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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Salve o Píer

você devia ter ido nessa festa,
eu sei que você odeia festas
mas você ia se enturmar.
seja como for, levei minha garota, você conhece
ela –
Java Jane?
sim, essa festa foi no parquinho
onde eles estão tentando derrubar o píer, você
sabe onde fica?
sim, com a pintura vermelha, as janelas
quebradas –
sim, bem, minha garota vive num quarto logo acima do
parquinho. era uma
festa de aniversário da mulher que é dona do
parquinho.
ela está tentando salvar o píer
está tentando salvar o parquinho –
bebida de montão para todo mundo, minha garota vive no
quarto logo acima do
parquinho.
parece ótimo.
liguei. mas você não
estava.
tudo bem.
bem, havia um montão de coisas para beber e eles acionaram o
carrossel, era de graça, música e tudo
mais.
parece ótimo.
minha garota e eu começamos a
brigar, toda aquela bebida –
claro.
evito ficar perto dela
ela evita ficar perto de mim.
ela estava com um copo de vinho na mão.
lanço para ela um daqueles olhares mortíferos,
ela sente o poder
ela recua
a coisa está girando
o casco de um cavalo acerta o rabo dela.
ela cai sobre a base rodopiante.
tudo acontece muito rápido –
mas eu percebo
que durante todo o tempo em que ela está girando
ao som da música debaixo daqueles cavalos
ela segura seu copo de vinho de pé
para não deixar cair nem uma
gota.
bravura.
claro. acontece que o tempo inteiro ela ficou pagando
calcinha. brilhante e cintilante.
rosa.
maravilha. como eles ficam?
eles conspiram.
o rosa cintilante?
sim. então as calcinhas dela estão aparecendo e eu penso
bem, está tudo bem mas é provável que pareça
infinitamente melhor para eles do que para
mim, então eu avancei um passo e disse,
Jane.
o que aconteceu?
ela seguiu girando e segurando sua bebida
mostrando seu traseiro rosa... parecia haver alguma coisa
frágil nisso, deliciosamente inútil...
a pequena glória chega e avança aos gritos afinal...
exatamente. ela seguia girando e girando
as pernas escancaradas –
mareada com a vida –
vingativa –
ela devia ter pensado em mim antes de mostrar
a calcinha para todas aquelas
pessoas. seja como for, ela seguia dando voltas
até que sua perna acertou a perna de um cara –
ele se aproximou para ver melhor.
ele tinha 67 anos e estava com a esposa
e os dois comiam
espaguete em pratos de papelão, enfim,
a perna da minha garota acertou a dele
ela seguiu se equilibrando sobre a bunda
segurando ainda o copo de vinho na posição vertical.
me aproximei e a juntei da base
e ela continuou mantendo o copo
nivelado. então ela o ergueu e
bebeu tudo.
me parece que foi uma
ótima festa.
eu liguei. você não estava
em casa.
teias de aranha de sexo gotejante
e orvalhado como
sonhos de halitose.
exatamente. você deveria estar
lá.
desculpa.
1 191
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eu Achei Que Ia Me Dar Bem

eu tinha acabado de vomitar fora da porta do meu carro
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
1 122
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Charles

92 anos
seu dente tem andado a incomodá-lo
é preciso preenchê-lo
ele perdeu o olho esquerdo 40 anos
atrás
– um açougueiro, ele diz, ele só queria
operar para ganhar grana. mais tarde
descobri que podia ter sido
salvo.
– eu tiro o olho todas as noites, ele diz,
dói. eles nunca fizeram a coisa direito.
– qual dos olhos, Charles?
– este aqui, ele aponta,
então pede licença. ele tem que se levantar e
ir até a
cozinha. ele está assando biscoitos no forno.
logo ele aparece com uma
bandeja.
– experimente alguns.
eu o faço. eles são
bons.
– quer café? ele pergunta.
– não, obrigado, Charles, não tenho conseguido dormir
à noite.
ele se casou aos 70 com uma mulher de
58. 22 anos atrás. agora ela está num lar de idosos.
– ela está melhorando, ele diz, ela me reconhece.
eles a deixam levantar para ir ao banheiro.
– isto é legal, Charles.
– não consigo entender, no entanto, a desgraçada da filha dela, eles acham
que estou atrás de grana.
– há alguma coisa que eu possa fazer por você, Charles? precisa
de alguma coisa da loja, alguma coisa do
gênero?
– não, fiz as compras hoje pela manhã.
suas costas são tão eretas quanto a parede e ele
mal tem
barriga. enquanto conversa
mantém seu único olho na tevê.
– vou indo, Charles, você tem meu número?
– claro.
– como as garotas têm tratado você, Charles?
– meu amigo, faz alguns anos que não tenho pensado
em garotas.
– boa noite, Charles.
– boa noite.
vou até a porta
abro-a
fecho-a
do lado de fora
o cheiro dos biscoitos recém-assados
me acompanha.
1 139
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eu Estava Feliz

eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
1 179
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eu Estava Feliz

eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
1 179
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eu Estava Feliz

eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Mão de Cera

cara, ele disse, sentado nos degraus
seu carro bem precisava de uma lavagem e de uma mão de cera
posso fazer o serviço por 5 pratas,
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo que eu
preciso.
dei-lhe as 5 pratas e subi a escada.
quando desci quatro horas depois
ele estava bêbado e sentado nos degraus
e me ofereceu uma latinha de cerveja.
ele disse que daria um jeito no carro no dia
seguinte.
no dia seguinte ele se embebedou de novo e
emprestei-lhe um dólar para uma garrafa de
vinho. seu nome era Mike
um veterano da segunda guerra mundial.
sua esposa trabalhava como enfermeira.
no dia seguinte eu desci e ele estava sentado
nos degraus e ele disse,
você sabe, estive aqui sentado olhando para o seu carro,
me perguntando como fazer o serviço,
quero fazer uma coisa fina.
no dia seguinte Mike disse que parecia que ia chover
e que não faria nenhum sentido
lavar e encerar o carro num dia de chuva.
no dia seguinte parecia que ia chover novamente.
e no dia seguinte.
então não voltei mais a vê-lo.
uma semana depois vi sua esposa e ela disse,
eles levaram o Mike para o hospital,
ele está todo inchado, eles dizem que é por causa da
bebida.
escute, eu disse, ele tinha ficado de encerar o meu
carro, dei a ele 5 dólares para encerar meu
carro.
ele está na emergência, ela disse,
pode até morrer...
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com sua esposa
quando o telefone tocou.
ela me passou o aparelho.
era Mike. escute, ele disse, venha até aqui e me
pegue. não aguento este
lugar.
guiei até lá, entrei no
hospital, avancei até sua cama e
disse, vamos, Mike.
eles não quiseram lhe dar as roupas
então Mike caminhou até o elevador de
camisolão.
entramos e havia um garoto controlando o
elevador e comendo um picolé.
ninguém pode sair daqui de camisolão,
ele disse.
apenas aperte os botões aí, garoto, eu disse,
a gente cuida do camisolão.
Mike estava todo inchado, três vezes maior
mas dei um jeito de enfiá-lo no carro
e alcancei-lhe um cigarro.
parei numa loja de bebidas para pegar 2 fardos
então seguimos em frente. bebi com Mike e sua mulher até as
11 da noite
então subi o lance de escadas...
onde está Mike? perguntei à mulher dele 3 dias depois,
você sabe que ele ficou de encerar o meu carro.
Mike morreu, ela disse, partiu.
você quer dizer que ele morreu? perguntei.
sim, morreu, ela disse.
sinto muito, eu disse, sinto de verdade
choveu por uma semana depois disso e me dei conta de que o único
jeito de recuperar as 5 pratas era indo para cama com sua mulher
mas você sabe
ela se mudou 2 semanas depois
um velho de cabelo branco se mudou para lá
e ele era cego de um olho e tocava trompa.
não havia nenhum jeito de eu me arranjar com
ele.
1 200
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Mão de Cera

cara, ele disse, sentado nos degraus
seu carro bem precisava de uma lavagem e de uma mão de cera
posso fazer o serviço por 5 pratas,
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo que eu
preciso.
dei-lhe as 5 pratas e subi a escada.
quando desci quatro horas depois
ele estava bêbado e sentado nos degraus
e me ofereceu uma latinha de cerveja.
ele disse que daria um jeito no carro no dia
seguinte.
no dia seguinte ele se embebedou de novo e
emprestei-lhe um dólar para uma garrafa de
vinho. seu nome era Mike
um veterano da segunda guerra mundial.
sua esposa trabalhava como enfermeira.
no dia seguinte eu desci e ele estava sentado
nos degraus e ele disse,
você sabe, estive aqui sentado olhando para o seu carro,
me perguntando como fazer o serviço,
quero fazer uma coisa fina.
no dia seguinte Mike disse que parecia que ia chover
e que não faria nenhum sentido
lavar e encerar o carro num dia de chuva.
no dia seguinte parecia que ia chover novamente.
e no dia seguinte.
então não voltei mais a vê-lo.
uma semana depois vi sua esposa e ela disse,
eles levaram o Mike para o hospital,
ele está todo inchado, eles dizem que é por causa da
bebida.
escute, eu disse, ele tinha ficado de encerar o meu
carro, dei a ele 5 dólares para encerar meu
carro.
ele está na emergência, ela disse,
pode até morrer...
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com sua esposa
quando o telefone tocou.
ela me passou o aparelho.
era Mike. escute, ele disse, venha até aqui e me
pegue. não aguento este
lugar.
guiei até lá, entrei no
hospital, avancei até sua cama e
disse, vamos, Mike.
eles não quiseram lhe dar as roupas
então Mike caminhou até o elevador de
camisolão.
entramos e havia um garoto controlando o
elevador e comendo um picolé.
ninguém pode sair daqui de camisolão,
ele disse.
apenas aperte os botões aí, garoto, eu disse,
a gente cuida do camisolão.
Mike estava todo inchado, três vezes maior
mas dei um jeito de enfiá-lo no carro
e alcancei-lhe um cigarro.
parei numa loja de bebidas para pegar 2 fardos
então seguimos em frente. bebi com Mike e sua mulher até as
11 da noite
então subi o lance de escadas...
onde está Mike? perguntei à mulher dele 3 dias depois,
você sabe que ele ficou de encerar o meu carro.
Mike morreu, ela disse, partiu.
você quer dizer que ele morreu? perguntei.
sim, morreu, ela disse.
sinto muito, eu disse, sinto de verdade
choveu por uma semana depois disso e me dei conta de que o único
jeito de recuperar as 5 pratas era indo para cama com sua mulher
mas você sabe
ela se mudou 2 semanas depois
um velho de cabelo branco se mudou para lá
e ele era cego de um olho e tocava trompa.
não havia nenhum jeito de eu me arranjar com
ele.
1 200
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Às Vezes Quando Fico Triste Eu Ouço Mahler

nada disso de creme, Harry,
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.

eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.

não tenho escrito, Harry, nada de creme,

porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.

cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
1 199
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Som Das Vidas Humanas

estranho calor, mulheres quentes e frias,
eu faço bem o amor, mas o amor não é apenas
sexo. grande parte das mulheres que conheci é
ambiciosa, e eu gosto de ficar deitado
sobre grandes e confortáveis travesseiros até as 3
da tarde. gosto de ficar olhando o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo para além se mantém
afastado de mim. conheço tudo isso muito bem, todas
as páginas sujas, e gosto de ficar deitado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo seguindo seu fluxo:
é tão bom ficar numa boa – se você deixar acontecer, não
faltará mais nada.
mas a mulher é estranha, ela é muito
ambiciosa – merda! eu não posso ficar o dia inteiro dormindo!
só o que fazemos é comer! fazer amor! dormir! comer! fazer amor!
minha querida, eu digo, há homens agora lá fora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres lá fora morrendo debaixo do sol,
há homens e mulheres lá fora morrendo em fábricas
por nada, por uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não tem ideia de como somos
abençoados...
mas você já deu um jeito, ela diz,
seus poemas...
meu amor se levanta da cama
escuto-a na peça ao lado.
a máquina de escrever está em movimento.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm alguma coisa a ver com a
criação.
creio que em coisas como política, medicina,
história e religião
eles também estão
enganados.
deito-me de bruços e logo adormeço com meu
cu voltado para o teto só para dar uma variada.
1 184
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Incapazes de Sonhar

velhas e grisalhas garçonetes
à noite nos cafés
já desistiram,
e enquanto eu avanço por calçadas
luminosas e olho através das janelas
das casas de repouso
posso ver que alguma coisa não está mais
com eles.
vejo pessoas sentadas nos bancos dos parques
e posso ver pelo modo como
sentam e olham
que essa coisa se foi.
vejo pessoas dirigindo carros
e vejo pelo modo como
dirigem seus carros
que eles não amam nem sequer são
amados –
nem levam o sexo em
consideração. está tudo apagado
feito um filme antigo.
vejo pessoas em lojas de departamento e
supermercados
caminhando pelos corredores
comprando coisas
e posso ver pelo jeito como vestem suas
roupas e pelo modo como caminham
e por seus rostos e olhos
que não se importam com nada
e que nada se importa
com eles.
posso ver umas cem pessoas por dia
que desistiram de tudo
completamente.
se vou até o hipódromo
ou a um evento esportivo
posso ver milhares
que não têm apreço por nada ou
ninguém
e não obtêm nenhum sentimento
em troca.
em toda parte eu vejo aqueles
implorando por nada além de
comida, abrigo, e
roupas; eles se concentram
nisso,
incapazes de sonhar.
não consigo entender por que essas pessoas não
desaparecem
não consigo entender por que essas pessoas não
expiram
por que as nuvens
não os assassinam
ou por que os cães
não os assassinam
ou por que as flores e as crianças
não os assassinam,
não consigo entender.
suponho que eles sejam assassinados
ainda que não consiga me adequar
ao fato deles
porque eles são
muitos.
a cada dia,
a cada noite,
há mais deles
nos metrôs e
nos prédios e
nos parques
eles não sentem nenhum terror
por não amarem
ou não
serem amados
tantos tantos tantos
de meus camaradas
humanos.
1 106