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Poemas neste tema

Vida e Existência

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dá-nos a Tua paz,

Dá-nos a Tua paz,
Deus Cristão falso, mas consolador, porque todos
Nascem para a emoção rezada a ti;
Deus anti-científico mas que a nossa mãe ensina;
Deus absurdo da verdade absurda, mas que tem a verdade das lágrimas
Nas horas de fraqueza em que sentimos que passamos
Como o fumo e a nuvem, mas a emoção não o quer,
Como o rasto na terra, mas a alma é sensível...

Dá-nos a Tua paz, ainda que não existisses nunca,
A Tua paz no mundo que julgas Teu,
A Tua paz impossível tão possível à Terra,
À grande mãe pagã, cristã em nós a esta hora
E que deve ser humana em tudo quanto é humano em nós.

Dá-nos a paz como uma brisa saindo
Ou a chuva para a qual há preces nas províncias,
E chove por leis naturais tranquilizadoramente.

Dá-nos a paz, porque por ela siga, e regresse
O nosso espírito cansado ao quarto de arrumações e coser
Onde ao canto está o berço inútil, mas não a mãe que embala,
Onde na cómoda velha está a roupa da infância, despida
Com o poder iludir a vida com o sonho...

Dá-nos a tua paz.
O mundo é incerto e confuso,
O pensamento não chega a parte nenhuma da Terra,
O braço não alcança mais do que a mão pode conter,
O olhar não atravessa os muros da sombra,
O coração não sabe desejar o que deseja
A vida erra constantemente o caminho para a Vida.
Dá-nos, Senhor, a paz, Cristo ou Buda que sejas,
Dá-nos a paz e admite
Nos vales esquecidos dos pastores ignotos
Nos píncaros de gelo dos eremitas perdidos,
Nas ruas transversais dos bairros afastados das cidades,
A paz que é dos que não conhecem e esquecem sem querer.

Materna paz que adormeça a terra,
Dormente à lareira sem filosofias,
Memória dos contos de fadas sem a vida lá fora,
A canção do berço revivida através do menino sem futuro,
O calor, a ama, o menino,
O menino que se vai deitar
E o sentido inútil da vida,
O coveiro antigo das coisas,
A dor sem fundo da terra, dos homens, dos destinos
Do mundo...
1 121
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dá-nos a Tua paz,

Dá-nos a Tua paz,
Deus Cristão falso, mas consolador, porque todos
Nascem para a emoção rezada a ti;
Deus anti-científico mas que a nossa mãe ensina;
Deus absurdo da verdade absurda, mas que tem a verdade das lágrimas
Nas horas de fraqueza em que sentimos que passamos
Como o fumo e a nuvem, mas a emoção não o quer,
Como o rasto na terra, mas a alma é sensível...

Dá-nos a Tua paz, ainda que não existisses nunca,
A Tua paz no mundo que julgas Teu,
A Tua paz impossível tão possível à Terra,
À grande mãe pagã, cristã em nós a esta hora
E que deve ser humana em tudo quanto é humano em nós.

Dá-nos a paz como uma brisa saindo
Ou a chuva para a qual há preces nas províncias,
E chove por leis naturais tranquilizadoramente.

Dá-nos a paz, porque por ela siga, e regresse
O nosso espírito cansado ao quarto de arrumações e coser
Onde ao canto está o berço inútil, mas não a mãe que embala,
Onde na cómoda velha está a roupa da infância, despida
Com o poder iludir a vida com o sonho...

Dá-nos a tua paz.
O mundo é incerto e confuso,
O pensamento não chega a parte nenhuma da Terra,
O braço não alcança mais do que a mão pode conter,
O olhar não atravessa os muros da sombra,
O coração não sabe desejar o que deseja
A vida erra constantemente o caminho para a Vida.
Dá-nos, Senhor, a paz, Cristo ou Buda que sejas,
Dá-nos a paz e admite
Nos vales esquecidos dos pastores ignotos
Nos píncaros de gelo dos eremitas perdidos,
Nas ruas transversais dos bairros afastados das cidades,
A paz que é dos que não conhecem e esquecem sem querer.

Materna paz que adormeça a terra,
Dormente à lareira sem filosofias,
Memória dos contos de fadas sem a vida lá fora,
A canção do berço revivida através do menino sem futuro,
O calor, a ama, o menino,
O menino que se vai deitar
E o sentido inútil da vida,
O coveiro antigo das coisas,
A dor sem fundo da terra, dos homens, dos destinos
Do mundo...
1 121
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cena da Taberna

— Doutor Fausto?
                FAUSTO:
                                       Sim.
—                                             O Doutor Fausto?
                FAUSTO:  
O Doutor Fausto, sim: o que há em sê-lo?
— Nada, confesso-o a rir e acreditara-o
Pois o não vira, mas de vós diziam
Serdes versado em artes e matérias
Do mágico e (...) horror (...)
A rir o digo que vos vejo aqui
Entre nós e bebendo como nós.
                FAUSTO:  
Sim, assim é; quem como eu vivia
Aparte logra sempre a negra fama
De bruxo... Há em mim cousa que mostre
Conhecimento d'artes vis e negras
Ou sacerdócio escuro de Satan?
— Nada; olhando bem em vós só vejo
Algo de triste que não é tristeza
No vosso rosto e no vosso olhar
Há uma causa a menos ou a mais
Que em outro... Isto vejo, ou me parece.
Perguntastes-me e rindo respondi.
                FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.
                FRED:
A do «Bom Bebedor».
                OUTRO:
                                        É essa mesmo.
                TODOS:
Venha, venha a canção.
                FRED:
Lá vai amigos
                                (e depois)
E oxalá que, ao cantá-la, esquecer possa
Ou antes, não lembrar onde a aprendi.
Criança então era feliz. Lá vai:

Bom bebedor, bebe-me bem
Bebe-me, bom bebedor.
Só uma cousa boa esta vida tem
É o vinho: mira-lh’ a cor!

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me, bom bebedor.

Que morra de fome mulher e mãe
Haja vinho, que é o melhor!

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.

Deixe a guela o vinho lá quando vem
Em lugar dele o estertor.

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
A vida sem vinho é um triste horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.

O, leite, da parra é melhor que o amor
Bebe-me, bebe-me bom bebedor

                CORO

Bom bebedor bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor

Que faz que a mulher ande à gandaia
E a filha seja pior
E a puta da neta levante a saia
Até ao quintal do prior?
O vinho é o mesmo e da mesma cor
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor

                CORO

Bom bebedor, bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor.
Bom bebedor, bebe-lhe rijo
Bom bebedor, bebe-lhe bem;

O vinho que dá? Alegria e mijo,
E a vida não vale melhor
E se a vida é isto e a cova um horror
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor.

                TODOS:
Bravo! Bravo!
                FAUSTO:(saudando)
A quem escreveu essa canção.
Não foi o camarada?
                FRED:
                                        Versos, eu?
Nada aprendi-a, e há o tempo. É pouca coisa,
Uma maneira qualquer de berrar.
                FAUSTO:
Eu sinto-me irrequieto.
                FRED:
                                            Isso é do vinho!
                FAUSTO:
Do vinho?
                FRED:
                Olá se é. A uns dá-lhe assim
A outros doutra maneira. Isso é confuso.
Um velho tio meu que não fazia
Senão beber...
                OUTRO:
                                Fazia bem...
               FRED:
                                                   Pois esse
Dizia ser indício de saúde
Dar o vinho p'ra bulhas e contendas
«Estar irrequieto» como este lhe chama.
1 570
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cena da Taberna

— Doutor Fausto?
                FAUSTO:
                                       Sim.
—                                             O Doutor Fausto?
                FAUSTO:  
O Doutor Fausto, sim: o que há em sê-lo?
— Nada, confesso-o a rir e acreditara-o
Pois o não vira, mas de vós diziam
Serdes versado em artes e matérias
Do mágico e (...) horror (...)
A rir o digo que vos vejo aqui
Entre nós e bebendo como nós.
                FAUSTO:  
Sim, assim é; quem como eu vivia
Aparte logra sempre a negra fama
De bruxo... Há em mim cousa que mostre
Conhecimento d'artes vis e negras
Ou sacerdócio escuro de Satan?
— Nada; olhando bem em vós só vejo
Algo de triste que não é tristeza
No vosso rosto e no vosso olhar
Há uma causa a menos ou a mais
Que em outro... Isto vejo, ou me parece.
Perguntastes-me e rindo respondi.
                FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.
                FRED:
A do «Bom Bebedor».
                OUTRO:
                                        É essa mesmo.
                TODOS:
Venha, venha a canção.
                FRED:
Lá vai amigos
                                (e depois)
E oxalá que, ao cantá-la, esquecer possa
Ou antes, não lembrar onde a aprendi.
Criança então era feliz. Lá vai:

Bom bebedor, bebe-me bem
Bebe-me, bom bebedor.
Só uma cousa boa esta vida tem
É o vinho: mira-lh’ a cor!

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me, bom bebedor.

Que morra de fome mulher e mãe
Haja vinho, que é o melhor!

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.

Deixe a guela o vinho lá quando vem
Em lugar dele o estertor.

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
A vida sem vinho é um triste horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.

O, leite, da parra é melhor que o amor
Bebe-me, bebe-me bom bebedor

                CORO

Bom bebedor bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor

Que faz que a mulher ande à gandaia
E a filha seja pior
E a puta da neta levante a saia
Até ao quintal do prior?
O vinho é o mesmo e da mesma cor
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor

                CORO

Bom bebedor, bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor.
Bom bebedor, bebe-lhe rijo
Bom bebedor, bebe-lhe bem;

O vinho que dá? Alegria e mijo,
E a vida não vale melhor
E se a vida é isto e a cova um horror
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor.

                TODOS:
Bravo! Bravo!
                FAUSTO:(saudando)
A quem escreveu essa canção.
Não foi o camarada?
                FRED:
                                        Versos, eu?
Nada aprendi-a, e há o tempo. É pouca coisa,
Uma maneira qualquer de berrar.
                FAUSTO:
Eu sinto-me irrequieto.
                FRED:
                                            Isso é do vinho!
                FAUSTO:
Do vinho?
                FRED:
                Olá se é. A uns dá-lhe assim
A outros doutra maneira. Isso é confuso.
Um velho tio meu que não fazia
Senão beber...
                OUTRO:
                                Fazia bem...
               FRED:
                                                   Pois esse
Dizia ser indício de saúde
Dar o vinho p'ra bulhas e contendas
«Estar irrequieto» como este lhe chama.
1 570
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cena da Taberna

— Doutor Fausto?
                FAUSTO:
                                       Sim.
—                                             O Doutor Fausto?
                FAUSTO:  
O Doutor Fausto, sim: o que há em sê-lo?
— Nada, confesso-o a rir e acreditara-o
Pois o não vira, mas de vós diziam
Serdes versado em artes e matérias
Do mágico e (...) horror (...)
A rir o digo que vos vejo aqui
Entre nós e bebendo como nós.
                FAUSTO:  
Sim, assim é; quem como eu vivia
Aparte logra sempre a negra fama
De bruxo... Há em mim cousa que mostre
Conhecimento d'artes vis e negras
Ou sacerdócio escuro de Satan?
— Nada; olhando bem em vós só vejo
Algo de triste que não é tristeza
No vosso rosto e no vosso olhar
Há uma causa a menos ou a mais
Que em outro... Isto vejo, ou me parece.
Perguntastes-me e rindo respondi.
                FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.
                FRED:
A do «Bom Bebedor».
                OUTRO:
                                        É essa mesmo.
                TODOS:
Venha, venha a canção.
                FRED:
Lá vai amigos
                                (e depois)
E oxalá que, ao cantá-la, esquecer possa
Ou antes, não lembrar onde a aprendi.
Criança então era feliz. Lá vai:

Bom bebedor, bebe-me bem
Bebe-me, bom bebedor.
Só uma cousa boa esta vida tem
É o vinho: mira-lh’ a cor!

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me, bom bebedor.

Que morra de fome mulher e mãe
Haja vinho, que é o melhor!

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.

Deixe a guela o vinho lá quando vem
Em lugar dele o estertor.

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
A vida sem vinho é um triste horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.

O, leite, da parra é melhor que o amor
Bebe-me, bebe-me bom bebedor

                CORO

Bom bebedor bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor

Que faz que a mulher ande à gandaia
E a filha seja pior
E a puta da neta levante a saia
Até ao quintal do prior?
O vinho é o mesmo e da mesma cor
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor

                CORO

Bom bebedor, bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor.
Bom bebedor, bebe-lhe rijo
Bom bebedor, bebe-lhe bem;

O vinho que dá? Alegria e mijo,
E a vida não vale melhor
E se a vida é isto e a cova um horror
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor.

                TODOS:
Bravo! Bravo!
                FAUSTO:(saudando)
A quem escreveu essa canção.
Não foi o camarada?
                FRED:
                                        Versos, eu?
Nada aprendi-a, e há o tempo. É pouca coisa,
Uma maneira qualquer de berrar.
                FAUSTO:
Eu sinto-me irrequieto.
                FRED:
                                            Isso é do vinho!
                FAUSTO:
Do vinho?
                FRED:
                Olá se é. A uns dá-lhe assim
A outros doutra maneira. Isso é confuso.
Um velho tio meu que não fazia
Senão beber...
                OUTRO:
                                Fazia bem...
               FRED:
                                                   Pois esse
Dizia ser indício de saúde
Dar o vinho p'ra bulhas e contendas
«Estar irrequieto» como este lhe chama.
1 570
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu cérebro fotográfico...

Meu cérebro fotográfico...
Vaga náusea física... o cies no longe cheira-me a aqui perto...
Que tristeza a de partir! What time did the captain say an order to leave? de partir e deixar atrás de nós
Não só as pedras da cidade, e as casas e a cidade vista de longe
Mas oh, [...] just ever and ever on that village on the other side up at river, it's just perfect in this [...]
Também as memórias antigas, as carícias maternas hoje na sepultura,
Tudo isso parece que ficou aqui, deixado aqui, e nós indo sem levar
                 isso tudo... Non, Monsieur, c'est de l'autre bord...

Ó Chico, não te chegues para fora
([...] oh!) podes cair!

Que lume na lenha da velha lareira provinciana — o senhor dá-me
        licença?... passa uma farda de guarda fiscal pelo meu ombro
        — e dos contos que me contavam nas noites de inverno
         u-uf-u-u-u-u... o apito do vapor...

Et vous aussi, Mark — Sim senhor, para o Rio de Janeiro
Tenho lá... yes, all the time... Ó pobre pequenino rio da minha terra!
O ruído da água — shl, shl, shlbrtsher, shlbrtsher, e o meu velho primo, perdido para sempre
Quase que me esqueço de me poder lembrar dele
         came into the smoking room... God [...] Lisboa? Oh, yes, but
         not (entram para dentro alguns dias [...] através da minha sensação
        deles no meu cérebro que não tem olhos para os ver)
u-u-u-u-u-u-u
        u u-u
        u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u-u-u-u
        u-u-u-u-u-u-u
        u-u-u-u-u-u u
        u-u-u
                  u-u-u
                  u-u
u-fff-(uu uff)
         f.f.
        (fff)
900
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FRANZ: Isto de ser soldado

[FRANZ]:
Isto de ser soldado
Tem uma filosofia obrigatória
Como o pé ao fim da perna. Hoje vivo
Amanhã morto... D'aqui se conclui
Que sendo o vivo vivo enquanto é vivo
É morto é morto.
                OUTRO:  
Tira-lhe o cangirão da mão oh Vesgo
                [FRANZ]:
Ia eu dizendo — deixa o cangirão! —
Que quem hoje vive e que não sabe
Se amanhã viverá é viver hoje
Por amanhã. Como isto de amanhã
Nem é aí um dia, mas é muitos
Enquanto a gente vive é ir vivendo
Em cada dia como se ele fosse
Uma vida completa
—                             Bravo o vinho
Faz a este pensar. O que diria
O teu tio bêbado, oh Francisco?
                [FRANZ]:
                                                   É esta
A tal filosofia do soldado
A qual, senhores, a pensarmos bem
É a de toda a vida. E não é pouco.
                FAUSTO:
Dá-te o vinho razão, amigo. O homem
É um soldado. E este com certeza
De morrer no combate de amanhã.
Portanto a tal (...) filosofia
Que entre goles aí me gaguejaste
É mais certa que pensas, meu amigo.
É viver hoje que amanhã na vida
Não há talvez — é certo — vem a morte.
Bebo à saúde aqui do nosso amigo!
                TODOS:
À saúde do Franz!
                [FRANZ]:
                        Vá que o mereço!
Mas olha lá: dá cá o cangirão
Então só eu não beberei à minha?
                OUTRO:
Vá que é beber-lhe bem.
                                        Não é por ser
Minha saúde. É só por ser vinho
Minha mãe! Minha triste vida!
Minha sorte!
                (Chora)
                OUTRO:
        O que é isso?
                [FRANZ]:             
                                O cangirão
Não tem mais vinho! Caguei vida. Rei e corno!
Um rei corno — isso sabe a não sei o quê!
E o cangirão já não tem quase nada
O rei corno e eu sem vinho.
                (cai para debaixo da mesa)
                FAUSTO:
Arre que besta! Mas tem sua graça!
Está abraçado ao cangirão
Diz que é uma rainha.
                [FRANZ]:
                                Dá-me cá mais um gole
Que isto de leito e corpo de rainha
Não é com quatro goles que se entende.
Um rei corno — isso é grande! Alma danada
Onde é que me escondeste ó cangirão?
                (de debaixo da mesa)
Já o rei é corno!
                FAUSTO:
                        Lá quanto a Deus
Quando o sinto a amargar-me a boca muito
Faço isto
                (bebe)
        Tomo um gole. E vai p'ra baixo.
                TODOS:
Viva Fausto! Eia, viva! viva! viva!
                FRITZ:
Mas a vida rapaz?
                FAUSTO:
                                Caguei p'rá vida!
                FRITZ:
Toma! É assim rapaz! Canta-me dessas!
És cá dos meus, apesar de doutor...
                TODOS:
Doutor? Isto Doutor? Viva o Doutor!
                FAUSTO:
Morra o doutor e viva Fausto! É assim!
                TODOS:
Bravo. Morra o doutor e viva Fausto!
                FRANZ:
...Revolta... Não compreendo bem
Passa-me o cangirão que já te entendo.
Sem mais dois goles não percebo nada.
                FAUSTO:
Já percebes
Estupor avinhado? Já me entendes?
Isto de vida — ouve — é sentir tudo
Meter o agradável num só dia
Como o pé num chinelo. Deixa lá
O cangirão e ouve... Isto de vida
É a gente gozar e após gozar
Gozar mais, entendeste?
                FRANZ:
                                        E depois disso?
                FAUSTO:
Depois disso gozar mais ainda.

— Deixa-o lá. Só tem força p'ra beber.
Não vê já mais que o olho do gargalo.
                FRITZ:
Que é isso?
                FRANZ:
Quero piscar o olho. Já me custa!
Arre! Ou fecho ambos ou então nenhum.
Bebendo mais um gole isto já passa...
                FAUSTO:
Eu queria obter
Uma enormidade de sensações
Daquelas mais intensas que nós temos
arrepio, calor, etcetra e tal...
Isso como diz o matemático
Elevado ao infinito e num momento
Aqui é que é tentar chegar...
                UM:
«Arrepio, calor, etcetra e tal»
O que não se diz fica por dizer.
1 430
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FRANZ: Isto de ser soldado

[FRANZ]:
Isto de ser soldado
Tem uma filosofia obrigatória
Como o pé ao fim da perna. Hoje vivo
Amanhã morto... D'aqui se conclui
Que sendo o vivo vivo enquanto é vivo
É morto é morto.
                OUTRO:  
Tira-lhe o cangirão da mão oh Vesgo
                [FRANZ]:
Ia eu dizendo — deixa o cangirão! —
Que quem hoje vive e que não sabe
Se amanhã viverá é viver hoje
Por amanhã. Como isto de amanhã
Nem é aí um dia, mas é muitos
Enquanto a gente vive é ir vivendo
Em cada dia como se ele fosse
Uma vida completa
—                             Bravo o vinho
Faz a este pensar. O que diria
O teu tio bêbado, oh Francisco?
                [FRANZ]:
                                                   É esta
A tal filosofia do soldado
A qual, senhores, a pensarmos bem
É a de toda a vida. E não é pouco.
                FAUSTO:
Dá-te o vinho razão, amigo. O homem
É um soldado. E este com certeza
De morrer no combate de amanhã.
Portanto a tal (...) filosofia
Que entre goles aí me gaguejaste
É mais certa que pensas, meu amigo.
É viver hoje que amanhã na vida
Não há talvez — é certo — vem a morte.
Bebo à saúde aqui do nosso amigo!
                TODOS:
À saúde do Franz!
                [FRANZ]:
                        Vá que o mereço!
Mas olha lá: dá cá o cangirão
Então só eu não beberei à minha?
                OUTRO:
Vá que é beber-lhe bem.
                                        Não é por ser
Minha saúde. É só por ser vinho
Minha mãe! Minha triste vida!
Minha sorte!
                (Chora)
                OUTRO:
        O que é isso?
                [FRANZ]:             
                                O cangirão
Não tem mais vinho! Caguei vida. Rei e corno!
Um rei corno — isso sabe a não sei o quê!
E o cangirão já não tem quase nada
O rei corno e eu sem vinho.
                (cai para debaixo da mesa)
                FAUSTO:
Arre que besta! Mas tem sua graça!
Está abraçado ao cangirão
Diz que é uma rainha.
                [FRANZ]:
                                Dá-me cá mais um gole
Que isto de leito e corpo de rainha
Não é com quatro goles que se entende.
Um rei corno — isso é grande! Alma danada
Onde é que me escondeste ó cangirão?
                (de debaixo da mesa)
Já o rei é corno!
                FAUSTO:
                        Lá quanto a Deus
Quando o sinto a amargar-me a boca muito
Faço isto
                (bebe)
        Tomo um gole. E vai p'ra baixo.
                TODOS:
Viva Fausto! Eia, viva! viva! viva!
                FRITZ:
Mas a vida rapaz?
                FAUSTO:
                                Caguei p'rá vida!
                FRITZ:
Toma! É assim rapaz! Canta-me dessas!
És cá dos meus, apesar de doutor...
                TODOS:
Doutor? Isto Doutor? Viva o Doutor!
                FAUSTO:
Morra o doutor e viva Fausto! É assim!
                TODOS:
Bravo. Morra o doutor e viva Fausto!
                FRANZ:
...Revolta... Não compreendo bem
Passa-me o cangirão que já te entendo.
Sem mais dois goles não percebo nada.
                FAUSTO:
Já percebes
Estupor avinhado? Já me entendes?
Isto de vida — ouve — é sentir tudo
Meter o agradável num só dia
Como o pé num chinelo. Deixa lá
O cangirão e ouve... Isto de vida
É a gente gozar e após gozar
Gozar mais, entendeste?
                FRANZ:
                                        E depois disso?
                FAUSTO:
Depois disso gozar mais ainda.

— Deixa-o lá. Só tem força p'ra beber.
Não vê já mais que o olho do gargalo.
                FRITZ:
Que é isso?
                FRANZ:
Quero piscar o olho. Já me custa!
Arre! Ou fecho ambos ou então nenhum.
Bebendo mais um gole isto já passa...
                FAUSTO:
Eu queria obter
Uma enormidade de sensações
Daquelas mais intensas que nós temos
arrepio, calor, etcetra e tal...
Isso como diz o matemático
Elevado ao infinito e num momento
Aqui é que é tentar chegar...
                UM:
«Arrepio, calor, etcetra e tal»
O que não se diz fica por dizer.
1 430
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FRANZ: Isto de ser soldado

[FRANZ]:
Isto de ser soldado
Tem uma filosofia obrigatória
Como o pé ao fim da perna. Hoje vivo
Amanhã morto... D'aqui se conclui
Que sendo o vivo vivo enquanto é vivo
É morto é morto.
                OUTRO:  
Tira-lhe o cangirão da mão oh Vesgo
                [FRANZ]:
Ia eu dizendo — deixa o cangirão! —
Que quem hoje vive e que não sabe
Se amanhã viverá é viver hoje
Por amanhã. Como isto de amanhã
Nem é aí um dia, mas é muitos
Enquanto a gente vive é ir vivendo
Em cada dia como se ele fosse
Uma vida completa
—                             Bravo o vinho
Faz a este pensar. O que diria
O teu tio bêbado, oh Francisco?
                [FRANZ]:
                                                   É esta
A tal filosofia do soldado
A qual, senhores, a pensarmos bem
É a de toda a vida. E não é pouco.
                FAUSTO:
Dá-te o vinho razão, amigo. O homem
É um soldado. E este com certeza
De morrer no combate de amanhã.
Portanto a tal (...) filosofia
Que entre goles aí me gaguejaste
É mais certa que pensas, meu amigo.
É viver hoje que amanhã na vida
Não há talvez — é certo — vem a morte.
Bebo à saúde aqui do nosso amigo!
                TODOS:
À saúde do Franz!
                [FRANZ]:
                        Vá que o mereço!
Mas olha lá: dá cá o cangirão
Então só eu não beberei à minha?
                OUTRO:
Vá que é beber-lhe bem.
                                        Não é por ser
Minha saúde. É só por ser vinho
Minha mãe! Minha triste vida!
Minha sorte!
                (Chora)
                OUTRO:
        O que é isso?
                [FRANZ]:             
                                O cangirão
Não tem mais vinho! Caguei vida. Rei e corno!
Um rei corno — isso sabe a não sei o quê!
E o cangirão já não tem quase nada
O rei corno e eu sem vinho.
                (cai para debaixo da mesa)
                FAUSTO:
Arre que besta! Mas tem sua graça!
Está abraçado ao cangirão
Diz que é uma rainha.
                [FRANZ]:
                                Dá-me cá mais um gole
Que isto de leito e corpo de rainha
Não é com quatro goles que se entende.
Um rei corno — isso é grande! Alma danada
Onde é que me escondeste ó cangirão?
                (de debaixo da mesa)
Já o rei é corno!
                FAUSTO:
                        Lá quanto a Deus
Quando o sinto a amargar-me a boca muito
Faço isto
                (bebe)
        Tomo um gole. E vai p'ra baixo.
                TODOS:
Viva Fausto! Eia, viva! viva! viva!
                FRITZ:
Mas a vida rapaz?
                FAUSTO:
                                Caguei p'rá vida!
                FRITZ:
Toma! É assim rapaz! Canta-me dessas!
És cá dos meus, apesar de doutor...
                TODOS:
Doutor? Isto Doutor? Viva o Doutor!
                FAUSTO:
Morra o doutor e viva Fausto! É assim!
                TODOS:
Bravo. Morra o doutor e viva Fausto!
                FRANZ:
...Revolta... Não compreendo bem
Passa-me o cangirão que já te entendo.
Sem mais dois goles não percebo nada.
                FAUSTO:
Já percebes
Estupor avinhado? Já me entendes?
Isto de vida — ouve — é sentir tudo
Meter o agradável num só dia
Como o pé num chinelo. Deixa lá
O cangirão e ouve... Isto de vida
É a gente gozar e após gozar
Gozar mais, entendeste?
                FRANZ:
                                        E depois disso?
                FAUSTO:
Depois disso gozar mais ainda.

— Deixa-o lá. Só tem força p'ra beber.
Não vê já mais que o olho do gargalo.
                FRITZ:
Que é isso?
                FRANZ:
Quero piscar o olho. Já me custa!
Arre! Ou fecho ambos ou então nenhum.
Bebendo mais um gole isto já passa...
                FAUSTO:
Eu queria obter
Uma enormidade de sensações
Daquelas mais intensas que nós temos
arrepio, calor, etcetra e tal...
Isso como diz o matemático
Elevado ao infinito e num momento
Aqui é que é tentar chegar...
                UM:
«Arrepio, calor, etcetra e tal»
O que não se diz fica por dizer.
1 430
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FAUSTO (na taberna)

Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído
Só sinto um vácuo imenso onde (a) alma tive...
Sou qualquer cousa de exterior apenas,
Consciente apenas de já nada ser...
Pertenço à estúrdia e à crápula da noite,
Sou ser delas, encontro-me disperso
Por cada grito bêbado, por cada
Tom de luz no amplo bojo das botelhas.
Participo da névoa luminosa
Da orgia e da mentira do prazer.
E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo em torno
De minha alma os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de prescrutar-me
E não sei onde estou, ou quanto sou,
Em que terreno de ruído e (...)
Enterrei o meu espírito febril.
Mas não é inda o fim. Inda é preciso
Que a morte me desmembre em outro, e eu fique
Ou o nada do nada ou o de tudo
E acabe enfim esta consciência oca
Que de existir me resta.
Sinto um tropel esfuziante e quente
De propósitos-sombras, e de impulsos
Transbordado do cálix da consciência
Para cima da vida... Sinto em mim
Gritos de impulsos, (...)
Sinto que qualquer coisa vai fazer-me
Conceber o horror da acção e ousio
Em que dispersarei enfim o resto
Da minha alma já oca. Cesse, cesse
Para sempre a minha alma de ser minha,
Abafe-lhe a consciência de existir
A minha voz. Acorde a minha voz
Ao gritar os propósitos de sangue
E horror cujo (...) não concebo
E é forçoso que deixe fugir...
                (Alto)
                                                Eia!
Camaradas! A orgia inda vai lenta!
Vamos a mais! Vamos a pôr no berço
As orgias romanas e a fazer
Os nossos feitos desta noite rir
De Nero e de Tibério! Vá que a vida
É pouca para (...) Eia, vamos!
Quem vive além na cidadela? O rei?
Bom. E a rainha? Melhor é. Quem mais?
As damas, os donzeis e os nobres todos
Da corte? Vamos à obra...

Ah, as damas. Violemos essa carne!
Rasguemo-la a espadim e a lança. Somos
A vingança dos servos! dos mandados
As crianças (...) e pequeninos
Seja nossa a hora última e (...)
Dos donzeis
Fogueira e (...) com os nobres todos
Afoguemos o rei no (...) onde
O mijo dos cavalos!
Vamos! Às carnes brancas! Aos veludos!
Não podem vir reforços. Se vierem
Morramos combatendo... A morte é hoje
Seja de hoje o gozo todo. Beba-se
O vinho todo, que a partir da taça
Será bom, pois que o vinho será gasto!

(Lança fogo à taberna... Saem todos de espadas desembainhadas... Correm e dançam pela estrada fora. Archotes agitam-se no ar, dançam, espalham lume... Seguem na estrada... Aqui e além incendeiam as choupanas.)
2 070
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FAUSTO (na taberna)

Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído
Só sinto um vácuo imenso onde (a) alma tive...
Sou qualquer cousa de exterior apenas,
Consciente apenas de já nada ser...
Pertenço à estúrdia e à crápula da noite,
Sou ser delas, encontro-me disperso
Por cada grito bêbado, por cada
Tom de luz no amplo bojo das botelhas.
Participo da névoa luminosa
Da orgia e da mentira do prazer.
E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo em torno
De minha alma os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de prescrutar-me
E não sei onde estou, ou quanto sou,
Em que terreno de ruído e (...)
Enterrei o meu espírito febril.
Mas não é inda o fim. Inda é preciso
Que a morte me desmembre em outro, e eu fique
Ou o nada do nada ou o de tudo
E acabe enfim esta consciência oca
Que de existir me resta.
Sinto um tropel esfuziante e quente
De propósitos-sombras, e de impulsos
Transbordado do cálix da consciência
Para cima da vida... Sinto em mim
Gritos de impulsos, (...)
Sinto que qualquer coisa vai fazer-me
Conceber o horror da acção e ousio
Em que dispersarei enfim o resto
Da minha alma já oca. Cesse, cesse
Para sempre a minha alma de ser minha,
Abafe-lhe a consciência de existir
A minha voz. Acorde a minha voz
Ao gritar os propósitos de sangue
E horror cujo (...) não concebo
E é forçoso que deixe fugir...
                (Alto)
                                                Eia!
Camaradas! A orgia inda vai lenta!
Vamos a mais! Vamos a pôr no berço
As orgias romanas e a fazer
Os nossos feitos desta noite rir
De Nero e de Tibério! Vá que a vida
É pouca para (...) Eia, vamos!
Quem vive além na cidadela? O rei?
Bom. E a rainha? Melhor é. Quem mais?
As damas, os donzeis e os nobres todos
Da corte? Vamos à obra...

Ah, as damas. Violemos essa carne!
Rasguemo-la a espadim e a lança. Somos
A vingança dos servos! dos mandados
As crianças (...) e pequeninos
Seja nossa a hora última e (...)
Dos donzeis
Fogueira e (...) com os nobres todos
Afoguemos o rei no (...) onde
O mijo dos cavalos!
Vamos! Às carnes brancas! Aos veludos!
Não podem vir reforços. Se vierem
Morramos combatendo... A morte é hoje
Seja de hoje o gozo todo. Beba-se
O vinho todo, que a partir da taça
Será bom, pois que o vinho será gasto!

(Lança fogo à taberna... Saem todos de espadas desembainhadas... Correm e dançam pela estrada fora. Archotes agitam-se no ar, dançam, espalham lume... Seguem na estrada... Aqui e além incendeiam as choupanas.)
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