Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Affonso Romano de Sant'Anna
Coisas Básicas
Vinte e poucas letras de alfabeto
e os inumeráveis textos e civilizações
sete notas musicais
e a profusão de harmonias e canções
quatro cores básicas
e essa infindável reverberação
dois dígitos
e o conhecimento cósmico em expansão
um só Princípio Ordenador
contendo em si o seu contrário
e, no entanto,
que incalculáveis consequências!
e os inumeráveis textos e civilizações
sete notas musicais
e a profusão de harmonias e canções
quatro cores básicas
e essa infindável reverberação
dois dígitos
e o conhecimento cósmico em expansão
um só Princípio Ordenador
contendo em si o seu contrário
e, no entanto,
que incalculáveis consequências!
948
Affonso Romano de Sant'Anna
Coisas Básicas
Vinte e poucas letras de alfabeto
e os inumeráveis textos e civilizações
sete notas musicais
e a profusão de harmonias e canções
quatro cores básicas
e essa infindável reverberação
dois dígitos
e o conhecimento cósmico em expansão
um só Princípio Ordenador
contendo em si o seu contrário
e, no entanto,
que incalculáveis consequências!
e os inumeráveis textos e civilizações
sete notas musicais
e a profusão de harmonias e canções
quatro cores básicas
e essa infindável reverberação
dois dígitos
e o conhecimento cósmico em expansão
um só Princípio Ordenador
contendo em si o seu contrário
e, no entanto,
que incalculáveis consequências!
948
Affonso Romano de Sant'Anna
O Músico de Auschwitz
Em Jerusalém
encontrei um homem
que tocava violino em Auschwitz.
Tocava numa orquestra
acompanhando os que iam morrer no fogo crematório.
Hoje é engenheiro,
ilumina cidades do mundo inteiro,
inclusive os muros da Cidade Santa.
Não lhe perguntei que música tocava.
No seu braço o número – 121097, de prisioneiro.
Não lhe perguntei que música tocava.
Perguntei-lhe se ainda tocava.
Sim, ele tocava.
encontrei um homem
que tocava violino em Auschwitz.
Tocava numa orquestra
acompanhando os que iam morrer no fogo crematório.
Hoje é engenheiro,
ilumina cidades do mundo inteiro,
inclusive os muros da Cidade Santa.
Não lhe perguntei que música tocava.
No seu braço o número – 121097, de prisioneiro.
Não lhe perguntei que música tocava.
Perguntei-lhe se ainda tocava.
Sim, ele tocava.
1 055
Affonso Romano de Sant'Anna
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
1 007
Affonso Romano de Sant'Anna
Irei a Lucca, Caminho do Mar
Irei a Lucca, caminho do mar.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
1 018
Affonso Romano de Sant'Anna
Irei a Lucca, Caminho do Mar
Irei a Lucca, caminho do mar.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
1 018
Affonso Romano de Sant'Anna
Irei a Lucca, Caminho do Mar
Irei a Lucca, caminho do mar.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
1 018
Affonso Romano de Sant'Anna
Um Operário E Seu Desejo
De minha janela vejo um operário que se masturba
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
1 037
Affonso Romano de Sant'Anna
Entre Castelos
Tenho conhecido castelos à beira-mar,
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.
Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.
Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.
Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.
Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?
1 027
Affonso Romano de Sant'Anna
Entre Castelos
Tenho conhecido castelos à beira-mar,
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.
Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.
Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.
Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.
Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?
1 027
Affonso Romano de Sant'Anna
A Paineira E a Favela
Para Sérgio Faraco
Essa paineira na entrada da favela ao lado
está florindo
– e não é primavera.
Sob a rosada copa passam pivetes em fuga
e cruzam tiros de escopeta e AR-15.
À noite
são balas luminosas com seus rastros
traficando angústia na vizinhança.
Só uma vez, vi um cadáver baixar do morro.
Amanhece
e de minha janela vejo o mar.
O mar
e essa paineira florindo
– luminosa
embora não seja primavera.
Essa paineira na entrada da favela ao lado
está florindo
– e não é primavera.
Sob a rosada copa passam pivetes em fuga
e cruzam tiros de escopeta e AR-15.
À noite
são balas luminosas com seus rastros
traficando angústia na vizinhança.
Só uma vez, vi um cadáver baixar do morro.
Amanhece
e de minha janela vejo o mar.
O mar
e essa paineira florindo
– luminosa
embora não seja primavera.
1 055
Affonso Romano de Sant'Anna
Golpe Literário
Três poetas tropicais
revertendo o continente
com conteúdos formais,
deram um golpe na poesia
e o alardearam nos jornais.
A seguir
baniram o verso
dos poemas nacionais
exilaram a poesia
nas traduções abissais
e reescreveram a história literária
com ares imperiais.
Esta história local
com conteúdos morais,
mostra
que no Terceiro Mundo
até poetas
tratam a poesia
imitando os generais.
revertendo o continente
com conteúdos formais,
deram um golpe na poesia
e o alardearam nos jornais.
A seguir
baniram o verso
dos poemas nacionais
exilaram a poesia
nas traduções abissais
e reescreveram a história literária
com ares imperiais.
Esta história local
com conteúdos morais,
mostra
que no Terceiro Mundo
até poetas
tratam a poesia
imitando os generais.
1 064
Affonso Romano de Sant'Anna
Golpe Literário
Três poetas tropicais
revertendo o continente
com conteúdos formais,
deram um golpe na poesia
e o alardearam nos jornais.
A seguir
baniram o verso
dos poemas nacionais
exilaram a poesia
nas traduções abissais
e reescreveram a história literária
com ares imperiais.
Esta história local
com conteúdos morais,
mostra
que no Terceiro Mundo
até poetas
tratam a poesia
imitando os generais.
revertendo o continente
com conteúdos formais,
deram um golpe na poesia
e o alardearam nos jornais.
A seguir
baniram o verso
dos poemas nacionais
exilaram a poesia
nas traduções abissais
e reescreveram a história literária
com ares imperiais.
Esta história local
com conteúdos morais,
mostra
que no Terceiro Mundo
até poetas
tratam a poesia
imitando os generais.
1 064
Affonso Romano de Sant'Anna
Espada de Pizarro
Eu vi a espada de Pizarro
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
1 050
Affonso Romano de Sant'Anna
Espada de Pizarro
Eu vi a espada de Pizarro
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
1 050
Affonso Romano de Sant'Anna
Espada de Pizarro
Eu vi a espada de Pizarro
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
1 050
Affonso Romano de Sant'Anna
Espada de Pizarro
Eu vi a espada de Pizarro
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
1 050
Affonso Romano de Sant'Anna
Alta Noite Em Mântova
Aconteceu-me alta noite entrar na Piazza delle Erbe,
em Mântova
caminhar sob suas arcadas
em silêncio
e, de repente, vislumbrar a
Torre dell’Orologio
o Palazzo della Ragione
a Rotonda di San Lourenzo.
Mântova dormia.
Na igreja de Sant’Andrea
repousava o corpo de Mantegna
velado por afrescos de Correggio.
Quando cheguei à praça
onde o Palazzo Ducale e o Castello di San Giorgio
me esperavam
– petrificado ante tanta beleza
na neblina passei a ser
apenas
uma das pedras que o luar reverberava.
em Mântova
caminhar sob suas arcadas
em silêncio
e, de repente, vislumbrar a
Torre dell’Orologio
o Palazzo della Ragione
a Rotonda di San Lourenzo.
Mântova dormia.
Na igreja de Sant’Andrea
repousava o corpo de Mantegna
velado por afrescos de Correggio.
Quando cheguei à praça
onde o Palazzo Ducale e o Castello di San Giorgio
me esperavam
– petrificado ante tanta beleza
na neblina passei a ser
apenas
uma das pedras que o luar reverberava.
1 032
Affonso Romano de Sant'Anna
Dilema
Sempre que volto de viagem
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
1 146
Affonso Romano de Sant'Anna
Presente Vivo
Viver
é conjugação diária
do presente.
Viver
é presentear.
Mais que um jeito de doer
é um modo de doar.
E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.
Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.
é conjugação diária
do presente.
Viver
é presentear.
Mais que um jeito de doer
é um modo de doar.
E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.
Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.
944
Affonso Romano de Sant'Anna
Entendimento
Estou cada vez mais entendendo a eternidade
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
e o que chamam inveja humana.
Não sei aonde isto pode me levar.
Entender certas coisas é libertar-se
como quem, mudo, canta um hino.
Sou isto e não aquilo.
Contemplo meu instante no olho
e me ilumino.
1 117
Affonso Romano de Sant'Anna
Tumba Celta
Há cinco mil anos,
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
1 046
Affonso Romano de Sant'Anna
Desconfiando
Há muito
que não corro da polícia em praça pública.
Há muito
que não abrem correspondência minha.
Há muito
que não poupo palavras ao telefone.
Há muito
que não abrigo fugitivos.
Há muito
que vejo os filmes e leio livros que bem quero.
O que será que fiz?
Começo a desconfiar
que alguma coisa anda errada:
comigo
ou meu país.
que não corro da polícia em praça pública.
Há muito
que não abrem correspondência minha.
Há muito
que não poupo palavras ao telefone.
Há muito
que não abrigo fugitivos.
Há muito
que vejo os filmes e leio livros que bem quero.
O que será que fiz?
Começo a desconfiar
que alguma coisa anda errada:
comigo
ou meu país.
1 026
Affonso Romano de Sant'Anna
Desconfiando
Há muito
que não corro da polícia em praça pública.
Há muito
que não abrem correspondência minha.
Há muito
que não poupo palavras ao telefone.
Há muito
que não abrigo fugitivos.
Há muito
que vejo os filmes e leio livros que bem quero.
O que será que fiz?
Começo a desconfiar
que alguma coisa anda errada:
comigo
ou meu país.
que não corro da polícia em praça pública.
Há muito
que não abrem correspondência minha.
Há muito
que não poupo palavras ao telefone.
Há muito
que não abrigo fugitivos.
Há muito
que vejo os filmes e leio livros que bem quero.
O que será que fiz?
Começo a desconfiar
que alguma coisa anda errada:
comigo
ou meu país.
1 026