Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Também Gosto de Olhar Para O Teto
há policiais na rua
e anjos nas nuvens
e jóqueis cavalgando em suas roupas de seda.
manhãs abaixo
noites acima
emparelhados às tardes
há cães aleijados em
East Kansas City
vampiros em Eugene, Oregon
e uma longa caminhada até um copo d'água nas
Cidades Gêmeas.
eu pretendia escrever para Angela
eu realmente pretendia
e agradecê-la por tudo
porque eu sinceramente
gostava do modo como ela enrolava xales em sua
escada
e seu chá de ervas
e as verdes trepadeiras em seu
banheiro
a vista de seu quarto de dormir
e sua coleção de
Vivaldi.
mas eu não o fiz.
acho que sou mais cruel
do que penso que sou.
e anjos nas nuvens
e jóqueis cavalgando em suas roupas de seda.
manhãs abaixo
noites acima
emparelhados às tardes
há cães aleijados em
East Kansas City
vampiros em Eugene, Oregon
e uma longa caminhada até um copo d'água nas
Cidades Gêmeas.
eu pretendia escrever para Angela
eu realmente pretendia
e agradecê-la por tudo
porque eu sinceramente
gostava do modo como ela enrolava xales em sua
escada
e seu chá de ervas
e as verdes trepadeiras em seu
banheiro
a vista de seu quarto de dormir
e sua coleção de
Vivaldi.
mas eu não o fiz.
acho que sou mais cruel
do que penso que sou.
1 003
Charles Bukowski
Você Não Pode Passar À Força Pelo Buraco Da Agulha
rasgar poemas é minha
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
972
Charles Bukowski
O Que Fez Você Perder Sua Inspiração?
Norman goteja uma imbecilidade
autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e
dá risadinhas, puxa
sua barba doentia
e fala de sua namorada Katrinka,
Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e
LSD.
um mau escritor, quase inédito, isso lhe
dá forças enquanto
ele fica ali e me conta
que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de
uma erupção vulcânica para uma faísca
de isqueiro.
eu lhe dou algo para beber e
ele desce para o assoalho e
começa a falar para dentro do meu gravador.
acendo um charuto e
Ouço.
"quero ser o escritor Número Um do Nosso
Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas
dizerem, "ei, veja, lá vai Norman! quero que as pessoas
gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus
poemas..."
resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta
mas de má qualidade
e não ouço
mais.
uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde
a fita termina de
rodar. Norman ajusta sua gravata,
ergue-se da posição de joelhos e fica
sentado.
"Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará
acabado."
eu começo outro
charuto.
"vou almoçar com Ray
Bradbury, na terça."
eu não respondo.
"Jesus!"
ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e
começa a vomitar. isso prossegue por algum
tempo.
"eu me sinto melhor", ele diz
voltando
para a sala.
"tome mais um drinque", eu digo.
"eu o levarei de carro para a sua aula
de manhã."
"ótimo", ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja.
aí ele me olha e pergunta,
"onde você tem sido publicado
ultimamente?"
eu estendo a palma das mãos e
dou de ombros.
"Jesus, ora essa! o que fez você perder sua
inspiração?"
"bebida. gente. casamento. gente.
casamento outra vez. um filho. bebida.
gente. empregos. desempregos. bebida e
gente."
"meu professor gostaria que você conversasse com
seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e
gosta de você."
"diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que
eu estou acabado."
"você é sensível."
"não, sou apenas um lampejo na
frigideira."
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo
no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado
com sua poesia.
eu vou para o quarto e ligo o despertador para as
10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce
melhor agora, mas ao subir na cama
eu penso, de onde vêm esses desgraçados e
o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu
estou enlouquecendo.
a luz se apaga
e então um alarme contra ladrões
em algum lugar por perto
se intromete em seus
roncos. muito pertinente, eu penso,
pertinente demais
para uma noite muito desperdiçada
em dezembro de
1965 ou
qualquer outro tempo
que for.
autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e
dá risadinhas, puxa
sua barba doentia
e fala de sua namorada Katrinka,
Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e
LSD.
um mau escritor, quase inédito, isso lhe
dá forças enquanto
ele fica ali e me conta
que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de
uma erupção vulcânica para uma faísca
de isqueiro.
eu lhe dou algo para beber e
ele desce para o assoalho e
começa a falar para dentro do meu gravador.
acendo um charuto e
Ouço.
"quero ser o escritor Número Um do Nosso
Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas
dizerem, "ei, veja, lá vai Norman! quero que as pessoas
gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus
poemas..."
resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta
mas de má qualidade
e não ouço
mais.
uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde
a fita termina de
rodar. Norman ajusta sua gravata,
ergue-se da posição de joelhos e fica
sentado.
"Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará
acabado."
eu começo outro
charuto.
"vou almoçar com Ray
Bradbury, na terça."
eu não respondo.
"Jesus!"
ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e
começa a vomitar. isso prossegue por algum
tempo.
"eu me sinto melhor", ele diz
voltando
para a sala.
"tome mais um drinque", eu digo.
"eu o levarei de carro para a sua aula
de manhã."
"ótimo", ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja.
aí ele me olha e pergunta,
"onde você tem sido publicado
ultimamente?"
eu estendo a palma das mãos e
dou de ombros.
"Jesus, ora essa! o que fez você perder sua
inspiração?"
"bebida. gente. casamento. gente.
casamento outra vez. um filho. bebida.
gente. empregos. desempregos. bebida e
gente."
"meu professor gostaria que você conversasse com
seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e
gosta de você."
"diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que
eu estou acabado."
"você é sensível."
"não, sou apenas um lampejo na
frigideira."
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo
no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado
com sua poesia.
eu vou para o quarto e ligo o despertador para as
10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce
melhor agora, mas ao subir na cama
eu penso, de onde vêm esses desgraçados e
o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu
estou enlouquecendo.
a luz se apaga
e então um alarme contra ladrões
em algum lugar por perto
se intromete em seus
roncos. muito pertinente, eu penso,
pertinente demais
para uma noite muito desperdiçada
em dezembro de
1965 ou
qualquer outro tempo
que for.
626
Charles Bukowski
Mais Um Poema Sobre Um Bêbado e Depois Eu Deixo Vocês Irem Embora
"cara", ele disse sentado nos degraus.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
1 583
Charles Bukowski
Mais Um Poema Sobre Um Bêbado e Depois Eu Deixo Vocês Irem Embora
"cara", ele disse sentado nos degraus.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
1 583
Charles Bukowski
Cão
é muito admirado pelo Homem
porque acredita
na mão que o
alimenta. um
arranjo
perfeito. por
13 centavos ao
dia você tem
um assassino de aluguel que pensa
que você é
Deus. um
cão não sabe distinguir um nazista de um
republicano de um comuna de
um democrata. e, muitas vezes,
nem eu.
porque acredita
na mão que o
alimenta. um
arranjo
perfeito. por
13 centavos ao
dia você tem
um assassino de aluguel que pensa
que você é
Deus. um
cão não sabe distinguir um nazista de um
republicano de um comuna de
um democrata. e, muitas vezes,
nem eu.
712
Charles Bukowski
Cão
é muito admirado pelo Homem
porque acredita
na mão que o
alimenta. um
arranjo
perfeito. por
13 centavos ao
dia você tem
um assassino de aluguel que pensa
que você é
Deus. um
cão não sabe distinguir um nazista de um
republicano de um comuna de
um democrata. e, muitas vezes,
nem eu.
porque acredita
na mão que o
alimenta. um
arranjo
perfeito. por
13 centavos ao
dia você tem
um assassino de aluguel que pensa
que você é
Deus. um
cão não sabe distinguir um nazista de um
republicano de um comuna de
um democrata. e, muitas vezes,
nem eu.
712
Charles Bukowski
Ah
dor de flamingo.
dedos queimados tentando
acender o final desta
bituca.
em um lugar descrito
por mulheres apavoradas
com dinheiro em suas bolsas
como "buraco de rato".
"vocês podem cuspir no chão aqui",
eu lhes digo.
mas não, a
uma distância
segura, parece que
preferem discutir
minha poesia.
dedos queimados tentando
acender o final desta
bituca.
em um lugar descrito
por mulheres apavoradas
com dinheiro em suas bolsas
como "buraco de rato".
"vocês podem cuspir no chão aqui",
eu lhes digo.
mas não, a
uma distância
segura, parece que
preferem discutir
minha poesia.
650
Charles Bukowski
Ah
dor de flamingo.
dedos queimados tentando
acender o final desta
bituca.
em um lugar descrito
por mulheres apavoradas
com dinheiro em suas bolsas
como "buraco de rato".
"vocês podem cuspir no chão aqui",
eu lhes digo.
mas não, a
uma distância
segura, parece que
preferem discutir
minha poesia.
dedos queimados tentando
acender o final desta
bituca.
em um lugar descrito
por mulheres apavoradas
com dinheiro em suas bolsas
como "buraco de rato".
"vocês podem cuspir no chão aqui",
eu lhes digo.
mas não, a
uma distância
segura, parece que
preferem discutir
minha poesia.
650
Charles Bukowski
Ah
dor de flamingo.
dedos queimados tentando
acender o final desta
bituca.
em um lugar descrito
por mulheres apavoradas
com dinheiro em suas bolsas
como "buraco de rato".
"vocês podem cuspir no chão aqui",
eu lhes digo.
mas não, a
uma distância
segura, parece que
preferem discutir
minha poesia.
dedos queimados tentando
acender o final desta
bituca.
em um lugar descrito
por mulheres apavoradas
com dinheiro em suas bolsas
como "buraco de rato".
"vocês podem cuspir no chão aqui",
eu lhes digo.
mas não, a
uma distância
segura, parece que
preferem discutir
minha poesia.
650
Charles Bukowski
Porrada Importada
eles seguem trazendo lutadores para cá
do Brasile da Argentina
com escores como 11-2-1 ou
7-4-0
e todos eles têm 27 ou 28 anos
de idade
e eles os pôem para enfrentar
nossos rapazes
com escores como
22-0-0, idades de 21 ou
22.
os brasileiros e argentinos
lutam orgulhosamente
e dificilmente lhes faltam
colhões
mas eles têm compleição
baixa e são lentos
ainda usam técnicas de
boxe
que já eram
nos anos
20.
é mais que triste
e eu me pergunto o que
esses brasileiros e
argentinos pensam
depois de
sangrarem
e então
serem nocauteados?
é só
mais uma porra de um voo besta
de volta à América do Sul
para eles
enquanto cruzam com seus
compatriotas
voando para o Norte
sem chance
alguma.
do Brasile da Argentina
com escores como 11-2-1 ou
7-4-0
e todos eles têm 27 ou 28 anos
de idade
e eles os pôem para enfrentar
nossos rapazes
com escores como
22-0-0, idades de 21 ou
22.
os brasileiros e argentinos
lutam orgulhosamente
e dificilmente lhes faltam
colhões
mas eles têm compleição
baixa e são lentos
ainda usam técnicas de
boxe
que já eram
nos anos
20.
é mais que triste
e eu me pergunto o que
esses brasileiros e
argentinos pensam
depois de
sangrarem
e então
serem nocauteados?
é só
mais uma porra de um voo besta
de volta à América do Sul
para eles
enquanto cruzam com seus
compatriotas
voando para o Norte
sem chance
alguma.
927
Charles Bukowski
Porrada Importada
eles seguem trazendo lutadores para cá
do Brasile da Argentina
com escores como 11-2-1 ou
7-4-0
e todos eles têm 27 ou 28 anos
de idade
e eles os pôem para enfrentar
nossos rapazes
com escores como
22-0-0, idades de 21 ou
22.
os brasileiros e argentinos
lutam orgulhosamente
e dificilmente lhes faltam
colhões
mas eles têm compleição
baixa e são lentos
ainda usam técnicas de
boxe
que já eram
nos anos
20.
é mais que triste
e eu me pergunto o que
esses brasileiros e
argentinos pensam
depois de
sangrarem
e então
serem nocauteados?
é só
mais uma porra de um voo besta
de volta à América do Sul
para eles
enquanto cruzam com seus
compatriotas
voando para o Norte
sem chance
alguma.
do Brasile da Argentina
com escores como 11-2-1 ou
7-4-0
e todos eles têm 27 ou 28 anos
de idade
e eles os pôem para enfrentar
nossos rapazes
com escores como
22-0-0, idades de 21 ou
22.
os brasileiros e argentinos
lutam orgulhosamente
e dificilmente lhes faltam
colhões
mas eles têm compleição
baixa e são lentos
ainda usam técnicas de
boxe
que já eram
nos anos
20.
é mais que triste
e eu me pergunto o que
esses brasileiros e
argentinos pensam
depois de
sangrarem
e então
serem nocauteados?
é só
mais uma porra de um voo besta
de volta à América do Sul
para eles
enquanto cruzam com seus
compatriotas
voando para o Norte
sem chance
alguma.
927
Charles Bukowski
Match Point
li no jornal que uma velha senhora de 72 anos estrangulou seu
marido de 91 anos com a
gravata dele.
ela disse que a diferença de idade era
insuportável e acrescentou que
quando eles se conheceram em uma quadra de tênis 30 anos
atrás
a diferença de idade não havia parecido
importante.
parece que estive seriamente em perigo
pelo menos meia dúzia de vezes
nos últimos 25 anos, mais ou menos, e ainda
estou.
só há uma única gravata em meu
armário, eu a comprei para ir a um enterro
não faz muito tempo,
mas nunca joguei
tênis e não pretendo
tentar.
marido de 91 anos com a
gravata dele.
ela disse que a diferença de idade era
insuportável e acrescentou que
quando eles se conheceram em uma quadra de tênis 30 anos
atrás
a diferença de idade não havia parecido
importante.
parece que estive seriamente em perigo
pelo menos meia dúzia de vezes
nos últimos 25 anos, mais ou menos, e ainda
estou.
só há uma única gravata em meu
armário, eu a comprei para ir a um enterro
não faz muito tempo,
mas nunca joguei
tênis e não pretendo
tentar.
705
Charles Bukowski
O Ódio a Hemingway
dei ao último livro de Hemingway
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
660
Charles Bukowski
O Caixão da Criação
o talento para sofrer e suportar,
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
874
Charles Bukowski
4 Quarteirões
levei minha filha de carro até o auditório da escola
onde sua mãe deveria encontrá-la
as 5 da tarde.
eu a deixei descer do carro
e ela enfiou a cabeça pela janela
e me beijou
como sempre fazia.
ela estava com 8 anos. eu com 52.
duas mulheres gordas ficaram nos observando.
eu acenei até logo para minha filha
e enquanto ela caminhava até a entrada
uma das mulheres gordas perguntou-lhe,
"espere um minuto, quem era esse homem?"
e ela respondeu, "esse é meu pai".
então uma das gordas correu na minha direção:
"espere um minuto, pode me dar uma carona, só 4
quarteirões?"
"meu carro é muito sujo", eu disse.
"não quero me intrometer", ela disse,
entrando.
"é só seguir pela rodovia. não é longe."
segui pela rodovia.
"Marina", ela disse, "é uma menina muito boa, nós
todas gostamos de Marina."
"sim", eu disse, "ela é uma garota muito quieta e
educada."
"sim," ela respondeu, "sim, ela é."
"costumo ser muito quieto e atencioso também",
eu disse.
"bem", ela respondeu, "acho que se você não se
elogiar, então ninguém vai fazer isso, hahaha!"
"está ventando muito hoje", eu disse.
"agora", ela disse, "vá dois quarteirões para o norte, então vire
à direita."
"tudo certo", eu disse, "vou fazer."
"espero", ela disse, "que não o esteja levando para muito longe
do seu caminho. espero não estar me
intrometendo.
"a senhora conheceu a mãe de Marina?", eu perguntei.
"ah, sim", ela disse, "é uma pessoa adorável, mesmo,
uma pessoa adorável."
"tem certeza de que mais ninguém vai?" eu perguntei.
"vai o quê?", ela perguntou.
"elogiar você se você não se elogiar a si mesmo", eu
respondi.
"bem", ela disse, "são mais 3 quarteirões,
então o senhor dobra à direita."
eu subi 3 quarteirões e dobrei à
direita.
"agora", ela disse, "está vendo esse caminhão com a porta
bem aberta?"
"estou vendo", eu disse.
"é só o senhor parar bem ao lado do caminhão e eu
desço do carro."
estacionei ali e ela desceu
do carro.
"com certeza quero lhe agradecer", ela disse,
"e espero não me haver
intrometido."
"eu a vejo por aí", eu disse.
"cuide-se bem."
eu segui em frente e entrei de novo à direita
em uma rua de mão única. o oceano estava
lá. não havia nenhum veleiro
à vista. vagamente eu pensei em
peixes voadores
e os dispensei como um mito.
fiz o balão
na primeira oportunidade
e segui de volta
para Los Angeles.
onde sua mãe deveria encontrá-la
as 5 da tarde.
eu a deixei descer do carro
e ela enfiou a cabeça pela janela
e me beijou
como sempre fazia.
ela estava com 8 anos. eu com 52.
duas mulheres gordas ficaram nos observando.
eu acenei até logo para minha filha
e enquanto ela caminhava até a entrada
uma das mulheres gordas perguntou-lhe,
"espere um minuto, quem era esse homem?"
e ela respondeu, "esse é meu pai".
então uma das gordas correu na minha direção:
"espere um minuto, pode me dar uma carona, só 4
quarteirões?"
"meu carro é muito sujo", eu disse.
"não quero me intrometer", ela disse,
entrando.
"é só seguir pela rodovia. não é longe."
segui pela rodovia.
"Marina", ela disse, "é uma menina muito boa, nós
todas gostamos de Marina."
"sim", eu disse, "ela é uma garota muito quieta e
educada."
"sim," ela respondeu, "sim, ela é."
"costumo ser muito quieto e atencioso também",
eu disse.
"bem", ela respondeu, "acho que se você não se
elogiar, então ninguém vai fazer isso, hahaha!"
"está ventando muito hoje", eu disse.
"agora", ela disse, "vá dois quarteirões para o norte, então vire
à direita."
"tudo certo", eu disse, "vou fazer."
"espero", ela disse, "que não o esteja levando para muito longe
do seu caminho. espero não estar me
intrometendo.
"a senhora conheceu a mãe de Marina?", eu perguntei.
"ah, sim", ela disse, "é uma pessoa adorável, mesmo,
uma pessoa adorável."
"tem certeza de que mais ninguém vai?" eu perguntei.
"vai o quê?", ela perguntou.
"elogiar você se você não se elogiar a si mesmo", eu
respondi.
"bem", ela disse, "são mais 3 quarteirões,
então o senhor dobra à direita."
eu subi 3 quarteirões e dobrei à
direita.
"agora", ela disse, "está vendo esse caminhão com a porta
bem aberta?"
"estou vendo", eu disse.
"é só o senhor parar bem ao lado do caminhão e eu
desço do carro."
estacionei ali e ela desceu
do carro.
"com certeza quero lhe agradecer", ela disse,
"e espero não me haver
intrometido."
"eu a vejo por aí", eu disse.
"cuide-se bem."
eu segui em frente e entrei de novo à direita
em uma rua de mão única. o oceano estava
lá. não havia nenhum veleiro
à vista. vagamente eu pensei em
peixes voadores
e os dispensei como um mito.
fiz o balão
na primeira oportunidade
e segui de volta
para Los Angeles.
1 035
Charles Bukowski
Moro em Uma Vizinhança De Assassinatos
as baratas cospem clipes
enferrujados
e o helicóptero dá voltas e voltas
farejando sangue
holofotes esquadrinhando nossos
banheiros
procurando por nosso esconderijo com dupla tampa sob o
colchão
5 caras nesta quadra têm pistolas
um outro tem um
machete
nós somos todos assassinos e
alcoólatras
mas há piores no hotel
atravessando a rua;
eles ficam na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando serem
presos.
aqui cada um de nós tem uma planta que está murchando
em nossa entrada
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da madrugada
fazemos isso
em tons de sussurro
enquanto fora em cada varanda
fica um pequeno pires de ração
que sempre é comido pela manhã
supomos que
pelos
gatos.
enferrujados
e o helicóptero dá voltas e voltas
farejando sangue
holofotes esquadrinhando nossos
banheiros
procurando por nosso esconderijo com dupla tampa sob o
colchão
5 caras nesta quadra têm pistolas
um outro tem um
machete
nós somos todos assassinos e
alcoólatras
mas há piores no hotel
atravessando a rua;
eles ficam na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando serem
presos.
aqui cada um de nós tem uma planta que está murchando
em nossa entrada
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da madrugada
fazemos isso
em tons de sussurro
enquanto fora em cada varanda
fica um pequeno pires de ração
que sempre é comido pela manhã
supomos que
pelos
gatos.
998
Charles Bukowski
Realização
ela se disciplinou em
raiva
ódio e estratégias
do engodo.
sempre achei que isso iria
passar finalmente
e que ela estava obcecada por
equívocos e maus
conselhos.
sempre achei que iria
passar.
escutei as acusações contra mim
sabendo que algumas delas eram verdadeiras
mas certamente não
tão importantes
a ponto de se tornarem o alvo de
violência, inveja,
vingança.
achei que certamente
passaria.
eu não organizei nenhuma
defesa
achando que a simples
razão
iria salvar a nós
dois
mas sua determinação
se reforçou -
e até mesmo então
eu resumi aquilo como uma teimosa
e excessiva
energia
mas a cada vez que eu cedia
mais espaço era
ocupado.
senhor, eu pensei, é apenas simples
violência
e assim eu conduzi meu cavalo
para fora do estábulo
afiei minhas facas e
comecei um
contra-ataque.
ela finalmente havia achado
um adversário tão bom quanto
poderia ser achado.
sua determinação provocou sua própria
destruição.
ela havia encontrado seu
páreo
eu montei em meu corcel
espada em riste
em riste até para o sol.
ela sempre quis guerra
eu cumpriria seu desejo
e agora dane-se o amor
assim como o amor foi amaldiçoado quando
veio pela primeira vez.
agora minha hesitação
iria embora
para sempre
e o sangue
iria correr
o dela e o meu
assim como ela desejava.
raiva
ódio e estratégias
do engodo.
sempre achei que isso iria
passar finalmente
e que ela estava obcecada por
equívocos e maus
conselhos.
sempre achei que iria
passar.
escutei as acusações contra mim
sabendo que algumas delas eram verdadeiras
mas certamente não
tão importantes
a ponto de se tornarem o alvo de
violência, inveja,
vingança.
achei que certamente
passaria.
eu não organizei nenhuma
defesa
achando que a simples
razão
iria salvar a nós
dois
mas sua determinação
se reforçou -
e até mesmo então
eu resumi aquilo como uma teimosa
e excessiva
energia
mas a cada vez que eu cedia
mais espaço era
ocupado.
senhor, eu pensei, é apenas simples
violência
e assim eu conduzi meu cavalo
para fora do estábulo
afiei minhas facas e
comecei um
contra-ataque.
ela finalmente havia achado
um adversário tão bom quanto
poderia ser achado.
sua determinação provocou sua própria
destruição.
ela havia encontrado seu
páreo
eu montei em meu corcel
espada em riste
em riste até para o sol.
ela sempre quis guerra
eu cumpriria seu desejo
e agora dane-se o amor
assim como o amor foi amaldiçoado quando
veio pela primeira vez.
agora minha hesitação
iria embora
para sempre
e o sangue
iria correr
o dela e o meu
assim como ela desejava.
1 085
Charles Bukowski
Realização
ela se disciplinou em
raiva
ódio e estratégias
do engodo.
sempre achei que isso iria
passar finalmente
e que ela estava obcecada por
equívocos e maus
conselhos.
sempre achei que iria
passar.
escutei as acusações contra mim
sabendo que algumas delas eram verdadeiras
mas certamente não
tão importantes
a ponto de se tornarem o alvo de
violência, inveja,
vingança.
achei que certamente
passaria.
eu não organizei nenhuma
defesa
achando que a simples
razão
iria salvar a nós
dois
mas sua determinação
se reforçou -
e até mesmo então
eu resumi aquilo como uma teimosa
e excessiva
energia
mas a cada vez que eu cedia
mais espaço era
ocupado.
senhor, eu pensei, é apenas simples
violência
e assim eu conduzi meu cavalo
para fora do estábulo
afiei minhas facas e
comecei um
contra-ataque.
ela finalmente havia achado
um adversário tão bom quanto
poderia ser achado.
sua determinação provocou sua própria
destruição.
ela havia encontrado seu
páreo
eu montei em meu corcel
espada em riste
em riste até para o sol.
ela sempre quis guerra
eu cumpriria seu desejo
e agora dane-se o amor
assim como o amor foi amaldiçoado quando
veio pela primeira vez.
agora minha hesitação
iria embora
para sempre
e o sangue
iria correr
o dela e o meu
assim como ela desejava.
raiva
ódio e estratégias
do engodo.
sempre achei que isso iria
passar finalmente
e que ela estava obcecada por
equívocos e maus
conselhos.
sempre achei que iria
passar.
escutei as acusações contra mim
sabendo que algumas delas eram verdadeiras
mas certamente não
tão importantes
a ponto de se tornarem o alvo de
violência, inveja,
vingança.
achei que certamente
passaria.
eu não organizei nenhuma
defesa
achando que a simples
razão
iria salvar a nós
dois
mas sua determinação
se reforçou -
e até mesmo então
eu resumi aquilo como uma teimosa
e excessiva
energia
mas a cada vez que eu cedia
mais espaço era
ocupado.
senhor, eu pensei, é apenas simples
violência
e assim eu conduzi meu cavalo
para fora do estábulo
afiei minhas facas e
comecei um
contra-ataque.
ela finalmente havia achado
um adversário tão bom quanto
poderia ser achado.
sua determinação provocou sua própria
destruição.
ela havia encontrado seu
páreo
eu montei em meu corcel
espada em riste
em riste até para o sol.
ela sempre quis guerra
eu cumpriria seu desejo
e agora dane-se o amor
assim como o amor foi amaldiçoado quando
veio pela primeira vez.
agora minha hesitação
iria embora
para sempre
e o sangue
iria correr
o dela e o meu
assim como ela desejava.
1 085
Charles Bukowski
É Claro
conforme os mais recentes estudos
científicos
leva 325 anos para a última
célula do cérebro
detonar-se.
agora eu percebo que
a maioria das garotas
que encontrei em bares
e trouxe para minha casa
estava mentindo sobre
sua
idade.
científicos
leva 325 anos para a última
célula do cérebro
detonar-se.
agora eu percebo que
a maioria das garotas
que encontrei em bares
e trouxe para minha casa
estava mentindo sobre
sua
idade.
1 101
Charles Bukowski
O Helicóptero da Polícia
o helicóptero da polícia continua a dar voltas sobre o quintal
"o que eles querem?", eu pergunto a ela.
"eles provavelmente o estão procurando", ela diz.
isso não é tão fora de esquadro como você poderia achar:
eu fui a um bar certa noite com alguns amigos
e o dono deu a volta no balcão
e perguntou se podia falar comigo.
"eu não sei se nós podemos servi-lo ou não,
você tem que prometer que vai se comportar,
você criou uma confusão e tanto a última vez
em que esteve aqui."
eu prometi a ele que iria me comportar e naquela noite
eu bebi sob uma grande tensão.
seja como for, o helicóptero continuou a dar voltas
e agora é uma hora da tarde
mas na noite anterior ele havia dado voltas e voltas
lançando seu clarão no quintal
e nos montes de lixo.
deu voltas por 45 minutos, depois
foi embora.
agora voltou.
"que diabo??, eu digo.
"eles querem você", ela diz,
"isso é ridículo," eu digo.
eu vou até o quintal.
não há nada lá fora:
nogueiras, touceiras de bambu, um sofá
jogado fora e mato com um metro de altura.
eu fico parado lá fora e observo o helicóptero
dando voltas, dando voltas.
finalmente ele vai embora.
eu volto para dentro.
"eu me sinto como John Dillinger", eu digo.
"você se parece com John Dillinger", ela diz.
eu vou até o espelho.
é verdade:
eu me pareço com John Dillinger,
mas nenhuma mulher de vestido vermelho
poderia me dedurar. eu sou
esperto demais.
"o que eles querem?", eu pergunto a ela.
"eles provavelmente o estão procurando", ela diz.
isso não é tão fora de esquadro como você poderia achar:
eu fui a um bar certa noite com alguns amigos
e o dono deu a volta no balcão
e perguntou se podia falar comigo.
"eu não sei se nós podemos servi-lo ou não,
você tem que prometer que vai se comportar,
você criou uma confusão e tanto a última vez
em que esteve aqui."
eu prometi a ele que iria me comportar e naquela noite
eu bebi sob uma grande tensão.
seja como for, o helicóptero continuou a dar voltas
e agora é uma hora da tarde
mas na noite anterior ele havia dado voltas e voltas
lançando seu clarão no quintal
e nos montes de lixo.
deu voltas por 45 minutos, depois
foi embora.
agora voltou.
"que diabo??, eu digo.
"eles querem você", ela diz,
"isso é ridículo," eu digo.
eu vou até o quintal.
não há nada lá fora:
nogueiras, touceiras de bambu, um sofá
jogado fora e mato com um metro de altura.
eu fico parado lá fora e observo o helicóptero
dando voltas, dando voltas.
finalmente ele vai embora.
eu volto para dentro.
"eu me sinto como John Dillinger", eu digo.
"você se parece com John Dillinger", ela diz.
eu vou até o espelho.
é verdade:
eu me pareço com John Dillinger,
mas nenhuma mulher de vestido vermelho
poderia me dedurar. eu sou
esperto demais.
1 152
Charles Bukowski
Livre?
tem uma empresa aérea
eles oferecem champanhe de graça
mas eu já estive lá
antes.
quando a comissária de bordo passou
eu disse, não.
estava quente e
aquilo saía direto da
garrafa.
a comissária ia e voltava
reabastecendo.
foi um voo tranquilo
mas então
começou:
corrida aos toaletes.
filas se formaram.
os saquinhos de vômito
surgiram.
eu fiquei lá
escutando os
grunhidos e os
vômitos.
quando chegamos ao aeroporto
alguns ainda
estavam indo
lá.
alguns vomitavam enquanto esperavam por sua
bagagem. outros vomitavam nas
escadas rolantes e no estacionamento.
alguns vomitavam em seus carros enquanto
dirigiam para casa. alguns continuaram vomitando em
casa.
quando cheguei em casa
liguei o noticiário da TV
abri uma cerveja gelada
e deixei a água do banho
correr.
eles oferecem champanhe de graça
mas eu já estive lá
antes.
quando a comissária de bordo passou
eu disse, não.
estava quente e
aquilo saía direto da
garrafa.
a comissária ia e voltava
reabastecendo.
foi um voo tranquilo
mas então
começou:
corrida aos toaletes.
filas se formaram.
os saquinhos de vômito
surgiram.
eu fiquei lá
escutando os
grunhidos e os
vômitos.
quando chegamos ao aeroporto
alguns ainda
estavam indo
lá.
alguns vomitavam enquanto esperavam por sua
bagagem. outros vomitavam nas
escadas rolantes e no estacionamento.
alguns vomitavam em seus carros enquanto
dirigiam para casa. alguns continuaram vomitando em
casa.
quando cheguei em casa
liguei o noticiário da TV
abri uma cerveja gelada
e deixei a água do banho
correr.
634
Charles Bukowski
Pavão Ou Campainha
estou rindo com a boca fechada;
enquanto folheio meu jornal
é como uma sinfonia que desandou:
vendo demais para fazer-me duvidar
aí em clarões através da página.
é como um filme barato que endoidou;
minhas roupas repousam nas cadeiras
como os mortos que foram esvaziados,
cascas de coisas embaçando a vista;
está mais frio que no inferno (sim) mas
os cobertores são finos,
e as cortinas fechadas
estão cheias de buracos assim como o amor.
eu acho que você tem que ser um esportista;
sim, para o esportista tudo está certo:
basta você puxar a arma
e estourar a cabeça de alguém
talvez da donzela sentada na
cadeira na qual a vovó sentava,
mas não tendo uma arma
eu vou até o telefone
e ligo para uma mulher tão velha quanto a cadeira e a vovó,
e ela promete vir e me encantar;
ela tem uma escova de dentes mas não tem dentes
e provavelmente eu dançarei nu para ela
com a bola da minha barriga como um saco branco,
cada homem tem suas próprias escapatórias: a minha é duvidosa
mas tem dado certo ultimamente
e a música que ela faz às vezes me assusta,
mas então
eu acordo, compro um jornal,
chuto uma lata,
abro a cortina,
começo de novo.
enquanto folheio meu jornal
é como uma sinfonia que desandou:
vendo demais para fazer-me duvidar
aí em clarões através da página.
é como um filme barato que endoidou;
minhas roupas repousam nas cadeiras
como os mortos que foram esvaziados,
cascas de coisas embaçando a vista;
está mais frio que no inferno (sim) mas
os cobertores são finos,
e as cortinas fechadas
estão cheias de buracos assim como o amor.
eu acho que você tem que ser um esportista;
sim, para o esportista tudo está certo:
basta você puxar a arma
e estourar a cabeça de alguém
talvez da donzela sentada na
cadeira na qual a vovó sentava,
mas não tendo uma arma
eu vou até o telefone
e ligo para uma mulher tão velha quanto a cadeira e a vovó,
e ela promete vir e me encantar;
ela tem uma escova de dentes mas não tem dentes
e provavelmente eu dançarei nu para ela
com a bola da minha barriga como um saco branco,
cada homem tem suas próprias escapatórias: a minha é duvidosa
mas tem dado certo ultimamente
e a música que ela faz às vezes me assusta,
mas então
eu acordo, compro um jornal,
chuto uma lata,
abro a cortina,
começo de novo.
686
Charles Bukowski
Roxo e Preto
uma garota de calças roxas e suéter preto
atravessando a rua
com um fundo de trailers e arranha-céus,
um fundo de uma Hollywood tumular de
sábado à tarde
é bem interessante:
algo que se mexe,
algo que se mexe em roxo e preto enquanto
seu cabelo balança ao vento enquanto ela se volta,
o sol como o olho de um sapo,
o inverno está lá e está
aqui, e a rua é insípida, insossa,
eu seria capaz de me arrebentar naquele asfalto até
sangrar loucamente
e eu sequer me incomodaria;
a garota de roxo e preto
dá destino e direção à rua
até sair do alcance da minha janela,
e agora é outra vez
o que era antes, e uma pequena aranha
quase como algo feito de um fio de cabelo caído,
um pelo de uma pálpebra,
arrasta-se ao longo da parede à minha esquerda
e sequer tenho o desejo de
matá-la. fora da minha janela
é fantasmagórico e
fede com a malícia dos homens.
eu espero por novos arranjos
mas enquanto isso aguento
quando o telefone toca
e salto da minha cadeira
como um homem que levou um tiro nas
costas.
atravessando a rua
com um fundo de trailers e arranha-céus,
um fundo de uma Hollywood tumular de
sábado à tarde
é bem interessante:
algo que se mexe,
algo que se mexe em roxo e preto enquanto
seu cabelo balança ao vento enquanto ela se volta,
o sol como o olho de um sapo,
o inverno está lá e está
aqui, e a rua é insípida, insossa,
eu seria capaz de me arrebentar naquele asfalto até
sangrar loucamente
e eu sequer me incomodaria;
a garota de roxo e preto
dá destino e direção à rua
até sair do alcance da minha janela,
e agora é outra vez
o que era antes, e uma pequena aranha
quase como algo feito de um fio de cabelo caído,
um pelo de uma pálpebra,
arrasta-se ao longo da parede à minha esquerda
e sequer tenho o desejo de
matá-la. fora da minha janela
é fantasmagórico e
fede com a malícia dos homens.
eu espero por novos arranjos
mas enquanto isso aguento
quando o telefone toca
e salto da minha cadeira
como um homem que levou um tiro nas
costas.
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