Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Algumas das Minhas Leitoras
Gostei de sair daquele Café caro
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
1 122
Charles Bukowski
Algumas das Minhas Leitoras
Gostei de sair daquele Café caro
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
1 122
Charles Bukowski
Algumas das Minhas Leitoras
Gostei de sair daquele Café caro
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.
perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.
"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."
parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.
aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.
era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...
de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
1 122
Charles Bukowski
Trólios E Treliças
claro, eu posso morrer nos próximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor-publisher talvez se aposente
muito embora ele seja dez anos mais novo do que
eu.
foi apenas 25 anos atrás (eu estava com a madura
idade avançada de 45)
que nós iniciamos nossa aliança profana para
testar as águas literárias,
nenhum dos dois sendo muito
conhecido.
acho que tivemos alguma sorte e ainda temos algo
do mesmo
mas
são bem razoáveis as chances
de que ele acabe optando por cálidas e aprazíveis
tardes
no jardim
muito antes de mim.
escrever é uma intoxicação em si
enquanto publicar e editar,
tentar cobrar contas
carrega seu próprio
atrito
que também inclui lidar com as
triviais frescuras e demandas
de vários
assim chamados gênios queridinhos que não
o são.
não vou culpá-lo por cair
fora
e espero que ele me mande fotos de sua
Rose Lane, sua
Gardenia Avenue.
será que terei de procurar outros
promulgadores?
aquele sujeito com o chapéu de pele
russo?
ou aquela peste do leste
com todos aqueles pelos
em seus ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor-publisher
tendo se retirado para o mundo de Trólios e
treliças
vai repassar a
maquinaria
de seu antigo ofício para um
primo, uma
filha ou
certo poundiano de Big
Sur?
ou será que ele vai simplesmente transmitir o legado
para o
Despachante
que vai se erguer como
Lázaro,
manejando recém-descoberta
importância?
podemos imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, todas as suas produções
deverão ser agora entregues em
formato rondó
e
datilografadas
com espaço triplo em papel
de arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo que
nos resta
é um
monte de
verrugas.
“não, não, Sr. Chinaski:
formato rondó!”
“ei, cara”, eu vou perguntar,
“você não ouviu falar dos
anos trinta?”
“os anos trinta? o que é
isso?”
meu atual editor-publisher
e eu
por vezes
de fato discutimos os anos trinta,
a Depressão
e
alguns dos pequenos truques que os trinta
nos ensinaram –
tipo como sobreviver com quase
nada
e seguir em frente
mesmo assim.
bem, John, se acontecer desfrute da sua
diversão em
desenvolver agricultura,
cultivar e arejar
entre
os arbustos, regar apenas no
início da manhã, espalhar
forração para desencorajar
o crescimento de ervas daninhas
e
como faço com a minha escrita:
usar bastante
esterco.
e obrigado
por me alojar lá na
5124 DeLongpre Avenue
em algum lugar entre
o alcoolismo e
a loucura.
juntos nós
atiramos a luva
e é possível
encontrar
quem aceite o desafio
inclusive nesta época tardia
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor-publisher talvez se aposente
muito embora ele seja dez anos mais novo do que
eu.
foi apenas 25 anos atrás (eu estava com a madura
idade avançada de 45)
que nós iniciamos nossa aliança profana para
testar as águas literárias,
nenhum dos dois sendo muito
conhecido.
acho que tivemos alguma sorte e ainda temos algo
do mesmo
mas
são bem razoáveis as chances
de que ele acabe optando por cálidas e aprazíveis
tardes
no jardim
muito antes de mim.
escrever é uma intoxicação em si
enquanto publicar e editar,
tentar cobrar contas
carrega seu próprio
atrito
que também inclui lidar com as
triviais frescuras e demandas
de vários
assim chamados gênios queridinhos que não
o são.
não vou culpá-lo por cair
fora
e espero que ele me mande fotos de sua
Rose Lane, sua
Gardenia Avenue.
será que terei de procurar outros
promulgadores?
aquele sujeito com o chapéu de pele
russo?
ou aquela peste do leste
com todos aqueles pelos
em seus ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor-publisher
tendo se retirado para o mundo de Trólios e
treliças
vai repassar a
maquinaria
de seu antigo ofício para um
primo, uma
filha ou
certo poundiano de Big
Sur?
ou será que ele vai simplesmente transmitir o legado
para o
Despachante
que vai se erguer como
Lázaro,
manejando recém-descoberta
importância?
podemos imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, todas as suas produções
deverão ser agora entregues em
formato rondó
e
datilografadas
com espaço triplo em papel
de arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo que
nos resta
é um
monte de
verrugas.
“não, não, Sr. Chinaski:
formato rondó!”
“ei, cara”, eu vou perguntar,
“você não ouviu falar dos
anos trinta?”
“os anos trinta? o que é
isso?”
meu atual editor-publisher
e eu
por vezes
de fato discutimos os anos trinta,
a Depressão
e
alguns dos pequenos truques que os trinta
nos ensinaram –
tipo como sobreviver com quase
nada
e seguir em frente
mesmo assim.
bem, John, se acontecer desfrute da sua
diversão em
desenvolver agricultura,
cultivar e arejar
entre
os arbustos, regar apenas no
início da manhã, espalhar
forração para desencorajar
o crescimento de ervas daninhas
e
como faço com a minha escrita:
usar bastante
esterco.
e obrigado
por me alojar lá na
5124 DeLongpre Avenue
em algum lugar entre
o alcoolismo e
a loucura.
juntos nós
atiramos a luva
e é possível
encontrar
quem aceite o desafio
inclusive nesta época tardia
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
964
Charles Bukowski
Carta do Norte
meu amigo escreve falando de rejeições e editores,
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
1 077
Charles Bukowski
o tortuoso bem de socorrer quem sofre
tendo ficado muito magro e nervoso
como um músico passando fome
alimentei-o bem
e ele ficou gordo
como um texano magnata do petróleo e não tão
nervoso
mas mesmo assim
esquisito.
adormecido na cama eu desperto
e seu nariz está tocando meu
nariz e aqueles
grandes olhos amarelos
SONDANDO
o que resta de minha alma
e aí eu digo -
Sai, desgraçado!
tira esse seu nariz do meu
nariz!
ronronando como uma aranha cheia de
moscas ele se afasta um
pouco.
eu estava na banheira ontem
e ele veio andando
pernas esticadas alto
cauda sacudindo
e eu ali
fumando um charuto e lendo a
NEW YORKER
e ele pulou na borda da
banheira
equilibrando-se sobre o marfim escorregadio
curvando-se
e eu disse a ele:
meu caro, o senhor é um gato e gatos
não gostam de água.
mas ele se voltou rumo às torneiras
e ficou pendurado ali com seus pés pretos
e a outra parte dele estava
de cabeça para baixo
farejando a água e a água estava
QUENTE e ele começou a bebê-la
a fina língua vermelha
acanhada e milagrosa
mergulhando na água quente
e ele continuou
farejando
tentando imaginar o que eu estava fazendo ali dentro
o que eu via de tão bom naquilo
e então aquele tolo branco e gordo
caiu na água! -
nós todos saímos dali
molhados e velozes;
gato, eu, charuto e NEW YORKER
salivando, soando, silvando, ensaboados
e minha esposa entrou correndo
MEU DEUS! O QUE ACONTECEU? O QUE ACONTECEU?
falei por entre meu charuto desemaranhado:
o cara não pode nem mesmo ter um pouco de privacidade
em sua própria banheira, foi isso!
ela somente riu de nós
e O gato sequer ficou zangado
ainda estava molhado e inchado
exceto pelo rabo
que agora parecia quase tão fino quanto um
rabo de rato e muito triste e
ele começou a se
lamber.
usei uma toalha,
então fui para o quarto
deitei na cama
e tentei encontrar meu lugar na
revista.
mas o bom humor estava desfeito
larguei a publicação de lado
e olhei para o teto
lá para o espaço onde Deus supostamente
estava
então escutei:
MIIIAuiAU!
o próximo gato desgarrado que aparecer na minha porta vai
continuar sendo um
desgarrado.
como um músico passando fome
alimentei-o bem
e ele ficou gordo
como um texano magnata do petróleo e não tão
nervoso
mas mesmo assim
esquisito.
adormecido na cama eu desperto
e seu nariz está tocando meu
nariz e aqueles
grandes olhos amarelos
SONDANDO
o que resta de minha alma
e aí eu digo -
Sai, desgraçado!
tira esse seu nariz do meu
nariz!
ronronando como uma aranha cheia de
moscas ele se afasta um
pouco.
eu estava na banheira ontem
e ele veio andando
pernas esticadas alto
cauda sacudindo
e eu ali
fumando um charuto e lendo a
NEW YORKER
e ele pulou na borda da
banheira
equilibrando-se sobre o marfim escorregadio
curvando-se
e eu disse a ele:
meu caro, o senhor é um gato e gatos
não gostam de água.
mas ele se voltou rumo às torneiras
e ficou pendurado ali com seus pés pretos
e a outra parte dele estava
de cabeça para baixo
farejando a água e a água estava
QUENTE e ele começou a bebê-la
a fina língua vermelha
acanhada e milagrosa
mergulhando na água quente
e ele continuou
farejando
tentando imaginar o que eu estava fazendo ali dentro
o que eu via de tão bom naquilo
e então aquele tolo branco e gordo
caiu na água! -
nós todos saímos dali
molhados e velozes;
gato, eu, charuto e NEW YORKER
salivando, soando, silvando, ensaboados
e minha esposa entrou correndo
MEU DEUS! O QUE ACONTECEU? O QUE ACONTECEU?
falei por entre meu charuto desemaranhado:
o cara não pode nem mesmo ter um pouco de privacidade
em sua própria banheira, foi isso!
ela somente riu de nós
e O gato sequer ficou zangado
ainda estava molhado e inchado
exceto pelo rabo
que agora parecia quase tão fino quanto um
rabo de rato e muito triste e
ele começou a se
lamber.
usei uma toalha,
então fui para o quarto
deitei na cama
e tentei encontrar meu lugar na
revista.
mas o bom humor estava desfeito
larguei a publicação de lado
e olhei para o teto
lá para o espaço onde Deus supostamente
estava
então escutei:
MIIIAuiAU!
o próximo gato desgarrado que aparecer na minha porta vai
continuar sendo um
desgarrado.
1 164
Charles Bukowski
Entrevistado por um Ganhador do Guggenheim
esse sul-americano ganhador de um Gugg
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
1 098
Charles Bukowski
Quatro e Meia da Manhã
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões,
e gatos sonhando
com passarinhos vermelhos
e estes sonhando com
minhocas,
e as minhocas sonhando
os ossos do
meu amor,
e eu não posso dormir,
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e dirão:
e vão procurar por mim
no estaleiro
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente,
no meio das garrafas e da
luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como
40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões,
e gatos sonhando
com passarinhos vermelhos
e estes sonhando com
minhocas,
e as minhocas sonhando
os ossos do
meu amor,
e eu não posso dormir,
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e dirão:
e vão procurar por mim
no estaleiro
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente,
no meio das garrafas e da
luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como
40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
1 335
Charles Bukowski
Já Vivi na Inglaterra
já vivi na Inglaterra
e já vivi no inferno,
mas talvez não haja nada tão horrível
como pegar a última revista literária
entupida com os últimos queridinhos,
K. ensina em L., M. está lançando
um segundo volume de poemas, O. foi
publicado nos melhores jornais, S. ganhou
uma bolsa para Paris -
e você segura as páginas
contra a luz do abajur
e mesmo assim
nada transparece.
é um problema, realmente,
muito mais do que quando num pique de 90 por um
aparece algum na pista no último momento
e cruza na frente.
um cavalo pode viver.
e você, de fato, espera encontrar
poesia
numa revista de poesia?
as coisas não são tão
simples.
e já vivi no inferno,
mas talvez não haja nada tão horrível
como pegar a última revista literária
entupida com os últimos queridinhos,
K. ensina em L., M. está lançando
um segundo volume de poemas, O. foi
publicado nos melhores jornais, S. ganhou
uma bolsa para Paris -
e você segura as páginas
contra a luz do abajur
e mesmo assim
nada transparece.
é um problema, realmente,
muito mais do que quando num pique de 90 por um
aparece algum na pista no último momento
e cruza na frente.
um cavalo pode viver.
e você, de fato, espera encontrar
poesia
numa revista de poesia?
as coisas não são tão
simples.
1 082
Charles Bukowski
A Geração Falida
era muito mais fácil ser gênio nos anos 20, havia
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
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Charles Bukowski
A Geração Falida
era muito mais fácil ser gênio nos anos 20, havia
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
865
Charles Bukowski
Comida de Cavalo
I
estaciono, saio, fecho o carro, é um dia perfeito, quente e fácil, me sinto bem, começo a caminhar para a entrada e um cara gordinho se aproxima, caminha a meu lado,
não sei de onde veio.
"oi", diz ele, "como vai indo?"
"ok", respondo.
ele diz "acho que você não se lembra de mim. você já me viu antes,
talvez duas ou três vezes".
"é possível", digo, "venho à pista diariamente."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
seguimos juntos e eu vou mais depressa, ele luta para me acompanhar.
"qual para você vai chegar em primeiro?", ele pergunta
respondo que ainda não vi o programa.
"onde você fica?", pergunta ele.
respondo que em lugares diferentes a cada vez que vou.
"este maldito Gilligan", diz ele, "é o pior jóquei da pista. perdi uma nota nele outro dia. por que deixam ele correr?"
digo a ele que Whittingham e Longden acham que ele é legal.
"claro, são amigos", responde. "sei uma coisa sobre o Gilligan. quer saber o que é?" digo a ele que deixe pra lá.
vamos nos aproximando da banca de jornais perto da entrada
e eu desguio para a esquerda como se fosse comprar um jornal.
"boa sorte", digo a ele, enquanto caio fora.
ele fica perplexo, os olhos como em estado de choque, me lembra
algumas mulheres que só se sentem seguras quando sentem o polegar de alguém
enfiado na bunda.
ele olha em torno, mira um velho grisalho que puxa
pela perna, investe, emparelha com ele e começa a conversar...
II
Estar sozinho sempre foi fundamental para mim. Numa época entrei numa fase quente de vencer todas, nas corridas. O dinheiro caía do céu. Algum sistema básico e simples estava dando certo comigo. Os cavalos se deslocavam e eu saía do meu trabalho e ia atrás deles até Del Mar.
Era uma vida boa. Eu ganhava todo dia, na pista. Tinha uma rotina. Depois da corrida parava na loja de bebidas para comprar minha meia garrafa de uísque, as seis cervejas e os charutos. Ai voltava para o carro e seguia pela praia até algum motel, estacionava, levava meu material par Jentro, tomava uma chuveirada, trocava de roupa, então sentava o rabo no carro e seguia pela praia de novo - agora em busca de um restaurante. E o que procurava era um restaurante vazio. (São os piores, eu sei.) Mas eu não gostava de multidões. Sempre achava um como queria. Entrava e fazia meu pedido.
Assim, naquela noite em particular, encontrei um lugar, entrei, sentei no balcão, fiz o pedido: bife com fritas, cerveja. Estava tudo bem. A garçonete não me chateou Mamei minha cerveja, pedi outra. Aí veio a comida. Arre, diabos, parecia ótima! Comecei Comi uns tantos bocados bem bons e aí a porta se abriu e entrou um cara. Tinha uns 14 bancos vazios no balcão
O cara veio e sentou ao meu lado.
"Oi, Dóris, como vão as coisas?"
"Ok, Eddie. E você?"
"Ótimo."
"Que é que vai ser, Eddie?"
"Oh, somente um café, eu acho..."
Dóris trouxe o café para Eddie.
"Acho que estou ficando de saco cheio..."
"Sempre problemas, hein, Eddie?"
"É, Dóris, agora é minha mulher que quer pratos novos."
"Você diz louça de casa?"
"Não, novas comidas!"
"Oh, Eddie, há, há, há!"
"Bem", disse Eddie, "uma desgraça nunca vem só!"
Peguei meu prato e minha cerveja, meu garfo, minha faca, minha colher, meu guardanapo, minha bunda e arrastei tudo para um compartimento bem longe dali.
Sentei e comecei de novo. E enquanto isso espiava Eddie e Dóris
Estavam cochichando. Aí Dóris olhou pra mim:
"Está tudo certo, senhor?"
"Agora", eu respondi, "está."
III
uma mexicana gorda na fila na minha frente
deposita seus últimos dois dólares tudo trocadinho:
em moedas variadas e níqueis
enquanto aposta no número errado.
vou à frente, aposto vinte na cabeça
e erro também enquanto um
peido de trovões explode no céu, seguido
por uma luz distante
pequenas gotas de chuva começam seu trabalho e nós
saímos para ver o último páreo:
doze montarias de três anos para mil e seiscentos metros,
que não venceram em dois páreos
rompem num jorro de cor e esperança
lutando pela posição na curva rápida
entrando na reta distante diante das encantadoras
montanhas
há uma chance para todo mundo
exceto para o cavalo 6 que rompe uma
pata dianteira e joga um milionário chamado Pincay no chão duro duro enquanto alguns dos pobres apostadores gemem por ele
outros não se importam
e uns poucos ficam secretamente deliciados.
a ambulância de pista circula no
sentido anti-horário
a corrida se desdobra e desdobra
com três cavalos em linha
na reta de chegada
o favorito cede lugar
fica para trás
e o segundo melhor junto com um que pagaria 26 por um
cruzam o disco como uma criatura de oito patas,
o ponto mais avançado na foto pertencendo
ao azarão.
quase todos nós rasgamos nossos bilhetes e começamos
nossa caminhada para o estacionamento e o que
mais nos reste
as gotas quentes de chuva aumentam
esfriam
tudo o que esperamos agora é que nossos carros
ainda estejam lá
enquanto Pincay recobra a consciência na
enfermaria e pergunta
"que diabos
aconteceu?"
estaciono, saio, fecho o carro, é um dia perfeito, quente e fácil, me sinto bem, começo a caminhar para a entrada e um cara gordinho se aproxima, caminha a meu lado,
não sei de onde veio.
"oi", diz ele, "como vai indo?"
"ok", respondo.
ele diz "acho que você não se lembra de mim. você já me viu antes,
talvez duas ou três vezes".
"é possível", digo, "venho à pista diariamente."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
seguimos juntos e eu vou mais depressa, ele luta para me acompanhar.
"qual para você vai chegar em primeiro?", ele pergunta
respondo que ainda não vi o programa.
"onde você fica?", pergunta ele.
respondo que em lugares diferentes a cada vez que vou.
"este maldito Gilligan", diz ele, "é o pior jóquei da pista. perdi uma nota nele outro dia. por que deixam ele correr?"
digo a ele que Whittingham e Longden acham que ele é legal.
"claro, são amigos", responde. "sei uma coisa sobre o Gilligan. quer saber o que é?" digo a ele que deixe pra lá.
vamos nos aproximando da banca de jornais perto da entrada
e eu desguio para a esquerda como se fosse comprar um jornal.
"boa sorte", digo a ele, enquanto caio fora.
ele fica perplexo, os olhos como em estado de choque, me lembra
algumas mulheres que só se sentem seguras quando sentem o polegar de alguém
enfiado na bunda.
ele olha em torno, mira um velho grisalho que puxa
pela perna, investe, emparelha com ele e começa a conversar...
II
Estar sozinho sempre foi fundamental para mim. Numa época entrei numa fase quente de vencer todas, nas corridas. O dinheiro caía do céu. Algum sistema básico e simples estava dando certo comigo. Os cavalos se deslocavam e eu saía do meu trabalho e ia atrás deles até Del Mar.
Era uma vida boa. Eu ganhava todo dia, na pista. Tinha uma rotina. Depois da corrida parava na loja de bebidas para comprar minha meia garrafa de uísque, as seis cervejas e os charutos. Ai voltava para o carro e seguia pela praia até algum motel, estacionava, levava meu material par Jentro, tomava uma chuveirada, trocava de roupa, então sentava o rabo no carro e seguia pela praia de novo - agora em busca de um restaurante. E o que procurava era um restaurante vazio. (São os piores, eu sei.) Mas eu não gostava de multidões. Sempre achava um como queria. Entrava e fazia meu pedido.
Assim, naquela noite em particular, encontrei um lugar, entrei, sentei no balcão, fiz o pedido: bife com fritas, cerveja. Estava tudo bem. A garçonete não me chateou Mamei minha cerveja, pedi outra. Aí veio a comida. Arre, diabos, parecia ótima! Comecei Comi uns tantos bocados bem bons e aí a porta se abriu e entrou um cara. Tinha uns 14 bancos vazios no balcão
O cara veio e sentou ao meu lado.
"Oi, Dóris, como vão as coisas?"
"Ok, Eddie. E você?"
"Ótimo."
"Que é que vai ser, Eddie?"
"Oh, somente um café, eu acho..."
Dóris trouxe o café para Eddie.
"Acho que estou ficando de saco cheio..."
"Sempre problemas, hein, Eddie?"
"É, Dóris, agora é minha mulher que quer pratos novos."
"Você diz louça de casa?"
"Não, novas comidas!"
"Oh, Eddie, há, há, há!"
"Bem", disse Eddie, "uma desgraça nunca vem só!"
Peguei meu prato e minha cerveja, meu garfo, minha faca, minha colher, meu guardanapo, minha bunda e arrastei tudo para um compartimento bem longe dali.
Sentei e comecei de novo. E enquanto isso espiava Eddie e Dóris
Estavam cochichando. Aí Dóris olhou pra mim:
"Está tudo certo, senhor?"
"Agora", eu respondi, "está."
III
uma mexicana gorda na fila na minha frente
deposita seus últimos dois dólares tudo trocadinho:
em moedas variadas e níqueis
enquanto aposta no número errado.
vou à frente, aposto vinte na cabeça
e erro também enquanto um
peido de trovões explode no céu, seguido
por uma luz distante
pequenas gotas de chuva começam seu trabalho e nós
saímos para ver o último páreo:
doze montarias de três anos para mil e seiscentos metros,
que não venceram em dois páreos
rompem num jorro de cor e esperança
lutando pela posição na curva rápida
entrando na reta distante diante das encantadoras
montanhas
há uma chance para todo mundo
exceto para o cavalo 6 que rompe uma
pata dianteira e joga um milionário chamado Pincay no chão duro duro enquanto alguns dos pobres apostadores gemem por ele
outros não se importam
e uns poucos ficam secretamente deliciados.
a ambulância de pista circula no
sentido anti-horário
a corrida se desdobra e desdobra
com três cavalos em linha
na reta de chegada
o favorito cede lugar
fica para trás
e o segundo melhor junto com um que pagaria 26 por um
cruzam o disco como uma criatura de oito patas,
o ponto mais avançado na foto pertencendo
ao azarão.
quase todos nós rasgamos nossos bilhetes e começamos
nossa caminhada para o estacionamento e o que
mais nos reste
as gotas quentes de chuva aumentam
esfriam
tudo o que esperamos agora é que nossos carros
ainda estejam lá
enquanto Pincay recobra a consciência na
enfermaria e pergunta
"que diabos
aconteceu?"
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Charles Bukowski
Comida de Cavalo
I
estaciono, saio, fecho o carro, é um dia perfeito, quente e fácil, me sinto bem, começo a caminhar para a entrada e um cara gordinho se aproxima, caminha a meu lado,
não sei de onde veio.
"oi", diz ele, "como vai indo?"
"ok", respondo.
ele diz "acho que você não se lembra de mim. você já me viu antes,
talvez duas ou três vezes".
"é possível", digo, "venho à pista diariamente."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
seguimos juntos e eu vou mais depressa, ele luta para me acompanhar.
"qual para você vai chegar em primeiro?", ele pergunta
respondo que ainda não vi o programa.
"onde você fica?", pergunta ele.
respondo que em lugares diferentes a cada vez que vou.
"este maldito Gilligan", diz ele, "é o pior jóquei da pista. perdi uma nota nele outro dia. por que deixam ele correr?"
digo a ele que Whittingham e Longden acham que ele é legal.
"claro, são amigos", responde. "sei uma coisa sobre o Gilligan. quer saber o que é?" digo a ele que deixe pra lá.
vamos nos aproximando da banca de jornais perto da entrada
e eu desguio para a esquerda como se fosse comprar um jornal.
"boa sorte", digo a ele, enquanto caio fora.
ele fica perplexo, os olhos como em estado de choque, me lembra
algumas mulheres que só se sentem seguras quando sentem o polegar de alguém
enfiado na bunda.
ele olha em torno, mira um velho grisalho que puxa
pela perna, investe, emparelha com ele e começa a conversar...
II
Estar sozinho sempre foi fundamental para mim. Numa época entrei numa fase quente de vencer todas, nas corridas. O dinheiro caía do céu. Algum sistema básico e simples estava dando certo comigo. Os cavalos se deslocavam e eu saía do meu trabalho e ia atrás deles até Del Mar.
Era uma vida boa. Eu ganhava todo dia, na pista. Tinha uma rotina. Depois da corrida parava na loja de bebidas para comprar minha meia garrafa de uísque, as seis cervejas e os charutos. Ai voltava para o carro e seguia pela praia até algum motel, estacionava, levava meu material par Jentro, tomava uma chuveirada, trocava de roupa, então sentava o rabo no carro e seguia pela praia de novo - agora em busca de um restaurante. E o que procurava era um restaurante vazio. (São os piores, eu sei.) Mas eu não gostava de multidões. Sempre achava um como queria. Entrava e fazia meu pedido.
Assim, naquela noite em particular, encontrei um lugar, entrei, sentei no balcão, fiz o pedido: bife com fritas, cerveja. Estava tudo bem. A garçonete não me chateou Mamei minha cerveja, pedi outra. Aí veio a comida. Arre, diabos, parecia ótima! Comecei Comi uns tantos bocados bem bons e aí a porta se abriu e entrou um cara. Tinha uns 14 bancos vazios no balcão
O cara veio e sentou ao meu lado.
"Oi, Dóris, como vão as coisas?"
"Ok, Eddie. E você?"
"Ótimo."
"Que é que vai ser, Eddie?"
"Oh, somente um café, eu acho..."
Dóris trouxe o café para Eddie.
"Acho que estou ficando de saco cheio..."
"Sempre problemas, hein, Eddie?"
"É, Dóris, agora é minha mulher que quer pratos novos."
"Você diz louça de casa?"
"Não, novas comidas!"
"Oh, Eddie, há, há, há!"
"Bem", disse Eddie, "uma desgraça nunca vem só!"
Peguei meu prato e minha cerveja, meu garfo, minha faca, minha colher, meu guardanapo, minha bunda e arrastei tudo para um compartimento bem longe dali.
Sentei e comecei de novo. E enquanto isso espiava Eddie e Dóris
Estavam cochichando. Aí Dóris olhou pra mim:
"Está tudo certo, senhor?"
"Agora", eu respondi, "está."
III
uma mexicana gorda na fila na minha frente
deposita seus últimos dois dólares tudo trocadinho:
em moedas variadas e níqueis
enquanto aposta no número errado.
vou à frente, aposto vinte na cabeça
e erro também enquanto um
peido de trovões explode no céu, seguido
por uma luz distante
pequenas gotas de chuva começam seu trabalho e nós
saímos para ver o último páreo:
doze montarias de três anos para mil e seiscentos metros,
que não venceram em dois páreos
rompem num jorro de cor e esperança
lutando pela posição na curva rápida
entrando na reta distante diante das encantadoras
montanhas
há uma chance para todo mundo
exceto para o cavalo 6 que rompe uma
pata dianteira e joga um milionário chamado Pincay no chão duro duro enquanto alguns dos pobres apostadores gemem por ele
outros não se importam
e uns poucos ficam secretamente deliciados.
a ambulância de pista circula no
sentido anti-horário
a corrida se desdobra e desdobra
com três cavalos em linha
na reta de chegada
o favorito cede lugar
fica para trás
e o segundo melhor junto com um que pagaria 26 por um
cruzam o disco como uma criatura de oito patas,
o ponto mais avançado na foto pertencendo
ao azarão.
quase todos nós rasgamos nossos bilhetes e começamos
nossa caminhada para o estacionamento e o que
mais nos reste
as gotas quentes de chuva aumentam
esfriam
tudo o que esperamos agora é que nossos carros
ainda estejam lá
enquanto Pincay recobra a consciência na
enfermaria e pergunta
"que diabos
aconteceu?"
estaciono, saio, fecho o carro, é um dia perfeito, quente e fácil, me sinto bem, começo a caminhar para a entrada e um cara gordinho se aproxima, caminha a meu lado,
não sei de onde veio.
"oi", diz ele, "como vai indo?"
"ok", respondo.
ele diz "acho que você não se lembra de mim. você já me viu antes,
talvez duas ou três vezes".
"é possível", digo, "venho à pista diariamente."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
seguimos juntos e eu vou mais depressa, ele luta para me acompanhar.
"qual para você vai chegar em primeiro?", ele pergunta
respondo que ainda não vi o programa.
"onde você fica?", pergunta ele.
respondo que em lugares diferentes a cada vez que vou.
"este maldito Gilligan", diz ele, "é o pior jóquei da pista. perdi uma nota nele outro dia. por que deixam ele correr?"
digo a ele que Whittingham e Longden acham que ele é legal.
"claro, são amigos", responde. "sei uma coisa sobre o Gilligan. quer saber o que é?" digo a ele que deixe pra lá.
vamos nos aproximando da banca de jornais perto da entrada
e eu desguio para a esquerda como se fosse comprar um jornal.
"boa sorte", digo a ele, enquanto caio fora.
ele fica perplexo, os olhos como em estado de choque, me lembra
algumas mulheres que só se sentem seguras quando sentem o polegar de alguém
enfiado na bunda.
ele olha em torno, mira um velho grisalho que puxa
pela perna, investe, emparelha com ele e começa a conversar...
II
Estar sozinho sempre foi fundamental para mim. Numa época entrei numa fase quente de vencer todas, nas corridas. O dinheiro caía do céu. Algum sistema básico e simples estava dando certo comigo. Os cavalos se deslocavam e eu saía do meu trabalho e ia atrás deles até Del Mar.
Era uma vida boa. Eu ganhava todo dia, na pista. Tinha uma rotina. Depois da corrida parava na loja de bebidas para comprar minha meia garrafa de uísque, as seis cervejas e os charutos. Ai voltava para o carro e seguia pela praia até algum motel, estacionava, levava meu material par Jentro, tomava uma chuveirada, trocava de roupa, então sentava o rabo no carro e seguia pela praia de novo - agora em busca de um restaurante. E o que procurava era um restaurante vazio. (São os piores, eu sei.) Mas eu não gostava de multidões. Sempre achava um como queria. Entrava e fazia meu pedido.
Assim, naquela noite em particular, encontrei um lugar, entrei, sentei no balcão, fiz o pedido: bife com fritas, cerveja. Estava tudo bem. A garçonete não me chateou Mamei minha cerveja, pedi outra. Aí veio a comida. Arre, diabos, parecia ótima! Comecei Comi uns tantos bocados bem bons e aí a porta se abriu e entrou um cara. Tinha uns 14 bancos vazios no balcão
O cara veio e sentou ao meu lado.
"Oi, Dóris, como vão as coisas?"
"Ok, Eddie. E você?"
"Ótimo."
"Que é que vai ser, Eddie?"
"Oh, somente um café, eu acho..."
Dóris trouxe o café para Eddie.
"Acho que estou ficando de saco cheio..."
"Sempre problemas, hein, Eddie?"
"É, Dóris, agora é minha mulher que quer pratos novos."
"Você diz louça de casa?"
"Não, novas comidas!"
"Oh, Eddie, há, há, há!"
"Bem", disse Eddie, "uma desgraça nunca vem só!"
Peguei meu prato e minha cerveja, meu garfo, minha faca, minha colher, meu guardanapo, minha bunda e arrastei tudo para um compartimento bem longe dali.
Sentei e comecei de novo. E enquanto isso espiava Eddie e Dóris
Estavam cochichando. Aí Dóris olhou pra mim:
"Está tudo certo, senhor?"
"Agora", eu respondi, "está."
III
uma mexicana gorda na fila na minha frente
deposita seus últimos dois dólares tudo trocadinho:
em moedas variadas e níqueis
enquanto aposta no número errado.
vou à frente, aposto vinte na cabeça
e erro também enquanto um
peido de trovões explode no céu, seguido
por uma luz distante
pequenas gotas de chuva começam seu trabalho e nós
saímos para ver o último páreo:
doze montarias de três anos para mil e seiscentos metros,
que não venceram em dois páreos
rompem num jorro de cor e esperança
lutando pela posição na curva rápida
entrando na reta distante diante das encantadoras
montanhas
há uma chance para todo mundo
exceto para o cavalo 6 que rompe uma
pata dianteira e joga um milionário chamado Pincay no chão duro duro enquanto alguns dos pobres apostadores gemem por ele
outros não se importam
e uns poucos ficam secretamente deliciados.
a ambulância de pista circula no
sentido anti-horário
a corrida se desdobra e desdobra
com três cavalos em linha
na reta de chegada
o favorito cede lugar
fica para trás
e o segundo melhor junto com um que pagaria 26 por um
cruzam o disco como uma criatura de oito patas,
o ponto mais avançado na foto pertencendo
ao azarão.
quase todos nós rasgamos nossos bilhetes e começamos
nossa caminhada para o estacionamento e o que
mais nos reste
as gotas quentes de chuva aumentam
esfriam
tudo o que esperamos agora é que nossos carros
ainda estejam lá
enquanto Pincay recobra a consciência na
enfermaria e pergunta
"que diabos
aconteceu?"
1 179
Charles Bukowski
Que Fazer com os Exemplares do Autor?
(Prezado Senhor: Embora reconheçamos que seja pagamento insuficiente por seus poemas, o senhor receberá 4 exemplares diutor que lhe serão enviados pessoalmente ou para quem o senhor queira. - Nota do Editor.)
bem, é melhor mandar um para M.S. ou então ela provavelmente vai
meter o rabo no forno, ela pensa que é durona, e provavelmente é, com os diabos, nem quero saber
e depois vem C. W, que não responde sua correspondência mas está muito ocupado ensinando aos rapazes como escrever e eu sei que ele tem andado por lugares importantes e sendo assim
mandem um para ele...
Palm Springs
e depois tem a minha velha tia lá em
só dinheiro
e eu tenho tudo menos dinheiro... talento, uma boa voz para cantar, uma esquerda que vai lá dentro das tripas... mandem um exemplar pra ela,
ela desligou na minha cara na última vez que liguei pra ela de porre,
e dizendo que estava com problemas, ela desligou na minha cara...
e aí tem aquela menina em Sacramento que me escreve essas cartinhas... puta muito deprimida, batida e mexida como massa de bolo, expondo grandes lances de abertura intelectual que eu ignoro, mas mandem uma revista pra ela,
en lieu de um vibrador.
já são 4?
espero mandar pra vocês mais alguns poemas logo, porque acho que as pessoas que publicam meus poemas são meio loucas, mas tudo bem, eu também sou
seja como for ---
Espero,
nesse interim
que vocês não desistam
antes
que eu
desista.
c.b.
bem, é melhor mandar um para M.S. ou então ela provavelmente vai
meter o rabo no forno, ela pensa que é durona, e provavelmente é, com os diabos, nem quero saber
e depois vem C. W, que não responde sua correspondência mas está muito ocupado ensinando aos rapazes como escrever e eu sei que ele tem andado por lugares importantes e sendo assim
mandem um para ele...
Palm Springs
e depois tem a minha velha tia lá em
só dinheiro
e eu tenho tudo menos dinheiro... talento, uma boa voz para cantar, uma esquerda que vai lá dentro das tripas... mandem um exemplar pra ela,
ela desligou na minha cara na última vez que liguei pra ela de porre,
e dizendo que estava com problemas, ela desligou na minha cara...
e aí tem aquela menina em Sacramento que me escreve essas cartinhas... puta muito deprimida, batida e mexida como massa de bolo, expondo grandes lances de abertura intelectual que eu ignoro, mas mandem uma revista pra ela,
en lieu de um vibrador.
já são 4?
espero mandar pra vocês mais alguns poemas logo, porque acho que as pessoas que publicam meus poemas são meio loucas, mas tudo bem, eu também sou
seja como for ---
Espero,
nesse interim
que vocês não desistam
antes
que eu
desista.
c.b.
1 055
Charles Bukowski
Poema de Amor
lugar nenhum e meio
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
1 155
Charles Bukowski
retrato de uma alma para moscas
ele é um homem com camisa de baixo usadíssima de desbotada
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade
há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?
os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço
eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo
um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -
o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos
Winston Churchill
com cérebro de criança
cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais
mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado
"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."
30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda
ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:
cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes
ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."
"ah, só as coisas boas."
"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"
"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."
"alimente o gato."
"tá."
na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
EDIÇÃO EXCLUSIVA MEUS MELHORES CUMPRIMENTOS
GENE COLE INTERMISSION MAGAZINE
3212 NORTH BROADWAY
CHICAGO
ILL
"alguém morreu?"
ele passa para ela
o telegrama
"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"
"ninguém. outros geni."
"ah. bem, alimente o gato."
então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade
há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?
os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço
eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo
um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -
o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos
Winston Churchill
com cérebro de criança
cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais
mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado
"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."
30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda
ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:
cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes
ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."
"ah, só as coisas boas."
"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"
"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."
"alimente o gato."
"tá."
na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
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ILL
"alguém morreu?"
ele passa para ela
o telegrama
"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"
"ninguém. outros geni."
"ah. bem, alimente o gato."
então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
1 141
Charles Bukowski
retrato de uma alma para moscas
ele é um homem com camisa de baixo usadíssima de desbotada
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade
há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?
os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço
eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo
um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -
o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos
Winston Churchill
com cérebro de criança
cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais
mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado
"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."
30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda
ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:
cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes
ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."
"ah, só as coisas boas."
"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"
"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."
"alimente o gato."
"tá."
na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
EDIÇÃO EXCLUSIVA MEUS MELHORES CUMPRIMENTOS
GENE COLE INTERMISSION MAGAZINE
3212 NORTH BROADWAY
CHICAGO
ILL
"alguém morreu?"
ele passa para ela
o telegrama
"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"
"ninguém. outros geni."
"ah. bem, alimente o gato."
então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade
há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?
os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço
eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo
um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -
o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos
Winston Churchill
com cérebro de criança
cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais
mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado
"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."
30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda
ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:
cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes
ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."
"ah, só as coisas boas."
"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"
"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."
"alimente o gato."
"tá."
na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
EDIÇÃO EXCLUSIVA MEUS MELHORES CUMPRIMENTOS
GENE COLE INTERMISSION MAGAZINE
3212 NORTH BROADWAY
CHICAGO
ILL
"alguém morreu?"
ele passa para ela
o telegrama
"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"
"ninguém. outros geni."
"ah. bem, alimente o gato."
então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
1 141
Charles Bukowski
Noite de Vento
eles sorriem e trazem a comida
sorriem e se curvam
enquanto um pequeno tufão aturde
os cegos
e o íbis escarlate aparece
e dança no esterco
em meu prato
eu não estou mesmo com fome
Leda, Tyndareus, Clytemnestra,
Castor, Pollux ou quem mais seja
que eu conheça não
comia essa porcaria.
peço uma sacola pra comida de cachorro.
ele sorriem e derramam a comida
dentro.
mais tarde, em minha cozinha,
divido a comida nos pratos,
ponho tudo no chão
enquanto os meus três gatos ficam imóveis
olhando pra mim
e eu pergunto: "O que é que há?
O que é que há? Comam!”
com a ventania
os galhos batem no vidro da janela
enquanto apago a luz da
cozinha
e vou para a sala
ligo a TV
bem na hora em que um guarda atira num
homem no alto de uma escada de incêndio
e ele cai e cai
e se esborracha na
rua:
esse nunca mais vai ter que comer
camarão Szechwan com ervilha chinesa
na vida.
sorriem e se curvam
enquanto um pequeno tufão aturde
os cegos
e o íbis escarlate aparece
e dança no esterco
em meu prato
eu não estou mesmo com fome
Leda, Tyndareus, Clytemnestra,
Castor, Pollux ou quem mais seja
que eu conheça não
comia essa porcaria.
peço uma sacola pra comida de cachorro.
ele sorriem e derramam a comida
dentro.
mais tarde, em minha cozinha,
divido a comida nos pratos,
ponho tudo no chão
enquanto os meus três gatos ficam imóveis
olhando pra mim
e eu pergunto: "O que é que há?
O que é que há? Comam!”
com a ventania
os galhos batem no vidro da janela
enquanto apago a luz da
cozinha
e vou para a sala
ligo a TV
bem na hora em que um guarda atira num
homem no alto de uma escada de incêndio
e ele cai e cai
e se esborracha na
rua:
esse nunca mais vai ter que comer
camarão Szechwan com ervilha chinesa
na vida.
1 274
Charles Bukowski
eu nem sempre odeio o gato que mata o pássaro, só o gato que me mata...
amiga lua, amigo gato, vocês não pedem nada de misericórdia ou
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
1 061
Charles Bukowski
eu nem sempre odeio o gato que mata o pássaro, só o gato que me mata...
amiga lua, amigo gato, vocês não pedem nada de misericórdia ou
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
1 061
Charles Bukowski
Falando a Minha Caixa de Correio...
menino, não venha me dizendo que você
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.
menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.
menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.
menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.
menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.
isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.
menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.
menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.
menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.
menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.
isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.
1 156
Charles Bukowski
Treinando para Kid Aztec
eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 115
Charles Bukowski
Poema nos Meus 43 Anos
Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
1 183