Vida e Existência
Fernando Pessoa
Ó Juliano Apóstata, que laço
É esse que me prende a quem tu foste,
Imperador sombrio e calmo, quem
É que em nós ambos é o mesmo alguém?
Porque sinto eu teu gesto no meu braço
Na m[inha] vida tua morte.
Quem foste tu, que hoje me sabes tanto
A eu ter sido tu. Porque é que lembro
Teu vulto sério, o mando teu augusto,
Teu peito de alma, calmo e (...) e justo,
Como o por Maio a Junho estéril pranto
Quando é Dezembro?
Imperador aceite pelas gentes
Do teu império em gritos [?] de te querer,
Sóbrio, vergado sobre os livros, (...)
Agora, renascido,
Quero outra vez erguer os deuses mortos.
Fernando Pessoa
Ó Juliano Apóstata, que laço
É esse que me prende a quem tu foste,
Imperador sombrio e calmo, quem
É que em nós ambos é o mesmo alguém?
Porque sinto eu teu gesto no meu braço
Na m[inha] vida tua morte.
Quem foste tu, que hoje me sabes tanto
A eu ter sido tu. Porque é que lembro
Teu vulto sério, o mando teu augusto,
Teu peito de alma, calmo e (...) e justo,
Como o por Maio a Junho estéril pranto
Quando é Dezembro?
Imperador aceite pelas gentes
Do teu império em gritos [?] de te querer,
Sóbrio, vergado sobre os livros, (...)
Agora, renascido,
Quero outra vez erguer os deuses mortos.
Fernando Pessoa
Ó Juliano Apóstata, que laço
É esse que me prende a quem tu foste,
Imperador sombrio e calmo, quem
É que em nós ambos é o mesmo alguém?
Porque sinto eu teu gesto no meu braço
Na m[inha] vida tua morte.
Quem foste tu, que hoje me sabes tanto
A eu ter sido tu. Porque é que lembro
Teu vulto sério, o mando teu augusto,
Teu peito de alma, calmo e (...) e justo,
Como o por Maio a Junho estéril pranto
Quando é Dezembro?
Imperador aceite pelas gentes
Do teu império em gritos [?] de te querer,
Sóbrio, vergado sobre os livros, (...)
Agora, renascido,
Quero outra vez erguer os deuses mortos.
Fernando Pessoa
Ó Juliano Apóstata, que laço
É esse que me prende a quem tu foste,
Imperador sombrio e calmo, quem
É que em nós ambos é o mesmo alguém?
Porque sinto eu teu gesto no meu braço
Na m[inha] vida tua morte.
Quem foste tu, que hoje me sabes tanto
A eu ter sido tu. Porque é que lembro
Teu vulto sério, o mando teu augusto,
Teu peito de alma, calmo e (...) e justo,
Como o por Maio a Junho estéril pranto
Quando é Dezembro?
Imperador aceite pelas gentes
Do teu império em gritos [?] de te querer,
Sóbrio, vergado sobre os livros, (...)
Agora, renascido,
Quero outra vez erguer os deuses mortos.
Fernando Pessoa
II - SAUDADE DADA
SAUDADE DADA
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.
Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.
E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.
Fernando Pessoa
Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
Manuel António Pina
Tanto silêncio
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência,
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?
Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 316 | Assírio & Alvim, Abril 2012
Fernando Pessoa
Primeiro: D. SEBASTIÃO
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
Fernando Pessoa
Primeiro: D. SEBASTIÃO
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
Fernando Pessoa
Primeiro: D. SEBASTIÃO
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
Fernando Pessoa
Senhor, meu passo está no Limiar
Da Tua Porta.
Faz-me humilde ante o que vou legar...
Meu mero ser que importa?
Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho
De Ti em mim,
Faz que eu seja o claro e humilde engenho
Que revela o teu Fim.
Depois, ou morte ou sombra o que aconteça
Que fique, aqui,
Esta obra que é tua e em mim começa
E acaba em Ti.
Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo
- Verdade e Lei -
O resto sou só eu e o ermo mundo...
E o que revelarei.
A névoa sobe do alto da montanha
E ergue-se à luz
O claro cimo que a Tua luz banha
Sereno e claro e a flux
Eu quero ser a névoa que se ergue
Para te ver
A humanidade sofredora é cega -
O resto é apenas ser...
Fernando Pessoa
Senhor, meu passo está no Limiar
Da Tua Porta.
Faz-me humilde ante o que vou legar...
Meu mero ser que importa?
Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho
De Ti em mim,
Faz que eu seja o claro e humilde engenho
Que revela o teu Fim.
Depois, ou morte ou sombra o que aconteça
Que fique, aqui,
Esta obra que é tua e em mim começa
E acaba em Ti.
Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo
- Verdade e Lei -
O resto sou só eu e o ermo mundo...
E o que revelarei.
A névoa sobe do alto da montanha
E ergue-se à luz
O claro cimo que a Tua luz banha
Sereno e claro e a flux
Eu quero ser a névoa que se ergue
Para te ver
A humanidade sofredora é cega -
O resto é apenas ser...
Fernando Pessoa
Senhor, meu passo está no Limiar
Da Tua Porta.
Faz-me humilde ante o que vou legar...
Meu mero ser que importa?
Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho
De Ti em mim,
Faz que eu seja o claro e humilde engenho
Que revela o teu Fim.
Depois, ou morte ou sombra o que aconteça
Que fique, aqui,
Esta obra que é tua e em mim começa
E acaba em Ti.
Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo
- Verdade e Lei -
O resto sou só eu e o ermo mundo...
E o que revelarei.
A névoa sobe do alto da montanha
E ergue-se à luz
O claro cimo que a Tua luz banha
Sereno e claro e a flux
Eu quero ser a névoa que se ergue
Para te ver
A humanidade sofredora é cega -
O resto é apenas ser...
Fernando Pessoa
XIV - Como uma voz de fonte que cessasse
Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), para além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...
Fernando Pessoa
XIV - Como uma voz de fonte que cessasse
Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), para além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...
Fernando Pessoa
I - PLENILÚNIO
I
PLENILÚNIO
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,
Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —
A expirar mas nunca expira
Uma flauta que delira,
Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila
Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
Fernando Pessoa
Depois do dia vem noite,
Depois da noite vem dia
E depois de ter saudades
Vêm as saudades que havia.
Fernando Pessoa
O Diabo, Satanás - como quiserem - certo
Dia a Deus Uno e Trino assim se dirigiu:
Combinemos os dois ao homem pouco esperto
Uma cilada. A fome, a peste, a guerra, o frio
Tudo isto não lhe basta, além de nunca ser
Violentamente intenso, ele um remédio acha
A cada mal; depois é necessário ver:
Nem sempre há peste e fome, o frio nem sempre racha.
Bem sei, Senhor, que já da vossa invenção sabia
Nasceu a chuva, a trovoada, o terramoto
Mas o engenho humano, inda que pouca lábia -
Por assim dizer - tenha (...)
Contra os males do mar o homem em terra sua
Foge, e aos da terra para o mar
Se vem um terramoto, ele foge p'ra a rua,
E se há chuva ou trovão deixa-se estar em casa.
Mas é preciso que haja uma abominação
Que seja à humanidade uma perfeita cólica.
Não acabou. Sorrindo e anunciando então
O Senhor inventou a Igreja Católica.
Manuel António Pina
[Uma casa]
nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
na ausência das palavras calar-se.
Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,
nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,
a porta está fechada na palavra porta
para sempre.
O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,
nem sob ele te deitarás nas longas tardes de Verão
como quando eras música apenas
sem uma casa guardando-te do mundo.
Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 354 | Assírio & Alvim, Abril 2012
Fernando Pessoa
O meu sentimento é cinza
Da minha imaginação,
E eu deixo cair a cinza
No cinzeiro da Razão.
Fernando Pessoa
Sê dono de ti
Sem fechares os olhos.
Na dura mão aperta
Com um tacto encavado
O mundo exterior
Contra a palma sentindo
Outra cousa que a palma.
Fernando Pessoa
CANÇÃO TRISTE
No meu carinho.
A felicidade quando virá?
Por que caminho?
Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!
Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-me triste por ser risonho,
E não ser já.
Fernando Pessoa
Não creio ainda no que sinto -
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...
Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.
Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
Fernando Pessoa
AUTO DAS BACANTES - Qual é, senhor, a melhor sorte?
Mais vale a vida ou mais querer?
Há, além do portal da morte,
Melhor viver?
Será melhor viver amando
E buscar o amor entre a vida,
Ou, inda que chorando,
Buscar o amor
Onde tudo é a sombra e o vago,
E o guarda negro a fauce estende
Por sobre o desolado lago
Haverá escondida margem,
Oculta região feliz,
Onde outra mais (...) aragem
Banhe um amor como se quis?