Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Saindo À Rua Para Apanhar a Correspondência
o cômico meio-dia
em que esquadrões de minhocas emergem como
dançarinas de strip-tease
para serem levadas à força pelos melros.
saio
e por todos os lados da rua
o exército verde lança suas cores
como num eterno 4 de Julho,
e eu também parecia imerso naquele mar,
uma espécie desconhecida de explosão,
uma sensação, talvez, de que não havia um
inimigo
em nenhum lugar.
e eu cheguei até a caixa de correspondência
e não havia nada ali
dentro – nem sequer uma
conta da companhia de gás ameaçando um
novo corte no
serviço.
nem sequer um bilhete da minha ex-mulher
jactando-se de sua felicidade
atual.
minha mão vasculha a caixa numa espécie de
descrença muito tempo depois da mente já ter
desistido.
não há sequer uma mosca morta
lá dentro.
sou um cretino, penso, eu deveria saber a essa altura
como as coisas funcionam.
volto para dentro enquanto todas as flores saltam para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem pro
café da manhã?
em que esquadrões de minhocas emergem como
dançarinas de strip-tease
para serem levadas à força pelos melros.
saio
e por todos os lados da rua
o exército verde lança suas cores
como num eterno 4 de Julho,
e eu também parecia imerso naquele mar,
uma espécie desconhecida de explosão,
uma sensação, talvez, de que não havia um
inimigo
em nenhum lugar.
e eu cheguei até a caixa de correspondência
e não havia nada ali
dentro – nem sequer uma
conta da companhia de gás ameaçando um
novo corte no
serviço.
nem sequer um bilhete da minha ex-mulher
jactando-se de sua felicidade
atual.
minha mão vasculha a caixa numa espécie de
descrença muito tempo depois da mente já ter
desistido.
não há sequer uma mosca morta
lá dentro.
sou um cretino, penso, eu deveria saber a essa altura
como as coisas funcionam.
volto para dentro enquanto todas as flores saltam para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem pro
café da manhã?
1 037
Charles Bukowski
O Maior Fracassado do Mundo
ele costumava vender jornais ali em frente:
“Escolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!”
e lá pela terceira ou quarta corrida
você poderia vê-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mãos;
suas pernas não passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrível
disparando e reluzindo
faíscas supremas!
movia-se mais rápido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lábios,
dava para ouvir sua aproximação
“oh, Deus, mas que diabos é isso?”, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando até o guichê das apostas de 2 dólares, gritando:
“É O CAVALO NÚMERO 4, SEUS OTÁRIOS! COMO CONSEGUIRÃO
VENCER O CAVALO
4?”
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. não tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nós. somos otários, claro –
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ágio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que há um ágio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso é tudo?
eu perdi essas
faíscas.
“Escolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!”
e lá pela terceira ou quarta corrida
você poderia vê-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mãos;
suas pernas não passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrível
disparando e reluzindo
faíscas supremas!
movia-se mais rápido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lábios,
dava para ouvir sua aproximação
“oh, Deus, mas que diabos é isso?”, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando até o guichê das apostas de 2 dólares, gritando:
“É O CAVALO NÚMERO 4, SEUS OTÁRIOS! COMO CONSEGUIRÃO
VENCER O CAVALO
4?”
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. não tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nós. somos otários, claro –
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ágio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que há um ágio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso é tudo?
eu perdi essas
faíscas.
1 205
Charles Bukowski
O Maior Fracassado do Mundo
ele costumava vender jornais ali em frente:
“Escolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!”
e lá pela terceira ou quarta corrida
você poderia vê-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mãos;
suas pernas não passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrível
disparando e reluzindo
faíscas supremas!
movia-se mais rápido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lábios,
dava para ouvir sua aproximação
“oh, Deus, mas que diabos é isso?”, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando até o guichê das apostas de 2 dólares, gritando:
“É O CAVALO NÚMERO 4, SEUS OTÁRIOS! COMO CONSEGUIRÃO
VENCER O CAVALO
4?”
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. não tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nós. somos otários, claro –
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ágio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que há um ágio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso é tudo?
eu perdi essas
faíscas.
“Escolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!”
e lá pela terceira ou quarta corrida
você poderia vê-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mãos;
suas pernas não passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrível
disparando e reluzindo
faíscas supremas!
movia-se mais rápido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lábios,
dava para ouvir sua aproximação
“oh, Deus, mas que diabos é isso?”, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando até o guichê das apostas de 2 dólares, gritando:
“É O CAVALO NÚMERO 4, SEUS OTÁRIOS! COMO CONSEGUIRÃO
VENCER O CAVALO
4?”
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. não tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nós. somos otários, claro –
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ágio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que há um ágio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso é tudo?
eu perdi essas
faíscas.
1 205
Charles Bukowski
A Vida Feliz Dos Cansados
nitidamente em sintonia com
a canção de um prisioneiro
fico de pé na cozinha
a meio caminho da loucura
sonhando com a Espanha de
Hemingway.
é um mormaço, como dizem,
mal consigo respirar,
já dei uma cagada e
li as páginas de esporte,
abri a geladeira
olhei para um pedaço púrpuro de
carne,
deixei-o por
ali.
o lugar para se achar o centro
está na margem
que golpeando o céu
é como um encanamento
vibrando.
coisas terríveis se arrastam
pelas paredes; flores cancerígenas crescem
na varanda; meu gato branco teve
um olho arrancado
e há apenas 7 dias
de corrida para o fim da
temporada de verão.
a dançarina nunca chegou do
Club Normandy
e Jimmy não trouxe a
puta,
mas há um cartão postal do
Arkansas
e um folheto do Food King:
10 pacotes de férias no Havaí,
e tudo o que eu preciso fazer é
preencher o formulário.
mas eu não quero ir pro
Havaí.
quero a puta com olhos de pelicano
umbigo de latão
e
coração de marfim.
tirei da geladeira o pedaço de carne
púrpura
larguei-o na
frigideira.
então o telefone tocou.
dobrei-me sobre um dos joelhos e rolei para debaixo
da mesa. fiquei ali até que
o telefone parasse de
tocar.
então me levantei e
liguei o
rádio.
não por acaso Hemingway enchia
a cara, a Espanha que se foda,
não poderia mesmo
suportá-la.
é puro
mormaço.
a canção de um prisioneiro
fico de pé na cozinha
a meio caminho da loucura
sonhando com a Espanha de
Hemingway.
é um mormaço, como dizem,
mal consigo respirar,
já dei uma cagada e
li as páginas de esporte,
abri a geladeira
olhei para um pedaço púrpuro de
carne,
deixei-o por
ali.
o lugar para se achar o centro
está na margem
que golpeando o céu
é como um encanamento
vibrando.
coisas terríveis se arrastam
pelas paredes; flores cancerígenas crescem
na varanda; meu gato branco teve
um olho arrancado
e há apenas 7 dias
de corrida para o fim da
temporada de verão.
a dançarina nunca chegou do
Club Normandy
e Jimmy não trouxe a
puta,
mas há um cartão postal do
Arkansas
e um folheto do Food King:
10 pacotes de férias no Havaí,
e tudo o que eu preciso fazer é
preencher o formulário.
mas eu não quero ir pro
Havaí.
quero a puta com olhos de pelicano
umbigo de latão
e
coração de marfim.
tirei da geladeira o pedaço de carne
púrpura
larguei-o na
frigideira.
então o telefone tocou.
dobrei-me sobre um dos joelhos e rolei para debaixo
da mesa. fiquei ali até que
o telefone parasse de
tocar.
então me levantei e
liguei o
rádio.
não por acaso Hemingway enchia
a cara, a Espanha que se foda,
não poderia mesmo
suportá-la.
é puro
mormaço.
1 105
Charles Bukowski
A Leitura de Poesia
ao meio-dia em ponto
numa pequena faculdade próxima à praia
sóbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas é apenas pra pagar o pão e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
é tarde demais.
meus olhos não conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles não conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, não dá mais, já
era.
e mais tarde no meu quarto
lá estão a cerveja e o uísque
o sangue de um covarde.
isto então
será meu destino:
arrastar-me atrás de uns trocados em auditórios pequenos e escuros
lendo poemas de que há muito já me
cansei.
e então me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ônibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aí pelos becos não passam de uns
otários.
numa pequena faculdade próxima à praia
sóbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas é apenas pra pagar o pão e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
é tarde demais.
meus olhos não conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles não conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, não dá mais, já
era.
e mais tarde no meu quarto
lá estão a cerveja e o uísque
o sangue de um covarde.
isto então
será meu destino:
arrastar-me atrás de uns trocados em auditórios pequenos e escuros
lendo poemas de que há muito já me
cansei.
e então me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ônibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aí pelos becos não passam de uns
otários.
1 240
Charles Bukowski
A Leitura de Poesia
ao meio-dia em ponto
numa pequena faculdade próxima à praia
sóbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas é apenas pra pagar o pão e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
é tarde demais.
meus olhos não conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles não conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, não dá mais, já
era.
e mais tarde no meu quarto
lá estão a cerveja e o uísque
o sangue de um covarde.
isto então
será meu destino:
arrastar-me atrás de uns trocados em auditórios pequenos e escuros
lendo poemas de que há muito já me
cansei.
e então me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ônibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aí pelos becos não passam de uns
otários.
numa pequena faculdade próxima à praia
sóbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas é apenas pra pagar o pão e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
é tarde demais.
meus olhos não conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles não conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, não dá mais, já
era.
e mais tarde no meu quarto
lá estão a cerveja e o uísque
o sangue de um covarde.
isto então
será meu destino:
arrastar-me atrás de uns trocados em auditórios pequenos e escuros
lendo poemas de que há muito já me
cansei.
e então me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ônibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aí pelos becos não passam de uns
otários.
1 240
Charles Bukowski
A Leitura de Poesia
ao meio-dia em ponto
numa pequena faculdade próxima à praia
sóbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas é apenas pra pagar o pão e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
é tarde demais.
meus olhos não conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles não conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, não dá mais, já
era.
e mais tarde no meu quarto
lá estão a cerveja e o uísque
o sangue de um covarde.
isto então
será meu destino:
arrastar-me atrás de uns trocados em auditórios pequenos e escuros
lendo poemas de que há muito já me
cansei.
e então me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ônibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aí pelos becos não passam de uns
otários.
numa pequena faculdade próxima à praia
sóbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas é apenas pra pagar o pão e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
é tarde demais.
meus olhos não conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles não conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, não dá mais, já
era.
e mais tarde no meu quarto
lá estão a cerveja e o uísque
o sangue de um covarde.
isto então
será meu destino:
arrastar-me atrás de uns trocados em auditórios pequenos e escuros
lendo poemas de que há muito já me
cansei.
e então me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ônibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aí pelos becos não passam de uns
otários.
1 240
Charles Bukowski
Solidão
Edna estava caminhando pela rua com sua sacola de compras quando passou pelo carro. Havia um cartaz na janela lateral:
PROCURA-SE MULHER
Ela parou. Havia um grande pedaço de papelão grudado na janela com alguma substância. A maior parte estava datilografada. De onde estava na calçada, Edna não conseguia ler o aviso. Podia apenas ver as letras graúdas:
PROCURA-SE MULHER
Era um carro novo e caro. Edna deu um passo sobre a grama para ler a parte datilografada:
Homem, 49 anos. Divorciado. Procura mulher para casamento. Deve ter entre 35 e 44 anos. Gosta de televisão e películas cinematográficas. Boa comida. Sou especialista em custos de produção, com estabilidade no emprego. Dinheiro no banco. Gosto de mulheres acima do peso.
Edna tinha 37 anos e estava acima do peso. Havia um número de telefone. Também havia três fotos do cavalheiro em busca de uma mulher. Ele parecia bem sério de terno e gravata. Também parecia estúpido e um pouco cruel. E feito de madeira, pensou Edna, feito de madeira.
Edna se afastou, sorrindo um pouco. Sentia também uma espécie de repulsa. Ao chegar ao seu apartamento, ela o tinha esquecido. Apenas algumas horas depois, sentada na banheira, voltou a pensar nele e, dessa vez, pensou em como ele devia estar realmente sozinho para fazer tal coisa:
PROCURA-SE MULHER
Imaginou-o chegando em casa, encontrando as contas de gás e telefone na caixa de correio, despindo-se, tomando um banho, a televisão ligada. Então leria o jornal da tarde. Depois iria para a cozinha preparar sua refeição. De pé, de cuecas, olhando para a frigideira. Pegando sua comida e caminhando para uma mesa, comendo. Bebendo seu café. Então mais televisão. E talvez uma solitária lata de cerveja antes de se deitar. Havia milhões de homens como ele por toda a América.
Edna saiu da banheira, enrolou-se na toalha, vestiu-se e saiu do apartamento. O carro ainda estava lá. Anotou o nome do homem, Joe Lighthill, e o número do telefone. Leu a parte datilografada novamente. “Películas cinematográficas.” Que termo estranho para se usar. Agora as pessoas dizem “filmes”. PROCURA-SE MULHER. O aviso era muito ousado. Estava diante de um sujeito original.
Quando Edna chegou em casa, tomou três xícaras de café antes de discar o número. O telefone chamou quatro vezes.
– Alô? – ele respondeu.
– Sr. Lighthill?
– Sim?
– Vi seu anúncio. Seu anúncio no carro.
– Ah, sim.
– Meu nome é Edna.
– Como vai, Edna?
– Ah, vou bem. Tem feito tanto calor. Esse tempo está demais.
– Sim, nada fácil.
– Bem, sr. Lighthill...
– Me chame apenas de Joe.
– Bem, Joe, rá rá rá, me sinto tão boba. Sabe por que estou telefonando?
– Você viu meu aviso?
– Quero dizer, rá rá rá, o que há de errado com você? Não consegue arranjar uma mulher?
– Acho que não, Edna. Me diga, onde elas estão?
– As mulheres?
– Sim.
– Ah, por toda parte, veja bem.
– Onde? Me diga. Onde?
– Bem, na igreja, veja bem. Há mulheres na igreja.
– Não gosto de igrejas.
– Ah.
– Escute, por que você não vem para cá, Edna?
– Quer dizer para sua casa?
– Sim. Moro em um lugar legal. Podemos tomar um drinque, conversar. Sem pressão.
– Está tarde.
– Não está tão tarde. Escute, você viu meu aviso. Deve estar interessada.
– Bem...
– Você está com medo, é só isso. Está apenas com medo.
– Não, não estou com medo.
– Então venha pra cá, Edna.
– Bem...
– Venha.
– Certo. Vejo você em quinze minutos.
O apartamento ficava no último andar de um condomínio moderno. Número 17. A piscina abaixo refletia as luzes. Edna bateu. A porta se abriu, e lá estava o sr. Lighthill: entradas frontais, nariz aquilino com pelos que saíam pelas narinas, a camisa aberta na altura do pescoço.
– Entre, Edna...
Entrou, e a porta se fechou atrás dela. Trazia seu vestido azul de seda. Estava sem meias, de sandálias, e fumando um cigarro.
– Sente-se, vou pegar uma bebida para você.
Era um lugar agradável. Tudo nas cores azul e verde e muito limpo. Ela ouviu o sr. Lighthill cantarolar surdamente, enquanto preparava as bebidas, hmmmmmmm, hmmmmmmm, hmmmmmmm... Ele parecia tranquilo e isso a ajudou a descontrair.
O sr. Lighthill – Joe – voltou com as bebidas. Alcançou a Edna a sua e então sentou-se em uma cadeira do outro lado da sala.
– Sim – ele disse –, tem feito muito calor, um calor infernal. Mas tenho ar-condicionado.
– Notei. É muito bom.
– Tome a sua bebida.
– Ah, claro.
Edna tomou um gole. Era uma boa bebida, um pouco forte, mas com um gosto agradável. Observou Joe inclinar a cabeça enquanto bebia. Ele parecia ter rugas profundas em torno do pescoço. E suas calças estavam muito folgadas. Pareciam ser de uma numeração muito maior. Davam a suas pernas uma aparência cômica.
– É um belo vestido, Edna.
– Gosta?
– Oh, sim. Você é bem fornida. O vestido fica muito bem em você, muito bem.
Edna não disse nada. E Joe também não. Apenas permaneceram sentados, olhando um para o outro e bebericando suas bebidas.
Por que ele não fala?, pensou Edna. É ele quem tem de falar. Havia nele algo que lembrava madeira, sim. Ela terminou seu drinque.
– Deixe-me preparar outra bebida para você – disse Joe.
– Não, realmente está na minha hora.
– Ora, vamos lá – ele disse –, deixe-me preparar outra bebida. Precisamos de algo para relaxar.
– Tudo bem, mas depois vou embora.
Joe foi até a cozinha com os copos. Ele não estava mais cantarolando. Voltou, alcançou a Edna um copo e sentou-se novamente em sua cadeira do outro lado da sala, em frente à cadeira dela. A bebida estava ainda mais forte.
– Sabe – ele disse –, me dou bem nesses testes sobre sexo das revistas.
Edna tomou um gole de sua bebida e não respondeu.
– Como você se sai nesses testes? – Joe perguntou.
– Nunca fiz nenhum.
– Deveria, sabe, assim você descobre quem e o que você é.
– Acha que esses testes funcionam? Já vi nos jornais. Nunca fiz nenhum, mas já vi – disse Edna.
– Claro que funcionam.
– Talvez eu não seja boa em sexo – disse Edna –, talvez seja por isso que estou sozinha.
Ela bebeu um longo gole de seu copo.
– Cada um de nós está, no final, sozinho – disse Joe.
– Como assim?
– Quero dizer, não importa quão bem a coisa esteja indo no sexo, no amor ou em ambos, chega um dia em que tudo acaba.
– Isso é triste – disse Edna.
– Claro que é. Então chega o dia em que tudo acaba. Ou há uma separação ou a coisa toda se resolve em uma trégua: duas pessoas vivendo juntas sem sentir nada. Acho que ficar sozinho é melhor.
– Você se divorciou da sua esposa, Joe?
– Não. Ela se divorciou de mim.
– O que deu errado?
– Orgias sexuais.
– Orgias sexuais?
– Veja bem, uma orgia sexual é o lugar mais solitário do mundo. Essas orgias... fiquei com uma sensação de desespero... aqueles caralhos entrando e saindo... me desculpe...
– Tudo bem.
– Aqueles caralhos entrando e saindo, pernas enlaçadas, dedos trabalhando, bocas, todo mundo se agarrando e suando e determinado a fazer a coisa toda... de alguma forma.
– Não sei muito sobre essas coisas, Joe – disse Edna.
– Acho que sem amor, sexo não é nada. As coisas só podem representar alguma coisa quando existe algum sentimento entre os participantes.
– Quer dizer que as pessoas têm que gostar umas das outras?
– Ajuda.
– Imagine que eles se cansem uns dos outros? Imagine que tenham que continuar juntos? Por economia? Filhos? Essas coisas?
– Orgias não os manterão juntos.
– E o que manteria?
– Bem, não sei. Talvez o suingue.
– O suingue?
– Você sabe, quando dois casais se conhecem muito bem e trocam parceiros. Os sentimentos têm, pelo menos, uma chance. Por exemplo, digamos que eu sempre tenha gostado da esposa de Mike. Gosto dela há meses. Já a observei caminhar pela sala. Gosto dos movimentos dela. Os movimentos me deixaram curioso. Imagino, você sabe, o que vem depois desses movimentos. Já a vi braba, já a vi bêbada, já a vi sóbria. E então, vem o suingue. Você está no quarto com ela, finalmente você a está conhecendo. Há uma chance de algo real. É claro, Mike está com a sua esposa no outro quarto. Você pensa: “Boa sorte, Mike, e espero que você seja tão bom amante quanto eu”.
– E isso dá certo?
– Bem, não sei... Suingues podem causar dificuldades... mais tarde. Tudo tem que ser combinado... muito bem combinado, antecipadamente. E então pode ter pessoas que não se conheçam bem o suficiente, não importa quanto tenham conversado.
– Você é um desses, Joe?
– Bem, esse negócio de suingue pode ser bom para alguns... talvez seja bom para muitos. Acho que não daria certo para mim. Sou muito puritano.
Joe terminou sua bebida. Edna bebeu o restante da sua e se levantou.
– Escute, Joe, tenho que ir...
Joe caminhou através da sala na direção dela. Ele parecia um elefante naquelas calças. Ela viu suas orelhas grandes. Então ele a agarrou e começou a beijá-la. Seu mau hálito vencia todas as bebidas. Ele tinha um cheiro muito azedo. Parte de sua boca não estava fazendo contato. Era forte, mas sua força não era pura, sua força claudicava. Ela afastou seu rosto para longe e mesmo assim ele a mantinha presa.
PROCURA-SE MULHER
– Joe, me solta! Você está indo muito rápido, Joe! Me solte!
– Para que você veio aqui, sua puta?
Ele tentou beijá-la novamente e conseguiu. Era horrível. Edna ergueu o joelho. Acertou-o em cheio. Ele se dobrou e caiu no tapete.
– Deus, deus... por que você fez isso? Você tentou me matar...
Ele rolava no chão.
Seu traseiro, ela pensou, ele tinha uma bunda tão feia.
Deixou-o rolando no tapete e desceu as escadas correndo. O ar estava limpo lá fora. Ela ouviu pessoas conversando, ouviu seus aparelhos de televisão. Não era uma caminhada muito longa até seu apartamento. Sentiu necessidade de outro banho, livrou-se do seu vestido de seda azul e se lavou. Então saiu da banheira, secou-se com a toalha e ajeitou os rolos em seus cabelos. Decidiu que nunca mais o veria.
– Ao sul de lugar nenhum
PROCURA-SE MULHER
Ela parou. Havia um grande pedaço de papelão grudado na janela com alguma substância. A maior parte estava datilografada. De onde estava na calçada, Edna não conseguia ler o aviso. Podia apenas ver as letras graúdas:
PROCURA-SE MULHER
Era um carro novo e caro. Edna deu um passo sobre a grama para ler a parte datilografada:
Homem, 49 anos. Divorciado. Procura mulher para casamento. Deve ter entre 35 e 44 anos. Gosta de televisão e películas cinematográficas. Boa comida. Sou especialista em custos de produção, com estabilidade no emprego. Dinheiro no banco. Gosto de mulheres acima do peso.
Edna tinha 37 anos e estava acima do peso. Havia um número de telefone. Também havia três fotos do cavalheiro em busca de uma mulher. Ele parecia bem sério de terno e gravata. Também parecia estúpido e um pouco cruel. E feito de madeira, pensou Edna, feito de madeira.
Edna se afastou, sorrindo um pouco. Sentia também uma espécie de repulsa. Ao chegar ao seu apartamento, ela o tinha esquecido. Apenas algumas horas depois, sentada na banheira, voltou a pensar nele e, dessa vez, pensou em como ele devia estar realmente sozinho para fazer tal coisa:
PROCURA-SE MULHER
Imaginou-o chegando em casa, encontrando as contas de gás e telefone na caixa de correio, despindo-se, tomando um banho, a televisão ligada. Então leria o jornal da tarde. Depois iria para a cozinha preparar sua refeição. De pé, de cuecas, olhando para a frigideira. Pegando sua comida e caminhando para uma mesa, comendo. Bebendo seu café. Então mais televisão. E talvez uma solitária lata de cerveja antes de se deitar. Havia milhões de homens como ele por toda a América.
Edna saiu da banheira, enrolou-se na toalha, vestiu-se e saiu do apartamento. O carro ainda estava lá. Anotou o nome do homem, Joe Lighthill, e o número do telefone. Leu a parte datilografada novamente. “Películas cinematográficas.” Que termo estranho para se usar. Agora as pessoas dizem “filmes”. PROCURA-SE MULHER. O aviso era muito ousado. Estava diante de um sujeito original.
Quando Edna chegou em casa, tomou três xícaras de café antes de discar o número. O telefone chamou quatro vezes.
– Alô? – ele respondeu.
– Sr. Lighthill?
– Sim?
– Vi seu anúncio. Seu anúncio no carro.
– Ah, sim.
– Meu nome é Edna.
– Como vai, Edna?
– Ah, vou bem. Tem feito tanto calor. Esse tempo está demais.
– Sim, nada fácil.
– Bem, sr. Lighthill...
– Me chame apenas de Joe.
– Bem, Joe, rá rá rá, me sinto tão boba. Sabe por que estou telefonando?
– Você viu meu aviso?
– Quero dizer, rá rá rá, o que há de errado com você? Não consegue arranjar uma mulher?
– Acho que não, Edna. Me diga, onde elas estão?
– As mulheres?
– Sim.
– Ah, por toda parte, veja bem.
– Onde? Me diga. Onde?
– Bem, na igreja, veja bem. Há mulheres na igreja.
– Não gosto de igrejas.
– Ah.
– Escute, por que você não vem para cá, Edna?
– Quer dizer para sua casa?
– Sim. Moro em um lugar legal. Podemos tomar um drinque, conversar. Sem pressão.
– Está tarde.
– Não está tão tarde. Escute, você viu meu aviso. Deve estar interessada.
– Bem...
– Você está com medo, é só isso. Está apenas com medo.
– Não, não estou com medo.
– Então venha pra cá, Edna.
– Bem...
– Venha.
– Certo. Vejo você em quinze minutos.
O apartamento ficava no último andar de um condomínio moderno. Número 17. A piscina abaixo refletia as luzes. Edna bateu. A porta se abriu, e lá estava o sr. Lighthill: entradas frontais, nariz aquilino com pelos que saíam pelas narinas, a camisa aberta na altura do pescoço.
– Entre, Edna...
Entrou, e a porta se fechou atrás dela. Trazia seu vestido azul de seda. Estava sem meias, de sandálias, e fumando um cigarro.
– Sente-se, vou pegar uma bebida para você.
Era um lugar agradável. Tudo nas cores azul e verde e muito limpo. Ela ouviu o sr. Lighthill cantarolar surdamente, enquanto preparava as bebidas, hmmmmmmm, hmmmmmmm, hmmmmmmm... Ele parecia tranquilo e isso a ajudou a descontrair.
O sr. Lighthill – Joe – voltou com as bebidas. Alcançou a Edna a sua e então sentou-se em uma cadeira do outro lado da sala.
– Sim – ele disse –, tem feito muito calor, um calor infernal. Mas tenho ar-condicionado.
– Notei. É muito bom.
– Tome a sua bebida.
– Ah, claro.
Edna tomou um gole. Era uma boa bebida, um pouco forte, mas com um gosto agradável. Observou Joe inclinar a cabeça enquanto bebia. Ele parecia ter rugas profundas em torno do pescoço. E suas calças estavam muito folgadas. Pareciam ser de uma numeração muito maior. Davam a suas pernas uma aparência cômica.
– É um belo vestido, Edna.
– Gosta?
– Oh, sim. Você é bem fornida. O vestido fica muito bem em você, muito bem.
Edna não disse nada. E Joe também não. Apenas permaneceram sentados, olhando um para o outro e bebericando suas bebidas.
Por que ele não fala?, pensou Edna. É ele quem tem de falar. Havia nele algo que lembrava madeira, sim. Ela terminou seu drinque.
– Deixe-me preparar outra bebida para você – disse Joe.
– Não, realmente está na minha hora.
– Ora, vamos lá – ele disse –, deixe-me preparar outra bebida. Precisamos de algo para relaxar.
– Tudo bem, mas depois vou embora.
Joe foi até a cozinha com os copos. Ele não estava mais cantarolando. Voltou, alcançou a Edna um copo e sentou-se novamente em sua cadeira do outro lado da sala, em frente à cadeira dela. A bebida estava ainda mais forte.
– Sabe – ele disse –, me dou bem nesses testes sobre sexo das revistas.
Edna tomou um gole de sua bebida e não respondeu.
– Como você se sai nesses testes? – Joe perguntou.
– Nunca fiz nenhum.
– Deveria, sabe, assim você descobre quem e o que você é.
– Acha que esses testes funcionam? Já vi nos jornais. Nunca fiz nenhum, mas já vi – disse Edna.
– Claro que funcionam.
– Talvez eu não seja boa em sexo – disse Edna –, talvez seja por isso que estou sozinha.
Ela bebeu um longo gole de seu copo.
– Cada um de nós está, no final, sozinho – disse Joe.
– Como assim?
– Quero dizer, não importa quão bem a coisa esteja indo no sexo, no amor ou em ambos, chega um dia em que tudo acaba.
– Isso é triste – disse Edna.
– Claro que é. Então chega o dia em que tudo acaba. Ou há uma separação ou a coisa toda se resolve em uma trégua: duas pessoas vivendo juntas sem sentir nada. Acho que ficar sozinho é melhor.
– Você se divorciou da sua esposa, Joe?
– Não. Ela se divorciou de mim.
– O que deu errado?
– Orgias sexuais.
– Orgias sexuais?
– Veja bem, uma orgia sexual é o lugar mais solitário do mundo. Essas orgias... fiquei com uma sensação de desespero... aqueles caralhos entrando e saindo... me desculpe...
– Tudo bem.
– Aqueles caralhos entrando e saindo, pernas enlaçadas, dedos trabalhando, bocas, todo mundo se agarrando e suando e determinado a fazer a coisa toda... de alguma forma.
– Não sei muito sobre essas coisas, Joe – disse Edna.
– Acho que sem amor, sexo não é nada. As coisas só podem representar alguma coisa quando existe algum sentimento entre os participantes.
– Quer dizer que as pessoas têm que gostar umas das outras?
– Ajuda.
– Imagine que eles se cansem uns dos outros? Imagine que tenham que continuar juntos? Por economia? Filhos? Essas coisas?
– Orgias não os manterão juntos.
– E o que manteria?
– Bem, não sei. Talvez o suingue.
– O suingue?
– Você sabe, quando dois casais se conhecem muito bem e trocam parceiros. Os sentimentos têm, pelo menos, uma chance. Por exemplo, digamos que eu sempre tenha gostado da esposa de Mike. Gosto dela há meses. Já a observei caminhar pela sala. Gosto dos movimentos dela. Os movimentos me deixaram curioso. Imagino, você sabe, o que vem depois desses movimentos. Já a vi braba, já a vi bêbada, já a vi sóbria. E então, vem o suingue. Você está no quarto com ela, finalmente você a está conhecendo. Há uma chance de algo real. É claro, Mike está com a sua esposa no outro quarto. Você pensa: “Boa sorte, Mike, e espero que você seja tão bom amante quanto eu”.
– E isso dá certo?
– Bem, não sei... Suingues podem causar dificuldades... mais tarde. Tudo tem que ser combinado... muito bem combinado, antecipadamente. E então pode ter pessoas que não se conheçam bem o suficiente, não importa quanto tenham conversado.
– Você é um desses, Joe?
– Bem, esse negócio de suingue pode ser bom para alguns... talvez seja bom para muitos. Acho que não daria certo para mim. Sou muito puritano.
Joe terminou sua bebida. Edna bebeu o restante da sua e se levantou.
– Escute, Joe, tenho que ir...
Joe caminhou através da sala na direção dela. Ele parecia um elefante naquelas calças. Ela viu suas orelhas grandes. Então ele a agarrou e começou a beijá-la. Seu mau hálito vencia todas as bebidas. Ele tinha um cheiro muito azedo. Parte de sua boca não estava fazendo contato. Era forte, mas sua força não era pura, sua força claudicava. Ela afastou seu rosto para longe e mesmo assim ele a mantinha presa.
PROCURA-SE MULHER
– Joe, me solta! Você está indo muito rápido, Joe! Me solte!
– Para que você veio aqui, sua puta?
Ele tentou beijá-la novamente e conseguiu. Era horrível. Edna ergueu o joelho. Acertou-o em cheio. Ele se dobrou e caiu no tapete.
– Deus, deus... por que você fez isso? Você tentou me matar...
Ele rolava no chão.
Seu traseiro, ela pensou, ele tinha uma bunda tão feia.
Deixou-o rolando no tapete e desceu as escadas correndo. O ar estava limpo lá fora. Ela ouviu pessoas conversando, ouviu seus aparelhos de televisão. Não era uma caminhada muito longa até seu apartamento. Sentiu necessidade de outro banho, livrou-se do seu vestido de seda azul e se lavou. Então saiu da banheira, secou-se com a toalha e ajeitou os rolos em seus cabelos. Decidiu que nunca mais o veria.
– Ao sul de lugar nenhum
2 143
Charles Bukowski
Você e a Sua Cerveja e o Quão Maravilhoso você é
Jack entrou e encontrou o maço de cigarros junto à lareira. Ann estava no sofá lendo um exemplar da Cosmopolitan. Jack acendeu um cigarro e sentou-se. Faltavam dez minutos para a meia-noite.
– Charley disse para você não fumar – disse Ann, levantando os olhos da revista.
– Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
– Ganhou?
– Não foi unânime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli é o próximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
– Charley me disse pra manter você longe da cerveja – disse Ann enquanto baixava a revista.
– Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
– Tem de manter a forma.
– Não importa. Surro qualquer um deles.
– Você é tão bom... Quando você se embebeda, tenho que ficar ouvindo “como você é bom”. É de dar nos nervos.
– Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem é melhor?
Ann não respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
– Você nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que você fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. Tão bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calções pelos tornozelos.
– Pelo amor de Deus, Ann, não dá pra deixar nem um rolo de papel higiênico aqui?
– Desculpa.
Foi até o armário e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
– Aqui está você, vivendo com o melhor peso médio do mundo e tudo que faz é reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que você faz é ficar sentada e reclamar.
– Sei que você é bom, Jack, talvez até seja o melhor, mas você não faz ideia de como é entediante ficar sentada e ouvir você dizer mais e mais uma vez o quão maravilhoso você é.
– Oh, então você está entediada, é isso?
– Sim, porra, você e a sua cerveja e o quão maravilhoso você é.
– Diga o nome de um peso médio que seja melhor. Você nem mesmo vai às minhas lutas.
– Existem outras coisas além de lutar, Jack.
– Como o quê? Passar o dia com essa bunda no sofá lendo Cosmopolitan?
– Gosto de exercitar a mente.
– E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
– Estou dizendo que existem outras coisas além de lutar.
– Como o que, por exemplo?
– Bem, arte, música, pintura, coisas desse tipo.
– E você sabe fazer alguma delas?
– Não, mas aprecio.
– Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
– Bom, melhor, o único... Deus, você não consegue apreciar as pessoas pelo que elas são?
– Pelo que elas são? O que a maioria delas é? Lesmas, sanguessugas, dândis, dedos-duros, cafetões, empregados...
– Você está sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos é bom o suficiente. Você é o fodão!
– Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
– Você e a sua maldita cerveja!
– É um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
– Charley disse...
– Quero que Charley se foda!
– Você é o melhor!
– Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que você faz é reclamar.
– Bem, por que você não volta pra ela? O que está fazendo aqui comigo?
– Era bem nisso que estava pensando.
– Bem, não somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
– Isso é o que está nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e você nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que você faz é reclamar de mim.
– Escute, Jack, existe mais na vida além de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que você era.
– Eu era um lutador. Não existe nenhuma outra coisa além de lutar. Isso é o que sou: um lutador. Essa é a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que você sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
– Toby é muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
– Sua marca são nove vitórias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bêbado.
– E Deus sabe que você fica podre de bêbado frequentemente. Como você acha que me sinto nas festas quando você está caindo de bêbado, rolando no chão, quando não está se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo “SOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!”? Não acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
– Talvez você seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que não vai ficar com ele?
– Ah, só disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso não quer dizer que quero ir para a cama com ele.
– Bem, você vai pra cama comigo e diz que sou entediante. Não sei o que diabos você quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofá, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
– Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. Até você teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase não consigo me levantar quando a contagem já estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sétimo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no décimo. Não acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juízes acharam que era. Venci, mas não foi unânime. Bem, são 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou ótimo. Não dá pra negar. Sou muito bom. Dá pra negar?
Ann não respondeu.
– Vamos, diz que eu sou o melhor.
– Está bem, você é o melhor.
– Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
– Sinto que sou tão bom. Boxe é uma obra de arte, realmente é. É preciso ter coragem para ser um grande artista e é preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
– Tudo bem, Jack.
– Tudo bem, Jack? É tudo que você tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. Ficávamos ambos felizes a noite inteira. Você não pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, você está apaixonada por mim ou está apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que você seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
– Quero que você vença, Jack, é só que você põe muita ênfase no que faz...
– Porra, é o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. É como voar, é como sair voando pelo céu espancando o sol.
– O que você vai fazer quando não puder mais lutar?
– Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
– Menos nos dar bem, talvez.
– Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
– Bem, há espaço para melhorias.
– Vai se foder!
– Quê?
– Vai se foder!
– Bem, é algo que você não faz já há algum tempo.
– Alguns caras gostam de foder mulheres que não param de reclamar, eu não gosto.
– Imagino que Pattie não reclamava?
– Todas reclamam, mas você é a campeã.
– Bem, por que não volta para Pattie?
– Você está aqui agora. Só posso hospedar uma puta de cada vez.
– Puta?
– Puta.
Ann se levantou e foi até o armário, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi até a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fúria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uísque, precisava de uma garrafa de uísque. E de um bom charuto.
– Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando você não estiver por aqui.
– Não se preocupe. Mando pra você.
Ela parou junto à porta.
– Bem, imagino que seja o fim – ela disse.
– Creio que sim – respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrão. Jack terminou sua cerveja e foi até o telefone. Discou o número de Pattie. Ela atendeu.
– Pattie?
– Oi, Jack, como tem passado?
– Ganhei uma grande essa noite. Não foi unânime. Tudo que tenho que fazer é passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
– Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que você consegue.
– O que vai fazer essa noite, Pattie?
– É uma da manhã, Jack. Andou bebendo?
– Um pouco. Estou comemorando.
– E Ann?
– Brigamos. Só ando com uma mulher por vez, você sabe disso, Pattie.
– Jack...
– Quê?
– Estou com um cara.
– Um cara?
– Toby Jorgenson. Ele está no banheiro...
– Oh, sinto muito.
– Também sinto muito, Jack. Eu amava você... talvez ainda ame.
– Merda, vocês mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aí...
– Sinto muito, Jack.
– Tudo bem.
Ele desligou. Então foi até o armário pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi até o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilômetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. Então, no caixa, pediu ao funcionário por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionário estava somando as compras, um bêbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
– Ei, cara! – ele disse a Jack. – Você não é Jack Backenweld, o lutador?
– Sou – respondeu Jack.
– Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, você tem colhões. Você é realmente bom!
– Obrigado, cara – respondeu ao bêbado e então pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lá, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. Então voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uísque e mostrou a ela.
– Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
– Vou ajudar você a beber isso, senhor, mas nada além disso.
– Claro que não – disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilômetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
– Você tem um cigarro, senhor? – ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mão, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e então acendeu o fogo para ela.
– Ao sul de lugar nenhum
– Charley disse para você não fumar – disse Ann, levantando os olhos da revista.
– Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
– Ganhou?
– Não foi unânime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli é o próximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
– Charley me disse pra manter você longe da cerveja – disse Ann enquanto baixava a revista.
– Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
– Tem de manter a forma.
– Não importa. Surro qualquer um deles.
– Você é tão bom... Quando você se embebeda, tenho que ficar ouvindo “como você é bom”. É de dar nos nervos.
– Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem é melhor?
Ann não respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
– Você nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que você fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. Tão bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calções pelos tornozelos.
– Pelo amor de Deus, Ann, não dá pra deixar nem um rolo de papel higiênico aqui?
– Desculpa.
Foi até o armário e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
– Aqui está você, vivendo com o melhor peso médio do mundo e tudo que faz é reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que você faz é ficar sentada e reclamar.
– Sei que você é bom, Jack, talvez até seja o melhor, mas você não faz ideia de como é entediante ficar sentada e ouvir você dizer mais e mais uma vez o quão maravilhoso você é.
– Oh, então você está entediada, é isso?
– Sim, porra, você e a sua cerveja e o quão maravilhoso você é.
– Diga o nome de um peso médio que seja melhor. Você nem mesmo vai às minhas lutas.
– Existem outras coisas além de lutar, Jack.
– Como o quê? Passar o dia com essa bunda no sofá lendo Cosmopolitan?
– Gosto de exercitar a mente.
– E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
– Estou dizendo que existem outras coisas além de lutar.
– Como o que, por exemplo?
– Bem, arte, música, pintura, coisas desse tipo.
– E você sabe fazer alguma delas?
– Não, mas aprecio.
– Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
– Bom, melhor, o único... Deus, você não consegue apreciar as pessoas pelo que elas são?
– Pelo que elas são? O que a maioria delas é? Lesmas, sanguessugas, dândis, dedos-duros, cafetões, empregados...
– Você está sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos é bom o suficiente. Você é o fodão!
– Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
– Você e a sua maldita cerveja!
– É um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
– Charley disse...
– Quero que Charley se foda!
– Você é o melhor!
– Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que você faz é reclamar.
– Bem, por que você não volta pra ela? O que está fazendo aqui comigo?
– Era bem nisso que estava pensando.
– Bem, não somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
– Isso é o que está nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e você nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que você faz é reclamar de mim.
– Escute, Jack, existe mais na vida além de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que você era.
– Eu era um lutador. Não existe nenhuma outra coisa além de lutar. Isso é o que sou: um lutador. Essa é a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que você sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
– Toby é muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
– Sua marca são nove vitórias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bêbado.
– E Deus sabe que você fica podre de bêbado frequentemente. Como você acha que me sinto nas festas quando você está caindo de bêbado, rolando no chão, quando não está se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo “SOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!”? Não acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
– Talvez você seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que não vai ficar com ele?
– Ah, só disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso não quer dizer que quero ir para a cama com ele.
– Bem, você vai pra cama comigo e diz que sou entediante. Não sei o que diabos você quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofá, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
– Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. Até você teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase não consigo me levantar quando a contagem já estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sétimo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no décimo. Não acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juízes acharam que era. Venci, mas não foi unânime. Bem, são 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou ótimo. Não dá pra negar. Sou muito bom. Dá pra negar?
Ann não respondeu.
– Vamos, diz que eu sou o melhor.
– Está bem, você é o melhor.
– Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
– Sinto que sou tão bom. Boxe é uma obra de arte, realmente é. É preciso ter coragem para ser um grande artista e é preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
– Tudo bem, Jack.
– Tudo bem, Jack? É tudo que você tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. Ficávamos ambos felizes a noite inteira. Você não pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, você está apaixonada por mim ou está apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que você seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
– Quero que você vença, Jack, é só que você põe muita ênfase no que faz...
– Porra, é o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. É como voar, é como sair voando pelo céu espancando o sol.
– O que você vai fazer quando não puder mais lutar?
– Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
– Menos nos dar bem, talvez.
– Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
– Bem, há espaço para melhorias.
– Vai se foder!
– Quê?
– Vai se foder!
– Bem, é algo que você não faz já há algum tempo.
– Alguns caras gostam de foder mulheres que não param de reclamar, eu não gosto.
– Imagino que Pattie não reclamava?
– Todas reclamam, mas você é a campeã.
– Bem, por que não volta para Pattie?
– Você está aqui agora. Só posso hospedar uma puta de cada vez.
– Puta?
– Puta.
Ann se levantou e foi até o armário, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi até a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fúria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uísque, precisava de uma garrafa de uísque. E de um bom charuto.
– Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando você não estiver por aqui.
– Não se preocupe. Mando pra você.
Ela parou junto à porta.
– Bem, imagino que seja o fim – ela disse.
– Creio que sim – respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrão. Jack terminou sua cerveja e foi até o telefone. Discou o número de Pattie. Ela atendeu.
– Pattie?
– Oi, Jack, como tem passado?
– Ganhei uma grande essa noite. Não foi unânime. Tudo que tenho que fazer é passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
– Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que você consegue.
– O que vai fazer essa noite, Pattie?
– É uma da manhã, Jack. Andou bebendo?
– Um pouco. Estou comemorando.
– E Ann?
– Brigamos. Só ando com uma mulher por vez, você sabe disso, Pattie.
– Jack...
– Quê?
– Estou com um cara.
– Um cara?
– Toby Jorgenson. Ele está no banheiro...
– Oh, sinto muito.
– Também sinto muito, Jack. Eu amava você... talvez ainda ame.
– Merda, vocês mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aí...
– Sinto muito, Jack.
– Tudo bem.
Ele desligou. Então foi até o armário pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi até o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilômetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. Então, no caixa, pediu ao funcionário por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionário estava somando as compras, um bêbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
– Ei, cara! – ele disse a Jack. – Você não é Jack Backenweld, o lutador?
– Sou – respondeu Jack.
– Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, você tem colhões. Você é realmente bom!
– Obrigado, cara – respondeu ao bêbado e então pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lá, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. Então voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uísque e mostrou a ela.
– Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
– Vou ajudar você a beber isso, senhor, mas nada além disso.
– Claro que não – disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilômetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
– Você tem um cigarro, senhor? – ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mão, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e então acendeu o fogo para ela.
– Ao sul de lugar nenhum
1 272
Charles Bukowski
Nenhum Caminho Para o Paraíso
Eu estava sentado em um bar na avenida Western. Era perto da meia-noite e estava metido em uma das minhas habituais confusões. Quero dizer, você sabe, nada dá certo: as mulheres, os trabalhos, a falta de trabalhos, o tempo, os cães. Por fim, você simplesmente senta em uma espécie de estado de transe e espera como se estivesse no banco da parada de ônibus aguardando a morte.
Bem, estava sentado lá e então chega essa mulher com cabelo preto e longo, bom corpo, olhos castanhos e tristes. Não me virei para olhá-la. Ignorei-a, mesmo ela tendo sentado no banco ao lado do meu, quando havia uma dúzia de outros lugares vagos. Na verdade, éramos os únicos no bar, exceto pelo balconista. Ela pediu um vinho seco. Depois me perguntou o que eu estava bebendo.
– Scotch com água.
– Dê-lhe um scotch com água – ela disse ao balconista.
Bem, isso era incomum.
Abriu a bolsa, removeu uma pequena gaiola de arame e tirou algumas pessoas pequenas e as colocou no balcão. Tinham todos aproximadamente dez centímetros de altura e estavam vivos e bem vestidos. Havia quatro deles, dois homens e duas mulheres.
– Fazem desses agora – ela disse. – São muito caros. Custaram quase dois mil dólares cada um quando comprei. Agora já estão chegando aos 2.400 dólares. Não sei como são feitos, mas provavelmente é coisa fora da lei.
As pessoas em miniatura estavam caminhando por cima do balcão. Repentinamente um dos pequenos homens deu um tapa na cara de uma das pequenas mulheres.
– Sua vagabunda – ele disse –, já chega!
– Não, George, você não pode – ela gritou –, eu te amo! Vou me matar! Tenho que ter você!
– Não me importo! – disse o pequeno sujeito e puxou um cigarrinho e o acendeu. – Tenho o direito de viver.
– Se você não a quer – disse o outro sujeitinho –, fico com ela, eu a amo.
– Mas não quero você, Marty. Estou apaixonada pelo George.
– Mas ele é um idiota, Anna, um idiota completo!
– Eu sei, mas o amo de qualquer forma.
O idiotinha caminhou pelo balcão e beijou a outra mulherzinha.
– Estou com um triângulo amoroso em andamento – disse a mulher que havia me pagado uma bebida. – Esses são Marty e George e Anna e Ruthie. George vai se dar mal, muito mal. Marty é meio quadrado.
– Não é triste ver tudo isso? Errr, qual o seu nome?
– Dawn.[13] É um nome terrível. Mas é o que as mães fazem com suas crianças às vezes.
– O meu é Hank. Mas não é triste...
– Não, não é triste observar isso tudo. Não tive muita sorte com os meus próprios amores, péssima sorte, aliás...
– Passa o mesmo com todos nós.
– Parece que sim. De qualquer forma, comprei essas pessoinhas e agora fico olhando pra elas. E é como ter e não ter esses problemas. Mas fico muito excitada quando começam a fazer amor. É aí que fica difícil.
– São excitantes?
– Muito, muito excitantes. Meu Deus, me deixam louca!
– Por que você não os obriga a fazer sexo? Quero dizer agora. Ficaremos olhando juntos.
– Não se pode forçá-los. Têm de fazer por conta própria.
– Com que frequência acontece?
– Oh, eles são bem bons. Quatro ou cinco vezes por semana.
Estavam caminhando pelo balcão.
– Escute – disse Marty –, me dê uma chance. Apenas uma chance, Anna.
– Não – disse Anna. – Meu coração pertence ao George. Não pode ser de nenhuma outra maneira.
George estava beijando Ruthie, apalpando seus peitos. Ruthie estava ficando excitada.
– Ruthie está ficando excitada – eu disse a Dawn.
– Está, está mesmo.
Eu também estava ficando. Agarrei Dawn e a beijei.
– Escute – ela disse. – Não gosto que eles façam sexo em público. Vou levá-los para casa e colocá-los para transar.
– Mas aí não poderei olhar.
– Bem, terá que vir comigo.
– Tudo bem – respondi. – Vamos lá.
Acabei minha bebida e saímos juntos. Ela carregava as criaturas em uma pequena gaiola de arame. Entramos no carro dela e colocamos o pessoal entre nós, no banco da frente. Olhei para Dawn. Era realmente jovem e bonita. Parecia ser boa também por dentro. Como podia ter fracassado com os homens? Há tantas maneiras de as coisas saírem erradas. Os quatro pequenos custaram-na oito mil. Tudo isso para se afastar de relacionamentos e na verdade não se afastar de relacionamentos.
A casa era perto dos morros, um lugar com uma aparência agradável. Descemos do carro e caminhamos até a porta. Segurei a gaiola com os pequenos enquanto ela abria a porta.
– Ouvi Randy Newman semana passada no The Troubador. – Ele não é ótimo? – perguntou.
– Sim, é ótimo.
Entramos na sala, e Dawn tirou os pequenos da gaiola e os colocou em uma mesinha. Então caminhou até a cozinha, abriu o refrigerador e pegou uma garrafa de vinho. Trouxe dois copos.
– Perdão – ela disse. – Mas você parece um pouco louco. O que você faz?
– Sou escritor.
– E irá escrever sobre isso?
– Ninguém jamais acreditará, mas vou.
– Olha – disse Dawn. – George tirou as calcinhas de Ruthie. Ele está enfiando os dedos nela. Gelo?
– Sim, está fazendo isso. Não, sem gelo. Puro está ótimo.
– Não sei o que acontece – disse Dawn –, mas fico realmente excitada quando os observo. Talvez seja porque são tão pequenos. Realmente me excita.
– Entendo o que quer dizer.
– Olhe, o George está chupando ela.
– É mesmo.
– Olhe pra eles!
– Deus do céu!
Agarrei Dawn. Ficamos ali em pé nos beijando. Enquanto isso, seus olhos iam dos meus para eles e novamente para os meus.
O pequeno Marty e a pequena Anna também estavam olhando.
– Olhe – disse Marty –, eles vão trepar. Nós bem que podíamos trepar também. Até os grandes vão transar. Olhe pra eles!
– Você ouviu isso? – perguntei a Dawn. – Eles disseram que nós vamos trepar. É verdade?
– Espero que sim – disse Dawn.
Levei-a para o sofá e levantei o vestido acima da cintura. Beijei seu pescoço.
– Eu te amo – eu disse.
– Mesmo? Ama?
– Sim, de alguma forma, sim...
– Tudo bem – disse a pequena Anna ao pequeno Marty. – Também podemos trepar, mesmo que eu não ame você.
Eles se abraçaram no meio da mesinha. Eu já tinha tirado as calcinhas de Dawn. Ela gemia. Ruthie gemia. Marty se aproximava de Anna. Estava acontecendo por toda parte. Tive a ideia de que todas as pessoas no mundo estavam trepando. Então esqueci do resto do mundo. De alguma forma fomos para o quarto. Então penetrei Dawn para a longa e lenta cavalgada.
Quando ela saiu do banheiro, eu estava lendo uma história muito idiota na Playboy.
– Foi tão bom – ela disse.
– O prazer foi meu – respondi.
Ela voltou para a cama. Pus a revista de lado.
– Acha que daremos certo juntos? – perguntou.
– O que quer dizer?
– Acha que vamos conseguir ficar juntos por algum tempo?
– Não sei. Coisas acontecem. O começo é sempre mais fácil.
Então ouvimos um grito vindo da sala.
– Ai, ai – ela disse.
Saltou da cama e correu para a sala. Segui logo atrás. Quando cheguei lá, ela estava segurando George nas mãos.
– Oh, meu Deus!
– O que aconteceu?
– Foi a Anna!
– O que tem a Anna?
– Cortou fora as bolas dele! George é um eunuco!
– Uau!
– Pegue papel higiênico, rápido! Ele pode sangrar até morrer!
– Esse filho da puta – disse Anna da mesinha –, se não posso ter o George, ninguém mais terá.
– Agora vocês duas são minhas! – disse Marty.
– Não, agora você tem que escolher uma de nós – disse Anna.
– Então, com qual vai ficar? – perguntou Ruthie.
– Amo as duas – disse Marty.
– Parou de sangrar – disse Dawn. – Ele está frio.
Ela embrulhou George em um lenço e o colocou sobre a borda da lareira.
– Quero dizer – seguiu Dawn – que se você acha que não daremos certo, não vou insistir.
– Acho que amo você, Dawn.
– Olhe – ela disse. – Marty está abraçando Ruthie!
– Vão trepar?
– Não sei. Parecem excitados.
Dawn pegou Anna e a colocou na gaiola de arame.
– Deixe-me sair daqui! Vou matar os dois! Deixe-me sair daqui!
George gemeu de dentro do lenço sobre a borda. Marty já tirara as calcinhas de Ruthie. Puxei Dawn para perto de mim. Era bonita e jovem e boa por dentro. Eu podia estar apaixonado novamente. Era possível, nos beijamos. Mergulhei fundo em seus olhos. Então emergi e comecei a correr. Eu sabia onde estava. Uma barata e uma águia faziam amor. O tempo era um idiota com um banjo na mão. Continuei correndo. Seu cabelo longo caía sobre meu rosto.
– Vou matar todo mundo! – gritava a pequena Anna. Agitava-se na gaiola de arame às três horas da manhã.
– Ao sul de lugar nenhum
Bem, estava sentado lá e então chega essa mulher com cabelo preto e longo, bom corpo, olhos castanhos e tristes. Não me virei para olhá-la. Ignorei-a, mesmo ela tendo sentado no banco ao lado do meu, quando havia uma dúzia de outros lugares vagos. Na verdade, éramos os únicos no bar, exceto pelo balconista. Ela pediu um vinho seco. Depois me perguntou o que eu estava bebendo.
– Scotch com água.
– Dê-lhe um scotch com água – ela disse ao balconista.
Bem, isso era incomum.
Abriu a bolsa, removeu uma pequena gaiola de arame e tirou algumas pessoas pequenas e as colocou no balcão. Tinham todos aproximadamente dez centímetros de altura e estavam vivos e bem vestidos. Havia quatro deles, dois homens e duas mulheres.
– Fazem desses agora – ela disse. – São muito caros. Custaram quase dois mil dólares cada um quando comprei. Agora já estão chegando aos 2.400 dólares. Não sei como são feitos, mas provavelmente é coisa fora da lei.
As pessoas em miniatura estavam caminhando por cima do balcão. Repentinamente um dos pequenos homens deu um tapa na cara de uma das pequenas mulheres.
– Sua vagabunda – ele disse –, já chega!
– Não, George, você não pode – ela gritou –, eu te amo! Vou me matar! Tenho que ter você!
– Não me importo! – disse o pequeno sujeito e puxou um cigarrinho e o acendeu. – Tenho o direito de viver.
– Se você não a quer – disse o outro sujeitinho –, fico com ela, eu a amo.
– Mas não quero você, Marty. Estou apaixonada pelo George.
– Mas ele é um idiota, Anna, um idiota completo!
– Eu sei, mas o amo de qualquer forma.
O idiotinha caminhou pelo balcão e beijou a outra mulherzinha.
– Estou com um triângulo amoroso em andamento – disse a mulher que havia me pagado uma bebida. – Esses são Marty e George e Anna e Ruthie. George vai se dar mal, muito mal. Marty é meio quadrado.
– Não é triste ver tudo isso? Errr, qual o seu nome?
– Dawn.[13] É um nome terrível. Mas é o que as mães fazem com suas crianças às vezes.
– O meu é Hank. Mas não é triste...
– Não, não é triste observar isso tudo. Não tive muita sorte com os meus próprios amores, péssima sorte, aliás...
– Passa o mesmo com todos nós.
– Parece que sim. De qualquer forma, comprei essas pessoinhas e agora fico olhando pra elas. E é como ter e não ter esses problemas. Mas fico muito excitada quando começam a fazer amor. É aí que fica difícil.
– São excitantes?
– Muito, muito excitantes. Meu Deus, me deixam louca!
– Por que você não os obriga a fazer sexo? Quero dizer agora. Ficaremos olhando juntos.
– Não se pode forçá-los. Têm de fazer por conta própria.
– Com que frequência acontece?
– Oh, eles são bem bons. Quatro ou cinco vezes por semana.
Estavam caminhando pelo balcão.
– Escute – disse Marty –, me dê uma chance. Apenas uma chance, Anna.
– Não – disse Anna. – Meu coração pertence ao George. Não pode ser de nenhuma outra maneira.
George estava beijando Ruthie, apalpando seus peitos. Ruthie estava ficando excitada.
– Ruthie está ficando excitada – eu disse a Dawn.
– Está, está mesmo.
Eu também estava ficando. Agarrei Dawn e a beijei.
– Escute – ela disse. – Não gosto que eles façam sexo em público. Vou levá-los para casa e colocá-los para transar.
– Mas aí não poderei olhar.
– Bem, terá que vir comigo.
– Tudo bem – respondi. – Vamos lá.
Acabei minha bebida e saímos juntos. Ela carregava as criaturas em uma pequena gaiola de arame. Entramos no carro dela e colocamos o pessoal entre nós, no banco da frente. Olhei para Dawn. Era realmente jovem e bonita. Parecia ser boa também por dentro. Como podia ter fracassado com os homens? Há tantas maneiras de as coisas saírem erradas. Os quatro pequenos custaram-na oito mil. Tudo isso para se afastar de relacionamentos e na verdade não se afastar de relacionamentos.
A casa era perto dos morros, um lugar com uma aparência agradável. Descemos do carro e caminhamos até a porta. Segurei a gaiola com os pequenos enquanto ela abria a porta.
– Ouvi Randy Newman semana passada no The Troubador. – Ele não é ótimo? – perguntou.
– Sim, é ótimo.
Entramos na sala, e Dawn tirou os pequenos da gaiola e os colocou em uma mesinha. Então caminhou até a cozinha, abriu o refrigerador e pegou uma garrafa de vinho. Trouxe dois copos.
– Perdão – ela disse. – Mas você parece um pouco louco. O que você faz?
– Sou escritor.
– E irá escrever sobre isso?
– Ninguém jamais acreditará, mas vou.
– Olha – disse Dawn. – George tirou as calcinhas de Ruthie. Ele está enfiando os dedos nela. Gelo?
– Sim, está fazendo isso. Não, sem gelo. Puro está ótimo.
– Não sei o que acontece – disse Dawn –, mas fico realmente excitada quando os observo. Talvez seja porque são tão pequenos. Realmente me excita.
– Entendo o que quer dizer.
– Olhe, o George está chupando ela.
– É mesmo.
– Olhe pra eles!
– Deus do céu!
Agarrei Dawn. Ficamos ali em pé nos beijando. Enquanto isso, seus olhos iam dos meus para eles e novamente para os meus.
O pequeno Marty e a pequena Anna também estavam olhando.
– Olhe – disse Marty –, eles vão trepar. Nós bem que podíamos trepar também. Até os grandes vão transar. Olhe pra eles!
– Você ouviu isso? – perguntei a Dawn. – Eles disseram que nós vamos trepar. É verdade?
– Espero que sim – disse Dawn.
Levei-a para o sofá e levantei o vestido acima da cintura. Beijei seu pescoço.
– Eu te amo – eu disse.
– Mesmo? Ama?
– Sim, de alguma forma, sim...
– Tudo bem – disse a pequena Anna ao pequeno Marty. – Também podemos trepar, mesmo que eu não ame você.
Eles se abraçaram no meio da mesinha. Eu já tinha tirado as calcinhas de Dawn. Ela gemia. Ruthie gemia. Marty se aproximava de Anna. Estava acontecendo por toda parte. Tive a ideia de que todas as pessoas no mundo estavam trepando. Então esqueci do resto do mundo. De alguma forma fomos para o quarto. Então penetrei Dawn para a longa e lenta cavalgada.
Quando ela saiu do banheiro, eu estava lendo uma história muito idiota na Playboy.
– Foi tão bom – ela disse.
– O prazer foi meu – respondi.
Ela voltou para a cama. Pus a revista de lado.
– Acha que daremos certo juntos? – perguntou.
– O que quer dizer?
– Acha que vamos conseguir ficar juntos por algum tempo?
– Não sei. Coisas acontecem. O começo é sempre mais fácil.
Então ouvimos um grito vindo da sala.
– Ai, ai – ela disse.
Saltou da cama e correu para a sala. Segui logo atrás. Quando cheguei lá, ela estava segurando George nas mãos.
– Oh, meu Deus!
– O que aconteceu?
– Foi a Anna!
– O que tem a Anna?
– Cortou fora as bolas dele! George é um eunuco!
– Uau!
– Pegue papel higiênico, rápido! Ele pode sangrar até morrer!
– Esse filho da puta – disse Anna da mesinha –, se não posso ter o George, ninguém mais terá.
– Agora vocês duas são minhas! – disse Marty.
– Não, agora você tem que escolher uma de nós – disse Anna.
– Então, com qual vai ficar? – perguntou Ruthie.
– Amo as duas – disse Marty.
– Parou de sangrar – disse Dawn. – Ele está frio.
Ela embrulhou George em um lenço e o colocou sobre a borda da lareira.
– Quero dizer – seguiu Dawn – que se você acha que não daremos certo, não vou insistir.
– Acho que amo você, Dawn.
– Olhe – ela disse. – Marty está abraçando Ruthie!
– Vão trepar?
– Não sei. Parecem excitados.
Dawn pegou Anna e a colocou na gaiola de arame.
– Deixe-me sair daqui! Vou matar os dois! Deixe-me sair daqui!
George gemeu de dentro do lenço sobre a borda. Marty já tirara as calcinhas de Ruthie. Puxei Dawn para perto de mim. Era bonita e jovem e boa por dentro. Eu podia estar apaixonado novamente. Era possível, nos beijamos. Mergulhei fundo em seus olhos. Então emergi e comecei a correr. Eu sabia onde estava. Uma barata e uma águia faziam amor. O tempo era um idiota com um banjo na mão. Continuei correndo. Seu cabelo longo caía sobre meu rosto.
– Vou matar todo mundo! – gritava a pequena Anna. Agitava-se na gaiola de arame às três horas da manhã.
– Ao sul de lugar nenhum
1 252
Charles Bukowski
Quem, Diabos, É Tom Jones?
por duas semanas
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[15].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[15].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
1 101
Charles Bukowski
O Pior E o Melhor
nos hospitais e nas cadeias
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.
O carteiro favorito de Stone era Matthew Battles. Battles nunca aparecia com um amassadinho na camisa. De fato, tudo o que ele usava era novo, parecia novo. Os sapatos, as camisas, as calças, o quepe. Seus sapatos brilhavam de verdade e nenhuma de suas roupas parecia ter sido lavada mais do que uma vez. Assim que uma camisa ou um par de calças apresentavam algum sinal de uso, ele os jogava fora.
Quando Matthew passava, o Stone frequentemente nos dizia:
– Olhem bem, isso sim é um carteiro!
E o Stone dizia aquilo a sério. Seus olhos quase faiscavam de amor.
E Matthew ficava lá em pé em frente à sua caixa, limpo e ereto, penteado e com um rosto descansado, os sapatos brilhando de um jeito vitorioso, jogando suas cartas com alegria.
– Você é um autêntico carteiro, Matthew!
– Obrigado, sr. Jonstone!
Certa vez, às cinco da manhã, entrei e fiquei esperando bem atrás do Stone. Ele parecia um pouco curvo debaixo de sua camisa vermelha.
Moto estava ao meu lado. Ele me disse:
– Flagraram o Matthew ontem.
– Flagraram ele?
– É, ele andava abrindo as correspondências. Tirava o dinheiro das cartas para o Templo Nekalayla. Depois de quinze anos de serviço.
– Como descobriram?
– Graças a umas senhoras. As velhas mandavam donativos em dinheiro para o Nekalayla e não estavam recebendo nem um cartão de agradecimento. Nekalayla avisou os Correios e os Correios ficaram de olho em Matthew. Pegaram ele tirando o dinheiro das cartas no banheiro.
– Não brinca?
– Sério. Foi pego em plena luz do dia.
Encostei-me na parede.
Nekalayla tinha construído um enorme templo, pintando-o de um verde horrendo, acho que aquele verde lhe lembrava a cor de dinheiro, e tinha um escritório com uma equipe de trinta ou quarenta pessoas que não faziam nada além de abrir envelopes, retirar os cheques e o dinheiro, registrar o montante, o nome do remetente, a data e assim por diante. Outros se ocupavam enviando livros e panfletos escritos por Nekalayla, sua foto estava na parede, uma foto enorme dele com roupas religiosas e barba, havia também um quadro muito grande de N., voltado para o escritório, como se vigiasse a todos.
Nekalayla declarava que certa vez, em suas andanças pelo deserto, encontrou Jesus Cristo e que Ele tinha lhe contado tudo. Sentaram juntos numa pedra, e J.C. foi desembuchando tudo. Agora ele transmitia os segredos para os que pudessem pagar por eles. Também celebrava uma cerimônia todo domingo. Seus ajudantes, que eram também seus seguidores, viviam tocando sinos e campainhas.
Imagine Matthew Battles tentando sacanear Nekalayla, o mesmo cara que tinha se encontrado com Jesus Cristo num deserto!
– Alguém já comentou algo com o Stone? – perguntei.
– Você está brincando?
Ficamos sentados por mais ou menos uma hora. Um estagiário foi designado para substituir o Matthew. Os outros foram escalados pra outros serviços. Fiquei sentado sozinho atrás do Stone. Então levantei e fui até sua mesa.
– Sr. Jonstone?
– Sim, Chinaski?
– Onde está Matthew hoje? Doente?
O Stone baixou a cabeça. Olhou o jornal que tinha nas mãos e fingiu continuar a sua leitura. Voltei para o meu lugar e me sentei.
Às sete da manhã, o Stone se virou:
– Não há nada pra você hoje, Chinaski!
Levantei e fui em direção à porta. Parei bem ali.
– Bom dia, sr. Jonstone. Tenha um bom dia.
Ele não respondeu. Desci até a loja de bebidas e comprei uma garrafinha de Grandad para o café da manhã.
As vozes das pessoas eram as mesmas, não importa onde você entregasse a correspondência, você escutava sempre as mesmas coisas.
– Você está atrasado, não está?
– Onde está o carteiro de sempre?
– Olá, Tio Sam!
– Carteiro! Carteiro! Essa carta não é daqui!
As ruas estavam cheias de pessoas insanas e estúpidas. A maioria delas morava em belas casas e não parecia trabalhar, e você se perguntava como elas faziam para sobreviver. Havia um cara que nunca deixava você colocar a correspondência em sua caixa. Ficava parado na calçada, esperando você aparecer a duas ou três quadras de distância e lá ficava, a mão estendida.
Perguntei a alguns dos outros que já tinham feito aquela rota:
– O que há de errado com aquele cara que fica lá parado com a mão estendida?
– Que cara que fica parado com a mão estendida? – perguntaram.
Todos eles também tinham a mesma voz.
Um dia, quando eu fazia essa rota, o homem-que-estende-a-mão estava a meia quadra, rua acima. Conversava com um vizinho, olhou para trás em minha direção a mais de uma quadra de distância e achou que daria tempo de voltar e me alcançar. Quando se virou de costas para mim, comecei a correr. Nem acredito que eu possa ter entregado as cartas tão depressa, todo avanço e movimento, sem fazer uma pausa, eu ia batê-lo. Já estava com meia carta em sua caixa quando ele se voltou e me viu.
– OH, NÃO, NÃO, NÃO! – gritou. – NÃO A COLOQUE NA CAIXA!
Desceu a rua correndo em minha direção. Tudo o que eu vi foi o movimento indistinto de seus pés. Ele deve ter corrido cem metros em 9,2 segundos.
Pus a carta em sua mão. Olhei-o abrir a carta, andar em direção à varanda, abrir a porta e entrar em casa. Alguém um dia terá de me dizer o que significava tudo aquilo.
Outra vez eu estava numa nova rota. O Stone sempre me colocava em rotas difíceis, mas de vez em quando, dadas as circunstâncias das coisas, ele era obrigado a me deslocar para uma menos perigosa. Com a rota 511 eu ia me dando muito bem e lá estava eu pensando novamente na hora do almoço, o almoço que nunca chegava.
Era um bairro residencial de classe média. Sem apartamentos. Somente casas e mais casas com seus jardins bem cuidados. Mas era uma nova rota e eu ia me perguntando onde estaria a armadilha. Até o tempo estava agradável.
Por Deus, pensei, desta vez vou conseguir! Almoço e volto ainda em tempo! A vida, finalmente, era suportável!
As pessoas por aqui não tinham nem cachorro. Ninguém parado do lado de fora esperando a sua carta. Eu não ouvia uma voz humana por horas. Talvez eu tivesse atingido a minha maturidade como carteiro, o que quer que isto significasse. Eu seguia em frente, eficiente, quase dedicado.
Lembrei-me de um dos carteiros mais velhos, apontando o peito e dizendo:
– Chinaski, um dia esse negócio vai pegar você, vai pegar bem aqui!
– Ataque cardíaco?
– Dedicação ao serviço. Espere e verá. Você sentirá orgulho com o trabalho.
– Bobagem!
Mas o homem tinha sido sincero.
Pensava nele enquanto caminhava.
Agora eu levava uma carta registrada com recibo a ser assinado.
Avancei e toquei a campainha. Alguém abriu o postigo da porta. Não pude ver o rosto.
– Carta registrada!
– Para trás! – exclamou uma voz de mulher. Para trás para que eu possa ver o seu rosto!
Bem, aí estava, pensei, mais uma louca.
– Escute, minha senhora, a senhora não precisa ver o meu rosto. Vou enfiar este canhoto na sua caixa de correio e a senhora pode apanhar a sua carta lá no posto. Leve um documento de identidade.
Deixei o canhoto em sua caixa e fui me afastando.
A porta se abriu e ela veio correndo. Usava uma dessas combinações transparentes e estava sem sutiã. Apenas uma calcinha azul-marinho. Seu cabelo estava despenteado e armado como se tentasse fugir da cabeça. Parecia haver algum tipo de creme em seu rosto, principalmente debaixo dos olhos. O seu corpo era branco, como se o sol jamais tivesse tocado sua pele e seu rosto tinha um aspecto pouco saudável. Sua boca estava escancarada. Usava um risco de batom e era bem torneada de cima a baixo...
Percebi tudo isso quando ela correu em minha direção. Já estava deslizando a carta registrada de volta ao malote.
Ela gritou:
– Me dê a carta!
Eu disse:
– Espere, a senhora terá...
Ela agarrou a carta, correu até a porta, abriu-a e correu para dentro.
Droga! Você não podia voltar sem a carta registrada ou ao menos a assinatura! Era preciso registrar, assinar, dar baixa nessas coisas.
– Ei!
Fui atrás dela e meti o pé na porta bem a tempo.
– EI! SUA DESGRAÇADA!
– Vá embora! Vá embora! Você é um bandido!
– Olhe, senhora! Tente entender! A senhora precisa assinar a carta. Não pode ficar com ela assim! A senhora está roubando os Correios dos Estados Unidos!
– Vá embora, seu bandido!
Joguei todo o meu peso contra a porta e entrei sala adentro. A escuridão era total. Todas as persianas estavam baixadas. Todas as persianas da casa estavam baixadas.
– O SENHOR NÃO TEM O DIREITO DE ENTRAR NA MINHA CASA! SAIA!
– E a senhora não tem o direito de roubar os Correios! Ou devolve a carta ou terá de assiná-la. Depois disso eu saio.
– Está bem! Está bem! Eu assinarei!
Mostrei onde assinar e lhe entreguei uma caneta. Olhei para os seus peitos e para o resto do corpo e pensei, que pena que ela seja louca, que pena, que pena.
Ela me devolveu a caneta e a sua assinatura – era simplesmente um rabisco. Abriu a carta e começou a ler, enquanto me virava para sair.
Então se posicionou em frente à porta, os braços em cruz. A carta estava no chão.
– Bandido! Bandido! Bandido! Você veio aqui para me estuprar!
– Escute, senhora, deixe eu passar!
– A MALDADE ESTÁ ESTAMPADA NA SUA CARA!
– E a senhora acha que eu não sei? Agora me deixe sair!
Com uma das mãos tentei empurrá-la para o lado. Ela cravou as unhas em meu rosto, de jeito. Deixei cair o malote, o meu quepe escorregou, e, enquanto eu pegava um lenço para estancar o sangue, ela avançou e atacou a outra face.
– SUA VADIA! QUE DIABOS HÁ DE ERRADO COM VOCÊ?
– Viu? Viu só? Você é um bandido!
Ela estava de pé bem junto de mim. Agarrei-a pela bunda e lhe beijei a boca. Aqueles peitos roçavam em mim, ela toda estava junto a mim. Afastou a cabeça para trás, distanciando-se:
– Estuprador! Estuprador! Maldito estuprador!
Me inclinei e levei minha boca a um dos peitos, depois beijei o outro.
– Estupro! Estupro! Estou sendo estuprada!
Ela estava certa. Puxei suas calcinhas, abri o zíper, coloquei meu pau para dentro. Então fui conduzindo-a em direção ao sofá. Caímos sobre ele.
Ela ergueu as pernas bem alto.
– ESTUPRO! – gritou.
Meti até gozar, fechei o zíper, apanhei a mala do correio e me afastei enquanto ela olhava absorta e em silêncio para o teto...
Perdi o almoço, mas nem assim consegui cumprir a tabela.
– Você está quinze minutos atrasado – disse o Stone.
Eu não disse nada.
O Stone olhou pra mim.
– Por Deus, o que houve com o seu rosto? – perguntou.
– O que houve com o seu? – perguntei.
– O que você quer dizer?
– Esquece.
– Cartas na rua
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.
O carteiro favorito de Stone era Matthew Battles. Battles nunca aparecia com um amassadinho na camisa. De fato, tudo o que ele usava era novo, parecia novo. Os sapatos, as camisas, as calças, o quepe. Seus sapatos brilhavam de verdade e nenhuma de suas roupas parecia ter sido lavada mais do que uma vez. Assim que uma camisa ou um par de calças apresentavam algum sinal de uso, ele os jogava fora.
Quando Matthew passava, o Stone frequentemente nos dizia:
– Olhem bem, isso sim é um carteiro!
E o Stone dizia aquilo a sério. Seus olhos quase faiscavam de amor.
E Matthew ficava lá em pé em frente à sua caixa, limpo e ereto, penteado e com um rosto descansado, os sapatos brilhando de um jeito vitorioso, jogando suas cartas com alegria.
– Você é um autêntico carteiro, Matthew!
– Obrigado, sr. Jonstone!
Certa vez, às cinco da manhã, entrei e fiquei esperando bem atrás do Stone. Ele parecia um pouco curvo debaixo de sua camisa vermelha.
Moto estava ao meu lado. Ele me disse:
– Flagraram o Matthew ontem.
– Flagraram ele?
– É, ele andava abrindo as correspondências. Tirava o dinheiro das cartas para o Templo Nekalayla. Depois de quinze anos de serviço.
– Como descobriram?
– Graças a umas senhoras. As velhas mandavam donativos em dinheiro para o Nekalayla e não estavam recebendo nem um cartão de agradecimento. Nekalayla avisou os Correios e os Correios ficaram de olho em Matthew. Pegaram ele tirando o dinheiro das cartas no banheiro.
– Não brinca?
– Sério. Foi pego em plena luz do dia.
Encostei-me na parede.
Nekalayla tinha construído um enorme templo, pintando-o de um verde horrendo, acho que aquele verde lhe lembrava a cor de dinheiro, e tinha um escritório com uma equipe de trinta ou quarenta pessoas que não faziam nada além de abrir envelopes, retirar os cheques e o dinheiro, registrar o montante, o nome do remetente, a data e assim por diante. Outros se ocupavam enviando livros e panfletos escritos por Nekalayla, sua foto estava na parede, uma foto enorme dele com roupas religiosas e barba, havia também um quadro muito grande de N., voltado para o escritório, como se vigiasse a todos.
Nekalayla declarava que certa vez, em suas andanças pelo deserto, encontrou Jesus Cristo e que Ele tinha lhe contado tudo. Sentaram juntos numa pedra, e J.C. foi desembuchando tudo. Agora ele transmitia os segredos para os que pudessem pagar por eles. Também celebrava uma cerimônia todo domingo. Seus ajudantes, que eram também seus seguidores, viviam tocando sinos e campainhas.
Imagine Matthew Battles tentando sacanear Nekalayla, o mesmo cara que tinha se encontrado com Jesus Cristo num deserto!
– Alguém já comentou algo com o Stone? – perguntei.
– Você está brincando?
Ficamos sentados por mais ou menos uma hora. Um estagiário foi designado para substituir o Matthew. Os outros foram escalados pra outros serviços. Fiquei sentado sozinho atrás do Stone. Então levantei e fui até sua mesa.
– Sr. Jonstone?
– Sim, Chinaski?
– Onde está Matthew hoje? Doente?
O Stone baixou a cabeça. Olhou o jornal que tinha nas mãos e fingiu continuar a sua leitura. Voltei para o meu lugar e me sentei.
Às sete da manhã, o Stone se virou:
– Não há nada pra você hoje, Chinaski!
Levantei e fui em direção à porta. Parei bem ali.
– Bom dia, sr. Jonstone. Tenha um bom dia.
Ele não respondeu. Desci até a loja de bebidas e comprei uma garrafinha de Grandad para o café da manhã.
As vozes das pessoas eram as mesmas, não importa onde você entregasse a correspondência, você escutava sempre as mesmas coisas.
– Você está atrasado, não está?
– Onde está o carteiro de sempre?
– Olá, Tio Sam!
– Carteiro! Carteiro! Essa carta não é daqui!
As ruas estavam cheias de pessoas insanas e estúpidas. A maioria delas morava em belas casas e não parecia trabalhar, e você se perguntava como elas faziam para sobreviver. Havia um cara que nunca deixava você colocar a correspondência em sua caixa. Ficava parado na calçada, esperando você aparecer a duas ou três quadras de distância e lá ficava, a mão estendida.
Perguntei a alguns dos outros que já tinham feito aquela rota:
– O que há de errado com aquele cara que fica lá parado com a mão estendida?
– Que cara que fica parado com a mão estendida? – perguntaram.
Todos eles também tinham a mesma voz.
Um dia, quando eu fazia essa rota, o homem-que-estende-a-mão estava a meia quadra, rua acima. Conversava com um vizinho, olhou para trás em minha direção a mais de uma quadra de distância e achou que daria tempo de voltar e me alcançar. Quando se virou de costas para mim, comecei a correr. Nem acredito que eu possa ter entregado as cartas tão depressa, todo avanço e movimento, sem fazer uma pausa, eu ia batê-lo. Já estava com meia carta em sua caixa quando ele se voltou e me viu.
– OH, NÃO, NÃO, NÃO! – gritou. – NÃO A COLOQUE NA CAIXA!
Desceu a rua correndo em minha direção. Tudo o que eu vi foi o movimento indistinto de seus pés. Ele deve ter corrido cem metros em 9,2 segundos.
Pus a carta em sua mão. Olhei-o abrir a carta, andar em direção à varanda, abrir a porta e entrar em casa. Alguém um dia terá de me dizer o que significava tudo aquilo.
Outra vez eu estava numa nova rota. O Stone sempre me colocava em rotas difíceis, mas de vez em quando, dadas as circunstâncias das coisas, ele era obrigado a me deslocar para uma menos perigosa. Com a rota 511 eu ia me dando muito bem e lá estava eu pensando novamente na hora do almoço, o almoço que nunca chegava.
Era um bairro residencial de classe média. Sem apartamentos. Somente casas e mais casas com seus jardins bem cuidados. Mas era uma nova rota e eu ia me perguntando onde estaria a armadilha. Até o tempo estava agradável.
Por Deus, pensei, desta vez vou conseguir! Almoço e volto ainda em tempo! A vida, finalmente, era suportável!
As pessoas por aqui não tinham nem cachorro. Ninguém parado do lado de fora esperando a sua carta. Eu não ouvia uma voz humana por horas. Talvez eu tivesse atingido a minha maturidade como carteiro, o que quer que isto significasse. Eu seguia em frente, eficiente, quase dedicado.
Lembrei-me de um dos carteiros mais velhos, apontando o peito e dizendo:
– Chinaski, um dia esse negócio vai pegar você, vai pegar bem aqui!
– Ataque cardíaco?
– Dedicação ao serviço. Espere e verá. Você sentirá orgulho com o trabalho.
– Bobagem!
Mas o homem tinha sido sincero.
Pensava nele enquanto caminhava.
Agora eu levava uma carta registrada com recibo a ser assinado.
Avancei e toquei a campainha. Alguém abriu o postigo da porta. Não pude ver o rosto.
– Carta registrada!
– Para trás! – exclamou uma voz de mulher. Para trás para que eu possa ver o seu rosto!
Bem, aí estava, pensei, mais uma louca.
– Escute, minha senhora, a senhora não precisa ver o meu rosto. Vou enfiar este canhoto na sua caixa de correio e a senhora pode apanhar a sua carta lá no posto. Leve um documento de identidade.
Deixei o canhoto em sua caixa e fui me afastando.
A porta se abriu e ela veio correndo. Usava uma dessas combinações transparentes e estava sem sutiã. Apenas uma calcinha azul-marinho. Seu cabelo estava despenteado e armado como se tentasse fugir da cabeça. Parecia haver algum tipo de creme em seu rosto, principalmente debaixo dos olhos. O seu corpo era branco, como se o sol jamais tivesse tocado sua pele e seu rosto tinha um aspecto pouco saudável. Sua boca estava escancarada. Usava um risco de batom e era bem torneada de cima a baixo...
Percebi tudo isso quando ela correu em minha direção. Já estava deslizando a carta registrada de volta ao malote.
Ela gritou:
– Me dê a carta!
Eu disse:
– Espere, a senhora terá...
Ela agarrou a carta, correu até a porta, abriu-a e correu para dentro.
Droga! Você não podia voltar sem a carta registrada ou ao menos a assinatura! Era preciso registrar, assinar, dar baixa nessas coisas.
– Ei!
Fui atrás dela e meti o pé na porta bem a tempo.
– EI! SUA DESGRAÇADA!
– Vá embora! Vá embora! Você é um bandido!
– Olhe, senhora! Tente entender! A senhora precisa assinar a carta. Não pode ficar com ela assim! A senhora está roubando os Correios dos Estados Unidos!
– Vá embora, seu bandido!
Joguei todo o meu peso contra a porta e entrei sala adentro. A escuridão era total. Todas as persianas estavam baixadas. Todas as persianas da casa estavam baixadas.
– O SENHOR NÃO TEM O DIREITO DE ENTRAR NA MINHA CASA! SAIA!
– E a senhora não tem o direito de roubar os Correios! Ou devolve a carta ou terá de assiná-la. Depois disso eu saio.
– Está bem! Está bem! Eu assinarei!
Mostrei onde assinar e lhe entreguei uma caneta. Olhei para os seus peitos e para o resto do corpo e pensei, que pena que ela seja louca, que pena, que pena.
Ela me devolveu a caneta e a sua assinatura – era simplesmente um rabisco. Abriu a carta e começou a ler, enquanto me virava para sair.
Então se posicionou em frente à porta, os braços em cruz. A carta estava no chão.
– Bandido! Bandido! Bandido! Você veio aqui para me estuprar!
– Escute, senhora, deixe eu passar!
– A MALDADE ESTÁ ESTAMPADA NA SUA CARA!
– E a senhora acha que eu não sei? Agora me deixe sair!
Com uma das mãos tentei empurrá-la para o lado. Ela cravou as unhas em meu rosto, de jeito. Deixei cair o malote, o meu quepe escorregou, e, enquanto eu pegava um lenço para estancar o sangue, ela avançou e atacou a outra face.
– SUA VADIA! QUE DIABOS HÁ DE ERRADO COM VOCÊ?
– Viu? Viu só? Você é um bandido!
Ela estava de pé bem junto de mim. Agarrei-a pela bunda e lhe beijei a boca. Aqueles peitos roçavam em mim, ela toda estava junto a mim. Afastou a cabeça para trás, distanciando-se:
– Estuprador! Estuprador! Maldito estuprador!
Me inclinei e levei minha boca a um dos peitos, depois beijei o outro.
– Estupro! Estupro! Estou sendo estuprada!
Ela estava certa. Puxei suas calcinhas, abri o zíper, coloquei meu pau para dentro. Então fui conduzindo-a em direção ao sofá. Caímos sobre ele.
Ela ergueu as pernas bem alto.
– ESTUPRO! – gritou.
Meti até gozar, fechei o zíper, apanhei a mala do correio e me afastei enquanto ela olhava absorta e em silêncio para o teto...
Perdi o almoço, mas nem assim consegui cumprir a tabela.
– Você está quinze minutos atrasado – disse o Stone.
Eu não disse nada.
O Stone olhou pra mim.
– Por Deus, o que houve com o seu rosto? – perguntou.
– O que houve com o seu? – perguntei.
– O que você quer dizer?
– Esquece.
– Cartas na rua
1 425
Charles Bukowski
O Pior E o Melhor
nos hospitais e nas cadeias
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.
O carteiro favorito de Stone era Matthew Battles. Battles nunca aparecia com um amassadinho na camisa. De fato, tudo o que ele usava era novo, parecia novo. Os sapatos, as camisas, as calças, o quepe. Seus sapatos brilhavam de verdade e nenhuma de suas roupas parecia ter sido lavada mais do que uma vez. Assim que uma camisa ou um par de calças apresentavam algum sinal de uso, ele os jogava fora.
Quando Matthew passava, o Stone frequentemente nos dizia:
– Olhem bem, isso sim é um carteiro!
E o Stone dizia aquilo a sério. Seus olhos quase faiscavam de amor.
E Matthew ficava lá em pé em frente à sua caixa, limpo e ereto, penteado e com um rosto descansado, os sapatos brilhando de um jeito vitorioso, jogando suas cartas com alegria.
– Você é um autêntico carteiro, Matthew!
– Obrigado, sr. Jonstone!
Certa vez, às cinco da manhã, entrei e fiquei esperando bem atrás do Stone. Ele parecia um pouco curvo debaixo de sua camisa vermelha.
Moto estava ao meu lado. Ele me disse:
– Flagraram o Matthew ontem.
– Flagraram ele?
– É, ele andava abrindo as correspondências. Tirava o dinheiro das cartas para o Templo Nekalayla. Depois de quinze anos de serviço.
– Como descobriram?
– Graças a umas senhoras. As velhas mandavam donativos em dinheiro para o Nekalayla e não estavam recebendo nem um cartão de agradecimento. Nekalayla avisou os Correios e os Correios ficaram de olho em Matthew. Pegaram ele tirando o dinheiro das cartas no banheiro.
– Não brinca?
– Sério. Foi pego em plena luz do dia.
Encostei-me na parede.
Nekalayla tinha construído um enorme templo, pintando-o de um verde horrendo, acho que aquele verde lhe lembrava a cor de dinheiro, e tinha um escritório com uma equipe de trinta ou quarenta pessoas que não faziam nada além de abrir envelopes, retirar os cheques e o dinheiro, registrar o montante, o nome do remetente, a data e assim por diante. Outros se ocupavam enviando livros e panfletos escritos por Nekalayla, sua foto estava na parede, uma foto enorme dele com roupas religiosas e barba, havia também um quadro muito grande de N., voltado para o escritório, como se vigiasse a todos.
Nekalayla declarava que certa vez, em suas andanças pelo deserto, encontrou Jesus Cristo e que Ele tinha lhe contado tudo. Sentaram juntos numa pedra, e J.C. foi desembuchando tudo. Agora ele transmitia os segredos para os que pudessem pagar por eles. Também celebrava uma cerimônia todo domingo. Seus ajudantes, que eram também seus seguidores, viviam tocando sinos e campainhas.
Imagine Matthew Battles tentando sacanear Nekalayla, o mesmo cara que tinha se encontrado com Jesus Cristo num deserto!
– Alguém já comentou algo com o Stone? – perguntei.
– Você está brincando?
Ficamos sentados por mais ou menos uma hora. Um estagiário foi designado para substituir o Matthew. Os outros foram escalados pra outros serviços. Fiquei sentado sozinho atrás do Stone. Então levantei e fui até sua mesa.
– Sr. Jonstone?
– Sim, Chinaski?
– Onde está Matthew hoje? Doente?
O Stone baixou a cabeça. Olhou o jornal que tinha nas mãos e fingiu continuar a sua leitura. Voltei para o meu lugar e me sentei.
Às sete da manhã, o Stone se virou:
– Não há nada pra você hoje, Chinaski!
Levantei e fui em direção à porta. Parei bem ali.
– Bom dia, sr. Jonstone. Tenha um bom dia.
Ele não respondeu. Desci até a loja de bebidas e comprei uma garrafinha de Grandad para o café da manhã.
As vozes das pessoas eram as mesmas, não importa onde você entregasse a correspondência, você escutava sempre as mesmas coisas.
– Você está atrasado, não está?
– Onde está o carteiro de sempre?
– Olá, Tio Sam!
– Carteiro! Carteiro! Essa carta não é daqui!
As ruas estavam cheias de pessoas insanas e estúpidas. A maioria delas morava em belas casas e não parecia trabalhar, e você se perguntava como elas faziam para sobreviver. Havia um cara que nunca deixava você colocar a correspondência em sua caixa. Ficava parado na calçada, esperando você aparecer a duas ou três quadras de distância e lá ficava, a mão estendida.
Perguntei a alguns dos outros que já tinham feito aquela rota:
– O que há de errado com aquele cara que fica lá parado com a mão estendida?
– Que cara que fica parado com a mão estendida? – perguntaram.
Todos eles também tinham a mesma voz.
Um dia, quando eu fazia essa rota, o homem-que-estende-a-mão estava a meia quadra, rua acima. Conversava com um vizinho, olhou para trás em minha direção a mais de uma quadra de distância e achou que daria tempo de voltar e me alcançar. Quando se virou de costas para mim, comecei a correr. Nem acredito que eu possa ter entregado as cartas tão depressa, todo avanço e movimento, sem fazer uma pausa, eu ia batê-lo. Já estava com meia carta em sua caixa quando ele se voltou e me viu.
– OH, NÃO, NÃO, NÃO! – gritou. – NÃO A COLOQUE NA CAIXA!
Desceu a rua correndo em minha direção. Tudo o que eu vi foi o movimento indistinto de seus pés. Ele deve ter corrido cem metros em 9,2 segundos.
Pus a carta em sua mão. Olhei-o abrir a carta, andar em direção à varanda, abrir a porta e entrar em casa. Alguém um dia terá de me dizer o que significava tudo aquilo.
Outra vez eu estava numa nova rota. O Stone sempre me colocava em rotas difíceis, mas de vez em quando, dadas as circunstâncias das coisas, ele era obrigado a me deslocar para uma menos perigosa. Com a rota 511 eu ia me dando muito bem e lá estava eu pensando novamente na hora do almoço, o almoço que nunca chegava.
Era um bairro residencial de classe média. Sem apartamentos. Somente casas e mais casas com seus jardins bem cuidados. Mas era uma nova rota e eu ia me perguntando onde estaria a armadilha. Até o tempo estava agradável.
Por Deus, pensei, desta vez vou conseguir! Almoço e volto ainda em tempo! A vida, finalmente, era suportável!
As pessoas por aqui não tinham nem cachorro. Ninguém parado do lado de fora esperando a sua carta. Eu não ouvia uma voz humana por horas. Talvez eu tivesse atingido a minha maturidade como carteiro, o que quer que isto significasse. Eu seguia em frente, eficiente, quase dedicado.
Lembrei-me de um dos carteiros mais velhos, apontando o peito e dizendo:
– Chinaski, um dia esse negócio vai pegar você, vai pegar bem aqui!
– Ataque cardíaco?
– Dedicação ao serviço. Espere e verá. Você sentirá orgulho com o trabalho.
– Bobagem!
Mas o homem tinha sido sincero.
Pensava nele enquanto caminhava.
Agora eu levava uma carta registrada com recibo a ser assinado.
Avancei e toquei a campainha. Alguém abriu o postigo da porta. Não pude ver o rosto.
– Carta registrada!
– Para trás! – exclamou uma voz de mulher. Para trás para que eu possa ver o seu rosto!
Bem, aí estava, pensei, mais uma louca.
– Escute, minha senhora, a senhora não precisa ver o meu rosto. Vou enfiar este canhoto na sua caixa de correio e a senhora pode apanhar a sua carta lá no posto. Leve um documento de identidade.
Deixei o canhoto em sua caixa e fui me afastando.
A porta se abriu e ela veio correndo. Usava uma dessas combinações transparentes e estava sem sutiã. Apenas uma calcinha azul-marinho. Seu cabelo estava despenteado e armado como se tentasse fugir da cabeça. Parecia haver algum tipo de creme em seu rosto, principalmente debaixo dos olhos. O seu corpo era branco, como se o sol jamais tivesse tocado sua pele e seu rosto tinha um aspecto pouco saudável. Sua boca estava escancarada. Usava um risco de batom e era bem torneada de cima a baixo...
Percebi tudo isso quando ela correu em minha direção. Já estava deslizando a carta registrada de volta ao malote.
Ela gritou:
– Me dê a carta!
Eu disse:
– Espere, a senhora terá...
Ela agarrou a carta, correu até a porta, abriu-a e correu para dentro.
Droga! Você não podia voltar sem a carta registrada ou ao menos a assinatura! Era preciso registrar, assinar, dar baixa nessas coisas.
– Ei!
Fui atrás dela e meti o pé na porta bem a tempo.
– EI! SUA DESGRAÇADA!
– Vá embora! Vá embora! Você é um bandido!
– Olhe, senhora! Tente entender! A senhora precisa assinar a carta. Não pode ficar com ela assim! A senhora está roubando os Correios dos Estados Unidos!
– Vá embora, seu bandido!
Joguei todo o meu peso contra a porta e entrei sala adentro. A escuridão era total. Todas as persianas estavam baixadas. Todas as persianas da casa estavam baixadas.
– O SENHOR NÃO TEM O DIREITO DE ENTRAR NA MINHA CASA! SAIA!
– E a senhora não tem o direito de roubar os Correios! Ou devolve a carta ou terá de assiná-la. Depois disso eu saio.
– Está bem! Está bem! Eu assinarei!
Mostrei onde assinar e lhe entreguei uma caneta. Olhei para os seus peitos e para o resto do corpo e pensei, que pena que ela seja louca, que pena, que pena.
Ela me devolveu a caneta e a sua assinatura – era simplesmente um rabisco. Abriu a carta e começou a ler, enquanto me virava para sair.
Então se posicionou em frente à porta, os braços em cruz. A carta estava no chão.
– Bandido! Bandido! Bandido! Você veio aqui para me estuprar!
– Escute, senhora, deixe eu passar!
– A MALDADE ESTÁ ESTAMPADA NA SUA CARA!
– E a senhora acha que eu não sei? Agora me deixe sair!
Com uma das mãos tentei empurrá-la para o lado. Ela cravou as unhas em meu rosto, de jeito. Deixei cair o malote, o meu quepe escorregou, e, enquanto eu pegava um lenço para estancar o sangue, ela avançou e atacou a outra face.
– SUA VADIA! QUE DIABOS HÁ DE ERRADO COM VOCÊ?
– Viu? Viu só? Você é um bandido!
Ela estava de pé bem junto de mim. Agarrei-a pela bunda e lhe beijei a boca. Aqueles peitos roçavam em mim, ela toda estava junto a mim. Afastou a cabeça para trás, distanciando-se:
– Estuprador! Estuprador! Maldito estuprador!
Me inclinei e levei minha boca a um dos peitos, depois beijei o outro.
– Estupro! Estupro! Estou sendo estuprada!
Ela estava certa. Puxei suas calcinhas, abri o zíper, coloquei meu pau para dentro. Então fui conduzindo-a em direção ao sofá. Caímos sobre ele.
Ela ergueu as pernas bem alto.
– ESTUPRO! – gritou.
Meti até gozar, fechei o zíper, apanhei a mala do correio e me afastei enquanto ela olhava absorta e em silêncio para o teto...
Perdi o almoço, mas nem assim consegui cumprir a tabela.
– Você está quinze minutos atrasado – disse o Stone.
Eu não disse nada.
O Stone olhou pra mim.
– Por Deus, o que houve com o seu rosto? – perguntou.
– O que houve com o seu? – perguntei.
– O que você quer dizer?
– Esquece.
– Cartas na rua
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.
O carteiro favorito de Stone era Matthew Battles. Battles nunca aparecia com um amassadinho na camisa. De fato, tudo o que ele usava era novo, parecia novo. Os sapatos, as camisas, as calças, o quepe. Seus sapatos brilhavam de verdade e nenhuma de suas roupas parecia ter sido lavada mais do que uma vez. Assim que uma camisa ou um par de calças apresentavam algum sinal de uso, ele os jogava fora.
Quando Matthew passava, o Stone frequentemente nos dizia:
– Olhem bem, isso sim é um carteiro!
E o Stone dizia aquilo a sério. Seus olhos quase faiscavam de amor.
E Matthew ficava lá em pé em frente à sua caixa, limpo e ereto, penteado e com um rosto descansado, os sapatos brilhando de um jeito vitorioso, jogando suas cartas com alegria.
– Você é um autêntico carteiro, Matthew!
– Obrigado, sr. Jonstone!
Certa vez, às cinco da manhã, entrei e fiquei esperando bem atrás do Stone. Ele parecia um pouco curvo debaixo de sua camisa vermelha.
Moto estava ao meu lado. Ele me disse:
– Flagraram o Matthew ontem.
– Flagraram ele?
– É, ele andava abrindo as correspondências. Tirava o dinheiro das cartas para o Templo Nekalayla. Depois de quinze anos de serviço.
– Como descobriram?
– Graças a umas senhoras. As velhas mandavam donativos em dinheiro para o Nekalayla e não estavam recebendo nem um cartão de agradecimento. Nekalayla avisou os Correios e os Correios ficaram de olho em Matthew. Pegaram ele tirando o dinheiro das cartas no banheiro.
– Não brinca?
– Sério. Foi pego em plena luz do dia.
Encostei-me na parede.
Nekalayla tinha construído um enorme templo, pintando-o de um verde horrendo, acho que aquele verde lhe lembrava a cor de dinheiro, e tinha um escritório com uma equipe de trinta ou quarenta pessoas que não faziam nada além de abrir envelopes, retirar os cheques e o dinheiro, registrar o montante, o nome do remetente, a data e assim por diante. Outros se ocupavam enviando livros e panfletos escritos por Nekalayla, sua foto estava na parede, uma foto enorme dele com roupas religiosas e barba, havia também um quadro muito grande de N., voltado para o escritório, como se vigiasse a todos.
Nekalayla declarava que certa vez, em suas andanças pelo deserto, encontrou Jesus Cristo e que Ele tinha lhe contado tudo. Sentaram juntos numa pedra, e J.C. foi desembuchando tudo. Agora ele transmitia os segredos para os que pudessem pagar por eles. Também celebrava uma cerimônia todo domingo. Seus ajudantes, que eram também seus seguidores, viviam tocando sinos e campainhas.
Imagine Matthew Battles tentando sacanear Nekalayla, o mesmo cara que tinha se encontrado com Jesus Cristo num deserto!
– Alguém já comentou algo com o Stone? – perguntei.
– Você está brincando?
Ficamos sentados por mais ou menos uma hora. Um estagiário foi designado para substituir o Matthew. Os outros foram escalados pra outros serviços. Fiquei sentado sozinho atrás do Stone. Então levantei e fui até sua mesa.
– Sr. Jonstone?
– Sim, Chinaski?
– Onde está Matthew hoje? Doente?
O Stone baixou a cabeça. Olhou o jornal que tinha nas mãos e fingiu continuar a sua leitura. Voltei para o meu lugar e me sentei.
Às sete da manhã, o Stone se virou:
– Não há nada pra você hoje, Chinaski!
Levantei e fui em direção à porta. Parei bem ali.
– Bom dia, sr. Jonstone. Tenha um bom dia.
Ele não respondeu. Desci até a loja de bebidas e comprei uma garrafinha de Grandad para o café da manhã.
As vozes das pessoas eram as mesmas, não importa onde você entregasse a correspondência, você escutava sempre as mesmas coisas.
– Você está atrasado, não está?
– Onde está o carteiro de sempre?
– Olá, Tio Sam!
– Carteiro! Carteiro! Essa carta não é daqui!
As ruas estavam cheias de pessoas insanas e estúpidas. A maioria delas morava em belas casas e não parecia trabalhar, e você se perguntava como elas faziam para sobreviver. Havia um cara que nunca deixava você colocar a correspondência em sua caixa. Ficava parado na calçada, esperando você aparecer a duas ou três quadras de distância e lá ficava, a mão estendida.
Perguntei a alguns dos outros que já tinham feito aquela rota:
– O que há de errado com aquele cara que fica lá parado com a mão estendida?
– Que cara que fica parado com a mão estendida? – perguntaram.
Todos eles também tinham a mesma voz.
Um dia, quando eu fazia essa rota, o homem-que-estende-a-mão estava a meia quadra, rua acima. Conversava com um vizinho, olhou para trás em minha direção a mais de uma quadra de distância e achou que daria tempo de voltar e me alcançar. Quando se virou de costas para mim, comecei a correr. Nem acredito que eu possa ter entregado as cartas tão depressa, todo avanço e movimento, sem fazer uma pausa, eu ia batê-lo. Já estava com meia carta em sua caixa quando ele se voltou e me viu.
– OH, NÃO, NÃO, NÃO! – gritou. – NÃO A COLOQUE NA CAIXA!
Desceu a rua correndo em minha direção. Tudo o que eu vi foi o movimento indistinto de seus pés. Ele deve ter corrido cem metros em 9,2 segundos.
Pus a carta em sua mão. Olhei-o abrir a carta, andar em direção à varanda, abrir a porta e entrar em casa. Alguém um dia terá de me dizer o que significava tudo aquilo.
Outra vez eu estava numa nova rota. O Stone sempre me colocava em rotas difíceis, mas de vez em quando, dadas as circunstâncias das coisas, ele era obrigado a me deslocar para uma menos perigosa. Com a rota 511 eu ia me dando muito bem e lá estava eu pensando novamente na hora do almoço, o almoço que nunca chegava.
Era um bairro residencial de classe média. Sem apartamentos. Somente casas e mais casas com seus jardins bem cuidados. Mas era uma nova rota e eu ia me perguntando onde estaria a armadilha. Até o tempo estava agradável.
Por Deus, pensei, desta vez vou conseguir! Almoço e volto ainda em tempo! A vida, finalmente, era suportável!
As pessoas por aqui não tinham nem cachorro. Ninguém parado do lado de fora esperando a sua carta. Eu não ouvia uma voz humana por horas. Talvez eu tivesse atingido a minha maturidade como carteiro, o que quer que isto significasse. Eu seguia em frente, eficiente, quase dedicado.
Lembrei-me de um dos carteiros mais velhos, apontando o peito e dizendo:
– Chinaski, um dia esse negócio vai pegar você, vai pegar bem aqui!
– Ataque cardíaco?
– Dedicação ao serviço. Espere e verá. Você sentirá orgulho com o trabalho.
– Bobagem!
Mas o homem tinha sido sincero.
Pensava nele enquanto caminhava.
Agora eu levava uma carta registrada com recibo a ser assinado.
Avancei e toquei a campainha. Alguém abriu o postigo da porta. Não pude ver o rosto.
– Carta registrada!
– Para trás! – exclamou uma voz de mulher. Para trás para que eu possa ver o seu rosto!
Bem, aí estava, pensei, mais uma louca.
– Escute, minha senhora, a senhora não precisa ver o meu rosto. Vou enfiar este canhoto na sua caixa de correio e a senhora pode apanhar a sua carta lá no posto. Leve um documento de identidade.
Deixei o canhoto em sua caixa e fui me afastando.
A porta se abriu e ela veio correndo. Usava uma dessas combinações transparentes e estava sem sutiã. Apenas uma calcinha azul-marinho. Seu cabelo estava despenteado e armado como se tentasse fugir da cabeça. Parecia haver algum tipo de creme em seu rosto, principalmente debaixo dos olhos. O seu corpo era branco, como se o sol jamais tivesse tocado sua pele e seu rosto tinha um aspecto pouco saudável. Sua boca estava escancarada. Usava um risco de batom e era bem torneada de cima a baixo...
Percebi tudo isso quando ela correu em minha direção. Já estava deslizando a carta registrada de volta ao malote.
Ela gritou:
– Me dê a carta!
Eu disse:
– Espere, a senhora terá...
Ela agarrou a carta, correu até a porta, abriu-a e correu para dentro.
Droga! Você não podia voltar sem a carta registrada ou ao menos a assinatura! Era preciso registrar, assinar, dar baixa nessas coisas.
– Ei!
Fui atrás dela e meti o pé na porta bem a tempo.
– EI! SUA DESGRAÇADA!
– Vá embora! Vá embora! Você é um bandido!
– Olhe, senhora! Tente entender! A senhora precisa assinar a carta. Não pode ficar com ela assim! A senhora está roubando os Correios dos Estados Unidos!
– Vá embora, seu bandido!
Joguei todo o meu peso contra a porta e entrei sala adentro. A escuridão era total. Todas as persianas estavam baixadas. Todas as persianas da casa estavam baixadas.
– O SENHOR NÃO TEM O DIREITO DE ENTRAR NA MINHA CASA! SAIA!
– E a senhora não tem o direito de roubar os Correios! Ou devolve a carta ou terá de assiná-la. Depois disso eu saio.
– Está bem! Está bem! Eu assinarei!
Mostrei onde assinar e lhe entreguei uma caneta. Olhei para os seus peitos e para o resto do corpo e pensei, que pena que ela seja louca, que pena, que pena.
Ela me devolveu a caneta e a sua assinatura – era simplesmente um rabisco. Abriu a carta e começou a ler, enquanto me virava para sair.
Então se posicionou em frente à porta, os braços em cruz. A carta estava no chão.
– Bandido! Bandido! Bandido! Você veio aqui para me estuprar!
– Escute, senhora, deixe eu passar!
– A MALDADE ESTÁ ESTAMPADA NA SUA CARA!
– E a senhora acha que eu não sei? Agora me deixe sair!
Com uma das mãos tentei empurrá-la para o lado. Ela cravou as unhas em meu rosto, de jeito. Deixei cair o malote, o meu quepe escorregou, e, enquanto eu pegava um lenço para estancar o sangue, ela avançou e atacou a outra face.
– SUA VADIA! QUE DIABOS HÁ DE ERRADO COM VOCÊ?
– Viu? Viu só? Você é um bandido!
Ela estava de pé bem junto de mim. Agarrei-a pela bunda e lhe beijei a boca. Aqueles peitos roçavam em mim, ela toda estava junto a mim. Afastou a cabeça para trás, distanciando-se:
– Estuprador! Estuprador! Maldito estuprador!
Me inclinei e levei minha boca a um dos peitos, depois beijei o outro.
– Estupro! Estupro! Estou sendo estuprada!
Ela estava certa. Puxei suas calcinhas, abri o zíper, coloquei meu pau para dentro. Então fui conduzindo-a em direção ao sofá. Caímos sobre ele.
Ela ergueu as pernas bem alto.
– ESTUPRO! – gritou.
Meti até gozar, fechei o zíper, apanhei a mala do correio e me afastei enquanto ela olhava absorta e em silêncio para o teto...
Perdi o almoço, mas nem assim consegui cumprir a tabela.
– Você está quinze minutos atrasado – disse o Stone.
Eu não disse nada.
O Stone olhou pra mim.
– Por Deus, o que houve com o seu rosto? – perguntou.
– O que houve com o seu? – perguntei.
– O que você quer dizer?
– Esquece.
– Cartas na rua
1 425
Charles Bukowski
Saboreio As Cinzas de Tua Morte
as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.
Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.
Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
1 103
Charles Bukowski
Saboreio As Cinzas de Tua Morte
as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.
Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.
Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
1 103
Charles Bukowski
O Dia Em Que Mandei Meu Pé-De-Meia Pro Espaço
e, eu disse, você pode pegar seus tios e tias ricos
e avós e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de sábado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados –
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dê o fora.
o quê? eu disse
dê o fora. você teve seu
último acesso de fúria.
cansei dos seus acessos de fúria:
você sempre atua como um
personagem de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, baby,
não consigo
evitar.
você é diferente, essa é boa!
Nossa, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de você não quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lá pro seu O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que você já não é mais
uma criança, rapaz;
da próxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.
Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nós bebemos. Betty sempre gostou de grandes árvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lâmpadas elétricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos várias doses de uísque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base não era grande o suficiente para dar suporte à árvore. Eu ficava tentando ajeitá-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chão, de cuecas. Então também me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme árvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. Não conseguia me mexer. Os galhos da árvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lâmpadas incandesciam.
– Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lâmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas não consegui me libertar, depois rolei para a direita.
– AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da árvore. Betty estava de pé, parada.
– O que aconteceu? O que é isso?
– NÃO ESTÁ VENDO? ESSA MALDITA ÁRVORE TENTOU ME MATAR!
– O quê?
– SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
– Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a árvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
– Oh, minha pobre arvorezinha!
– Pobre arvorezinha?
– É, me deu tanta pena!
– Amanhã de manhã eu boto ela de pé de novo. Não confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vê-la. Ela estava sentada em seu quarto, bêbada, às 8h45 da manhã. Seu aspecto não era nada bom, o que também se poderia dizer de mim naquela ocasião. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uísque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
– Esses cretinos! Será que eles não conhecem ninguém melhor? Se você beber todo esse negócio é morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitá-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recém-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bêbado, queimado vivo em Connecticut.
– Você jamais irá domá-la – me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
– Escute – eu disse –, tenho que levar uma parte desse negócio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. Não vou bebê-las.
– Deixe as garrafas – disse Betty. Não me olhava. Seu quarto ficava no último andar e ela se sentava junto à janela, acompanhando o tráfego da manhã.
Me aproximei.
– Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negócio!
– Claro – ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. Não houve qualquer resposta para as minhas batidas.
– Betty! Betty! Você está bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
– Ah, caralho! – eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
Então olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto à porta.
– Ela está no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulância na noite passada.
– Ela bebeu todo aquele negócio?
– Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lá. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o número do quarto.
Havia três ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisória que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
– Betty! Betty!
Toquei seu braço.
– Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
– Tinha certeza de que era você – ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lábios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resíduos. Limpei seu rosto, suas mãos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de água em sua língua. Depois um pouco mais. Molhei seus lábios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo através da cortina que nos separava.
– Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que você beba um pouco de água, apenas um golinho, não precisa ser muito, só um gole.
Ela não respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
Então me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as três mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
– Escute, por que ninguém faz nada em relação à mulher do 45-c? Betty Williams.
– A gente faz o que pode, senhor.
– Mas não há ninguém ali.
– Fazemos nossas rondas regulares.
– Mas onde estão os médicos? Não vi nenhum médico.
– O doutor já a examinou, senhor.
– Como é que vocês a abandonam lá daquele jeito?
– A gente faz o que pode, senhor.
– SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEÇA ESSA PORRA DE “SENHOR”! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, então haveria um montão de médicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocês simplesmente não deixam o pessoal morrer? Que pecado há em ser pobre?
– Já lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
– Voltarei em duas horas.
– O senhor é o marido?
– Eu vivia com ela em concubinato.
– Pode nos deixar seu nome e um número de telefone?
Passei-lhe as informações e saí apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e já fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado às pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizá-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distância e cheguei até ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar até aqui, sua mãe já estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligações. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hábito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. Então o exército o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saísse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mãe, quando conseguiu esse bom emprego.
– Onde está sua irmã? – perguntei.
– Não sei.
– É um carro bacana. Não dá nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentário.
Havia apenas três pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmã retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lábios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapéu que não assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representá-la. A dona não podia perder seu negócio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Àquela altura, então, já tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussão com o padre católico. O padre não queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, morávamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
– Hank, qual é o problema com esses cretinos?
– Que cretinos?
– Esses caras da funerária.
– Qual é o problema?
– Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles não deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. Você sabe, é uma distância enorme.
– E aí, Delsie?
– Bem, por fim os caras deixaram ele pôr as flores para dentro, mas não pôde colocá-las no refrigerador. Então o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos há com essas pessoas?
– Não sei. Que diabos há com todo mundo?
– Não conseguirei ir ao funeral. Você está bem, Hank?
– Por que você não vem me consolar?
– Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
– Esqueça.
Então assim estávamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
– Vou escrever para você mais tarde para a gente ver o negócio da lápide. Agora estou pelado.
– Tudo bem – eu disse.
Larry pagou os cafés, então nós saímos e embarcamos no Mercedes-Benz.
– Espere um minuto – eu disse.
– O que foi? – perguntou Larry.
– Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
– Marcia.
Ela seguia sentada à mesa.
– Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
– Cartas na rua
e avós e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de sábado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados –
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dê o fora.
o quê? eu disse
dê o fora. você teve seu
último acesso de fúria.
cansei dos seus acessos de fúria:
você sempre atua como um
personagem de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, baby,
não consigo
evitar.
você é diferente, essa é boa!
Nossa, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de você não quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lá pro seu O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que você já não é mais
uma criança, rapaz;
da próxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.
Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nós bebemos. Betty sempre gostou de grandes árvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lâmpadas elétricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos várias doses de uísque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base não era grande o suficiente para dar suporte à árvore. Eu ficava tentando ajeitá-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chão, de cuecas. Então também me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme árvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. Não conseguia me mexer. Os galhos da árvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lâmpadas incandesciam.
– Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lâmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas não consegui me libertar, depois rolei para a direita.
– AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da árvore. Betty estava de pé, parada.
– O que aconteceu? O que é isso?
– NÃO ESTÁ VENDO? ESSA MALDITA ÁRVORE TENTOU ME MATAR!
– O quê?
– SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
– Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a árvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
– Oh, minha pobre arvorezinha!
– Pobre arvorezinha?
– É, me deu tanta pena!
– Amanhã de manhã eu boto ela de pé de novo. Não confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vê-la. Ela estava sentada em seu quarto, bêbada, às 8h45 da manhã. Seu aspecto não era nada bom, o que também se poderia dizer de mim naquela ocasião. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uísque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
– Esses cretinos! Será que eles não conhecem ninguém melhor? Se você beber todo esse negócio é morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitá-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recém-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bêbado, queimado vivo em Connecticut.
– Você jamais irá domá-la – me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
– Escute – eu disse –, tenho que levar uma parte desse negócio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. Não vou bebê-las.
– Deixe as garrafas – disse Betty. Não me olhava. Seu quarto ficava no último andar e ela se sentava junto à janela, acompanhando o tráfego da manhã.
Me aproximei.
– Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negócio!
– Claro – ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. Não houve qualquer resposta para as minhas batidas.
– Betty! Betty! Você está bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
– Ah, caralho! – eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
Então olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto à porta.
– Ela está no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulância na noite passada.
– Ela bebeu todo aquele negócio?
– Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lá. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o número do quarto.
Havia três ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisória que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
– Betty! Betty!
Toquei seu braço.
– Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
– Tinha certeza de que era você – ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lábios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resíduos. Limpei seu rosto, suas mãos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de água em sua língua. Depois um pouco mais. Molhei seus lábios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo através da cortina que nos separava.
– Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que você beba um pouco de água, apenas um golinho, não precisa ser muito, só um gole.
Ela não respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
Então me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as três mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
– Escute, por que ninguém faz nada em relação à mulher do 45-c? Betty Williams.
– A gente faz o que pode, senhor.
– Mas não há ninguém ali.
– Fazemos nossas rondas regulares.
– Mas onde estão os médicos? Não vi nenhum médico.
– O doutor já a examinou, senhor.
– Como é que vocês a abandonam lá daquele jeito?
– A gente faz o que pode, senhor.
– SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEÇA ESSA PORRA DE “SENHOR”! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, então haveria um montão de médicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocês simplesmente não deixam o pessoal morrer? Que pecado há em ser pobre?
– Já lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
– Voltarei em duas horas.
– O senhor é o marido?
– Eu vivia com ela em concubinato.
– Pode nos deixar seu nome e um número de telefone?
Passei-lhe as informações e saí apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e já fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado às pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizá-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distância e cheguei até ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar até aqui, sua mãe já estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligações. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hábito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. Então o exército o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saísse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mãe, quando conseguiu esse bom emprego.
– Onde está sua irmã? – perguntei.
– Não sei.
– É um carro bacana. Não dá nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentário.
Havia apenas três pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmã retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lábios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapéu que não assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representá-la. A dona não podia perder seu negócio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Àquela altura, então, já tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussão com o padre católico. O padre não queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, morávamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
– Hank, qual é o problema com esses cretinos?
– Que cretinos?
– Esses caras da funerária.
– Qual é o problema?
– Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles não deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. Você sabe, é uma distância enorme.
– E aí, Delsie?
– Bem, por fim os caras deixaram ele pôr as flores para dentro, mas não pôde colocá-las no refrigerador. Então o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos há com essas pessoas?
– Não sei. Que diabos há com todo mundo?
– Não conseguirei ir ao funeral. Você está bem, Hank?
– Por que você não vem me consolar?
– Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
– Esqueça.
Então assim estávamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
– Vou escrever para você mais tarde para a gente ver o negócio da lápide. Agora estou pelado.
– Tudo bem – eu disse.
Larry pagou os cafés, então nós saímos e embarcamos no Mercedes-Benz.
– Espere um minuto – eu disse.
– O que foi? – perguntou Larry.
– Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
– Marcia.
Ela seguia sentada à mesa.
– Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
– Cartas na rua
1 271
Charles Bukowski
O Dia Em Que Mandei Meu Pé-De-Meia Pro Espaço
e, eu disse, você pode pegar seus tios e tias ricos
e avós e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de sábado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados –
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dê o fora.
o quê? eu disse
dê o fora. você teve seu
último acesso de fúria.
cansei dos seus acessos de fúria:
você sempre atua como um
personagem de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, baby,
não consigo
evitar.
você é diferente, essa é boa!
Nossa, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de você não quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lá pro seu O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que você já não é mais
uma criança, rapaz;
da próxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.
Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nós bebemos. Betty sempre gostou de grandes árvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lâmpadas elétricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos várias doses de uísque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base não era grande o suficiente para dar suporte à árvore. Eu ficava tentando ajeitá-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chão, de cuecas. Então também me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme árvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. Não conseguia me mexer. Os galhos da árvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lâmpadas incandesciam.
– Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lâmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas não consegui me libertar, depois rolei para a direita.
– AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da árvore. Betty estava de pé, parada.
– O que aconteceu? O que é isso?
– NÃO ESTÁ VENDO? ESSA MALDITA ÁRVORE TENTOU ME MATAR!
– O quê?
– SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
– Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a árvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
– Oh, minha pobre arvorezinha!
– Pobre arvorezinha?
– É, me deu tanta pena!
– Amanhã de manhã eu boto ela de pé de novo. Não confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vê-la. Ela estava sentada em seu quarto, bêbada, às 8h45 da manhã. Seu aspecto não era nada bom, o que também se poderia dizer de mim naquela ocasião. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uísque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
– Esses cretinos! Será que eles não conhecem ninguém melhor? Se você beber todo esse negócio é morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitá-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recém-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bêbado, queimado vivo em Connecticut.
– Você jamais irá domá-la – me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
– Escute – eu disse –, tenho que levar uma parte desse negócio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. Não vou bebê-las.
– Deixe as garrafas – disse Betty. Não me olhava. Seu quarto ficava no último andar e ela se sentava junto à janela, acompanhando o tráfego da manhã.
Me aproximei.
– Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negócio!
– Claro – ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. Não houve qualquer resposta para as minhas batidas.
– Betty! Betty! Você está bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
– Ah, caralho! – eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
Então olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto à porta.
– Ela está no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulância na noite passada.
– Ela bebeu todo aquele negócio?
– Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lá. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o número do quarto.
Havia três ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisória que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
– Betty! Betty!
Toquei seu braço.
– Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
– Tinha certeza de que era você – ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lábios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resíduos. Limpei seu rosto, suas mãos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de água em sua língua. Depois um pouco mais. Molhei seus lábios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo através da cortina que nos separava.
– Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que você beba um pouco de água, apenas um golinho, não precisa ser muito, só um gole.
Ela não respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
Então me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as três mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
– Escute, por que ninguém faz nada em relação à mulher do 45-c? Betty Williams.
– A gente faz o que pode, senhor.
– Mas não há ninguém ali.
– Fazemos nossas rondas regulares.
– Mas onde estão os médicos? Não vi nenhum médico.
– O doutor já a examinou, senhor.
– Como é que vocês a abandonam lá daquele jeito?
– A gente faz o que pode, senhor.
– SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEÇA ESSA PORRA DE “SENHOR”! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, então haveria um montão de médicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocês simplesmente não deixam o pessoal morrer? Que pecado há em ser pobre?
– Já lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
– Voltarei em duas horas.
– O senhor é o marido?
– Eu vivia com ela em concubinato.
– Pode nos deixar seu nome e um número de telefone?
Passei-lhe as informações e saí apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e já fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado às pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizá-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distância e cheguei até ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar até aqui, sua mãe já estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligações. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hábito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. Então o exército o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saísse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mãe, quando conseguiu esse bom emprego.
– Onde está sua irmã? – perguntei.
– Não sei.
– É um carro bacana. Não dá nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentário.
Havia apenas três pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmã retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lábios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapéu que não assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representá-la. A dona não podia perder seu negócio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Àquela altura, então, já tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussão com o padre católico. O padre não queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, morávamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
– Hank, qual é o problema com esses cretinos?
– Que cretinos?
– Esses caras da funerária.
– Qual é o problema?
– Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles não deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. Você sabe, é uma distância enorme.
– E aí, Delsie?
– Bem, por fim os caras deixaram ele pôr as flores para dentro, mas não pôde colocá-las no refrigerador. Então o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos há com essas pessoas?
– Não sei. Que diabos há com todo mundo?
– Não conseguirei ir ao funeral. Você está bem, Hank?
– Por que você não vem me consolar?
– Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
– Esqueça.
Então assim estávamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
– Vou escrever para você mais tarde para a gente ver o negócio da lápide. Agora estou pelado.
– Tudo bem – eu disse.
Larry pagou os cafés, então nós saímos e embarcamos no Mercedes-Benz.
– Espere um minuto – eu disse.
– O que foi? – perguntou Larry.
– Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
– Marcia.
Ela seguia sentada à mesa.
– Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
– Cartas na rua
e avós e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de sábado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados –
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dê o fora.
o quê? eu disse
dê o fora. você teve seu
último acesso de fúria.
cansei dos seus acessos de fúria:
você sempre atua como um
personagem de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, baby,
não consigo
evitar.
você é diferente, essa é boa!
Nossa, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de você não quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lá pro seu O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que você já não é mais
uma criança, rapaz;
da próxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.
Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nós bebemos. Betty sempre gostou de grandes árvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lâmpadas elétricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos várias doses de uísque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base não era grande o suficiente para dar suporte à árvore. Eu ficava tentando ajeitá-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chão, de cuecas. Então também me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme árvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. Não conseguia me mexer. Os galhos da árvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lâmpadas incandesciam.
– Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lâmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas não consegui me libertar, depois rolei para a direita.
– AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da árvore. Betty estava de pé, parada.
– O que aconteceu? O que é isso?
– NÃO ESTÁ VENDO? ESSA MALDITA ÁRVORE TENTOU ME MATAR!
– O quê?
– SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
– Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a árvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
– Oh, minha pobre arvorezinha!
– Pobre arvorezinha?
– É, me deu tanta pena!
– Amanhã de manhã eu boto ela de pé de novo. Não confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vê-la. Ela estava sentada em seu quarto, bêbada, às 8h45 da manhã. Seu aspecto não era nada bom, o que também se poderia dizer de mim naquela ocasião. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uísque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
– Esses cretinos! Será que eles não conhecem ninguém melhor? Se você beber todo esse negócio é morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitá-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recém-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bêbado, queimado vivo em Connecticut.
– Você jamais irá domá-la – me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
– Escute – eu disse –, tenho que levar uma parte desse negócio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. Não vou bebê-las.
– Deixe as garrafas – disse Betty. Não me olhava. Seu quarto ficava no último andar e ela se sentava junto à janela, acompanhando o tráfego da manhã.
Me aproximei.
– Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negócio!
– Claro – ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. Não houve qualquer resposta para as minhas batidas.
– Betty! Betty! Você está bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
– Ah, caralho! – eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
Então olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto à porta.
– Ela está no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulância na noite passada.
– Ela bebeu todo aquele negócio?
– Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lá. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o número do quarto.
Havia três ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisória que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
– Betty! Betty!
Toquei seu braço.
– Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
– Tinha certeza de que era você – ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lábios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resíduos. Limpei seu rosto, suas mãos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de água em sua língua. Depois um pouco mais. Molhei seus lábios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo através da cortina que nos separava.
– Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que você beba um pouco de água, apenas um golinho, não precisa ser muito, só um gole.
Ela não respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
Então me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as três mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
– Escute, por que ninguém faz nada em relação à mulher do 45-c? Betty Williams.
– A gente faz o que pode, senhor.
– Mas não há ninguém ali.
– Fazemos nossas rondas regulares.
– Mas onde estão os médicos? Não vi nenhum médico.
– O doutor já a examinou, senhor.
– Como é que vocês a abandonam lá daquele jeito?
– A gente faz o que pode, senhor.
– SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEÇA ESSA PORRA DE “SENHOR”! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, então haveria um montão de médicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocês simplesmente não deixam o pessoal morrer? Que pecado há em ser pobre?
– Já lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
– Voltarei em duas horas.
– O senhor é o marido?
– Eu vivia com ela em concubinato.
– Pode nos deixar seu nome e um número de telefone?
Passei-lhe as informações e saí apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e já fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado às pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizá-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distância e cheguei até ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar até aqui, sua mãe já estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligações. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hábito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. Então o exército o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saísse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mãe, quando conseguiu esse bom emprego.
– Onde está sua irmã? – perguntei.
– Não sei.
– É um carro bacana. Não dá nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentário.
Havia apenas três pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmã retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lábios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapéu que não assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representá-la. A dona não podia perder seu negócio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Àquela altura, então, já tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussão com o padre católico. O padre não queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, morávamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
– Hank, qual é o problema com esses cretinos?
– Que cretinos?
– Esses caras da funerária.
– Qual é o problema?
– Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles não deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. Você sabe, é uma distância enorme.
– E aí, Delsie?
– Bem, por fim os caras deixaram ele pôr as flores para dentro, mas não pôde colocá-las no refrigerador. Então o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos há com essas pessoas?
– Não sei. Que diabos há com todo mundo?
– Não conseguirei ir ao funeral. Você está bem, Hank?
– Por que você não vem me consolar?
– Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
– Esqueça.
Então assim estávamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
– Vou escrever para você mais tarde para a gente ver o negócio da lápide. Agora estou pelado.
– Tudo bem – eu disse.
Larry pagou os cafés, então nós saímos e embarcamos no Mercedes-Benz.
– Espere um minuto – eu disse.
– O que foi? – perguntou Larry.
– Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
– Marcia.
Ela seguia sentada à mesa.
– Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
– Cartas na rua
1 271
Charles Bukowski
Maja Thurup
Houve ampla cobertura da imprensa e da televisão, e a senhora estava para escrever um livro sobre tudo isso. O nome da senhora era Hester Adams, duas vezes divorciada, dois filhos. Tinha 35 anos, e alguém poderia imaginar que essa seria sua última jogada. As rugas estavam aparecendo, os peitos estavam caindo já há algum tempo, os tornozelos e as panturrilhas estavam engrossando, já havia sinais de uma barriga. A América aprendeu que a beleza reside apenas na juventude, especialmente para a mulher. Mas Hester Adams tinha a sombria beleza da frustração e da perda vindoura; era algo que rastejava por cima dela, a perda vindoura, e dava-lhe alguma coisa sexualmente atrativa, como uma mulher desesperada para quem o tempo está passando enquanto ela continua sentada em um bar cheio de homens. Hester tinha olhado ao redor, visto poucos sinais de ajuda vindos dos homens americanos e entrou em um avião para a América do Sul. Entrou na selva com sua câmera, sua máquina de escrever portátil, seus tornozelos que estão engrossando, sua pele branca e arranjou para si um canibal, um canibal negro: Maja Thurup. Maja Thurup tinha uma cara com um bom aspecto. Seu rosto parecia estar marcado por mil ressacas e mil tragédias. E era verdade: passara por mil ressacas, mas todas as tragédias tinham a mesma origem: Maja Thurup tinha o pau maior do que a média, muito maior do que a média. Nenhuma garota na aldeia o aceitava. Tinha provocado a morte de duas garotas com seu instrumento. Uma tinha sido penetrada pela frente e a outra por trás. Não fazia diferença.
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
1 547
Charles Bukowski
Sua Mulher, a Pintora
Havia esboços de homens, mulheres e patos sobre as paredes,
e do lado de fora um grande ônibus verde cortava o tráfego como
a insanidade que saltasse de uma linha ondulada, Turguêniev, Turguêniev,
diz o rádio, e Jane Austen, Jane Austen, também.
“Vou fazer o retrato dela no dia 28, quando você estiver
no trabalho.”
Ele estava a um passo da obesidade e caminhava constantemente,
espatifava-se; eles o tinham; esvaziavam-no por dentro como
uma mosca na teia, e seus olhos eram injetados de raiva-medo.
Ele sente o ódio e o descartar do mundo, mais afiados que sua
gilete, e sua intuição está suspensa como um pólipo úmido; e
ele se julga derrotado ao tentar remover os fios de barba
presos à lâmina sob a água (como a vida), não tão quente como deveria.
Daumier. Rue Transnonain, le 15 Avril, 1843. (Litografia.)
Paris, Bibliothèque Nationale.
“Ela tem um rosto como nunca vi em outra mulher.”
“O que é isso? Um caso amoroso?”
“Tolinho. Não posso amar uma mulher. Além disso, ela está grávida.”
Não posso pintar – uma flor devorada por uma cobra; aquela luz do sol é uma
mentira; e aqueles mercados cheiram a sapatos e a nudez de garotos vestidos,
e abaixo de tudo isso algum rio, algum movimento, alguma virada que
suba ao longo do limite de meu templo e morda com uma picada atordoante...
homens dirigem carros e pintam suas casas,
mas eles são loucos; homens se sentam nas barbearias, compram chapéus.
Corot. Lembrança de Mortefontaine.
Paris, Louvre.
“Tenho que escrever para o Kaiser, embora eu ache que ele é homossexual.”
“Você segue lendo Freud?”
“Página 299.”
Ela produziu um pequeno chapéu e ele fez dois estalos com a mão debaixo do
braço, erguendo-o da cama como uma longa antena de
lesma, e ela foi à igreja, e ele pensou agora eu tenho
tempo e o cachorro.
Sobre a igreja: o problema de uma máscara é que ela
nunca muda.
Tão rude as flores que crescem e não crescem belas.
Tão incrível a cadeira no pátio que não precisa sustentar pernas
e barriga e braço e pescoço e boca que morde o
vento como o fim de um túnel.
Ele se voltou na cama e pensou: estou procurando algum
segmento no ar. Ele flutua sobre a cabeça das pessoas.
Quando chove sobre as árvores ele se acomoda entre os galhos
mais quente e mais verdadeiramente sanguíneo que a pomba.
Orozco. Cristo Destruindo a Cruz.
Hanover, Dartmouth College, Baker Library.
Deixou-se consumir pelo sono.
Fay estava grávida. Mas isso não a fez mudar nem as coisas nos Correios mudaram.
Os mesmos funcionários faziam todo o trabalho enquanto o resto do pessoal, a equipe mista, ficava por ali, discutindo esportes. Eram todos caras negros, grandes – com uma constituição de profissionais da luta livre. Sempre que um novato entrava no serviço, era enviado para a equipe mista. Isso evitava que eles assassinassem os supervisores. Se as equipes mistas tinham um supervisor, jamais se conseguia avistá-lo. A equipe carregava os caminhões com as cartas que chegavam através do elevador de carga. Isso ocupava cinco minutos de uma hora de trabalho. Às vezes, eles contavam as cartas, ou ao menos fingiam. Pareciam bastante calmos e inteligentes, fazendo suas contas com um lápis comprido atrás da orelha. Mas na maior parte do tempo eles discutiam sobre esporte, de um modo violento. Todos eram especialistas – liam os mesmos comentaristas esportivos.
– Muito bem, cara, quem é pra você o melhor jogador de todos os tempos do campo externo?
– Bem, Willie Mays, Ted Williams, Cobb.
– O quê? O quê?
– É isso aí, meu!
– E quanto ao Babe? Como deixar o Babe de fora?
– Ok, Ok, quem é o seu jogador cinco estrelas na posição?
– Não é cinco estrelas, é o melhor de todos os tempos!
– Ok, Ok, você sabe o que eu quero dizer, meu, você sabe o que eu quero
dizer!
– Bem, fico com Mays, Ruth e Di Maj!
– Vocês dois perderam a noção! E o Hank Aaron, rapaziada? Como deixar o Hank de fora?
Certa vez, todos os cargos da equipe mista foram postos à disposição. As vagas eram preenchidas principalmente em função do tempo de trabalho. A equipe mista se organizou e rasgou as fichas de preenchimentos de vagas do livro de pedidos. Eles não podiam fazer nada. Ninguém deu queixa por escrito. Era um caminho comprido e escuro até o estacionamento à noite.
Comecei a sentir tonturas. Podia senti-las vindo. A caixa começava a girar. As crises duravam um minuto. Não conseguia entender o que se passava. Cada carta se tornava mais e mais pesada. Os funcionários começavam a ter aquele aspecto de um cinza esmaecido. Eu começava a deslizar de meu banquinho. Minhas pernas mal eram capazes de me sustentar. O trabalho estava me matando.
Fui até meu médico e lhe disse o que estava acontecendo. Ele mediu minha pressão.
– Não, não, não há nada de errado com sua pressão.
Então ele me auscultou e me pesou.
– Não vejo nada de errado.
Depois resolveu fazer um exame de sangue especial. Fez três coletas de sangue, sucessivas, em intervalos, cada um parecendo maior do que o anterior.
– Importa-se de esperar na outra sala?
– Não, não, vou dar uma volta por aí e retorno na hora combinada.
– Certo, mas volte mesmo na hora combinada.
Cheguei a tempo para a segunda coleta. Então houve uma espera maior para a terceira, cerca de vinte ou 25 minutos. Dei uma volta pela rua. Nada de especial estava acontecendo. Fui até uma loja de conveniências e fiquei lendo uma revista. Coloquei-a de volta em seu lugar, olhei para o relógio e saí. Vi aquela mulher sentada na parada de ônibus. Era uma dessas que a gente vê raramente. Mostrava boa parte das pernas. Não conseguia desviar meus olhos. Atravessei a rua e fiquei a uns vinte metros de distância.
Então ela se levantou. Tive que segui-la. Aquele rabo gostoso acenava para mim. Eu estava hipnotizado. Ela entrou numa agência dos Correios. Entrou numa enorme fila e eu fiquei atrás dela. Trazia dois postais consigo. Comprei doze postais de via aérea e dois dólares em selos.
Quando saí, ela apanhava o ônibus. Vi ainda um resquício daquelas pernas e daquele rabo deliciosos entrando no ônibus, ônibus que a levou embora.
O médico estava esperando.
– O que aconteceu? O senhor está cinco minutos atrasado!
– Não sei. Meu relógio deve ter parado.
– AS COISAS TÊM QUE SER FEITAS COM EXATIDÃO!
– Vamos. Tire meu sangue duma vez.
Ele me enfiou a agulha...
Dois dias depois, os testes disseram que não havia nada de errado comigo. Não sei se foi por causa daquela diferença de cinco minutos. Mas as crises de tontura pioraram. Comecei a sair do trabalho quatro horas antes do previsto, sem preencher corretamente os formulários.
Eu chegava por volta das onze da noite e lá estava Fay. Pobre Fay grávida.
– O que aconteceu?
– Não conseguia suportar mais – eu disse –, estou muito sensível...
– Cartas na rua
e do lado de fora um grande ônibus verde cortava o tráfego como
a insanidade que saltasse de uma linha ondulada, Turguêniev, Turguêniev,
diz o rádio, e Jane Austen, Jane Austen, também.
“Vou fazer o retrato dela no dia 28, quando você estiver
no trabalho.”
Ele estava a um passo da obesidade e caminhava constantemente,
espatifava-se; eles o tinham; esvaziavam-no por dentro como
uma mosca na teia, e seus olhos eram injetados de raiva-medo.
Ele sente o ódio e o descartar do mundo, mais afiados que sua
gilete, e sua intuição está suspensa como um pólipo úmido; e
ele se julga derrotado ao tentar remover os fios de barba
presos à lâmina sob a água (como a vida), não tão quente como deveria.
Daumier. Rue Transnonain, le 15 Avril, 1843. (Litografia.)
Paris, Bibliothèque Nationale.
“Ela tem um rosto como nunca vi em outra mulher.”
“O que é isso? Um caso amoroso?”
“Tolinho. Não posso amar uma mulher. Além disso, ela está grávida.”
Não posso pintar – uma flor devorada por uma cobra; aquela luz do sol é uma
mentira; e aqueles mercados cheiram a sapatos e a nudez de garotos vestidos,
e abaixo de tudo isso algum rio, algum movimento, alguma virada que
suba ao longo do limite de meu templo e morda com uma picada atordoante...
homens dirigem carros e pintam suas casas,
mas eles são loucos; homens se sentam nas barbearias, compram chapéus.
Corot. Lembrança de Mortefontaine.
Paris, Louvre.
“Tenho que escrever para o Kaiser, embora eu ache que ele é homossexual.”
“Você segue lendo Freud?”
“Página 299.”
Ela produziu um pequeno chapéu e ele fez dois estalos com a mão debaixo do
braço, erguendo-o da cama como uma longa antena de
lesma, e ela foi à igreja, e ele pensou agora eu tenho
tempo e o cachorro.
Sobre a igreja: o problema de uma máscara é que ela
nunca muda.
Tão rude as flores que crescem e não crescem belas.
Tão incrível a cadeira no pátio que não precisa sustentar pernas
e barriga e braço e pescoço e boca que morde o
vento como o fim de um túnel.
Ele se voltou na cama e pensou: estou procurando algum
segmento no ar. Ele flutua sobre a cabeça das pessoas.
Quando chove sobre as árvores ele se acomoda entre os galhos
mais quente e mais verdadeiramente sanguíneo que a pomba.
Orozco. Cristo Destruindo a Cruz.
Hanover, Dartmouth College, Baker Library.
Deixou-se consumir pelo sono.
Fay estava grávida. Mas isso não a fez mudar nem as coisas nos Correios mudaram.
Os mesmos funcionários faziam todo o trabalho enquanto o resto do pessoal, a equipe mista, ficava por ali, discutindo esportes. Eram todos caras negros, grandes – com uma constituição de profissionais da luta livre. Sempre que um novato entrava no serviço, era enviado para a equipe mista. Isso evitava que eles assassinassem os supervisores. Se as equipes mistas tinham um supervisor, jamais se conseguia avistá-lo. A equipe carregava os caminhões com as cartas que chegavam através do elevador de carga. Isso ocupava cinco minutos de uma hora de trabalho. Às vezes, eles contavam as cartas, ou ao menos fingiam. Pareciam bastante calmos e inteligentes, fazendo suas contas com um lápis comprido atrás da orelha. Mas na maior parte do tempo eles discutiam sobre esporte, de um modo violento. Todos eram especialistas – liam os mesmos comentaristas esportivos.
– Muito bem, cara, quem é pra você o melhor jogador de todos os tempos do campo externo?
– Bem, Willie Mays, Ted Williams, Cobb.
– O quê? O quê?
– É isso aí, meu!
– E quanto ao Babe? Como deixar o Babe de fora?
– Ok, Ok, quem é o seu jogador cinco estrelas na posição?
– Não é cinco estrelas, é o melhor de todos os tempos!
– Ok, Ok, você sabe o que eu quero dizer, meu, você sabe o que eu quero
dizer!
– Bem, fico com Mays, Ruth e Di Maj!
– Vocês dois perderam a noção! E o Hank Aaron, rapaziada? Como deixar o Hank de fora?
Certa vez, todos os cargos da equipe mista foram postos à disposição. As vagas eram preenchidas principalmente em função do tempo de trabalho. A equipe mista se organizou e rasgou as fichas de preenchimentos de vagas do livro de pedidos. Eles não podiam fazer nada. Ninguém deu queixa por escrito. Era um caminho comprido e escuro até o estacionamento à noite.
Comecei a sentir tonturas. Podia senti-las vindo. A caixa começava a girar. As crises duravam um minuto. Não conseguia entender o que se passava. Cada carta se tornava mais e mais pesada. Os funcionários começavam a ter aquele aspecto de um cinza esmaecido. Eu começava a deslizar de meu banquinho. Minhas pernas mal eram capazes de me sustentar. O trabalho estava me matando.
Fui até meu médico e lhe disse o que estava acontecendo. Ele mediu minha pressão.
– Não, não, não há nada de errado com sua pressão.
Então ele me auscultou e me pesou.
– Não vejo nada de errado.
Depois resolveu fazer um exame de sangue especial. Fez três coletas de sangue, sucessivas, em intervalos, cada um parecendo maior do que o anterior.
– Importa-se de esperar na outra sala?
– Não, não, vou dar uma volta por aí e retorno na hora combinada.
– Certo, mas volte mesmo na hora combinada.
Cheguei a tempo para a segunda coleta. Então houve uma espera maior para a terceira, cerca de vinte ou 25 minutos. Dei uma volta pela rua. Nada de especial estava acontecendo. Fui até uma loja de conveniências e fiquei lendo uma revista. Coloquei-a de volta em seu lugar, olhei para o relógio e saí. Vi aquela mulher sentada na parada de ônibus. Era uma dessas que a gente vê raramente. Mostrava boa parte das pernas. Não conseguia desviar meus olhos. Atravessei a rua e fiquei a uns vinte metros de distância.
Então ela se levantou. Tive que segui-la. Aquele rabo gostoso acenava para mim. Eu estava hipnotizado. Ela entrou numa agência dos Correios. Entrou numa enorme fila e eu fiquei atrás dela. Trazia dois postais consigo. Comprei doze postais de via aérea e dois dólares em selos.
Quando saí, ela apanhava o ônibus. Vi ainda um resquício daquelas pernas e daquele rabo deliciosos entrando no ônibus, ônibus que a levou embora.
O médico estava esperando.
– O que aconteceu? O senhor está cinco minutos atrasado!
– Não sei. Meu relógio deve ter parado.
– AS COISAS TÊM QUE SER FEITAS COM EXATIDÃO!
– Vamos. Tire meu sangue duma vez.
Ele me enfiou a agulha...
Dois dias depois, os testes disseram que não havia nada de errado comigo. Não sei se foi por causa daquela diferença de cinco minutos. Mas as crises de tontura pioraram. Comecei a sair do trabalho quatro horas antes do previsto, sem preencher corretamente os formulários.
Eu chegava por volta das onze da noite e lá estava Fay. Pobre Fay grávida.
– O que aconteceu?
– Não conseguia suportar mais – eu disse –, estou muito sensível...
– Cartas na rua
1 187
Charles Bukowski
A Noite Mais Estranha Que de Fato Você Já Viu
eu tinha esse quarto da frente na DeLongpre
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e o
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
Tudo começou com um equívoco.
Era época de Natal e soube através do bêbado que vivia colina acima, que fazia esse esquema todo Natal, que eles contratavam quase qualquer um, e então eu pintei lá e quando me dei conta eu já estava com essa mochila de couro nas costas, dando voltas por aí a meu bel-prazer. Que trabalho, pensei. Uma moleza! Eles lhe designavam apenas uma ou duas quadras e, se você conseguisse percorrê-las a tempo, o carregador regular designava mais uma quadra, ou talvez você pudesse retornar e o supervisor lhe indicava uma nova área, mas dava para fazer as coisas à sua maneira, ou seja, levar o tempo que fosse preciso para colocar os cartões de natal nas caixas postais.
Creio que foi no meu segundo dia como temporário que essa mulher enorme apareceu e passou a me acompanhar enquanto eu entregava as cartas. Quero dizer com esse enorme é que seu rabo era enorme e suas tetas eram enormes e que ela era enorme em todos os lugares certos. Ela parecia um pouco louca, mas segui olhando para seu corpo mesmo assim, sem me importar.
Ela falava e falava e falava. Então deixou escapar. Seu marido era um oficial servindo numa ilha distante e ela se sentia sozinha, sabe, e vivia naquela casinha dos fundos, por conta própria.
– Que casinha? – perguntei.
Escreveu o endereço num pedaço de papel.
– Também sou sozinho – eu disse –, mais tarde apareço por lá pra gente conversar.
Eu era comprometido, mas a minha parceira estava fora boa parte do tempo, em algum lugar, o que me fazia alguém sozinho de fato. Estava sozinho e pronto para ter aquele enorme rabo junto a mim.
– Está bem – ela disse –, vejo você de noite.
Ela era muito legal, era uma boa trepada, mas como todas as trepadas, depois da terceira ou quarta noite, comecei a perder o interesse e não voltei mais.
Mas eu não conseguia deixar de pensar, deus, tudo o que esses carteiros têm pra fazer é entregar suas cartas e trepar. Esse é o trabalho certo pra mim, oh, sim sim sim.
Então fiz o exame, passei, depois o teste físico, passei, e lá estava eu – um carteiro substituto. No começo foi moleza. Mandaram-me para a Estação West Avon e era como no Natal, exceto que eu não trepava com ninguém. Todo dia eu esperava dormir com alguém, mas não conseguia. Mas o supervisor era camarada e eu me arrastava pelas redondezas, uma quadra aqui outra ali. Não usava sequer um uniforme, apenas um boné. Usava minhas roupas de sempre. Do jeito que eu e minha parceira Betty bebíamos, mal sobrava dinheiro para roupas.
Então fui transferido para a Estação Oakford.
O supervisor era um tipo pescoçudo chamado Jonstone. Estavam precisando de ajuda por ali e entendi por quê. Jonstone gostava de vestir camisas vermelho-escuras – significando perigo e sangue. Havia sete substitutos – Tom Moto, Nick Pelligrini, Herman Stratford, Rosey Anderson, Bobby Hansen, Harold Wiley e eu, Henry Chinaski. O horário de chegada era às cinco da manhã e eu era o único bêbado por ali. Sempre bebia até depois da meia-noite, e lá ficávamos nós sentados, às cinco da manhã, esperando pelo turno, esperando que algum dos carteiros regulares ligasse dizendo estar doente. Isto normalmente ocorria em dias de chuva ou numa onda de calor ou nos dias depois de feriados, quando as cartas se acumulavam e o peso dobrava.
Havia quarenta ou cinquenta rotas diferentes, talvez mais, cada situação era diferente, não havia nunca como se familiarizar com elas, você precisava apanhar as cartas que lhe cabiam e estar pronto antes das oito para os despachos por caminhão, e Jonstone não aceitava desculpas. Os substitutos faziam entregas em qualquer canto, seguiam sem almoço e morriam pelas ruas. Jonstone nos mandava fazer as entregas já com trinta minutos de atraso – girando em sua cadeira em sua camisa vermelha:
– Chinaski, pegue a rota 539!
Começávamos meia hora atrasados, mas ainda assim tínhamos que fazer as entregas a tempo e voltar no horário. E uma ou duas vezes por semana, já combalidos, exaustos e fodidos, tínhamos que fazer as coletas noturnas, e o horário do cronograma era impossível de ser cumprido – o caminhão jamais seria tão rápido. Era preciso pular quatro ou cinco caixas na primeira corrida e na próxima volta elas já estavam entupidas de cartas e você fedia, corria com o suor invadindo os sacos. E eu, que só queria uma foda, acabei fodido. Com a cortesia de Jonstone.
Os próprios substitutos tornaram Jonstone possível ao obedecer suas ordens impossíveis. Não conseguia entender como um homem cuja crueldade era tão patente tinha permissão para ocupar sua posição. Os carteiros regulares não davam a mínima, o cara do sindicato era um inútil, então preenchi um relatório de trinta páginas num dos meus dias de folga, enviei uma cópia pelo correio para Jonstone e a outra levei pessoalmente ao Escritório Federal. O atendente me pediu para esperar. E assim esperei e esperei e esperei. Esperei por uma hora e meia, então fui conduzido à presença de um homenzinho de cabelos cinzentos, com olhos que pareciam cinza de cigarro. Não chegou nem a pedir que eu sentasse. Começou a gritar comigo mal eu passei pela porta.
– O senhor é um desses filhos da puta metidos a esperto, não é?
– Pediria que o senhor não me xingasse, senhor!
– Sim, um desses filhos da puta sabichões, com seu vocabulariozinho de filho da puta, que não perde uma chance de mostrar o quanto sabe!
Ele me estendeu os papéis. E gritou:
– O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
– Não seja tolo. O sujeito é obviamente um sádico – eu disse.
– Há quanto tempo o senhor está nos Correios?
– Três semanas.
– O SR. JONSTONE ESTÁ NOS CORREIOS HÁ TRINTA ANOS!
– Sim, e o que isso tem a ver com o assunto?
– Já disse, O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
Creio que o pobre sujeito tinha vontade mesmo de me matar. Ele e Jonstone deviam ter dormido juntos.
– Tudo bem – eu disse –, Jonstone é um ótimo homem. Esqueça essa porra toda.
Então me afastei e tirei o dia seguinte de folga. Sem remuneração, claro.
– Cartas na rua
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e o
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
Tudo começou com um equívoco.
Era época de Natal e soube através do bêbado que vivia colina acima, que fazia esse esquema todo Natal, que eles contratavam quase qualquer um, e então eu pintei lá e quando me dei conta eu já estava com essa mochila de couro nas costas, dando voltas por aí a meu bel-prazer. Que trabalho, pensei. Uma moleza! Eles lhe designavam apenas uma ou duas quadras e, se você conseguisse percorrê-las a tempo, o carregador regular designava mais uma quadra, ou talvez você pudesse retornar e o supervisor lhe indicava uma nova área, mas dava para fazer as coisas à sua maneira, ou seja, levar o tempo que fosse preciso para colocar os cartões de natal nas caixas postais.
Creio que foi no meu segundo dia como temporário que essa mulher enorme apareceu e passou a me acompanhar enquanto eu entregava as cartas. Quero dizer com esse enorme é que seu rabo era enorme e suas tetas eram enormes e que ela era enorme em todos os lugares certos. Ela parecia um pouco louca, mas segui olhando para seu corpo mesmo assim, sem me importar.
Ela falava e falava e falava. Então deixou escapar. Seu marido era um oficial servindo numa ilha distante e ela se sentia sozinha, sabe, e vivia naquela casinha dos fundos, por conta própria.
– Que casinha? – perguntei.
Escreveu o endereço num pedaço de papel.
– Também sou sozinho – eu disse –, mais tarde apareço por lá pra gente conversar.
Eu era comprometido, mas a minha parceira estava fora boa parte do tempo, em algum lugar, o que me fazia alguém sozinho de fato. Estava sozinho e pronto para ter aquele enorme rabo junto a mim.
– Está bem – ela disse –, vejo você de noite.
Ela era muito legal, era uma boa trepada, mas como todas as trepadas, depois da terceira ou quarta noite, comecei a perder o interesse e não voltei mais.
Mas eu não conseguia deixar de pensar, deus, tudo o que esses carteiros têm pra fazer é entregar suas cartas e trepar. Esse é o trabalho certo pra mim, oh, sim sim sim.
Então fiz o exame, passei, depois o teste físico, passei, e lá estava eu – um carteiro substituto. No começo foi moleza. Mandaram-me para a Estação West Avon e era como no Natal, exceto que eu não trepava com ninguém. Todo dia eu esperava dormir com alguém, mas não conseguia. Mas o supervisor era camarada e eu me arrastava pelas redondezas, uma quadra aqui outra ali. Não usava sequer um uniforme, apenas um boné. Usava minhas roupas de sempre. Do jeito que eu e minha parceira Betty bebíamos, mal sobrava dinheiro para roupas.
Então fui transferido para a Estação Oakford.
O supervisor era um tipo pescoçudo chamado Jonstone. Estavam precisando de ajuda por ali e entendi por quê. Jonstone gostava de vestir camisas vermelho-escuras – significando perigo e sangue. Havia sete substitutos – Tom Moto, Nick Pelligrini, Herman Stratford, Rosey Anderson, Bobby Hansen, Harold Wiley e eu, Henry Chinaski. O horário de chegada era às cinco da manhã e eu era o único bêbado por ali. Sempre bebia até depois da meia-noite, e lá ficávamos nós sentados, às cinco da manhã, esperando pelo turno, esperando que algum dos carteiros regulares ligasse dizendo estar doente. Isto normalmente ocorria em dias de chuva ou numa onda de calor ou nos dias depois de feriados, quando as cartas se acumulavam e o peso dobrava.
Havia quarenta ou cinquenta rotas diferentes, talvez mais, cada situação era diferente, não havia nunca como se familiarizar com elas, você precisava apanhar as cartas que lhe cabiam e estar pronto antes das oito para os despachos por caminhão, e Jonstone não aceitava desculpas. Os substitutos faziam entregas em qualquer canto, seguiam sem almoço e morriam pelas ruas. Jonstone nos mandava fazer as entregas já com trinta minutos de atraso – girando em sua cadeira em sua camisa vermelha:
– Chinaski, pegue a rota 539!
Começávamos meia hora atrasados, mas ainda assim tínhamos que fazer as entregas a tempo e voltar no horário. E uma ou duas vezes por semana, já combalidos, exaustos e fodidos, tínhamos que fazer as coletas noturnas, e o horário do cronograma era impossível de ser cumprido – o caminhão jamais seria tão rápido. Era preciso pular quatro ou cinco caixas na primeira corrida e na próxima volta elas já estavam entupidas de cartas e você fedia, corria com o suor invadindo os sacos. E eu, que só queria uma foda, acabei fodido. Com a cortesia de Jonstone.
Os próprios substitutos tornaram Jonstone possível ao obedecer suas ordens impossíveis. Não conseguia entender como um homem cuja crueldade era tão patente tinha permissão para ocupar sua posição. Os carteiros regulares não davam a mínima, o cara do sindicato era um inútil, então preenchi um relatório de trinta páginas num dos meus dias de folga, enviei uma cópia pelo correio para Jonstone e a outra levei pessoalmente ao Escritório Federal. O atendente me pediu para esperar. E assim esperei e esperei e esperei. Esperei por uma hora e meia, então fui conduzido à presença de um homenzinho de cabelos cinzentos, com olhos que pareciam cinza de cigarro. Não chegou nem a pedir que eu sentasse. Começou a gritar comigo mal eu passei pela porta.
– O senhor é um desses filhos da puta metidos a esperto, não é?
– Pediria que o senhor não me xingasse, senhor!
– Sim, um desses filhos da puta sabichões, com seu vocabulariozinho de filho da puta, que não perde uma chance de mostrar o quanto sabe!
Ele me estendeu os papéis. E gritou:
– O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
– Não seja tolo. O sujeito é obviamente um sádico – eu disse.
– Há quanto tempo o senhor está nos Correios?
– Três semanas.
– O SR. JONSTONE ESTÁ NOS CORREIOS HÁ TRINTA ANOS!
– Sim, e o que isso tem a ver com o assunto?
– Já disse, O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
Creio que o pobre sujeito tinha vontade mesmo de me matar. Ele e Jonstone deviam ter dormido juntos.
– Tudo bem – eu disse –, Jonstone é um ótimo homem. Esqueça essa porra toda.
Então me afastei e tirei o dia seguinte de folga. Sem remuneração, claro.
– Cartas na rua
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Charles Bukowski
A Noite Mais Estranha Que de Fato Você Já Viu
eu tinha esse quarto da frente na DeLongpre
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e o
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
Tudo começou com um equívoco.
Era época de Natal e soube através do bêbado que vivia colina acima, que fazia esse esquema todo Natal, que eles contratavam quase qualquer um, e então eu pintei lá e quando me dei conta eu já estava com essa mochila de couro nas costas, dando voltas por aí a meu bel-prazer. Que trabalho, pensei. Uma moleza! Eles lhe designavam apenas uma ou duas quadras e, se você conseguisse percorrê-las a tempo, o carregador regular designava mais uma quadra, ou talvez você pudesse retornar e o supervisor lhe indicava uma nova área, mas dava para fazer as coisas à sua maneira, ou seja, levar o tempo que fosse preciso para colocar os cartões de natal nas caixas postais.
Creio que foi no meu segundo dia como temporário que essa mulher enorme apareceu e passou a me acompanhar enquanto eu entregava as cartas. Quero dizer com esse enorme é que seu rabo era enorme e suas tetas eram enormes e que ela era enorme em todos os lugares certos. Ela parecia um pouco louca, mas segui olhando para seu corpo mesmo assim, sem me importar.
Ela falava e falava e falava. Então deixou escapar. Seu marido era um oficial servindo numa ilha distante e ela se sentia sozinha, sabe, e vivia naquela casinha dos fundos, por conta própria.
– Que casinha? – perguntei.
Escreveu o endereço num pedaço de papel.
– Também sou sozinho – eu disse –, mais tarde apareço por lá pra gente conversar.
Eu era comprometido, mas a minha parceira estava fora boa parte do tempo, em algum lugar, o que me fazia alguém sozinho de fato. Estava sozinho e pronto para ter aquele enorme rabo junto a mim.
– Está bem – ela disse –, vejo você de noite.
Ela era muito legal, era uma boa trepada, mas como todas as trepadas, depois da terceira ou quarta noite, comecei a perder o interesse e não voltei mais.
Mas eu não conseguia deixar de pensar, deus, tudo o que esses carteiros têm pra fazer é entregar suas cartas e trepar. Esse é o trabalho certo pra mim, oh, sim sim sim.
Então fiz o exame, passei, depois o teste físico, passei, e lá estava eu – um carteiro substituto. No começo foi moleza. Mandaram-me para a Estação West Avon e era como no Natal, exceto que eu não trepava com ninguém. Todo dia eu esperava dormir com alguém, mas não conseguia. Mas o supervisor era camarada e eu me arrastava pelas redondezas, uma quadra aqui outra ali. Não usava sequer um uniforme, apenas um boné. Usava minhas roupas de sempre. Do jeito que eu e minha parceira Betty bebíamos, mal sobrava dinheiro para roupas.
Então fui transferido para a Estação Oakford.
O supervisor era um tipo pescoçudo chamado Jonstone. Estavam precisando de ajuda por ali e entendi por quê. Jonstone gostava de vestir camisas vermelho-escuras – significando perigo e sangue. Havia sete substitutos – Tom Moto, Nick Pelligrini, Herman Stratford, Rosey Anderson, Bobby Hansen, Harold Wiley e eu, Henry Chinaski. O horário de chegada era às cinco da manhã e eu era o único bêbado por ali. Sempre bebia até depois da meia-noite, e lá ficávamos nós sentados, às cinco da manhã, esperando pelo turno, esperando que algum dos carteiros regulares ligasse dizendo estar doente. Isto normalmente ocorria em dias de chuva ou numa onda de calor ou nos dias depois de feriados, quando as cartas se acumulavam e o peso dobrava.
Havia quarenta ou cinquenta rotas diferentes, talvez mais, cada situação era diferente, não havia nunca como se familiarizar com elas, você precisava apanhar as cartas que lhe cabiam e estar pronto antes das oito para os despachos por caminhão, e Jonstone não aceitava desculpas. Os substitutos faziam entregas em qualquer canto, seguiam sem almoço e morriam pelas ruas. Jonstone nos mandava fazer as entregas já com trinta minutos de atraso – girando em sua cadeira em sua camisa vermelha:
– Chinaski, pegue a rota 539!
Começávamos meia hora atrasados, mas ainda assim tínhamos que fazer as entregas a tempo e voltar no horário. E uma ou duas vezes por semana, já combalidos, exaustos e fodidos, tínhamos que fazer as coletas noturnas, e o horário do cronograma era impossível de ser cumprido – o caminhão jamais seria tão rápido. Era preciso pular quatro ou cinco caixas na primeira corrida e na próxima volta elas já estavam entupidas de cartas e você fedia, corria com o suor invadindo os sacos. E eu, que só queria uma foda, acabei fodido. Com a cortesia de Jonstone.
Os próprios substitutos tornaram Jonstone possível ao obedecer suas ordens impossíveis. Não conseguia entender como um homem cuja crueldade era tão patente tinha permissão para ocupar sua posição. Os carteiros regulares não davam a mínima, o cara do sindicato era um inútil, então preenchi um relatório de trinta páginas num dos meus dias de folga, enviei uma cópia pelo correio para Jonstone e a outra levei pessoalmente ao Escritório Federal. O atendente me pediu para esperar. E assim esperei e esperei e esperei. Esperei por uma hora e meia, então fui conduzido à presença de um homenzinho de cabelos cinzentos, com olhos que pareciam cinza de cigarro. Não chegou nem a pedir que eu sentasse. Começou a gritar comigo mal eu passei pela porta.
– O senhor é um desses filhos da puta metidos a esperto, não é?
– Pediria que o senhor não me xingasse, senhor!
– Sim, um desses filhos da puta sabichões, com seu vocabulariozinho de filho da puta, que não perde uma chance de mostrar o quanto sabe!
Ele me estendeu os papéis. E gritou:
– O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
– Não seja tolo. O sujeito é obviamente um sádico – eu disse.
– Há quanto tempo o senhor está nos Correios?
– Três semanas.
– O SR. JONSTONE ESTÁ NOS CORREIOS HÁ TRINTA ANOS!
– Sim, e o que isso tem a ver com o assunto?
– Já disse, O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
Creio que o pobre sujeito tinha vontade mesmo de me matar. Ele e Jonstone deviam ter dormido juntos.
– Tudo bem – eu disse –, Jonstone é um ótimo homem. Esqueça essa porra toda.
Então me afastei e tirei o dia seguinte de folga. Sem remuneração, claro.
– Cartas na rua
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e o
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
Tudo começou com um equívoco.
Era época de Natal e soube através do bêbado que vivia colina acima, que fazia esse esquema todo Natal, que eles contratavam quase qualquer um, e então eu pintei lá e quando me dei conta eu já estava com essa mochila de couro nas costas, dando voltas por aí a meu bel-prazer. Que trabalho, pensei. Uma moleza! Eles lhe designavam apenas uma ou duas quadras e, se você conseguisse percorrê-las a tempo, o carregador regular designava mais uma quadra, ou talvez você pudesse retornar e o supervisor lhe indicava uma nova área, mas dava para fazer as coisas à sua maneira, ou seja, levar o tempo que fosse preciso para colocar os cartões de natal nas caixas postais.
Creio que foi no meu segundo dia como temporário que essa mulher enorme apareceu e passou a me acompanhar enquanto eu entregava as cartas. Quero dizer com esse enorme é que seu rabo era enorme e suas tetas eram enormes e que ela era enorme em todos os lugares certos. Ela parecia um pouco louca, mas segui olhando para seu corpo mesmo assim, sem me importar.
Ela falava e falava e falava. Então deixou escapar. Seu marido era um oficial servindo numa ilha distante e ela se sentia sozinha, sabe, e vivia naquela casinha dos fundos, por conta própria.
– Que casinha? – perguntei.
Escreveu o endereço num pedaço de papel.
– Também sou sozinho – eu disse –, mais tarde apareço por lá pra gente conversar.
Eu era comprometido, mas a minha parceira estava fora boa parte do tempo, em algum lugar, o que me fazia alguém sozinho de fato. Estava sozinho e pronto para ter aquele enorme rabo junto a mim.
– Está bem – ela disse –, vejo você de noite.
Ela era muito legal, era uma boa trepada, mas como todas as trepadas, depois da terceira ou quarta noite, comecei a perder o interesse e não voltei mais.
Mas eu não conseguia deixar de pensar, deus, tudo o que esses carteiros têm pra fazer é entregar suas cartas e trepar. Esse é o trabalho certo pra mim, oh, sim sim sim.
Então fiz o exame, passei, depois o teste físico, passei, e lá estava eu – um carteiro substituto. No começo foi moleza. Mandaram-me para a Estação West Avon e era como no Natal, exceto que eu não trepava com ninguém. Todo dia eu esperava dormir com alguém, mas não conseguia. Mas o supervisor era camarada e eu me arrastava pelas redondezas, uma quadra aqui outra ali. Não usava sequer um uniforme, apenas um boné. Usava minhas roupas de sempre. Do jeito que eu e minha parceira Betty bebíamos, mal sobrava dinheiro para roupas.
Então fui transferido para a Estação Oakford.
O supervisor era um tipo pescoçudo chamado Jonstone. Estavam precisando de ajuda por ali e entendi por quê. Jonstone gostava de vestir camisas vermelho-escuras – significando perigo e sangue. Havia sete substitutos – Tom Moto, Nick Pelligrini, Herman Stratford, Rosey Anderson, Bobby Hansen, Harold Wiley e eu, Henry Chinaski. O horário de chegada era às cinco da manhã e eu era o único bêbado por ali. Sempre bebia até depois da meia-noite, e lá ficávamos nós sentados, às cinco da manhã, esperando pelo turno, esperando que algum dos carteiros regulares ligasse dizendo estar doente. Isto normalmente ocorria em dias de chuva ou numa onda de calor ou nos dias depois de feriados, quando as cartas se acumulavam e o peso dobrava.
Havia quarenta ou cinquenta rotas diferentes, talvez mais, cada situação era diferente, não havia nunca como se familiarizar com elas, você precisava apanhar as cartas que lhe cabiam e estar pronto antes das oito para os despachos por caminhão, e Jonstone não aceitava desculpas. Os substitutos faziam entregas em qualquer canto, seguiam sem almoço e morriam pelas ruas. Jonstone nos mandava fazer as entregas já com trinta minutos de atraso – girando em sua cadeira em sua camisa vermelha:
– Chinaski, pegue a rota 539!
Começávamos meia hora atrasados, mas ainda assim tínhamos que fazer as entregas a tempo e voltar no horário. E uma ou duas vezes por semana, já combalidos, exaustos e fodidos, tínhamos que fazer as coletas noturnas, e o horário do cronograma era impossível de ser cumprido – o caminhão jamais seria tão rápido. Era preciso pular quatro ou cinco caixas na primeira corrida e na próxima volta elas já estavam entupidas de cartas e você fedia, corria com o suor invadindo os sacos. E eu, que só queria uma foda, acabei fodido. Com a cortesia de Jonstone.
Os próprios substitutos tornaram Jonstone possível ao obedecer suas ordens impossíveis. Não conseguia entender como um homem cuja crueldade era tão patente tinha permissão para ocupar sua posição. Os carteiros regulares não davam a mínima, o cara do sindicato era um inútil, então preenchi um relatório de trinta páginas num dos meus dias de folga, enviei uma cópia pelo correio para Jonstone e a outra levei pessoalmente ao Escritório Federal. O atendente me pediu para esperar. E assim esperei e esperei e esperei. Esperei por uma hora e meia, então fui conduzido à presença de um homenzinho de cabelos cinzentos, com olhos que pareciam cinza de cigarro. Não chegou nem a pedir que eu sentasse. Começou a gritar comigo mal eu passei pela porta.
– O senhor é um desses filhos da puta metidos a esperto, não é?
– Pediria que o senhor não me xingasse, senhor!
– Sim, um desses filhos da puta sabichões, com seu vocabulariozinho de filho da puta, que não perde uma chance de mostrar o quanto sabe!
Ele me estendeu os papéis. E gritou:
– O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
– Não seja tolo. O sujeito é obviamente um sádico – eu disse.
– Há quanto tempo o senhor está nos Correios?
– Três semanas.
– O SR. JONSTONE ESTÁ NOS CORREIOS HÁ TRINTA ANOS!
– Sim, e o que isso tem a ver com o assunto?
– Já disse, O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
Creio que o pobre sujeito tinha vontade mesmo de me matar. Ele e Jonstone deviam ter dormido juntos.
– Tudo bem – eu disse –, Jonstone é um ótimo homem. Esqueça essa porra toda.
Então me afastei e tirei o dia seguinte de folga. Sem remuneração, claro.
– Cartas na rua
1 122
Charles Bukowski
Um Rádio Corajoso
no segundo andar da Coronado Street
eu costumava encher a cara
e jogar o rádio pela janela
sem que ele parasse de tocar e, claro,
a vidraça se partia
e o rádio acabava alojado sobre as telhas
ainda ligado
e eu dizia para minha mulher,
“Ah, que rádio maravilhoso!”
na manha seguinte eu tirava a janela
do esquadro
e levava-a rua abaixo
até o vidraceiro
que fazia a troca necessária.
seguia jogando o rádio pela janela
cada vez que ficava bêbado
e lá ficava ele sobre o telhado
ainda tocando –
um rádio mágico
um rádio corajoso,
e a cada manhã eu levava a janela
outra vez ao vidraceiro.
não lembro bem como tudo isso terminou
embora me lembre de que
finalmente nos mudamos.
havia uma mulher no andar de baixo que trabalhava no
jardim vestindo um traje de banho
e seu marido reclamava que não podia dormir à noite
por minha causa
por isso nos mudamos
e no lugar seguinte
ou me esqueci de jogar o rádio pela janela
ou apenas perdi a vontade de
jogá-lo.
lembro sim de sentir falta da mulher que trabalhava no
jardim em trajes de banho,
ela realmente mandava ver com aquela pazinha
e ela erguia o rabo bem alto no ar
e eu costumava sentar à janela
para acompanhar o sol brilhar naquelas carnes
enquanto a música tocava.
eu costumava encher a cara
e jogar o rádio pela janela
sem que ele parasse de tocar e, claro,
a vidraça se partia
e o rádio acabava alojado sobre as telhas
ainda ligado
e eu dizia para minha mulher,
“Ah, que rádio maravilhoso!”
na manha seguinte eu tirava a janela
do esquadro
e levava-a rua abaixo
até o vidraceiro
que fazia a troca necessária.
seguia jogando o rádio pela janela
cada vez que ficava bêbado
e lá ficava ele sobre o telhado
ainda tocando –
um rádio mágico
um rádio corajoso,
e a cada manhã eu levava a janela
outra vez ao vidraceiro.
não lembro bem como tudo isso terminou
embora me lembre de que
finalmente nos mudamos.
havia uma mulher no andar de baixo que trabalhava no
jardim vestindo um traje de banho
e seu marido reclamava que não podia dormir à noite
por minha causa
por isso nos mudamos
e no lugar seguinte
ou me esqueci de jogar o rádio pela janela
ou apenas perdi a vontade de
jogá-lo.
lembro sim de sentir falta da mulher que trabalhava no
jardim em trajes de banho,
ela realmente mandava ver com aquela pazinha
e ela erguia o rabo bem alto no ar
e eu costumava sentar à janela
para acompanhar o sol brilhar naquelas carnes
enquanto a música tocava.
1 084
Charles Bukowski
Os Lixeiros
aí vêm eles
esses caras
caminhão cinza
rádio ligado
estão com pressa
é muito excitante:
camisa aberta
as barrigas pendendo
recolhem as latas de lixo
esvaziam-nas na compactadora
e então o mecanismo sobe
barulhento demais...
eles precisam preencher formulários de requerimento
para conseguir esses trabalhos
precisam pagar as prestações da casa e
dirigem carros do ano
embebedam-se sábado à noite
agora sob o sol de Los Angeles
correm pra lá e pra cá atrás de latas de lixo
todo o lixo vai pra algum lugar
e eles gritam uns para os outros
então estão todos no caminhão
seguindo para oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
REX DISPOSAL CO.
esses caras
caminhão cinza
rádio ligado
estão com pressa
é muito excitante:
camisa aberta
as barrigas pendendo
recolhem as latas de lixo
esvaziam-nas na compactadora
e então o mecanismo sobe
barulhento demais...
eles precisam preencher formulários de requerimento
para conseguir esses trabalhos
precisam pagar as prestações da casa e
dirigem carros do ano
embebedam-se sábado à noite
agora sob o sol de Los Angeles
correm pra lá e pra cá atrás de latas de lixo
todo o lixo vai pra algum lugar
e eles gritam uns para os outros
então estão todos no caminhão
seguindo para oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
REX DISPOSAL CO.
1 119
Charles Bukowski
Os Lixeiros
aí vêm eles
esses caras
caminhão cinza
rádio ligado
estão com pressa
é muito excitante:
camisa aberta
as barrigas pendendo
recolhem as latas de lixo
esvaziam-nas na compactadora
e então o mecanismo sobe
barulhento demais...
eles precisam preencher formulários de requerimento
para conseguir esses trabalhos
precisam pagar as prestações da casa e
dirigem carros do ano
embebedam-se sábado à noite
agora sob o sol de Los Angeles
correm pra lá e pra cá atrás de latas de lixo
todo o lixo vai pra algum lugar
e eles gritam uns para os outros
então estão todos no caminhão
seguindo para oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
REX DISPOSAL CO.
esses caras
caminhão cinza
rádio ligado
estão com pressa
é muito excitante:
camisa aberta
as barrigas pendendo
recolhem as latas de lixo
esvaziam-nas na compactadora
e então o mecanismo sobe
barulhento demais...
eles precisam preencher formulários de requerimento
para conseguir esses trabalhos
precisam pagar as prestações da casa e
dirigem carros do ano
embebedam-se sábado à noite
agora sob o sol de Los Angeles
correm pra lá e pra cá atrás de latas de lixo
todo o lixo vai pra algum lugar
e eles gritam uns para os outros
então estão todos no caminhão
seguindo para oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
REX DISPOSAL CO.
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