Poemas neste tema
Vida e Existência
Fernando Pessoa
Mais que a existência
Mais que a existência
É um mistério o existir, o ser, o haver
Um ser, uma existência, um existir —
Um qualquer, que não este, por ser este —
Este é o problema que perturba mais.
O que é existir — não nós ou o mundo —
Mas existir em si?
É um mistério o existir, o ser, o haver
Um ser, uma existência, um existir —
Um qualquer, que não este, por ser este —
Este é o problema que perturba mais.
O que é existir — não nós ou o mundo —
Mas existir em si?
2 720
Fernando Pessoa
A PARTIDA [c]
A PARTIDA
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
4 999
Fernando Pessoa
A PARTIDA [c]
A PARTIDA
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
4 999
Fernando Pessoa
A PARTIDA [c]
A PARTIDA
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
4 999
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS [d]
PASSAGEM DAS HORAS
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
1 784
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS [d]
PASSAGEM DAS HORAS
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
1 784
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS [d]
PASSAGEM DAS HORAS
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
1 784
Fernando Pessoa
Memórias de pensar vivem em mim
Memórias de pensar vivem em mim
Desordenadamente desconexas
Num atordoamento do meu ser.
A lucidez horrorosa d'outrora
(E outrora era ontem) já não tenho;
Mas sinto-a, não sei como, nesta surda
Nocturna confusão aglomerada
De (...) e porções de pensamento.
Como se um horror (...) que no dia
Enchesse de turvo a terra em sol
Não acabasse, mas confusamente
Rumorejasse silenciosamente
Na perturbada paz da noite.
Desordenadamente desconexas
Num atordoamento do meu ser.
A lucidez horrorosa d'outrora
(E outrora era ontem) já não tenho;
Mas sinto-a, não sei como, nesta surda
Nocturna confusão aglomerada
De (...) e porções de pensamento.
Como se um horror (...) que no dia
Enchesse de turvo a terra em sol
Não acabasse, mas confusamente
Rumorejasse silenciosamente
Na perturbada paz da noite.
1 472
Fernando Pessoa
Memórias de pensar vivem em mim
Memórias de pensar vivem em mim
Desordenadamente desconexas
Num atordoamento do meu ser.
A lucidez horrorosa d'outrora
(E outrora era ontem) já não tenho;
Mas sinto-a, não sei como, nesta surda
Nocturna confusão aglomerada
De (...) e porções de pensamento.
Como se um horror (...) que no dia
Enchesse de turvo a terra em sol
Não acabasse, mas confusamente
Rumorejasse silenciosamente
Na perturbada paz da noite.
Desordenadamente desconexas
Num atordoamento do meu ser.
A lucidez horrorosa d'outrora
(E outrora era ontem) já não tenho;
Mas sinto-a, não sei como, nesta surda
Nocturna confusão aglomerada
De (...) e porções de pensamento.
Como se um horror (...) que no dia
Enchesse de turvo a terra em sol
Não acabasse, mas confusamente
Rumorejasse silenciosamente
Na perturbada paz da noite.
1 472
Fernando Pessoa
III - O mar jaz; gemem em segredo os ventos [1]
O mar jaz; gemem em segredo os ventos
Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?
Em Éolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Neptuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?
999
Fernando Pessoa
Nos vastos céus estrelados
Nos vastos céus estrelados
Que além de espaços estão,
Sob a regência de fados
Que ninguém sabe o que são,
Há sistemas infinitos,
Sóis centros de mundos seus,
E cada sol é um Deus.
Eternamente excluídos
Uns dos outros, cada um
É universo.
Mundo dentro de mundos
Infinidades variadas,
Abismos muitos, sem fundo
(...)
Que além de espaços estão,
Sob a regência de fados
Que ninguém sabe o que são,
Há sistemas infinitos,
Sóis centros de mundos seus,
E cada sol é um Deus.
Eternamente excluídos
Uns dos outros, cada um
É universo.
Mundo dentro de mundos
Infinidades variadas,
Abismos muitos, sem fundo
(...)
1 881
Fernando Pessoa
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
1 174
Fernando Pessoa
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
1 174
Fernando Pessoa
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
1 174
Fernando Pessoa
VICENTE: Todos, oh mestre, têm horror à morte...
[VICENTE]:
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
[VICENTE]:
Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
FAUSTO:
Dize.
[VICENTE]:
Que...
FAUSTO:
O quê?
[VICENTE]:
Que me apavora.
FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
[VICENTE]:
Vagamente.
FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
[VICENTE]:
Cristo?
FAUSTO:
Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
[VICENTE]:
Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
[VICENTE]:
Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
[VICENTE]:
O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
[VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
[VICENTE]:
Mestre, até então.
FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
[VICENTE]:
Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
FAUSTO:
Dize.
[VICENTE]:
Que...
FAUSTO:
O quê?
[VICENTE]:
Que me apavora.
FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
[VICENTE]:
Vagamente.
FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
[VICENTE]:
Cristo?
FAUSTO:
Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
[VICENTE]:
Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
[VICENTE]:
Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
[VICENTE]:
O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
[VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
[VICENTE]:
Mestre, até então.
FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
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Fernando Pessoa
VICENTE: Todos, oh mestre, têm horror à morte...
[VICENTE]:
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
[VICENTE]:
Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
FAUSTO:
Dize.
[VICENTE]:
Que...
FAUSTO:
O quê?
[VICENTE]:
Que me apavora.
FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
[VICENTE]:
Vagamente.
FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
[VICENTE]:
Cristo?
FAUSTO:
Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
[VICENTE]:
Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
[VICENTE]:
Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
[VICENTE]:
O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
[VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
[VICENTE]:
Mestre, até então.
FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
[VICENTE]:
Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
FAUSTO:
Dize.
[VICENTE]:
Que...
FAUSTO:
O quê?
[VICENTE]:
Que me apavora.
FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
[VICENTE]:
Vagamente.
FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
[VICENTE]:
Cristo?
FAUSTO:
Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
[VICENTE]:
Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
[VICENTE]:
Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
[VICENTE]:
O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
[VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
[VICENTE]:
Mestre, até então.
FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
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Fernando Pessoa
VICENTE: Todos, oh mestre, têm horror à morte...
[VICENTE]:
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
[VICENTE]:
Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
FAUSTO:
Dize.
[VICENTE]:
Que...
FAUSTO:
O quê?
[VICENTE]:
Que me apavora.
FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
[VICENTE]:
Vagamente.
FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
[VICENTE]:
Cristo?
FAUSTO:
Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
[VICENTE]:
Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
[VICENTE]:
Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
[VICENTE]:
O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
[VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
[VICENTE]:
Mestre, até então.
FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
[VICENTE]:
Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
FAUSTO:
Dize.
[VICENTE]:
Que...
FAUSTO:
O quê?
[VICENTE]:
Que me apavora.
FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
[VICENTE]:
Vagamente.
FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
[VICENTE]:
Cristo?
FAUSTO:
Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
[VICENTE]:
Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
[VICENTE]:
Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
[VICENTE]:
O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
[VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
[VICENTE]:
Mestre, até então.
FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
844
Fernando Pessoa
Desejava querer fugir de mim.
ali. ali. ali
e...e...e...
Palavras, não sois nada!
O que é Deus?
Uma palavra,
Pouco mais que um som.
E um som?
Nada.
e...e...e...
Palavras, não sois nada!
O que é Deus?
Uma palavra,
Pouco mais que um som.
E um som?
Nada.
1 523
Fernando Pessoa
SER: Sou assim a íntima essência
Sou assim a íntima essência
Do suspiro, do lamento
Do profundo pensamento
Que há por nome «Existência».
Mais vago e maior eu sou,
E quem melhor pensa bem;
Eu assim tremendo encontro
O ponto final do Além.
Nada digo e digo tudo
Com meu nome mudo frio;
Causa à alma um arrepio
Meu simbolizar de tudo;
E o pensamento estremece
Dum íntimo horror ingente
Por que além de mim conhece
Que nada há e nada sente.
Do suspiro, do lamento
Do profundo pensamento
Que há por nome «Existência».
Mais vago e maior eu sou,
E quem melhor pensa bem;
Eu assim tremendo encontro
O ponto final do Além.
Nada digo e digo tudo
Com meu nome mudo frio;
Causa à alma um arrepio
Meu simbolizar de tudo;
E o pensamento estremece
Dum íntimo horror ingente
Por que além de mim conhece
Que nada há e nada sente.
2 503
Fernando Pessoa
SER: Sou assim a íntima essência
Sou assim a íntima essência
Do suspiro, do lamento
Do profundo pensamento
Que há por nome «Existência».
Mais vago e maior eu sou,
E quem melhor pensa bem;
Eu assim tremendo encontro
O ponto final do Além.
Nada digo e digo tudo
Com meu nome mudo frio;
Causa à alma um arrepio
Meu simbolizar de tudo;
E o pensamento estremece
Dum íntimo horror ingente
Por que além de mim conhece
Que nada há e nada sente.
Do suspiro, do lamento
Do profundo pensamento
Que há por nome «Existência».
Mais vago e maior eu sou,
E quem melhor pensa bem;
Eu assim tremendo encontro
O ponto final do Além.
Nada digo e digo tudo
Com meu nome mudo frio;
Causa à alma um arrepio
Meu simbolizar de tudo;
E o pensamento estremece
Dum íntimo horror ingente
Por que além de mim conhece
Que nada há e nada sente.
2 503
Fernando Pessoa
O DESTINO: As minhas mãos invisíveis
As minhas mãos invisíveis
Pesam sobre o mundo
E as coisas, insensíveis
Ao seu condestinar profundo,
Dormem no sonho de verdade
Chamado a sua liberdade.
Todos são malhas de uma rede
Que no seu desfazer
Julgam que vivem e têm sede
De em si crer.
Pesam sobre o mundo
E as coisas, insensíveis
Ao seu condestinar profundo,
Dormem no sonho de verdade
Chamado a sua liberdade.
Todos são malhas de uma rede
Que no seu desfazer
Julgam que vivem e têm sede
De em si crer.
994
Fernando Pessoa
Meu pensamento é um rio subterrâneo
Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo
De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las..., misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados...
De vez em quando luze em minha mágoa
Como um farol num mar desconhecido
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...
E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,
E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói‑me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.
Escuto‑o... Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de rio certo e abstracto...
E p'ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi‑lo ? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?
Não sei... Eu perco‑o... E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...
Para que terras vai e donde vem?
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo
De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las..., misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados...
De vez em quando luze em minha mágoa
Como um farol num mar desconhecido
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...
E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,
E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói‑me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.
Escuto‑o... Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de rio certo e abstracto...
E p'ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi‑lo ? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?
Não sei... Eu perco‑o... E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...
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Fernando Pessoa
Meu pensamento é um rio subterrâneo
Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo
De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las..., misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados...
De vez em quando luze em minha mágoa
Como um farol num mar desconhecido
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...
E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,
E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói‑me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.
Escuto‑o... Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de rio certo e abstracto...
E p'ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi‑lo ? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?
Não sei... Eu perco‑o... E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...
Para que terras vai e donde vem?
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo
De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las..., misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados...
De vez em quando luze em minha mágoa
Como um farol num mar desconhecido
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...
E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,
E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói‑me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.
Escuto‑o... Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de rio certo e abstracto...
E p'ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi‑lo ? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?
Não sei... Eu perco‑o... E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...
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Fernando Pessoa
A PARTIDA [b]
A PARTIDA
Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!
Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.
Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!
Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.
Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
(...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.
Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!
Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.
Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!
Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.
Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
(...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.
Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
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