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Poemas neste tema

Vida e Existência

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

WALT WHITMAN

WALT WHITMAN

Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá,
Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros.
Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.

Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falo,
E não falo, porque não tento.
«Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim.
Mas ser universal — não o posso, porque sou particular.
Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu Não posso ser o primeiro em qualquer coisa, porque não há o primeiro.
Prefiro por isso o nada de ser co-primeiro em ser nada.

Quando é que parte o último comboio, Walt?
Quero deixar esta cidade, a Terra,
Quero emergir de vez deste país, Eu,
Deixar o mundo com o que se comprova falido,
Como um caixeiro viajante que vende navios a habitantes do interior.

O fim a motores partidos!
Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil —
Estéril realização com um destino impossível —
Máquina de louco para realizar o motu continuo,
Teorema de absurdo para a quadratura do círculo,
Travessia a nado do Atlântico, falando na margem de cá
Antes da entrada na água, só com eles e o cálculo,
Atirar de pedras à lua
Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida.

Megalomania dos nervos,
Ânsia de elasticidade do corpo duro,
Raiva de meu concreto ser por não ser o auge-eixo
O carro da sensualidade de entusiasmo abstracto
O vácuo dinâmico do mundo!

Vamo-nos embora de Ser.
Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida
O arrabalde-Mundo de Deus
E entremos na cidade à aventura, ao rasgo
Ao auge, loucamente ao Ir...
Larguemos de vez.

Quando parte, Walt, o último comboio p'ra aí?
Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias?
Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue,
Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos,
Vamos! A estada tarda. Partir é ter ido.

Partamos para onde se fique.
Ó estrada para não-haver-estradas!
Término no Não-Parar!
2 170
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

WALT WHITMAN

WALT WHITMAN

Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá,
Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros.
Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.

Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falo,
E não falo, porque não tento.
«Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim.
Mas ser universal — não o posso, porque sou particular.
Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu Não posso ser o primeiro em qualquer coisa, porque não há o primeiro.
Prefiro por isso o nada de ser co-primeiro em ser nada.

Quando é que parte o último comboio, Walt?
Quero deixar esta cidade, a Terra,
Quero emergir de vez deste país, Eu,
Deixar o mundo com o que se comprova falido,
Como um caixeiro viajante que vende navios a habitantes do interior.

O fim a motores partidos!
Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil —
Estéril realização com um destino impossível —
Máquina de louco para realizar o motu continuo,
Teorema de absurdo para a quadratura do círculo,
Travessia a nado do Atlântico, falando na margem de cá
Antes da entrada na água, só com eles e o cálculo,
Atirar de pedras à lua
Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida.

Megalomania dos nervos,
Ânsia de elasticidade do corpo duro,
Raiva de meu concreto ser por não ser o auge-eixo
O carro da sensualidade de entusiasmo abstracto
O vácuo dinâmico do mundo!

Vamo-nos embora de Ser.
Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida
O arrabalde-Mundo de Deus
E entremos na cidade à aventura, ao rasgo
Ao auge, loucamente ao Ir...
Larguemos de vez.

Quando parte, Walt, o último comboio p'ra aí?
Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias?
Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue,
Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos,
Vamos! A estada tarda. Partir é ter ido.

Partamos para onde se fique.
Ó estrada para não-haver-estradas!
Término no Não-Parar!
2 170
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Porta p'ra tudo!

Porta p'ra tudo!
Ponte p'ra tudo!
Estrada p'ra tudo!
Tua alma omnívora e (...)
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher,
Tua alma os dois onde estão dois,
Tua alma o um que são dois quando dois são um,
Tua alma seta, raio, espaço,
Amplexo, nexo , sexo , Texas, Carolina, Nova Iorque,
Brooklyn Ferry à tarde,
Brooklyn Ferry das idas e dos regressos,
Libertad! Democracy! Século vinte ao longe!
Pum! pum! pum! pum! pum!
PUM!

Tu, o que eras, tu o que vias, tu o que ouvias,
O sujeito e o objecto, o activo e o passivo,
Aqui e ali, em toda a parte tu,
Círculo fechando todas as possibilidades de sentir,
Marco miliário de todas as coisas que podem ser,
Deus Termo de todos os objectos que se imaginem e és tu!
Tu Hora.
Tu Minuto,
Tu Segundo!
Tu intercalado, liberto, desfraldado, ido,
Intercalamento, libertação ida, desfraldamento,
lntercalador, libertador, desfraldador, remetente,
Carimbo em todas as cartas,
Nome em todos os endereços,
Mercadoria entregue, devolvida, seguindo...
Comboio de sensações a alma-quilómetros à hora,
À hora, ao minuto, ao segundo. PUM!

E todos estes ruídos naturais, humanos, de máquinas
Todos eles vão juntos, tumulto completo de tudo,
Cheios de mim até ti, saudar-te
Cheios de mim até ti,
Vão gritos humanos, vão [...] de terra,
Vão os volumes dos montes,
Vão os rumores de águas,
Vão os barulhos da guerra,
Vão os estrondos da (...), os (...) da (...)
Vão os ruídos dos povos em lágrimas,
Vão os sons débeis dos ais no escuro
E vão mais cerca da vida, rodeando-me,
Prémio melhor do meu saudar-te
Os ruídos, cicios, assobios dos comboios
Os ruídos modernos e das fábricas,
Som regular,
Rodas,
[...],
Hélices
Pum...
1 665
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fausto ao espelho

Deus existe mas não é Deus» eis a chave transcendente de todo o ocultismo. É este o símbolo representado por «morte de Deus-Homem».

Pode Deus existir mas não ser Deus;
Transcendente mentira realmente
Existindo e cercando-nos,
O único Horror de um mistério maior.

        Se Deus houvera dado
        À verdade outro ser
        Que não o ser pensando
        O Como a conceber,

        Não nos dera a verdade
        Mas qualquer ilusão
        Na cómoda eternidade
        Da vasta escuridão.

Fora Deus Deus, Deus fosse menos que este
Pensamento que abre na minha alma
Um poço sem paredes, e eu pudesse
Ao pensamento exceder o sumo
Inexcedível, figurar mais vasto
Deus que Deus é... Como seria assim?
Por ser o ser que é absoluto ser!
Não haver para além do sempre além
Ou novas direcções do infinito,
Número infinito de infinitos.

[ ... ]
Ah, parar de pensar! Pôr um limite
Ao mistério possível. Ter o mundo
Este infinito [?] mundo por o mundo,
Por Deus o Deus que é dele e o fez e ama!
Este meu pensamento transciente
De transcendência, por magia ignota
Evoque do Incógnito um torpor
Com que se o mesmo casasse! Ah, um sono, um Sono
Um sono de pensar me roube a mim!

Treva! morte! Trevas e morte do Eu!
Matar-me dentro da alma! Que eu não pense
Por absoluta ausência e em mim descanse
Esta concentração multiplicada
De mais mundos que os mundos infinitos,
De mais seres que o ser que é mais que os seres!
E eu mesmo em morte inteira seja Abismo!
Vale-me o morte.
2 091
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fausto ao espelho

Deus existe mas não é Deus» eis a chave transcendente de todo o ocultismo. É este o símbolo representado por «morte de Deus-Homem».

Pode Deus existir mas não ser Deus;
Transcendente mentira realmente
Existindo e cercando-nos,
O único Horror de um mistério maior.

        Se Deus houvera dado
        À verdade outro ser
        Que não o ser pensando
        O Como a conceber,

        Não nos dera a verdade
        Mas qualquer ilusão
        Na cómoda eternidade
        Da vasta escuridão.

Fora Deus Deus, Deus fosse menos que este
Pensamento que abre na minha alma
Um poço sem paredes, e eu pudesse
Ao pensamento exceder o sumo
Inexcedível, figurar mais vasto
Deus que Deus é... Como seria assim?
Por ser o ser que é absoluto ser!
Não haver para além do sempre além
Ou novas direcções do infinito,
Número infinito de infinitos.

[ ... ]
Ah, parar de pensar! Pôr um limite
Ao mistério possível. Ter o mundo
Este infinito [?] mundo por o mundo,
Por Deus o Deus que é dele e o fez e ama!
Este meu pensamento transciente
De transcendência, por magia ignota
Evoque do Incógnito um torpor
Com que se o mesmo casasse! Ah, um sono, um Sono
Um sono de pensar me roube a mim!

Treva! morte! Trevas e morte do Eu!
Matar-me dentro da alma! Que eu não pense
Por absoluta ausência e em mim descanse
Esta concentração multiplicada
De mais mundos que os mundos infinitos,
De mais seres que o ser que é mais que os seres!
E eu mesmo em morte inteira seja Abismo!
Vale-me o morte.
2 091
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fausto ao espelho

Deus existe mas não é Deus» eis a chave transcendente de todo o ocultismo. É este o símbolo representado por «morte de Deus-Homem».

Pode Deus existir mas não ser Deus;
Transcendente mentira realmente
Existindo e cercando-nos,
O único Horror de um mistério maior.

        Se Deus houvera dado
        À verdade outro ser
        Que não o ser pensando
        O Como a conceber,

        Não nos dera a verdade
        Mas qualquer ilusão
        Na cómoda eternidade
        Da vasta escuridão.

Fora Deus Deus, Deus fosse menos que este
Pensamento que abre na minha alma
Um poço sem paredes, e eu pudesse
Ao pensamento exceder o sumo
Inexcedível, figurar mais vasto
Deus que Deus é... Como seria assim?
Por ser o ser que é absoluto ser!
Não haver para além do sempre além
Ou novas direcções do infinito,
Número infinito de infinitos.

[ ... ]
Ah, parar de pensar! Pôr um limite
Ao mistério possível. Ter o mundo
Este infinito [?] mundo por o mundo,
Por Deus o Deus que é dele e o fez e ama!
Este meu pensamento transciente
De transcendência, por magia ignota
Evoque do Incógnito um torpor
Com que se o mesmo casasse! Ah, um sono, um Sono
Um sono de pensar me roube a mim!

Treva! morte! Trevas e morte do Eu!
Matar-me dentro da alma! Que eu não pense
Por absoluta ausência e em mim descanse
Esta concentração multiplicada
De mais mundos que os mundos infinitos,
De mais seres que o ser que é mais que os seres!
E eu mesmo em morte inteira seja Abismo!
Vale-me o morte.
2 091
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fausto ao espelho

Deus existe mas não é Deus» eis a chave transcendente de todo o ocultismo. É este o símbolo representado por «morte de Deus-Homem».

Pode Deus existir mas não ser Deus;
Transcendente mentira realmente
Existindo e cercando-nos,
O único Horror de um mistério maior.

        Se Deus houvera dado
        À verdade outro ser
        Que não o ser pensando
        O Como a conceber,

        Não nos dera a verdade
        Mas qualquer ilusão
        Na cómoda eternidade
        Da vasta escuridão.

Fora Deus Deus, Deus fosse menos que este
Pensamento que abre na minha alma
Um poço sem paredes, e eu pudesse
Ao pensamento exceder o sumo
Inexcedível, figurar mais vasto
Deus que Deus é... Como seria assim?
Por ser o ser que é absoluto ser!
Não haver para além do sempre além
Ou novas direcções do infinito,
Número infinito de infinitos.

[ ... ]
Ah, parar de pensar! Pôr um limite
Ao mistério possível. Ter o mundo
Este infinito [?] mundo por o mundo,
Por Deus o Deus que é dele e o fez e ama!
Este meu pensamento transciente
De transcendência, por magia ignota
Evoque do Incógnito um torpor
Com que se o mesmo casasse! Ah, um sono, um Sono
Um sono de pensar me roube a mim!

Treva! morte! Trevas e morte do Eu!
Matar-me dentro da alma! Que eu não pense
Por absoluta ausência e em mim descanse
Esta concentração multiplicada
De mais mundos que os mundos infinitos,
De mais seres que o ser que é mais que os seres!
E eu mesmo em morte inteira seja Abismo!
Vale-me o morte.
2 091