Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
$$$$$$
sempre tive problemas com
dinheiro.
num dos lugares em que trabalhei
todos comiam cachorro-quente
e batatas fritas
na cantina da empresa
3 dias antes de cada
pagamento.
eu queria uns bifes,
cheguei inclusive a procurar o gerente
da cantina e
exigir que ele servisse
uns bifes. ele se recusou.
Eu esqueci do dia do pagamento.
eu tinha um alto grau de indiferença e
o dia do pagamento chegava e todos
não falavam em outra
coisa.
“pagamento?” eu dizia, “diabo, hoje é dia de
receber? me esqueci de pegar meu
último cheque...”
“pare de falar merda, cara...”
“não, não, é sério...”
eu me erguia e ia até o caixa
e claro que o cheque estava lá
e na volta eu o mostrava
a todos eles. “Jesus Cristo, esqueci completamente
do negócio...”
por alguma razão isso os deixava
furiosos. então o funcionário do caixa
aparecia. eu tinha dois
cheques. “Jesus”, eu dizia, “dois cheques”.
e eles ficavam
furiosos.
alguns deles mantinham
dois empregos.
No pior dos dias
chovia pesadamente
eu não tinha uma capa de chuva então
vesti um velho casaco que eu não usava havia
meses e
cheguei um pouco atrasado
quando eles já estavam no batente.
procurei por cigarros nos bolsos
e num deles encontrei uma nota de
cinco dólares:
“ei, vejam”, eu disse, “acabo de encontrar cinco pratas
que eu não sabia que tinha, que
beleza”.
“ei, cara, não venha com essa
merda!”
“não, não, estou falando sério, de verdade, lembro
de ter vestido este casaco quando
estava bêbado e vagando de bar
em bar. já me tomaram dinheiro muitas vezes,
fiquei desconfiado... tiro o dinheiro da
minha carteira e o escondo em
outras partes.”
“sente de uma vez e comece a
trabalhar.”
meti a mão num bolso interno:
“ei, vejam, tem um VINTÃO aqui! Deus, não sabia
que tinha este VINTÃO!
estou
RICO!”
“ninguém está achando graça, seu
filho da puta...”
“ei, meu Deus, aqui tem mais OUTRA
de vinte! é muita, muita muita
grana... eu sabia que não tinha gasto todo o
dinheiro naquela noite. pensei que tinham me
levado os cobres outra vez...”
continuei vasculhando o
casaco. “ei, aqui tem uma de dez e
aqui mais um cinquinho! meu Deus...”
“escute, já disse pra você sentar
e calar a boca...”
“meu Deus, estou RICO... não preciso nem mais
deste emprego...”
“cara, senta aí...”
achei mais outra de dez depois que me sentei
mas não disse
nada.
podia sentir as ondas de ódio e
estava confuso,
eles achavam que eu tinha
armado toda aquela história
apenas para fazê-los se
sentirem mal. não era o que eu
queria. pessoas que tem que passar a cachorros-quentes e
batatas fritas por
3 dias antes de sair o pagamento
já se sentem mal o
suficiente.
sentei-me
inclinei-me para a frente e
comecei a
trabalhar.
do lado de fora
continuava
chovendo.
dinheiro.
num dos lugares em que trabalhei
todos comiam cachorro-quente
e batatas fritas
na cantina da empresa
3 dias antes de cada
pagamento.
eu queria uns bifes,
cheguei inclusive a procurar o gerente
da cantina e
exigir que ele servisse
uns bifes. ele se recusou.
Eu esqueci do dia do pagamento.
eu tinha um alto grau de indiferença e
o dia do pagamento chegava e todos
não falavam em outra
coisa.
“pagamento?” eu dizia, “diabo, hoje é dia de
receber? me esqueci de pegar meu
último cheque...”
“pare de falar merda, cara...”
“não, não, é sério...”
eu me erguia e ia até o caixa
e claro que o cheque estava lá
e na volta eu o mostrava
a todos eles. “Jesus Cristo, esqueci completamente
do negócio...”
por alguma razão isso os deixava
furiosos. então o funcionário do caixa
aparecia. eu tinha dois
cheques. “Jesus”, eu dizia, “dois cheques”.
e eles ficavam
furiosos.
alguns deles mantinham
dois empregos.
No pior dos dias
chovia pesadamente
eu não tinha uma capa de chuva então
vesti um velho casaco que eu não usava havia
meses e
cheguei um pouco atrasado
quando eles já estavam no batente.
procurei por cigarros nos bolsos
e num deles encontrei uma nota de
cinco dólares:
“ei, vejam”, eu disse, “acabo de encontrar cinco pratas
que eu não sabia que tinha, que
beleza”.
“ei, cara, não venha com essa
merda!”
“não, não, estou falando sério, de verdade, lembro
de ter vestido este casaco quando
estava bêbado e vagando de bar
em bar. já me tomaram dinheiro muitas vezes,
fiquei desconfiado... tiro o dinheiro da
minha carteira e o escondo em
outras partes.”
“sente de uma vez e comece a
trabalhar.”
meti a mão num bolso interno:
“ei, vejam, tem um VINTÃO aqui! Deus, não sabia
que tinha este VINTÃO!
estou
RICO!”
“ninguém está achando graça, seu
filho da puta...”
“ei, meu Deus, aqui tem mais OUTRA
de vinte! é muita, muita muita
grana... eu sabia que não tinha gasto todo o
dinheiro naquela noite. pensei que tinham me
levado os cobres outra vez...”
continuei vasculhando o
casaco. “ei, aqui tem uma de dez e
aqui mais um cinquinho! meu Deus...”
“escute, já disse pra você sentar
e calar a boca...”
“meu Deus, estou RICO... não preciso nem mais
deste emprego...”
“cara, senta aí...”
achei mais outra de dez depois que me sentei
mas não disse
nada.
podia sentir as ondas de ódio e
estava confuso,
eles achavam que eu tinha
armado toda aquela história
apenas para fazê-los se
sentirem mal. não era o que eu
queria. pessoas que tem que passar a cachorros-quentes e
batatas fritas por
3 dias antes de sair o pagamento
já se sentem mal o
suficiente.
sentei-me
inclinei-me para a frente e
comecei a
trabalhar.
do lado de fora
continuava
chovendo.
660
Charles Bukowski
Um Poema de 56 Anos
segui com duas damas
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.
as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.
era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.
ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.
a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.
mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades
tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.
as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.
era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.
ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.
a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.
mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades
tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
1 145
Charles Bukowski
Um Poema de 56 Anos
segui com duas damas
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.
as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.
era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.
ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.
a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.
mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades
tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.
as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.
era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.
ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.
a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.
mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades
tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
1 145
Charles Bukowski
Um Poema de 56 Anos
segui com duas damas
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.
as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.
era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.
ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.
a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.
mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades
tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.
as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.
era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.
ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.
a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.
mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades
tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
1 145
Charles Bukowski
Certo Piquenique
que me lembra que
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava
meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto
certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata
por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade
todos riam
eu não.
mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.
seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?
percebi o quê?
eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.
oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.
à nossa bela criança,
ela disse.
viramos os copos.
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava
meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto
certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata
por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade
todos riam
eu não.
mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.
seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?
percebi o quê?
eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.
oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.
à nossa bela criança,
ela disse.
viramos os copos.
1 182
Charles Bukowski
Um Poema Para o Engraxate
o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou se trate do velho lutador Beau Jack[7]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou se trate do velho lutador Beau Jack[7]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
1 245
Charles Bukowski
Um Poema Para o Engraxate
o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou se trate do velho lutador Beau Jack[7]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou se trate do velho lutador Beau Jack[7]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
1 245
Charles Bukowski
Chuva Ou Sol
os abutres no zoo
(todos os 3)
sentam-se bastante tranquilos em sua
árvore enjaulada
e abaixo
no chão
há postas de carne podre.
os abutres estão empanturrados
nossos impostos os têm mantido
bem alimentados.
seguimos para a próxima
jaula.
um homem está ali
sentado no chão
comendo
a própria merda.
reconheço a figura
de nosso antigo carteiro.
sua expressão favorita
sempre fora:
“tenha um ótimo dia”.
naquele dia, foi o que me aconteceu.
(todos os 3)
sentam-se bastante tranquilos em sua
árvore enjaulada
e abaixo
no chão
há postas de carne podre.
os abutres estão empanturrados
nossos impostos os têm mantido
bem alimentados.
seguimos para a próxima
jaula.
um homem está ali
sentado no chão
comendo
a própria merda.
reconheço a figura
de nosso antigo carteiro.
sua expressão favorita
sempre fora:
“tenha um ótimo dia”.
naquele dia, foi o que me aconteceu.
1 080
Charles Bukowski
Chuva Ou Sol
os abutres no zoo
(todos os 3)
sentam-se bastante tranquilos em sua
árvore enjaulada
e abaixo
no chão
há postas de carne podre.
os abutres estão empanturrados
nossos impostos os têm mantido
bem alimentados.
seguimos para a próxima
jaula.
um homem está ali
sentado no chão
comendo
a própria merda.
reconheço a figura
de nosso antigo carteiro.
sua expressão favorita
sempre fora:
“tenha um ótimo dia”.
naquele dia, foi o que me aconteceu.
(todos os 3)
sentam-se bastante tranquilos em sua
árvore enjaulada
e abaixo
no chão
há postas de carne podre.
os abutres estão empanturrados
nossos impostos os têm mantido
bem alimentados.
seguimos para a próxima
jaula.
um homem está ali
sentado no chão
comendo
a própria merda.
reconheço a figura
de nosso antigo carteiro.
sua expressão favorita
sempre fora:
“tenha um ótimo dia”.
naquele dia, foi o que me aconteceu.
1 080
Charles Bukowski
O Dia Em Que Choveu No Museu do Condado de Los Angeles
o judeu se curvou e
morreu. 99 metralhadoras
foram embarcadas para a França. alguém ganhou o 3o páreo
enquanto eu inspecionava
a hélice de um antigo monoplano
um homem se aproximou com uma faixa sobre o olho. começou a
chover. choveu e choveu e as ambulâncias seguiam
juntas
pelas ruas, e ainda que
tudo fosse apropriadamente monótono
curti o momento
como a temporada em Nova Orleans
vivendo de barras de chocolate
e observando os pombos
em uma ruela com nome francês
enquanto às minhas costas o rio se tornava
um golfo
e as nuvens se moviam enfermas por
um céu já morto
por volta da época em que César fora apunhalado,
e prometi a mim mesmo que
algum dia eu lembraria daquilo
tal qual aconteceu.
um homem se aproximou e tossiu.
será que para de chover? ele disse.
não respondi. toquei a
velha hélice e escutei as
formigas no teto dispararem apressadas
em direção ao fim do mundo. saia daqui, eu disse,
saia daqui ou chamarei
o guarda.
morreu. 99 metralhadoras
foram embarcadas para a França. alguém ganhou o 3o páreo
enquanto eu inspecionava
a hélice de um antigo monoplano
um homem se aproximou com uma faixa sobre o olho. começou a
chover. choveu e choveu e as ambulâncias seguiam
juntas
pelas ruas, e ainda que
tudo fosse apropriadamente monótono
curti o momento
como a temporada em Nova Orleans
vivendo de barras de chocolate
e observando os pombos
em uma ruela com nome francês
enquanto às minhas costas o rio se tornava
um golfo
e as nuvens se moviam enfermas por
um céu já morto
por volta da época em que César fora apunhalado,
e prometi a mim mesmo que
algum dia eu lembraria daquilo
tal qual aconteceu.
um homem se aproximou e tossiu.
será que para de chover? ele disse.
não respondi. toquei a
velha hélice e escutei as
formigas no teto dispararem apressadas
em direção ao fim do mundo. saia daqui, eu disse,
saia daqui ou chamarei
o guarda.
1 059
Charles Bukowski
A Vida de Borodin
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que ele era apenas um químico
que escrevia música para relaxar;
sua casa vivia cheia de pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vadios,
e ele nunca soube como dizer: não.
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que sua esposa usou suas composições
para forrar a caixa de areia do gato
ou para embrulhar as garrafas de leite azedo;
ela sofria de asma e insônia
e o alimentava com ovos moles
e quando ele queria cobrir a cabeça
para se afastar dos sons da casa
ela permitia que ele usasse apenas o lençol;
além disso, geralmente havia alguém
na cama dele
(os dois dormiam em camas separadas quando
dormiam)
e como todas as cadeiras
normalmente estavam ocupadas
costumava dormir nos degraus
envolto em um velho xale;
ela lhe dizia quando cortar as unhas,
para não cantar ou assobiar
nem colocar muito limão no chá
nem espremê-lo com uma colher;
Sinfonia no 2 em Si Menor
Príncipe Igor
Nas estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano negro sobre os olhos;
em 1887 ele compareceu a um baile
na Academia de Medicina
vestido com um festivo traje nacional;
parecia, ao fim, excepcionalmente animado
e quando ele se foi ao chão,
pensaram que ele estava fazendo alguma palhaçada.
na próxima vez em que você ouvir Borodin,
lembre-se disso...
lembre-se de que ele era apenas um químico
que escrevia música para relaxar;
sua casa vivia cheia de pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vadios,
e ele nunca soube como dizer: não.
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que sua esposa usou suas composições
para forrar a caixa de areia do gato
ou para embrulhar as garrafas de leite azedo;
ela sofria de asma e insônia
e o alimentava com ovos moles
e quando ele queria cobrir a cabeça
para se afastar dos sons da casa
ela permitia que ele usasse apenas o lençol;
além disso, geralmente havia alguém
na cama dele
(os dois dormiam em camas separadas quando
dormiam)
e como todas as cadeiras
normalmente estavam ocupadas
costumava dormir nos degraus
envolto em um velho xale;
ela lhe dizia quando cortar as unhas,
para não cantar ou assobiar
nem colocar muito limão no chá
nem espremê-lo com uma colher;
Sinfonia no 2 em Si Menor
Príncipe Igor
Nas estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano negro sobre os olhos;
em 1887 ele compareceu a um baile
na Academia de Medicina
vestido com um festivo traje nacional;
parecia, ao fim, excepcionalmente animado
e quando ele se foi ao chão,
pensaram que ele estava fazendo alguma palhaçada.
na próxima vez em que você ouvir Borodin,
lembre-se disso...
1 096
Charles Bukowski
Uma Mudança de Hábito
Shirley chegou à cidade com uma perna quebrada
e conheceu o chicano que fumava
longos charutos slim
e eles foram morar juntos
na Beacon Street
5º andar;
a perna não atrapalhava
muito e
eles assistiam televisão juntos
e Shirley cozinhava, de
muletas e tudo;
havia um gato, Bogey,
e eles tinham alguns amigos
e falavam sobre esportes e Richard Nixon
e de como era difícil tocar
as coisas.
funcionou por alguns meses,
Shirley se livrou até do gesso,
e o chicano, Manuel,
conseguiu um emprego no Biltmore,
Shirley costurava todos os botões caídos
das camisas de Manuel, remendava e emparelhava as meias
dele, então
um dia Manuel retornou para casa, e
ela havia sumido –
sem discussão, sem bilhete, apenas
sumira, levando todas as roupas
e pertences, e
Manuel sentou-se junto à janela e olhou para a rua
e não foi ao trabalho
na manhã seguinte nem
na outra e nem
na outra,
sequer ligou para avisar,
perdeu o emprego,
recebeu uma multa por estacionamento proibido, fumou
quatrocentos e sessenta cigarros, foi
preso por embriaguez, saiu por
fiança, foi
a julgamento e se confessou
culpado.
quando o aluguel venceu ele
se mudou da Beacon Street,
deixou o gato e foi viver com
seu irmão e
os dois enchiam a cara
todas as noites
e falavam sobre o quão
terrível
era a vida.
Manuel jamais voltou a fumar
aqueles longos charutos slim
porque Shirley sempre dizia
como
ele ficava bonito
com eles na boca.
e conheceu o chicano que fumava
longos charutos slim
e eles foram morar juntos
na Beacon Street
5º andar;
a perna não atrapalhava
muito e
eles assistiam televisão juntos
e Shirley cozinhava, de
muletas e tudo;
havia um gato, Bogey,
e eles tinham alguns amigos
e falavam sobre esportes e Richard Nixon
e de como era difícil tocar
as coisas.
funcionou por alguns meses,
Shirley se livrou até do gesso,
e o chicano, Manuel,
conseguiu um emprego no Biltmore,
Shirley costurava todos os botões caídos
das camisas de Manuel, remendava e emparelhava as meias
dele, então
um dia Manuel retornou para casa, e
ela havia sumido –
sem discussão, sem bilhete, apenas
sumira, levando todas as roupas
e pertences, e
Manuel sentou-se junto à janela e olhou para a rua
e não foi ao trabalho
na manhã seguinte nem
na outra e nem
na outra,
sequer ligou para avisar,
perdeu o emprego,
recebeu uma multa por estacionamento proibido, fumou
quatrocentos e sessenta cigarros, foi
preso por embriaguez, saiu por
fiança, foi
a julgamento e se confessou
culpado.
quando o aluguel venceu ele
se mudou da Beacon Street,
deixou o gato e foi viver com
seu irmão e
os dois enchiam a cara
todas as noites
e falavam sobre o quão
terrível
era a vida.
Manuel jamais voltou a fumar
aqueles longos charutos slim
porque Shirley sempre dizia
como
ele ficava bonito
com eles na boca.
842
Charles Bukowski
A Boa Vida
uma casa com 7 ou 8 pessoas
vivendo ali
rachando o aluguel.
há um estéreo nunca utilizado
e um par de bongôs
nunca utilizado
e há panos cobrindo as
janelas
e você fuma
enquanto baratas vivas
escorregam sobre os botões de sua
camisa e despencam no
chão.
está escuro e alguém vai em
busca de comida. você come
e dorme. todos dormem ao mesmo
tempo: no chão, sobre as mesas,
sofás, camas, nas banheiras. há até
mesmo uma pessoa lá fora no mato.
então alguém acorda e
diz, “vamos lá, vamos fechar
um!”
alguns outros acordam.
“opa. é isso aí.”
“beleza. vamos lá, alguém aí
fecha dois. vamos nos
chapar!”
“isso. vamos nos chapar!”
fumamos alguns baseados e depois
voltamos a dormir
trocando apenas de lugar
da banheira para o sofá, da mesa para
o tapete, da cama para o chão, e um novo
sujeito desaba no mato
lá fora, e eles ainda não
encontraram Patty Hearst e Tim não quer
falar com
Allan.
vivendo ali
rachando o aluguel.
há um estéreo nunca utilizado
e um par de bongôs
nunca utilizado
e há panos cobrindo as
janelas
e você fuma
enquanto baratas vivas
escorregam sobre os botões de sua
camisa e despencam no
chão.
está escuro e alguém vai em
busca de comida. você come
e dorme. todos dormem ao mesmo
tempo: no chão, sobre as mesas,
sofás, camas, nas banheiras. há até
mesmo uma pessoa lá fora no mato.
então alguém acorda e
diz, “vamos lá, vamos fechar
um!”
alguns outros acordam.
“opa. é isso aí.”
“beleza. vamos lá, alguém aí
fecha dois. vamos nos
chapar!”
“isso. vamos nos chapar!”
fumamos alguns baseados e depois
voltamos a dormir
trocando apenas de lugar
da banheira para o sofá, da mesa para
o tapete, da cama para o chão, e um novo
sujeito desaba no mato
lá fora, e eles ainda não
encontraram Patty Hearst e Tim não quer
falar com
Allan.
1 266
Charles Bukowski
Hora da Cagada
meio bêbado
deixei a casa dela
suas cobertas quentes
e eu estava de ressaca
não sabia sequer que cidade era
aquela.
saí caminhando sem conseguir
achar meu carro.
mas eu sabia que ele tinha que estar em algum lugar.
e logo eu também estava
perdido.
caminhei a esmo. era a
manhã de uma quarta-feira e eu podia
ver o oceano ao sul.
mas toda aquela bebida:
a merda estava prestes a escorrer
para fora de mim.
segui em direção ao
mar.
avistei uma estrutura de tijolos
marrons nos limites
da rebentação.
entrei. havia um
velho gemendo em um
dos reservados.
“olá, meu chapa”, ele disse.
“olá”, eu disse.
“está um inferno lá fora,
não?”, o velho
perguntou.
“sim”, respondi.
“precisa de um trago?”
“nunca bebo antes do meio-dia.”
“que horas você tem aí?”
“11h58”
“temos dois minutos.”
me limpei, dei a descarga, subi minhas
calças e me afastei.
o velho continuava no seu reservado,
gemendo.
apontou para uma garrafa de vinho
junto a seus pés
quase vazia
e eu a apanhei e tomei cerca de metade
do que ainda restava.
estiquei para ele uma nota de dólar, velha e
amassada
então segui para o lado de fora e vomitei
num gramado.
olhei para o oceano e o
oceano parecia bom, cheio de azuis e
verdes e tubarões.
saí dali e refiz o caminho
até a rua
determinado a encontrar meu automóvel.
custou-me uma hora e quinze minutos
e quando finalmente consegui encontrá-lo
entrei e dei a partida
fingindo saber tanto quanto
o homem
ao lado.
deixei a casa dela
suas cobertas quentes
e eu estava de ressaca
não sabia sequer que cidade era
aquela.
saí caminhando sem conseguir
achar meu carro.
mas eu sabia que ele tinha que estar em algum lugar.
e logo eu também estava
perdido.
caminhei a esmo. era a
manhã de uma quarta-feira e eu podia
ver o oceano ao sul.
mas toda aquela bebida:
a merda estava prestes a escorrer
para fora de mim.
segui em direção ao
mar.
avistei uma estrutura de tijolos
marrons nos limites
da rebentação.
entrei. havia um
velho gemendo em um
dos reservados.
“olá, meu chapa”, ele disse.
“olá”, eu disse.
“está um inferno lá fora,
não?”, o velho
perguntou.
“sim”, respondi.
“precisa de um trago?”
“nunca bebo antes do meio-dia.”
“que horas você tem aí?”
“11h58”
“temos dois minutos.”
me limpei, dei a descarga, subi minhas
calças e me afastei.
o velho continuava no seu reservado,
gemendo.
apontou para uma garrafa de vinho
junto a seus pés
quase vazia
e eu a apanhei e tomei cerca de metade
do que ainda restava.
estiquei para ele uma nota de dólar, velha e
amassada
então segui para o lado de fora e vomitei
num gramado.
olhei para o oceano e o
oceano parecia bom, cheio de azuis e
verdes e tubarões.
saí dali e refiz o caminho
até a rua
determinado a encontrar meu automóvel.
custou-me uma hora e quinze minutos
e quando finalmente consegui encontrá-lo
entrei e dei a partida
fingindo saber tanto quanto
o homem
ao lado.
1 168
Charles Bukowski
As Garotas do Hotel Verde
são mais bonitas
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
1 142
Charles Bukowski
As Garotas do Hotel Verde
são mais bonitas
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
1 142
Charles Bukowski
Ameixas Geladas
comendo ameixas geladas na cama
ela me contou sobre o alemão
que era dono de toda quadra
exceto da loja de tecidos
e de como ele tentou comprar
a loja de tecidos
mas as garotas disseram, não.
o alemão tinha a melhor mercearia em
Pasadena, suas carnes eram caras
mas valiam o preço
e suas frutas e verduras eram
muito baratas e
ele também vendia flores. as pessoas vinham
de toda Pasadena para ir à sua
loja
mas ele queria comprar a loja de tecidos
e as garotas seguiam dizendo, não.
certa noite alguém foi visto saindo
a correr pela porta dos fundos da loja de tecidos
e então o fogo se ergueu
e quase tudo foi destruído –
elas fizeram um tremendo inventário
tentaram salvar tudo o que tinha sobrado
fizeram uma liquidação de incêndio
mas não funcionou
elas tiveram que vender, por fim,
e então o alemão comprou a loja de tecido
mas a deixou lá, vazia,
a esposa do alemão tentou reerguer o negócio
tentou vender pequenas cestas e outras quinquilharias
mas não funcionou.
terminamos as ameixas.
“é uma história triste”, eu lhe disse.
então ela se inclinou e começou a me chupar.
as janelas estavam abertas e meus gritos
podiam ser ouvidos por toda vizinhança
às 5h20 de um fim de tarde.
ela me contou sobre o alemão
que era dono de toda quadra
exceto da loja de tecidos
e de como ele tentou comprar
a loja de tecidos
mas as garotas disseram, não.
o alemão tinha a melhor mercearia em
Pasadena, suas carnes eram caras
mas valiam o preço
e suas frutas e verduras eram
muito baratas e
ele também vendia flores. as pessoas vinham
de toda Pasadena para ir à sua
loja
mas ele queria comprar a loja de tecidos
e as garotas seguiam dizendo, não.
certa noite alguém foi visto saindo
a correr pela porta dos fundos da loja de tecidos
e então o fogo se ergueu
e quase tudo foi destruído –
elas fizeram um tremendo inventário
tentaram salvar tudo o que tinha sobrado
fizeram uma liquidação de incêndio
mas não funcionou
elas tiveram que vender, por fim,
e então o alemão comprou a loja de tecido
mas a deixou lá, vazia,
a esposa do alemão tentou reerguer o negócio
tentou vender pequenas cestas e outras quinquilharias
mas não funcionou.
terminamos as ameixas.
“é uma história triste”, eu lhe disse.
então ela se inclinou e começou a me chupar.
as janelas estavam abertas e meus gritos
podiam ser ouvidos por toda vizinhança
às 5h20 de um fim de tarde.
701
Charles Bukowski
Ameixas Geladas
comendo ameixas geladas na cama
ela me contou sobre o alemão
que era dono de toda quadra
exceto da loja de tecidos
e de como ele tentou comprar
a loja de tecidos
mas as garotas disseram, não.
o alemão tinha a melhor mercearia em
Pasadena, suas carnes eram caras
mas valiam o preço
e suas frutas e verduras eram
muito baratas e
ele também vendia flores. as pessoas vinham
de toda Pasadena para ir à sua
loja
mas ele queria comprar a loja de tecidos
e as garotas seguiam dizendo, não.
certa noite alguém foi visto saindo
a correr pela porta dos fundos da loja de tecidos
e então o fogo se ergueu
e quase tudo foi destruído –
elas fizeram um tremendo inventário
tentaram salvar tudo o que tinha sobrado
fizeram uma liquidação de incêndio
mas não funcionou
elas tiveram que vender, por fim,
e então o alemão comprou a loja de tecido
mas a deixou lá, vazia,
a esposa do alemão tentou reerguer o negócio
tentou vender pequenas cestas e outras quinquilharias
mas não funcionou.
terminamos as ameixas.
“é uma história triste”, eu lhe disse.
então ela se inclinou e começou a me chupar.
as janelas estavam abertas e meus gritos
podiam ser ouvidos por toda vizinhança
às 5h20 de um fim de tarde.
ela me contou sobre o alemão
que era dono de toda quadra
exceto da loja de tecidos
e de como ele tentou comprar
a loja de tecidos
mas as garotas disseram, não.
o alemão tinha a melhor mercearia em
Pasadena, suas carnes eram caras
mas valiam o preço
e suas frutas e verduras eram
muito baratas e
ele também vendia flores. as pessoas vinham
de toda Pasadena para ir à sua
loja
mas ele queria comprar a loja de tecidos
e as garotas seguiam dizendo, não.
certa noite alguém foi visto saindo
a correr pela porta dos fundos da loja de tecidos
e então o fogo se ergueu
e quase tudo foi destruído –
elas fizeram um tremendo inventário
tentaram salvar tudo o que tinha sobrado
fizeram uma liquidação de incêndio
mas não funcionou
elas tiveram que vender, por fim,
e então o alemão comprou a loja de tecido
mas a deixou lá, vazia,
a esposa do alemão tentou reerguer o negócio
tentou vender pequenas cestas e outras quinquilharias
mas não funcionou.
terminamos as ameixas.
“é uma história triste”, eu lhe disse.
então ela se inclinou e começou a me chupar.
as janelas estavam abertas e meus gritos
podiam ser ouvidos por toda vizinhança
às 5h20 de um fim de tarde.
701
Charles Bukowski
Ameixas Geladas
comendo ameixas geladas na cama
ela me contou sobre o alemão
que era dono de toda quadra
exceto da loja de tecidos
e de como ele tentou comprar
a loja de tecidos
mas as garotas disseram, não.
o alemão tinha a melhor mercearia em
Pasadena, suas carnes eram caras
mas valiam o preço
e suas frutas e verduras eram
muito baratas e
ele também vendia flores. as pessoas vinham
de toda Pasadena para ir à sua
loja
mas ele queria comprar a loja de tecidos
e as garotas seguiam dizendo, não.
certa noite alguém foi visto saindo
a correr pela porta dos fundos da loja de tecidos
e então o fogo se ergueu
e quase tudo foi destruído –
elas fizeram um tremendo inventário
tentaram salvar tudo o que tinha sobrado
fizeram uma liquidação de incêndio
mas não funcionou
elas tiveram que vender, por fim,
e então o alemão comprou a loja de tecido
mas a deixou lá, vazia,
a esposa do alemão tentou reerguer o negócio
tentou vender pequenas cestas e outras quinquilharias
mas não funcionou.
terminamos as ameixas.
“é uma história triste”, eu lhe disse.
então ela se inclinou e começou a me chupar.
as janelas estavam abertas e meus gritos
podiam ser ouvidos por toda vizinhança
às 5h20 de um fim de tarde.
ela me contou sobre o alemão
que era dono de toda quadra
exceto da loja de tecidos
e de como ele tentou comprar
a loja de tecidos
mas as garotas disseram, não.
o alemão tinha a melhor mercearia em
Pasadena, suas carnes eram caras
mas valiam o preço
e suas frutas e verduras eram
muito baratas e
ele também vendia flores. as pessoas vinham
de toda Pasadena para ir à sua
loja
mas ele queria comprar a loja de tecidos
e as garotas seguiam dizendo, não.
certa noite alguém foi visto saindo
a correr pela porta dos fundos da loja de tecidos
e então o fogo se ergueu
e quase tudo foi destruído –
elas fizeram um tremendo inventário
tentaram salvar tudo o que tinha sobrado
fizeram uma liquidação de incêndio
mas não funcionou
elas tiveram que vender, por fim,
e então o alemão comprou a loja de tecido
mas a deixou lá, vazia,
a esposa do alemão tentou reerguer o negócio
tentou vender pequenas cestas e outras quinquilharias
mas não funcionou.
terminamos as ameixas.
“é uma história triste”, eu lhe disse.
então ela se inclinou e começou a me chupar.
as janelas estavam abertas e meus gritos
podiam ser ouvidos por toda vizinhança
às 5h20 de um fim de tarde.
701
Charles Bukowski
Numa Vizinhança de Assassinos
as baratas cospem
clipes de papel
e o helicóptero descreve círculos e mais círculos
em busca de sangue
luzes de busca deslizando furtivas por nosso
quarto
5 caras nesta área têm pistolas
outro um
facão
somos todos assassinos e
alcoólatras
mas a coisa é ainda pior no hotel
do outro lado da rua
eles ficam sentados na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando para serem institucionalizados
aqui cada um de nós tem um pequeno vaso
na janela
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da manhã
falamos
baixinho
e em cada uma das varandas
há um pequeno prato de comida
sempre esvaziado pela manhã
presumimos
pelos
gatos.
clipes de papel
e o helicóptero descreve círculos e mais círculos
em busca de sangue
luzes de busca deslizando furtivas por nosso
quarto
5 caras nesta área têm pistolas
outro um
facão
somos todos assassinos e
alcoólatras
mas a coisa é ainda pior no hotel
do outro lado da rua
eles ficam sentados na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando para serem institucionalizados
aqui cada um de nós tem um pequeno vaso
na janela
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da manhã
falamos
baixinho
e em cada uma das varandas
há um pequeno prato de comida
sempre esvaziado pela manhã
presumimos
pelos
gatos.
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Charles Bukowski
Numa Vizinhança de Assassinos
as baratas cospem
clipes de papel
e o helicóptero descreve círculos e mais círculos
em busca de sangue
luzes de busca deslizando furtivas por nosso
quarto
5 caras nesta área têm pistolas
outro um
facão
somos todos assassinos e
alcoólatras
mas a coisa é ainda pior no hotel
do outro lado da rua
eles ficam sentados na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando para serem institucionalizados
aqui cada um de nós tem um pequeno vaso
na janela
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da manhã
falamos
baixinho
e em cada uma das varandas
há um pequeno prato de comida
sempre esvaziado pela manhã
presumimos
pelos
gatos.
clipes de papel
e o helicóptero descreve círculos e mais círculos
em busca de sangue
luzes de busca deslizando furtivas por nosso
quarto
5 caras nesta área têm pistolas
outro um
facão
somos todos assassinos e
alcoólatras
mas a coisa é ainda pior no hotel
do outro lado da rua
eles ficam sentados na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando para serem institucionalizados
aqui cada um de nós tem um pequeno vaso
na janela
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da manhã
falamos
baixinho
e em cada uma das varandas
há um pequeno prato de comida
sempre esvaziado pela manhã
presumimos
pelos
gatos.
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Charles Bukowski
Não Toque Nas Garotas
ela está lá em cima vendo meu médico
tentando conseguir umas pílulas para emagrecer;
ela não é gorda, precisa do barato.
sigo até o bar mais próximo e espero.
às 3h20 da tarde de uma terça-feira.
eles têm uma dançarina.
há apenas um outro cara no bar.
ela faz seus passos
olhando-se no espelho.
parece uma macaca
escura
coreana.
ela não é muito boa,
esquelética e previsível
e ela estica sua língua para mim e
depois para o outro cara.
os tempos devem ser bem difíceis, penso.
tomo mais algumas cervejas e me levanto para sair.
ela me acena.
“já vai?”, pergunta.
“sim”, eu digo, “minha esposa tem câncer.”
dou-lhe um aperto de mão.
ela aponta para um cartaz atrás de si:
NÃO TOQUE NAS GAROTAS.
ela aponta para o cartaz e diz,
“o cartaz diz ‘NÃO TOQUE NAS GAROTAS’.”
sigo até o estacionamento e espero.
ela aparece.
“conseguiu as pílulas?” pergunto.
“sim”, ela diz.
“então ganhou o dia.”
penso na dançarina cruzando minha
cozinha. não consigo visualizar. morrerei
sozinho
do mesmo modo que vivo.
“leve-me para casa”, ela diz,
“tenho que me preparar para o curso noturno”.
“claro”, eu digo e a levo embora.
tentando conseguir umas pílulas para emagrecer;
ela não é gorda, precisa do barato.
sigo até o bar mais próximo e espero.
às 3h20 da tarde de uma terça-feira.
eles têm uma dançarina.
há apenas um outro cara no bar.
ela faz seus passos
olhando-se no espelho.
parece uma macaca
escura
coreana.
ela não é muito boa,
esquelética e previsível
e ela estica sua língua para mim e
depois para o outro cara.
os tempos devem ser bem difíceis, penso.
tomo mais algumas cervejas e me levanto para sair.
ela me acena.
“já vai?”, pergunta.
“sim”, eu digo, “minha esposa tem câncer.”
dou-lhe um aperto de mão.
ela aponta para um cartaz atrás de si:
NÃO TOQUE NAS GAROTAS.
ela aponta para o cartaz e diz,
“o cartaz diz ‘NÃO TOQUE NAS GAROTAS’.”
sigo até o estacionamento e espero.
ela aparece.
“conseguiu as pílulas?” pergunto.
“sim”, ela diz.
“então ganhou o dia.”
penso na dançarina cruzando minha
cozinha. não consigo visualizar. morrerei
sozinho
do mesmo modo que vivo.
“leve-me para casa”, ela diz,
“tenho que me preparar para o curso noturno”.
“claro”, eu digo e a levo embora.
850
Charles Bukowski
Boletim do Tempo
suponho que esteja chovendo em alguma cidade espanhola
neste momento
enquanto me sinto mal
deste jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
neste momento
enquanto me sinto mal
deste jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
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Charles Bukowski
Liberdade
ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
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