Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Pablo Neruda
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Do ditirambo à raiz do mar
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
1 121
Pablo Neruda
A Boca Que Canta
Vou desde os pinhais
até as bocas descidas do Danúbio,
o ar azul sacode
as vidas e a vida.
O ar limpa o fundo
dos salões, entra
pelas janelas
um vento de bandeiras populares.
Apagando nesta hora,
Romênia, com tuas mãos os farrapos
de teu povo, mostraste
uma nova cabeça, novos olhos,
nova boca que canta,
e não só uma raça de pastores
mostras hoje na terra,
mas uma deslumbrante
construção que caminha.
até as bocas descidas do Danúbio,
o ar azul sacode
as vidas e a vida.
O ar limpa o fundo
dos salões, entra
pelas janelas
um vento de bandeiras populares.
Apagando nesta hora,
Romênia, com tuas mãos os farrapos
de teu povo, mostraste
uma nova cabeça, novos olhos,
nova boca que canta,
e não só uma raça de pastores
mostras hoje na terra,
mas uma deslumbrante
construção que caminha.
1 247
Pablo Neruda
A Boca Que Canta
Vou desde os pinhais
até as bocas descidas do Danúbio,
o ar azul sacode
as vidas e a vida.
O ar limpa o fundo
dos salões, entra
pelas janelas
um vento de bandeiras populares.
Apagando nesta hora,
Romênia, com tuas mãos os farrapos
de teu povo, mostraste
uma nova cabeça, novos olhos,
nova boca que canta,
e não só uma raça de pastores
mostras hoje na terra,
mas uma deslumbrante
construção que caminha.
até as bocas descidas do Danúbio,
o ar azul sacode
as vidas e a vida.
O ar limpa o fundo
dos salões, entra
pelas janelas
um vento de bandeiras populares.
Apagando nesta hora,
Romênia, com tuas mãos os farrapos
de teu povo, mostraste
uma nova cabeça, novos olhos,
nova boca que canta,
e não só uma raça de pastores
mostras hoje na terra,
mas uma deslumbrante
construção que caminha.
1 247
Pablo Neruda
O Herói
Em uma rua de Santiago
tem vivido um homem desnudo
por tantos longos anos, sim,
sem calçar-se, não, sem vestir-se
e com chapéu, no entretanto.
Sem mais roupagem que seus pêlos
este varão filosofante
mostrou-se no balcão às vezes
e viu-o a cidadania
como um nudista solitário
inimigo das camisas,
da calça e da casaca.
Assim passavam as modas,
desapareciam os coletes
e voltavam certas lapelas,
certas bengalas em desuso:
tudo era ressurreição
e eram enterros na roupa,
tudo, menos aquele mortal
tão nu quanto veio ao mundo,
desdenhoso como os deuses
dedicados à ginástica.
(Os testemunhos e as testemunhas
do habitante singular
dão detalhes que me estremecem
ao mostrar a transformação
do homem e sua fisiologia.)
Depois daquela nudez
com quarenta anos de nu
da cabeça até os pés
se cobriu com escamas negras
e os cabelos lhe cobriram
de tal maneira os olhos
que nunca mais pôde ler,
nem do dia os jornais.
Assim ficou seu pensamento
fixo em um ponto do passado
como o antigo editorial
de um jornal desaparecido.
(Curioso caso o daquele varão
que morreu quando perseguia
seu canário no terraço.)
Fica provado nesta história
que a boa fé não resiste
às investidas do inverno.
tem vivido um homem desnudo
por tantos longos anos, sim,
sem calçar-se, não, sem vestir-se
e com chapéu, no entretanto.
Sem mais roupagem que seus pêlos
este varão filosofante
mostrou-se no balcão às vezes
e viu-o a cidadania
como um nudista solitário
inimigo das camisas,
da calça e da casaca.
Assim passavam as modas,
desapareciam os coletes
e voltavam certas lapelas,
certas bengalas em desuso:
tudo era ressurreição
e eram enterros na roupa,
tudo, menos aquele mortal
tão nu quanto veio ao mundo,
desdenhoso como os deuses
dedicados à ginástica.
(Os testemunhos e as testemunhas
do habitante singular
dão detalhes que me estremecem
ao mostrar a transformação
do homem e sua fisiologia.)
Depois daquela nudez
com quarenta anos de nu
da cabeça até os pés
se cobriu com escamas negras
e os cabelos lhe cobriram
de tal maneira os olhos
que nunca mais pôde ler,
nem do dia os jornais.
Assim ficou seu pensamento
fixo em um ponto do passado
como o antigo editorial
de um jornal desaparecido.
(Curioso caso o daquele varão
que morreu quando perseguia
seu canário no terraço.)
Fica provado nesta história
que a boa fé não resiste
às investidas do inverno.
664
Pablo Neruda
(H.V.)
Aconteceu-me com aquele fulano
recomendado, conhecido apenas,
passageiro do barco, o mesmo barco
em que viajei fatigado de rostos.
Quis não o ver, foi impossível.
Impus-me outro dever contra minha vida:
ser amistoso invés de indiferente
por causa de sua rápida mulher,
alta e bela, com frutos e com olhos.
Agora vejo minha equivocação
no seu triste relato de viajante.
Fui provincianamente generoso.
Não cresceu sua mesquinha condição
por minha mão de amigo, naquele barco,
sua desconfiança em si seguiu mais forte
como se alguém pudesse convencer
aos que não acreditaram em si mesmos
que não se desprezem em suas guerras
contra a própria sombra. Assim nasceram.
recomendado, conhecido apenas,
passageiro do barco, o mesmo barco
em que viajei fatigado de rostos.
Quis não o ver, foi impossível.
Impus-me outro dever contra minha vida:
ser amistoso invés de indiferente
por causa de sua rápida mulher,
alta e bela, com frutos e com olhos.
Agora vejo minha equivocação
no seu triste relato de viajante.
Fui provincianamente generoso.
Não cresceu sua mesquinha condição
por minha mão de amigo, naquele barco,
sua desconfiança em si seguiu mais forte
como se alguém pudesse convencer
aos que não acreditaram em si mesmos
que não se desprezem em suas guerras
contra a própria sombra. Assim nasceram.
1 112
Pablo Neruda
Nomes
Ai, Eduvigis, que nome tão belo tens,
mulher de coração azul;
és um nome de rainha
que pouco a pouco chegou às cozinhas
e não regressou aos palácios.
Eduvigis
está feito de sílabas trançadas
com résteas de alhos
penduradas nas vigas.
Se olharmos teu nome na noite,
cuidado, resplandece
como uma tiara desde a cinza
como uma brasa verde
escondida no tempo.
mulher de coração azul;
és um nome de rainha
que pouco a pouco chegou às cozinhas
e não regressou aos palácios.
Eduvigis
está feito de sílabas trançadas
com résteas de alhos
penduradas nas vigas.
Se olharmos teu nome na noite,
cuidado, resplandece
como uma tiara desde a cinza
como uma brasa verde
escondida no tempo.
1 173
Pablo Neruda
Recordações da Amizade
Era uma tal obstinação
a de meu amigo Rupertino
que dedicou seu desinteresse
a empresas sempre inúteis:
explorou reinos explorados,
fabricou milhões de buracos,
abriu um clube de viúvas heróicas
e vendia fumaça engarrafada.
Eu desde criança me fiz de Sancho
contra meu sócio quixotesco:
argumentei com força e prudência
como uma tia protetora
quando quis plantar laranjeiras
nos tetos de Notre Dame.
Logo, cansado de aturá-lo,
eu o deixei em nova indústria:
“Bote Ataúde”, “Lancha Sarcófago”
para presuntos suicidas.
Minha paciência não aguentou
e abandonei sua vizinhança.
Quando meu amigo foi eleito
Presidente de Costaragua
me nomeou Generalissimo,
a cargo de seu território:
era sua ordem invadir
as monarquias cafeeiras
regidas por reis furiosos
que ameaçavam sua existência.
Por fraqueza de caráter
e amizade antiga e pueril
aceitei aquele comando
e com quarenta involuntários
avancei sobre as fronteiras.
Ninguém sabe o que é
morder o pó da derrota:
entre Marfil e Costaragua
derreteram de calor
meus aguerridos combatentes
e eu fiquei só, cercado
por cinquenta reis raivosos.
Voltei arrependido das guerras,
sem título de General.
Busquei meu amigo quixoteiro:
ninguém sabia onde estava.
Logo o encontrei no Canadá
vendendo penas de pinguim
(ave implume por excelência,
o que não tinha importância
para meu compadre obstinado).
No dia em que menos se espere
pode aparecer em sua casa:
acredite em tudo o que conta
porque depois de tudo é ele
o que sempre teve razão.
a de meu amigo Rupertino
que dedicou seu desinteresse
a empresas sempre inúteis:
explorou reinos explorados,
fabricou milhões de buracos,
abriu um clube de viúvas heróicas
e vendia fumaça engarrafada.
Eu desde criança me fiz de Sancho
contra meu sócio quixotesco:
argumentei com força e prudência
como uma tia protetora
quando quis plantar laranjeiras
nos tetos de Notre Dame.
Logo, cansado de aturá-lo,
eu o deixei em nova indústria:
“Bote Ataúde”, “Lancha Sarcófago”
para presuntos suicidas.
Minha paciência não aguentou
e abandonei sua vizinhança.
Quando meu amigo foi eleito
Presidente de Costaragua
me nomeou Generalissimo,
a cargo de seu território:
era sua ordem invadir
as monarquias cafeeiras
regidas por reis furiosos
que ameaçavam sua existência.
Por fraqueza de caráter
e amizade antiga e pueril
aceitei aquele comando
e com quarenta involuntários
avancei sobre as fronteiras.
Ninguém sabe o que é
morder o pó da derrota:
entre Marfil e Costaragua
derreteram de calor
meus aguerridos combatentes
e eu fiquei só, cercado
por cinquenta reis raivosos.
Voltei arrependido das guerras,
sem título de General.
Busquei meu amigo quixoteiro:
ninguém sabia onde estava.
Logo o encontrei no Canadá
vendendo penas de pinguim
(ave implume por excelência,
o que não tinha importância
para meu compadre obstinado).
No dia em que menos se espere
pode aparecer em sua casa:
acredite em tudo o que conta
porque depois de tudo é ele
o que sempre teve razão.
1 347
Pablo Neruda
Um Certo Monteiro
Conheci-o (e aquele homem se chamava
Montero) no tumulto
de uma guerra em que estive.
Ele estava grudado à política
como uma concha à geologia,
e parecia ser a coralífera
expressão, mais um do organismo,
vital e vitalício, jactancioso
de uma pureza como a do povo.
Agora, bem, aquele homem se rompeu
e sua autenticidade era mentira.
Não era aquilo, descobrimos,
não era uma uva do cacho escuro,
não era o gregário da vontade,
nem o capitão unânime:
tudo que levava caiu
como uma roupa velha. E ficou nu:
apenas um vociferante indivíduo
surgido de um lamaçal silvestre.
Mas o que importa ou o que não suporto
é que a falsidade deste ou daquele
achem máscaras e luvas e roupas
tão suntuosas e tão enfeitadas
que nós, os verdadeiros,
convencidos de tudo e boquiabertos
colaboramos em seu carnaval
sem saber direito onde está a vida.
Ah, e que não se chame de traidores
a tantos que ensinaram a verdade
vivendo-a talvez com inteireza
para chegar a ser seus inimigos
e odiaram desde então
o que eles foram e o que sempre somos.
O pobre renegado
de lugar em lugares vive,
sobrevive em hotéis presunçosos
condenando-se mais e mais amargo
até explicar-se ao vazio
já sem outra companhia além do umbigo.
Por que maldizê-los quando se gastaram
vertendo o frio que traziam dentro?
Montero) no tumulto
de uma guerra em que estive.
Ele estava grudado à política
como uma concha à geologia,
e parecia ser a coralífera
expressão, mais um do organismo,
vital e vitalício, jactancioso
de uma pureza como a do povo.
Agora, bem, aquele homem se rompeu
e sua autenticidade era mentira.
Não era aquilo, descobrimos,
não era uma uva do cacho escuro,
não era o gregário da vontade,
nem o capitão unânime:
tudo que levava caiu
como uma roupa velha. E ficou nu:
apenas um vociferante indivíduo
surgido de um lamaçal silvestre.
Mas o que importa ou o que não suporto
é que a falsidade deste ou daquele
achem máscaras e luvas e roupas
tão suntuosas e tão enfeitadas
que nós, os verdadeiros,
convencidos de tudo e boquiabertos
colaboramos em seu carnaval
sem saber direito onde está a vida.
Ah, e que não se chame de traidores
a tantos que ensinaram a verdade
vivendo-a talvez com inteireza
para chegar a ser seus inimigos
e odiaram desde então
o que eles foram e o que sempre somos.
O pobre renegado
de lugar em lugares vive,
sobrevive em hotéis presunçosos
condenando-se mais e mais amargo
até explicar-se ao vazio
já sem outra companhia além do umbigo.
Por que maldizê-los quando se gastaram
vertendo o frio que traziam dentro?
576
Pablo Neruda
Um Certo Monteiro
Conheci-o (e aquele homem se chamava
Montero) no tumulto
de uma guerra em que estive.
Ele estava grudado à política
como uma concha à geologia,
e parecia ser a coralífera
expressão, mais um do organismo,
vital e vitalício, jactancioso
de uma pureza como a do povo.
Agora, bem, aquele homem se rompeu
e sua autenticidade era mentira.
Não era aquilo, descobrimos,
não era uma uva do cacho escuro,
não era o gregário da vontade,
nem o capitão unânime:
tudo que levava caiu
como uma roupa velha. E ficou nu:
apenas um vociferante indivíduo
surgido de um lamaçal silvestre.
Mas o que importa ou o que não suporto
é que a falsidade deste ou daquele
achem máscaras e luvas e roupas
tão suntuosas e tão enfeitadas
que nós, os verdadeiros,
convencidos de tudo e boquiabertos
colaboramos em seu carnaval
sem saber direito onde está a vida.
Ah, e que não se chame de traidores
a tantos que ensinaram a verdade
vivendo-a talvez com inteireza
para chegar a ser seus inimigos
e odiaram desde então
o que eles foram e o que sempre somos.
O pobre renegado
de lugar em lugares vive,
sobrevive em hotéis presunçosos
condenando-se mais e mais amargo
até explicar-se ao vazio
já sem outra companhia além do umbigo.
Por que maldizê-los quando se gastaram
vertendo o frio que traziam dentro?
Montero) no tumulto
de uma guerra em que estive.
Ele estava grudado à política
como uma concha à geologia,
e parecia ser a coralífera
expressão, mais um do organismo,
vital e vitalício, jactancioso
de uma pureza como a do povo.
Agora, bem, aquele homem se rompeu
e sua autenticidade era mentira.
Não era aquilo, descobrimos,
não era uma uva do cacho escuro,
não era o gregário da vontade,
nem o capitão unânime:
tudo que levava caiu
como uma roupa velha. E ficou nu:
apenas um vociferante indivíduo
surgido de um lamaçal silvestre.
Mas o que importa ou o que não suporto
é que a falsidade deste ou daquele
achem máscaras e luvas e roupas
tão suntuosas e tão enfeitadas
que nós, os verdadeiros,
convencidos de tudo e boquiabertos
colaboramos em seu carnaval
sem saber direito onde está a vida.
Ah, e que não se chame de traidores
a tantos que ensinaram a verdade
vivendo-a talvez com inteireza
para chegar a ser seus inimigos
e odiaram desde então
o que eles foram e o que sempre somos.
O pobre renegado
de lugar em lugares vive,
sobrevive em hotéis presunçosos
condenando-se mais e mais amargo
até explicar-se ao vazio
já sem outra companhia além do umbigo.
Por que maldizê-los quando se gastaram
vertendo o frio que traziam dentro?
576
Pablo Neruda
Um Certo Monteiro
Conheci-o (e aquele homem se chamava
Montero) no tumulto
de uma guerra em que estive.
Ele estava grudado à política
como uma concha à geologia,
e parecia ser a coralífera
expressão, mais um do organismo,
vital e vitalício, jactancioso
de uma pureza como a do povo.
Agora, bem, aquele homem se rompeu
e sua autenticidade era mentira.
Não era aquilo, descobrimos,
não era uma uva do cacho escuro,
não era o gregário da vontade,
nem o capitão unânime:
tudo que levava caiu
como uma roupa velha. E ficou nu:
apenas um vociferante indivíduo
surgido de um lamaçal silvestre.
Mas o que importa ou o que não suporto
é que a falsidade deste ou daquele
achem máscaras e luvas e roupas
tão suntuosas e tão enfeitadas
que nós, os verdadeiros,
convencidos de tudo e boquiabertos
colaboramos em seu carnaval
sem saber direito onde está a vida.
Ah, e que não se chame de traidores
a tantos que ensinaram a verdade
vivendo-a talvez com inteireza
para chegar a ser seus inimigos
e odiaram desde então
o que eles foram e o que sempre somos.
O pobre renegado
de lugar em lugares vive,
sobrevive em hotéis presunçosos
condenando-se mais e mais amargo
até explicar-se ao vazio
já sem outra companhia além do umbigo.
Por que maldizê-los quando se gastaram
vertendo o frio que traziam dentro?
Montero) no tumulto
de uma guerra em que estive.
Ele estava grudado à política
como uma concha à geologia,
e parecia ser a coralífera
expressão, mais um do organismo,
vital e vitalício, jactancioso
de uma pureza como a do povo.
Agora, bem, aquele homem se rompeu
e sua autenticidade era mentira.
Não era aquilo, descobrimos,
não era uma uva do cacho escuro,
não era o gregário da vontade,
nem o capitão unânime:
tudo que levava caiu
como uma roupa velha. E ficou nu:
apenas um vociferante indivíduo
surgido de um lamaçal silvestre.
Mas o que importa ou o que não suporto
é que a falsidade deste ou daquele
achem máscaras e luvas e roupas
tão suntuosas e tão enfeitadas
que nós, os verdadeiros,
convencidos de tudo e boquiabertos
colaboramos em seu carnaval
sem saber direito onde está a vida.
Ah, e que não se chame de traidores
a tantos que ensinaram a verdade
vivendo-a talvez com inteireza
para chegar a ser seus inimigos
e odiaram desde então
o que eles foram e o que sempre somos.
O pobre renegado
de lugar em lugares vive,
sobrevive em hotéis presunçosos
condenando-se mais e mais amargo
até explicar-se ao vazio
já sem outra companhia além do umbigo.
Por que maldizê-los quando se gastaram
vertendo o frio que traziam dentro?
576
Pablo Neruda
Pedro É o Quando
Pedro é o quando e o como,
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
1 184
Pablo Neruda
Pedro É o Quando
Pedro é o quando e o como,
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
1 184
Pablo Neruda
Pedro É o Quando
Pedro é o quando e o como,
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
1 184
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
567
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
567
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
567
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
567
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
567
Pablo Neruda
Uma Estátua No Silêncio
Tanto ocorre no vozerio,
tantos sinos foram escutados
quando amavam ou descobriam
ou quando se condecoravam
que desconfiei da algazarra
e vim para viver a pé
nesta zona de silêncio.
Quando despenca uma ameixa,
quando uma onda desmaia,
quando rodam meninas douradas
na molície da areia,
ou quando uma sucessão
de aves imensas me precede,
em minha calada exploração
não sonha nem uiva nem troveja,
não se sussurra nem murmura:
por isso me quedei vivendo
na música do silêncio.
O ar está mudo ainda,
os automóveis resvalam
sobre algodões invisíveis
e as multidões políticas
com ademanes enluvados
transcorrem em um hemisfério
onde não voa uma mosca.
As mulheres mais tagarelas
afogaram-se nos tanques
ou navegam como os cisnes,
como as nuvens no céu,
e vão os trens do verão
repletos de frutas e bocas
sem um apito nem uma roda
que range, como ciclones
encadeados ao silêncio.
Os meses são como cortinas,
como taciturnas alfombras:
bailam aqui as estações
até que dorme no salão
a estátua imóvel do inverno.
tantos sinos foram escutados
quando amavam ou descobriam
ou quando se condecoravam
que desconfiei da algazarra
e vim para viver a pé
nesta zona de silêncio.
Quando despenca uma ameixa,
quando uma onda desmaia,
quando rodam meninas douradas
na molície da areia,
ou quando uma sucessão
de aves imensas me precede,
em minha calada exploração
não sonha nem uiva nem troveja,
não se sussurra nem murmura:
por isso me quedei vivendo
na música do silêncio.
O ar está mudo ainda,
os automóveis resvalam
sobre algodões invisíveis
e as multidões políticas
com ademanes enluvados
transcorrem em um hemisfério
onde não voa uma mosca.
As mulheres mais tagarelas
afogaram-se nos tanques
ou navegam como os cisnes,
como as nuvens no céu,
e vão os trens do verão
repletos de frutas e bocas
sem um apito nem uma roda
que range, como ciclones
encadeados ao silêncio.
Os meses são como cortinas,
como taciturnas alfombras:
bailam aqui as estações
até que dorme no salão
a estátua imóvel do inverno.
697
Pablo Neruda
Saúde, Dizemos Cada Dia
Saúde, dizemos cada dia,
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
1 258
Pablo Neruda
Saúde, Dizemos Cada Dia
Saúde, dizemos cada dia,
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
1 258
Pablo Neruda
Meio-Dia - LIII
Aqui está o pão, o vinho, a mesa, a morada:
o ofício do homem, a mulher e a vida:
a este lugar corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a comum queimadura.
Honra a tuas duas mãos que voam preparando
os brancos resultados do canto e a cozinha,
salve! a inteireza de teus pés corredores,
viva! a bailarina que baila com a escova.
Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,
aquele atormentado pavilhão da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes
são hoje este repouso de teu sangue no meu,
este leito estrelado e azul como a noite
esta simplicidade sem-fim da ternura.
o ofício do homem, a mulher e a vida:
a este lugar corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a comum queimadura.
Honra a tuas duas mãos que voam preparando
os brancos resultados do canto e a cozinha,
salve! a inteireza de teus pés corredores,
viva! a bailarina que baila com a escova.
Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,
aquele atormentado pavilhão da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes
são hoje este repouso de teu sangue no meu,
este leito estrelado e azul como a noite
esta simplicidade sem-fim da ternura.
569
Pablo Neruda
Não Há Muito Que Contar
Não há muito que contar,
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
1 115
Pablo Neruda
Antoine Courage
Aquele alguém depois de ter nascido
dedicou-se a solapar sua existência
com esse material foi fabricando
uma torre desditosa:
e para mim o estranho daquele homem
tão claro e evidente como foi
era aparecer na janela
para que as mulheres e os homens
vissem-no através dos cristais
vissem-no pobre ou rico, aplaudissem-no
com duas mulheres ao mesmo tempo, nu,
vissem-no militante ou isolado,
impuro, cristalino,
em sua miséria, em seu Jaguar entupido
de drogas eu ensinando a verdade,
eu aliviado em sua triste alegria.
Quando esta chama se apagou parece
fácil, no resplandor de nossa vida
ferir aquele que morreu, espalhar seus ossos,
desmoronar a torre de seu orgulho:
golpear a greta do contraditório
comendo o próprio pão de sua amargura:
e medir o soberbo destronado
com nossa secretíssima soberba:
ah, não é isso! não é isso! o que quero
é saber se aquele era o verdadeiro:
o que se consumia e se incendiava
ou o que clamava para que o vissem:
se foi aquele artesão do desprezo
esperando o amor do desprezado
como tantos mendigos iracundos.
Aqui deixo esta história:
não a terminei, mas a morte
porém se vê que todos somos juízes
e é nossa vontade encarniçada
participar da injustiça alheia.
dedicou-se a solapar sua existência
com esse material foi fabricando
uma torre desditosa:
e para mim o estranho daquele homem
tão claro e evidente como foi
era aparecer na janela
para que as mulheres e os homens
vissem-no através dos cristais
vissem-no pobre ou rico, aplaudissem-no
com duas mulheres ao mesmo tempo, nu,
vissem-no militante ou isolado,
impuro, cristalino,
em sua miséria, em seu Jaguar entupido
de drogas eu ensinando a verdade,
eu aliviado em sua triste alegria.
Quando esta chama se apagou parece
fácil, no resplandor de nossa vida
ferir aquele que morreu, espalhar seus ossos,
desmoronar a torre de seu orgulho:
golpear a greta do contraditório
comendo o próprio pão de sua amargura:
e medir o soberbo destronado
com nossa secretíssima soberba:
ah, não é isso! não é isso! o que quero
é saber se aquele era o verdadeiro:
o que se consumia e se incendiava
ou o que clamava para que o vissem:
se foi aquele artesão do desprezo
esperando o amor do desprezado
como tantos mendigos iracundos.
Aqui deixo esta história:
não a terminei, mas a morte
porém se vê que todos somos juízes
e é nossa vontade encarniçada
participar da injustiça alheia.
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