Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Pessoas Nervosas
você entra para comprar uma mercadoria – leva ao funcionário da registradora – ele
não sabe o preço – pede licença – retorna depois de um longo
tempo – fica encarando a caixa registradora eletrônica – registra o valor na
máquina com certa dificuldade: $47.583,64 – você não tem esse valor
consigo – ele ri – chama ajuda – outro funcionário
aparece – depois de outro longo tempo ele chega a uma nova soma:
$1,27. eu pago – então preciso pedir uma sacola – agradeço ao
funcionário – caminho até o estacionamento com a dama com quem estou – “você
deixa as pessoas nervosas”, ela me diz –
rodamos para casa com a mercadoria – colocamos a mercadoria para executar sua tarefa – ela
não funciona – a mercadoria tem um defeito
de fábrica –
“vou devolver”, ela diz –
eu entro no banheiro e mijo em linha reta no centro do
vaso – a guerra é só um dos problemas que acossam todo mundo
durante a vida de um dia decente.
não sabe o preço – pede licença – retorna depois de um longo
tempo – fica encarando a caixa registradora eletrônica – registra o valor na
máquina com certa dificuldade: $47.583,64 – você não tem esse valor
consigo – ele ri – chama ajuda – outro funcionário
aparece – depois de outro longo tempo ele chega a uma nova soma:
$1,27. eu pago – então preciso pedir uma sacola – agradeço ao
funcionário – caminho até o estacionamento com a dama com quem estou – “você
deixa as pessoas nervosas”, ela me diz –
rodamos para casa com a mercadoria – colocamos a mercadoria para executar sua tarefa – ela
não funciona – a mercadoria tem um defeito
de fábrica –
“vou devolver”, ela diz –
eu entro no banheiro e mijo em linha reta no centro do
vaso – a guerra é só um dos problemas que acossam todo mundo
durante a vida de um dia decente.
1 067
Charles Bukowski
É Engraçado, Não É? #1
nós estávamos ali de pé
numa festa de aniversário
num restaurante
chique
e
havia
muitas pessoas especiais
em volta
pavoneando sua
fama.
eu queria sair
correndo
quando um homem
parado perto de nós
disse algo
exatamente apropriado
para a
ocasião.
“ei”, eu disse à
minha esposa, “esse
cara vale a
pena. quando formos
sentar
vamos tentar
sentar perto
dele.”
fizemos isso e enquanto
as bebidas eram
servidas
o homem começou
a falar
ele começou uma
longa história
que estava
se encaminhando para uma
frase
de efeito.
o problema
era que
eu já adivinhava
qual
iria ser
a
frase de efeito.
e
ele falou
e
falou
e aí
soltou a
frase.
“que merda”, eu
disse a ele, “essa
foi horrível, você
realmente
me
decepcionou...”
ele
apenas começou
a contar outra
história.
eu fui até
outra mesa
e parei atrás
do agora
grande
astro do cinema.
“olha só,
quando nós nos
conhecemos
você não passava de um amável
garoto alemão.
agora
você se transformou
num
otário
presunçoso. você
realmente
me
decepcionou.”
o grande astro do
cinema (que era um
homem
de poderosa
musculatura) rosnou
e
deu de
ombros.
aí eu fui até
a mesa
onde a dama aniversariante estava
sentada
cercada por
um monte de
gente da
mídia.
“olhar pra
vocês”, eu disse, “me dá
vontade de
vomitar
em cima das
suas
ineptas
plausibilidades!”
“ah”, disse a dama
para seus
convidados, “ele
sempre fala
desse
jeito!”
e ela deu uma
risada, pobre
coitada.
então
eu disse “Feliz
aniversário,
mas
eu tinha avisado
a você que nunca deveria
me convidar para essas
coisas.”
aí
eu retornei à
minha mesa
gesticulei para o garçom
trazer
mais uma
bebida.
o homem
estava contando
mais uma
história
mas
ela não era nem
de longe
tão boa
quanto
esta
aqui.
numa festa de aniversário
num restaurante
chique
e
havia
muitas pessoas especiais
em volta
pavoneando sua
fama.
eu queria sair
correndo
quando um homem
parado perto de nós
disse algo
exatamente apropriado
para a
ocasião.
“ei”, eu disse à
minha esposa, “esse
cara vale a
pena. quando formos
sentar
vamos tentar
sentar perto
dele.”
fizemos isso e enquanto
as bebidas eram
servidas
o homem começou
a falar
ele começou uma
longa história
que estava
se encaminhando para uma
frase
de efeito.
o problema
era que
eu já adivinhava
qual
iria ser
a
frase de efeito.
e
ele falou
e
falou
e aí
soltou a
frase.
“que merda”, eu
disse a ele, “essa
foi horrível, você
realmente
me
decepcionou...”
ele
apenas começou
a contar outra
história.
eu fui até
outra mesa
e parei atrás
do agora
grande
astro do cinema.
“olha só,
quando nós nos
conhecemos
você não passava de um amável
garoto alemão.
agora
você se transformou
num
otário
presunçoso. você
realmente
me
decepcionou.”
o grande astro do
cinema (que era um
homem
de poderosa
musculatura) rosnou
e
deu de
ombros.
aí eu fui até
a mesa
onde a dama aniversariante estava
sentada
cercada por
um monte de
gente da
mídia.
“olhar pra
vocês”, eu disse, “me dá
vontade de
vomitar
em cima das
suas
ineptas
plausibilidades!”
“ah”, disse a dama
para seus
convidados, “ele
sempre fala
desse
jeito!”
e ela deu uma
risada, pobre
coitada.
então
eu disse “Feliz
aniversário,
mas
eu tinha avisado
a você que nunca deveria
me convidar para essas
coisas.”
aí
eu retornei à
minha mesa
gesticulei para o garçom
trazer
mais uma
bebida.
o homem
estava contando
mais uma
história
mas
ela não era nem
de longe
tão boa
quanto
esta
aqui.
1 022
Charles Bukowski
Um Gato É Um Gato É Um Gato É Um Gato
ela está assobiando e batendo palma
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
1 441
Charles Bukowski
Um Dia Vou Escrever Uma Cartilha Para Santos Aleijados Mas Enquanto Isso...
enquanto a Bomba repousa lá nas mãos de uma
espécie cada vez menor
tudo que você quer
é me ver sentado ao seu lado
com pipoca e Dr. Pepper
enquanto aqueles embotados dentes de celuloide
vão mastigando
meus restos mortais.
não me preocupo muito com a
Bomba – os manicômios estão cheios
o bastante
e sempre lembro que
depois de um dos melhores rabos
que jamais peguei
eu fui ao banheiro e
me masturbei – dureza matar um homem
desses com uma
Bomba?
de todo modo, finalmente derrubei
R. Jeffers e Céline do meu
campanário
e lá sento sozinho
com você e
Dostoiévski
enquanto o coração real e o
coração artificial
continuam a
vacilar,
esfomeados.
eu te amo mas
não sei o que
fazer.
espécie cada vez menor
tudo que você quer
é me ver sentado ao seu lado
com pipoca e Dr. Pepper
enquanto aqueles embotados dentes de celuloide
vão mastigando
meus restos mortais.
não me preocupo muito com a
Bomba – os manicômios estão cheios
o bastante
e sempre lembro que
depois de um dos melhores rabos
que jamais peguei
eu fui ao banheiro e
me masturbei – dureza matar um homem
desses com uma
Bomba?
de todo modo, finalmente derrubei
R. Jeffers e Céline do meu
campanário
e lá sento sozinho
com você e
Dostoiévski
enquanto o coração real e o
coração artificial
continuam a
vacilar,
esfomeados.
eu te amo mas
não sei o que
fazer.
1 245
Charles Bukowski
Jon Edgar Webb
eu tive uma fase de poema lírico lá em New Orleans, martelando
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
1 171
Charles Bukowski
Todo Mundo Fala Demais
quando
o guarda me fez
parar
eu
entreguei a ele minha
habilitação.
ele
voltou
para transmitir
a marca
e o modelo
do meu carro
e
ver se estava tudo limpo com
as minhas placas.
ele preencheu
a multa
se
aproximou
me entregou
o bilhete
para
assinar.
eu assinei
ele me
devolveu
a
habilitação.
“como pode
que o senhor
não
diz
nada?”,
ele perguntou.
eu dei
de
ombros.
“bem, senhor”,
ele
disse, “tenha
um
bom dia
e
dirija
com cuidado.”
eu
notei
um pouco de suor
em sua
testa
e a
mão
que segurava
o
bilhete
parecia
estar
tremendo
ou
será que
eu
estava apenas
imaginando?
de todo modo
eu
olhei o guarda
se afastar
na direção
de sua
moto
então
pisei
no acelerador...
quando confrontado
com
policiais
zelosos
ou
mulheres
rancorosas
eu
nada tenho
para
dizer
a eles
pois
se eu
realmente
abrisse a boca
a história
terminaria
com
a morte
de alguém:
a deles ou
a minha
portanto
eu
permito que
desfrutem
de suas
pequenas
vitórias
das quais
eles precisam
bem
mais
do
que
eu.
o guarda me fez
parar
eu
entreguei a ele minha
habilitação.
ele
voltou
para transmitir
a marca
e o modelo
do meu carro
e
ver se estava tudo limpo com
as minhas placas.
ele preencheu
a multa
se
aproximou
me entregou
o bilhete
para
assinar.
eu assinei
ele me
devolveu
a
habilitação.
“como pode
que o senhor
não
diz
nada?”,
ele perguntou.
eu dei
de
ombros.
“bem, senhor”,
ele
disse, “tenha
um
bom dia
e
dirija
com cuidado.”
eu
notei
um pouco de suor
em sua
testa
e a
mão
que segurava
o
bilhete
parecia
estar
tremendo
ou
será que
eu
estava apenas
imaginando?
de todo modo
eu
olhei o guarda
se afastar
na direção
de sua
moto
então
pisei
no acelerador...
quando confrontado
com
policiais
zelosos
ou
mulheres
rancorosas
eu
nada tenho
para
dizer
a eles
pois
se eu
realmente
abrisse a boca
a história
terminaria
com
a morte
de alguém:
a deles ou
a minha
portanto
eu
permito que
desfrutem
de suas
pequenas
vitórias
das quais
eles precisam
bem
mais
do
que
eu.
1 085
Charles Bukowski
Todo Mundo Fala Demais
quando
o guarda me fez
parar
eu
entreguei a ele minha
habilitação.
ele
voltou
para transmitir
a marca
e o modelo
do meu carro
e
ver se estava tudo limpo com
as minhas placas.
ele preencheu
a multa
se
aproximou
me entregou
o bilhete
para
assinar.
eu assinei
ele me
devolveu
a
habilitação.
“como pode
que o senhor
não
diz
nada?”,
ele perguntou.
eu dei
de
ombros.
“bem, senhor”,
ele
disse, “tenha
um
bom dia
e
dirija
com cuidado.”
eu
notei
um pouco de suor
em sua
testa
e a
mão
que segurava
o
bilhete
parecia
estar
tremendo
ou
será que
eu
estava apenas
imaginando?
de todo modo
eu
olhei o guarda
se afastar
na direção
de sua
moto
então
pisei
no acelerador...
quando confrontado
com
policiais
zelosos
ou
mulheres
rancorosas
eu
nada tenho
para
dizer
a eles
pois
se eu
realmente
abrisse a boca
a história
terminaria
com
a morte
de alguém:
a deles ou
a minha
portanto
eu
permito que
desfrutem
de suas
pequenas
vitórias
das quais
eles precisam
bem
mais
do
que
eu.
o guarda me fez
parar
eu
entreguei a ele minha
habilitação.
ele
voltou
para transmitir
a marca
e o modelo
do meu carro
e
ver se estava tudo limpo com
as minhas placas.
ele preencheu
a multa
se
aproximou
me entregou
o bilhete
para
assinar.
eu assinei
ele me
devolveu
a
habilitação.
“como pode
que o senhor
não
diz
nada?”,
ele perguntou.
eu dei
de
ombros.
“bem, senhor”,
ele
disse, “tenha
um
bom dia
e
dirija
com cuidado.”
eu
notei
um pouco de suor
em sua
testa
e a
mão
que segurava
o
bilhete
parecia
estar
tremendo
ou
será que
eu
estava apenas
imaginando?
de todo modo
eu
olhei o guarda
se afastar
na direção
de sua
moto
então
pisei
no acelerador...
quando confrontado
com
policiais
zelosos
ou
mulheres
rancorosas
eu
nada tenho
para
dizer
a eles
pois
se eu
realmente
abrisse a boca
a história
terminaria
com
a morte
de alguém:
a deles ou
a minha
portanto
eu
permito que
desfrutem
de suas
pequenas
vitórias
das quais
eles precisam
bem
mais
do
que
eu.
1 085
Charles Bukowski
Sem Bobagem
Faulkner adorava seu uísque
e com o uísque mais a
escrita
ele não tinha
tempo
para grande coisa além
disso.
ele não abria
a maioria de suas
cartas
só as levantava
contra a luz
e se não houvesse
dentro um
cheque
ele as jogava no
lixo.
e com o uísque mais a
escrita
ele não tinha
tempo
para grande coisa além
disso.
ele não abria
a maioria de suas
cartas
só as levantava
contra a luz
e se não houvesse
dentro um
cheque
ele as jogava no
lixo.
1 124
Charles Bukowski
A Noite Deles
nunca consegui ler Suave é a
noite
mas fizeram uma
adaptação televisiva do
livro
e ela está passando
faz várias
noites
e tenho dedicado
dez minutos
aqui e ali
acompanhando as tribulações
dos ricos
enquanto eles se recostam
em suas cadeiras de praia
em Nice
ou passeiam por seus
amplos aposentos
bebida na mão enquanto
fazem
declarações
filosóficas
ou
dando vexame
no
jantar social
ou no
jantar dançante
eles realmente não fazem a menor
ideia
do que fazer consigo
mesmos:
nadar?
tênis?
subir de carro
o litoral?
descer
o litoral?
achar
camas novas?
se desfazer das
velhas?
ou
foder com as
artes e os
artistas?
não tendo nada para
enfrentar
eles não têm nada para
defender.
os ricos são diferentes
são mesmo
assim como o lêmure-
da-cauda-
anelada e a
pulga-
do-mar.
noite
mas fizeram uma
adaptação televisiva do
livro
e ela está passando
faz várias
noites
e tenho dedicado
dez minutos
aqui e ali
acompanhando as tribulações
dos ricos
enquanto eles se recostam
em suas cadeiras de praia
em Nice
ou passeiam por seus
amplos aposentos
bebida na mão enquanto
fazem
declarações
filosóficas
ou
dando vexame
no
jantar social
ou no
jantar dançante
eles realmente não fazem a menor
ideia
do que fazer consigo
mesmos:
nadar?
tênis?
subir de carro
o litoral?
descer
o litoral?
achar
camas novas?
se desfazer das
velhas?
ou
foder com as
artes e os
artistas?
não tendo nada para
enfrentar
eles não têm nada para
defender.
os ricos são diferentes
são mesmo
assim como o lêmure-
da-cauda-
anelada e a
pulga-
do-mar.
1 143
Charles Bukowski
A Noite Deles
nunca consegui ler Suave é a
noite
mas fizeram uma
adaptação televisiva do
livro
e ela está passando
faz várias
noites
e tenho dedicado
dez minutos
aqui e ali
acompanhando as tribulações
dos ricos
enquanto eles se recostam
em suas cadeiras de praia
em Nice
ou passeiam por seus
amplos aposentos
bebida na mão enquanto
fazem
declarações
filosóficas
ou
dando vexame
no
jantar social
ou no
jantar dançante
eles realmente não fazem a menor
ideia
do que fazer consigo
mesmos:
nadar?
tênis?
subir de carro
o litoral?
descer
o litoral?
achar
camas novas?
se desfazer das
velhas?
ou
foder com as
artes e os
artistas?
não tendo nada para
enfrentar
eles não têm nada para
defender.
os ricos são diferentes
são mesmo
assim como o lêmure-
da-cauda-
anelada e a
pulga-
do-mar.
noite
mas fizeram uma
adaptação televisiva do
livro
e ela está passando
faz várias
noites
e tenho dedicado
dez minutos
aqui e ali
acompanhando as tribulações
dos ricos
enquanto eles se recostam
em suas cadeiras de praia
em Nice
ou passeiam por seus
amplos aposentos
bebida na mão enquanto
fazem
declarações
filosóficas
ou
dando vexame
no
jantar social
ou no
jantar dançante
eles realmente não fazem a menor
ideia
do que fazer consigo
mesmos:
nadar?
tênis?
subir de carro
o litoral?
descer
o litoral?
achar
camas novas?
se desfazer das
velhas?
ou
foder com as
artes e os
artistas?
não tendo nada para
enfrentar
eles não têm nada para
defender.
os ricos são diferentes
são mesmo
assim como o lêmure-
da-cauda-
anelada e a
pulga-
do-mar.
1 143
Charles Bukowski
Tempos Difíceis
quando desci do meu carro no cais
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
1 328
Charles Bukowski
Tempos Difíceis
quando desci do meu carro no cais
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
1 328
Charles Bukowski
A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir
eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
1 204
Charles Bukowski
A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir
eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
1 204
Charles Bukowski
Um Cara Engraçado
Schopenhauer não suportava as massas,
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
1 174
Charles Bukowski
Um Cara Engraçado
Schopenhauer não suportava as massas,
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
1 174
Charles Bukowski
Achei o Gosto do Troço Pior do Que de Costume
eu costumava beber com Jane
toda noite
até duas ou
três
da manhã
e eu precisava
me apresentar no
trabalho
às 5:30
da manhã
certa manhã
eu estava sentado
encaixotando correspondência
perto de um
sujeito
saudável e
religioso
e ele disse
“ei, tô sentindo
um cheiro, você
não?”
eu respondi
negativamente.
“na verdade”, ele disse,
“o cheiro é meio parecido
com
gasolina.”
“bem”, eu disse a
ele, “não acenda um
fósforo porque
eu posso
explodir.”
toda noite
até duas ou
três
da manhã
e eu precisava
me apresentar no
trabalho
às 5:30
da manhã
certa manhã
eu estava sentado
encaixotando correspondência
perto de um
sujeito
saudável e
religioso
e ele disse
“ei, tô sentindo
um cheiro, você
não?”
eu respondi
negativamente.
“na verdade”, ele disse,
“o cheiro é meio parecido
com
gasolina.”
“bem”, eu disse a
ele, “não acenda um
fósforo porque
eu posso
explodir.”
1 202
Charles Bukowski
Achei o Gosto do Troço Pior do Que de Costume
eu costumava beber com Jane
toda noite
até duas ou
três
da manhã
e eu precisava
me apresentar no
trabalho
às 5:30
da manhã
certa manhã
eu estava sentado
encaixotando correspondência
perto de um
sujeito
saudável e
religioso
e ele disse
“ei, tô sentindo
um cheiro, você
não?”
eu respondi
negativamente.
“na verdade”, ele disse,
“o cheiro é meio parecido
com
gasolina.”
“bem”, eu disse a
ele, “não acenda um
fósforo porque
eu posso
explodir.”
toda noite
até duas ou
três
da manhã
e eu precisava
me apresentar no
trabalho
às 5:30
da manhã
certa manhã
eu estava sentado
encaixotando correspondência
perto de um
sujeito
saudável e
religioso
e ele disse
“ei, tô sentindo
um cheiro, você
não?”
eu respondi
negativamente.
“na verdade”, ele disse,
“o cheiro é meio parecido
com
gasolina.”
“bem”, eu disse a
ele, “não acenda um
fósforo porque
eu posso
explodir.”
1 202
Charles Bukowski
O Grande Plano
passando fome num inverno da Filadélfia
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
1 262
Charles Bukowski
Algumas Sugestões
além da inveja e do rancor de alguns dos
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
1 092
Charles Bukowski
Não Registrado
meu cavalo era o cinza
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
1 207
Charles Bukowski
Não Registrado
meu cavalo era o cinza
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
1 207
Charles Bukowski
Não Registrado
meu cavalo era o cinza
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
1 207
Charles Bukowski
Implacável Como a Tarântula
não vão deixar você
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
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