Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Os Homens do Lixo
aí vêm eles
esses caras
o caminhão cinzento
o rádio ligado
eles têm pressa
é muito empolgante:
a camisa aberta
as panças pendendo
eles esvaziam as lixeiras
rolam as latas até a boca do caminhão
que as ergue para engolir o conteúdo
com barulho excessivo...
os homens têm que preencher formulários
para conseguir esses empregos
eles têm que pagar pelas casas e
dirigir carros de último modelo
eles se embebedam no sábado à noite
agora enquanto brilha o sol em Los Angeles
eles correm para lá e pra cá com suas latas de lixo
todo esse lixo vai para algum lugar
e eles gritam uns com os outros
depois disso todos voltam ao caminhão
rumo a oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
CIA REX DE COLETAS
esses caras
o caminhão cinzento
o rádio ligado
eles têm pressa
é muito empolgante:
a camisa aberta
as panças pendendo
eles esvaziam as lixeiras
rolam as latas até a boca do caminhão
que as ergue para engolir o conteúdo
com barulho excessivo...
os homens têm que preencher formulários
para conseguir esses empregos
eles têm que pagar pelas casas e
dirigir carros de último modelo
eles se embebedam no sábado à noite
agora enquanto brilha o sol em Los Angeles
eles correm para lá e pra cá com suas latas de lixo
todo esse lixo vai para algum lugar
e eles gritam uns com os outros
depois disso todos voltam ao caminhão
rumo a oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
CIA REX DE COLETAS
1 070
Charles Bukowski
Os Homens do Lixo
aí vêm eles
esses caras
o caminhão cinzento
o rádio ligado
eles têm pressa
é muito empolgante:
a camisa aberta
as panças pendendo
eles esvaziam as lixeiras
rolam as latas até a boca do caminhão
que as ergue para engolir o conteúdo
com barulho excessivo...
os homens têm que preencher formulários
para conseguir esses empregos
eles têm que pagar pelas casas e
dirigir carros de último modelo
eles se embebedam no sábado à noite
agora enquanto brilha o sol em Los Angeles
eles correm para lá e pra cá com suas latas de lixo
todo esse lixo vai para algum lugar
e eles gritam uns com os outros
depois disso todos voltam ao caminhão
rumo a oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
CIA REX DE COLETAS
esses caras
o caminhão cinzento
o rádio ligado
eles têm pressa
é muito empolgante:
a camisa aberta
as panças pendendo
eles esvaziam as lixeiras
rolam as latas até a boca do caminhão
que as ergue para engolir o conteúdo
com barulho excessivo...
os homens têm que preencher formulários
para conseguir esses empregos
eles têm que pagar pelas casas e
dirigir carros de último modelo
eles se embebedam no sábado à noite
agora enquanto brilha o sol em Los Angeles
eles correm para lá e pra cá com suas latas de lixo
todo esse lixo vai para algum lugar
e eles gritam uns com os outros
depois disso todos voltam ao caminhão
rumo a oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
CIA REX DE COLETAS
1 070
Charles Bukowski
Briga de Cachorro
é um bicho raquítico
ele rosna e arranha
corre atrás dos carros
gane durante o sono
e tem uma estrela perfeita sobre cada sobrancelha
a gente o escuta lá fora:
aterrorizando alguma coisa com pelo menos
5 vezes seu
tamanho
é o cachorro do professor do outro lado da rua
aquele caríssimo cão de raça adestrado
ô, isto seria problema para todo mundo
eu os separo
e nós corremos para dentro com o raquítico
trancamos a porta
apagamos as luzes
e os vemos atravessar a rua
imaculados e preocupados
parecem ser 7 ou 8 pessoas
chegando para pegar seu
cão
aquele enorme saco de banha peludo
deveria saber mais do que meramente cruzar
os trilhos da ferrovia.
ele rosna e arranha
corre atrás dos carros
gane durante o sono
e tem uma estrela perfeita sobre cada sobrancelha
a gente o escuta lá fora:
aterrorizando alguma coisa com pelo menos
5 vezes seu
tamanho
é o cachorro do professor do outro lado da rua
aquele caríssimo cão de raça adestrado
ô, isto seria problema para todo mundo
eu os separo
e nós corremos para dentro com o raquítico
trancamos a porta
apagamos as luzes
e os vemos atravessar a rua
imaculados e preocupados
parecem ser 7 ou 8 pessoas
chegando para pegar seu
cão
aquele enorme saco de banha peludo
deveria saber mais do que meramente cruzar
os trilhos da ferrovia.
1 000
Charles Bukowski
Pai, Que Estais No Céu –
meu pai era um homem prático.
ele tinha uma ideia.
veja bem, meu filho, ele disse,
posso pagar esta casa ao longo de minha vida,
então ela será minha.
quando eu morrer eu a passo para você.
agora durante a sua vida você adquire uma casa
e assim você terá duas casas
e passará essas duas casas ao seu
filho, e durante a vida dele mais uma casa será adquirida,
então ele morre, e o filho dele –
entendi, eu disse.
meu pai morreu enquanto tentava beber um
copo d’água. eu o enterrei.
caixão de sólido mogno. depois do funeral
fui ao hipódromo, conheci uma japa alta.
depois das corridas fomos ao apartamento dela
para jantar e fazer coisas boas.
vendi sua casa depois de um mês.
vendi seu carro e seus móveis
e me livrei de todos os seus quadros exceto de um
e de todos os seus potes de geleia
(cheios de frutas fervidas no calor do verão)
e coloquei seu cachorro num canil
tive dois encontros com sua namorada
mas não indo a nenhum lugar
desisti.
bebi e queimei no jogo o dinheiro.
agora vivo num pátio frontal e barato em Hollywood
e levo o lixo para fora para
economizar no aluguel.
meu pai era um homem prático.
ele se engasgou com aquele copo d’água
e economizou nas contas do
hospital.
ele tinha uma ideia.
veja bem, meu filho, ele disse,
posso pagar esta casa ao longo de minha vida,
então ela será minha.
quando eu morrer eu a passo para você.
agora durante a sua vida você adquire uma casa
e assim você terá duas casas
e passará essas duas casas ao seu
filho, e durante a vida dele mais uma casa será adquirida,
então ele morre, e o filho dele –
entendi, eu disse.
meu pai morreu enquanto tentava beber um
copo d’água. eu o enterrei.
caixão de sólido mogno. depois do funeral
fui ao hipódromo, conheci uma japa alta.
depois das corridas fomos ao apartamento dela
para jantar e fazer coisas boas.
vendi sua casa depois de um mês.
vendi seu carro e seus móveis
e me livrei de todos os seus quadros exceto de um
e de todos os seus potes de geleia
(cheios de frutas fervidas no calor do verão)
e coloquei seu cachorro num canil
tive dois encontros com sua namorada
mas não indo a nenhum lugar
desisti.
bebi e queimei no jogo o dinheiro.
agora vivo num pátio frontal e barato em Hollywood
e levo o lixo para fora para
economizar no aluguel.
meu pai era um homem prático.
ele se engasgou com aquele copo d’água
e economizou nas contas do
hospital.
1 084
Charles Bukowski
Crianças No Céu
os garotos aparecem
os garotos escalam o
poste marrom
enquanto os aquecedores borbulham
na Espanha
os garotos escalam o
poste marrom –
Carlos Magno lutou por isto
Il Duce foi arrancado de seu carro
a pele arrancada feito um urso
e enforcado
de cabeça para baixo
por isto –
os meninos escalam
o poste marrom
3 ou 4
deles;
recém nos mudamos para
este prédio,
as pinturas ainda
guardadas, as cartas da
Inglaterra e de Chicago e
Cheyenne e
Nova Orleans,
mas a cerveja já acondicionada
e há 5 laranjas
e 4 peras sobre a mesa
então a vida não é tão
ruim
exceto pelo fato de que alguém quer
$15 para
ligar o gás;
os garotos sobem no poste de telefone
para pular sobre os tetos
azul-esverdeados
das garagens
e eu fico parado e nu
atrás de uma cortina,
fumando um charuto,
e impressionado,
impressionado como ficaria
se
a Virgem Maria
estivesse dançando
lá fora;
e através da janela
para o norte
posso ver 2 homens
alimentando
45 pombos
e os pombos
caminham em círculos separados
de 8 ou 10
como se estivessem atados uns aos outros
por uma corda girante,
e são três horas
da tarde e também
um bom charuto.
Cícero lutou por isto,
Jake LaMotta e
Waslaw Nijinsky,
mas alguém roubou
nosso violão
e eu não tomei minhas
vitaminas
por semanas.
os garotos correm pelos
telhados azul-esverdeados
enquanto ao norte os
pombos voam;
é desesperadoramente
sagrado
e eu exalo
uma fumaça cinzenta e
silenciosa.
então uma mulher num casaco vermelho,
evidentemente uma oficial,
alguma matrona do
aprendizado
decide que
o céu precisa de
limpeza:
Ei!!! garotos
desçam DAÍ
de uma vez!
é um belíssimo
cervo
correndo de um
caçador.
Agrippina lutou por isto,
até mesmo Mithridates,
até mesmo William Hazlitt.
não há nada mais a fazer
agora
senão desempacotar.
os garotos escalam o
poste marrom
enquanto os aquecedores borbulham
na Espanha
os garotos escalam o
poste marrom –
Carlos Magno lutou por isto
Il Duce foi arrancado de seu carro
a pele arrancada feito um urso
e enforcado
de cabeça para baixo
por isto –
os meninos escalam
o poste marrom
3 ou 4
deles;
recém nos mudamos para
este prédio,
as pinturas ainda
guardadas, as cartas da
Inglaterra e de Chicago e
Cheyenne e
Nova Orleans,
mas a cerveja já acondicionada
e há 5 laranjas
e 4 peras sobre a mesa
então a vida não é tão
ruim
exceto pelo fato de que alguém quer
$15 para
ligar o gás;
os garotos sobem no poste de telefone
para pular sobre os tetos
azul-esverdeados
das garagens
e eu fico parado e nu
atrás de uma cortina,
fumando um charuto,
e impressionado,
impressionado como ficaria
se
a Virgem Maria
estivesse dançando
lá fora;
e através da janela
para o norte
posso ver 2 homens
alimentando
45 pombos
e os pombos
caminham em círculos separados
de 8 ou 10
como se estivessem atados uns aos outros
por uma corda girante,
e são três horas
da tarde e também
um bom charuto.
Cícero lutou por isto,
Jake LaMotta e
Waslaw Nijinsky,
mas alguém roubou
nosso violão
e eu não tomei minhas
vitaminas
por semanas.
os garotos correm pelos
telhados azul-esverdeados
enquanto ao norte os
pombos voam;
é desesperadoramente
sagrado
e eu exalo
uma fumaça cinzenta e
silenciosa.
então uma mulher num casaco vermelho,
evidentemente uma oficial,
alguma matrona do
aprendizado
decide que
o céu precisa de
limpeza:
Ei!!! garotos
desçam DAÍ
de uma vez!
é um belíssimo
cervo
correndo de um
caçador.
Agrippina lutou por isto,
até mesmo Mithridates,
até mesmo William Hazlitt.
não há nada mais a fazer
agora
senão desempacotar.
638
Charles Bukowski
John Dillinger E Le Chasseur Maudit
é uma desgraça, e simplesmente não é o estilo, mas não estou nem aí:
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
635
Charles Bukowski
A Captura
que nojo, ele disse,
puxando o negócio da água,
o que é isso?
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse um cara junto a nós no píer,
é um Papa-Terra Voador.
um cara que passava disse,
é um da Esquadrilha Fandango sem as tiras.
apanhamos o gancho e erguemos a coisa que se
peidou toda. era cinzenta e coberta de pelos
e gorda e fedia a meia velha.
ela começou a andar pelo píer e nós a seguimos.
comeu um cachorro-quente e um bolo tomados das mãos de
uma garotinha. então ela saltou de súbito num carrossel
e montou um cavalo malhado. ela desabou perto do fim e
rolou sobre a serragem.
nós a apanhamos.
glub, ela disse, glub.
então ela voltou a cruzar o píer.
uma enorme multidão nos seguia enquanto caminhávamos.
deve ser uma jogada publicitária, disse alguém,
é um homem numa roupa de borracha.
então enquanto caminhava por ali a coisa começou a respirar
com dificuldade. caiu sobre as
próprias costas e começou a se debater.
alguém derramou um copo de cerveja sobre sua cabeça.
glub, ela fazia, glub.
depois disso morreu.
rolamos a coisa até a beirada do píer e a empurramos
de volta para as águas. ficamos vendo-a afundar e sumir.
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse o outro cara, é um Papa-Terra Voador.
não, disse o outro entendido, é um da Esquadrilha Fandango
sem as tiras.
então cada um de nós tomou seu rumo em meio à tarde de agosto.
puxando o negócio da água,
o que é isso?
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse um cara junto a nós no píer,
é um Papa-Terra Voador.
um cara que passava disse,
é um da Esquadrilha Fandango sem as tiras.
apanhamos o gancho e erguemos a coisa que se
peidou toda. era cinzenta e coberta de pelos
e gorda e fedia a meia velha.
ela começou a andar pelo píer e nós a seguimos.
comeu um cachorro-quente e um bolo tomados das mãos de
uma garotinha. então ela saltou de súbito num carrossel
e montou um cavalo malhado. ela desabou perto do fim e
rolou sobre a serragem.
nós a apanhamos.
glub, ela disse, glub.
então ela voltou a cruzar o píer.
uma enorme multidão nos seguia enquanto caminhávamos.
deve ser uma jogada publicitária, disse alguém,
é um homem numa roupa de borracha.
então enquanto caminhava por ali a coisa começou a respirar
com dificuldade. caiu sobre as
próprias costas e começou a se debater.
alguém derramou um copo de cerveja sobre sua cabeça.
glub, ela fazia, glub.
depois disso morreu.
rolamos a coisa até a beirada do píer e a empurramos
de volta para as águas. ficamos vendo-a afundar e sumir.
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse o outro cara, é um Papa-Terra Voador.
não, disse o outro entendido, é um da Esquadrilha Fandango
sem as tiras.
então cada um de nós tomou seu rumo em meio à tarde de agosto.
654
Charles Bukowski
Perdido
não
não temos não temos como vencer
decidimos que não podemos vencer
apenas por um instante pensávamos poder
mas foi por apenas um instante
agora sabemos que não podemos vencer
não podemos ficar parados e vencer
ou correr e vencer
ou fazer certo e vencer
ou fazer errado e vencer
alguma outra pessoa vai vencer
é por isso que essa pessoa está lá e
nós estamos aqui
é terrível ser derrotado
naquilo que realmente importa
isto acontecerá
aceitar isso é impossível
saber isso é mais importante
que pombas ou rebimbocas ou
amor.
não temos não temos como vencer
decidimos que não podemos vencer
apenas por um instante pensávamos poder
mas foi por apenas um instante
agora sabemos que não podemos vencer
não podemos ficar parados e vencer
ou correr e vencer
ou fazer certo e vencer
ou fazer errado e vencer
alguma outra pessoa vai vencer
é por isso que essa pessoa está lá e
nós estamos aqui
é terrível ser derrotado
naquilo que realmente importa
isto acontecerá
aceitar isso é impossível
saber isso é mais importante
que pombas ou rebimbocas ou
amor.
1 239
Charles Bukowski
Nervos
contorcendo-se nos lençóis –
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
771
Charles Bukowski
O Beijo de Boa-Noite Aos Vermes
sereno demais para morrer mas não para
matar tomo a pílula verde do meu
médico
bebo chá
enquanto os tubarões dançam através de vasos de
flores
dão dez voltas depois
vinte
buscando por meu coração
efeminado
numa noite louca de maio em
Los Angeles
domingo
alguém tocando
Beethoven
sento-me atrás de persianas baixadas
em emboscada
enquanto homens ambiciosos com seus carros novos e
novas loiras
comandam as ruas
sento-me num quarto alugado
esculpindo um rifle de madeira
desenhando retratos de mulheres nuas
touros
casos de amor
velhos
nas paredes com gizes de
cera
cabe a cada um de nós viver
do melhor jeito que pudermos
enquanto generais, doutores, policiais
nos advertem e
torturam
tomo banho uma vez por dia
assusto-me com gatos e
sombras
durmo mal quando durmo
quando meu coração parar
o mundo todo ficará mais rápido
melhor
mais quente
ao verão se seguirá outro verão
o ar terá o cristalino da água do lago
e assim também será o
significado
mas enquanto isso
a pílula verde
esses pisos engordurados fora da
avenida e
lá em baixo uma conspiração de vermes de vermes de
vermes
e aqui em cima
nenhuma ninfa loira
para me amar e dormir enquanto
espero.
matar tomo a pílula verde do meu
médico
bebo chá
enquanto os tubarões dançam através de vasos de
flores
dão dez voltas depois
vinte
buscando por meu coração
efeminado
numa noite louca de maio em
Los Angeles
domingo
alguém tocando
Beethoven
sento-me atrás de persianas baixadas
em emboscada
enquanto homens ambiciosos com seus carros novos e
novas loiras
comandam as ruas
sento-me num quarto alugado
esculpindo um rifle de madeira
desenhando retratos de mulheres nuas
touros
casos de amor
velhos
nas paredes com gizes de
cera
cabe a cada um de nós viver
do melhor jeito que pudermos
enquanto generais, doutores, policiais
nos advertem e
torturam
tomo banho uma vez por dia
assusto-me com gatos e
sombras
durmo mal quando durmo
quando meu coração parar
o mundo todo ficará mais rápido
melhor
mais quente
ao verão se seguirá outro verão
o ar terá o cristalino da água do lago
e assim também será o
significado
mas enquanto isso
a pílula verde
esses pisos engordurados fora da
avenida e
lá em baixo uma conspiração de vermes de vermes de
vermes
e aqui em cima
nenhuma ninfa loira
para me amar e dormir enquanto
espero.
1 676
Charles Bukowski
O Caminho
assassinado nos becos da terra
congelado à morte contra mastros de bandeiras
penhorado por mulheres
educado na escuridão para a escuridão
vomitando em privadas entupidas
em quartos de aluguel tomados por ratos e baratas
não surpreende que raramente cantemos
dia ou tarde ou noite
as guerras inúteis
os anos inúteis
os amores inúteis
e eles nos perguntam,
por que você bebe tanto?
bem, suponho que os dias sejam feitos
para serem desperdiçados
os anos e os amores são feitos
para serem desperdiçados.
não podemos chorar, e ajuda sorrir –
é como deixar brotar
sonhos, ideais
venenos
não nos peça para cantar,
as risadas cantam por nós,
você percebe, era uma piada de mau gosto
Cristo deveria ter rido na cruz
isto teria petrificado seus assassinos
agora há mais assassinos do que nunca
e eu escrevo poemas para eles.
congelado à morte contra mastros de bandeiras
penhorado por mulheres
educado na escuridão para a escuridão
vomitando em privadas entupidas
em quartos de aluguel tomados por ratos e baratas
não surpreende que raramente cantemos
dia ou tarde ou noite
as guerras inúteis
os anos inúteis
os amores inúteis
e eles nos perguntam,
por que você bebe tanto?
bem, suponho que os dias sejam feitos
para serem desperdiçados
os anos e os amores são feitos
para serem desperdiçados.
não podemos chorar, e ajuda sorrir –
é como deixar brotar
sonhos, ideais
venenos
não nos peça para cantar,
as risadas cantam por nós,
você percebe, era uma piada de mau gosto
Cristo deveria ter rido na cruz
isto teria petrificado seus assassinos
agora há mais assassinos do que nunca
e eu escrevo poemas para eles.
1 172
Charles Bukowski
Procurando Emprego
era um bar na Filadélfia e o atendente disse
o que e eu disse, me arruma uma gelada, Jim,
preciso acalmar os nervos, vou
procurar um emprego. você, ele disse,
um emprego?
sim, Jim, vi alguma coisa no jornal,
não é preciso ter experiência.
e ele disse, diabos, você não quer um emprego,
e eu disse, diabos não, mas preciso de dinheiro,
e terminei a cerveja
e entrei no ônibus e fiquei de olho na numeração
e logo os números foram se aproximando
e então eu estava bem no lugar
e eu puxei a cordinha e o ônibus parou e
eu desci.
era um enorme prédio feito de lata
a porta de correr estava emperrada pela sujeira
dei um jeito de puxá-la e entrei
e não havia piso, apenas mais chão,
grumoso, úmido, e aquilo fedia
e havia sons de coisas que estivessem sendo serradas ao meio
e coisas sendo furadas e era escuro lá dentro
e os homens caminhavam em vigas suspensas
e homens empurravam carretas pelo chão
e homens se sentavam junto a máquinas fazendo coisas
e havia disparos de luz e trovão
e de repente um balde cheio de chamas veio balançando em direção
a minha cabeça, rugia e borbulhava em suas chamas
estava suspenso por uma corrente frouxa e veio direto em minha direção
e alguém gritou, EI, PRESTE ATENÇÃO!
e eu me abaixei para me esquivar do balde,
sentindo o calor passar sobre mim,
e alguém perguntou,
O QUE VOCÊ QUER?
e eu disse, ONDE FICA O BANHEIRO MAIS PRÓXIMO?
e me disseram
e eu entrei
então saí e vi silhuetas de homens
movendo-se entre chamas e barulho e
eu segui até a porta, saí, e
peguei o ônibus de volta para o bar e me sentei
e pedi outra gelada, e Jim perguntou,
o que aconteceu? eu disse, não me quiseram, Jim.
então esta puta entrou e se sentou e todos
olharam para ela, ela parecia bacana, e eu me lembro que
foi a primeira vez na vida que quase desejei ter uma
vagina e um clitóris em vez do que eu tinha, mas em 2 ou 3 dias
superei isso e já me encontrava lendo
os anúncios outra vez.
o que e eu disse, me arruma uma gelada, Jim,
preciso acalmar os nervos, vou
procurar um emprego. você, ele disse,
um emprego?
sim, Jim, vi alguma coisa no jornal,
não é preciso ter experiência.
e ele disse, diabos, você não quer um emprego,
e eu disse, diabos não, mas preciso de dinheiro,
e terminei a cerveja
e entrei no ônibus e fiquei de olho na numeração
e logo os números foram se aproximando
e então eu estava bem no lugar
e eu puxei a cordinha e o ônibus parou e
eu desci.
era um enorme prédio feito de lata
a porta de correr estava emperrada pela sujeira
dei um jeito de puxá-la e entrei
e não havia piso, apenas mais chão,
grumoso, úmido, e aquilo fedia
e havia sons de coisas que estivessem sendo serradas ao meio
e coisas sendo furadas e era escuro lá dentro
e os homens caminhavam em vigas suspensas
e homens empurravam carretas pelo chão
e homens se sentavam junto a máquinas fazendo coisas
e havia disparos de luz e trovão
e de repente um balde cheio de chamas veio balançando em direção
a minha cabeça, rugia e borbulhava em suas chamas
estava suspenso por uma corrente frouxa e veio direto em minha direção
e alguém gritou, EI, PRESTE ATENÇÃO!
e eu me abaixei para me esquivar do balde,
sentindo o calor passar sobre mim,
e alguém perguntou,
O QUE VOCÊ QUER?
e eu disse, ONDE FICA O BANHEIRO MAIS PRÓXIMO?
e me disseram
e eu entrei
então saí e vi silhuetas de homens
movendo-se entre chamas e barulho e
eu segui até a porta, saí, e
peguei o ônibus de volta para o bar e me sentei
e pedi outra gelada, e Jim perguntou,
o que aconteceu? eu disse, não me quiseram, Jim.
então esta puta entrou e se sentou e todos
olharam para ela, ela parecia bacana, e eu me lembro que
foi a primeira vez na vida que quase desejei ter uma
vagina e um clitóris em vez do que eu tinha, mas em 2 ou 3 dias
superei isso e já me encontrava lendo
os anúncios outra vez.
1 064
Charles Bukowski
Procurando Emprego
era um bar na Filadélfia e o atendente disse
o que e eu disse, me arruma uma gelada, Jim,
preciso acalmar os nervos, vou
procurar um emprego. você, ele disse,
um emprego?
sim, Jim, vi alguma coisa no jornal,
não é preciso ter experiência.
e ele disse, diabos, você não quer um emprego,
e eu disse, diabos não, mas preciso de dinheiro,
e terminei a cerveja
e entrei no ônibus e fiquei de olho na numeração
e logo os números foram se aproximando
e então eu estava bem no lugar
e eu puxei a cordinha e o ônibus parou e
eu desci.
era um enorme prédio feito de lata
a porta de correr estava emperrada pela sujeira
dei um jeito de puxá-la e entrei
e não havia piso, apenas mais chão,
grumoso, úmido, e aquilo fedia
e havia sons de coisas que estivessem sendo serradas ao meio
e coisas sendo furadas e era escuro lá dentro
e os homens caminhavam em vigas suspensas
e homens empurravam carretas pelo chão
e homens se sentavam junto a máquinas fazendo coisas
e havia disparos de luz e trovão
e de repente um balde cheio de chamas veio balançando em direção
a minha cabeça, rugia e borbulhava em suas chamas
estava suspenso por uma corrente frouxa e veio direto em minha direção
e alguém gritou, EI, PRESTE ATENÇÃO!
e eu me abaixei para me esquivar do balde,
sentindo o calor passar sobre mim,
e alguém perguntou,
O QUE VOCÊ QUER?
e eu disse, ONDE FICA O BANHEIRO MAIS PRÓXIMO?
e me disseram
e eu entrei
então saí e vi silhuetas de homens
movendo-se entre chamas e barulho e
eu segui até a porta, saí, e
peguei o ônibus de volta para o bar e me sentei
e pedi outra gelada, e Jim perguntou,
o que aconteceu? eu disse, não me quiseram, Jim.
então esta puta entrou e se sentou e todos
olharam para ela, ela parecia bacana, e eu me lembro que
foi a primeira vez na vida que quase desejei ter uma
vagina e um clitóris em vez do que eu tinha, mas em 2 ou 3 dias
superei isso e já me encontrava lendo
os anúncios outra vez.
o que e eu disse, me arruma uma gelada, Jim,
preciso acalmar os nervos, vou
procurar um emprego. você, ele disse,
um emprego?
sim, Jim, vi alguma coisa no jornal,
não é preciso ter experiência.
e ele disse, diabos, você não quer um emprego,
e eu disse, diabos não, mas preciso de dinheiro,
e terminei a cerveja
e entrei no ônibus e fiquei de olho na numeração
e logo os números foram se aproximando
e então eu estava bem no lugar
e eu puxei a cordinha e o ônibus parou e
eu desci.
era um enorme prédio feito de lata
a porta de correr estava emperrada pela sujeira
dei um jeito de puxá-la e entrei
e não havia piso, apenas mais chão,
grumoso, úmido, e aquilo fedia
e havia sons de coisas que estivessem sendo serradas ao meio
e coisas sendo furadas e era escuro lá dentro
e os homens caminhavam em vigas suspensas
e homens empurravam carretas pelo chão
e homens se sentavam junto a máquinas fazendo coisas
e havia disparos de luz e trovão
e de repente um balde cheio de chamas veio balançando em direção
a minha cabeça, rugia e borbulhava em suas chamas
estava suspenso por uma corrente frouxa e veio direto em minha direção
e alguém gritou, EI, PRESTE ATENÇÃO!
e eu me abaixei para me esquivar do balde,
sentindo o calor passar sobre mim,
e alguém perguntou,
O QUE VOCÊ QUER?
e eu disse, ONDE FICA O BANHEIRO MAIS PRÓXIMO?
e me disseram
e eu entrei
então saí e vi silhuetas de homens
movendo-se entre chamas e barulho e
eu segui até a porta, saí, e
peguei o ônibus de volta para o bar e me sentei
e pedi outra gelada, e Jim perguntou,
o que aconteceu? eu disse, não me quiseram, Jim.
então esta puta entrou e se sentou e todos
olharam para ela, ela parecia bacana, e eu me lembro que
foi a primeira vez na vida que quase desejei ter uma
vagina e um clitóris em vez do que eu tinha, mas em 2 ou 3 dias
superei isso e já me encontrava lendo
os anúncios outra vez.
1 064
Charles Bukowski
Blues do Leito de Morte
se você não consegue suportar o calor, ele diz, saia da
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
1 151
Charles Bukowski
Blues do Leito de Morte
se você não consegue suportar o calor, ele diz, saia da
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
1 151
Charles Bukowski
O Pescador
ele sai todo dia às 7:30 da manhã
com 3 sanduíches de manteiga de amendoim, e
uma lata de cerveja
que ele faz flutuar no balde de iscas.
ele pesca por horas com uma pequena vara para trutas
a três quartos do caminho até o píer.
ele tem 75 anos e o sol não é capaz de bronzeá-lo,
e não importa quanto calor faça
a camisa de lenhador marrom e verde segue ali,
ele apanha estrelas-do-mar, cações, cavala;
apanha-os às dúzias,
não fala com ninguém.
às vezes durante o dia
ele toma sua lata de cerveja.
às 6 da tarde reúne suas coisas e sua pesca
caminha pelo píer
cruzando várias ruas
onde ele entra num pequeno apartamento em Santa Monica
vai até o quarto e abre o jornal vespertino
enquanto sua esposa joga as estrelas-do-mar, os cações e as cavalas
no lixo
ele acende seu cachimbo
e espera pelo jantar.
com 3 sanduíches de manteiga de amendoim, e
uma lata de cerveja
que ele faz flutuar no balde de iscas.
ele pesca por horas com uma pequena vara para trutas
a três quartos do caminho até o píer.
ele tem 75 anos e o sol não é capaz de bronzeá-lo,
e não importa quanto calor faça
a camisa de lenhador marrom e verde segue ali,
ele apanha estrelas-do-mar, cações, cavala;
apanha-os às dúzias,
não fala com ninguém.
às vezes durante o dia
ele toma sua lata de cerveja.
às 6 da tarde reúne suas coisas e sua pesca
caminha pelo píer
cruzando várias ruas
onde ele entra num pequeno apartamento em Santa Monica
vai até o quarto e abre o jornal vespertino
enquanto sua esposa joga as estrelas-do-mar, os cações e as cavalas
no lixo
ele acende seu cachimbo
e espera pelo jantar.
1 195
Charles Bukowski
Tonalidades
os soldados marcham sem armas
as covas estão vazias
pavões rebrilham na chuva
abaixo das escadarias marcham grandes homens sorridentes
há bastante comida e bastante para o aluguel e
bastante tempo
nossas mulheres não envelhecerão
eu não envelhecerei
vagabundos trazem diamantes nos dedos
Hitler aperta a mão de um judeu
o céu tem cheiro de carne assada
sou uma cortina em chamas
sou água que se faz vapor
sou uma cobra sou um caco de vidro que corta
sou sangue
sou esta lesma ardente
rastejando para casa.
as covas estão vazias
pavões rebrilham na chuva
abaixo das escadarias marcham grandes homens sorridentes
há bastante comida e bastante para o aluguel e
bastante tempo
nossas mulheres não envelhecerão
eu não envelhecerei
vagabundos trazem diamantes nos dedos
Hitler aperta a mão de um judeu
o céu tem cheiro de carne assada
sou uma cortina em chamas
sou água que se faz vapor
sou uma cobra sou um caco de vidro que corta
sou sangue
sou esta lesma ardente
rastejando para casa.
1 018
Charles Bukowski
Multa
abandonei mais uma vez o emprego
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
1 187
Charles Bukowski
Multa
abandonei mais uma vez o emprego
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
1 187
Charles Bukowski
Quente
ela era quente, era tão quente
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu não chegasse em casa na hora certa
ela já teria ido, e era uma coisa que eu não podia suportar –
eu enlouquecia...
era uma idiotice, eu sei, uma infantilidade,
mas eu me deixava levar, eu me deixava levar.
eu entregava todas as correspondências
e então Henderson me colocava na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
a porra da lata velha começava a aquecer na metade do caminho
e a noite seguia
eu pensando na minha Miriam quente
e eu entrando e saindo do caminhão
enchendo sacolas com cartas
o motor prestes a fundir
a agulha do termômetro cravada no vermelho
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu seguia saltando
mais 3 coletas e então de volta ao posto
eu estaria, meu carro
à espera de me levar até Miriam que estaria sentada em meu sofá azul
com um uísque com gelo
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como costumava fazer,
duas coletas mais...
o caminhão enguiçou junto a um sinal, era o inferno
dando suas caras
mais uma vez...
eu tinha que chegar em casa até as 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou num sinal
a meia quadra do posto...
não tinha jeito de dar a partida, de jeito nenhum...
tranquei as portas, apanhei a chave e corri até o
posto...
me livrei das chaves... assinei o ponto...
a porra do seu caminhão está enguiçado no sinal,
gritei,
Pico com a Western...
...corri pela entrada, coloquei a chave na porta,
abri... seu copo de bebida estava lá, e um bilhete:
fio da puta:
isperei até 8 e sinco
você não me ama
seu fio da puta
alguém vai me amar
fiquei isperando todo dia
Miriam
servi um drinque e deixei a água encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorri 25 deles
atrás de Miriam
seu ursinho púrpuro de pelúcia segurava o bilhete
e ele estava escorado num travesseiro
dei um trago para o urso, outro para mim
e entrei na água
quente
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu não chegasse em casa na hora certa
ela já teria ido, e era uma coisa que eu não podia suportar –
eu enlouquecia...
era uma idiotice, eu sei, uma infantilidade,
mas eu me deixava levar, eu me deixava levar.
eu entregava todas as correspondências
e então Henderson me colocava na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
a porra da lata velha começava a aquecer na metade do caminho
e a noite seguia
eu pensando na minha Miriam quente
e eu entrando e saindo do caminhão
enchendo sacolas com cartas
o motor prestes a fundir
a agulha do termômetro cravada no vermelho
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu seguia saltando
mais 3 coletas e então de volta ao posto
eu estaria, meu carro
à espera de me levar até Miriam que estaria sentada em meu sofá azul
com um uísque com gelo
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como costumava fazer,
duas coletas mais...
o caminhão enguiçou junto a um sinal, era o inferno
dando suas caras
mais uma vez...
eu tinha que chegar em casa até as 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou num sinal
a meia quadra do posto...
não tinha jeito de dar a partida, de jeito nenhum...
tranquei as portas, apanhei a chave e corri até o
posto...
me livrei das chaves... assinei o ponto...
a porra do seu caminhão está enguiçado no sinal,
gritei,
Pico com a Western...
...corri pela entrada, coloquei a chave na porta,
abri... seu copo de bebida estava lá, e um bilhete:
fio da puta:
isperei até 8 e sinco
você não me ama
seu fio da puta
alguém vai me amar
fiquei isperando todo dia
Miriam
servi um drinque e deixei a água encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorri 25 deles
atrás de Miriam
seu ursinho púrpuro de pelúcia segurava o bilhete
e ele estava escorado num travesseiro
dei um trago para o urso, outro para mim
e entrei na água
quente
1 093
Charles Bukowski
Rabos Quentes
na sexta à noite
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
1 026
Charles Bukowski
Eu Estava Feliz
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
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Charles Bukowski
Eu Estava Feliz
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
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Charles Bukowski
Eu Estava Feliz
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
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do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
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do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
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