramba
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor de [...] e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também
Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo
Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?
Eu sou Eu .
Viva eu porque estou morto! Viva!
Eu sou eu .
Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.
Eu, assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo,
Animando a monotonia dos espaços abstractos
Com a minha presença subtilíssima.
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor de [...] e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também
Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo
Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?
Eu sou Eu .
Viva eu porque estou morto! Viva!
Eu sou eu .
Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.
Eu, assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo,
Animando a monotonia dos espaços abstractos
Com a minha presença subtilíssima.
1 456
Fernando Pessoa
THE BELLS
Ring, bells, ring - ring out clear!
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
What does it matter? My childhood's glee -
You cannot call it back to me.
Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
You cannot call it back to me.
Though you sing but your set melody,
Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
Speaking of what I know not, sing
To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.
In the wordless speech of your own
Ring out, wild bells, ring out!
Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
Then I was unconscious; now I am mad.
Ring out bells! Your sadness that stings
Has a sob as an inner sound.
I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
Ye bring not anything to me.
Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
Full of dreams of agony.
All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
What does it matter? My childhood's glee -
You cannot call it back to me.
Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
You cannot call it back to me.
Though you sing but your set melody,
Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
Speaking of what I know not, sing
To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.
In the wordless speech of your own
Ring out, wild bells, ring out!
Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
Then I was unconscious; now I am mad.
Ring out bells! Your sadness that stings
Has a sob as an inner sound.
I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
Ye bring not anything to me.
Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
Full of dreams of agony.
All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
1 446
Fernando Pessoa
THE BELLS
Ring, bells, ring - ring out clear!
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
What does it matter? My childhood's glee -
You cannot call it back to me.
Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
You cannot call it back to me.
Though you sing but your set melody,
Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
Speaking of what I know not, sing
To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.
In the wordless speech of your own
Ring out, wild bells, ring out!
Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
Then I was unconscious; now I am mad.
Ring out bells! Your sadness that stings
Has a sob as an inner sound.
I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
Ye bring not anything to me.
Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
Full of dreams of agony.
All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
What does it matter? My childhood's glee -
You cannot call it back to me.
Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
You cannot call it back to me.
Though you sing but your set melody,
Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
Speaking of what I know not, sing
To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.
In the wordless speech of your own
Ring out, wild bells, ring out!
Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
Then I was unconscious; now I am mad.
Ring out bells! Your sadness that stings
Has a sob as an inner sound.
I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
Ye bring not anything to me.
Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
Full of dreams of agony.
All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
1 446
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [b]
Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 556
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [b]
Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 556
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [b]
Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 556
Fernando Pessoa
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
625
Fernando Pessoa
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
625
Fernando Pessoa
Não é medo que faça estremecer
Não é medo que faça estremecer
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
1 337
Fernando Pessoa
Depois de não ter dormido,
Depois de não ter dormido,
Depois de já não ter sono,
Interminável madrugada em que se pensa sempre sem se pensar,
Vi o dia vir
Como a pior das maldições —
A condenação ao mesmo
Contudo, que riqueza de azul verde e amarelo dourado de vermelho
No céu eternamente longínquo —
Nesse oriente que estragaram
Dizendo que vêm de lá as civilizações;
Nesse oriente que nos roubaram
Com o Conto do Vigário dos mitos solares,
Maravilhoso oriente sem civilizações nem mitos,
Simplesmente céu e luz,
Material sem materialidade...
Todo luz, mesmo assim
A sombra, que é a luz da noite dada ao dia,
Enche por vezes, irresistivelmente natural.
O grande silêncio do trigo sem vento,
O verdor esbatido dos campos afastados,
A vida e o sentimento da vida.
A manhã inunda toda a cidade.
Meus olhos pesados do sono que não tivestes,
Que amanhã inundará o que está por trás de vós.
Que é vós,
Que sou eu?
Depois de já não ter sono,
Interminável madrugada em que se pensa sempre sem se pensar,
Vi o dia vir
Como a pior das maldições —
A condenação ao mesmo
Contudo, que riqueza de azul verde e amarelo dourado de vermelho
No céu eternamente longínquo —
Nesse oriente que estragaram
Dizendo que vêm de lá as civilizações;
Nesse oriente que nos roubaram
Com o Conto do Vigário dos mitos solares,
Maravilhoso oriente sem civilizações nem mitos,
Simplesmente céu e luz,
Material sem materialidade...
Todo luz, mesmo assim
A sombra, que é a luz da noite dada ao dia,
Enche por vezes, irresistivelmente natural.
O grande silêncio do trigo sem vento,
O verdor esbatido dos campos afastados,
A vida e o sentimento da vida.
A manhã inunda toda a cidade.
Meus olhos pesados do sono que não tivestes,
Que amanhã inundará o que está por trás de vós.
Que é vós,
Que sou eu?
824
Fernando Pessoa
Depois de não ter dormido,
Depois de não ter dormido,
Depois de já não ter sono,
Interminável madrugada em que se pensa sempre sem se pensar,
Vi o dia vir
Como a pior das maldições —
A condenação ao mesmo
Contudo, que riqueza de azul verde e amarelo dourado de vermelho
No céu eternamente longínquo —
Nesse oriente que estragaram
Dizendo que vêm de lá as civilizações;
Nesse oriente que nos roubaram
Com o Conto do Vigário dos mitos solares,
Maravilhoso oriente sem civilizações nem mitos,
Simplesmente céu e luz,
Material sem materialidade...
Todo luz, mesmo assim
A sombra, que é a luz da noite dada ao dia,
Enche por vezes, irresistivelmente natural.
O grande silêncio do trigo sem vento,
O verdor esbatido dos campos afastados,
A vida e o sentimento da vida.
A manhã inunda toda a cidade.
Meus olhos pesados do sono que não tivestes,
Que amanhã inundará o que está por trás de vós.
Que é vós,
Que sou eu?
Depois de já não ter sono,
Interminável madrugada em que se pensa sempre sem se pensar,
Vi o dia vir
Como a pior das maldições —
A condenação ao mesmo
Contudo, que riqueza de azul verde e amarelo dourado de vermelho
No céu eternamente longínquo —
Nesse oriente que estragaram
Dizendo que vêm de lá as civilizações;
Nesse oriente que nos roubaram
Com o Conto do Vigário dos mitos solares,
Maravilhoso oriente sem civilizações nem mitos,
Simplesmente céu e luz,
Material sem materialidade...
Todo luz, mesmo assim
A sombra, que é a luz da noite dada ao dia,
Enche por vezes, irresistivelmente natural.
O grande silêncio do trigo sem vento,
O verdor esbatido dos campos afastados,
A vida e o sentimento da vida.
A manhã inunda toda a cidade.
Meus olhos pesados do sono que não tivestes,
Que amanhã inundará o que está por trás de vós.
Que é vós,
Que sou eu?
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Fernando Pessoa
No meio das grandezas e das glórias
No meio das grandezas e das glórias
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
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