Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Escuridão
a escuridão cai sobre a Humanidade
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
824
Charles Bukowski
Escuridão
a escuridão cai sobre a Humanidade
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
824
Charles Bukowski
A Vida Estradeira
um idiota ficou me fechando e por fim consegui passar por ele, e na
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
1 120
Charles Bukowski
Para Os Meus Amigos da Ivy League:
muitos daqueles que conheci nos circuitos de leitura ou dos quais me falaram nos circuitos
de leitura nos velhos tempos são agora ou professores ou poetas-residentes
e amealharam Guggenheims e N.E.A.s** e diversas outras bolsas.
bem, eu mesmo já tentei obter uma Gugg certa vez, ganhei inclusive um N.E.A. de modo que não posso
criticar o golpe
mas
você tinha que ver os caras naquela época: maltrapilhos, olhos esbugalhados, vociferando
contra o sistema
agora
foram ingeridos, digeridos, polidos
escrevem resenhas para os periódicos
escrevem poesia bem trabalhada, serena, inofensiva
editam tantas das revistas que nem sei para onde eu deveria mandar este
poema
já que eles atacam meu trabalho com alarmante regularidade
e
não consigo ler os deles
porém seus ataques a mim foram eficazes neste país
e
se não fosse pela Europa eu provavelmente ainda seria um escritor passando fome
ou morando na rua
ou arrancando ervas daninhas no seu jardim
ou...?
bem
você conhece o velho ditado: gosto não se
discute
e
ou eles estão certos e eu errado ou então estou certo e eles todos estão
errados
ou
talvez seja algo no meio disso.
a maioria das pessoas no mundo não dá a mínima
e
com frequência sinto a mesma
coisa.
** National Endowment for the Arts. (N.T.)
de leitura nos velhos tempos são agora ou professores ou poetas-residentes
e amealharam Guggenheims e N.E.A.s** e diversas outras bolsas.
bem, eu mesmo já tentei obter uma Gugg certa vez, ganhei inclusive um N.E.A. de modo que não posso
criticar o golpe
mas
você tinha que ver os caras naquela época: maltrapilhos, olhos esbugalhados, vociferando
contra o sistema
agora
foram ingeridos, digeridos, polidos
escrevem resenhas para os periódicos
escrevem poesia bem trabalhada, serena, inofensiva
editam tantas das revistas que nem sei para onde eu deveria mandar este
poema
já que eles atacam meu trabalho com alarmante regularidade
e
não consigo ler os deles
porém seus ataques a mim foram eficazes neste país
e
se não fosse pela Europa eu provavelmente ainda seria um escritor passando fome
ou morando na rua
ou arrancando ervas daninhas no seu jardim
ou...?
bem
você conhece o velho ditado: gosto não se
discute
e
ou eles estão certos e eu errado ou então estou certo e eles todos estão
errados
ou
talvez seja algo no meio disso.
a maioria das pessoas no mundo não dá a mínima
e
com frequência sinto a mesma
coisa.
** National Endowment for the Arts. (N.T.)
1 047
Charles Bukowski
É Por Isso Que Os Enterros São Tão Tristes
ele tem todas as ferramentas mas é preguiçoso, não tem
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
898
Charles Bukowski
É Por Isso Que Os Enterros São Tão Tristes
ele tem todas as ferramentas mas é preguiçoso, não tem
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
898
Charles Bukowski
É Por Isso Que Os Enterros São Tão Tristes
ele tem todas as ferramentas mas é preguiçoso, não tem
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
898
Charles Bukowski
O Grande Plano
passando fome num inverno da Filadélfia
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
1 250
Charles Bukowski
Meu Amigo, o Atendente do Estacionamento
– ele é um dândi
– bigodinho preto
– geralmente sugando um charuto
ele costuma se debruçar para dentro dos carros enquanto
efetua negócios
na primeira vez em que o vi, ele disse
“ei! cê vai dar uma
matada?”
“talvez”, eu respondi.
na vez seguinte foi:
“ei, Pé de mesa! o que é que tá
rolando?”
“quase nada”, eu disse a
ele.
na vez seguinte minha namorada estava comigo
e ele apenas
sorriu.
na vez seguinte eu estava
sozinho.
“ei”, ele perguntou, “cadê a
jovenzinha?”
“deixei em casa...”
“Papo furado! aposto que ela te
largou!”
e na vez seguinte
ele realmente se debruçou para dentro do carro:
“como é que pode um cara como você dirigir
uma BMW? aposto que você herdou o seu
dinheiro, você não ganhou esse carro com o seu
cérebro!”
“como você adivinhou?”, eu
respondi.
isso foi algumas semanas atrás.
não tenho visto meu amigo nos últimos tempos.
um sujeito como aquele, provavelmente ele apenas avançou
para algo
melhor.
– bigodinho preto
– geralmente sugando um charuto
ele costuma se debruçar para dentro dos carros enquanto
efetua negócios
na primeira vez em que o vi, ele disse
“ei! cê vai dar uma
matada?”
“talvez”, eu respondi.
na vez seguinte foi:
“ei, Pé de mesa! o que é que tá
rolando?”
“quase nada”, eu disse a
ele.
na vez seguinte minha namorada estava comigo
e ele apenas
sorriu.
na vez seguinte eu estava
sozinho.
“ei”, ele perguntou, “cadê a
jovenzinha?”
“deixei em casa...”
“Papo furado! aposto que ela te
largou!”
e na vez seguinte
ele realmente se debruçou para dentro do carro:
“como é que pode um cara como você dirigir
uma BMW? aposto que você herdou o seu
dinheiro, você não ganhou esse carro com o seu
cérebro!”
“como você adivinhou?”, eu
respondi.
isso foi algumas semanas atrás.
não tenho visto meu amigo nos últimos tempos.
um sujeito como aquele, provavelmente ele apenas avançou
para algo
melhor.
1 092
Charles Bukowski
Caixa Postal 11946, Fresno, Calif. 93776
voltei de carro do hipódromo depois de perder $50.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
1 054
Charles Bukowski
Caixa Postal 11946, Fresno, Calif. 93776
voltei de carro do hipódromo depois de perder $50.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
1 054
Charles Bukowski
Ajudar Os Mais Velhos
eu estava parado na fila do banco hoje
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
1 142
Charles Bukowski
Ajudar Os Mais Velhos
eu estava parado na fila do banco hoje
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
1 142
Charles Bukowski
O Jogador
eu tinha 40 pela vitória do cavalo 6
ele tinha 2 corpos de vantagem na reta final
estava correndo junto à grade
quando o jóquei o chicoteou
com a mão direita
e o cavalo bateu na madeira
tombou
derrubou o jóquei
e lá se foi a corrida
para mim.
essa era a sétima corrida
e considerei que o cavalo
poderia ter perdido
de qualquer maneira
e aí considerei a ideia de ir embora
mas decidi jogar na
oitava,
botei 20 pela vitória numa aposta de 5 para
um.
na nona eu apostei 40 pela vitória
do segundo favorito
e quando a campainha tocou na largada
o cavalo empinou e
deixou meu jóquei
na baia.
desci a escada rolante
e saí pelo
portão
onde um jovem me pediu
um dólar para que pudesse
pegar o ônibus
para casa.
eu dei a nota e
falei
“você deveria manter distância deste
lugar”.
“é”, ele disse, “eu
sei.”
então segui rumo ao estacionamento
procurando cigarros nos bolsos do meu
casaco.
nada.
ele tinha 2 corpos de vantagem na reta final
estava correndo junto à grade
quando o jóquei o chicoteou
com a mão direita
e o cavalo bateu na madeira
tombou
derrubou o jóquei
e lá se foi a corrida
para mim.
essa era a sétima corrida
e considerei que o cavalo
poderia ter perdido
de qualquer maneira
e aí considerei a ideia de ir embora
mas decidi jogar na
oitava,
botei 20 pela vitória numa aposta de 5 para
um.
na nona eu apostei 40 pela vitória
do segundo favorito
e quando a campainha tocou na largada
o cavalo empinou e
deixou meu jóquei
na baia.
desci a escada rolante
e saí pelo
portão
onde um jovem me pediu
um dólar para que pudesse
pegar o ônibus
para casa.
eu dei a nota e
falei
“você deveria manter distância deste
lugar”.
“é”, ele disse, “eu
sei.”
então segui rumo ao estacionamento
procurando cigarros nos bolsos do meu
casaco.
nada.
1 135
Charles Bukowski
O Jogador
eu tinha 40 pela vitória do cavalo 6
ele tinha 2 corpos de vantagem na reta final
estava correndo junto à grade
quando o jóquei o chicoteou
com a mão direita
e o cavalo bateu na madeira
tombou
derrubou o jóquei
e lá se foi a corrida
para mim.
essa era a sétima corrida
e considerei que o cavalo
poderia ter perdido
de qualquer maneira
e aí considerei a ideia de ir embora
mas decidi jogar na
oitava,
botei 20 pela vitória numa aposta de 5 para
um.
na nona eu apostei 40 pela vitória
do segundo favorito
e quando a campainha tocou na largada
o cavalo empinou e
deixou meu jóquei
na baia.
desci a escada rolante
e saí pelo
portão
onde um jovem me pediu
um dólar para que pudesse
pegar o ônibus
para casa.
eu dei a nota e
falei
“você deveria manter distância deste
lugar”.
“é”, ele disse, “eu
sei.”
então segui rumo ao estacionamento
procurando cigarros nos bolsos do meu
casaco.
nada.
ele tinha 2 corpos de vantagem na reta final
estava correndo junto à grade
quando o jóquei o chicoteou
com a mão direita
e o cavalo bateu na madeira
tombou
derrubou o jóquei
e lá se foi a corrida
para mim.
essa era a sétima corrida
e considerei que o cavalo
poderia ter perdido
de qualquer maneira
e aí considerei a ideia de ir embora
mas decidi jogar na
oitava,
botei 20 pela vitória numa aposta de 5 para
um.
na nona eu apostei 40 pela vitória
do segundo favorito
e quando a campainha tocou na largada
o cavalo empinou e
deixou meu jóquei
na baia.
desci a escada rolante
e saí pelo
portão
onde um jovem me pediu
um dólar para que pudesse
pegar o ônibus
para casa.
eu dei a nota e
falei
“você deveria manter distância deste
lugar”.
“é”, ele disse, “eu
sei.”
então segui rumo ao estacionamento
procurando cigarros nos bolsos do meu
casaco.
nada.
1 135
Charles Bukowski
Vagabundeando Com Jane
não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 134
Charles Bukowski
Vagabundeando Com Jane
não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 134
Charles Bukowski
Paz E Amor
nos anos 60
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
1 099
Charles Bukowski
Paz E Amor
nos anos 60
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
1 099
Charles Bukowski
Meus Novos Pais
(para o sr. e a sra. P.C.)
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
nós sentamos e bebemos na cozinha
deles. esvaziamos nossas cervejas de um litro
e fumamos um cigarro atrás do outro.
somos bebuns bobos. as horas voam.
discutimos religião, futebol,
estrelas de cinema.
digo a eles que eu poderia ser uma estrela de cinema.
ele me diz que é uma estrela de cinema.
um rádio vermelho toca música atrás
de nós.
“vocês são os meus novos pais”, digo a eles.
eu me levanto e beijo ambos
no alto da cabeça.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
meus novos pais.
eu ergo meu litro de cerveja:
“eu compro da próxima vez, o trago é por minha conta
da próxima vez.”
eles não respondem.
“vou estar de volta em meados de janeiro,
vou trazer um presente, vou trazer um presente
valendo uns 14 dólares.”
“como estão os seus dentes?”, ele pergunta.
“estão bem, o que restou deles.”
“se precisar de dentes procure a U.S.C.
Medical School.”
ele põe a mão dentro da boca
tira uma dentadura, depois a
outra. ele as coloca na
mesa. “olha só esses dentes, não se acha
coisa melhor do que esses aí. U.S.C. Medical
School.”
“você consegue comer qualquer coisa?”, pergunto.
“qualquer coisa que se mexer”, ele diz.
logo ele adormece
cabeça sobre os braços. ela me acompanha até a
porta.
dou o beijo de boa noite na minha mãe.
“você me dá tesão, seu filho da puta”, ela
diz.
“ora, mamãe”, digo eu, “não fale desse jeito.
o bom Deus está escutando.”
ela fecha a porta e eu desço a
entrada da garagem
bêbado ao luar.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
nós sentamos e bebemos na cozinha
deles. esvaziamos nossas cervejas de um litro
e fumamos um cigarro atrás do outro.
somos bebuns bobos. as horas voam.
discutimos religião, futebol,
estrelas de cinema.
digo a eles que eu poderia ser uma estrela de cinema.
ele me diz que é uma estrela de cinema.
um rádio vermelho toca música atrás
de nós.
“vocês são os meus novos pais”, digo a eles.
eu me levanto e beijo ambos
no alto da cabeça.
ele tem 60 anos. ela tem 55. eu tenho 53.
meus novos pais.
eu ergo meu litro de cerveja:
“eu compro da próxima vez, o trago é por minha conta
da próxima vez.”
eles não respondem.
“vou estar de volta em meados de janeiro,
vou trazer um presente, vou trazer um presente
valendo uns 14 dólares.”
“como estão os seus dentes?”, ele pergunta.
“estão bem, o que restou deles.”
“se precisar de dentes procure a U.S.C.
Medical School.”
ele põe a mão dentro da boca
tira uma dentadura, depois a
outra. ele as coloca na
mesa. “olha só esses dentes, não se acha
coisa melhor do que esses aí. U.S.C. Medical
School.”
“você consegue comer qualquer coisa?”, pergunto.
“qualquer coisa que se mexer”, ele diz.
logo ele adormece
cabeça sobre os braços. ela me acompanha até a
porta.
dou o beijo de boa noite na minha mãe.
“você me dá tesão, seu filho da puta”, ela
diz.
“ora, mamãe”, digo eu, “não fale desse jeito.
o bom Deus está escutando.”
ela fecha a porta e eu desço a
entrada da garagem
bêbado ao luar.
968
Charles Bukowski
Carta Para Um Amigo Com Um Problema Doméstico:
Olá Carl:
não se preocupe por sua esposa ter fugido de você
ela simplesmente não te entendia.
um pneu me furou hoje na autoestrada
e tive que trocar a roda com uns cheira-
dores voando em seus Maseratis soprando vento na minha
bunda.
o principal é você simplesmente tocar sua vida
e seguir fazendo aquilo que você precisa fazer, ou melhor –
aquilo que você quer fazer.
eu estava no consultório do dentista esses dias
e li uma publicação médica
e ela dizia
que você só precisa
viver até o ano 2020 d.C. e aí
se você tiver dinheiro suficiente
quando seu corpo morrer será possível transplantar seu
cérebro num corpo sem carne que te dá
visão e movimento – tipo você pode pedalar uma
bicicleta ou qualquer coisa do tipo e você também
não perderá tempo urinando ou defe-
cando ou comendo – você só ganha um
tanquinho de sangue no alto da cabeça pra encher
mais ou menos uma vez por mês – é uma espécie de óleo
pro cérebro.
e não se preocupe, tem até sexo, dizem,
só que é um pouco diferente (haha) você pode
ficar metendo até ela implorar pra você parar!
(ela só vai te largar por não aguentar mais
em vez de querer mais.)
esse é o lance do transplante sem carne.
mas tem outra alternativa: eles podem
transplantar o seu cérebro num corpo vivo
cujo cérebro foi retirado de modo a
abrir espaço para o seu.
só que o custo para isso será mais
proibitivo
pois eles terão de localizar um corpo,
um corpo vivo em algum lugar
num hospício digamos ou numa prisão ou
nas ruas em algum lugar – talvez um sequestro –
e embora esses corpos venham a ser melhores,
mais realistas, eles não vão durar tanto quanto
o corpo sem carne que pode funcionar por uns
500 anos antes de exigir troca.
então é tudo uma questão de escolha, daquilo que
você gosta, ou daquilo que você pode bancar.
quando você entra no corpo ele não vai
durar tanto assim – eles dizem uns 110 anos lá por
2020 d.C. – e aí você terá de encontrar
uma reposição de corpo vivo (de novo) ou optar por um
dos trecos sem carne.
em geral, como dão a entender nesse artigo que eu li
no consultório do meu dentista, se você não for tão rico
você pega o treco sem carne mas
se continuar muito bem de capital você
vai pegando o corpo-vivo repetidas vezes.
(os modelos de corpo-vivo têm certas vantagens
pois você será capaz de enganar a maioria do pessoal
da rua e também
a vida sexual é mais realista embora
mais curta.)
Carl, não estou passando a coisa exatamente como
estava escrita mas estou traduzindo todo aquele
lero-lero médico em algo que nós
possamos entender,
mas você acha que dentistas deveriam ter esse tipo de
merda
repousando em suas mesas?
de todo modo, provavelmente quando você receber esta carta
a sua patroa estará de volta com você.
de todo modo, Carl, continuei lendo
e o cara depois dizia que
em ambos os transplantes de cérebro no
corpo vivo e no corpo sem carne
outra coisa ocorreria com as pessoas que
tivessem dinheiro suficiente pra fazer os truques de transferência:
o computadorizado conhecimento dos séculos seria
introduzido no cérebro – e pra onde quer que você quisesse ir
você poderia ir – você seria capaz de pintar como
Rembrandt ou Picasso,
conquistar como César. você poderia fazer todas as coisas
que esses e outros como eles haviam feito
só que melhor.
você seria mais brilhante do que Einstein –
haveria pouquíssimo que você não poderia fazer
e talvez o corpo mais próximo de você
pudesse fazê-lo.
nesse ponto a coisa fica um tanto desconcertante –
o cara prossegue
ele é tipo um daqueles caras em seus
Maseratis cheirados; ele prossegue dizendo
numa linguagem um tanto técnica e obscura que
isso não é Ficção Científica
isso é a abertura de uma porta de horror e assombro
nunca antes especulada e ele diz que a
Última Guerra do Homem se dará entre os ricos
transplantados computadorizados e os não ricos que são
os Muitos
que afinal se ressentirão da sacanagem de terem sido excluídos da
imortalidade
e os ricos vão querer proteger o que é deles
para sempre
e
que
no final
os ricos computadorizados vão ganhar a última
Guerra do Homem (e da
Mulher)
depois ele diz que a subsequente Nova
Guerra tomará forma com os
Imortais lutando contra os Imortais
e o que sucederá será um
acontecimento
exemplar
de modo que o Tempo tal como o conhecemos
entrega os pontos.
mas que bela loucura, não é mesmo,
Carl?
eu gostaria de dizer
que à luz de tudo isso
que a sua esposa fugir não significa
grande coisa
mas eu sei que significa
só pensei em te mostrar
como outras coisas poderiam acontecer.
enquanto isso, as coisas não estão boas aqui
tampouco.
seu amigão,
Hank
não se preocupe por sua esposa ter fugido de você
ela simplesmente não te entendia.
um pneu me furou hoje na autoestrada
e tive que trocar a roda com uns cheira-
dores voando em seus Maseratis soprando vento na minha
bunda.
o principal é você simplesmente tocar sua vida
e seguir fazendo aquilo que você precisa fazer, ou melhor –
aquilo que você quer fazer.
eu estava no consultório do dentista esses dias
e li uma publicação médica
e ela dizia
que você só precisa
viver até o ano 2020 d.C. e aí
se você tiver dinheiro suficiente
quando seu corpo morrer será possível transplantar seu
cérebro num corpo sem carne que te dá
visão e movimento – tipo você pode pedalar uma
bicicleta ou qualquer coisa do tipo e você também
não perderá tempo urinando ou defe-
cando ou comendo – você só ganha um
tanquinho de sangue no alto da cabeça pra encher
mais ou menos uma vez por mês – é uma espécie de óleo
pro cérebro.
e não se preocupe, tem até sexo, dizem,
só que é um pouco diferente (haha) você pode
ficar metendo até ela implorar pra você parar!
(ela só vai te largar por não aguentar mais
em vez de querer mais.)
esse é o lance do transplante sem carne.
mas tem outra alternativa: eles podem
transplantar o seu cérebro num corpo vivo
cujo cérebro foi retirado de modo a
abrir espaço para o seu.
só que o custo para isso será mais
proibitivo
pois eles terão de localizar um corpo,
um corpo vivo em algum lugar
num hospício digamos ou numa prisão ou
nas ruas em algum lugar – talvez um sequestro –
e embora esses corpos venham a ser melhores,
mais realistas, eles não vão durar tanto quanto
o corpo sem carne que pode funcionar por uns
500 anos antes de exigir troca.
então é tudo uma questão de escolha, daquilo que
você gosta, ou daquilo que você pode bancar.
quando você entra no corpo ele não vai
durar tanto assim – eles dizem uns 110 anos lá por
2020 d.C. – e aí você terá de encontrar
uma reposição de corpo vivo (de novo) ou optar por um
dos trecos sem carne.
em geral, como dão a entender nesse artigo que eu li
no consultório do meu dentista, se você não for tão rico
você pega o treco sem carne mas
se continuar muito bem de capital você
vai pegando o corpo-vivo repetidas vezes.
(os modelos de corpo-vivo têm certas vantagens
pois você será capaz de enganar a maioria do pessoal
da rua e também
a vida sexual é mais realista embora
mais curta.)
Carl, não estou passando a coisa exatamente como
estava escrita mas estou traduzindo todo aquele
lero-lero médico em algo que nós
possamos entender,
mas você acha que dentistas deveriam ter esse tipo de
merda
repousando em suas mesas?
de todo modo, provavelmente quando você receber esta carta
a sua patroa estará de volta com você.
de todo modo, Carl, continuei lendo
e o cara depois dizia que
em ambos os transplantes de cérebro no
corpo vivo e no corpo sem carne
outra coisa ocorreria com as pessoas que
tivessem dinheiro suficiente pra fazer os truques de transferência:
o computadorizado conhecimento dos séculos seria
introduzido no cérebro – e pra onde quer que você quisesse ir
você poderia ir – você seria capaz de pintar como
Rembrandt ou Picasso,
conquistar como César. você poderia fazer todas as coisas
que esses e outros como eles haviam feito
só que melhor.
você seria mais brilhante do que Einstein –
haveria pouquíssimo que você não poderia fazer
e talvez o corpo mais próximo de você
pudesse fazê-lo.
nesse ponto a coisa fica um tanto desconcertante –
o cara prossegue
ele é tipo um daqueles caras em seus
Maseratis cheirados; ele prossegue dizendo
numa linguagem um tanto técnica e obscura que
isso não é Ficção Científica
isso é a abertura de uma porta de horror e assombro
nunca antes especulada e ele diz que a
Última Guerra do Homem se dará entre os ricos
transplantados computadorizados e os não ricos que são
os Muitos
que afinal se ressentirão da sacanagem de terem sido excluídos da
imortalidade
e os ricos vão querer proteger o que é deles
para sempre
e
que
no final
os ricos computadorizados vão ganhar a última
Guerra do Homem (e da
Mulher)
depois ele diz que a subsequente Nova
Guerra tomará forma com os
Imortais lutando contra os Imortais
e o que sucederá será um
acontecimento
exemplar
de modo que o Tempo tal como o conhecemos
entrega os pontos.
mas que bela loucura, não é mesmo,
Carl?
eu gostaria de dizer
que à luz de tudo isso
que a sua esposa fugir não significa
grande coisa
mas eu sei que significa
só pensei em te mostrar
como outras coisas poderiam acontecer.
enquanto isso, as coisas não estão boas aqui
tampouco.
seu amigão,
Hank
1 054
Charles Bukowski
Os Dias Gloriosos
os rios mortos correm para trás em direção a lugar nenhum,
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
997
Charles Bukowski
Bob Dylan
esses dois jovens
no pátio do outro lado da rua
eles ouvem Bob Dylan
o dia todo e a noite toda
no aparelho de som
eles ligam aquele aparelho
no máximo volume possível
e é um ótimo
aparelho
a vizinhança toda
ganha Bob Dylan
de graça
e para mim é ainda mais grátis
porque moro no pátio
logo em frente
ganho Dylan quando cago
ganho Dylan quando trepo
e no momento em que tento
dormir.
às vezes os vejo
lá fora na calçada
bem jovens e arrumadinhos
indo comprar comida e
papel higiênico
eles formam um dos casais mais
adoráveis da
vizinhança.
no pátio do outro lado da rua
eles ouvem Bob Dylan
o dia todo e a noite toda
no aparelho de som
eles ligam aquele aparelho
no máximo volume possível
e é um ótimo
aparelho
a vizinhança toda
ganha Bob Dylan
de graça
e para mim é ainda mais grátis
porque moro no pátio
logo em frente
ganho Dylan quando cago
ganho Dylan quando trepo
e no momento em que tento
dormir.
às vezes os vejo
lá fora na calçada
bem jovens e arrumadinhos
indo comprar comida e
papel higiênico
eles formam um dos casais mais
adoráveis da
vizinhança.
1 211
Charles Bukowski
Roído Por Maçante Crise
não é fácil
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
1 057