Poemas neste tema
Vida e Existência
Fernando Pessoa
Creio que irei morrer.
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?],
Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo.
Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?],
Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo.
Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
939
Fernando Pessoa
Creio que irei morrer.
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?],
Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo.
Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?],
Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo.
Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
939
Fernando Pessoa
Creio que irei morrer.
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?],
Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo.
Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?],
Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo.
Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
939
Fernando Pessoa
O medo intelectual da «morte»
O medo intelectual da «morte»
Não o instintivo e humano, mas o que nega e
Cresce com o olhá-la e reflecti-la.
Não o instintivo e humano, mas o que nega e
Cresce com o olhá-la e reflecti-la.
1 846
Fernando Pessoa
O medo intelectual da «morte»
O medo intelectual da «morte»
Não o instintivo e humano, mas o que nega e
Cresce com o olhá-la e reflecti-la.
Não o instintivo e humano, mas o que nega e
Cresce com o olhá-la e reflecti-la.
1 846
Fernando Pessoa
EPITALÂMIO – II - T
Afastai nas janelas a cortina breve
Que menos que à luz a vista só proscreve!
Olhai o vasto campo, como jaz luminoso
Sob o azul poderoso
E limpo, e como aquece numa ardência leve
Que na vista se inscreve!
Já a noiva acordou. Ah como tremer sente
O coração dormente!
Os seios dela arrepanham-se por dentro numa frieza de medo
Mais sentido por crescido nela,
E que serão por outras mãos que não as suas tocados
E terão lábios chupando os bicos em botão.
Ah, ideia das mãos do noivo já
A tocar lá onde as mãos dela tímidas mal tocam,
E os pensamentos contraem-se-lhe até ser indistintos.
Do corpo está consciente mas continua deitada.
Vagamente deixa os olhos sentir que se abrem.
Numa névoa franjada cada coisa
Se ergue, e o dia actual é veramente claro
Menos ao seu sentir de medo.
Como mancha de cor a luz pousa na palpebrada vista
E ela quase detesta a inescapável luz.
Que menos que à luz a vista só proscreve!
Olhai o vasto campo, como jaz luminoso
Sob o azul poderoso
E limpo, e como aquece numa ardência leve
Que na vista se inscreve!
Já a noiva acordou. Ah como tremer sente
O coração dormente!
Os seios dela arrepanham-se por dentro numa frieza de medo
Mais sentido por crescido nela,
E que serão por outras mãos que não as suas tocados
E terão lábios chupando os bicos em botão.
Ah, ideia das mãos do noivo já
A tocar lá onde as mãos dela tímidas mal tocam,
E os pensamentos contraem-se-lhe até ser indistintos.
Do corpo está consciente mas continua deitada.
Vagamente deixa os olhos sentir que se abrem.
Numa névoa franjada cada coisa
Se ergue, e o dia actual é veramente claro
Menos ao seu sentir de medo.
Como mancha de cor a luz pousa na palpebrada vista
E ela quase detesta a inescapável luz.
1 050
Fernando Pessoa
EPITALÂMIO – II - T
Afastai nas janelas a cortina breve
Que menos que à luz a vista só proscreve!
Olhai o vasto campo, como jaz luminoso
Sob o azul poderoso
E limpo, e como aquece numa ardência leve
Que na vista se inscreve!
Já a noiva acordou. Ah como tremer sente
O coração dormente!
Os seios dela arrepanham-se por dentro numa frieza de medo
Mais sentido por crescido nela,
E que serão por outras mãos que não as suas tocados
E terão lábios chupando os bicos em botão.
Ah, ideia das mãos do noivo já
A tocar lá onde as mãos dela tímidas mal tocam,
E os pensamentos contraem-se-lhe até ser indistintos.
Do corpo está consciente mas continua deitada.
Vagamente deixa os olhos sentir que se abrem.
Numa névoa franjada cada coisa
Se ergue, e o dia actual é veramente claro
Menos ao seu sentir de medo.
Como mancha de cor a luz pousa na palpebrada vista
E ela quase detesta a inescapável luz.
Que menos que à luz a vista só proscreve!
Olhai o vasto campo, como jaz luminoso
Sob o azul poderoso
E limpo, e como aquece numa ardência leve
Que na vista se inscreve!
Já a noiva acordou. Ah como tremer sente
O coração dormente!
Os seios dela arrepanham-se por dentro numa frieza de medo
Mais sentido por crescido nela,
E que serão por outras mãos que não as suas tocados
E terão lábios chupando os bicos em botão.
Ah, ideia das mãos do noivo já
A tocar lá onde as mãos dela tímidas mal tocam,
E os pensamentos contraem-se-lhe até ser indistintos.
Do corpo está consciente mas continua deitada.
Vagamente deixa os olhos sentir que se abrem.
Numa névoa franjada cada coisa
Se ergue, e o dia actual é veramente claro
Menos ao seu sentir de medo.
Como mancha de cor a luz pousa na palpebrada vista
E ela quase detesta a inescapável luz.
1 050
Fernando Pessoa
Sad lot of all on earth
Sad lot of all on earth,
Sad and lone!
We go to death from birth
Cheerless in laugh or groan;
And the greatest of us that here must sigh
Is but a meteor hurled on high
From the unknown to the unknown.
Sad and lone!
We go to death from birth
Cheerless in laugh or groan;
And the greatest of us that here must sigh
Is but a meteor hurled on high
From the unknown to the unknown.
1 325
Fernando Pessoa
Azul, ou verde, ou roxo, quando o sol
Azul, ou verde, ou roxo, quando o sol
O doura falsamente de vermelho,
O mar é áspero [?], casual [?] ou mo(le),
É uma vez abismo e outra espelho.
Evoco porque sinto velho
O que em mim quereria mais que o mar
Já que nada ali há por desvendar.
Os grandes capitães e os marinheiros
Com que fizeram a navegação,
Jazem longínquos, lúgubres parceiros
Do nosso esquecimento e ingratidão.
Só o mar, às vezes, quando são
Grandes as ondas e é deveras mar
Parece incertamente recordar.
Mas sonho... O mar é água, é agua nua,
Serva do obscuro ímpeto distante
Que, como a poesia, vem da lua
Que uma vez o abate outra o levanta.
Mas, por mais que descante
Sobre a ignorância natural do mar,
Pressinto-o, vazante, a murmurar.
Quem sabe o que é a alma? Quem conhece
Que alma há nas coisas que parecem mortas.
Quanto em terra ou em nada nunca esquece.
Quem sabe se no espaço vácuo há portas?
Ó sonho que me exortas
A meditar assim a voz do mar,
Ensina-me a saber-te meditar.
Capitães, contramestres — todos nautas
Da descoberta infiel de cada dia ó
Acaso vos chamou de ignotas flautas
A vaga e impossível melodia.
Acaso o vosso ouvido ouvia
Qualquer coisa do mar sem ser o mar
Sereias só de ouvir e não de achar?
Quem atrás de intérminos oceanos
Vos chamou à distância como [?] quem
Sabe que há nos corações humanos
Não só uma ânsia natural de bem
Mas, mais vaga, mais subtil também,
Uma coisa que quer o som do mar
E o estar longe de tudo e não parar.
Se assim é, e se vós e o mar imenso
Sois qualquer coisa, vós por o sentir
E o mar por o ser, disto que penso;
Se no fundo ignorado do existir
Há mais alma que a que pode vir
À tona vã de nós, como à do mar,
Fazei‑me livre, enfim, de o ignorar.
Dai-me uma alma transposta de argonauta,
Fazei que eu tenha, como o capitão
Ou o contramestre, ouvidos para a flauta
Que chama ao longe o nosso coração,
Fazei-me ouvir, como a um perdão,
Numa reminiscência de ensinar,
O antigo português que fala o mar!
O doura falsamente de vermelho,
O mar é áspero [?], casual [?] ou mo(le),
É uma vez abismo e outra espelho.
Evoco porque sinto velho
O que em mim quereria mais que o mar
Já que nada ali há por desvendar.
Os grandes capitães e os marinheiros
Com que fizeram a navegação,
Jazem longínquos, lúgubres parceiros
Do nosso esquecimento e ingratidão.
Só o mar, às vezes, quando são
Grandes as ondas e é deveras mar
Parece incertamente recordar.
Mas sonho... O mar é água, é agua nua,
Serva do obscuro ímpeto distante
Que, como a poesia, vem da lua
Que uma vez o abate outra o levanta.
Mas, por mais que descante
Sobre a ignorância natural do mar,
Pressinto-o, vazante, a murmurar.
Quem sabe o que é a alma? Quem conhece
Que alma há nas coisas que parecem mortas.
Quanto em terra ou em nada nunca esquece.
Quem sabe se no espaço vácuo há portas?
Ó sonho que me exortas
A meditar assim a voz do mar,
Ensina-me a saber-te meditar.
Capitães, contramestres — todos nautas
Da descoberta infiel de cada dia ó
Acaso vos chamou de ignotas flautas
A vaga e impossível melodia.
Acaso o vosso ouvido ouvia
Qualquer coisa do mar sem ser o mar
Sereias só de ouvir e não de achar?
Quem atrás de intérminos oceanos
Vos chamou à distância como [?] quem
Sabe que há nos corações humanos
Não só uma ânsia natural de bem
Mas, mais vaga, mais subtil também,
Uma coisa que quer o som do mar
E o estar longe de tudo e não parar.
Se assim é, e se vós e o mar imenso
Sois qualquer coisa, vós por o sentir
E o mar por o ser, disto que penso;
Se no fundo ignorado do existir
Há mais alma que a que pode vir
À tona vã de nós, como à do mar,
Fazei‑me livre, enfim, de o ignorar.
Dai-me uma alma transposta de argonauta,
Fazei que eu tenha, como o capitão
Ou o contramestre, ouvidos para a flauta
Que chama ao longe o nosso coração,
Fazei-me ouvir, como a um perdão,
Numa reminiscência de ensinar,
O antigo português que fala o mar!
1 332
Fernando Pessoa
A MORTE: Em mim acaba
Em mim acaba
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.
A humanidade cujo rir
É um esquecimento fundo
Sabe, sem o analisar,
Que em mim naufraga o sentir
Nos rochedos do pensar.
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.
A humanidade cujo rir
É um esquecimento fundo
Sabe, sem o analisar,
Que em mim naufraga o sentir
Nos rochedos do pensar.
1 563
Fernando Pessoa
É o maior horror da alma
É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer p'ra não pensar, já não
Por duvidar — mas — oh maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
1 518
Fernando Pessoa
WORK
Thou wast not put on earth to ask
If there be God, or life or death.
Seize then thy tools and to thy task
And give to toil each panting breath.
Thy tools thou hast, nor needst to seek
Thy health or faith or useful art,
The strength to toil, the power to speak,
A mighty mind or kindly heart.
If there be God, or life or death.
Seize then thy tools and to thy task
And give to toil each panting breath.
Thy tools thou hast, nor needst to seek
Thy health or faith or useful art,
The strength to toil, the power to speak,
A mighty mind or kindly heart.
1 258
Fernando Pessoa
Nunca busquei viver a minha vida
Nunca busquei viver a minha vida
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma
Só quis ver como se fosse eterno.
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma
Só quis ver como se fosse eterno.
1 633
Fernando Pessoa
Nunca busquei viver a minha vida
Nunca busquei viver a minha vida
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma
Só quis ver como se fosse eterno.
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma
Só quis ver como se fosse eterno.
1 633
Fernando Pessoa
Nunca busquei viver a minha vida
Nunca busquei viver a minha vida
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma
Só quis ver como se fosse eterno.
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma
Só quis ver como se fosse eterno.
1 633
Fernando Pessoa
A noite desce, o calor soçobra um pouco.
A noite desce, o calor soçobra um pouco.
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação directa com a terra
Não esta espécie de ligação do sentido secundário chamado a vista,
A vista por onde me separo das coisas,
E m'aproximo das estrelas e de coisas distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-se.
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação directa com a terra
Não esta espécie de ligação do sentido secundário chamado a vista,
A vista por onde me separo das coisas,
E m'aproximo das estrelas e de coisas distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-se.
1 461
Fernando Pessoa
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
1 422
Fernando Pessoa
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
1 422
Fernando Pessoa
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
1 422
Fernando Pessoa
Nem digam não, que o antigo cepticismo
Nem digam não, que o antigo cepticismo
Chegou aqui. Dizer «Apenas sei
Que nada sei» não é compreender
Isto: que a verdade certa está
Além do ser e do não ser, as duplas
Formas do erro mais simples do pensar.
A vazia e profunda negação
Socrática é o exterior entre-sonhado
Da minha negação calma e profunda.
Toda a frase, expressão, pode partir
D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma
Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta
Diferença contém a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo,
Mudo adivinhador não compreendendo
A Força toda do que adivinhou...
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui estou e fico.
Perdida ilusão, desilusão
Tendo o sonho e o real por igualmente
Falsos, e por certo tendo apenas
A certeza e o orgulho de aqui estar.
Pelos caminhos (...) da vida
Desdenhando leituras, procurei
Só a verdade — e a verdade é esta.
(uma pausa)
Não sei por quê — não sei... Antes quedasse
Mesmo na dúvida. A desolação
Onde hoje estou — dupla — de nada achar
E de estar só em nada ter achado —
Apavora-me. Há alegria na cidade,
Há tristeza no campo solitário
E no plaino desolado. Mas aqui.
No alto píncaro do mais alto monte,
Onde ninguém subiu nem subirá,
Há um horror intenso.
(Levanta-se tremendo de horror)
Rezar não poder, sonhar, dormir, sim iludir-me.
Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca!
Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era
Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa
De estar além da lágrima e do riso
Como eu. Não poder rir, chorar, assim
Como outros homens.
Sim, mas valho mais!
Para quê valer mais?
Horror! Horror!
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte!
Ah como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal,
Este que sinto! Ah, mas já nem posso
Amaldiçoar. O Bem e o Mal são
Formas de erro. Nem amaldiçoar!
Ah o horror, o horror sinto ao vazio
À roda de mim. Eu já não posso
Amaldiçoar, nem ora dirigir-me
A potências ou forças, pois já sei
Que a verdade está além do concebível...
Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer,
Nem rir, nem chorar, morte nem vida
Desejar.
(Vê um frasco em cima da mesa)
Ah dormir, talvez dormindo
Esqueça tudo
(Tira o frasco e deita com cuidado)
Não haja eu, que em (horror)
Dormir cuidando, fosse atingir
O temido eterno sono! Só a ideia...
Não mais. Basta. Está bem. Bebamos.
(Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
Chegou aqui. Dizer «Apenas sei
Que nada sei» não é compreender
Isto: que a verdade certa está
Além do ser e do não ser, as duplas
Formas do erro mais simples do pensar.
A vazia e profunda negação
Socrática é o exterior entre-sonhado
Da minha negação calma e profunda.
Toda a frase, expressão, pode partir
D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma
Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta
Diferença contém a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo,
Mudo adivinhador não compreendendo
A Força toda do que adivinhou...
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui estou e fico.
Perdida ilusão, desilusão
Tendo o sonho e o real por igualmente
Falsos, e por certo tendo apenas
A certeza e o orgulho de aqui estar.
Pelos caminhos (...) da vida
Desdenhando leituras, procurei
Só a verdade — e a verdade é esta.
(uma pausa)
Não sei por quê — não sei... Antes quedasse
Mesmo na dúvida. A desolação
Onde hoje estou — dupla — de nada achar
E de estar só em nada ter achado —
Apavora-me. Há alegria na cidade,
Há tristeza no campo solitário
E no plaino desolado. Mas aqui.
No alto píncaro do mais alto monte,
Onde ninguém subiu nem subirá,
Há um horror intenso.
(Levanta-se tremendo de horror)
Rezar não poder, sonhar, dormir, sim iludir-me.
Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca!
Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era
Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa
De estar além da lágrima e do riso
Como eu. Não poder rir, chorar, assim
Como outros homens.
Sim, mas valho mais!
Para quê valer mais?
Horror! Horror!
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte!
Ah como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal,
Este que sinto! Ah, mas já nem posso
Amaldiçoar. O Bem e o Mal são
Formas de erro. Nem amaldiçoar!
Ah o horror, o horror sinto ao vazio
À roda de mim. Eu já não posso
Amaldiçoar, nem ora dirigir-me
A potências ou forças, pois já sei
Que a verdade está além do concebível...
Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer,
Nem rir, nem chorar, morte nem vida
Desejar.
(Vê um frasco em cima da mesa)
Ah dormir, talvez dormindo
Esqueça tudo
(Tira o frasco e deita com cuidado)
Não haja eu, que em (horror)
Dormir cuidando, fosse atingir
O temido eterno sono! Só a ideia...
Não mais. Basta. Está bem. Bebamos.
(Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
1 266
Fernando Pessoa
Nem digam não, que o antigo cepticismo
Nem digam não, que o antigo cepticismo
Chegou aqui. Dizer «Apenas sei
Que nada sei» não é compreender
Isto: que a verdade certa está
Além do ser e do não ser, as duplas
Formas do erro mais simples do pensar.
A vazia e profunda negação
Socrática é o exterior entre-sonhado
Da minha negação calma e profunda.
Toda a frase, expressão, pode partir
D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma
Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta
Diferença contém a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo,
Mudo adivinhador não compreendendo
A Força toda do que adivinhou...
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui estou e fico.
Perdida ilusão, desilusão
Tendo o sonho e o real por igualmente
Falsos, e por certo tendo apenas
A certeza e o orgulho de aqui estar.
Pelos caminhos (...) da vida
Desdenhando leituras, procurei
Só a verdade — e a verdade é esta.
(uma pausa)
Não sei por quê — não sei... Antes quedasse
Mesmo na dúvida. A desolação
Onde hoje estou — dupla — de nada achar
E de estar só em nada ter achado —
Apavora-me. Há alegria na cidade,
Há tristeza no campo solitário
E no plaino desolado. Mas aqui.
No alto píncaro do mais alto monte,
Onde ninguém subiu nem subirá,
Há um horror intenso.
(Levanta-se tremendo de horror)
Rezar não poder, sonhar, dormir, sim iludir-me.
Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca!
Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era
Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa
De estar além da lágrima e do riso
Como eu. Não poder rir, chorar, assim
Como outros homens.
Sim, mas valho mais!
Para quê valer mais?
Horror! Horror!
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte!
Ah como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal,
Este que sinto! Ah, mas já nem posso
Amaldiçoar. O Bem e o Mal são
Formas de erro. Nem amaldiçoar!
Ah o horror, o horror sinto ao vazio
À roda de mim. Eu já não posso
Amaldiçoar, nem ora dirigir-me
A potências ou forças, pois já sei
Que a verdade está além do concebível...
Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer,
Nem rir, nem chorar, morte nem vida
Desejar.
(Vê um frasco em cima da mesa)
Ah dormir, talvez dormindo
Esqueça tudo
(Tira o frasco e deita com cuidado)
Não haja eu, que em (horror)
Dormir cuidando, fosse atingir
O temido eterno sono! Só a ideia...
Não mais. Basta. Está bem. Bebamos.
(Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
Chegou aqui. Dizer «Apenas sei
Que nada sei» não é compreender
Isto: que a verdade certa está
Além do ser e do não ser, as duplas
Formas do erro mais simples do pensar.
A vazia e profunda negação
Socrática é o exterior entre-sonhado
Da minha negação calma e profunda.
Toda a frase, expressão, pode partir
D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma
Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta
Diferença contém a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo,
Mudo adivinhador não compreendendo
A Força toda do que adivinhou...
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui estou e fico.
Perdida ilusão, desilusão
Tendo o sonho e o real por igualmente
Falsos, e por certo tendo apenas
A certeza e o orgulho de aqui estar.
Pelos caminhos (...) da vida
Desdenhando leituras, procurei
Só a verdade — e a verdade é esta.
(uma pausa)
Não sei por quê — não sei... Antes quedasse
Mesmo na dúvida. A desolação
Onde hoje estou — dupla — de nada achar
E de estar só em nada ter achado —
Apavora-me. Há alegria na cidade,
Há tristeza no campo solitário
E no plaino desolado. Mas aqui.
No alto píncaro do mais alto monte,
Onde ninguém subiu nem subirá,
Há um horror intenso.
(Levanta-se tremendo de horror)
Rezar não poder, sonhar, dormir, sim iludir-me.
Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca!
Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era
Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa
De estar além da lágrima e do riso
Como eu. Não poder rir, chorar, assim
Como outros homens.
Sim, mas valho mais!
Para quê valer mais?
Horror! Horror!
Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir
Esta cabeça contra aquele muro
E tombar morto. Mas a morte, a morte!
Ah como a temo! Para onde fugir?
Na vida nem na morte tenho abrigo.
Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal,
Este que sinto! Ah, mas já nem posso
Amaldiçoar. O Bem e o Mal são
Formas de erro. Nem amaldiçoar!
Ah o horror, o horror sinto ao vazio
À roda de mim. Eu já não posso
Amaldiçoar, nem ora dirigir-me
A potências ou forças, pois já sei
Que a verdade está além do concebível...
Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer,
Nem rir, nem chorar, morte nem vida
Desejar.
(Vê um frasco em cima da mesa)
Ah dormir, talvez dormindo
Esqueça tudo
(Tira o frasco e deita com cuidado)
Não haja eu, que em (horror)
Dormir cuidando, fosse atingir
O temido eterno sono! Só a ideia...
Não mais. Basta. Está bem. Bebamos.
(Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás)
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Fernando Pessoa
Cristãos, pagãos, [...], (...)
Cristãos, pagãos, [...], (...)
A qual de vós fará o Mistério a vontade?
A incerteza do que é a morte é o que nos vale na vida.
O desconhecimento do que é a morte é o sentido da vida.
O desconhecermos a morte é que faz a beleza da vida.
Quem sabe o valor exacto de uma vida?
Sei que há uma vida, e que apagam essa vida — não sei é quem apaga
Mas sei que de cada vida que passa há um universo em mim.
A qual de vós fará o Mistério a vontade?
A incerteza do que é a morte é o que nos vale na vida.
O desconhecimento do que é a morte é o sentido da vida.
O desconhecermos a morte é que faz a beleza da vida.
Quem sabe o valor exacto de uma vida?
Sei que há uma vida, e que apagam essa vida — não sei é quem apaga
Mas sei que de cada vida que passa há um universo em mim.
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Fernando Pessoa
Cristãos, pagãos, [...], (...)
Cristãos, pagãos, [...], (...)
A qual de vós fará o Mistério a vontade?
A incerteza do que é a morte é o que nos vale na vida.
O desconhecimento do que é a morte é o sentido da vida.
O desconhecermos a morte é que faz a beleza da vida.
Quem sabe o valor exacto de uma vida?
Sei que há uma vida, e que apagam essa vida — não sei é quem apaga
Mas sei que de cada vida que passa há um universo em mim.
A qual de vós fará o Mistério a vontade?
A incerteza do que é a morte é o que nos vale na vida.
O desconhecimento do que é a morte é o sentido da vida.
O desconhecermos a morte é que faz a beleza da vida.
Quem sabe o valor exacto de uma vida?
Sei que há uma vida, e que apagam essa vida — não sei é quem apaga
Mas sei que de cada vida que passa há um universo em mim.
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