Poemas neste tema
Vida e Existência
Fernando Pessoa
Não morreram, Neera, os velhos deuses.
Não morreram, Neera, os velhos deuses.
Sempre que a humana alegria
Renasce, eles se voltam
Para a nossa saudade.
Sempre que a humana alegria
Renasce, eles se voltam
Para a nossa saudade.
1 350
Fernando Pessoa
Amei-te e por te amar
Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
1 730
Fernando Pessoa
Amei-te e por te amar
Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
1 730
Fernando Pessoa
Cedo demais vem sempre, Cloé, o inverno.
Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno.
É sempre prematuro, inda que o espere
Nosso hábito, o esfriar
Do desejo que houve.
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
Morra com isso ao menos
O não amar ou crer.
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
Nesta má circunstância
Do tempo eternos somos.
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
Furte ao tempo a vitória
Das mudanças depressa,
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
Uma igual vida, súbito
Precipite no abismo.
É sempre prematuro, inda que o espere
Nosso hábito, o esfriar
Do desejo que houve.
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
Morra com isso ao menos
O não amar ou crer.
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
Nesta má circunstância
Do tempo eternos somos.
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
Furte ao tempo a vitória
Das mudanças depressa,
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
Uma igual vida, súbito
Precipite no abismo.
1 525
Fernando Pessoa
Cedo demais vem sempre, Cloé, o inverno.
Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno.
É sempre prematuro, inda que o espere
Nosso hábito, o esfriar
Do desejo que houve.
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
Morra com isso ao menos
O não amar ou crer.
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
Nesta má circunstância
Do tempo eternos somos.
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
Furte ao tempo a vitória
Das mudanças depressa,
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
Uma igual vida, súbito
Precipite no abismo.
É sempre prematuro, inda que o espere
Nosso hábito, o esfriar
Do desejo que houve.
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
Morra com isso ao menos
O não amar ou crer.
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
Nesta má circunstância
Do tempo eternos somos.
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
Furte ao tempo a vitória
Das mudanças depressa,
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
Uma igual vida, súbito
Precipite no abismo.
1 525
Fernando Pessoa
Fazer parar o giro sobre si
Fazer parar o giro sobre si
Do vácuo pensamento, pôr a roda
Em movimento sobre a terra escura
Poção que por magia de bebê-la
A dormente vontade em mim disperte
De viver… (...)
Do vácuo pensamento, pôr a roda
Em movimento sobre a terra escura
Poção que por magia de bebê-la
A dormente vontade em mim disperte
De viver… (...)
1 079
Fernando Pessoa
Não como ante donzela ou mulher viva
Não como ante donzela ou mulher viva
Com calor na beleza humana delas
Devemos dar os olhos
À beleza imortal.
Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
Não de outro modo é ela
Imortal como os deuses.
Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
Devemos olhar de néscios
Olhos para a beleza.
Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
Diante da beleza
Façamo-nos sóbrios.
Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
Por isso a contemplemos
Num claro esquecimento.
E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
E o longínquo sorriso
De quem assiste à vida.
Com calor na beleza humana delas
Devemos dar os olhos
À beleza imortal.
Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
Não de outro modo é ela
Imortal como os deuses.
Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
Devemos olhar de néscios
Olhos para a beleza.
Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
Diante da beleza
Façamo-nos sóbrios.
Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
Por isso a contemplemos
Num claro esquecimento.
E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
E o longínquo sorriso
De quem assiste à vida.
1 359
Fernando Pessoa
Que linda é quem não és!
Que linda é quem não és!
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
1 388
Fernando Pessoa
Que linda é quem não és!
Que linda é quem não és!
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
1 388
Fernando Pessoa
Manhã que raias sem olhar a mim,
Manhã que raias sem olhar a mim,
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
805
Fernando Pessoa
Manhã que raias sem olhar a mim,
Manhã que raias sem olhar a mim,
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
805
Fernando Pessoa
I loved a woman;
I loved a woman; there was the story of sex relations, an emotional novelty. They were sex relations and no more. It was pleasure and no more.
715
Fernando Pessoa
Tenho um relógio parado
Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.
2 198
Fernando Pessoa
Neste dia em que os campos são de Apolo
Neste dia em que os campos são de Apolo
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
O sentirmos a vida.
Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
Disciplina da dança...
Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
Abdiquemos do dia,
E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
Do dia passageiro.
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
O sentirmos a vida.
Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
Disciplina da dança...
Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
Abdiquemos do dia,
E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
Do dia passageiro.
1 476
Fernando Pessoa
Neste dia em que os campos são de Apolo
Neste dia em que os campos são de Apolo
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
O sentirmos a vida.
Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
Disciplina da dança...
Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
Abdiquemos do dia,
E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
Do dia passageiro.
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
O sentirmos a vida.
Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
Disciplina da dança...
Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
Abdiquemos do dia,
E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
Do dia passageiro.
1 476
Fernando Pessoa
Neste dia em que os campos são de Apolo
Neste dia em que os campos são de Apolo
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
O sentirmos a vida.
Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
Disciplina da dança...
Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
Abdiquemos do dia,
E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
Do dia passageiro.
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
O sentirmos a vida.
Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
Disciplina da dança...
Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
Abdiquemos do dia,
E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
Do dia passageiro.
1 476
Fernando Pessoa
Passando a vida em ver passar a de outros,
Passando a vida em ver passar a de outros,
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem (...)
Penélopes tristes.
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem (...)
Penélopes tristes.
1 370
Fernando Pessoa
Passando a vida em ver passar a de outros,
Passando a vida em ver passar a de outros,
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem (...)
Penélopes tristes.
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem (...)
Penélopes tristes.
1 370
Fernando Pessoa
Maior é quem a passo e passo avança
Maior é quem a passo e passo avança
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
990
Fernando Pessoa
Maior é quem a passo e passo avança
Maior é quem a passo e passo avança
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
990
Fernando Pessoa
Maior é quem a passo e passo avança
Maior é quem a passo e passo avança
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
990
Fernando Pessoa
Não quero a fama, que comigo a têm
Não quero a fama, que comigo a têm
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
1 285
Fernando Pessoa
Não quero a fama, que comigo a têm
Não quero a fama, que comigo a têm
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
1 285
Fernando Pessoa
I cannot well deceive me that there was
I cannot well deceive me that there was
In my love nobleness, even though ill.
Now that the tunnel through which I did pass
Yields to the glaring day, I can instil
Into my thought a wonder how I could
Suppose that way to be a place of staying;
Thus being a fool in the way all men should,
Yet not the complete fool to take no naying (!!!)
In my love nobleness, even though ill.
Now that the tunnel through which I did pass
Yields to the glaring day, I can instil
Into my thought a wonder how I could
Suppose that way to be a place of staying;
Thus being a fool in the way all men should,
Yet not the complete fool to take no naying (!!!)
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