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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Abrace a Escuridão

o verdadeiro deus é a desordem
o verdadeiro deus é a loucura
viver em paz permanente é
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.

Eu me recostava no balcão do bar Musso’s. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Musso’s, do bar como bar, mas não da sala onde ficava. Era conhecido como “Sala Nova”. A “Sala Velha” ficava do outro lado, e eu preferia comer lá. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia à Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal “Ainda não”, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lá eram de má reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussões aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava às damas o dinheiro do táxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do táxi em táxis. Mas uma das coisas mais legais do Musso’s era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
– Chinaski, como vai você?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
– Estou bem – disse. – Posso te pagar uma bebida?
– Não, obrigado. Não nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
– Oh, sim. Jon me disse que você estava pensando em...
– É, quero financiar seu argumento. Li sua obra. Você tem um maravilhoso senso de diálogo. Li sua obra: muito cinematográfica.
– Tem certeza de que não quer um drinque?
– Não, preciso voltar pra minha mesa.
– Ah, é? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
– Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
– É? Como se chama?
– A Canção do Coração.
Tomei um gole.
– Ei, espere um minuto! Você está brincando! Não vai chamar o filme de A Canção do Coração.
– Oh, sim, é assim que vai se chamar.
Ele sorria.
– Você não pode me enrolar, Pheasant. É mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
– Não – ele disse. – Estou falando sério.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
– De que está rindo?
– Me deixa pedir um drinque pra você que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
– Adivinha quem eu vi na Sala Velha – ela disse.
– Quem?
– Jonathan Winters.
– Ééé? Adivinha com quem conversei enquanto você estava lá.
– Uma de suas ex-putas.
– Não, não. Pior.
– Não tem nada pior que elas.
– Conversei com Harold Pheasant.
– O produtor?
– É, está ali naquela mesa do canto.
– Oh, estou vendo!
– Não, não olhe. Não acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
– Que diabos deu em você?
– Sabe, ele é o produtor que ia produzir o argumento que eu não escrevi.
– Eu sei.
– Quando você saiu ele veio conversar comigo.
– Já disse isso.
– Não aceitou nem um drinque.
– Então você fodeu tudo e não está nem bêbado.
– Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
– Como foi que você fodeu tudo?
– Eu não fodi nada. Ele fodeu.
– Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas não no espelho. Não tinha aquela aparência. Acabei meu drinque.
– Acabe seu drinque – disse.
Ela acabou.
– Conta pra mim.
– É a segunda vez que você diz: “Conta pra mim”.
– Memória notável, e nem está bêbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
– Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. É sobre um escritor que não sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peão de rodeio.
– Quem?
– Mack Derouac.
– E isso chateou você?
– Não, isso não importa. Estava ótimo, até ele me dizer o título do filme.
– Que era?
– Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. É absolutamente idiota.
– Diz pra mim.
– Tá legal...
O espelho ainda estava lá.
– Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
– Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
– Eu gosto.
– Eu não gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
– Você deve ir lá se desculpar.
– De jeito nenhum. Título horrendo.
– Você queria era que o filme fosse sobre você.
– É isso aí! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
– Já tem o título?
– Já: Moscas no Destroço Peludo.
– Vamos sair daqui.
Com essa, saímos.
– Hollywood
1 562
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Abrace a Escuridão

o verdadeiro deus é a desordem
o verdadeiro deus é a loucura
viver em paz permanente é
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.

Eu me recostava no balcão do bar Musso’s. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Musso’s, do bar como bar, mas não da sala onde ficava. Era conhecido como “Sala Nova”. A “Sala Velha” ficava do outro lado, e eu preferia comer lá. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia à Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal “Ainda não”, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lá eram de má reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussões aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava às damas o dinheiro do táxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do táxi em táxis. Mas uma das coisas mais legais do Musso’s era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
– Chinaski, como vai você?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
– Estou bem – disse. – Posso te pagar uma bebida?
– Não, obrigado. Não nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
– Oh, sim. Jon me disse que você estava pensando em...
– É, quero financiar seu argumento. Li sua obra. Você tem um maravilhoso senso de diálogo. Li sua obra: muito cinematográfica.
– Tem certeza de que não quer um drinque?
– Não, preciso voltar pra minha mesa.
– Ah, é? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
– Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
– É? Como se chama?
– A Canção do Coração.
Tomei um gole.
– Ei, espere um minuto! Você está brincando! Não vai chamar o filme de A Canção do Coração.
– Oh, sim, é assim que vai se chamar.
Ele sorria.
– Você não pode me enrolar, Pheasant. É mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
– Não – ele disse. – Estou falando sério.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
– De que está rindo?
– Me deixa pedir um drinque pra você que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
– Adivinha quem eu vi na Sala Velha – ela disse.
– Quem?
– Jonathan Winters.
– Ééé? Adivinha com quem conversei enquanto você estava lá.
– Uma de suas ex-putas.
– Não, não. Pior.
– Não tem nada pior que elas.
– Conversei com Harold Pheasant.
– O produtor?
– É, está ali naquela mesa do canto.
– Oh, estou vendo!
– Não, não olhe. Não acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
– Que diabos deu em você?
– Sabe, ele é o produtor que ia produzir o argumento que eu não escrevi.
– Eu sei.
– Quando você saiu ele veio conversar comigo.
– Já disse isso.
– Não aceitou nem um drinque.
– Então você fodeu tudo e não está nem bêbado.
– Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
– Como foi que você fodeu tudo?
– Eu não fodi nada. Ele fodeu.
– Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas não no espelho. Não tinha aquela aparência. Acabei meu drinque.
– Acabe seu drinque – disse.
Ela acabou.
– Conta pra mim.
– É a segunda vez que você diz: “Conta pra mim”.
– Memória notável, e nem está bêbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
– Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. É sobre um escritor que não sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peão de rodeio.
– Quem?
– Mack Derouac.
– E isso chateou você?
– Não, isso não importa. Estava ótimo, até ele me dizer o título do filme.
– Que era?
– Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. É absolutamente idiota.
– Diz pra mim.
– Tá legal...
O espelho ainda estava lá.
– Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
– Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
– Eu gosto.
– Eu não gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
– Você deve ir lá se desculpar.
– De jeito nenhum. Título horrendo.
– Você queria era que o filme fosse sobre você.
– É isso aí! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
– Já tem o título?
– Já: Moscas no Destroço Peludo.
– Vamos sair daqui.
Com essa, saímos.
– Hollywood
1 562
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Confissão

à espera da morte
como um gato
que saltará sobre a
cama
sinto terrivelmente por
minha esposa
ela verá este
corpo
duro e
branco
vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:
“Hank!”
Hank não
responderá.
não é minha morte o que
me preocupa, é minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.
quero
no entanto
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado
que mesmo as discussões
inúteis
sempre foram
esplêndidas
e que as palavras
difíceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.

Chegamos um pouco atrasados para a festa, mas ainda não havia muita gente. Victor Norman sentava-se a algumas mesas da nossa. Depois que Sarah e eu nos sentamos, apareceu o garçom com nosso vinho. Vinho branco. Bem, era de graça.
Esvaziei meu copo e fiz sinal com a cabeça, chamando o garçom para tornar a enchê-lo.
Percebi que Victor me observava.
O pessoal ia chegando aos poucos. Vi o famoso ator do bronzeado perpétuo. Soubera que ele ia a quase todas as festas de Hollywood, em toda parte.
Sarah me deu uma cutucada. Era Jim Serry, o velho guru da droga da década de 60. Também ele ia a muitas festas. Parecia cansado, triste, esgotado. Senti pena dele. Ia de mesa em mesa. Chegou à nossa. Sarah deu um sorriso de prazer. Era uma filha dos anos 60. Apertei a mão dele.
– Oi, baby – eu disse.
A casa começava a lotar rapidamente. Eu não conhecia a maioria das pessoas. Acenava constantemente ao garçom para trazer mais vinho. Ele terminou trazendo uma garrafa inteira, e a pôs na mesa.
– Quando acabarem essa, trago outra.
– Obrigado, cara...
Sarah embrulhara um presentinho para Harry Friedman. Eu o tinha no colo.
Jon chegou e sentou-se à nossa mesa.
– Estou feliz por você e Sarah terem podido vir – disse. – Veja, está enchendo, este lugar está cheio de gângsters e matadores, os piores!
Ele adorava aquilo. Tinha alguma imaginação. Isso o ajudava a atravessar os dias e as noites.
Então surgiu um sujeito de aparência muito importante. Ouvi alguns aplausos.
Saltei de pé com o presente de aniversário. Me aproximei dele.
– Sr. Friedman, feliz...
Jon correu a me agarrar por detrás. Me puxou de volta à mesa.
– Não! Não! Esse não é Friedman! É o Fischman!
– Oh...
Sentei-me.
Notei Victor Norman me observando. Imaginei que desistisse dentro de pouco tempo. Quando tornei a olhar, ele ainda me encarava. Me olhava como se não acreditasse nos próprios olhos.
– Tudo bem, Victor – eu gritei –, e daí se eu faço cocô nas calças? Quer fazer disso uma Guerra Mundial?
Ele desviou o olhar.
Eu me levantei e procurei o banheiro dos homens.
Ao sair de lá, me perdi e entrei na cozinha. Encontrei um ajudante de garçom fumando um cigarro. Meti a mão na carteira e puxei uma nota de dez dólares. Coloquei-a no bolso da camisa dele.
– Não posso aceitar, senhor.
– Por que não?
– Não posso.
– Todo mundo recebe gorjetas. Por que não o ajudante de garçom? Eu sempre quis ser um ajudante de garçom.
Afastei-me, tornei a encontrar a sala principal e a mesa.
Quando me sentei, Sarah se curvou para mim e sussurrou:
– Victor Norman veio aqui quando você saiu. Disse que foi muito legal de você não falar nada da literatura dele.
– Fui bom, não fui, Sarah?
– Foi.
– Não fui um bom menino?
– Foi.
Olhei para Victor Norman, atraindo sua atenção. Fiz-lhe um aceno de cabeça, pisquei o olho.
Nesse momento entrava o verdadeiro Harry Friedman. Algumas pessoas se levantaram e aplaudiram. Outras pareciam entediadas.
Friedman sentou-se à sua mesa e serviu-se de comida. Massa. A massa correu a roda. Harry Friedman recebeu a sua e atacou-a logo. Parecia um bom garfo. Era largo, sem dúvida. Usava um terno velho, os sapatos gastos. Cabeça grande, bochechudo. Enfiava a massa naquelas bochechas. Tinha grandes olhos redondos, olhos tristes e cheios de desconfiança. Ai, viver no mundo! Faltava um botão da camisa branca amassada, perto da barriga, que se estufava para fora. Parecia um bebezão que de algum modo se soltara, crescera depressa e quase se tornara um homem. Tinha charme, mas podia ser perigoso acreditar naquele charme – ele seria usado contra a gente. Não usava gravata. Feliz aniversário, Harry Friedman!
Surgiu uma jovem vestida de policial. Encaminhou-se diretamente para a mesa dele.
– VOCÊ ESTÁ PRESO! – gritou.
Harry Friedman parou de comer e sorriu, os lábios molhados de massa.
A policial tirou o casaco e a blusa. Tinha seios enormes. Balançou-os debaixo do nariz de Harry Friedman.
– VOCÊ ESTÁ PRESO – gritou.
Todo mundo aplaudiu. Não sei por quê.
Friedman fez sinal à policial para que se abaixasse. Ela se abaixou e ele sussurrou-lhe alguma coisa no ouvido. Ninguém soube o que era.
Me leve pra sua casa. Vamos ver o que acontece?
Esqueceu seu cassetete. Cuido disso? Você vem me ver. Te levo no cinema?
A policial tornou a vestir a blusa, o casaco, e se mandou.
As pessoas aproximavam-se da mesa de Friedman e diziam-lhe coisinhas. Ele as olhava como se não soubesse quem eram. Em breve acabara de comer e bebia vinho. Manejava bem o vinho. Gostei disso.
Realmente tinha um fraco por vinho. Depois de algum tempo, saiu de mesa em mesa, curvando-se, falando com as pessoas.
– Nossa – eu disse a Sarah –, veja só aquilo!
– Quê?
– Ele está com um pedaço de massa num dos cantos da boca e ninguém lhe diz nada. Está ali pendurado!
– Estou vendo! Estou vendo! – disse Jon.
Harry Friedman continuava indo de mesa em mesa, curvando-se, falando. Ninguém o avisava.
Finalmente, ele se aproximou. Estava mais ou menos a uma mesa da nossa quando eu me levantei e me aproximei dele.
– Sr. Friedman – disse.
Ele me olhou com aquele rosto de bebê monstruoso.
– Sim?
– Fique parado.
Estendi a mão, peguei o fiapo de massa e puxei. A coisa se soltou.
– O senhor estava andando por aí com isso pendurado. Eu não aguentava mais.
– Obrigado – ele disse.
Voltei pra minha mesa.
– Bem, bem – perguntou Jon –, que acha dele?
– Acho ele um encanto.
– Eu te disse. Não conheci ninguém como ele depois de Lido Mamin...
– De qualquer modo – disse Sarah –, foi bacana da sua parte tirar a massa da cara dele, já que ninguém mais tinha coragem de fazer isso. Foi muito bacana.
– Obrigado, eu sou um cara muito bacana, na verdade.
– Oh, é? Que mais você fez de bacana ultimamente?
Nossa garrafa de vinho estava vazia. Chamei o garçom. Ele franziu o cenho para mim e adiantou-se com outra garrafa.
E não consegui pensar em nada bacana que tivesse feito. Ultimamente.
– Hollywood
1 340
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Arte

assim que o
espírito
míngua
a
forma
aparece.

E então, de repente, os 32 dias de filmagem terminaram e chegou a hora da festa de encerramento.
No primeiro andar havia um longo balcão de bar, algumas mesas e uma grande pista de dança. Uma escada levava a um andar superior. Essencialmente, lá estavam a equipe e o elenco do filme, embora nem todos estivessem e houvesse outras pessoas que eu não reconhecia. Não tinha orquestra ao vivo e grande parte da música que saía dos alto-falantes era discoteca, mas as bebidas no bar eram reais. Sarah e eu entramos. Havia duas garçonetes. Eu pedi uma vodca e ela vinho tinto.
Uma das garçonetes me reconheceu e trouxe um dos meus livros. Dei o autógrafo.
Estava lotado e quente ali dentro, uma noite de verão, sem ar-condicionado.
– Vamos pegar outra bebida e subir lá pra cima – sugeri a Sarah. – Está quente demais aqui embaixo.
– Tudo bem – ela disse.
Abrimos caminho até a escada. Estava mais frio lá em cima e não havia tanta gente. Algumas pessoas dançavam. Como festa, aquela parecia não ter um núcleo, mas a maioria das festas era assim mesmo. Comecei a ficar deprimido. Acabei minha bebida...
– Vou pedir outro drinque – disse a Sarah. – Quer um?
– Não, vá em frente...
Desci a escada, mas antes de conseguir chegar ao bar um cara gordo e redondo, muito cabeludo, óculos escuros, agarrou minha mão e começou a sacudi-la.
– Chinaski, eu li tudo que você já escreveu, tudo!
– É mesmo?
Ele continuava me sacudindo a mão.
– Tomei um porre com você uma noite no Barney’s Beanery! Lembra de mim?
– Não.
– Está dizendo que não se lembra de que tomou um porre comigo no Barney’s Beanery?
– É.
Ele ergueu os óculos e prendeu-os no alto da cabeça.
– Agora se lembra?
– Não – eu disse, puxei a mão e fui para o bar.
– Vodca dupla – disse à garçonete.
Ela trouxe.
– Eu tenho uma amiga chamada Lola – disse. – Conhece?
– Não.
– Ela diz que foi casada com você dois anos.
– Não é verdade – eu disse.
Deixei o bar, me dirigi à escada. Lá estava outro cara gordão, sem cabelos mas com uma grande barba.
– Chinaski – ele disse.
– Sim.
– André Wells... Eu fiz uma ponta no filme... Também sou escritor... Tenho um romance pronto pra publicar. Gostaria que você lesse. Posso te enviar uma cópia?
– Tudo bem... – Dei-lhe o número de minha caixa postal.
– Mas não tem endereço próprio?
– Claro, mas correspondência é com a caixa postal.
Encaminhei-me para a escada. Bebi metade de meu drinque subindo os degraus. Sarah conversava com uma extra. Aí vi Jon Pinchot. Estava parado sozinho com seu copo. Fui até ele.
– Hank – ele disse –, estou surpreso de ver você aqui...
– E eu estou surpreso de a Firepower ter bancado a festa.
– Estão cobrando...
– Oh... Bem, e agora?
– Estamos na sala de montagem, trabalhando na coisa... Depois disso, mixamos a música... Por que não vem ver como se faz?
– Quando?
– Qualquer hora. Estamos trabalhando de 12 a 14 horas por dia.
– Tudo bem... Escuta, que aconteceu com Poppy?
– Quem?
– Aquela que entrou com os dez mil paus quando você morava lá embaixo, na praia.
– Oh, está no Brasil agora. A gente cuida dela.
Acabei meu drinque.
– Não vai descer e dançar? – perguntou Jon.
– Oh, não, isso é bobagem...
Alguém o chamou.
– Desculpe – ele disse –, e não esqueça de aparecer na sala de montagem.
– Claro.
Jon afastou-se para o outro lado do salão.
Dirigi-me à balaustrada e olhei o bar lá embaixo. Enquanto conversava com Jon, Jack Bledsoe e seus companheiros motoqueiros haviam chegado. Os companheiros recostavam-se no balcão do bar, de frente para a multidão. Todos seguravam uma garrafa de cerveja, com exceção de Jack, que tinha uma garrafa de 7-Up. Usavam blusões de couro, echarpes, calças de couro, botas.
Aproximei-me de Sarah.
– Vou descer e falar com Jack Bledsoe e sua gangue... Você vem?
– Claro...
Descemos e Jack nos apresentou os companheiros.
– Este é o Harry Cassetete...
– Oi, cara...
– Este é o Flagelo.
– Oi...
– Este é o Verme da Noite...
– Ei, ei!
– Este é o Mata-cachorro...
– É demais!
– Este é Eddie 3-Bagos...
– Porra...
– Este é Peido-Rápido...
– Prazer em conhecê-lo...
– E o Terror das Xoxotas...
– Ééé...
E foi isso aí. Todos pareciam ótimos praças, mas um pouco teatrais, recostados no balcão, segurando as garrafas de cerveja.
– Jack – eu disse –, você fez um grande trabalho de ator.
– E como! – disse Sarah.
– Obrigado... – ele lampejou seu belo sorriso.
– Bem – eu disse –, vamos voltar lá pra cima, está quente pra caralho aqui embaixo... Por que não dá uma subida?
Fiz sinal à garçonete para tornar a encher nossos copos.
– Vai escrever outro argumento? – perguntou Jack.
– Acho que não... É muita perda de intimidade... Eu gosto de ficar sentado olhando as paredes...
– Se escrever um, me mostra.
– Claro. Escute, por que seus rapazes estão de costas pro bar desse jeito? Estão na paquera?
– Nãão, já estão fartos de garotas. Só estão relaxando...
– Tudo bem, tchau, Jack...
– Continue fazendo seu bom trabalho – disse Sarah.
Voltamos lá pra cima. Em pouco tempo, Jack e sua gangue desapareceram.
Não foi lá uma grande noite. Eu subia e descia a escada, para pegar drinques. Após três horas, quase todo mundo tinha ido embora. Sarah e eu nos apoiávamos no balaústre. Aí eu vi Jon. Tinha-o visto dançando antes. Chamei-o com um aceno.
– Ei, que houve com Francine? Ela não veio à festa de encerramento?
– Não, não tem imprensa aqui esta noite...
– Entendo...
– Preciso ir agora – disse Jon. – Tenho de levantar cedo e ir pra sala de montagem.
– Tudo bem.
Jon se foi.
Estava vazio lá embaixo, e mais fresco, e assim descemos para o bar. Sarah e eu éramos os últimos ali. Agora só havia uma garçonete.
– Vamos tomar uma saideira – eu disse a ela.
– Agora eu tenho de cobrar as bebidas – ela disse.
– Por quê?
– A Firepower só alugou a casa até a meia-noite... Já são meia-noite e dez... Mas vou te passar uns drinques mesmo assim, porque gosto muito do que você escreve, mas por favor não diga a ninguém que fiz isso.
– Minha querida, ninguém jamais vai saber.
Ela serviu os drinques. A turma da discoteca da madrugada começava a chegar. Era hora de ir embora. Era, sim. Nossos cinco gatos nos esperavam. De alguma forma, eu me sentia triste pelo fim das filmagens. Havia algo de explorativo naquilo tudo. Houvera um certo jogo. Acabamos nossos drinques e saímos para a rua. O carro ainda estava lá. Ajudei Sarah a entrar e entrei pelo outro lado. Pusemos os cintos. Liguei o carro, e logo estávamos na autoestrada do Porto, seguindo para o sul. Voltávamos para a normalidade, e de certa forma eu gostava disso, e por outro lado não gostava.
Sarah acendeu um cigarro.
– A gente dá comida aos gatos e vai dormir.
– E talvez um drinque? – sugeri.
– Tudo bem – disse Sarah.
Ela e eu nos dávamos bem, às vezes.
–Hollywood
1 200
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Os Anos 1930

lugares para caçar
lugares onde se esconder estão
cada vez mais difíceis de achar, e bichos de estimação
canários e peixes dourados também, você já reparou
nisso?
lembro quando salões de bilhar eram salões de bilhar
e não só mesas em
bares;
e lembro quando as mulheres da vizinhança
costumavam cozinhar panelões de came ensopada para seus
maridos desempregados
quando suas barrigas doíam
de medo;
e lembro quando crianças costumavam olhar a chuva
por horas e
brigavam interminavelmente por um filhote
de rato; e
lembro quando os boxeadores eram todos judeus e irlandeses
e nunca davam a você uma
luta ruim; e quando os biplanos voavam tão baixo que
dava para ver a cara do aviador e seus óculos de proteção;
e quando uma barra de sorvete em cada dez tinha dentro um bilhete
de sorteio; e quando por 3 centavos dava para comprar doces o bastante
para fazê-lo passar mal
ou durar toda uma
tarde; e quando as pessoas da vizinhança criavam
galinhas em seus quintais; e quando recheávamos um automóvel
de brinquedo de 5 centavos com
cera de vela para fazê-lo durar
eternamente; e quando montávamos nossas próprias pipas e patinetes
e lembro
quando nossos pais brigavam
(dava para ouvi-los por quarteirões)
e eles brigavam por horas, gritando maldições pesadas
e os guardas nunca
vinham.
lugares para caçar e lugares para se esconder,
eles simplesmente não estão mais
por aí. lembro quando
cada 40 lote estava vago e cheio de mato, e o senhorio
só recebia seu aluguel
quando você tinha
como pagar, e cada dia era claro e bom e cada momento era
cheio de promessas.
1 157
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha

eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
875
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha

eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
875
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha

eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
875
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Ato Criativo

para o ovo quebrado no chão
paro o 5 de julho
para o peixe no tanque
para o velho no quarto 9
para o gato na cerca
para você mesmo
não pela fama
não pelo dinheiro
você precisa seguir na batalha
quando a idade avança
o glamour esmorece
é mais fácil quando se é jovem
todo mundo pode se erguer às
alturas vez ou outra
a palavra-chave é
consistência
qualquer coisa que mantenha as coisas
em movimento
esta dança da vida em frente à
Dona Morte.

E lá estava. O filme rolava. Eu tomara uma surra do garçom no beco. Como expliquei antes, tenho as mãos pequenas, o que é uma terrível desvantagem numa briga de socos. Aquele garçom em particular tinha umas mãos enormes. Para piorar ainda mais as coisas, eu encaixava bem as porradas, o que me fazia absorver muito mais o castigo. Tinha um pouco de sorte do meu lado: não era muito medroso. As brigas com o garçom eram uma forma de passar o tempo. Afinal, a gente não podia ficar sentado no tamborete do bar o dia e a noite inteiros. A dor vinha na manhã seguinte, e não era tão ruim quando a gente tinha conseguido voltar para o quarto.
E brigando duas ou três vezes por semana eu ia ficando melhor naquilo. Ou o garçom ficando pior.
Mas isso fora mais de quatro décadas atrás. Agora eu me sentava numa sala de projeção de Hollywood.
Não é preciso lembrar o filme aqui. Talvez seja melhor falar de uma parte que ficou de fora. Mais adiante, no filme, uma dona quer cuidar de mim. Acha que eu sou um gênio e quer me proteger das ruas. No filme eu só fico na casa da dona uma noite. Mas na vida real fiquei cerca de um mês e meio.
A dona, Tully, morava numa grande casa em Hollywood Hills. Dividia-a com outra dona, Nadine. As duas eram altas executivas. Estavam no ramo das diversões: música, editoração, uma coisa assim. Pareciam conhecer todo mundo e davam duas ou três festas por semana, um monte de tipos de Nova York. Eu não gostava das festas de Tully e me divertia ficando totalmente de porre e insultando o máximo de pessoas que pudesse.
Nadine morava com um cara um pouco mais jovem que eu. Era compositor, ou diretor, ou alguma coisa assim, temporariamente desempregado. Não gostei dele de cara. Vivia esbarrando com ele pela casa ou no pátio de manhã, quando estávamos ambos de ressaca. Ele sempre usava uma porra de uma echarpe.
Uma manhã, lá pelas 11 horas, estávamos os dois no pátio mamando umas cervejas, tentando nos recuperar de nossas ressacas. Ele se chamava Rich. Me olhou.
– Precisa de outra cerveja?
– Claro... Obrigado...
Ele entrou na cozinha, voltou, me entregou minha cerveja e se sentou.
Tomou uma boa golada. Depois deu um profundo suspiro.
– Não sei por quanto tempo mais vou conseguir enrolar ela...
– Quê?
– Quer dizer, eu não tenho talento nenhum. É tudo merda.
– Lindo – eu disse –, isso é realmente lindo. Eu admiro você.
– Obrigado. E você? – ele perguntou.
– Eu bato à máquina. Mas não é esse o problema.
– Qual é?
– Estou com o pau esfolado de tanto foder. Ela nunca se satisfaz.
– Eu tenho de chupar Nadine toda noite.
– Nossa...
– Hank, nós somos uma dupla de homens manteúdos.
– Rich, essas mulheres liberadas puseram os bagos da gente num saco.
– Acho que a gente devia entrar já na vodca – ele disse.
– Ótimo – eu disse.
Nessa noite, quando nossas donas chegaram, nenhum dos dois estava em condições de cumprir seus deveres.
Rich durou mais uma semana e desapareceu.
Depois disso, eu muitas vezes encontrava Nadine andando nua pela casa, geralmente quando Tully havia saído.
– Que diabos está fazendo? – perguntei finalmente.
– Isto aqui é minha casa, e se eu quiser andar com o rabo tomando vento isso não é da conta de ninguém.
– Vamos lá, Nadine, que é que há realmente? Quer uma chupadinha?
– Nem que você fosse o último homem da terra.
– Se eu fosse o último homem da terra, você ia ter de entrar na fila.
– Fique feliz por eu não contar pra Tully.
– Bem, pare de andar por aí com a xoxota pendurada.
– Seu porco!
Subiu correndo a escada, plop, plop, plop. Um rabão. Uma porta bateu lá em cima. Eu não prossegui com a coisa. Uma mercadoria totalmente superestimada.
Nessa noite, quando Tully voltou, me remeteu para Catalina por uma semana. Acho que sabia que Nadine estava no cio.
Isso não estava no filme. Não se pode pôr tudo num filme.
E aí, voltando à sala de projeção, o filme acabara. Aplaudiram. Todos saímos em volta apertando as mãos uns dos outros, abraçando-nos. Éramos todos sensacionais, diabos, sim.
Harry Friedman me encontrou. Nós nos abraçamos, depois apertamos as mãos.
– Harry – eu disse –, você tem um vencedor!
– É, é, um grande argumento! Escuta, eu soube que você escreveu um romance sobre prostitutas.
– É.
– Quero que me escreva um argumento sobre ele. Quero fazer!
– Claro, Harry, claro...
Então ele avistou Francine Bowers e correu para ela.
– Francine, doçura, você estava magnífica!
Aos poucos, as coisas foram se acalmando e a sala ficou quase vazia. Sarah e eu saímos.
Lance Edwards e seu carro haviam desaparecido. Tínhamos o longo percurso de volta até o nosso carro. Tudo bem. A noite estava fresca e clara. O filme acabara e logo estaria sendo exibido. Os críticos dariam sua opinião. Eu sabia que se faziam filmes demais, um atrás do outro atrás do outro. O público via tantos filmes que não sabia mais o que era um filme e os críticos se achavam na mesma entalada.
E então voltávamos para casa, em nosso carro.
– Eu gostei – disse Sarah. – Só que teve umas partes...
– Eu sei. Não é um filme imortal, mas é bom.
– É, é, sim...
Estávamos na autoestrada.
– Vou ter prazer em ver os gatos – disse Sarah.
– Eu também...
– Você vai escrever outro argumento?
– Espero que não...
– Harry Friedman quer que a gente vá a Cannes, Hank.
– Quê? E deixar os gatos?
– Ele mandou levar os gatos.
– De jeito nenhum!
– Foi o que eu disse a ele.
Fora uma boa noite, e outras haveria. Eu entrei na primeira saída e paguei para ver.
– Hollywood
1 183
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ar e Luz e Tempo e Espaço

“...você sabe, já tive uma família, um emprego, mas alguma coisa
sempre se interpôs no
caminho
mas agora
vendi minha casa, encontrei este
lugar, um enorme estúdio, você precisa ver o espaço e
a luz.
pela primeira vez na minha vida terei um lugar e tempo para
criar.”
não, baby, se você vai criar
fará isso mesmo que trabalhe
16 horas por dia numa mina de carvão
ou
criará num cubículo com 3 crianças
enquanto vive
da previdência social,
criará com parte de sua mente e de seu
corpo
estourados,
criará cego
aleijado,
demente,
criará com um gato escalando por suas
costas enquanto
a cidade inteira treme em terremotos, bombardeios
alagamentos e fogo.
baby, ar e luz e tempo e espaço
não têm nada a ver com isso
e não criam nada
exceto talvez uma vida mais longa para encontrar
novas desculpas de que se
ocupar.

Nessa noite, sem Jon escutando lá embaixo, o argumento começou a andar. Eu escrevia sobre um jovem que queria escrever e beber, mas a maior parte de seu sucesso era com a garrafa. O jovem fora eu. Embora aquele não fosse um tempo infeliz, tinha sido, em grande parte, um tempo de vazio e espera. Enquanto eu batia, os personagens de um certo bar me voltavam à memória. Eu tornava a ver cada rosto, os corpos, ouvia as vozes. Ali estava um bar que tinha um certo encanto mortal. Eu me concentrei nisso, revivi as brigas de bar com o garçom. Eu não era bom de briga. Para começar, tinha as mãos pequenas demais e vivia mal alimentado, muito mal alimentado. Mas tinha uma certa garra e encaixava um soco muito bem. Meu principal problema numa briga era que não conseguia me enfurecer de verdade, mesmo quando minha vida parecia estar em jogo. Era tudo teatro comigo. Importava e não. Brigar com o garçom era algo que tinha de ser feito e agradava aos fregueses, que eram um grupinho muito unido. Eu era o de fora. Tem alguma coisa positiva na bebida – aquelas brigas todas teriam me matado se eu estivesse sóbrio, mas, bêbado, era como se o corpo virasse borracha e a cabeça cimento. Pulsos torcidos, lábios inchados e rótulas machucadas eram mais ou menos tudo que eu sofria no dia seguinte. E também galos na cabeça, das quedas. Como isso podia virar um argumento, eu não sabia. Só sabia que era a única parte da minha vida sobre a qual não escrevera muito. Acredito que era são naquela época, tão são quanto qualquer outro. E sabia que havia toda uma civilização de almas penadas que viviam entrando e saindo de bares, diariamente, noturnamente e para sempre, até a morte. Nunca lera sobre essa civilização, e por isso decidi escrever sobre ela, como a lembrava. A boa máquina velha matraqueava.
No dia seguinte, lá pelo meio-dia, o telefone tocou. Era Jon.
– Encontrei uma casa. François está comigo. É linda, tem duas cozinhas, e o aluguel é de graça, realmente de graça...
– Onde está?
– Estamos no gueto de Venice. Avenida Brooks. Só tem negros. As ruas são guerra e destruição. Lindo!
– Oh!
– Você deve vir ver a casa!
– Quando?
– Hoje!
– Eu não sei.
– Oh, você não ia querer perder isto! Tem gente morando debaixo da nossa casa. A gente ouve eles lá embaixo, falando e tocando o rádio. Tem gangues por toda parte! Alguém construiu um grande hotel aqui. Mas ninguém pagou o aluguel. Fecharam o lugar com tábuas, cortaram a eletricidade, a água, o gás. Mas as pessoas ainda moram aqui. É UMA ZONA DE GUERRA! A polícia não vem aqui, parece um estado separado, com suas próprias leis. Eu adoro! Você tem de nos visitar!
– Como chego aí?
Jon me deu as indicações e desligou.
Procurei Sarah.
– Escuta, preciso ir ver Jon e François.
– Ei, eu vou também!
– Não, não pode. Fica no gueto de Venice.
– Oh, o gueto! Eu não perderia isso por nada neste mundo!
– Escuta, me faz um favor, tá? Por favor, não venha!
– Que? Acha que eu ia deixar você ir lá embaixo sozinho?
Peguei minha lâmina, pus o dinheiro nos sapatos.
– Tá legal – disse...
Entramos dirigindo devagar no gueto de Venice. Não era verdade que só tivesse negros. Havia alguns latinos nos arredores. Notei um grupo de sete a oito mexicanos em volta, encostados num carro velho. Quase todos usavam camiseta ou estavam nus da cintura para cima. Passei dirigindo devagar, sem encarar ninguém, só absorvendo. Eles não pareciam fazer muita coisa. Só esperavam. Prontos e à espera. Na verdade, provavelmente estavam apenas entediados. Pareciam caras legais. E não pareciam lá muito preocupados.
Aí chegamos à turfa negra. De repente, ruas cheias de lixo: um pé esquerdo de sapato, uma camisa laranja, uma bolsa velha... uma romã podre... outro pé esquerdo de sapato... um blue jeans... um pneu...
Eu tinha de dirigir por entre aquelas coisas. Dois negros de uns onze anos nos fitavam de suas bicicletas. Ódio puro, perfeito. Eu sentia. Os negros pobres tinham ódio. Os brancos pobres tinham ódio. Só quando ganhavam dinheiro negros e brancos se integravam. Alguns brancos amavam os negros. Muito poucos negros amavam os brancos, se é que algum amava. Ainda estavam indo à forra. Talvez nunca fossem. Numa sociedade capitalista, os perdedores são escravizados pelos vencedores, e é preciso haver mais perdedores que vencedores. Que pensava eu? Sabia que a política jamais resolveria isso, e não sobrava muito tempo para entrar numa boa.
Dirigimos até encontrar o endereço, estacionei o carro, saí e bati na porta.
Uma portinhola abriu-se deslizando e lá estava um olho nos olhando.
– Ah, Hank e Sarah!
A porta abriu-se, fechou-se, e estávamos dentro.
Eu me aproximei da janela e dei uma olhada.
– Que está fazendo? – perguntou Jon.
– Só quero dar uma olhada no carro de vez em quando...
– Oh, sim, venha ver, vou te mostrar as duas cozinhas!
Claro que havia duas cozinhas, um fogão em cada uma, uma geladeira em cada uma, uma pia em cada uma.
– Eram duas casas antes. Foram transformadas em uma.
– Legal – disse Sarah. – Você pode cozinhar numa cozinha e François na outra...
– No momento, estamos vivendo basicamente de ovos. Temos galinhas, que põem muitos ovos...
– Nossa, Jon, tá tão ruim assim?
– Não, na verdade, não. A gente calcula que vai ficar aqui por um longo tempo. Precisamos de quase todo o nosso dinheiro pra vinho e charutos. Como vai indo o argumento?
– Tenho o prazer de comunicar que já temos umas boas páginas. Só que às vezes me atrapalho com CÂMERA, ZOOM, PANORÂMICA... essa merda toda...
– Não se preocupe, eu cuido disso.
– Onde está François? – perguntou Sarah.
– Ah, está na outra sala... venham...
Entramos e lá estava François rodando sua roletinha. Quando bebia, ficava com o nariz muito vermelho, como um bêbado de desenho animado. E também, quanto mais bebia, mais deprimido ficava. Chupava um toco de charuto molhado. Conseguiu extrair algumas tristes baforadas. Ao lado, via-se uma garrafa de vinho quase vazia.
– Merda – disse –, já estou com 60 mil dólares no buraco e bebendo esse vinho barato do Jon, que ele diz ser coisa fina mas é pura bosta. Paga um dólar e 35 centavos a garrafa. Meu estômago parece um balão cheio de xixi! Estou com 60 mil dólares no buraco e sem nenhum emprego em vista. Tenho de... me... matar...
– Vamos lá, François – disse Jon –, vamos mostrar as galinhas a nossos amigos...
– As galinhas! O-V-OS! A gente come O-V-OS o tempo todo! Só O-V-OS! Pup, pup, pup! A galinha pup O-V-OS! O dia todo, a noite toda minha função é salvar as galinhas dos negrinhos! Os negrinhos vivem saltando a cerca e correndo pro galinheiro! Eu bato neles com uma vara comprida, digo: “Seus filhos da puta, fiquem longe de minhas galinhas que pup os O-V-OS! Não consigo pensar, não consigo pensar em minha vida nem em minha morte, estou sempre correndo atrás desses negrinhos com a vara comprida! Jon, preciso de mais vinho, outro charuto!
Deu outra rodada na roleta.
Mais más notícias. O sistema estava falhando.
– Sabe, na França tem apenas um zero pra casa! Aqui na América tem um zero e um duplo zero pra casa! PEGAM OS DOIS BAGOS DA GENTE! POR QUÊ? Vamos lá, mostro a vocês as galinhas...
Saímos para o quintal, e lá estavam as galinhas e o galinheiro. O próprio François o fizera. Era bom nessas coisas. Tinha um verdadeiro talento para isso. Só que não usara tela de galinheiro, mas barras. E fechaduras em cada porta.
– Faço a chamada toda noite. “Cécile, está aí?” “Cluc, cluc”, ela responde. “Bernadette, está aí?” “Cluc, cluc”, ela responde. E por aí vai. Uma noite, eu chamei “Nicole?”, e ela não clucou. Você acredita? Apesar de todas as barras e fechaduras, eles pegaram Nicole! Tiraram ela daqui. Nicole se foi, se foi para sempre! Jon, Jon, eu preciso de mais vinho!
Tornamos a entrar e nos sentamos, e o novo vinho correu solto. Jon deu um novo charuto a François.
– Se eu tiver meu charuto quando preciso – disse François – posso viver.
Bebemos por algum tempo, e então Sarah perguntou:
– Escuta, Jon, seu senhorio é negro?
– Oh, sim...
– Ele não te perguntou por que alugava uma casa aqui?
– Sim...
– E que foi que você disse?
– Disse que éramos cineastas e atores da França.
– E ele?
– Ele disse: “Oh”.
– Mais alguma coisa?
– Sim, disse: “Bem, o rabo é seu!”.
Bebemos um tempo falando bobagem.
De vez em quando eu me levantava e ia à janela ver se o carro ainda estava lá.
Enquanto bebíamos, comecei a me sentir culpado pela coisa toda.
– Escuta, Jon, deixa eu te devolver o dinheiro do argumento. Eu botei você contra a parede. Isso é terrível...
– Não, eu quero que você faça esse argumento. Ele vai se tornar um filme, eu prometo...
– Tudo bem, porra...
Bebemos mais um pouco.
Então Jon disse:
– Veja...
Por um buraco na parede onde nos sentávamos via-se uma mão, uma mão negra. Contorcia-se através do reboco quebrado, os dedos fechando-se, movendo-se. Parecia um animalzinho escuro.
– DÊ O FORA! – berrou François. – DÊ O FORA, ASSASSINO DE NICOLE! VOCÊ DEIXOU UM BURACO ETERNO EM MEU CORAÇÃO! DÊ O FORA!
A mão não deu o fora.
François aproximou-se da parede e dela.
– Estou mandando dar o fora. Só quero fumar meu charuto e beber meu vinho em paz. Você perturba o visual! Não posso me sentir bem com você tateando e me olhando com seus pobres dedos negros!
A mão não deu o fora.
– TUDO BEM, ENTÃO!
A vara estava bem ali. Com um movimento demoníaco, François pegou-a e começou a açoitar a parede com ela, repetidas vezes...
– ASSASSINO DE GALINHA, VOCÊ FERIU MEU CORAÇÃO ETERNAMENTE!
O som era ensurdecedor. Então François parou.
A mão dera o fora.
François sentou-se.
– Merda, Jon, meu charuto apagou. Por que não compra charutos melhores, Jon?
– Escuta, Jon – eu disse –, a gente tem de ir...
– Ora, vamos... por favor... a noite está só começando! Você não viu nada ainda...
– A gente precisa ir... Preciso trabalhar mais no argumento...
– Oh... nesse caso...
Em casa, subi e trabalhei no argumento, mas estranhamente, ou talvez não, minha vida passada não parecia tão estranha, bárbara ou louca quanto o que ocorria agora.
– Hollywood
1 405
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Menos Delicado Que Os Gafanhotos

– Bolas – ele disse. – Estou cansado de pintar. Vamos sair. Estou cheio desse fedor de tinta, estou cansado de ser grande. Estou cansado de esperar pela morte. Vamos sair.
– Sair pra onde? – ela perguntou.
– Pra qualquer lugar. Comer, beber, ver.
– Jorg – ela disse –, que é que eu vou fazer quando você morrer?
– Vai comer, dormir, foder, mijar, se vestir, andar por aí e encher o saco dos outros.
– Eu preciso de segurança.
– Todos nós.
– Quer dizer, não somos casados. Eu não vou poder nem receber o seu seguro.
– Tá tudo bem, não esquenta com isso. Além do mais, você não acredita em casamento, Arlene.
Arlene sentava-se na poltrona cor-de-rosa lendo o jornal da tarde.
– Você diz que cinco mil mulheres querem dormir com você. Onde é que eu fico?
– Cinco mil e uma.
– Acha que eu não consigo outro homem?
– Não, pra você não tem problema. Pode arranjar outro homem em três minutos.
– Acha que eu preciso de um grande pintor?
– Não precisa, não. Um bom bombeiro serve.
– É, desde que ele me ame.
– Claro. Ponha o casaco. Vamos sair.
Desceram a escada do sótão. Para todos os lados, quartos baratos, entupidos de baratas, mas ninguém parecia passar fome: pareciam viver cozinhando coisas em panelões e sentados por toda parte, fumando, limpando as unhas, bebendo latas de cerveja ou dividindo uma comprida garrafa azul de vinho branco, gritando ou rindo uns com os outros, ou peidando, arrotando ou dormindo diante da TV. Não havia muita gente com dinheiro no mundo, mas quanto menos dinheiro tinham melhor pareciam viver. Só precisavam de sono, lençóis limpos, comida, bebida e pomada para hemorroidas. E sempre deixavam os quartos um pouco abertos.
– Idiotas – disse Jorg, quando desciam a escada –, passam a vida fofocando e enchendo a minha vida.
– Oh, Jorg – suspirou Arlene. – Você simplesmente não gosta das pessoas, gosta?
Jorg ergueu uma sobrancelha para ela, mas não respondeu. A reação de Arlene ao que ele sentia pelas massas era sempre a mesma – como se não amar as pessoas fosse algo que revelasse uma imperdoável deficiência espiritual. Mas ela era uma foda excelente e uma companhia agradável – a maior parte do tempo.
Chegaram ao boulevard e seguiram andando, Jorg com a barba vermelha e branca, os dentes amarelos podres e o mau hálito, as orelhas roxas, os olhos assustados, o casaco fedorento rasgado e a bengala branca de marfim. Sentia-se melhor quando estava pior.
– Merda – disse –, tudo morre cagando.
Arlene rebolava o rabo, não fazendo segredo dele, Jorg batia na calçada com a bengala, e até o sol olhava lá de cima e dizia Ô-hô! Chegaram finalmente ao velho prédio miserável onde morava Serge. Jorg e Serge vinham ambos pintando há anos, mas só recentemente tinham vendido suas obras por mais que peidos de porco. Tinham passado fome juntos, agora se tornavam famosos separados. Jorg e Arlene entraram no hotel e subiram a escada. O cheiro de iodo e fritura de frango enchia os corredores. Num quarto, alguém fodia sem fazer segredo disso. Eles subiram até o sótão e Arlene bateu. Abriu-se a porta, e lá estava Serge.
– Tchan-tchan! – ele disse. E corou. – Oh, desculpem... entrem.
– Que diabos deu em você? – perguntou Jorg.
– Senta aí. Pensei que fosse Lila...
– Você brinca de esconder com Lila?
– Esquece.
– Serge, você precisa se livrar dessa dona, ela está fundindo sua cuca.
– Ela aponta meus lápis.
– Serge, ela é jovem demais pra você.
– Tem trinta anos.
– E você sessenta. São trinta anos.
– Trinta anos é demais?
– Claro.
– E vinte? – perguntou Serge, olhando para Arlene.
– Vinte anos é aceitável. Trinta anos é obsceno.
– Por que vocês dois não arranjam mulheres da sua idade? – perguntou Arlene.
Os dois olharam-na.
– Ela gosta de fazer piadinhas – disse Jorg.
– É – disse Serge –, é engraçada. Vamos lá, escuta, eu mostro a vocês o que estou fazendo.
Seguiram-no até o quarto. Ele tirou os sapatos e estendeu-se na cama.
– Estão vendo? É assim, olha. Todos os confortos. – Serge amarrara os pincéis em longos cabos e pintava numa tela presa ao teto. – É minhas costas. Não posso pintar dez minutos sem parar. Assim, pinto horas.
– Quem mistura suas tintas?
– Lila. Eu digo a ela: “Mergulhe no azul. Agora um pouco de verde.” Ela é muito boa. Posso acabar deixando os pincéis a ela e ficar por aí lendo revistas.
Então ouviram Lila subindo a escada. Ela abriu a porta, atravessou a sala da frente e entrou no quarto.
– Opa – disse –, vejo que o velho vagabundo tá pintando.
– É... – disse Jorg – diz que você machucou as costas dele.
– Eu não falei nada disso.
– Vamos sair pra comer – disse Arlene.
Serge gemeu e levantou-se.
– Palavra de honra – disse Lila. – Ele só fica por aí deitado como uma rã doente, a maior parte do tempo.
– Preciso de um trago – disse Serge. – Aí volto à forma.
Desceram juntos para a rua e foram a The Sheep’s Tick. Dois rapazes em meados da casa dos vinte se aproximaram. Usavam suéteres de gola rolê.
– Oi, vocês são os pintores Jorg Swenson e Serge Maro!
– Sai da frente, porra! – disse Serge.
Jorg brandiu sua bengala de marfim. Atingiu o mais jovem dos rapazes bem no joelho.
– Merda – disse o rapaz –, me quebrou a perna!
– Espero – disse Jorg. – Talvez você aprenda um pouco de boas maneiras!
Seguiram para The Sheep’s Tick. Quando entraram, subiu um zunzum dos comensais. O chefe dos garçons acorreu imediatamente, curvando-se e acenando com menus e falando coisas lisonjeiras em italiano, francês e russo.
– Veja esses pelos negros, compridos, nas narinas dele – disse Serge. – Realmente nojento.
– É – disse Jorg, e gritou para o garçom: – ESCONDA O NARIZ!
– Cinco garrafas de seu melhor vinho! – berrou Serge, enquanto se sentavam à melhor mesa.
O chefe dos garçons desapareceu.
– Vocês dois são dois babacas – disse Lila.
Jorg correu a mão pela perna dela acima.
– Dois imortais vivos têm direito a algumas indiscrições.
– Tira a mão de minha xoxota, Jorg.
– A xoxota não é sua, é de Serge.
– Tira a mão da xoxota de Serge, senão eu grito.
– Minha vontade é fraca.
Ela gritou. Jorg tirou a mão. O chefe dos garçons aproximou-se com o carrinho contendo um balde de vinho. Rolou as garrafas no gelo, curvou-se e tirou uma rolha. Encheu a taça de Jorg. Jorg esvaziou-a.
– É merda – disse –, mas tudo bem. Abra as garrafas!
– Todas?
– Todas, seu babaca, e depressa com isso!
– É um trapalhão – disse Jorg. – Olha só pra ele. Vamos jantar?
– Jantar? – disse Arlene. – Vocês só fazem beber. Acho que nunca vi nenhum dos dois comer mais que um ovo mole.
– Suma de minha vista, covarde – disse Serge ao garçom.
O chefe dos garçons sumiu.
– Vocês não deviam falar assim com os outros – disse Lila.
– Pagamos nossas contas – disse Serge.
– Não têm o direito – disse Arlene.
– Acho que não – disse Jorg –, mas é interessante.
– Os outros não têm de aceitar essa merda – disse Lila.
– Os outros aceitam o que têm de aceitar – disse Jorg. – Aceitam muito pior.
– Só o que eles querem são os quadros de vocês – disse Arlene.
– Nós somos nossos quadros – disse Serge.
– As mulheres são idiotas – disse Jorg.
– Cuidado – disse Serge. – Também são capazes de terríveis atos de vingança...
Ficaram umas duas horas tomando vinho.
– O homem é menos delicado que o gafanhoto – disse Jorg por fim.
– O homem é a cloaca do universo – disse Serge.
– Vocês são dois babacas mesmo – disse Lila.
– Claro que são – disse Arlene.
– Vamos trocar esta noite – disse Jorg. – Eu fodo sua xoxota e você fode a minha.
– Ah, não – disse Arlene – nada disso.
– E isso aí – disse Lila.
– Estou com vontade de pintar – disse Jorg. – Estou chateado de beber.
– Eu também estou com vontade de pintar – disse Serge.
– Vamos dar o fora daqui – disse Jorg.
– Escuta – disse Lila –, ainda não pagaram a conta.
– Conta? – berrou Serge. – Você não acha que a gente vai pagar por essa merda?
– Vamos – disse Jorg.
Quando se levantavam, surgiu o chefe dos garçons com a conta.
– Essa merda fede – berrou Serge, dando saltos. – Eu jamais pediria a ninguém que pagasse por uma coisa dessas! Quero que você saiba que a prova está no mijo!
Serge agarrou uma meia garrafa de vinho, abriu à força a camisa do garçom e despejou o vinho no peito. Jorg mantinha a bengala como uma espada. O chefe dos garçons parecia confuso. Era um belo rapaz com unhas compridas e um caro apartamento. Estudava química e certa vez ganhara o segundo prêmio num concurso de ópera. Jorg brandiu a bengala e atingiu o garçom, com força, pouco abaixo da orelha esquerda. O garçom ficou muito pálido e oscilou. Jorg atingiu-o mais três vezes no mesmo lugar, e ele desabou.
Saíram juntos, Serge, Jorg, Lila e Arlene. Estavam todos bêbados, mas tinham um certo porte, uma coisa singular. Saíram pela porta e alcançaram a rua.
Um jovem casal sentado a uma mesa próxima tinha visto tudo. O rapaz parecia inteligente, só uma grande bolota de carne perto da ponta do nariz estragava esse efeito. A garota era gorda mas linda, num vestido azul-escuro. Um dia quisera ser freira.
– Eles não foram magníficos? – perguntou o rapaz.
– Foram babacas – disse a garota.
O rapaz acenou pedindo uma terceira garrafa de vinho. Ia ser outra noite difícil.
– Numa fria
1 248
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Menos Delicado Que Os Gafanhotos

– Bolas – ele disse. – Estou cansado de pintar. Vamos sair. Estou cheio desse fedor de tinta, estou cansado de ser grande. Estou cansado de esperar pela morte. Vamos sair.
– Sair pra onde? – ela perguntou.
– Pra qualquer lugar. Comer, beber, ver.
– Jorg – ela disse –, que é que eu vou fazer quando você morrer?
– Vai comer, dormir, foder, mijar, se vestir, andar por aí e encher o saco dos outros.
– Eu preciso de segurança.
– Todos nós.
– Quer dizer, não somos casados. Eu não vou poder nem receber o seu seguro.
– Tá tudo bem, não esquenta com isso. Além do mais, você não acredita em casamento, Arlene.
Arlene sentava-se na poltrona cor-de-rosa lendo o jornal da tarde.
– Você diz que cinco mil mulheres querem dormir com você. Onde é que eu fico?
– Cinco mil e uma.
– Acha que eu não consigo outro homem?
– Não, pra você não tem problema. Pode arranjar outro homem em três minutos.
– Acha que eu preciso de um grande pintor?
– Não precisa, não. Um bom bombeiro serve.
– É, desde que ele me ame.
– Claro. Ponha o casaco. Vamos sair.
Desceram a escada do sótão. Para todos os lados, quartos baratos, entupidos de baratas, mas ninguém parecia passar fome: pareciam viver cozinhando coisas em panelões e sentados por toda parte, fumando, limpando as unhas, bebendo latas de cerveja ou dividindo uma comprida garrafa azul de vinho branco, gritando ou rindo uns com os outros, ou peidando, arrotando ou dormindo diante da TV. Não havia muita gente com dinheiro no mundo, mas quanto menos dinheiro tinham melhor pareciam viver. Só precisavam de sono, lençóis limpos, comida, bebida e pomada para hemorroidas. E sempre deixavam os quartos um pouco abertos.
– Idiotas – disse Jorg, quando desciam a escada –, passam a vida fofocando e enchendo a minha vida.
– Oh, Jorg – suspirou Arlene. – Você simplesmente não gosta das pessoas, gosta?
Jorg ergueu uma sobrancelha para ela, mas não respondeu. A reação de Arlene ao que ele sentia pelas massas era sempre a mesma – como se não amar as pessoas fosse algo que revelasse uma imperdoável deficiência espiritual. Mas ela era uma foda excelente e uma companhia agradável – a maior parte do tempo.
Chegaram ao boulevard e seguiram andando, Jorg com a barba vermelha e branca, os dentes amarelos podres e o mau hálito, as orelhas roxas, os olhos assustados, o casaco fedorento rasgado e a bengala branca de marfim. Sentia-se melhor quando estava pior.
– Merda – disse –, tudo morre cagando.
Arlene rebolava o rabo, não fazendo segredo dele, Jorg batia na calçada com a bengala, e até o sol olhava lá de cima e dizia Ô-hô! Chegaram finalmente ao velho prédio miserável onde morava Serge. Jorg e Serge vinham ambos pintando há anos, mas só recentemente tinham vendido suas obras por mais que peidos de porco. Tinham passado fome juntos, agora se tornavam famosos separados. Jorg e Arlene entraram no hotel e subiram a escada. O cheiro de iodo e fritura de frango enchia os corredores. Num quarto, alguém fodia sem fazer segredo disso. Eles subiram até o sótão e Arlene bateu. Abriu-se a porta, e lá estava Serge.
– Tchan-tchan! – ele disse. E corou. – Oh, desculpem... entrem.
– Que diabos deu em você? – perguntou Jorg.
– Senta aí. Pensei que fosse Lila...
– Você brinca de esconder com Lila?
– Esquece.
– Serge, você precisa se livrar dessa dona, ela está fundindo sua cuca.
– Ela aponta meus lápis.
– Serge, ela é jovem demais pra você.
– Tem trinta anos.
– E você sessenta. São trinta anos.
– Trinta anos é demais?
– Claro.
– E vinte? – perguntou Serge, olhando para Arlene.
– Vinte anos é aceitável. Trinta anos é obsceno.
– Por que vocês dois não arranjam mulheres da sua idade? – perguntou Arlene.
Os dois olharam-na.
– Ela gosta de fazer piadinhas – disse Jorg.
– É – disse Serge –, é engraçada. Vamos lá, escuta, eu mostro a vocês o que estou fazendo.
Seguiram-no até o quarto. Ele tirou os sapatos e estendeu-se na cama.
– Estão vendo? É assim, olha. Todos os confortos. – Serge amarrara os pincéis em longos cabos e pintava numa tela presa ao teto. – É minhas costas. Não posso pintar dez minutos sem parar. Assim, pinto horas.
– Quem mistura suas tintas?
– Lila. Eu digo a ela: “Mergulhe no azul. Agora um pouco de verde.” Ela é muito boa. Posso acabar deixando os pincéis a ela e ficar por aí lendo revistas.
Então ouviram Lila subindo a escada. Ela abriu a porta, atravessou a sala da frente e entrou no quarto.
– Opa – disse –, vejo que o velho vagabundo tá pintando.
– É... – disse Jorg – diz que você machucou as costas dele.
– Eu não falei nada disso.
– Vamos sair pra comer – disse Arlene.
Serge gemeu e levantou-se.
– Palavra de honra – disse Lila. – Ele só fica por aí deitado como uma rã doente, a maior parte do tempo.
– Preciso de um trago – disse Serge. – Aí volto à forma.
Desceram juntos para a rua e foram a The Sheep’s Tick. Dois rapazes em meados da casa dos vinte se aproximaram. Usavam suéteres de gola rolê.
– Oi, vocês são os pintores Jorg Swenson e Serge Maro!
– Sai da frente, porra! – disse Serge.
Jorg brandiu sua bengala de marfim. Atingiu o mais jovem dos rapazes bem no joelho.
– Merda – disse o rapaz –, me quebrou a perna!
– Espero – disse Jorg. – Talvez você aprenda um pouco de boas maneiras!
Seguiram para The Sheep’s Tick. Quando entraram, subiu um zunzum dos comensais. O chefe dos garçons acorreu imediatamente, curvando-se e acenando com menus e falando coisas lisonjeiras em italiano, francês e russo.
– Veja esses pelos negros, compridos, nas narinas dele – disse Serge. – Realmente nojento.
– É – disse Jorg, e gritou para o garçom: – ESCONDA O NARIZ!
– Cinco garrafas de seu melhor vinho! – berrou Serge, enquanto se sentavam à melhor mesa.
O chefe dos garçons desapareceu.
– Vocês dois são dois babacas – disse Lila.
Jorg correu a mão pela perna dela acima.
– Dois imortais vivos têm direito a algumas indiscrições.
– Tira a mão de minha xoxota, Jorg.
– A xoxota não é sua, é de Serge.
– Tira a mão da xoxota de Serge, senão eu grito.
– Minha vontade é fraca.
Ela gritou. Jorg tirou a mão. O chefe dos garçons aproximou-se com o carrinho contendo um balde de vinho. Rolou as garrafas no gelo, curvou-se e tirou uma rolha. Encheu a taça de Jorg. Jorg esvaziou-a.
– É merda – disse –, mas tudo bem. Abra as garrafas!
– Todas?
– Todas, seu babaca, e depressa com isso!
– É um trapalhão – disse Jorg. – Olha só pra ele. Vamos jantar?
– Jantar? – disse Arlene. – Vocês só fazem beber. Acho que nunca vi nenhum dos dois comer mais que um ovo mole.
– Suma de minha vista, covarde – disse Serge ao garçom.
O chefe dos garçons sumiu.
– Vocês não deviam falar assim com os outros – disse Lila.
– Pagamos nossas contas – disse Serge.
– Não têm o direito – disse Arlene.
– Acho que não – disse Jorg –, mas é interessante.
– Os outros não têm de aceitar essa merda – disse Lila.
– Os outros aceitam o que têm de aceitar – disse Jorg. – Aceitam muito pior.
– Só o que eles querem são os quadros de vocês – disse Arlene.
– Nós somos nossos quadros – disse Serge.
– As mulheres são idiotas – disse Jorg.
– Cuidado – disse Serge. – Também são capazes de terríveis atos de vingança...
Ficaram umas duas horas tomando vinho.
– O homem é menos delicado que o gafanhoto – disse Jorg por fim.
– O homem é a cloaca do universo – disse Serge.
– Vocês são dois babacas mesmo – disse Lila.
– Claro que são – disse Arlene.
– Vamos trocar esta noite – disse Jorg. – Eu fodo sua xoxota e você fode a minha.
– Ah, não – disse Arlene – nada disso.
– E isso aí – disse Lila.
– Estou com vontade de pintar – disse Jorg. – Estou chateado de beber.
– Eu também estou com vontade de pintar – disse Serge.
– Vamos dar o fora daqui – disse Jorg.
– Escuta – disse Lila –, ainda não pagaram a conta.
– Conta? – berrou Serge. – Você não acha que a gente vai pagar por essa merda?
– Vamos – disse Jorg.
Quando se levantavam, surgiu o chefe dos garçons com a conta.
– Essa merda fede – berrou Serge, dando saltos. – Eu jamais pediria a ninguém que pagasse por uma coisa dessas! Quero que você saiba que a prova está no mijo!
Serge agarrou uma meia garrafa de vinho, abriu à força a camisa do garçom e despejou o vinho no peito. Jorg mantinha a bengala como uma espada. O chefe dos garçons parecia confuso. Era um belo rapaz com unhas compridas e um caro apartamento. Estudava química e certa vez ganhara o segundo prêmio num concurso de ópera. Jorg brandiu a bengala e atingiu o garçom, com força, pouco abaixo da orelha esquerda. O garçom ficou muito pálido e oscilou. Jorg atingiu-o mais três vezes no mesmo lugar, e ele desabou.
Saíram juntos, Serge, Jorg, Lila e Arlene. Estavam todos bêbados, mas tinham um certo porte, uma coisa singular. Saíram pela porta e alcançaram a rua.
Um jovem casal sentado a uma mesa próxima tinha visto tudo. O rapaz parecia inteligente, só uma grande bolota de carne perto da ponta do nariz estragava esse efeito. A garota era gorda mas linda, num vestido azul-escuro. Um dia quisera ser freira.
– Eles não foram magníficos? – perguntou o rapaz.
– Foram babacas – disse a garota.
O rapaz acenou pedindo uma terceira garrafa de vinho. Ia ser outra noite difícil.
– Numa fria
1 248
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Minha Tiete

fiz uma leitura no último sábado no
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME LEVE! ME
LEVE!”
eu disse a ela: “olhe, fique longe
de mim”.
mas ela continuava agarrada às minhas
roupas e se esfregando em
mim.
“onde você estava”, eu lhe perguntei, “quando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tê-la possuído naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso é boa poesia ou
ácido de má qualidade.

Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse período. Então o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui até onde ela morava naquele sábado, às onze da manhã, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, à luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijá-la; então fechou a porta atrás de nós e fomos até o meu carro. A gente tinha decidido ir à praia – não para tomar banho –, pois era pleno inverno, mas só para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
– Que festa aquela – ela disse. – Você chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mãos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. Não conseguia evitar. Ela não parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mão escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
– Tire a mão. Aí é a minha buceta!
– Desculpe – eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
– Você quer um sanduíche e uma coca, algo assim? – perguntei.
– Beleza – ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. Tínhamos sanduíches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia não dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduíche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma só mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrário, como muito devagar.
Paixão, pensei, ela exalava paixão.
– Que tal esse sanduíche? – perguntei.
– Uma beleza. Eu estava com fome.
– Eles fazem sanduíches legais. Quer mais alguma coisa?
– Sim, queria um doce.
– De que tipo?
– Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduíche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui até o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
– Você viu aquele cara? – ela perguntou.
– Sim.
– Jesus, e eu estou com você, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguém como ele... O que há de errado comigo, afinal?
– Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invólucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
– Cansei da praia – ela disse –, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. Então, certa tarde, lá estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
– Você não entende nada de mulher, não é mesmo?
– Do que você está falando?
– Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dá pra ver que você não entende nada de mulher.
– Me fale mais.
– Bem, é que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. Você já chupou uma buceta?
– Não.
– Você tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
– Não.
– Tarde demais.
– Por quê?
– Não dá pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
– Claro que dá.
– Não, é tarde demais pra você.
– Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um lápis e um pedaço de papel.
– Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra você. – Começou a desenhar no papel. – Bem, isso é uma buceta, e aqui fica um negócio de que você provavelmente nunca ouviu falar: o clitóris. Aqui é o lugar onde estão as sensações. O clitóris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, é cor-de-rosa e muito sensível. Às vezes ele se esconde de você e é preciso achá-lo. Basta tocar nele com a ponta da língua...
– Ok – eu disse –, entendi tudo.
– Acho que você não vai conseguir. Já disse, não dá pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
– Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos lábios para o pescoço, e daí para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
– Você não conseguirá – ela disse. – Sai sangue e urina daí; pense nisso, sangue e urina...
Fui lá embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitóris se revelou, mas não era exatamente rosado, era de um rosa-púrpura. Aticei o clitóris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. Então escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
– Mas que diabos você quer aqui? – perguntei.
– Tem alguma garrafa vazia? – perguntou.
– Não, não tenho nenhuma garrafa vazia – respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
– Deus – disse Lydia –, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sábado.
Voltei a mergulhar ali.
– Mulheres
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

John Dillinger E Le Chasseur Maudit

é uma pena, e simplesmente foge ao estilo, mas não dou a mínima:
as garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma pena também que
bolas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no hall... tudo me excita com a calma fria
da lápide do túmulo; em nenhum lugar, talvez, há refúgio exceto
em ouvir falar que houve outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras de vale-tudo, enfermeiras, garçonetes, putas
poetisas... contudo,
suponho que o retirar dos cubos de gelo é importante
ou um rato farejando uma garrafa de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar à noite entupido de navios imundos
que penetram a teia relutante de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que te tocam e te abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir por grandes distâncias sem razão
dopado através de janelas abertas que
rasgam e desfraldam sua camiseta como um pássaro temeroso,
e sempre as sinaleiras, sempre o vermelho,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pedaços, fardéis,
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão surdo quanto uma beterraba;
carrinhos de mão vermelhos, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons garotos espancando outro pra valer
em algum estádio barato cheio de ululante fumaça,
mas basicamente, não dou a mínima, sentado aqui
com uma boca cheia de dentes apodrecidos
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brönte (Emily, hoje);
e escutando Midday Witch de Dvorak
ou Le Chasseur Maudit,
não dou a mínima de fato, e é uma pena:
tenho recebido cartas de um jovem poeta
(bem jovem, ao que parece) me dizendo que um dia
certamente serei reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma malversação: hoje caminhei pelo sol e pelas ruas
da cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, e ao voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que me sorriu um riso tenebroso;
ela já estava morta, e em todos os lugares eu me lembrava de fios:
fios de telefone, fios elétricos rostos elétricos
presos como peixinhos dourados em um copo e sorrindo,
e os pássaros se foram, nenhum dos pássaros quer fios
ou o sorriso dos fios
e eu fecho minha porta (enfim)
mas através da janela tudo segue igual:
uma buzina soou, alguém riu, um puxão de descarga,
e então o mais estranho
pensei em todos os cavalos com seus números
que haviam passado em meio à gritaria,
passado como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não terão muita importância
exceto por uma questão de preparativo, um problema,
como jogar o lixo fora,
e embora eu tenha guardado as cartas do jovem poeta,
não acredito nelas
mas de vez em quando
como às palmeiras doentes
e ao sol que se põe,
eu as vejo.
1 055
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Livrinho Grátis de 25 Páginas

matando por uma cerveja morrendo
pela vida e por causa da vida
numa tarde ventosa em Hollywood
escutando música sinfônica no meu radinho vermelho
sobre o chão.
um amigo disse,
“tudo o que você precisa fazer é ir lá fora e se deitar
na calçada
alguém aparece e o recolhe
alguém tomará conta de você”.
olhei pela janela para a calçada
vejo uma coisinha maravilhosa caminhando na calçada
ela não se deitaria ali,
somente em lugares especiais para pessoas especiais com $$$$ especiais
e
maneiras especiais
enquanto eu estou matando por uma cerveja numa tarde ventosa em
Hollywood,
nada como uma bela jovem que rebola e passa por você na
calçada
rebolando e passando em frente à sua janela faminta
está vestida nos melhores trajes
não dá bola para o que você diz
para sua aparência e o que você faz
contanto que você não se ponha em seu
caminho, e deve ser porque ela não caga ou
não tem sangue
ela deve ser uma nuvem, amigo, o modo como passa flutuando pela gente.
estou enjoado demais para me deitar
as calçadas me assustam
a maldita cidade inteira me assusta,
o que me tornarei
o que já me tornei
me assusta.
ah, a bravata se foi
a grande corrida através do centro se foi
numa tarde ventosa em Hollywood
meu rádio estala e cospe sua música suja
cortando um chão cheio de garrafas de cerveja vazias.
agora escuto uma sirene
ela se aproxima
a música para
o homem no rádio diz,
“vamos mandar um livrinho de 25 páginas grátis para você:
ENFRENTANDO OS CUSTOS DA UNIVERSIDADE”.
a sirene fenece dentro das montanhas de caixa de papelão
e eu olho outra vez através da janela enquanto o pulso cerrado de
uma nuvem carregada se impõe...
o vento balança as plantas lá fora
espero pelo entardecer espero pela noite espero sentado numa cadeira
junto à janela...
o cozinheiro apanha e joga na água
o caranguejo ainda vivo
vermelho-rosa e salgado e de peito sólido e
o jogo
continua
venham me pegar.
1 208
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Marina:

majestosa, mágica
infinita
minha garotinha é o
sol
sobre o tapete –
porta afora
apanhando uma
flor, rá!,
um velho,
cansado de guerra
emerge de sua
cadeira
e ela me olha
mas vê apenas
amor,
rá!, e eu me torno
rápido com o mundo
e amo de imediato
assim como eu havia sido criado
para fazer.

O bebê engatinhava, descobrindo o mundo. Marina dormia na cama com a gente à noite. Lá estava Marina, Fay, o gato e eu. O gato também dormia na cama. Veja só, pensei, tenho três bocas dependendo de mim. Que estranho. Eu ficava ali sentado, vendo os três dormirem.
Então, por duas noites seguidas, ao chegar em casa ao amanhecer, ainda madrugada, Fay estava por ali, sentada, lendo os classificados.
– Todos esses quartos são o olho da cara – ela disse.
– Claro – eu disse.
Na noite seguinte, enquanto ela lia o jornal, eu lhe perguntei:
– Você está se mudando?
– Sim.
– Tudo bem. Eu ajudo você a encontrar um lugar amanhã. Damos uma volta por aí.
Concordei em lhe pagar uma soma cada mês. Ela disse:
– Tudo bem.
Fay ficou com a garota. Eu com o gato.
Encontramos um lugar que ficava a oito ou dez quadras. Ajudei-a na mudança, disse adeus à menina e dirigi de volta pra casa.
Eu aparecia para ver Marina duas ou três ou quatro vezes por semana. Sabia que enquanto pudesse ver a garota eu estaria bem.
Fay continuava se vestindo de preto em protesto contra a guerra. Participava de manifestações locais pela paz, encontros de amor livre, ia a leituras de poesia, oficinas, reuniões do partido comunista, e ficava sentada num café hippie. Levava a menina consigo. Se ela não saía, ficava em casa, sentada numa cadeira, fumando cigarro atrás de cigarro e lendo. Usava buttons de protesto em sua blusa preta. Mas normalmente ela estava na rua com a menina quando eu ia lá visitá-la.
Um dia, afinal, consegui pegá-las em casa. Fay comia sementes de girassol com iogurte. Ela assava o próprio pão, mas não era lá muito comestível.
– Conheci Andy, um cara que é motorista de caminhão – ela me disse. – Ele pinta nas horas vagas. Aí está um dos quadros. – Fay apontou para a parede.
Eu brincava com a garota. Olhei para a pintura. Não disse nada.
– Ele tem um pau enorme – disse Fay. – Ele esteve aqui noite dessas e me perguntou, “Como você quer que eu coma você com o meu pauzão?” e eu lhe disse que “preferia ser comida com amor!”.
– Ele fala como um desses caras que conhecem a vida – eu disse a ela.
Brinquei com a menina por mais um tempo, então parti. Eu tinha uma prova de método se aproximando.
Logo depois disso, recebi uma carta de Fay. Ela e a criança estavam vivendo numa comunidade hippie no Novo México. Era um lugar legal, ela disse. Marina poderia respirar ar puro por lá. Mandou junto um pequeno desenho que a menina havia feito para mim.
– Cartas na rua
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

22.000 Dólares Em 3 Meses

a noite chegou como um ser que se arrasta
corrimão acima, sibilando sua língua
de fogo, e me lembro dos
missionários com a lama até os joelhos
batendo em retirada através do belo rio azul
e as balas da metralhadora erguendo pequenas
fontes e Jones bêbado junto à margem
dizendo fodam-se esses selvagens
onde arrumaram armas de fogo?
e eu retorno pra ver Maria
e ela diz, você acha que eles vão atacar,
acha que eles vão atravessar o rio?
medo de morrer? lhe pergunto, e ela diz
quem não tem?
e eu fui até o armário de remédios
e me servi uma taça cheia, e disse
ganhamos 22.000 dólares em 3 meses construindo estradas
pro Jones e é preciso morrer um pouco
para fazer tudo mais depressa... Você acha que os comunistas
começaram com isso? ela perguntou, você acha que são os comunistas?
e eu disse, dá pra parar de ser uma vaca neurótica.
essas republiquetas crescem porque estão
enchendo os bolsos com dinheiro dos dois lados... e ela
me olhou com aquela linda estupidez das colegiais
e se afastou, escurecia mas eu a deixei partir,
precisamos saber quando é hora de deixar uma mulher ir a fim de mantê-la,
e se você não quer ficar com ela deixa-a ir de qualquer maneira,
assim que é sempre um processo de deixar partir, de um modo ou de outro,
então me sentei e terminei o drinque e preparei outro
e pensei, quem poderia imaginar que um curso de engenharia na Old Miss
poderia trazê-lo para onde as lâmpadas balançam devagar
no verde de certa noite distante?
e Jones apareceu com o braço ao redor de sua cintura azul
e ela também andara bebendo, e eu me aproximei e disse,
marido e mulher? e isso a deixou puta porque se uma mulher não pode
pegá-lo pelo cangote e fazê-lo de gato e sapato, está acabada,
e eu me servi mais uma dose caprichada, e
disse, vocês 2 podem não perceber
mas não vamos sair vivos daqui.
bebemos o resto da noite.
você poderia ouvir, se ficasse bem parado,
a água descendo através das árvores de deus,
e as estradas que havíamos construído
dava pra ouvir os animais a cruzá-las
e os selvagens, tolos bárbaros com alguma cruz bárbara para enterrar.
e finalmente o último olhar no espelho
enquanto os amantes embriagados se abraçam
e se afastam e erguem um pedaço de palha
do teto da cabana
então acendem o isqueiro, e eu
vejo as chamas se alastrarem, como ratos esfaimados
sobre as frágeis estruturas marrons, vagarosamente mas de modo
real, e logo irreal, algo que parecia uma ópera,
e então caminhei em direção ao som da metralha,
o mesmo rio, e a lua voltada para mim
e no caminho eu vi uma cobra, das pequenas,
mais parecendo uma cascavel, mas não poderia ser uma cascavel,
e se assustou ao me ver, e eu a agarrei atrás do pescoço
antes que pudesse se enrolar e então a segurei
seu pequeno corpo se enroscando ao redor do meu pulso
como um dedo amoroso e todas as árvores abriram seus olhos
e eu levei minha boca à sua
e o amor era iluminação e lembrança,
comunistas mortos, fascistas mortos, democratas mortos, deuses mortos e
ao retornar ao que restara da cabana de Jones
lá estava seu braço morto e carbonizado ao redor de sua cintura azul e morta.
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