Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
O Trapézio Imóvel
Saroyan disse para sua esposa: “eu preciso
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.
ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.
ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.
mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.
mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.
ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.
ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.
ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.
mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.
mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.
ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
1 135
Charles Bukowski
A Química Das Coisas
sempre achei que Mary Lou era magrinha e
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.
eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.
tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio
e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.
ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”
“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”
“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.
“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”
no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.
“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”
“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”
Mary Lou foi embora
chorando...
bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.
depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”
“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.
eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.
o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.
eu disse não, obrigado, e muita
sorte.
nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.
de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.
eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.
tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio
e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.
ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”
“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”
“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.
“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”
no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.
“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”
“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”
Mary Lou foi embora
chorando...
bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.
depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”
“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.
eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.
o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.
eu disse não, obrigado, e muita
sorte.
nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.
de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
1 128
Charles Bukowski
A Química Das Coisas
sempre achei que Mary Lou era magrinha e
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.
eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.
tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio
e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.
ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”
“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”
“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.
“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”
no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.
“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”
“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”
Mary Lou foi embora
chorando...
bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.
depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”
“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.
eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.
o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.
eu disse não, obrigado, e muita
sorte.
nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.
de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.
eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.
tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio
e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.
ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”
“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”
“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.
“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”
no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.
“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”
“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”
Mary Lou foi embora
chorando...
bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.
depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”
“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.
eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.
o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.
eu disse não, obrigado, e muita
sorte.
nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.
de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
1 128
Charles Bukowski
Meu Truque do Desaparecimento
quando eu enchia o saco de ficar no bar
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
1 082
Charles Bukowski
A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir
eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
1 202
Charles Bukowski
A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir
eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
1 202
Charles Bukowski
O Homem do Terno Marrom
porra, ele era pequeno
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.
um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.
o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.
mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.
saí antes que a
polícia
chegasse.
quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.
um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.
o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.
mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.
saí antes que a
polícia
chegasse.
quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
1 089
Charles Bukowski
Educação
naquela pequena mesa com tinteiro embutido
eu quebrava minha cabeça com as palavras
sing e sign.*
não sei por que
mas
sing e sign:
elas
me
incomodavam.
os outros prosseguiram e aprenderam
coisas novas
mas eu fiquei ali sentado
pensando sobre
sing e sign.
havia algo ali
que eu não conseguia
superar.
o que aquilo me deu foi uma
dor de barriga enquanto
eu olhava as nucas de todas aquelas
cabeças.
a professora tinha um
rosto muito feroz
ele convergia rispidamente até um
ponto
sob grossa camada de pó
branco.
certa tarde
ela pediu à minha mãe para vir
conversar
e eu me sentei com elas
na sala de aula
enquanto elas
conversavam.
“ele não está aprendendo
nada”, a professora
disse à minha
mãe.
“por favor dê uma chance
a ele, sra. Sims!”
“ele não está se esforçando, sra.
Chinaski!”
minha mãe começou a
chorar.
a sra. Sims ficou imóvel
encarando
a minha mãe.
aquilo durou alguns
minutos.
então a sra. Sims disse:
“bem, veremos o que
podemos fazer...”
depois eu estava andando com
a minha mãe
estávamos andando na
frente da escola,
havia bastante grama verde
e depois a
calçada.
“ah, Henry”, minha mãe disse,
“seu pai está tão desapontado com
você, eu não sei o que vamos
fazer!”
pai, minha mente dizia,
pai e pai e
pai.
palavras assim.
decidi não aprender nada
naquela
escola.
minha mãe caminhava
ao meu lado.
ela não era nada em
absoluto.
e eu tinha uma dor de barriga
e até mesmo as árvores sob as quais
caminhávamos
pareciam não ser exatamente
árvores
mas antes qualquer outra
coisa.
* Respectivamente “cantar” e “assinar”. (N.T.)
eu quebrava minha cabeça com as palavras
sing e sign.*
não sei por que
mas
sing e sign:
elas
me
incomodavam.
os outros prosseguiram e aprenderam
coisas novas
mas eu fiquei ali sentado
pensando sobre
sing e sign.
havia algo ali
que eu não conseguia
superar.
o que aquilo me deu foi uma
dor de barriga enquanto
eu olhava as nucas de todas aquelas
cabeças.
a professora tinha um
rosto muito feroz
ele convergia rispidamente até um
ponto
sob grossa camada de pó
branco.
certa tarde
ela pediu à minha mãe para vir
conversar
e eu me sentei com elas
na sala de aula
enquanto elas
conversavam.
“ele não está aprendendo
nada”, a professora
disse à minha
mãe.
“por favor dê uma chance
a ele, sra. Sims!”
“ele não está se esforçando, sra.
Chinaski!”
minha mãe começou a
chorar.
a sra. Sims ficou imóvel
encarando
a minha mãe.
aquilo durou alguns
minutos.
então a sra. Sims disse:
“bem, veremos o que
podemos fazer...”
depois eu estava andando com
a minha mãe
estávamos andando na
frente da escola,
havia bastante grama verde
e depois a
calçada.
“ah, Henry”, minha mãe disse,
“seu pai está tão desapontado com
você, eu não sei o que vamos
fazer!”
pai, minha mente dizia,
pai e pai e
pai.
palavras assim.
decidi não aprender nada
naquela
escola.
minha mãe caminhava
ao meu lado.
ela não era nada em
absoluto.
e eu tinha uma dor de barriga
e até mesmo as árvores sob as quais
caminhávamos
pareciam não ser exatamente
árvores
mas antes qualquer outra
coisa.
* Respectivamente “cantar” e “assinar”. (N.T.)
1 377
Charles Bukowski
Vagabundeando Com Jane
não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 145
Charles Bukowski
Vagabundeando Com Jane
não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 145
Charles Bukowski
A Única Vida
eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
1 035
Charles Bukowski
A Única Vida
eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
1 035
Charles Bukowski
Os Dias Gloriosos
os rios mortos correm para trás em direção a lugar nenhum,
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
1 007
Charles Bukowski
Reflexões
o templo do vão da minha porta está
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
1 079
Charles Bukowski
Reflexões
o templo do vão da minha porta está
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
1 079
Charles Bukowski
E As Triviais Vidas da Realeza Nunca Me Empolgaram Tampouco...
nunca me importei de ficar molhado, várias vezes eu entrava em
lugares durante uma chuva e alguém dizia: “Você está
molhado!” como se eu não tivesse nenhuma compreensão das circunstâncias.
mas parece que estou quase sempre em apuros com
a maioria das mentes: “você sabe que não penteou o
cabelo atrás?”
“seu sapato esquerdo está desamarrado...”
“acho que o seu relógio está cinco minutos atrasado...”
“seu carro precisa de uma lavagem...”
quando largarem aquela primeira bomba por aqui eles vão
entender por que razão eu ignorei tudo de cara.
os pingos de chuva de mim mesmo afinal vagando
em lugar algum
como digamos o Estrangulador de Boston.
ou como todas as garotinhas com seus
cachinhos
sentadas esperando.
lugares durante uma chuva e alguém dizia: “Você está
molhado!” como se eu não tivesse nenhuma compreensão das circunstâncias.
mas parece que estou quase sempre em apuros com
a maioria das mentes: “você sabe que não penteou o
cabelo atrás?”
“seu sapato esquerdo está desamarrado...”
“acho que o seu relógio está cinco minutos atrasado...”
“seu carro precisa de uma lavagem...”
quando largarem aquela primeira bomba por aqui eles vão
entender por que razão eu ignorei tudo de cara.
os pingos de chuva de mim mesmo afinal vagando
em lugar algum
como digamos o Estrangulador de Boston.
ou como todas as garotinhas com seus
cachinhos
sentadas esperando.
1 094
Charles Bukowski
Paz E Amor
nos anos 60
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
1 107
Charles Bukowski
Paz E Amor
nos anos 60
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
1 107
Charles Bukowski
Sozinho Num Tempo de Exércitos
eu tinha 22 anos naquela pensão na Filadélfia e eu estava faminto e
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
1 097
Charles Bukowski
Sozinho Num Tempo de Exércitos
eu tinha 22 anos naquela pensão na Filadélfia e eu estava faminto e
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
1 097
Charles Bukowski
Porq Tud Se Sgota
abatido do lado de fora do Seaside Motel e fico olha
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
1 059
Charles Bukowski
Porq Tud Se Sgota
abatido do lado de fora do Seaside Motel e fico olha
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
1 059
Charles Bukowski
Carta Para Um Amigo Com Um Problema Doméstico:
Olá Carl:
não se preocupe por sua esposa ter fugido de você
ela simplesmente não te entendia.
um pneu me furou hoje na autoestrada
e tive que trocar a roda com uns cheira-
dores voando em seus Maseratis soprando vento na minha
bunda.
o principal é você simplesmente tocar sua vida
e seguir fazendo aquilo que você precisa fazer, ou melhor –
aquilo que você quer fazer.
eu estava no consultório do dentista esses dias
e li uma publicação médica
e ela dizia
que você só precisa
viver até o ano 2020 d.C. e aí
se você tiver dinheiro suficiente
quando seu corpo morrer será possível transplantar seu
cérebro num corpo sem carne que te dá
visão e movimento – tipo você pode pedalar uma
bicicleta ou qualquer coisa do tipo e você também
não perderá tempo urinando ou defe-
cando ou comendo – você só ganha um
tanquinho de sangue no alto da cabeça pra encher
mais ou menos uma vez por mês – é uma espécie de óleo
pro cérebro.
e não se preocupe, tem até sexo, dizem,
só que é um pouco diferente (haha) você pode
ficar metendo até ela implorar pra você parar!
(ela só vai te largar por não aguentar mais
em vez de querer mais.)
esse é o lance do transplante sem carne.
mas tem outra alternativa: eles podem
transplantar o seu cérebro num corpo vivo
cujo cérebro foi retirado de modo a
abrir espaço para o seu.
só que o custo para isso será mais
proibitivo
pois eles terão de localizar um corpo,
um corpo vivo em algum lugar
num hospício digamos ou numa prisão ou
nas ruas em algum lugar – talvez um sequestro –
e embora esses corpos venham a ser melhores,
mais realistas, eles não vão durar tanto quanto
o corpo sem carne que pode funcionar por uns
500 anos antes de exigir troca.
então é tudo uma questão de escolha, daquilo que
você gosta, ou daquilo que você pode bancar.
quando você entra no corpo ele não vai
durar tanto assim – eles dizem uns 110 anos lá por
2020 d.C. – e aí você terá de encontrar
uma reposição de corpo vivo (de novo) ou optar por um
dos trecos sem carne.
em geral, como dão a entender nesse artigo que eu li
no consultório do meu dentista, se você não for tão rico
você pega o treco sem carne mas
se continuar muito bem de capital você
vai pegando o corpo-vivo repetidas vezes.
(os modelos de corpo-vivo têm certas vantagens
pois você será capaz de enganar a maioria do pessoal
da rua e também
a vida sexual é mais realista embora
mais curta.)
Carl, não estou passando a coisa exatamente como
estava escrita mas estou traduzindo todo aquele
lero-lero médico em algo que nós
possamos entender,
mas você acha que dentistas deveriam ter esse tipo de
merda
repousando em suas mesas?
de todo modo, provavelmente quando você receber esta carta
a sua patroa estará de volta com você.
de todo modo, Carl, continuei lendo
e o cara depois dizia que
em ambos os transplantes de cérebro no
corpo vivo e no corpo sem carne
outra coisa ocorreria com as pessoas que
tivessem dinheiro suficiente pra fazer os truques de transferência:
o computadorizado conhecimento dos séculos seria
introduzido no cérebro – e pra onde quer que você quisesse ir
você poderia ir – você seria capaz de pintar como
Rembrandt ou Picasso,
conquistar como César. você poderia fazer todas as coisas
que esses e outros como eles haviam feito
só que melhor.
você seria mais brilhante do que Einstein –
haveria pouquíssimo que você não poderia fazer
e talvez o corpo mais próximo de você
pudesse fazê-lo.
nesse ponto a coisa fica um tanto desconcertante –
o cara prossegue
ele é tipo um daqueles caras em seus
Maseratis cheirados; ele prossegue dizendo
numa linguagem um tanto técnica e obscura que
isso não é Ficção Científica
isso é a abertura de uma porta de horror e assombro
nunca antes especulada e ele diz que a
Última Guerra do Homem se dará entre os ricos
transplantados computadorizados e os não ricos que são
os Muitos
que afinal se ressentirão da sacanagem de terem sido excluídos da
imortalidade
e os ricos vão querer proteger o que é deles
para sempre
e
que
no final
os ricos computadorizados vão ganhar a última
Guerra do Homem (e da
Mulher)
depois ele diz que a subsequente Nova
Guerra tomará forma com os
Imortais lutando contra os Imortais
e o que sucederá será um
acontecimento
exemplar
de modo que o Tempo tal como o conhecemos
entrega os pontos.
mas que bela loucura, não é mesmo,
Carl?
eu gostaria de dizer
que à luz de tudo isso
que a sua esposa fugir não significa
grande coisa
mas eu sei que significa
só pensei em te mostrar
como outras coisas poderiam acontecer.
enquanto isso, as coisas não estão boas aqui
tampouco.
seu amigão,
Hank
não se preocupe por sua esposa ter fugido de você
ela simplesmente não te entendia.
um pneu me furou hoje na autoestrada
e tive que trocar a roda com uns cheira-
dores voando em seus Maseratis soprando vento na minha
bunda.
o principal é você simplesmente tocar sua vida
e seguir fazendo aquilo que você precisa fazer, ou melhor –
aquilo que você quer fazer.
eu estava no consultório do dentista esses dias
e li uma publicação médica
e ela dizia
que você só precisa
viver até o ano 2020 d.C. e aí
se você tiver dinheiro suficiente
quando seu corpo morrer será possível transplantar seu
cérebro num corpo sem carne que te dá
visão e movimento – tipo você pode pedalar uma
bicicleta ou qualquer coisa do tipo e você também
não perderá tempo urinando ou defe-
cando ou comendo – você só ganha um
tanquinho de sangue no alto da cabeça pra encher
mais ou menos uma vez por mês – é uma espécie de óleo
pro cérebro.
e não se preocupe, tem até sexo, dizem,
só que é um pouco diferente (haha) você pode
ficar metendo até ela implorar pra você parar!
(ela só vai te largar por não aguentar mais
em vez de querer mais.)
esse é o lance do transplante sem carne.
mas tem outra alternativa: eles podem
transplantar o seu cérebro num corpo vivo
cujo cérebro foi retirado de modo a
abrir espaço para o seu.
só que o custo para isso será mais
proibitivo
pois eles terão de localizar um corpo,
um corpo vivo em algum lugar
num hospício digamos ou numa prisão ou
nas ruas em algum lugar – talvez um sequestro –
e embora esses corpos venham a ser melhores,
mais realistas, eles não vão durar tanto quanto
o corpo sem carne que pode funcionar por uns
500 anos antes de exigir troca.
então é tudo uma questão de escolha, daquilo que
você gosta, ou daquilo que você pode bancar.
quando você entra no corpo ele não vai
durar tanto assim – eles dizem uns 110 anos lá por
2020 d.C. – e aí você terá de encontrar
uma reposição de corpo vivo (de novo) ou optar por um
dos trecos sem carne.
em geral, como dão a entender nesse artigo que eu li
no consultório do meu dentista, se você não for tão rico
você pega o treco sem carne mas
se continuar muito bem de capital você
vai pegando o corpo-vivo repetidas vezes.
(os modelos de corpo-vivo têm certas vantagens
pois você será capaz de enganar a maioria do pessoal
da rua e também
a vida sexual é mais realista embora
mais curta.)
Carl, não estou passando a coisa exatamente como
estava escrita mas estou traduzindo todo aquele
lero-lero médico em algo que nós
possamos entender,
mas você acha que dentistas deveriam ter esse tipo de
merda
repousando em suas mesas?
de todo modo, provavelmente quando você receber esta carta
a sua patroa estará de volta com você.
de todo modo, Carl, continuei lendo
e o cara depois dizia que
em ambos os transplantes de cérebro no
corpo vivo e no corpo sem carne
outra coisa ocorreria com as pessoas que
tivessem dinheiro suficiente pra fazer os truques de transferência:
o computadorizado conhecimento dos séculos seria
introduzido no cérebro – e pra onde quer que você quisesse ir
você poderia ir – você seria capaz de pintar como
Rembrandt ou Picasso,
conquistar como César. você poderia fazer todas as coisas
que esses e outros como eles haviam feito
só que melhor.
você seria mais brilhante do que Einstein –
haveria pouquíssimo que você não poderia fazer
e talvez o corpo mais próximo de você
pudesse fazê-lo.
nesse ponto a coisa fica um tanto desconcertante –
o cara prossegue
ele é tipo um daqueles caras em seus
Maseratis cheirados; ele prossegue dizendo
numa linguagem um tanto técnica e obscura que
isso não é Ficção Científica
isso é a abertura de uma porta de horror e assombro
nunca antes especulada e ele diz que a
Última Guerra do Homem se dará entre os ricos
transplantados computadorizados e os não ricos que são
os Muitos
que afinal se ressentirão da sacanagem de terem sido excluídos da
imortalidade
e os ricos vão querer proteger o que é deles
para sempre
e
que
no final
os ricos computadorizados vão ganhar a última
Guerra do Homem (e da
Mulher)
depois ele diz que a subsequente Nova
Guerra tomará forma com os
Imortais lutando contra os Imortais
e o que sucederá será um
acontecimento
exemplar
de modo que o Tempo tal como o conhecemos
entrega os pontos.
mas que bela loucura, não é mesmo,
Carl?
eu gostaria de dizer
que à luz de tudo isso
que a sua esposa fugir não significa
grande coisa
mas eu sei que significa
só pensei em te mostrar
como outras coisas poderiam acontecer.
enquanto isso, as coisas não estão boas aqui
tampouco.
seu amigão,
Hank
1 061
Charles Bukowski
As Cartas de John Steinbeck
sonhei que eu estava congelando e quando acordei e descobri
que não estava congelando de algum modo eu caguei na cama.
eu tinha trabalhado no livro de viagem naquela noite e
não tinha rendido muito bem e estavam levando meus cavalos
embora, para Del Mar.
eu teria tempo para ser escritor agora. eu acordaria de
manhã e lá estaria a máquina olhando para mim,
ela ia parecer uma tarântula; ou melhor – ia parecer
um sapo preto com cinquenta e uma verrugas.
você deduz que Camus se ferrou porque deixou outra pessoa
dirigir o carro. não gosto de nenhuma outra pessoa dirigindo o
carro, não gosto nem quando eu mesmo dirijo. bem,
depois de limpar a merda coloquei minha bermuda
amarela de caminhada e fui de carro para o hipódromo. estacionei e
entrei.
o primeiro que vi foi o meu biógrafo. eu o vi
de lado e me escondi. ele estava bem-vestido,
fumava um charuto e tinha um drinque na mão.
da última vez na minha casa ele me deu dois livros:
Scott e Ernest e As cartas de John Steinbeck.
leio esses livros quando cago. sempre leio quando cago
e quanto pior o livro melhor o movimento intestinal.
aí depois da primeira corrida meu médico sentou do meu lado.
ele parecia ter acabado de sair de uma cirurgia sem
se lavar muito bem. ele ficou até depois da
oitava corrida, conversando, bebendo cerveja e comendo cachorros-quentes.
então desatou a falar do meu fígado: “você bebe quantidades
tão absurdas que quero dar uma olhada no seu fígado. trate
de aparecer agora.” “tá bom”, falei, “terça de
tarde.”
eu me lembrei da recepcionista dele. na minha última consulta
tinha ocorrido uma inundação no banheiro e ela ficou de joelhos
no chão para secar e seu vestido havia subido bem
alto acima das coxas. eu tinha parado pra ficar olhando,
dizendo a ela que as duas maiores invenções do Homem haviam sido
a bomba atômica e o encanamento.
aí o meu médico se foi e o meu biógrafo se foi também
e eu ainda tinha $97.
lá em Del Mar eles têm uma reta curta e eles
vêm gemendo por aquela última curva, e a água dos
bebedouros tem gosto de mijo.
se o meu fígado já era então já era; algo sempre ia
primeiro e aí o restante seguia. que desfile.
não era verdade, porém, dependia da parte.
eu conhecia certas pessoas sem mente que esbanjavam
saúde.
perdi a última corrida e saí dirigindo com sorte o bastante para
pegar um Shostakovich no rádio
e quando você vê às 6:20 da tarde numa rádio AM
isso é tirar um rei com ás, rainha, valete, dez...
que não estava congelando de algum modo eu caguei na cama.
eu tinha trabalhado no livro de viagem naquela noite e
não tinha rendido muito bem e estavam levando meus cavalos
embora, para Del Mar.
eu teria tempo para ser escritor agora. eu acordaria de
manhã e lá estaria a máquina olhando para mim,
ela ia parecer uma tarântula; ou melhor – ia parecer
um sapo preto com cinquenta e uma verrugas.
você deduz que Camus se ferrou porque deixou outra pessoa
dirigir o carro. não gosto de nenhuma outra pessoa dirigindo o
carro, não gosto nem quando eu mesmo dirijo. bem,
depois de limpar a merda coloquei minha bermuda
amarela de caminhada e fui de carro para o hipódromo. estacionei e
entrei.
o primeiro que vi foi o meu biógrafo. eu o vi
de lado e me escondi. ele estava bem-vestido,
fumava um charuto e tinha um drinque na mão.
da última vez na minha casa ele me deu dois livros:
Scott e Ernest e As cartas de John Steinbeck.
leio esses livros quando cago. sempre leio quando cago
e quanto pior o livro melhor o movimento intestinal.
aí depois da primeira corrida meu médico sentou do meu lado.
ele parecia ter acabado de sair de uma cirurgia sem
se lavar muito bem. ele ficou até depois da
oitava corrida, conversando, bebendo cerveja e comendo cachorros-quentes.
então desatou a falar do meu fígado: “você bebe quantidades
tão absurdas que quero dar uma olhada no seu fígado. trate
de aparecer agora.” “tá bom”, falei, “terça de
tarde.”
eu me lembrei da recepcionista dele. na minha última consulta
tinha ocorrido uma inundação no banheiro e ela ficou de joelhos
no chão para secar e seu vestido havia subido bem
alto acima das coxas. eu tinha parado pra ficar olhando,
dizendo a ela que as duas maiores invenções do Homem haviam sido
a bomba atômica e o encanamento.
aí o meu médico se foi e o meu biógrafo se foi também
e eu ainda tinha $97.
lá em Del Mar eles têm uma reta curta e eles
vêm gemendo por aquela última curva, e a água dos
bebedouros tem gosto de mijo.
se o meu fígado já era então já era; algo sempre ia
primeiro e aí o restante seguia. que desfile.
não era verdade, porém, dependia da parte.
eu conhecia certas pessoas sem mente que esbanjavam
saúde.
perdi a última corrida e saí dirigindo com sorte o bastante para
pegar um Shostakovich no rádio
e quando você vê às 6:20 da tarde numa rádio AM
isso é tirar um rei com ás, rainha, valete, dez...
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