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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - a Polícia

Nós somos
da polícia.
— E você? Quem é?
Donde vem, aonde
pretende dirigir-se?
Seu pai? Seu cunhado?
Com quem dormiu as sete noites últimas?
— Eu dormi com meu amor, eu sou talvez,
talvez, talvez,
sou da Poesia —
E assim uma gôndola
mais negra que as outras
atrás de mim os transportou em Veneza,
em Bolonha, na noite,
no trem: sou uma sombra errante
seguida pela sombras.
Eu vi em Veneza, erguido o Campanile
elevando entre as pombas de São Marcos
seu tricórnio de polícia.
E Paulina, nua, no museu,
quando beijei sua bela boca fria
me disse: Tem em ordem seus papéis?
Na casa de Dante
sob os velhos telhados florentinos
há interrogatórios, e David
com seus olhos de mármore, sem pupilas
se esqueceu de seu pai, Buonarrotti,
porque o compelem diariamente a contar
o que com olhos cegos fitou.
No entanto aquele dia
em que me trasladaram à fronteira suíça
a polícia se deu conta de repente
que lhe saía no encalço
a militante poesia.
Não esquecerei a multidão romana
que na estação, de noite,
arrancou-me das mãos
da perseguidora polícia.

Como esquecer o gesto guerrilheiro
de Guttuso e o rosto de Giuliano,
a onda de ira, o soco nos narizes
dos sabujos, como esquecer Mário,
de quem no exílio
aprendi a amar a liberdade da Itália,
e agora irada sua cabeça branca
divisei confundindo-se
no mar agitado
de meus amigos e de meus inimigos?
Não esquecerei o pequeno
guarda-chuva de Elsa Morante
caindo sobre um peito policial
como a pesada pétala
de uma força florida.
E assim na Itália
por vontade do povo,
peso de poesia,
firmeza solidária,
ação da ternura
ficou meu destino.
E assim foi como
foi este livro nascendo
rodeado de mar e limoeiros,
escutando em silêncio,
detrás do muro da polícia,
como lutava e luta,
como cantava e canta
o valoroso povo
que ganhou uma batalha para que eu pudesse
descansar na ilha que me esperava
com um ramo em flor de jasmim na sua boca
e em suas pequenas mãos a fonte de meu canto.
1 261
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - a Polícia

Nós somos
da polícia.
— E você? Quem é?
Donde vem, aonde
pretende dirigir-se?
Seu pai? Seu cunhado?
Com quem dormiu as sete noites últimas?
— Eu dormi com meu amor, eu sou talvez,
talvez, talvez,
sou da Poesia —
E assim uma gôndola
mais negra que as outras
atrás de mim os transportou em Veneza,
em Bolonha, na noite,
no trem: sou uma sombra errante
seguida pela sombras.
Eu vi em Veneza, erguido o Campanile
elevando entre as pombas de São Marcos
seu tricórnio de polícia.
E Paulina, nua, no museu,
quando beijei sua bela boca fria
me disse: Tem em ordem seus papéis?
Na casa de Dante
sob os velhos telhados florentinos
há interrogatórios, e David
com seus olhos de mármore, sem pupilas
se esqueceu de seu pai, Buonarrotti,
porque o compelem diariamente a contar
o que com olhos cegos fitou.
No entanto aquele dia
em que me trasladaram à fronteira suíça
a polícia se deu conta de repente
que lhe saía no encalço
a militante poesia.
Não esquecerei a multidão romana
que na estação, de noite,
arrancou-me das mãos
da perseguidora polícia.

Como esquecer o gesto guerrilheiro
de Guttuso e o rosto de Giuliano,
a onda de ira, o soco nos narizes
dos sabujos, como esquecer Mário,
de quem no exílio
aprendi a amar a liberdade da Itália,
e agora irada sua cabeça branca
divisei confundindo-se
no mar agitado
de meus amigos e de meus inimigos?
Não esquecerei o pequeno
guarda-chuva de Elsa Morante
caindo sobre um peito policial
como a pesada pétala
de uma força florida.
E assim na Itália
por vontade do povo,
peso de poesia,
firmeza solidária,
ação da ternura
ficou meu destino.
E assim foi como
foi este livro nascendo
rodeado de mar e limoeiros,
escutando em silêncio,
detrás do muro da polícia,
como lutava e luta,
como cantava e canta
o valoroso povo
que ganhou uma batalha para que eu pudesse
descansar na ilha que me esperava
com um ramo em flor de jasmim na sua boca
e em suas pequenas mãos a fonte de meu canto.
1 261
Pablo Neruda

Pablo Neruda

V - Em Sua Morte

Camarada Stalin, eu estava junto ao mar na Ilha Negra,
descansando de lutas e de viagens,
quando a notícia de tua morte chegou como um choque de oceano.

Foi primeiro o silêncio, o estupor das coisas, e depois
chegou do mar uma onda grande.
De algas, metais e homens, pedras, espuma e lágrimas
estava feita esta onda.
De história, espaço e tempo recolheu sua matéria
e se elevou chorando sobre o mundo
até que diante de mim veio para golpear a costa
e derrubou em minhas portas sua mensagem de luto
com um grito gigante
como se de repente se quebrasse a terra.

Era em 1914.
Nas fábricas se acumulavam sujeiras e dores.
Os ricos do novo século
repartiam-se a dentadas o petróleo e as ilhas, o cobre
e os canais.
Nem uma só bandeira levantou suas cores
sem os respingos do sangue.
De Hong Kong a Chicago a polícia
buscava documentos e ensaiava
as metralhadoras na carne do povo.
As marchas militares desde a aurora
mandavam soldadinhos para morrer.
Frenético era o baile dos estrangeiros
nas boates de Paris cheias de fumo.
Sangrava o homem.
Uma chuva de sangue
caía do planeta,
manchava as estrelas.
A morte estreou então armaduras de aço.
A fome
nos caminhos da Europa
foi como um vento gelado aventando folhas secas e
quebrantando ossos.
O outono soprava os farrapos.
A guerra havia eriçado os caminhos.
Olor de inverno e sangue
emanava da Europa
como de um matadouro abandonado.
Enquanto isso os donos
do carvão,
do ferro,
do aço,
do fumo,
dos bancos,
do gás,
do ouro,
da farinha,
do salitre,
do jornal El Mercúrio,
os donos de bordéis,
os senadores norte-americanos,
os flibusteiros
carregados de ouro e sangue
de todos os países,
eram também os donos
da História.
Ali estavam sentados
de fraque, ocupadíssimos
em dispensar-se condecorações,
em presentear-se cheques na entrada
e roubá-los na saída,
em presentear-se ações da carnificina
e repartir-se a dentadas
pedaços de povo e de geografia.

Então com modesto
vestido e gorro operário,
entrou o vento,
entrou o vento do povo.
Era Lenin.
Mudou a terra, o homem, a vida.
O ar livre revolucionário
transtornou os papéis
manchados. Nasceu uma pátria
que não deixou de crescer.
É grande como um mundo, mas cabe
até no coração do mais
humilde
trabalhador de usina ou de oficina,
de agricultura ou barco.
Era a União Soviética.

Junto a Lenin
Stalin avançava
e assim, com blusa branca,
com gorro cinzento de operário,
Stalin,
com seu passo tranquilo,
entrou na História acompanhado
de Lenin e do vento.
Stalin desde então
foi construindo. Tudo
fazia falta. Lenin
recebeu dos czares
teias de aranha e farrapos.
Lenin deixou uma herança
de pátria livre e vasta.
Stalin a povoou
com escolas e farinha,
imprensas e maçãs.
Stalin desde o Volga
até a neve
do Norte inacessível
pôs sua mão e em sua mão um homem
começou a construir.
As cidades nasceram.
Os desertos cantaram
pela primeira vez com a voz da água.
Os minerais
acudiram,
saíram
de seus sonhos escuros,
levantaram-se,
tornaram-se trilhos, rodas,
locomotivas, fios
que levaram as sílabas elétricas
por toda a extensão e distância.
Stalin
construía.
Nasceram
de suas mãos
cereais,
tratores,
ensinamentos,
caminhos,
e ele ali
simples como tu e como eu,
se tu e eu conseguíssemos
ser simples como ele.
Porém o aprenderemos.
Sua simplicidade e sua sabedoria,
sua estrutura
de bondoso coração e de aço inflexível
nos ajuda a ser homens cada dia,
diariamente nos ajuda a ser homens.

Ser homens! É esta
a lei staliniana!
Ser comunista é difícil.
Há que aprender a sê-lo.
Ser homens comunistas
é ainda mais difícil,
e há que aprender de Stalin
sua intensidade serena,
sua claridade concreta,
seu desprezo
ao ouropel vazio,
à oca abstração editorial.
Ele foi diretamente
desenlaçando o nó
e mostrando a reta
claridade da linha,
entrando nos problemas
sem as frases que ocultam
o vazio,
direto ao centro débil
que em nossa luta retificaremos
podando as folhagens
e mostrando o desígnio dos frutos.
Stalin é o meio-dia,
a madureza do homem e dos povos.
Na guerra o viram
as cidades queimadas
extrair do escombro
a esperança,
refundida de novo,
fazê-la aço,
e atacar com seus raios
destruindo
a fortificação das trevas.

Mas também ajudou às macieiras
da Sibéria
a dar suas frutas debaixo da tormenta.

Ensinou a todos
a crescer, a crescer,
plantas e metais,
criaturas e rios
ensinou-lhes a crescer,
a dar frutos e fogo.
Ensinou-lhes a Paz
e assim deteve
com seu peito estendido
os lobos da guerra.

Diante do mar de Ilha Negra, na manhã,
icei em meia haste a bandeira do Chile.
Estava solitária a costa e uma névoa de prata
se mesclava ã espuma solene do oceano.
Em metade do seu mastro, no campo de azul,
a estrela solitária de minha pátria
parecia uma lágrima entre o céu e a terra.
Passou um homem do povo, saudou compreendendo,
e tirou o chapéu.
Veio um rapaz e me apertou a mão.

Mais tarde o pescador de ouriços, o velho búzio e poeta, Gonzalito, acercou-se para acompanhar-me sob a bandeira.
“Era mais sábio que todos os homens juntos”, me disse olhando o mar com seus velhos olhos, com os velhos olhos do povo.
E logo por longo instante não nos falamos nada.
Uma onda
estremeceu as pedras da margem.
“Porém Malenkov agora continuará sua obra”, prosseguiu
levantando-se o pobre pescador de jaqueta surrada.
Eu o fitei surpreendido pensando: como, como o sabe?
De onde, nesta costa solitária?
E compreendi que o mar lhe havia ensinado.

E ali velamos juntos, um poeta,
um pescador e o mar
ao Capitão remoto que ao entrar na morte
deixou a todos os povos, como herança, a vida.
1 154
Pablo Neruda

Pablo Neruda

V - Em Sua Morte

Camarada Stalin, eu estava junto ao mar na Ilha Negra,
descansando de lutas e de viagens,
quando a notícia de tua morte chegou como um choque de oceano.

Foi primeiro o silêncio, o estupor das coisas, e depois
chegou do mar uma onda grande.
De algas, metais e homens, pedras, espuma e lágrimas
estava feita esta onda.
De história, espaço e tempo recolheu sua matéria
e se elevou chorando sobre o mundo
até que diante de mim veio para golpear a costa
e derrubou em minhas portas sua mensagem de luto
com um grito gigante
como se de repente se quebrasse a terra.

Era em 1914.
Nas fábricas se acumulavam sujeiras e dores.
Os ricos do novo século
repartiam-se a dentadas o petróleo e as ilhas, o cobre
e os canais.
Nem uma só bandeira levantou suas cores
sem os respingos do sangue.
De Hong Kong a Chicago a polícia
buscava documentos e ensaiava
as metralhadoras na carne do povo.
As marchas militares desde a aurora
mandavam soldadinhos para morrer.
Frenético era o baile dos estrangeiros
nas boates de Paris cheias de fumo.
Sangrava o homem.
Uma chuva de sangue
caía do planeta,
manchava as estrelas.
A morte estreou então armaduras de aço.
A fome
nos caminhos da Europa
foi como um vento gelado aventando folhas secas e
quebrantando ossos.
O outono soprava os farrapos.
A guerra havia eriçado os caminhos.
Olor de inverno e sangue
emanava da Europa
como de um matadouro abandonado.
Enquanto isso os donos
do carvão,
do ferro,
do aço,
do fumo,
dos bancos,
do gás,
do ouro,
da farinha,
do salitre,
do jornal El Mercúrio,
os donos de bordéis,
os senadores norte-americanos,
os flibusteiros
carregados de ouro e sangue
de todos os países,
eram também os donos
da História.
Ali estavam sentados
de fraque, ocupadíssimos
em dispensar-se condecorações,
em presentear-se cheques na entrada
e roubá-los na saída,
em presentear-se ações da carnificina
e repartir-se a dentadas
pedaços de povo e de geografia.

Então com modesto
vestido e gorro operário,
entrou o vento,
entrou o vento do povo.
Era Lenin.
Mudou a terra, o homem, a vida.
O ar livre revolucionário
transtornou os papéis
manchados. Nasceu uma pátria
que não deixou de crescer.
É grande como um mundo, mas cabe
até no coração do mais
humilde
trabalhador de usina ou de oficina,
de agricultura ou barco.
Era a União Soviética.

Junto a Lenin
Stalin avançava
e assim, com blusa branca,
com gorro cinzento de operário,
Stalin,
com seu passo tranquilo,
entrou na História acompanhado
de Lenin e do vento.
Stalin desde então
foi construindo. Tudo
fazia falta. Lenin
recebeu dos czares
teias de aranha e farrapos.
Lenin deixou uma herança
de pátria livre e vasta.
Stalin a povoou
com escolas e farinha,
imprensas e maçãs.
Stalin desde o Volga
até a neve
do Norte inacessível
pôs sua mão e em sua mão um homem
começou a construir.
As cidades nasceram.
Os desertos cantaram
pela primeira vez com a voz da água.
Os minerais
acudiram,
saíram
de seus sonhos escuros,
levantaram-se,
tornaram-se trilhos, rodas,
locomotivas, fios
que levaram as sílabas elétricas
por toda a extensão e distância.
Stalin
construía.
Nasceram
de suas mãos
cereais,
tratores,
ensinamentos,
caminhos,
e ele ali
simples como tu e como eu,
se tu e eu conseguíssemos
ser simples como ele.
Porém o aprenderemos.
Sua simplicidade e sua sabedoria,
sua estrutura
de bondoso coração e de aço inflexível
nos ajuda a ser homens cada dia,
diariamente nos ajuda a ser homens.

Ser homens! É esta
a lei staliniana!
Ser comunista é difícil.
Há que aprender a sê-lo.
Ser homens comunistas
é ainda mais difícil,
e há que aprender de Stalin
sua intensidade serena,
sua claridade concreta,
seu desprezo
ao ouropel vazio,
à oca abstração editorial.
Ele foi diretamente
desenlaçando o nó
e mostrando a reta
claridade da linha,
entrando nos problemas
sem as frases que ocultam
o vazio,
direto ao centro débil
que em nossa luta retificaremos
podando as folhagens
e mostrando o desígnio dos frutos.
Stalin é o meio-dia,
a madureza do homem e dos povos.
Na guerra o viram
as cidades queimadas
extrair do escombro
a esperança,
refundida de novo,
fazê-la aço,
e atacar com seus raios
destruindo
a fortificação das trevas.

Mas também ajudou às macieiras
da Sibéria
a dar suas frutas debaixo da tormenta.

Ensinou a todos
a crescer, a crescer,
plantas e metais,
criaturas e rios
ensinou-lhes a crescer,
a dar frutos e fogo.
Ensinou-lhes a Paz
e assim deteve
com seu peito estendido
os lobos da guerra.

Diante do mar de Ilha Negra, na manhã,
icei em meia haste a bandeira do Chile.
Estava solitária a costa e uma névoa de prata
se mesclava ã espuma solene do oceano.
Em metade do seu mastro, no campo de azul,
a estrela solitária de minha pátria
parecia uma lágrima entre o céu e a terra.
Passou um homem do povo, saudou compreendendo,
e tirou o chapéu.
Veio um rapaz e me apertou a mão.

Mais tarde o pescador de ouriços, o velho búzio e poeta, Gonzalito, acercou-se para acompanhar-me sob a bandeira.
“Era mais sábio que todos os homens juntos”, me disse olhando o mar com seus velhos olhos, com os velhos olhos do povo.
E logo por longo instante não nos falamos nada.
Uma onda
estremeceu as pedras da margem.
“Porém Malenkov agora continuará sua obra”, prosseguiu
levantando-se o pobre pescador de jaqueta surrada.
Eu o fitei surpreendido pensando: como, como o sabe?
De onde, nesta costa solitária?
E compreendi que o mar lhe havia ensinado.

E ali velamos juntos, um poeta,
um pescador e o mar
ao Capitão remoto que ao entrar na morte
deixou a todos os povos, como herança, a vida.
1 154
Pablo Neruda

Pablo Neruda

V - Em Sua Morte

Camarada Stalin, eu estava junto ao mar na Ilha Negra,
descansando de lutas e de viagens,
quando a notícia de tua morte chegou como um choque de oceano.

Foi primeiro o silêncio, o estupor das coisas, e depois
chegou do mar uma onda grande.
De algas, metais e homens, pedras, espuma e lágrimas
estava feita esta onda.
De história, espaço e tempo recolheu sua matéria
e se elevou chorando sobre o mundo
até que diante de mim veio para golpear a costa
e derrubou em minhas portas sua mensagem de luto
com um grito gigante
como se de repente se quebrasse a terra.

Era em 1914.
Nas fábricas se acumulavam sujeiras e dores.
Os ricos do novo século
repartiam-se a dentadas o petróleo e as ilhas, o cobre
e os canais.
Nem uma só bandeira levantou suas cores
sem os respingos do sangue.
De Hong Kong a Chicago a polícia
buscava documentos e ensaiava
as metralhadoras na carne do povo.
As marchas militares desde a aurora
mandavam soldadinhos para morrer.
Frenético era o baile dos estrangeiros
nas boates de Paris cheias de fumo.
Sangrava o homem.
Uma chuva de sangue
caía do planeta,
manchava as estrelas.
A morte estreou então armaduras de aço.
A fome
nos caminhos da Europa
foi como um vento gelado aventando folhas secas e
quebrantando ossos.
O outono soprava os farrapos.
A guerra havia eriçado os caminhos.
Olor de inverno e sangue
emanava da Europa
como de um matadouro abandonado.
Enquanto isso os donos
do carvão,
do ferro,
do aço,
do fumo,
dos bancos,
do gás,
do ouro,
da farinha,
do salitre,
do jornal El Mercúrio,
os donos de bordéis,
os senadores norte-americanos,
os flibusteiros
carregados de ouro e sangue
de todos os países,
eram também os donos
da História.
Ali estavam sentados
de fraque, ocupadíssimos
em dispensar-se condecorações,
em presentear-se cheques na entrada
e roubá-los na saída,
em presentear-se ações da carnificina
e repartir-se a dentadas
pedaços de povo e de geografia.

Então com modesto
vestido e gorro operário,
entrou o vento,
entrou o vento do povo.
Era Lenin.
Mudou a terra, o homem, a vida.
O ar livre revolucionário
transtornou os papéis
manchados. Nasceu uma pátria
que não deixou de crescer.
É grande como um mundo, mas cabe
até no coração do mais
humilde
trabalhador de usina ou de oficina,
de agricultura ou barco.
Era a União Soviética.

Junto a Lenin
Stalin avançava
e assim, com blusa branca,
com gorro cinzento de operário,
Stalin,
com seu passo tranquilo,
entrou na História acompanhado
de Lenin e do vento.
Stalin desde então
foi construindo. Tudo
fazia falta. Lenin
recebeu dos czares
teias de aranha e farrapos.
Lenin deixou uma herança
de pátria livre e vasta.
Stalin a povoou
com escolas e farinha,
imprensas e maçãs.
Stalin desde o Volga
até a neve
do Norte inacessível
pôs sua mão e em sua mão um homem
começou a construir.
As cidades nasceram.
Os desertos cantaram
pela primeira vez com a voz da água.
Os minerais
acudiram,
saíram
de seus sonhos escuros,
levantaram-se,
tornaram-se trilhos, rodas,
locomotivas, fios
que levaram as sílabas elétricas
por toda a extensão e distância.
Stalin
construía.
Nasceram
de suas mãos
cereais,
tratores,
ensinamentos,
caminhos,
e ele ali
simples como tu e como eu,
se tu e eu conseguíssemos
ser simples como ele.
Porém o aprenderemos.
Sua simplicidade e sua sabedoria,
sua estrutura
de bondoso coração e de aço inflexível
nos ajuda a ser homens cada dia,
diariamente nos ajuda a ser homens.

Ser homens! É esta
a lei staliniana!
Ser comunista é difícil.
Há que aprender a sê-lo.
Ser homens comunistas
é ainda mais difícil,
e há que aprender de Stalin
sua intensidade serena,
sua claridade concreta,
seu desprezo
ao ouropel vazio,
à oca abstração editorial.
Ele foi diretamente
desenlaçando o nó
e mostrando a reta
claridade da linha,
entrando nos problemas
sem as frases que ocultam
o vazio,
direto ao centro débil
que em nossa luta retificaremos
podando as folhagens
e mostrando o desígnio dos frutos.
Stalin é o meio-dia,
a madureza do homem e dos povos.
Na guerra o viram
as cidades queimadas
extrair do escombro
a esperança,
refundida de novo,
fazê-la aço,
e atacar com seus raios
destruindo
a fortificação das trevas.

Mas também ajudou às macieiras
da Sibéria
a dar suas frutas debaixo da tormenta.

Ensinou a todos
a crescer, a crescer,
plantas e metais,
criaturas e rios
ensinou-lhes a crescer,
a dar frutos e fogo.
Ensinou-lhes a Paz
e assim deteve
com seu peito estendido
os lobos da guerra.

Diante do mar de Ilha Negra, na manhã,
icei em meia haste a bandeira do Chile.
Estava solitária a costa e uma névoa de prata
se mesclava ã espuma solene do oceano.
Em metade do seu mastro, no campo de azul,
a estrela solitária de minha pátria
parecia uma lágrima entre o céu e a terra.
Passou um homem do povo, saudou compreendendo,
e tirou o chapéu.
Veio um rapaz e me apertou a mão.

Mais tarde o pescador de ouriços, o velho búzio e poeta, Gonzalito, acercou-se para acompanhar-me sob a bandeira.
“Era mais sábio que todos os homens juntos”, me disse olhando o mar com seus velhos olhos, com os velhos olhos do povo.
E logo por longo instante não nos falamos nada.
Uma onda
estremeceu as pedras da margem.
“Porém Malenkov agora continuará sua obra”, prosseguiu
levantando-se o pobre pescador de jaqueta surrada.
Eu o fitei surpreendido pensando: como, como o sabe?
De onde, nesta costa solitária?
E compreendi que o mar lhe havia ensinado.

E ali velamos juntos, um poeta,
um pescador e o mar
ao Capitão remoto que ao entrar na morte
deixou a todos os povos, como herança, a vida.
1 154
Pablo Neruda

Pablo Neruda

V - Em Sua Morte

Camarada Stalin, eu estava junto ao mar na Ilha Negra,
descansando de lutas e de viagens,
quando a notícia de tua morte chegou como um choque de oceano.

Foi primeiro o silêncio, o estupor das coisas, e depois
chegou do mar uma onda grande.
De algas, metais e homens, pedras, espuma e lágrimas
estava feita esta onda.
De história, espaço e tempo recolheu sua matéria
e se elevou chorando sobre o mundo
até que diante de mim veio para golpear a costa
e derrubou em minhas portas sua mensagem de luto
com um grito gigante
como se de repente se quebrasse a terra.

Era em 1914.
Nas fábricas se acumulavam sujeiras e dores.
Os ricos do novo século
repartiam-se a dentadas o petróleo e as ilhas, o cobre
e os canais.
Nem uma só bandeira levantou suas cores
sem os respingos do sangue.
De Hong Kong a Chicago a polícia
buscava documentos e ensaiava
as metralhadoras na carne do povo.
As marchas militares desde a aurora
mandavam soldadinhos para morrer.
Frenético era o baile dos estrangeiros
nas boates de Paris cheias de fumo.
Sangrava o homem.
Uma chuva de sangue
caía do planeta,
manchava as estrelas.
A morte estreou então armaduras de aço.
A fome
nos caminhos da Europa
foi como um vento gelado aventando folhas secas e
quebrantando ossos.
O outono soprava os farrapos.
A guerra havia eriçado os caminhos.
Olor de inverno e sangue
emanava da Europa
como de um matadouro abandonado.
Enquanto isso os donos
do carvão,
do ferro,
do aço,
do fumo,
dos bancos,
do gás,
do ouro,
da farinha,
do salitre,
do jornal El Mercúrio,
os donos de bordéis,
os senadores norte-americanos,
os flibusteiros
carregados de ouro e sangue
de todos os países,
eram também os donos
da História.
Ali estavam sentados
de fraque, ocupadíssimos
em dispensar-se condecorações,
em presentear-se cheques na entrada
e roubá-los na saída,
em presentear-se ações da carnificina
e repartir-se a dentadas
pedaços de povo e de geografia.

Então com modesto
vestido e gorro operário,
entrou o vento,
entrou o vento do povo.
Era Lenin.
Mudou a terra, o homem, a vida.
O ar livre revolucionário
transtornou os papéis
manchados. Nasceu uma pátria
que não deixou de crescer.
É grande como um mundo, mas cabe
até no coração do mais
humilde
trabalhador de usina ou de oficina,
de agricultura ou barco.
Era a União Soviética.

Junto a Lenin
Stalin avançava
e assim, com blusa branca,
com gorro cinzento de operário,
Stalin,
com seu passo tranquilo,
entrou na História acompanhado
de Lenin e do vento.
Stalin desde então
foi construindo. Tudo
fazia falta. Lenin
recebeu dos czares
teias de aranha e farrapos.
Lenin deixou uma herança
de pátria livre e vasta.
Stalin a povoou
com escolas e farinha,
imprensas e maçãs.
Stalin desde o Volga
até a neve
do Norte inacessível
pôs sua mão e em sua mão um homem
começou a construir.
As cidades nasceram.
Os desertos cantaram
pela primeira vez com a voz da água.
Os minerais
acudiram,
saíram
de seus sonhos escuros,
levantaram-se,
tornaram-se trilhos, rodas,
locomotivas, fios
que levaram as sílabas elétricas
por toda a extensão e distância.
Stalin
construía.
Nasceram
de suas mãos
cereais,
tratores,
ensinamentos,
caminhos,
e ele ali
simples como tu e como eu,
se tu e eu conseguíssemos
ser simples como ele.
Porém o aprenderemos.
Sua simplicidade e sua sabedoria,
sua estrutura
de bondoso coração e de aço inflexível
nos ajuda a ser homens cada dia,
diariamente nos ajuda a ser homens.

Ser homens! É esta
a lei staliniana!
Ser comunista é difícil.
Há que aprender a sê-lo.
Ser homens comunistas
é ainda mais difícil,
e há que aprender de Stalin
sua intensidade serena,
sua claridade concreta,
seu desprezo
ao ouropel vazio,
à oca abstração editorial.
Ele foi diretamente
desenlaçando o nó
e mostrando a reta
claridade da linha,
entrando nos problemas
sem as frases que ocultam
o vazio,
direto ao centro débil
que em nossa luta retificaremos
podando as folhagens
e mostrando o desígnio dos frutos.
Stalin é o meio-dia,
a madureza do homem e dos povos.
Na guerra o viram
as cidades queimadas
extrair do escombro
a esperança,
refundida de novo,
fazê-la aço,
e atacar com seus raios
destruindo
a fortificação das trevas.

Mas também ajudou às macieiras
da Sibéria
a dar suas frutas debaixo da tormenta.

Ensinou a todos
a crescer, a crescer,
plantas e metais,
criaturas e rios
ensinou-lhes a crescer,
a dar frutos e fogo.
Ensinou-lhes a Paz
e assim deteve
com seu peito estendido
os lobos da guerra.

Diante do mar de Ilha Negra, na manhã,
icei em meia haste a bandeira do Chile.
Estava solitária a costa e uma névoa de prata
se mesclava ã espuma solene do oceano.
Em metade do seu mastro, no campo de azul,
a estrela solitária de minha pátria
parecia uma lágrima entre o céu e a terra.
Passou um homem do povo, saudou compreendendo,
e tirou o chapéu.
Veio um rapaz e me apertou a mão.

Mais tarde o pescador de ouriços, o velho búzio e poeta, Gonzalito, acercou-se para acompanhar-me sob a bandeira.
“Era mais sábio que todos os homens juntos”, me disse olhando o mar com seus velhos olhos, com os velhos olhos do povo.
E logo por longo instante não nos falamos nada.
Uma onda
estremeceu as pedras da margem.
“Porém Malenkov agora continuará sua obra”, prosseguiu
levantando-se o pobre pescador de jaqueta surrada.
Eu o fitei surpreendido pensando: como, como o sabe?
De onde, nesta costa solitária?
E compreendi que o mar lhe havia ensinado.

E ali velamos juntos, um poeta,
um pescador e o mar
ao Capitão remoto que ao entrar na morte
deixou a todos os povos, como herança, a vida.
1 154
Pablo Neruda

Pablo Neruda

V - Em Sua Morte

Camarada Stalin, eu estava junto ao mar na Ilha Negra,
descansando de lutas e de viagens,
quando a notícia de tua morte chegou como um choque de oceano.

Foi primeiro o silêncio, o estupor das coisas, e depois
chegou do mar uma onda grande.
De algas, metais e homens, pedras, espuma e lágrimas
estava feita esta onda.
De história, espaço e tempo recolheu sua matéria
e se elevou chorando sobre o mundo
até que diante de mim veio para golpear a costa
e derrubou em minhas portas sua mensagem de luto
com um grito gigante
como se de repente se quebrasse a terra.

Era em 1914.
Nas fábricas se acumulavam sujeiras e dores.
Os ricos do novo século
repartiam-se a dentadas o petróleo e as ilhas, o cobre
e os canais.
Nem uma só bandeira levantou suas cores
sem os respingos do sangue.
De Hong Kong a Chicago a polícia
buscava documentos e ensaiava
as metralhadoras na carne do povo.
As marchas militares desde a aurora
mandavam soldadinhos para morrer.
Frenético era o baile dos estrangeiros
nas boates de Paris cheias de fumo.
Sangrava o homem.
Uma chuva de sangue
caía do planeta,
manchava as estrelas.
A morte estreou então armaduras de aço.
A fome
nos caminhos da Europa
foi como um vento gelado aventando folhas secas e
quebrantando ossos.
O outono soprava os farrapos.
A guerra havia eriçado os caminhos.
Olor de inverno e sangue
emanava da Europa
como de um matadouro abandonado.
Enquanto isso os donos
do carvão,
do ferro,
do aço,
do fumo,
dos bancos,
do gás,
do ouro,
da farinha,
do salitre,
do jornal El Mercúrio,
os donos de bordéis,
os senadores norte-americanos,
os flibusteiros
carregados de ouro e sangue
de todos os países,
eram também os donos
da História.
Ali estavam sentados
de fraque, ocupadíssimos
em dispensar-se condecorações,
em presentear-se cheques na entrada
e roubá-los na saída,
em presentear-se ações da carnificina
e repartir-se a dentadas
pedaços de povo e de geografia.

Então com modesto
vestido e gorro operário,
entrou o vento,
entrou o vento do povo.
Era Lenin.
Mudou a terra, o homem, a vida.
O ar livre revolucionário
transtornou os papéis
manchados. Nasceu uma pátria
que não deixou de crescer.
É grande como um mundo, mas cabe
até no coração do mais
humilde
trabalhador de usina ou de oficina,
de agricultura ou barco.
Era a União Soviética.

Junto a Lenin
Stalin avançava
e assim, com blusa branca,
com gorro cinzento de operário,
Stalin,
com seu passo tranquilo,
entrou na História acompanhado
de Lenin e do vento.
Stalin desde então
foi construindo. Tudo
fazia falta. Lenin
recebeu dos czares
teias de aranha e farrapos.
Lenin deixou uma herança
de pátria livre e vasta.
Stalin a povoou
com escolas e farinha,
imprensas e maçãs.
Stalin desde o Volga
até a neve
do Norte inacessível
pôs sua mão e em sua mão um homem
começou a construir.
As cidades nasceram.
Os desertos cantaram
pela primeira vez com a voz da água.
Os minerais
acudiram,
saíram
de seus sonhos escuros,
levantaram-se,
tornaram-se trilhos, rodas,
locomotivas, fios
que levaram as sílabas elétricas
por toda a extensão e distância.
Stalin
construía.
Nasceram
de suas mãos
cereais,
tratores,
ensinamentos,
caminhos,
e ele ali
simples como tu e como eu,
se tu e eu conseguíssemos
ser simples como ele.
Porém o aprenderemos.
Sua simplicidade e sua sabedoria,
sua estrutura
de bondoso coração e de aço inflexível
nos ajuda a ser homens cada dia,
diariamente nos ajuda a ser homens.

Ser homens! É esta
a lei staliniana!
Ser comunista é difícil.
Há que aprender a sê-lo.
Ser homens comunistas
é ainda mais difícil,
e há que aprender de Stalin
sua intensidade serena,
sua claridade concreta,
seu desprezo
ao ouropel vazio,
à oca abstração editorial.
Ele foi diretamente
desenlaçando o nó
e mostrando a reta
claridade da linha,
entrando nos problemas
sem as frases que ocultam
o vazio,
direto ao centro débil
que em nossa luta retificaremos
podando as folhagens
e mostrando o desígnio dos frutos.
Stalin é o meio-dia,
a madureza do homem e dos povos.
Na guerra o viram
as cidades queimadas
extrair do escombro
a esperança,
refundida de novo,
fazê-la aço,
e atacar com seus raios
destruindo
a fortificação das trevas.

Mas também ajudou às macieiras
da Sibéria
a dar suas frutas debaixo da tormenta.

Ensinou a todos
a crescer, a crescer,
plantas e metais,
criaturas e rios
ensinou-lhes a crescer,
a dar frutos e fogo.
Ensinou-lhes a Paz
e assim deteve
com seu peito estendido
os lobos da guerra.

Diante do mar de Ilha Negra, na manhã,
icei em meia haste a bandeira do Chile.
Estava solitária a costa e uma névoa de prata
se mesclava ã espuma solene do oceano.
Em metade do seu mastro, no campo de azul,
a estrela solitária de minha pátria
parecia uma lágrima entre o céu e a terra.
Passou um homem do povo, saudou compreendendo,
e tirou o chapéu.
Veio um rapaz e me apertou a mão.

Mais tarde o pescador de ouriços, o velho búzio e poeta, Gonzalito, acercou-se para acompanhar-me sob a bandeira.
“Era mais sábio que todos os homens juntos”, me disse olhando o mar com seus velhos olhos, com os velhos olhos do povo.
E logo por longo instante não nos falamos nada.
Uma onda
estremeceu as pedras da margem.
“Porém Malenkov agora continuará sua obra”, prosseguiu
levantando-se o pobre pescador de jaqueta surrada.
Eu o fitei surpreendido pensando: como, como o sabe?
De onde, nesta costa solitária?
E compreendi que o mar lhe havia ensinado.

E ali velamos juntos, um poeta,
um pescador e o mar
ao Capitão remoto que ao entrar na morte
deixou a todos os povos, como herança, a vida.
1 154
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - o Pastor Perdido

Chamava-se Miguel. Era um pequeno
pastor das margens
de Orihuela.
Amei-o e coloquei sobre seu peito
minha masculina mão,
e cresceu sua estatura poderosa
até que na aspereza
da terra espanhola
se destacou seu canto
como um brusco carvalho
no qual se juntaram
todos os enterrados rouxinóis,
todas as aves do sonoro céu,
o esplendor do homem duplicado
no amor da mulher amada,
o zumbido oloroso
das loiras colmeias,
o ágrio cheiro materno
das cabras paridas,
o telégrafo puro
das cigarras vermelhas.
Miguel fez de tudo
— território e abelha,
noiva, vento e soldado —
barro para sua estirpe vencedora
de poeta do povo,
e assim saiu caminhando
sobre os espinhos de Espanha
com uma voz que agora
seus carrascos
têm que ouvir, escutam,
aqueles
que conservam as mãos
maculadas
com seu sangue indelével,
ouvem seu canto
e julgam
que é só terra
e água.
Não é certo.
É sangue,
sangue,
sangue de Espanha, sangue
de todos os povos de Espanha,
é seu sangue que canta
e nomeia e chama,
nomeia todas as coisas
porque a tudo ele amava,
mas essa voz não esquece,
esse sangue não esquece
de onde vem
e para quem canta.
Canta
para que se abram os cárceres
e ande a liberdade pelos caminhos.
Chama-me
para mostrar todos os lugares
por onde o arrastaram,
a ele, luz dos povos,
relâmpago de idiomas,
para mostrar-me
o presídio de Ocaña,
ali onde gota a gota
o sangraram,
ali onde cercearam
sua garganta,
ali onde o mataram sete anos
encarniçando-se
em seu canto
porque quando mataram esses lábios
apagaram-se as lâmpadas de Espanha.

E assim me chama e me diz:
“Aqui me justiçaram lentamente”
Assim o que amou e levava
sob sua pobre roupa
todos os mananciais espanhóis
foi assassinado sob
a sombra dos muros
enquanto tocavam todos os sinos
em honra do carrasco,
mas
os acasos
deram olor ao mundo aqueles dias
e aquele aroma era
o coração martirizado
do pastor de Orihuela
e era Miguel seu nome.

Aqueles dias e anos
enquanto agonizava,
na história
sepultou-se a luz,
mas ali palpitava
e amanhã voltará.
Aqueles dias e séculos
em que a Miguel Hernández
os carcereiros
deram tormento e agonia,
a terra sentiu falta
de seus passos de pastor sobre os montes
e o guerrilheiro morto,
ao tombar, vitorioso,
escutou da terra
levantar-se um rumor, um latejo,
como se entreabrissem as estrelas
de um jasmim silencioso:
era a poesia de Miguel.
Do fundo da terra falava,
do fundo da terra
falará para sempre,
é a voz de seu povo,
ele foi entre os soldados
como uma torre ardente.

Ele era
fortaleza
de cantos e estampidos,
foi como um padeiro:
com suas mãos
fazia seus sonetos,
Toda sua poesia
tem terra porosa,
cereais, areia,
barro e vento,
tem forma
de jarra levantina,
de anca fornida,
de barriga de abelha,
tem aroma
de trevo na chuva,
de cinza amaranto,
de fumaça de esterco, tarde
nas colinas.
Sua poesia
é milho agrupado
numa espiga de ouro,
é vinha de uvas negras, é garrafa
de cristal deslumbrante
cheia de vinho e água, noite e dia,
é espiga escarlate,
estrela anunciadora,
foice e martelo escritos com diamantes
na sombra de Espanha.

Miguel Hernández, toda
a alaranjada greda ou levedura
de tua terra e teu povo
reviverá contigo.
Tu a guardaste
com a mão mais tarda, na agonia,
porque estavas feito
para o amanhecer e a vitória,
estavas feito de água e terra virgem,
de assombro insaciável,
de plantas e de ninhos.
Eras
a germinação invencível
da matéria que canta,
eras
pátria da inteireza e dispuseste
contra os inimigos,
o mouro e o franquista,
uma mão pesada
cheia de trepadeiras e metais.
Com tua espada nos braços, invisível,
morrias,
mas não estavas só.
Não só a erva queimada
nas pobres colinas de Orihuela
espargiram tua voz e teu perfume
pelo mundo.
Teu povo parecia
mudo,
não fitava
tua morte,
não ouvia
as missas do desprezo
mas, anda,
anda e pergunta,
anda e vê se há alguém
que não saiba teu nome.

Todos sabiam,
nos cárceres,
enquanto os carcereiros
jantavam com Cossío,
teu nome.
Era um fulgor molhado
pelas lágrimas
tua voz de mel selvagem.
Tua revolucionária
poesia
era, em silêncio, na cela,
de um cárcere a outro,
repetida,
entesourada,
e agora
desponta o germe,
sai teu grão à luz,
teu cereal violento
acusa,
em cada rua,
tua voz toma o caminho
das insurreições.

Ninguém, Miguel, te esqueceu.
Aqui te levamos todos
na metade do peito.

Filho meu, recordas
quando
te recebi e te coloquei
minha amizade de pedra nas mãos?
Pois bem, agora,
morto,
tudo me devolves.
Cresceste e crescido,
és,
és eterno,
és Espanha,
és teu povo,
já não podem matar-te.
Já levantaste
teu peito de celeiro,
tua cabeça
cheia de raios vermelhos,
já não te detiveram.
Agora
querem meter-se
como frades tardios
em tua lembrança,
querem regar com baba
teu rosto, guerrilheiro comunista.
Não podem.
Não os deixaremos.
Agora
fica puro,
fica silencioso,
permanece sonoro,
deixa
que rezem,
deixa
que caia o fio negro
de seus catafalcos podres
e bocas medievais.
Não sabem outra coisa.
Já chegará
teu vento,
o vento do povo,
o rosto de Dolores,
o passo vitorioso
de nossa nunca morta
Espanha,
e então,
arcanjo das cabras,
pastor caído,
gigantesco poeta de teu povo,
filho meu,
verás
que teu rosto enrugado
estará nas bandeiras,
viverá nas vitórias,
reviverá quando reviva o povo,
marchará conosco sem que ninguém
possa jamais separar-te do regaço de Espanha.
1 184
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - o Pastor Perdido

Chamava-se Miguel. Era um pequeno
pastor das margens
de Orihuela.
Amei-o e coloquei sobre seu peito
minha masculina mão,
e cresceu sua estatura poderosa
até que na aspereza
da terra espanhola
se destacou seu canto
como um brusco carvalho
no qual se juntaram
todos os enterrados rouxinóis,
todas as aves do sonoro céu,
o esplendor do homem duplicado
no amor da mulher amada,
o zumbido oloroso
das loiras colmeias,
o ágrio cheiro materno
das cabras paridas,
o telégrafo puro
das cigarras vermelhas.
Miguel fez de tudo
— território e abelha,
noiva, vento e soldado —
barro para sua estirpe vencedora
de poeta do povo,
e assim saiu caminhando
sobre os espinhos de Espanha
com uma voz que agora
seus carrascos
têm que ouvir, escutam,
aqueles
que conservam as mãos
maculadas
com seu sangue indelével,
ouvem seu canto
e julgam
que é só terra
e água.
Não é certo.
É sangue,
sangue,
sangue de Espanha, sangue
de todos os povos de Espanha,
é seu sangue que canta
e nomeia e chama,
nomeia todas as coisas
porque a tudo ele amava,
mas essa voz não esquece,
esse sangue não esquece
de onde vem
e para quem canta.
Canta
para que se abram os cárceres
e ande a liberdade pelos caminhos.
Chama-me
para mostrar todos os lugares
por onde o arrastaram,
a ele, luz dos povos,
relâmpago de idiomas,
para mostrar-me
o presídio de Ocaña,
ali onde gota a gota
o sangraram,
ali onde cercearam
sua garganta,
ali onde o mataram sete anos
encarniçando-se
em seu canto
porque quando mataram esses lábios
apagaram-se as lâmpadas de Espanha.

E assim me chama e me diz:
“Aqui me justiçaram lentamente”
Assim o que amou e levava
sob sua pobre roupa
todos os mananciais espanhóis
foi assassinado sob
a sombra dos muros
enquanto tocavam todos os sinos
em honra do carrasco,
mas
os acasos
deram olor ao mundo aqueles dias
e aquele aroma era
o coração martirizado
do pastor de Orihuela
e era Miguel seu nome.

Aqueles dias e anos
enquanto agonizava,
na história
sepultou-se a luz,
mas ali palpitava
e amanhã voltará.
Aqueles dias e séculos
em que a Miguel Hernández
os carcereiros
deram tormento e agonia,
a terra sentiu falta
de seus passos de pastor sobre os montes
e o guerrilheiro morto,
ao tombar, vitorioso,
escutou da terra
levantar-se um rumor, um latejo,
como se entreabrissem as estrelas
de um jasmim silencioso:
era a poesia de Miguel.
Do fundo da terra falava,
do fundo da terra
falará para sempre,
é a voz de seu povo,
ele foi entre os soldados
como uma torre ardente.

Ele era
fortaleza
de cantos e estampidos,
foi como um padeiro:
com suas mãos
fazia seus sonetos,
Toda sua poesia
tem terra porosa,
cereais, areia,
barro e vento,
tem forma
de jarra levantina,
de anca fornida,
de barriga de abelha,
tem aroma
de trevo na chuva,
de cinza amaranto,
de fumaça de esterco, tarde
nas colinas.
Sua poesia
é milho agrupado
numa espiga de ouro,
é vinha de uvas negras, é garrafa
de cristal deslumbrante
cheia de vinho e água, noite e dia,
é espiga escarlate,
estrela anunciadora,
foice e martelo escritos com diamantes
na sombra de Espanha.

Miguel Hernández, toda
a alaranjada greda ou levedura
de tua terra e teu povo
reviverá contigo.
Tu a guardaste
com a mão mais tarda, na agonia,
porque estavas feito
para o amanhecer e a vitória,
estavas feito de água e terra virgem,
de assombro insaciável,
de plantas e de ninhos.
Eras
a germinação invencível
da matéria que canta,
eras
pátria da inteireza e dispuseste
contra os inimigos,
o mouro e o franquista,
uma mão pesada
cheia de trepadeiras e metais.
Com tua espada nos braços, invisível,
morrias,
mas não estavas só.
Não só a erva queimada
nas pobres colinas de Orihuela
espargiram tua voz e teu perfume
pelo mundo.
Teu povo parecia
mudo,
não fitava
tua morte,
não ouvia
as missas do desprezo
mas, anda,
anda e pergunta,
anda e vê se há alguém
que não saiba teu nome.

Todos sabiam,
nos cárceres,
enquanto os carcereiros
jantavam com Cossío,
teu nome.
Era um fulgor molhado
pelas lágrimas
tua voz de mel selvagem.
Tua revolucionária
poesia
era, em silêncio, na cela,
de um cárcere a outro,
repetida,
entesourada,
e agora
desponta o germe,
sai teu grão à luz,
teu cereal violento
acusa,
em cada rua,
tua voz toma o caminho
das insurreições.

Ninguém, Miguel, te esqueceu.
Aqui te levamos todos
na metade do peito.

Filho meu, recordas
quando
te recebi e te coloquei
minha amizade de pedra nas mãos?
Pois bem, agora,
morto,
tudo me devolves.
Cresceste e crescido,
és,
és eterno,
és Espanha,
és teu povo,
já não podem matar-te.
Já levantaste
teu peito de celeiro,
tua cabeça
cheia de raios vermelhos,
já não te detiveram.
Agora
querem meter-se
como frades tardios
em tua lembrança,
querem regar com baba
teu rosto, guerrilheiro comunista.
Não podem.
Não os deixaremos.
Agora
fica puro,
fica silencioso,
permanece sonoro,
deixa
que rezem,
deixa
que caia o fio negro
de seus catafalcos podres
e bocas medievais.
Não sabem outra coisa.
Já chegará
teu vento,
o vento do povo,
o rosto de Dolores,
o passo vitorioso
de nossa nunca morta
Espanha,
e então,
arcanjo das cabras,
pastor caído,
gigantesco poeta de teu povo,
filho meu,
verás
que teu rosto enrugado
estará nas bandeiras,
viverá nas vitórias,
reviverá quando reviva o povo,
marchará conosco sem que ninguém
possa jamais separar-te do regaço de Espanha.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Vi - Regressou a Sirena

Amor, como se um dia
morresses,
e eu cavasse
e eu cavasse
noite e dia
em teu sepulcro
e te recompusesse,
levantasse teus seios desde o pó,
a boca que adorei, de suas cinzas,
construísse de novo
teus braços e tuas pernas e teus olhos,
tua cabeleira de metal torcido,
e te desse a vida
com o amor que te ama,
te fizesse andar de novo,
palpitar outra vez em tua cintura,
assim, amor, levantaram de novo
a cidade de Varsóvia.

Eu chegaria cego em tuas cinzas
mas te buscaria,
e pouco a pouco irias elevando
os edifícios doces de teu corpo,
e assim encontraram eles
na cidade amada
só vento e cinza,
fragmentos arrasados,
carvões que choravam na chuva,
sorrisos de mulher sob a neve.
Morta estava a formosa,
não existiam janelas,
a noite se encostava sobre a branca morta,
o dia iluminava a campina vazia.

E assim a levantaram,
com amor, e chegaram
cegos e soluçantes,
mas cavaram fundo,
limparam a cinza.
Era tarde, a noite,
o cansaço, a neve
detinham a pá,
e eles cavando acharam
primeiro a cabeça,
os alvos seios da doce morta,
seu traje de sirena,
e por fim o coração sob a terra,
enterrado e queimado mas vivo,
e hoje pulsa vivo, palpitando no meio
da reconstrução de sua beleza.

Agora compreendes como
o amor construiu as avenidas,
fez cantar a lua nos jardins.
Hoje quando
pétala a pétala tomba a neve
sobre os telhados e as pontes
e o inverno bate
as portas de Varsóvia,
o fogo, o canto
vivem de novo nos lares
que edificou o amor sobre a morte.

Ai daqueles que fugiram e creram
escapar com a poesia:
não sabem que o amor está em Varsóvia,
e que quando a morte
ali foi derrotada,
e quando o rio passa,
reconhecendo seres e destinos,
como duas flores de perfume e prata,
cidade e poesia,
em suas cúpulas claras
guardam a luz, o fogo e o pão de seu destino.

Varsóvia milagrosa,
coração enterrado
de novo vivo e livre,
cidade em que se prova
como o homem é maior
que toda a desventura,
Varsóvia, deixa-me
tocar teus muros.
Não estão feitos de pedra ou de madeira,
de esperança estão feitos,
e o que tocar queira a esperança,
matéria firme e dura,
terra tenaz que canta,
metal que reconstrói,
areia indestrutível,
cereal infinito,
mel para todos os séculos,
martelo eterno,
estrela vencedora,
ferramenta invencível,
cimento da vida,
a esperança,
que aqui a toquem,
que aqui sintam nela como sobe
a vida e o sangue de novo,
porque o amor, Varsóvia,
levantou tua estátua de sirena
e se toco teus muros,
tua pele sagrada,
compreendo
que és a vida e que nos teus muros
morreu, por fim, a morte.
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