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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Charles Bukowski

Charles Bukowski

40 Graus

ela cortou as unhas dos meus pés na noite passada,
e pela manhã ela disse, “acho que vou
ficar deitada aqui pelo resto do dia”.
o que significava que ela não iria trabalhar.
ela estava em meu apartamento – o que significava outro
dia e outra noite.
ela era uma pessoa legal
mas recém havia me dito que queria ter
um filho, queria casar, e
fazia 40 graus lá fora.
quando pensei em outra criança e
outro casamento
comecei realmente a passar mal.
havia me resignado a morrer sozinho
em uma pequena peça...
agora ela tentava remodelar meu plano de mestre.
além disso ela sempre batia a porta do meu carro com
[muita força
e comia com a cabeça perto demais da mesa.
nesse dia havíamos ido ao correio, a uma loja de
departamentos e depois a uma lancheria para almoçar.
já me sentia casado. na volta eu quase
entrei em um Cadillac.
“vamos encher a cara”, eu disse.
“não, não”, ela respondeu, “é muito cedo”.
e então ela lacrou a porta do carro.
continuava fazendo 40 graus.
quando abri a caixa do correio descobri que a companhia
de seguros queria mais 76 pratas.
subitamente ela invadiu o quarto correndo e gritou, “OLHA, ESTOU FICANDO VERMELHA! CHEIA DE MANCHAS! O QUE DEVO FAZER?”
“tome um banho”, eu lhe disse.
fiz um interurbano para a seguradora e
exigi saber a razão daquilo.
ela começou a gritar e a gemer lá da
banheira e eu não conseguia ouvir nada e disse, “um
[momento,
por favor!”
tapei o telefone com a mão e gritei de volta para ela:
“OLHA SÓ! ESTOU NUM INTERURBANO! SEGURE A
[ONDA,
PELO AMOR DE DEUS!”
o pessoal da seguradora insistia que eu lhes devia
$76 e que me enviariam uma carta explicando por quê.
desliguei e me estiquei na cama.
eu já estava casado, me sentia casado.
ela saiu do banheiro e disse, “posso me deitar
ao seu lado?”
e eu disse, “ok”
em dez minutos sua cor tinha voltado ao normal.
tudo porque ela havia tomado um comprimido de niacina[2].
ela se lembrou de que isso acontecia sempre.
ficamos ali estirados suando:
nervos. ninguém tem espírito suficiente para superar os
[nervos.
mas eu não podia dizer isso a ela.
ela queria ter seu bebê.
que caralho.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Três Letras para Melodias de Villa-lobos

1/ MARCHINHA DAS TRÊS MARIAS

Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.

Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.

Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.

Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.

II QUADRILHA

Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!

Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.

Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!

Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.

III QUINTA BACHIANA

Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!

Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.

Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!

Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!

Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!

O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Itaperuna

Primeiro houve entradas para pegar índio
Entradas para descobrir o ouro
Agora há entradas para plantar café

Um dia trouxeram da Martinica um soldadinho verde
O soldadinho juntou-se com a mulata roxa
E nasceu um exército de soldadinhos verdes
Os batalhões alinharam-se
Marcha soldado
Pé de café
E tomaram de assalto as baixadas as lombas as faldas e os contrafortes até o planalto.
Do meio deles
De Estrela boa estrela
Saiu o maior soldado brasileiro
Onde acampavam
Havia riqueza
Solares trapiches
Resendes Valenças Vassouras
Estradas reais calçadas com pedra
Os Tijucos do café
Com linhagens de barões estadistas que formaram gabinetes e deram lustre ao segundo reinado

Mas o amor do soldado derreia a mulata
O mau goza se satisfaz e
Marcha soldado
Pé de café!
Soldado gosta de mulher nova
Araçatubas de peito duro
Itaperunas de mamilo preto

Itaperuna!
Ponta de trilho da civilização cafeeira
Criação republicana e brasileira
Único município que não aderiu
Porque era republicano antes da República!

Ora esta eu agora me esqueci que não sou republicano
Ponhamos Itaperuna exceção republicana.
Desta república de paulistas baianos, paulistas pernambucanos e paulistas de Macaé!

Marcha soldado
Pé de café!
(Qual onda verde nada!
Batalhão é que é)
Batalhão de república militarista

Itaperuna exceção republicana
Itaperuna pacífica das pequenas propriedades
Das quatro mil oitocentas e seis pequenas propriedades registradas
Com os seus cinquenta e dois milhares de cafeeiros
A sua futura safra de um milhão e setecentas mil arrobas

Terra de José de Lannes
Bandeirante sem crimes na consciência
Itaperuna sem Rio das Mortes nem Mata da Traição
(Exceção republicana!)
Vértice do triângulo Itaperuna Araçatuba Paranapanema
Onde estão acampados os batalhões do café.

Marcha soldado
Pé de café
Se não marchar direito
O Brasil não fica em pé.
1 228
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Itaperuna

Primeiro houve entradas para pegar índio
Entradas para descobrir o ouro
Agora há entradas para plantar café

Um dia trouxeram da Martinica um soldadinho verde
O soldadinho juntou-se com a mulata roxa
E nasceu um exército de soldadinhos verdes
Os batalhões alinharam-se
Marcha soldado
Pé de café
E tomaram de assalto as baixadas as lombas as faldas e os contrafortes até o planalto.
Do meio deles
De Estrela boa estrela
Saiu o maior soldado brasileiro
Onde acampavam
Havia riqueza
Solares trapiches
Resendes Valenças Vassouras
Estradas reais calçadas com pedra
Os Tijucos do café
Com linhagens de barões estadistas que formaram gabinetes e deram lustre ao segundo reinado

Mas o amor do soldado derreia a mulata
O mau goza se satisfaz e
Marcha soldado
Pé de café!
Soldado gosta de mulher nova
Araçatubas de peito duro
Itaperunas de mamilo preto

Itaperuna!
Ponta de trilho da civilização cafeeira
Criação republicana e brasileira
Único município que não aderiu
Porque era republicano antes da República!

Ora esta eu agora me esqueci que não sou republicano
Ponhamos Itaperuna exceção republicana.
Desta república de paulistas baianos, paulistas pernambucanos e paulistas de Macaé!

Marcha soldado
Pé de café!
(Qual onda verde nada!
Batalhão é que é)
Batalhão de república militarista

Itaperuna exceção republicana
Itaperuna pacífica das pequenas propriedades
Das quatro mil oitocentas e seis pequenas propriedades registradas
Com os seus cinquenta e dois milhares de cafeeiros
A sua futura safra de um milhão e setecentas mil arrobas

Terra de José de Lannes
Bandeirante sem crimes na consciência
Itaperuna sem Rio das Mortes nem Mata da Traição
(Exceção republicana!)
Vértice do triângulo Itaperuna Araçatuba Paranapanema
Onde estão acampados os batalhões do café.

Marcha soldado
Pé de café
Se não marchar direito
O Brasil não fica em pé.
1 228
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Itaperuna

Primeiro houve entradas para pegar índio
Entradas para descobrir o ouro
Agora há entradas para plantar café

Um dia trouxeram da Martinica um soldadinho verde
O soldadinho juntou-se com a mulata roxa
E nasceu um exército de soldadinhos verdes
Os batalhões alinharam-se
Marcha soldado
Pé de café
E tomaram de assalto as baixadas as lombas as faldas e os contrafortes até o planalto.
Do meio deles
De Estrela boa estrela
Saiu o maior soldado brasileiro
Onde acampavam
Havia riqueza
Solares trapiches
Resendes Valenças Vassouras
Estradas reais calçadas com pedra
Os Tijucos do café
Com linhagens de barões estadistas que formaram gabinetes e deram lustre ao segundo reinado

Mas o amor do soldado derreia a mulata
O mau goza se satisfaz e
Marcha soldado
Pé de café!
Soldado gosta de mulher nova
Araçatubas de peito duro
Itaperunas de mamilo preto

Itaperuna!
Ponta de trilho da civilização cafeeira
Criação republicana e brasileira
Único município que não aderiu
Porque era republicano antes da República!

Ora esta eu agora me esqueci que não sou republicano
Ponhamos Itaperuna exceção republicana.
Desta república de paulistas baianos, paulistas pernambucanos e paulistas de Macaé!

Marcha soldado
Pé de café!
(Qual onda verde nada!
Batalhão é que é)
Batalhão de república militarista

Itaperuna exceção republicana
Itaperuna pacífica das pequenas propriedades
Das quatro mil oitocentas e seis pequenas propriedades registradas
Com os seus cinquenta e dois milhares de cafeeiros
A sua futura safra de um milhão e setecentas mil arrobas

Terra de José de Lannes
Bandeirante sem crimes na consciência
Itaperuna sem Rio das Mortes nem Mata da Traição
(Exceção republicana!)
Vértice do triângulo Itaperuna Araçatuba Paranapanema
Onde estão acampados os batalhões do café.

Marcha soldado
Pé de café
Se não marchar direito
O Brasil não fica em pé.
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