Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Deixem Que Caiam
vamos deixar que as bombas caiam
estou cansado de esperar
guardei os meus brinquedos
dobrei os mapas
cancelei minha assinatura da Time
dei adeus à Disneylândia
tirei as coleiras de pulga dos meus gatos
tirei a tv da tomada
já não sonho com flamingos cor-de-rosa
já não confiro os índices da bolsa
vamos deixar que elas caiam
vamos deixar que elas explodam
estou cansado de esperar
não gosto desse tipo de chantagem
não gosto de governos dando uma de bonzinhos na minha vida:
ou caguem ou desocupem a moita
estou cansado de esperar
estou cansado de balançar
estou cansado do dilema
deixem que as bombas estourem
vocês aí, nações vagabundas choramingonas covardes
vocês aí, gigantes desmiolados
deixem
deixem
deixem!
e fujam para seus planetas e estações espaciais
então poderão ferrar tudo
lá em cima também.
estou cansado de esperar
guardei os meus brinquedos
dobrei os mapas
cancelei minha assinatura da Time
dei adeus à Disneylândia
tirei as coleiras de pulga dos meus gatos
tirei a tv da tomada
já não sonho com flamingos cor-de-rosa
já não confiro os índices da bolsa
vamos deixar que elas caiam
vamos deixar que elas explodam
estou cansado de esperar
não gosto desse tipo de chantagem
não gosto de governos dando uma de bonzinhos na minha vida:
ou caguem ou desocupem a moita
estou cansado de esperar
estou cansado de balançar
estou cansado do dilema
deixem que as bombas estourem
vocês aí, nações vagabundas choramingonas covardes
vocês aí, gigantes desmiolados
deixem
deixem
deixem!
e fujam para seus planetas e estações espaciais
então poderão ferrar tudo
lá em cima também.
1 291
Charles Bukowski
Diversão Das 3 da Manhã:
a pior coisa é
estar bêbado
todos os isqueiros sem
faísca
cartelas de fósforos
vazias
tocos de cigarros e charutos
por todos os lados
você encontra uma pequena embalagem de
fósforos
com 3 fósforos
de papelão
mas os fósforos raspam
moles contra o gasto fósforo da
caixa
merda:
bebida sem fumo é como
pau sem
boceta
você bebe um pouco
mais
procura em volta
encontra um fósforo de papelão
de pura felicidade
cuidadosamente o raspa
contra a menos gasta
das embalagens
vazias
ele chameja!
você pode
fumar!
você acende
o fumo
você lança o fósforo
num piparote rumo a um
cinzeiro
você erra a mira
e
do nada...
sobe uma chama
tudo está QUEIMANDO
afinal!
: um recibo da
American Express
: algumas das embalagens de fósforos
vazias
: até mesmo um dos isqueiros
mortos
a chama rodopia e
salta
então todo o cinzeiro de
tocos de cigarro e charuto
começa a produzir fumaça
como se bocas os estivessem
tragando
você combate as chamas com
vários e sortidos objetos
incluindo suas
mãos
até que finalmente a chama se
vai e não há nada senão
fumaça
e outra vez lhe vem aquele
pensamento recorrente: só posso estar
louco.
você ouve a voz da sua
esposa:
“Hank, você está
bem?”
ela está no outro lado da
parede no
quarto
“ah, estou ótimo...”
“tem cheiro de fumaça... a casa está pegando
fogo?”
“foi só um foguinho, Linda... eu
apaguei... dorme...”
foi ela que comprou pra você
a lixeira de aço
depois de uma ocorrência
similar
logo ela está dormindo
de novo
e você está procurando
mais
fósforos.
estar bêbado
todos os isqueiros sem
faísca
cartelas de fósforos
vazias
tocos de cigarros e charutos
por todos os lados
você encontra uma pequena embalagem de
fósforos
com 3 fósforos
de papelão
mas os fósforos raspam
moles contra o gasto fósforo da
caixa
merda:
bebida sem fumo é como
pau sem
boceta
você bebe um pouco
mais
procura em volta
encontra um fósforo de papelão
de pura felicidade
cuidadosamente o raspa
contra a menos gasta
das embalagens
vazias
ele chameja!
você pode
fumar!
você acende
o fumo
você lança o fósforo
num piparote rumo a um
cinzeiro
você erra a mira
e
do nada...
sobe uma chama
tudo está QUEIMANDO
afinal!
: um recibo da
American Express
: algumas das embalagens de fósforos
vazias
: até mesmo um dos isqueiros
mortos
a chama rodopia e
salta
então todo o cinzeiro de
tocos de cigarro e charuto
começa a produzir fumaça
como se bocas os estivessem
tragando
você combate as chamas com
vários e sortidos objetos
incluindo suas
mãos
até que finalmente a chama se
vai e não há nada senão
fumaça
e outra vez lhe vem aquele
pensamento recorrente: só posso estar
louco.
você ouve a voz da sua
esposa:
“Hank, você está
bem?”
ela está no outro lado da
parede no
quarto
“ah, estou ótimo...”
“tem cheiro de fumaça... a casa está pegando
fogo?”
“foi só um foguinho, Linda... eu
apaguei... dorme...”
foi ela que comprou pra você
a lixeira de aço
depois de uma ocorrência
similar
logo ela está dormindo
de novo
e você está procurando
mais
fósforos.
983
Charles Bukowski
O Que Estou Fazendo?
preciso parar de enfrentar esses corredores enlouquecidos na autoestrada enquanto
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
1 042
Charles Bukowski
Usando a Coleira
moro com uma dama e quatro gatos
e há certos dias em que todos nos damos
bem.
há certos dias em que tenho problemas com
um dos
gatos.
há outros dias em que tenho problemas com
dois dos
gatos.
outros dias,
três.
há certos dias em que tenho problemas com
todos os quatro
gatos
e a
dama:
dez olhos me fitando
como se eu fosse um cachorro.
e há certos dias em que todos nos damos
bem.
há certos dias em que tenho problemas com
um dos
gatos.
há outros dias em que tenho problemas com
dois dos
gatos.
outros dias,
três.
há certos dias em que tenho problemas com
todos os quatro
gatos
e a
dama:
dez olhos me fitando
como se eu fosse um cachorro.
1 322
Charles Bukowski
Conheço o Famoso Poeta
esse poeta era famoso fazia muito tempo
e após algumas décadas de
obscuridade eu
tive sorte
e o poeta apareceu
interessado
e me convidou a visitar seu
apartamento na praia.
ele era homossexual e eu era
hétero, e pior, um
beberrão.
fui lá, dei uma
olhada em volta e
declamei (como se eu não
soubesse) “ei, cadê a
porra das
gatas?”
ele apenas sorriu e acariciou
seu bigode.
ele tinha pequenas alfaces e
queijos delicados e
outras iguarias
em sua geladeira.
“onde você guarda a porra da sua
cerveja, cara?”, eu
perguntei.
não fazia mal, eu tinha
trazido as minhas próprias
garrafas e tratei de abrir
uma.
ele começou a parecer
alarmado: “ouvi falar da
sua brutalidade, por favor
queira
desistir!”
eu desabei em seu
sofá, arrotei,
ri: “ah, caralho, bebê, não
vou te machucar! ha, ha,
ha!”
“você é um ótimo escritor”, ele
disse, “mas como pessoa você é
completamente
desprezível!”
“é disso que eu mais gosto
em mim, bebê!”, eu
continuei virando as
cervejas.
num átimo
ele pareceu sumir por trás
de umas portas deslizantes
de madeira.
“ei, bebê, sai
daí! não vou fazer nada de
mal! podemos sentar e
ficar nessa idiotice de papo literário
furado a noite
toda! não vou
brutalizar você,
caralho, eu
prometo!”
“não confio em você”,
veio a voz
fina.
bem, não havia o que
fazer
a não ser abraçar a garrafa, eu estava
bêbado demais para dirigir
de volta.
quando acordei de
manhã ele estava de pé ao meu
lado
sorrindo.
“hã”, eu disse,
“oi...”
“foi pra valer o que você
disse ontem à noite?”, ele
perguntou.
“hã, quefoique eu
falei?”
“eu abri as portas e fiquei
ali parado e você me
viu e disse que
parecia que eu estava vagando na
proa de um grande navio
marítimo... você disse que eu parecia um
escandinavo! é
verdade?”
“ah, sim, sim, você
parecia mesmo...”
ele me preparou chá quente
com torrada
e eu engoli
tudo.
“bem”, eu disse, “foi bom
ter conhecido
você...”
“estou certo disso”, ele
respondeu.
a porta se fechou atrás
de mim
e eu encontrei o elevador
para descer
e
depois de alguma perambulação pela
praia
encontrei meu carro,
entrei, parti
em termos que aparentavam ser
favoráveis
entre mim e o famoso
poeta
mas
não era
o caso:
ele começou a escrever coisas
inacreditavelmente odientas
a meu
respeito
e eu
devolvi alguns disparos na direção
dele.
a história toda
foi praticamente
igual
a qualquer outro primeiro encontro
entre escritores
e
de qualquer forma
aquela parte sobre
chamá-lo de
escandinavo
não era nem um pouco
verdade: eu o chamei
de
viking
e também
não é verdade
que sem sua
ajuda
eu jamais teria
aparecido na
Coleção Penguin de
Poetas Modernos
junto com ele
e com quem
mais mesmo?
ah sim:
Lamantia.
e após algumas décadas de
obscuridade eu
tive sorte
e o poeta apareceu
interessado
e me convidou a visitar seu
apartamento na praia.
ele era homossexual e eu era
hétero, e pior, um
beberrão.
fui lá, dei uma
olhada em volta e
declamei (como se eu não
soubesse) “ei, cadê a
porra das
gatas?”
ele apenas sorriu e acariciou
seu bigode.
ele tinha pequenas alfaces e
queijos delicados e
outras iguarias
em sua geladeira.
“onde você guarda a porra da sua
cerveja, cara?”, eu
perguntei.
não fazia mal, eu tinha
trazido as minhas próprias
garrafas e tratei de abrir
uma.
ele começou a parecer
alarmado: “ouvi falar da
sua brutalidade, por favor
queira
desistir!”
eu desabei em seu
sofá, arrotei,
ri: “ah, caralho, bebê, não
vou te machucar! ha, ha,
ha!”
“você é um ótimo escritor”, ele
disse, “mas como pessoa você é
completamente
desprezível!”
“é disso que eu mais gosto
em mim, bebê!”, eu
continuei virando as
cervejas.
num átimo
ele pareceu sumir por trás
de umas portas deslizantes
de madeira.
“ei, bebê, sai
daí! não vou fazer nada de
mal! podemos sentar e
ficar nessa idiotice de papo literário
furado a noite
toda! não vou
brutalizar você,
caralho, eu
prometo!”
“não confio em você”,
veio a voz
fina.
bem, não havia o que
fazer
a não ser abraçar a garrafa, eu estava
bêbado demais para dirigir
de volta.
quando acordei de
manhã ele estava de pé ao meu
lado
sorrindo.
“hã”, eu disse,
“oi...”
“foi pra valer o que você
disse ontem à noite?”, ele
perguntou.
“hã, quefoique eu
falei?”
“eu abri as portas e fiquei
ali parado e você me
viu e disse que
parecia que eu estava vagando na
proa de um grande navio
marítimo... você disse que eu parecia um
escandinavo! é
verdade?”
“ah, sim, sim, você
parecia mesmo...”
ele me preparou chá quente
com torrada
e eu engoli
tudo.
“bem”, eu disse, “foi bom
ter conhecido
você...”
“estou certo disso”, ele
respondeu.
a porta se fechou atrás
de mim
e eu encontrei o elevador
para descer
e
depois de alguma perambulação pela
praia
encontrei meu carro,
entrei, parti
em termos que aparentavam ser
favoráveis
entre mim e o famoso
poeta
mas
não era
o caso:
ele começou a escrever coisas
inacreditavelmente odientas
a meu
respeito
e eu
devolvi alguns disparos na direção
dele.
a história toda
foi praticamente
igual
a qualquer outro primeiro encontro
entre escritores
e
de qualquer forma
aquela parte sobre
chamá-lo de
escandinavo
não era nem um pouco
verdade: eu o chamei
de
viking
e também
não é verdade
que sem sua
ajuda
eu jamais teria
aparecido na
Coleção Penguin de
Poetas Modernos
junto com ele
e com quem
mais mesmo?
ah sim:
Lamantia.
1 412
Charles Bukowski
Conheço o Famoso Poeta
esse poeta era famoso fazia muito tempo
e após algumas décadas de
obscuridade eu
tive sorte
e o poeta apareceu
interessado
e me convidou a visitar seu
apartamento na praia.
ele era homossexual e eu era
hétero, e pior, um
beberrão.
fui lá, dei uma
olhada em volta e
declamei (como se eu não
soubesse) “ei, cadê a
porra das
gatas?”
ele apenas sorriu e acariciou
seu bigode.
ele tinha pequenas alfaces e
queijos delicados e
outras iguarias
em sua geladeira.
“onde você guarda a porra da sua
cerveja, cara?”, eu
perguntei.
não fazia mal, eu tinha
trazido as minhas próprias
garrafas e tratei de abrir
uma.
ele começou a parecer
alarmado: “ouvi falar da
sua brutalidade, por favor
queira
desistir!”
eu desabei em seu
sofá, arrotei,
ri: “ah, caralho, bebê, não
vou te machucar! ha, ha,
ha!”
“você é um ótimo escritor”, ele
disse, “mas como pessoa você é
completamente
desprezível!”
“é disso que eu mais gosto
em mim, bebê!”, eu
continuei virando as
cervejas.
num átimo
ele pareceu sumir por trás
de umas portas deslizantes
de madeira.
“ei, bebê, sai
daí! não vou fazer nada de
mal! podemos sentar e
ficar nessa idiotice de papo literário
furado a noite
toda! não vou
brutalizar você,
caralho, eu
prometo!”
“não confio em você”,
veio a voz
fina.
bem, não havia o que
fazer
a não ser abraçar a garrafa, eu estava
bêbado demais para dirigir
de volta.
quando acordei de
manhã ele estava de pé ao meu
lado
sorrindo.
“hã”, eu disse,
“oi...”
“foi pra valer o que você
disse ontem à noite?”, ele
perguntou.
“hã, quefoique eu
falei?”
“eu abri as portas e fiquei
ali parado e você me
viu e disse que
parecia que eu estava vagando na
proa de um grande navio
marítimo... você disse que eu parecia um
escandinavo! é
verdade?”
“ah, sim, sim, você
parecia mesmo...”
ele me preparou chá quente
com torrada
e eu engoli
tudo.
“bem”, eu disse, “foi bom
ter conhecido
você...”
“estou certo disso”, ele
respondeu.
a porta se fechou atrás
de mim
e eu encontrei o elevador
para descer
e
depois de alguma perambulação pela
praia
encontrei meu carro,
entrei, parti
em termos que aparentavam ser
favoráveis
entre mim e o famoso
poeta
mas
não era
o caso:
ele começou a escrever coisas
inacreditavelmente odientas
a meu
respeito
e eu
devolvi alguns disparos na direção
dele.
a história toda
foi praticamente
igual
a qualquer outro primeiro encontro
entre escritores
e
de qualquer forma
aquela parte sobre
chamá-lo de
escandinavo
não era nem um pouco
verdade: eu o chamei
de
viking
e também
não é verdade
que sem sua
ajuda
eu jamais teria
aparecido na
Coleção Penguin de
Poetas Modernos
junto com ele
e com quem
mais mesmo?
ah sim:
Lamantia.
e após algumas décadas de
obscuridade eu
tive sorte
e o poeta apareceu
interessado
e me convidou a visitar seu
apartamento na praia.
ele era homossexual e eu era
hétero, e pior, um
beberrão.
fui lá, dei uma
olhada em volta e
declamei (como se eu não
soubesse) “ei, cadê a
porra das
gatas?”
ele apenas sorriu e acariciou
seu bigode.
ele tinha pequenas alfaces e
queijos delicados e
outras iguarias
em sua geladeira.
“onde você guarda a porra da sua
cerveja, cara?”, eu
perguntei.
não fazia mal, eu tinha
trazido as minhas próprias
garrafas e tratei de abrir
uma.
ele começou a parecer
alarmado: “ouvi falar da
sua brutalidade, por favor
queira
desistir!”
eu desabei em seu
sofá, arrotei,
ri: “ah, caralho, bebê, não
vou te machucar! ha, ha,
ha!”
“você é um ótimo escritor”, ele
disse, “mas como pessoa você é
completamente
desprezível!”
“é disso que eu mais gosto
em mim, bebê!”, eu
continuei virando as
cervejas.
num átimo
ele pareceu sumir por trás
de umas portas deslizantes
de madeira.
“ei, bebê, sai
daí! não vou fazer nada de
mal! podemos sentar e
ficar nessa idiotice de papo literário
furado a noite
toda! não vou
brutalizar você,
caralho, eu
prometo!”
“não confio em você”,
veio a voz
fina.
bem, não havia o que
fazer
a não ser abraçar a garrafa, eu estava
bêbado demais para dirigir
de volta.
quando acordei de
manhã ele estava de pé ao meu
lado
sorrindo.
“hã”, eu disse,
“oi...”
“foi pra valer o que você
disse ontem à noite?”, ele
perguntou.
“hã, quefoique eu
falei?”
“eu abri as portas e fiquei
ali parado e você me
viu e disse que
parecia que eu estava vagando na
proa de um grande navio
marítimo... você disse que eu parecia um
escandinavo! é
verdade?”
“ah, sim, sim, você
parecia mesmo...”
ele me preparou chá quente
com torrada
e eu engoli
tudo.
“bem”, eu disse, “foi bom
ter conhecido
você...”
“estou certo disso”, ele
respondeu.
a porta se fechou atrás
de mim
e eu encontrei o elevador
para descer
e
depois de alguma perambulação pela
praia
encontrei meu carro,
entrei, parti
em termos que aparentavam ser
favoráveis
entre mim e o famoso
poeta
mas
não era
o caso:
ele começou a escrever coisas
inacreditavelmente odientas
a meu
respeito
e eu
devolvi alguns disparos na direção
dele.
a história toda
foi praticamente
igual
a qualquer outro primeiro encontro
entre escritores
e
de qualquer forma
aquela parte sobre
chamá-lo de
escandinavo
não era nem um pouco
verdade: eu o chamei
de
viking
e também
não é verdade
que sem sua
ajuda
eu jamais teria
aparecido na
Coleção Penguin de
Poetas Modernos
junto com ele
e com quem
mais mesmo?
ah sim:
Lamantia.
1 412
Charles Bukowski
A Morte de Uma Esplêndida Vizinhança
havia um lugar perto da Western Ave.
no qual você subia uma escada
para ganhar um boquete
e havia um grande motociclista
lá sentado
usando sua jaqueta com suástica.
ele ficava lá pra farejar você
se você fosse um
tira
e pra proteger as garotas
se você não fosse.
ficava bem em cima da
Loja de Sanduíches Submarinos da Philadelphia
lá em L.A.
para onde as garotas desciam
quando o movimento
ficava fraco
e onde elas comiam outra
coisa.
o cara que administrava a
loja de sanduíches
detestava as garotas
ele não gostava de
atendê-las
mas tinha
medo de não
atender.
aí um dia
fui fazer uma visita
e o motociclista não estava lá
tampouco as garotas
estavam,
e não tinha sido uma simples
batida
tinha sido um
tiroteio:
havia buracos de bala
na porta
no alto da
escada.
entrei na loja de submarinos
pra pegar um sanduíche e uma
cerveja
e o proprietário me
disse
“as coisas estão melhores
agora”.
depois disso
precisei sair da cidade
por alguns
dias
e quando voltei
e andei
até a loja de sanduíches
vi que a janela
de vidro recozido
tinha sido
arrebentada
e estava coberta por
tábuas.
dentro as paredes
e o balcão tinham sido
enegrecidos por
fogo.
mais ou menos na mesma
época
minha namorada enlouqueceu
e começou a dar para um homem
depois
do outro.
quase tudo que era bom estava
acabado.
dei um mês de aviso prévio
ao meu senhorio e me mudei em
3 semanas.
no qual você subia uma escada
para ganhar um boquete
e havia um grande motociclista
lá sentado
usando sua jaqueta com suástica.
ele ficava lá pra farejar você
se você fosse um
tira
e pra proteger as garotas
se você não fosse.
ficava bem em cima da
Loja de Sanduíches Submarinos da Philadelphia
lá em L.A.
para onde as garotas desciam
quando o movimento
ficava fraco
e onde elas comiam outra
coisa.
o cara que administrava a
loja de sanduíches
detestava as garotas
ele não gostava de
atendê-las
mas tinha
medo de não
atender.
aí um dia
fui fazer uma visita
e o motociclista não estava lá
tampouco as garotas
estavam,
e não tinha sido uma simples
batida
tinha sido um
tiroteio:
havia buracos de bala
na porta
no alto da
escada.
entrei na loja de submarinos
pra pegar um sanduíche e uma
cerveja
e o proprietário me
disse
“as coisas estão melhores
agora”.
depois disso
precisei sair da cidade
por alguns
dias
e quando voltei
e andei
até a loja de sanduíches
vi que a janela
de vidro recozido
tinha sido
arrebentada
e estava coberta por
tábuas.
dentro as paredes
e o balcão tinham sido
enegrecidos por
fogo.
mais ou menos na mesma
época
minha namorada enlouqueceu
e começou a dar para um homem
depois
do outro.
quase tudo que era bom estava
acabado.
dei um mês de aviso prévio
ao meu senhorio e me mudei em
3 semanas.
1 056
Charles Bukowski
Seguidores
o telefone tocou à 1:30 da manhã
e era um homem de Denver:
“Chinaski, você tem seguidores em
Denver...”
“é?”
“é, eu tenho uma revista e quero uns
poemas seus...”
“VAI SE FODER, CHINASKI!”, ouvi uma voz
no fundo...
“pelo visto você tem um amigo aí”,
eu disse.
“é”, ele respondeu, “pois então, eu quero
seis poemas...”
“O CHINASKI É UMA PORCARIA! O CHINASKI É UM BABACA!”,
ouvi a outra
voz.
“vocês andaram bebendo?”,
eu perguntei.
“e daí?”, ele respondeu. “você bebe.”
“é verdade...”
“O CHINASKI É UM IMBECIL!”
então
o editor da revista me deu o
endereço e eu o anotei no verso
de um envelope.
“manda uns poemas pra gente agora...”
“vou ver o que posso fazer...”
“O CHINASKI SÓ ESCREVE MERDA!”
“tchau”, eu disse.
“tchau”, disse o
editor.
eu desliguei.
há certamente uma grande quantidade de pessoas
solitárias sem muito o que fazer com
suas noites.
e era um homem de Denver:
“Chinaski, você tem seguidores em
Denver...”
“é?”
“é, eu tenho uma revista e quero uns
poemas seus...”
“VAI SE FODER, CHINASKI!”, ouvi uma voz
no fundo...
“pelo visto você tem um amigo aí”,
eu disse.
“é”, ele respondeu, “pois então, eu quero
seis poemas...”
“O CHINASKI É UMA PORCARIA! O CHINASKI É UM BABACA!”,
ouvi a outra
voz.
“vocês andaram bebendo?”,
eu perguntei.
“e daí?”, ele respondeu. “você bebe.”
“é verdade...”
“O CHINASKI É UM IMBECIL!”
então
o editor da revista me deu o
endereço e eu o anotei no verso
de um envelope.
“manda uns poemas pra gente agora...”
“vou ver o que posso fazer...”
“O CHINASKI SÓ ESCREVE MERDA!”
“tchau”, eu disse.
“tchau”, disse o
editor.
eu desliguei.
há certamente uma grande quantidade de pessoas
solitárias sem muito o que fazer com
suas noites.
1 121
Charles Bukowski
A Maldição Mágica
nunca gostei da ideia de morar na rua então mantive distância da sopa
dos pobres, dos bancos de sangue e das assim chamadas
doações.
fiquei tão terrivelmente magro que se
eu virasse de lado era difícil enxergar minha sombra sob um
sol forte do meio-dia.
não tinha importância para mim contanto que eu mantivesse distância da
multidão
e mesmo lá embaixo se tratava de
uma multidão exitosa e de uma multidão
fracassada.
não creio que eu fosse louco
mas muitos dos
loucos acham
isso
mas eu acho
agora
que se algo me salvou
foi o fato de ter evitado a
multidão
isso foi minha
comida
ainda
é.
me coloquem numa sala com mais do que
3 pessoas
eu tendo a me comportar
de um jeito bem
esquisito.
uma vez
até perguntei à minha esposa: escuta, eu devo ter
uma doença... será que devo procurar um
psiquiatra?
meu Deus, eu disse, ele é capaz de me curar
e aí o que é que eu vou
fazer?
ela só ficou me olhando
e nós esquecemos
a coisa
toda.
dos pobres, dos bancos de sangue e das assim chamadas
doações.
fiquei tão terrivelmente magro que se
eu virasse de lado era difícil enxergar minha sombra sob um
sol forte do meio-dia.
não tinha importância para mim contanto que eu mantivesse distância da
multidão
e mesmo lá embaixo se tratava de
uma multidão exitosa e de uma multidão
fracassada.
não creio que eu fosse louco
mas muitos dos
loucos acham
isso
mas eu acho
agora
que se algo me salvou
foi o fato de ter evitado a
multidão
isso foi minha
comida
ainda
é.
me coloquem numa sala com mais do que
3 pessoas
eu tendo a me comportar
de um jeito bem
esquisito.
uma vez
até perguntei à minha esposa: escuta, eu devo ter
uma doença... será que devo procurar um
psiquiatra?
meu Deus, eu disse, ele é capaz de me curar
e aí o que é que eu vou
fazer?
ela só ficou me olhando
e nós esquecemos
a coisa
toda.
1 238
Charles Bukowski
Nossa Risada É Silenciada Pelo Sofrimento Deles
enquanto a criança atravessa a rua enquanto mergulhadores de águas profundas
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
699
Charles Bukowski
Nossa Risada É Silenciada Pelo Sofrimento Deles
enquanto a criança atravessa a rua enquanto mergulhadores de águas profundas
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
699
Charles Bukowski
Você Fica Tão Sozinho Às Vezes Que Até Faz Sentido
quando era um escritor passando fome eu costumava ler os principais escritores nas
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
941
Charles Bukowski
Você Fica Tão Sozinho Às Vezes Que Até Faz Sentido
quando era um escritor passando fome eu costumava ler os principais escritores nas
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
941
Charles Bukowski
Você Fica Tão Sozinho Às Vezes Que Até Faz Sentido
quando era um escritor passando fome eu costumava ler os principais escritores nas
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
941
Charles Bukowski
A Ilha Que Vai Encolhendo
estou trabalhando nele com
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
1 297
Charles Bukowski
Assassinato
competição, ganância, desejo de fama –
depois de ótimos começos eles na maioria das vezes
escrevem quando não querem escrever, escrevem por
encomenda, escrevem em troca de Cadillacs e garotas
mais jovens – e para pagar
velhas esposas descartadas.
eles aparecem em talk shows, frequentam festas
com seus pares.
a maioria vai para Hollywood, eles viram franco-atiradores e
bisbilhoteiros
e têm mais e mais casos com garotas e/ou
homens mais e mais
jovens.
eles escrevem entre Hollywood e as festas,
é escrita com relógio de ponto
e no meio das calcinhas e/ou dos
suportes atléticos
e da cocaína
muitos deles dão jeito de se complicar com a
Receita Federal.
entre velhas esposas, novas esposas, garotas
mais e mais novas (e/ou)
todos os seus adiantamentos e direitos autorais –
as centenas de milhares de
dólares –
são agora subitamente
dívidas.
a escrita vira um espasmo
inútil
a punheta de um dom
outrora
poderoso.
isso acontece e acontece e
continua igual:
a mutilação do talento
que os deuses raramente
dão
mas tão rapidamente
tiram.
depois de ótimos começos eles na maioria das vezes
escrevem quando não querem escrever, escrevem por
encomenda, escrevem em troca de Cadillacs e garotas
mais jovens – e para pagar
velhas esposas descartadas.
eles aparecem em talk shows, frequentam festas
com seus pares.
a maioria vai para Hollywood, eles viram franco-atiradores e
bisbilhoteiros
e têm mais e mais casos com garotas e/ou
homens mais e mais
jovens.
eles escrevem entre Hollywood e as festas,
é escrita com relógio de ponto
e no meio das calcinhas e/ou dos
suportes atléticos
e da cocaína
muitos deles dão jeito de se complicar com a
Receita Federal.
entre velhas esposas, novas esposas, garotas
mais e mais novas (e/ou)
todos os seus adiantamentos e direitos autorais –
as centenas de milhares de
dólares –
são agora subitamente
dívidas.
a escrita vira um espasmo
inútil
a punheta de um dom
outrora
poderoso.
isso acontece e acontece e
continua igual:
a mutilação do talento
que os deuses raramente
dão
mas tão rapidamente
tiram.
1 054
Charles Bukowski
Assassinato
competição, ganância, desejo de fama –
depois de ótimos começos eles na maioria das vezes
escrevem quando não querem escrever, escrevem por
encomenda, escrevem em troca de Cadillacs e garotas
mais jovens – e para pagar
velhas esposas descartadas.
eles aparecem em talk shows, frequentam festas
com seus pares.
a maioria vai para Hollywood, eles viram franco-atiradores e
bisbilhoteiros
e têm mais e mais casos com garotas e/ou
homens mais e mais
jovens.
eles escrevem entre Hollywood e as festas,
é escrita com relógio de ponto
e no meio das calcinhas e/ou dos
suportes atléticos
e da cocaína
muitos deles dão jeito de se complicar com a
Receita Federal.
entre velhas esposas, novas esposas, garotas
mais e mais novas (e/ou)
todos os seus adiantamentos e direitos autorais –
as centenas de milhares de
dólares –
são agora subitamente
dívidas.
a escrita vira um espasmo
inútil
a punheta de um dom
outrora
poderoso.
isso acontece e acontece e
continua igual:
a mutilação do talento
que os deuses raramente
dão
mas tão rapidamente
tiram.
depois de ótimos começos eles na maioria das vezes
escrevem quando não querem escrever, escrevem por
encomenda, escrevem em troca de Cadillacs e garotas
mais jovens – e para pagar
velhas esposas descartadas.
eles aparecem em talk shows, frequentam festas
com seus pares.
a maioria vai para Hollywood, eles viram franco-atiradores e
bisbilhoteiros
e têm mais e mais casos com garotas e/ou
homens mais e mais
jovens.
eles escrevem entre Hollywood e as festas,
é escrita com relógio de ponto
e no meio das calcinhas e/ou dos
suportes atléticos
e da cocaína
muitos deles dão jeito de se complicar com a
Receita Federal.
entre velhas esposas, novas esposas, garotas
mais e mais novas (e/ou)
todos os seus adiantamentos e direitos autorais –
as centenas de milhares de
dólares –
são agora subitamente
dívidas.
a escrita vira um espasmo
inútil
a punheta de um dom
outrora
poderoso.
isso acontece e acontece e
continua igual:
a mutilação do talento
que os deuses raramente
dão
mas tão rapidamente
tiram.
1 054
Charles Bukowski
Assassinato
competição, ganância, desejo de fama –
depois de ótimos começos eles na maioria das vezes
escrevem quando não querem escrever, escrevem por
encomenda, escrevem em troca de Cadillacs e garotas
mais jovens – e para pagar
velhas esposas descartadas.
eles aparecem em talk shows, frequentam festas
com seus pares.
a maioria vai para Hollywood, eles viram franco-atiradores e
bisbilhoteiros
e têm mais e mais casos com garotas e/ou
homens mais e mais
jovens.
eles escrevem entre Hollywood e as festas,
é escrita com relógio de ponto
e no meio das calcinhas e/ou dos
suportes atléticos
e da cocaína
muitos deles dão jeito de se complicar com a
Receita Federal.
entre velhas esposas, novas esposas, garotas
mais e mais novas (e/ou)
todos os seus adiantamentos e direitos autorais –
as centenas de milhares de
dólares –
são agora subitamente
dívidas.
a escrita vira um espasmo
inútil
a punheta de um dom
outrora
poderoso.
isso acontece e acontece e
continua igual:
a mutilação do talento
que os deuses raramente
dão
mas tão rapidamente
tiram.
depois de ótimos começos eles na maioria das vezes
escrevem quando não querem escrever, escrevem por
encomenda, escrevem em troca de Cadillacs e garotas
mais jovens – e para pagar
velhas esposas descartadas.
eles aparecem em talk shows, frequentam festas
com seus pares.
a maioria vai para Hollywood, eles viram franco-atiradores e
bisbilhoteiros
e têm mais e mais casos com garotas e/ou
homens mais e mais
jovens.
eles escrevem entre Hollywood e as festas,
é escrita com relógio de ponto
e no meio das calcinhas e/ou dos
suportes atléticos
e da cocaína
muitos deles dão jeito de se complicar com a
Receita Federal.
entre velhas esposas, novas esposas, garotas
mais e mais novas (e/ou)
todos os seus adiantamentos e direitos autorais –
as centenas de milhares de
dólares –
são agora subitamente
dívidas.
a escrita vira um espasmo
inútil
a punheta de um dom
outrora
poderoso.
isso acontece e acontece e
continua igual:
a mutilação do talento
que os deuses raramente
dão
mas tão rapidamente
tiram.
1 054
Charles Bukowski
Além do Ponto
de algum modo ele havia me localizado de novo – ele estava no telefone – falando
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?
– também
havia seus problemas atuais –
– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –
e eu tinha sido um
ouvinte
eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos
agora
ele estava de volta
e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –
afinal
peguei o fone e disse a ele –
ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!
ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –
(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)
coloquei o fone de volta no
gancho –
– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –
– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?
– também
havia seus problemas atuais –
– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –
e eu tinha sido um
ouvinte
eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos
agora
ele estava de volta
e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –
afinal
peguei o fone e disse a ele –
ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!
ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –
(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)
coloquei o fone de volta no
gancho –
– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –
– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
973
Charles Bukowski
Aproveite o Dia
sujeito nojento ele ficava o tempo todo limpando o nariz na
manga e também peidando a intervalos
regulares, ele não tinha
nem pente
nem boas maneiras
nem quem o desejasse.
uma de cada três palavras suas era uma víscera
grosseira
e ele arreganhava os dentes quebrados e
amarelos
seu hálito fedendo acima do
vento
ele enterrava continuamente na virilha
sua mão
esquerda
e tinha sempre uma
piada suja
à disposição,
um bronco do mais baixo
nível
um homem
muitíssimo muitíssimo
evitado
até que
ganhou na loteria
estadual.
agora
você precisa ver
o sujeito: sempre uma jovem aos risos em
cada braço
ele come nos melhores
restaurantes
os garçons brigando para pegá-lo
nas mesas
deles
ele arrota e peida noite
afora
derramando sua taça de vinho
pegando seu bife com os
dedos
enquanto
suas damas o chamam de
“original” e “o cara mais
engraçado que já conheci”.
e o que fazem com ele
na cama
é uma tremenda
vergonha.
o que precisamos ter sempre em
mente, contudo, é que
50% da loteria estadual vai para o
Sistema Educacional e
isso é importante
quando você percebe que
apenas uma pessoa em
cada nove
sabe soletrar corretamente
“emulação”.
manga e também peidando a intervalos
regulares, ele não tinha
nem pente
nem boas maneiras
nem quem o desejasse.
uma de cada três palavras suas era uma víscera
grosseira
e ele arreganhava os dentes quebrados e
amarelos
seu hálito fedendo acima do
vento
ele enterrava continuamente na virilha
sua mão
esquerda
e tinha sempre uma
piada suja
à disposição,
um bronco do mais baixo
nível
um homem
muitíssimo muitíssimo
evitado
até que
ganhou na loteria
estadual.
agora
você precisa ver
o sujeito: sempre uma jovem aos risos em
cada braço
ele come nos melhores
restaurantes
os garçons brigando para pegá-lo
nas mesas
deles
ele arrota e peida noite
afora
derramando sua taça de vinho
pegando seu bife com os
dedos
enquanto
suas damas o chamam de
“original” e “o cara mais
engraçado que já conheci”.
e o que fazem com ele
na cama
é uma tremenda
vergonha.
o que precisamos ter sempre em
mente, contudo, é que
50% da loteria estadual vai para o
Sistema Educacional e
isso é importante
quando você percebe que
apenas uma pessoa em
cada nove
sabe soletrar corretamente
“emulação”.
761
Charles Bukowski
Aproveite o Dia
sujeito nojento ele ficava o tempo todo limpando o nariz na
manga e também peidando a intervalos
regulares, ele não tinha
nem pente
nem boas maneiras
nem quem o desejasse.
uma de cada três palavras suas era uma víscera
grosseira
e ele arreganhava os dentes quebrados e
amarelos
seu hálito fedendo acima do
vento
ele enterrava continuamente na virilha
sua mão
esquerda
e tinha sempre uma
piada suja
à disposição,
um bronco do mais baixo
nível
um homem
muitíssimo muitíssimo
evitado
até que
ganhou na loteria
estadual.
agora
você precisa ver
o sujeito: sempre uma jovem aos risos em
cada braço
ele come nos melhores
restaurantes
os garçons brigando para pegá-lo
nas mesas
deles
ele arrota e peida noite
afora
derramando sua taça de vinho
pegando seu bife com os
dedos
enquanto
suas damas o chamam de
“original” e “o cara mais
engraçado que já conheci”.
e o que fazem com ele
na cama
é uma tremenda
vergonha.
o que precisamos ter sempre em
mente, contudo, é que
50% da loteria estadual vai para o
Sistema Educacional e
isso é importante
quando você percebe que
apenas uma pessoa em
cada nove
sabe soletrar corretamente
“emulação”.
manga e também peidando a intervalos
regulares, ele não tinha
nem pente
nem boas maneiras
nem quem o desejasse.
uma de cada três palavras suas era uma víscera
grosseira
e ele arreganhava os dentes quebrados e
amarelos
seu hálito fedendo acima do
vento
ele enterrava continuamente na virilha
sua mão
esquerda
e tinha sempre uma
piada suja
à disposição,
um bronco do mais baixo
nível
um homem
muitíssimo muitíssimo
evitado
até que
ganhou na loteria
estadual.
agora
você precisa ver
o sujeito: sempre uma jovem aos risos em
cada braço
ele come nos melhores
restaurantes
os garçons brigando para pegá-lo
nas mesas
deles
ele arrota e peida noite
afora
derramando sua taça de vinho
pegando seu bife com os
dedos
enquanto
suas damas o chamam de
“original” e “o cara mais
engraçado que já conheci”.
e o que fazem com ele
na cama
é uma tremenda
vergonha.
o que precisamos ter sempre em
mente, contudo, é que
50% da loteria estadual vai para o
Sistema Educacional e
isso é importante
quando você percebe que
apenas uma pessoa em
cada nove
sabe soletrar corretamente
“emulação”.
761
Charles Bukowski
Praticando
Van Gogh cortou fora sua orelha
e a deu para uma
prostituta
que a jogou longe com
extremo
desgosto.
Van, putas não querem
orelhas
elas querem
dinheiro.
acho que é por isso que você foi
um pintor tão
genial: além da pintura você
não entendia
grande
coisa.
e a deu para uma
prostituta
que a jogou longe com
extremo
desgosto.
Van, putas não querem
orelhas
elas querem
dinheiro.
acho que é por isso que você foi
um pintor tão
genial: além da pintura você
não entendia
grande
coisa.
1 430
Charles Bukowski
Como Está o Seu Coração?
durante os meus piores momentos
nos bancos de praça
nas cadeias
ou morando com
putas
sempre senti certo
contentamento –
eu não chamaria de
felicidade –
era mais um equilíbrio
íntimo
que se acomodava com
qualquer coisa que estivesse ocorrendo
e isso ajudou nas
fábricas
e quando relacionamentos
davam errado
com as
garotas.
ajudou
ao longo das
guerras e das
ressacas
das lutas nos becos
dos hospitais.
despertar num quarto barato
numa cidade estranha e
levantar a cortina –
esse era o tipo mais louco de
contentamento
e atravessar o piso
até uma velha cômoda com um
espelho rachado –
ver meu reflexo, feio,
sorrindo perante tudo.
o mais importante é
você saber
caminhar através do
fogo.
nos bancos de praça
nas cadeias
ou morando com
putas
sempre senti certo
contentamento –
eu não chamaria de
felicidade –
era mais um equilíbrio
íntimo
que se acomodava com
qualquer coisa que estivesse ocorrendo
e isso ajudou nas
fábricas
e quando relacionamentos
davam errado
com as
garotas.
ajudou
ao longo das
guerras e das
ressacas
das lutas nos becos
dos hospitais.
despertar num quarto barato
numa cidade estranha e
levantar a cortina –
esse era o tipo mais louco de
contentamento
e atravessar o piso
até uma velha cômoda com um
espelho rachado –
ver meu reflexo, feio,
sorrindo perante tudo.
o mais importante é
você saber
caminhar através do
fogo.
1 163
Charles Bukowski
Hein?
na
Alemanha França Itália
eu posso caminhar pelas ruas e ser
seguido por
rapazes rindo
mocinhas
dando risadinhas e
velhas
damas empinando seus
narizes...
ao passo que
na América
sou só mais um
velho
cansado
fazendo seja lá o que
os velhos cansados
fazem.
ah, isso tem suas
compensações:
posso levar minhas calças
à lavanderia ou
entrar numa
fila de supermercado
sem nenhum tumulto em
absoluto:
os deuses me concederam
um doce
anonimato.
mas
por vezes
considero a sério minha
fama ultramarina
e
a única coisa
que me vem à cabeça é
que
devo ter uns
tradutores
bons pra caralho.
decerto
devo a eles
os pelos do meu
saco
ou
possivelmente
meu próprio
saco.
Alemanha França Itália
eu posso caminhar pelas ruas e ser
seguido por
rapazes rindo
mocinhas
dando risadinhas e
velhas
damas empinando seus
narizes...
ao passo que
na América
sou só mais um
velho
cansado
fazendo seja lá o que
os velhos cansados
fazem.
ah, isso tem suas
compensações:
posso levar minhas calças
à lavanderia ou
entrar numa
fila de supermercado
sem nenhum tumulto em
absoluto:
os deuses me concederam
um doce
anonimato.
mas
por vezes
considero a sério minha
fama ultramarina
e
a única coisa
que me vem à cabeça é
que
devo ter uns
tradutores
bons pra caralho.
decerto
devo a eles
os pelos do meu
saco
ou
possivelmente
meu próprio
saco.
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