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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Blues do Leito de Morte

se você não consegue suportar o calor, ele diz, saia da
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Blues do Leito de Morte

se você não consegue suportar o calor, ele diz, saia da
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
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Charles Bukowski

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Nós, Os Artistas –

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Latrina Dos Homens

olha só esse aqui:
primeiro antes de cagar ele limpa com
tranquila graça a
tampa do assento, realmente lustra o maldito
troço
aí ele espalha papel higiênico pelo assento,
bem bonitinho, chegando até mesmo a
suspender um bocado de papel onde sua poderosa genitália
balançará, e aí ele baixa com
dignidade e virilidade
suas cuecas e calças
e
senta e
caga
quase sem paixão
brigando com um velho jornal sujo
entre seus pés e lendo sobre o jogo de basquete
de ontem –
isso que você vê aqui é um Homem: conhecedor do mundo, e nada de chatos pro
bebezinho, e uma cagada
tranquila bem
tranquilona, e ele limpa a bunda
enquanto conversa com o sujeito que lava as mãos
na pia mais próxima,
e se você estiver parado por perto
aqueles pequenos olhos de camundongo incidirão sobre os seus sem o menor
tremor, e aí –
as cuecas sobem, as calças sobem, o cinto se afivela, ressoa a
descarga,
lavam-se as mãos
e aí ele se posta diante do espelho
inspecionando a glória de si mesmo
penteando o cabelo cuidadosamente em perfeitas e
delicadas arremetidas, finalizando,
então botando aquela
cara
perto do espelho
e se olhando por dentro e por fora, então
satisfeito
ele sai
primeiro se certificando de te dar um pé na bunda
ou o ponderoso insulto apavorante de seus olhos
vazios, e aí com
o rodopio de suas emudecidas nádegas egoístas
ele sai do banheiro dos homens,
e sou deixado ali com toalhas de rosto como flores
espelhos como o mar
e sou deixado com a mais doentia das esperanças
de que um dia o ser humano verdadeiro vai chegar
para que haja algo pra salvar
cagar então
nem se
fala.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Quente

ela era quente, era tão quente
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu não chegasse em casa na hora certa
ela já teria ido, e era uma coisa que eu não podia suportar –
eu enlouquecia...
era uma idiotice, eu sei, uma infantilidade,
mas eu me deixava levar, eu me deixava levar.
eu entregava todas as correspondências
e então Henderson me colocava na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
a porra da lata velha começava a aquecer na metade do caminho
e a noite seguia
eu pensando na minha Miriam quente
e eu entrando e saindo do caminhão
enchendo sacolas com cartas
o motor prestes a fundir
a agulha do termômetro cravada no vermelho
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu seguia saltando
mais 3 coletas e então de volta ao posto
eu estaria, meu carro
à espera de me levar até Miriam que estaria sentada em meu sofá azul
com um uísque com gelo
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como costumava fazer,
duas coletas mais...
o caminhão enguiçou junto a um sinal, era o inferno
dando suas caras
mais uma vez...
eu tinha que chegar em casa até as 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou num sinal
a meia quadra do posto...
não tinha jeito de dar a partida, de jeito nenhum...
tranquei as portas, apanhei a chave e corri até o
posto...
me livrei das chaves... assinei o ponto...
a porra do seu caminhão está enguiçado no sinal,
gritei,
Pico com a Western...
...corri pela entrada, coloquei a chave na porta,
abri... seu copo de bebida estava lá, e um bilhete:
fio da puta:
isperei até 8 e sinco
você não me ama
seu fio da puta
alguém vai me amar
fiquei isperando todo dia
Miriam
servi um drinque e deixei a água encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorri 25 deles
atrás de Miriam
seu ursinho púrpuro de pelúcia segurava o bilhete
e ele estava escorado num travesseiro
dei um trago para o urso, outro para mim
e entrei na água
quente
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Sorte É a Diferença Entre Um Bom E Um Mau Poeta

assim suponho.
eu vivia em um sótão na Filadélfia
fazia ali muito calor no verão de modo que eu ficava nos
bares. eu não tinha um puto tostão e então com os últimos trocados
paguei um pequeno anúncio no jornal em que eu dizia ser um escritor
à procura de trabalho...
o que era uma mentira descarada; eu era um escritor
em busca de um pouco de tempo e um pouco de comida e algum
para o aluguel do sótão.
alguns dias depois quando finalmente voltei para casa
vindo sei lá de onde
a senhoria disse, há alguém atrás de
você. e eu disse,
deve haver algum engano. ela disse,
não, era um escritor e ele disse que queria sua ajuda para escrever
um livro de história.
ah, maravilha, eu disse, e sabia que com isso eu tinha outra semana
de aluguel – quero dizer, para pendurar –
então fiquei ali sentado bebendo vinho a crédito e assistindo aos
pombos tórridos
sofrendo e se comendo no meu teto tórrido.
liguei o rádio a pleno volume
bebi o vinho e fiquei a me perguntar como poderia fazer um livro de história
interessante mas verdadeiro.
mas o filho da puta nunca retornou,
e eu tive por fim que me juntar a uma equipe da ferrovia
que ia para o oeste
e eles nos deram comida enlatada mas nenhum
abridor
e nós abríamos as latas contra os assentos e nas laterais dos
trens tomadas por uma poeira centenária
a comida não era cozida e a água tinha gosto de
pavio
e eu saltei fora sobre uns arbustos em algum lugar no
Texas
tudo verde e com casas bacanas à
distância
encontrei um parque
dormi a noite toda
e então eles me encontraram e me jogaram numa cela
e me perguntaram sobre assassinatos e
roubos.
queriam aliviar seus muitos inquéritos
para provar sua eficiência
mas eu não estava tão cansado
e eles me levaram para a cidade grande mais próxima
a noventa quilômetros dali
o maior deles me deu uma bica no rabo
e eles tomaram seu rumo.
mas aquilo me favoreceu:
duas semanas depois eu estava sentado no escritório da prefeitura
semiacordado ao sol como a grande mosca em meu cotovelo
e de vez em quando ela me levava até uma reunião do conselho
e eu os escutava com extrema gravidade como se soubesse o que se passava
como se soubesse como os fundos de uma cidade de merda vinham se
desmantelando.
mais tarde eu fui para a cama e acordei com marcas de dente por todo o
corpo, e disse, Cristo, veja isso, baby! assim você acaba me gerando um
câncer! e estou reescrevendo a história da Guerra da Crimeia!
e todos eles vinham até a casa dela –
todos os caubóis, todos os caubóis:
gordos, tontos, cobertos de pó.
e todos nos cumprimentamos.
eu vestia uma velha calça azul de brim, e eles diziam
ah, você é o escritor, certo?
e eu dizia: bem, alguns acham que sim.
e alguns seguem achando...
outros, claro, ainda não atingiram esta sabedoria.
duas semanas depois eles
me correram
da cidade.
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Charles Bukowski

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A Sorte É a Diferença Entre Um Bom E Um Mau Poeta

assim suponho.
eu vivia em um sótão na Filadélfia
fazia ali muito calor no verão de modo que eu ficava nos
bares. eu não tinha um puto tostão e então com os últimos trocados
paguei um pequeno anúncio no jornal em que eu dizia ser um escritor
à procura de trabalho...
o que era uma mentira descarada; eu era um escritor
em busca de um pouco de tempo e um pouco de comida e algum
para o aluguel do sótão.
alguns dias depois quando finalmente voltei para casa
vindo sei lá de onde
a senhoria disse, há alguém atrás de
você. e eu disse,
deve haver algum engano. ela disse,
não, era um escritor e ele disse que queria sua ajuda para escrever
um livro de história.
ah, maravilha, eu disse, e sabia que com isso eu tinha outra semana
de aluguel – quero dizer, para pendurar –
então fiquei ali sentado bebendo vinho a crédito e assistindo aos
pombos tórridos
sofrendo e se comendo no meu teto tórrido.
liguei o rádio a pleno volume
bebi o vinho e fiquei a me perguntar como poderia fazer um livro de história
interessante mas verdadeiro.
mas o filho da puta nunca retornou,
e eu tive por fim que me juntar a uma equipe da ferrovia
que ia para o oeste
e eles nos deram comida enlatada mas nenhum
abridor
e nós abríamos as latas contra os assentos e nas laterais dos
trens tomadas por uma poeira centenária
a comida não era cozida e a água tinha gosto de
pavio
e eu saltei fora sobre uns arbustos em algum lugar no
Texas
tudo verde e com casas bacanas à
distância
encontrei um parque
dormi a noite toda
e então eles me encontraram e me jogaram numa cela
e me perguntaram sobre assassinatos e
roubos.
queriam aliviar seus muitos inquéritos
para provar sua eficiência
mas eu não estava tão cansado
e eles me levaram para a cidade grande mais próxima
a noventa quilômetros dali
o maior deles me deu uma bica no rabo
e eles tomaram seu rumo.
mas aquilo me favoreceu:
duas semanas depois eu estava sentado no escritório da prefeitura
semiacordado ao sol como a grande mosca em meu cotovelo
e de vez em quando ela me levava até uma reunião do conselho
e eu os escutava com extrema gravidade como se soubesse o que se passava
como se soubesse como os fundos de uma cidade de merda vinham se
desmantelando.
mais tarde eu fui para a cama e acordei com marcas de dente por todo o
corpo, e disse, Cristo, veja isso, baby! assim você acaba me gerando um
câncer! e estou reescrevendo a história da Guerra da Crimeia!
e todos eles vinham até a casa dela –
todos os caubóis, todos os caubóis:
gordos, tontos, cobertos de pó.
e todos nos cumprimentamos.
eu vestia uma velha calça azul de brim, e eles diziam
ah, você é o escritor, certo?
e eu dizia: bem, alguns acham que sim.
e alguns seguem achando...
outros, claro, ainda não atingiram esta sabedoria.
duas semanas depois eles
me correram
da cidade.
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