Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Affonso Romano de Sant'Anna
O Pai
Procuro em meus papéis,
nos baús familiares
um perdido testamento.
Encontro cartas, provérbios em Esperanto,
pensamentos de Raumsol e a caligrafia de meu pai.
Homem de fé, rezava nos cemitérios.
Expulsou demônios em Uberlândia
e alta madrugada enfrentou o diabo
cara a cara em Carangola.
Nenhum dos filhos a tempo o entendeu.
Mas ele, esperantista,
esperava as cartas da Holanda,
as vacas gordas de José,
e o fim da Torre de Babel.
Meu pai, cidadão do mundo,
pobre professor de Esperanto
à beira do Paraibuna.
Lia, lia, lia. Havia sempre
um livro em sua mão.
E chegavam missivas
e selos fraternais
– mia caro samiedano –
Polônia, China,
Bélgica e Japão.
Maçom, grau 33,
letra caprichosa,
bordava atas da confraria,
falava-nos de bodes e caveiras,
liturgias impenetráveis
e um dia trouxe-nos a espada
que entre os maçons usava.
Aos domingos, à mesa
refastelava-se de Salmos:
lia os mais compridos
ante a fria macarronada,
mas sua flauta domingueira
apascentava meu desejo
de pecar lá no quintal
e arrebanhava as dívidas
despertas na segunda-feira.
Esteve em três revoluções.
Não sei se dava tiros
e medalhas nunca foi buscar.
Capitão de milícias
aposentado por desacato ao superior
discutia política sem muito empenho.
Votava com os pobres: PTB-PSD.
Tio Ernesto era udenista
e cobrava-lhe rigor.
Levou-me a ver Getúlio
num desfile militar.
No bolso, uma carta
expondo ao Presidente
penosa situação:
injustiças militares,
necessidade de abono
e pedia uma pasta de livros
pro meu irmão.
Isto posto, era capaz de esperar
semanas e meses
sem desconfiar, que ao chorar
ouvindo novelas
da Rádio Nacional
era ele próprio personagem,
porque se, como diz García Márquez,
ninguém escreve ao coronel,
o ditador jamais escreveria ao capitão.
Noivo contrariado,
fugiu com minha mãe
e com ela trocou cartas, que vi,
escritas com o próprio sangue.
Brigou com um carroceiro
que chicoteava uma besta
diante de nossa porta.
E quando a tarde crepusculava,
tomava a filha paralítica no colo
passeando seu calvário pelas ruas
do interior.
Certa vez, como os irmãos
pusessem em mim trinta apelidos
querendo me degradar
chamando-me de “guga”
“tora”, “manduca” e “júpiter”,
certa noite, notando-me a tristeza
levou-me pro quintal
entre couves e chuchus:
mostrou-me Júpiter, a enorme estrela
e outras constelações: peixes
touros, centauros, ursas maiores e menores
tudo a brilhar em mim
estrelas que com ele eu distinguia
e desde aquela noite
nunca mais pude encontrar.
nos baús familiares
um perdido testamento.
Encontro cartas, provérbios em Esperanto,
pensamentos de Raumsol e a caligrafia de meu pai.
Homem de fé, rezava nos cemitérios.
Expulsou demônios em Uberlândia
e alta madrugada enfrentou o diabo
cara a cara em Carangola.
Nenhum dos filhos a tempo o entendeu.
Mas ele, esperantista,
esperava as cartas da Holanda,
as vacas gordas de José,
e o fim da Torre de Babel.
Meu pai, cidadão do mundo,
pobre professor de Esperanto
à beira do Paraibuna.
Lia, lia, lia. Havia sempre
um livro em sua mão.
E chegavam missivas
e selos fraternais
– mia caro samiedano –
Polônia, China,
Bélgica e Japão.
Maçom, grau 33,
letra caprichosa,
bordava atas da confraria,
falava-nos de bodes e caveiras,
liturgias impenetráveis
e um dia trouxe-nos a espada
que entre os maçons usava.
Aos domingos, à mesa
refastelava-se de Salmos:
lia os mais compridos
ante a fria macarronada,
mas sua flauta domingueira
apascentava meu desejo
de pecar lá no quintal
e arrebanhava as dívidas
despertas na segunda-feira.
Esteve em três revoluções.
Não sei se dava tiros
e medalhas nunca foi buscar.
Capitão de milícias
aposentado por desacato ao superior
discutia política sem muito empenho.
Votava com os pobres: PTB-PSD.
Tio Ernesto era udenista
e cobrava-lhe rigor.
Levou-me a ver Getúlio
num desfile militar.
No bolso, uma carta
expondo ao Presidente
penosa situação:
injustiças militares,
necessidade de abono
e pedia uma pasta de livros
pro meu irmão.
Isto posto, era capaz de esperar
semanas e meses
sem desconfiar, que ao chorar
ouvindo novelas
da Rádio Nacional
era ele próprio personagem,
porque se, como diz García Márquez,
ninguém escreve ao coronel,
o ditador jamais escreveria ao capitão.
Noivo contrariado,
fugiu com minha mãe
e com ela trocou cartas, que vi,
escritas com o próprio sangue.
Brigou com um carroceiro
que chicoteava uma besta
diante de nossa porta.
E quando a tarde crepusculava,
tomava a filha paralítica no colo
passeando seu calvário pelas ruas
do interior.
Certa vez, como os irmãos
pusessem em mim trinta apelidos
querendo me degradar
chamando-me de “guga”
“tora”, “manduca” e “júpiter”,
certa noite, notando-me a tristeza
levou-me pro quintal
entre couves e chuchus:
mostrou-me Júpiter, a enorme estrela
e outras constelações: peixes
touros, centauros, ursas maiores e menores
tudo a brilhar em mim
estrelas que com ele eu distinguia
e desde aquela noite
nunca mais pude encontrar.
1 064
Affonso Romano de Sant'Anna
Viii Reunião de Intelectuais
(Lembrando Octávio Paz e José Guilherme Merquior, presentes)
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
960
Affonso Romano de Sant'Anna
Viii Reunião de Intelectuais
(Lembrando Octávio Paz e José Guilherme Merquior, presentes)
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
960
Affonso Romano de Sant'Anna
In Illo Tempore
Havia uma certa ordem naquele tempo.
Sendo verão, chovia às quatro da tarde.
Os pássaros pousavam nos galhos
cantando cada qual sua canção.
É verdade que cães e gatos
continuam obedecendo às nossas ordens
às vezes absurdas
e alguns deitam-se aos nossos pés
e beijam nossas mãos.
Mas havia uma certa ordem naquele tempo.
Um quadrado era perfeito
e um triângulo de três lados
podia chegar à perfeição.
Sendo verão, chovia às quatro da tarde.
Os pássaros pousavam nos galhos
cantando cada qual sua canção.
É verdade que cães e gatos
continuam obedecendo às nossas ordens
às vezes absurdas
e alguns deitam-se aos nossos pés
e beijam nossas mãos.
Mas havia uma certa ordem naquele tempo.
Um quadrado era perfeito
e um triângulo de três lados
podia chegar à perfeição.
1 009
Affonso Romano de Sant'Anna
Edificando a Morte
Nesta semana
morreram
três vizinhos no meu prédio.
Tomavam este elevador que tomo
passavam por esta portaria dizendo alô bom-dia
saíam por esta vila pisando as pedras
em dias de sol assim indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
O prédio permanece
e nele escrevo.
Inquilinos novos e velhos
tomam este elevador que tomo
passam pela portaria dizendo alô bom-dia
saem por esta vila pisando as pedras
em dias assim de sol indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
À noite
as luzes todas se apagam
e se apagam as tevês.
É quando o edifício inteiro dorme.
Dorme, num ensaio coletivo da arte de morrer.
morreram
três vizinhos no meu prédio.
Tomavam este elevador que tomo
passavam por esta portaria dizendo alô bom-dia
saíam por esta vila pisando as pedras
em dias de sol assim indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
O prédio permanece
e nele escrevo.
Inquilinos novos e velhos
tomam este elevador que tomo
passam pela portaria dizendo alô bom-dia
saem por esta vila pisando as pedras
em dias assim de sol indo ao mercado
pensando na família e nos impostos
e suspirando deprimidos com o governo.
À noite
as luzes todas se apagam
e se apagam as tevês.
É quando o edifício inteiro dorme.
Dorme, num ensaio coletivo da arte de morrer.
1 041
Affonso Romano de Sant'Anna
A Morte Vizinha
Estou jogando água nas plantas
com o olhar no azul do mar
e minha vizinha está morta.
Sozinho em casa, improviso um almoço
e a morta vizinha já não come.
Comprei jornais
que a morta vizinha já não lê.
A morta vizinha
a morte vizinha
a minha morte
que se avizinha.
com o olhar no azul do mar
e minha vizinha está morta.
Sozinho em casa, improviso um almoço
e a morta vizinha já não come.
Comprei jornais
que a morta vizinha já não lê.
A morta vizinha
a morte vizinha
a minha morte
que se avizinha.
1 168
Affonso Romano de Sant'Anna
Um Operário E Seu Desejo
De minha janela vejo um operário que se masturba
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
no topo do edifício.
Insólito lugar escolheu
para realizar seu desejo.
A princípio afastei os olhos, pundonoroso,
depois
de novo o procurei
e ele ainda se empenhava
laborando o prazer
naquela ponta de seu corpo.
Não segui até o fim seu ritual.
Preferi pensar que aquele era um gesto banal,
embora a céu aberto, no topo de um edifício às dez horas da manhã.
Banal como o indivíduo que puxa um cigarro
e prazeroso fuma,
banal como o poeta
que num solitário ofício
manipula seu poema no topo do edifício ao lado
e dele tira um gozo estranho
– que o pacifica.
1 045
Affonso Romano de Sant'Anna
Espada de Pizarro
Eu vi a espada de Pizarro
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
1 059
Affonso Romano de Sant'Anna
Espada de Pizarro
Eu vi a espada de Pizarro
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
1 059
Affonso Romano de Sant'Anna
Espada de Pizarro
Eu vi a espada de Pizarro
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
1 059
Affonso Romano de Sant'Anna
Espada de Pizarro
Eu vi a espada de Pizarro
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
1 059
Affonso Romano de Sant'Anna
O Olho do Jaguar
No Castelo de Chavin, no Peru
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
havia 24 labirintos
e na pedra sacrificial, cortada a cabeça humana
o sangue da vítima descia em meandros
rumo ao rio.
Do lado de fora, os fiéis
num teatro imaginário, ouviam ruídos estranhos
mas não viam a cena. Acreditavam.
Somente o olho de jade do jaguar nos monumentos
presenciava a eternidade.
1 014
Affonso Romano de Sant'Anna
Golpe Literário
Três poetas tropicais
revertendo o continente
com conteúdos formais,
deram um golpe na poesia
e o alardearam nos jornais.
A seguir
baniram o verso
dos poemas nacionais
exilaram a poesia
nas traduções abissais
e reescreveram a história literária
com ares imperiais.
Esta história local
com conteúdos morais,
mostra
que no Terceiro Mundo
até poetas
tratam a poesia
imitando os generais.
revertendo o continente
com conteúdos formais,
deram um golpe na poesia
e o alardearam nos jornais.
A seguir
baniram o verso
dos poemas nacionais
exilaram a poesia
nas traduções abissais
e reescreveram a história literária
com ares imperiais.
Esta história local
com conteúdos morais,
mostra
que no Terceiro Mundo
até poetas
tratam a poesia
imitando os generais.
1 077
Affonso Romano de Sant'Anna
Golpe Literário
Três poetas tropicais
revertendo o continente
com conteúdos formais,
deram um golpe na poesia
e o alardearam nos jornais.
A seguir
baniram o verso
dos poemas nacionais
exilaram a poesia
nas traduções abissais
e reescreveram a história literária
com ares imperiais.
Esta história local
com conteúdos morais,
mostra
que no Terceiro Mundo
até poetas
tratam a poesia
imitando os generais.
revertendo o continente
com conteúdos formais,
deram um golpe na poesia
e o alardearam nos jornais.
A seguir
baniram o verso
dos poemas nacionais
exilaram a poesia
nas traduções abissais
e reescreveram a história literária
com ares imperiais.
Esta história local
com conteúdos morais,
mostra
que no Terceiro Mundo
até poetas
tratam a poesia
imitando os generais.
1 077
Affonso Romano de Sant'Anna
Enquete
– O que estás lendo?
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
1 087
Affonso Romano de Sant'Anna
O Éden Possível
Do lado de fora da Mesquita de Oman, em Jerusalém,
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
1 043
Affonso Romano de Sant'Anna
O Éden Possível
Do lado de fora da Mesquita de Oman, em Jerusalém,
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
muçulmanos com suas longas roupas
e sandálias de plástico
depois de passarem pelos guardas israelenses
e suas metralhadoras
repousam sob a árvore
se assentam com suas famílias domesticamente no chão
e comem e dormem.
Este sol oriental a tudo aplastra.
A garrafa de água mineral que uma mãe ergue
e dá aos filhos, tem no rótulo a palavra: “Éden”.
1 043
Pablo Neruda
Fala a cabeça de Murieta
Ninguém me escuta, posso falar por fim,
um menino nas trevas é um morto.
Não sei por que tinha que morrer
para seguir sem rumo no deserto.
De tanto amar cheguei a tanta tristeza,
de tanto combater fui destruído
e agora entre as mãos de Tereza
dormirá a cabeça de um bandido.
Foi meu corpo primeiro separado,
degolado depois de ter caído,
não clamo pelo crime consumado,
só reclamo por meu amor perdido.
Minha morta me esperava e tenho chegado
pelo caminho duro que tenho seguido
para juntar-me com ela no estado
que matando e morrendo tenho conseguido.
Sou só uma cabeça dessangrada,
não se movem meus lábios com meu acento,
os mortos não deviam dizer nada
a não ser através da chuva e do vento.
Mas como saberão os que virão
entre a névoa, a verdade desnuda?
Daqui a cem anos, peço, companheiros,
que cante para mim Pablo Neruda.
Não pelo mal que tenha ou não tenha feito,
nem pelo bem, tampouco, que sustive,
mas porque a honra foi meu direito
quando perdi o único bem que tive.
E assim na inquebrantável primavera
passará o tempo e se saberá minha vida,
que em sendo amarga também é justiceira
não a dou por ganha nem perdida.
E como toda vida passageira
foi talvez como um sonho confundida.
Os violentos mataram minha quimera
e por herança deixo minhas feridas.
Piedade para sua sombra! Entreguemos a rosa que levam à sua amada adormecida,
a todo o amor e à dor e ao sangue vertido, e nas portas do ódio esperemos
que regresse à sua cova a escura violência e que suba a clara consciência
à altura madura do trigo e o ouro não seja testemunha de crime e fúria e o pão de amanhã na terra
não tenha o sabor do sangue do homem caído na guerra.
Já dorme o adormecido e repousa em sua fossa a rosa.
Já jaz o bandido acossado e caído: descansa na paz de sua esposa.
E sobe a lua escarlate pelas escadas do céu.
A noite engole quem mata e o morto e rolam por seu veludo
as estrelas frias, a sombra estrangeira se enche de espigas de prata
e aqui terminou minha cantata na paz da morte e da noite.
Não é meu o reproche por sua cavalgada de fogo e espanto.
Quem pode julgar seu quebranto? Foi um homem valente e perdido
e para estas almas ardentes não existe um caminho elegido:
o fogo os leva em seus dentes, os queima, os alça, os devolve a seu ninho
e se sustiveram voando na chama; seu fogo os tem consumido.
Murieta violento e rebelde regressa em meu canto ao
metal e às minas do Chile,
já seu juramento termina entre tanta vingança cumprida,
a pátria olvidou aquele espanto e sua pobre cabeça cortada e caída
é só a sombra do sonho distante e errante que foi sua romântica vida.
Regressa e descansa e galopa no ar para o Sul seu cavalo escarlate;
os rios natais o cantam com sua boca de prata e o canta também o poeta.
Foi amargo e violento o destino de Joaquín Murieta.
Desde esse minuto o Povo repete como um sino enterrado minha longa cantata de luto.
um menino nas trevas é um morto.
Não sei por que tinha que morrer
para seguir sem rumo no deserto.
De tanto amar cheguei a tanta tristeza,
de tanto combater fui destruído
e agora entre as mãos de Tereza
dormirá a cabeça de um bandido.
Foi meu corpo primeiro separado,
degolado depois de ter caído,
não clamo pelo crime consumado,
só reclamo por meu amor perdido.
Minha morta me esperava e tenho chegado
pelo caminho duro que tenho seguido
para juntar-me com ela no estado
que matando e morrendo tenho conseguido.
Sou só uma cabeça dessangrada,
não se movem meus lábios com meu acento,
os mortos não deviam dizer nada
a não ser através da chuva e do vento.
Mas como saberão os que virão
entre a névoa, a verdade desnuda?
Daqui a cem anos, peço, companheiros,
que cante para mim Pablo Neruda.
Não pelo mal que tenha ou não tenha feito,
nem pelo bem, tampouco, que sustive,
mas porque a honra foi meu direito
quando perdi o único bem que tive.
E assim na inquebrantável primavera
passará o tempo e se saberá minha vida,
que em sendo amarga também é justiceira
não a dou por ganha nem perdida.
E como toda vida passageira
foi talvez como um sonho confundida.
Os violentos mataram minha quimera
e por herança deixo minhas feridas.
Piedade para sua sombra! Entreguemos a rosa que levam à sua amada adormecida,
a todo o amor e à dor e ao sangue vertido, e nas portas do ódio esperemos
que regresse à sua cova a escura violência e que suba a clara consciência
à altura madura do trigo e o ouro não seja testemunha de crime e fúria e o pão de amanhã na terra
não tenha o sabor do sangue do homem caído na guerra.
Já dorme o adormecido e repousa em sua fossa a rosa.
Já jaz o bandido acossado e caído: descansa na paz de sua esposa.
E sobe a lua escarlate pelas escadas do céu.
A noite engole quem mata e o morto e rolam por seu veludo
as estrelas frias, a sombra estrangeira se enche de espigas de prata
e aqui terminou minha cantata na paz da morte e da noite.
Não é meu o reproche por sua cavalgada de fogo e espanto.
Quem pode julgar seu quebranto? Foi um homem valente e perdido
e para estas almas ardentes não existe um caminho elegido:
o fogo os leva em seus dentes, os queima, os alça, os devolve a seu ninho
e se sustiveram voando na chama; seu fogo os tem consumido.
Murieta violento e rebelde regressa em meu canto ao
metal e às minas do Chile,
já seu juramento termina entre tanta vingança cumprida,
a pátria olvidou aquele espanto e sua pobre cabeça cortada e caída
é só a sombra do sonho distante e errante que foi sua romântica vida.
Regressa e descansa e galopa no ar para o Sul seu cavalo escarlate;
os rios natais o cantam com sua boca de prata e o canta também o poeta.
Foi amargo e violento o destino de Joaquín Murieta.
Desde esse minuto o Povo repete como um sino enterrado minha longa cantata de luto.
1 125
Pablo Neruda
Fala a cabeça de Murieta
Ninguém me escuta, posso falar por fim,
um menino nas trevas é um morto.
Não sei por que tinha que morrer
para seguir sem rumo no deserto.
De tanto amar cheguei a tanta tristeza,
de tanto combater fui destruído
e agora entre as mãos de Tereza
dormirá a cabeça de um bandido.
Foi meu corpo primeiro separado,
degolado depois de ter caído,
não clamo pelo crime consumado,
só reclamo por meu amor perdido.
Minha morta me esperava e tenho chegado
pelo caminho duro que tenho seguido
para juntar-me com ela no estado
que matando e morrendo tenho conseguido.
Sou só uma cabeça dessangrada,
não se movem meus lábios com meu acento,
os mortos não deviam dizer nada
a não ser através da chuva e do vento.
Mas como saberão os que virão
entre a névoa, a verdade desnuda?
Daqui a cem anos, peço, companheiros,
que cante para mim Pablo Neruda.
Não pelo mal que tenha ou não tenha feito,
nem pelo bem, tampouco, que sustive,
mas porque a honra foi meu direito
quando perdi o único bem que tive.
E assim na inquebrantável primavera
passará o tempo e se saberá minha vida,
que em sendo amarga também é justiceira
não a dou por ganha nem perdida.
E como toda vida passageira
foi talvez como um sonho confundida.
Os violentos mataram minha quimera
e por herança deixo minhas feridas.
Piedade para sua sombra! Entreguemos a rosa que levam à sua amada adormecida,
a todo o amor e à dor e ao sangue vertido, e nas portas do ódio esperemos
que regresse à sua cova a escura violência e que suba a clara consciência
à altura madura do trigo e o ouro não seja testemunha de crime e fúria e o pão de amanhã na terra
não tenha o sabor do sangue do homem caído na guerra.
Já dorme o adormecido e repousa em sua fossa a rosa.
Já jaz o bandido acossado e caído: descansa na paz de sua esposa.
E sobe a lua escarlate pelas escadas do céu.
A noite engole quem mata e o morto e rolam por seu veludo
as estrelas frias, a sombra estrangeira se enche de espigas de prata
e aqui terminou minha cantata na paz da morte e da noite.
Não é meu o reproche por sua cavalgada de fogo e espanto.
Quem pode julgar seu quebranto? Foi um homem valente e perdido
e para estas almas ardentes não existe um caminho elegido:
o fogo os leva em seus dentes, os queima, os alça, os devolve a seu ninho
e se sustiveram voando na chama; seu fogo os tem consumido.
Murieta violento e rebelde regressa em meu canto ao
metal e às minas do Chile,
já seu juramento termina entre tanta vingança cumprida,
a pátria olvidou aquele espanto e sua pobre cabeça cortada e caída
é só a sombra do sonho distante e errante que foi sua romântica vida.
Regressa e descansa e galopa no ar para o Sul seu cavalo escarlate;
os rios natais o cantam com sua boca de prata e o canta também o poeta.
Foi amargo e violento o destino de Joaquín Murieta.
Desde esse minuto o Povo repete como um sino enterrado minha longa cantata de luto.
um menino nas trevas é um morto.
Não sei por que tinha que morrer
para seguir sem rumo no deserto.
De tanto amar cheguei a tanta tristeza,
de tanto combater fui destruído
e agora entre as mãos de Tereza
dormirá a cabeça de um bandido.
Foi meu corpo primeiro separado,
degolado depois de ter caído,
não clamo pelo crime consumado,
só reclamo por meu amor perdido.
Minha morta me esperava e tenho chegado
pelo caminho duro que tenho seguido
para juntar-me com ela no estado
que matando e morrendo tenho conseguido.
Sou só uma cabeça dessangrada,
não se movem meus lábios com meu acento,
os mortos não deviam dizer nada
a não ser através da chuva e do vento.
Mas como saberão os que virão
entre a névoa, a verdade desnuda?
Daqui a cem anos, peço, companheiros,
que cante para mim Pablo Neruda.
Não pelo mal que tenha ou não tenha feito,
nem pelo bem, tampouco, que sustive,
mas porque a honra foi meu direito
quando perdi o único bem que tive.
E assim na inquebrantável primavera
passará o tempo e se saberá minha vida,
que em sendo amarga também é justiceira
não a dou por ganha nem perdida.
E como toda vida passageira
foi talvez como um sonho confundida.
Os violentos mataram minha quimera
e por herança deixo minhas feridas.
Piedade para sua sombra! Entreguemos a rosa que levam à sua amada adormecida,
a todo o amor e à dor e ao sangue vertido, e nas portas do ódio esperemos
que regresse à sua cova a escura violência e que suba a clara consciência
à altura madura do trigo e o ouro não seja testemunha de crime e fúria e o pão de amanhã na terra
não tenha o sabor do sangue do homem caído na guerra.
Já dorme o adormecido e repousa em sua fossa a rosa.
Já jaz o bandido acossado e caído: descansa na paz de sua esposa.
E sobe a lua escarlate pelas escadas do céu.
A noite engole quem mata e o morto e rolam por seu veludo
as estrelas frias, a sombra estrangeira se enche de espigas de prata
e aqui terminou minha cantata na paz da morte e da noite.
Não é meu o reproche por sua cavalgada de fogo e espanto.
Quem pode julgar seu quebranto? Foi um homem valente e perdido
e para estas almas ardentes não existe um caminho elegido:
o fogo os leva em seus dentes, os queima, os alça, os devolve a seu ninho
e se sustiveram voando na chama; seu fogo os tem consumido.
Murieta violento e rebelde regressa em meu canto ao
metal e às minas do Chile,
já seu juramento termina entre tanta vingança cumprida,
a pátria olvidou aquele espanto e sua pobre cabeça cortada e caída
é só a sombra do sonho distante e errante que foi sua romântica vida.
Regressa e descansa e galopa no ar para o Sul seu cavalo escarlate;
os rios natais o cantam com sua boca de prata e o canta também o poeta.
Foi amargo e violento o destino de Joaquín Murieta.
Desde esse minuto o Povo repete como um sino enterrado minha longa cantata de luto.
1 125
Affonso Romano de Sant'Anna
Irei a Lucca, Caminho do Mar
Irei a Lucca, caminho do mar.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
1 026
Affonso Romano de Sant'Anna
Irei a Lucca, Caminho do Mar
Irei a Lucca, caminho do mar.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
1 026
Affonso Romano de Sant'Anna
Irei a Lucca, Caminho do Mar
Irei a Lucca, caminho do mar.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
Aí, de novo, amostras da arte de Bronzino, Tintoretto,
Andrea della Robbia e Filipino Lippi.
Como soam ternos, íntimos esses nomes.
Adiante
a fachada da Chiesa de San Michelle
aquela pracinha rodeada de prédios medievais
erguidos sobre as pedras do circo romano.
Caminhar sem medo do desconhecido no entardecer
em Lucca
sobre seus largos muros
entre escuros troncos de olmo e dourados plátanos.
Um sino toca desde sempre
e epifanicamente
nos achamos perdidos
na Toscana.
1 026
Affonso Romano de Sant'Anna
Entre Castelos
Tenho conhecido castelos à beira-mar,
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.
Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.
Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.
Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.
Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?
1 033
Affonso Romano de Sant'Anna
Entre Castelos
Tenho conhecido castelos à beira-mar,
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.
Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.
Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.
Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.
Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?
1 033