Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Pablo Neruda
VIII - A ilha
No centro os rostos derrotados,
partidos e tombados, com seus grandes narizes
fundidos na crosta calcária da ilha,
para quem apontam os gigantes? ninguém?
um caminho, um estranho caminho de gigantes:
e ali ficou seu prodigioso peso caído,
beijando a cinza sagrada, regressando
ao magma natal, malferidos, cobertos
pela luz oceânica, a pouca chuva, o pó
vulcânico, e mais tarde
por esta solidão do umbigo do mundo:
a solidão redonda de todo o mar reunido.
Parece estranho ver viver aqui, dentro
do círculo, contemplar as lagostas
róseas, hostis caírem os caixotes
das mãos dos pescadores,
e estes, fundirem os corpos outra vez na água
agredindo as tocas de sua mercadoria,
ver as velhas cerzirem calças gastas
pela pobreza, ver entre folhagens
partidos e tombados, com seus grandes narizes
fundidos na crosta calcária da ilha,
para quem apontam os gigantes? ninguém?
um caminho, um estranho caminho de gigantes:
e ali ficou seu prodigioso peso caído,
beijando a cinza sagrada, regressando
ao magma natal, malferidos, cobertos
pela luz oceânica, a pouca chuva, o pó
vulcânico, e mais tarde
por esta solidão do umbigo do mundo:
a solidão redonda de todo o mar reunido.
Parece estranho ver viver aqui, dentro
do círculo, contemplar as lagostas
róseas, hostis caírem os caixotes
das mãos dos pescadores,
e estes, fundirem os corpos outra vez na água
agredindo as tocas de sua mercadoria,
ver as velhas cerzirem calças gastas
pela pobreza, ver entre folhagens
1 147
Pablo Neruda
(H.V.)
Aconteceu-me com aquele fulano
recomendado, conhecido apenas,
passageiro do barco, o mesmo barco
em que viajei fatigado de rostos.
Quis não o ver, foi impossível.
Impus-me outro dever contra minha vida:
ser amistoso invés de indiferente
por causa de sua rápida mulher,
alta e bela, com frutos e com olhos.
Agora vejo minha equivocação
no seu triste relato de viajante.
Fui provincianamente generoso.
Não cresceu sua mesquinha condição
por minha mão de amigo, naquele barco,
sua desconfiança em si seguiu mais forte
como se alguém pudesse convencer
aos que não acreditaram em si mesmos
que não se desprezem em suas guerras
contra a própria sombra. Assim nasceram.
recomendado, conhecido apenas,
passageiro do barco, o mesmo barco
em que viajei fatigado de rostos.
Quis não o ver, foi impossível.
Impus-me outro dever contra minha vida:
ser amistoso invés de indiferente
por causa de sua rápida mulher,
alta e bela, com frutos e com olhos.
Agora vejo minha equivocação
no seu triste relato de viajante.
Fui provincianamente generoso.
Não cresceu sua mesquinha condição
por minha mão de amigo, naquele barco,
sua desconfiança em si seguiu mais forte
como se alguém pudesse convencer
aos que não acreditaram em si mesmos
que não se desprezem em suas guerras
contra a própria sombra. Assim nasceram.
1 124
Pablo Neruda
XIX - Os homens
Voltamos apressados a esperar nomeações,
exasperantes publicações, discussões amargas,
fermentos, guerras, enfermidades, música
que nos ataca e nos golpeia sem trégua,
entramos novamente em nossos batalhões,
ainda que todos se unissem para declarar-nos mortos,
aqui estamos outra vez com nosso falso sorriso,
falamos, exasperados ante o possível olvido,
enquanto lá na ilha sem palmeiras,
lá onde se recortam os narizes de pedra
como triângulos traçados em pleno céu e sal,
ali, no minúsculo umbigo dos mares,
deixamos esquecida a última pureza,
o espaço, o assombro daquelas companhias
que levantam sua pedra desnuda, sua verdade,
sem que ninguém se atreva a amá-las, a conviver com elas,
e essa é minha covardia, aqui dou o testemunho:
não me senti capaz senão de transitórios
edifícios, e nesta capital sem paredes
feita de luz, de sal, de pedra e pensamento,
como todos olhei e abandonei assustado
a límpida claridade da mitologia,
as estátuas rodeadas pelo silêncio azul.
exasperantes publicações, discussões amargas,
fermentos, guerras, enfermidades, música
que nos ataca e nos golpeia sem trégua,
entramos novamente em nossos batalhões,
ainda que todos se unissem para declarar-nos mortos,
aqui estamos outra vez com nosso falso sorriso,
falamos, exasperados ante o possível olvido,
enquanto lá na ilha sem palmeiras,
lá onde se recortam os narizes de pedra
como triângulos traçados em pleno céu e sal,
ali, no minúsculo umbigo dos mares,
deixamos esquecida a última pureza,
o espaço, o assombro daquelas companhias
que levantam sua pedra desnuda, sua verdade,
sem que ninguém se atreva a amá-las, a conviver com elas,
e essa é minha covardia, aqui dou o testemunho:
não me senti capaz senão de transitórios
edifícios, e nesta capital sem paredes
feita de luz, de sal, de pedra e pensamento,
como todos olhei e abandonei assustado
a límpida claridade da mitologia,
as estátuas rodeadas pelo silêncio azul.
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Pablo Neruda
XIX - Os homens
Voltamos apressados a esperar nomeações,
exasperantes publicações, discussões amargas,
fermentos, guerras, enfermidades, música
que nos ataca e nos golpeia sem trégua,
entramos novamente em nossos batalhões,
ainda que todos se unissem para declarar-nos mortos,
aqui estamos outra vez com nosso falso sorriso,
falamos, exasperados ante o possível olvido,
enquanto lá na ilha sem palmeiras,
lá onde se recortam os narizes de pedra
como triângulos traçados em pleno céu e sal,
ali, no minúsculo umbigo dos mares,
deixamos esquecida a última pureza,
o espaço, o assombro daquelas companhias
que levantam sua pedra desnuda, sua verdade,
sem que ninguém se atreva a amá-las, a conviver com elas,
e essa é minha covardia, aqui dou o testemunho:
não me senti capaz senão de transitórios
edifícios, e nesta capital sem paredes
feita de luz, de sal, de pedra e pensamento,
como todos olhei e abandonei assustado
a límpida claridade da mitologia,
as estátuas rodeadas pelo silêncio azul.
exasperantes publicações, discussões amargas,
fermentos, guerras, enfermidades, música
que nos ataca e nos golpeia sem trégua,
entramos novamente em nossos batalhões,
ainda que todos se unissem para declarar-nos mortos,
aqui estamos outra vez com nosso falso sorriso,
falamos, exasperados ante o possível olvido,
enquanto lá na ilha sem palmeiras,
lá onde se recortam os narizes de pedra
como triângulos traçados em pleno céu e sal,
ali, no minúsculo umbigo dos mares,
deixamos esquecida a última pureza,
o espaço, o assombro daquelas companhias
que levantam sua pedra desnuda, sua verdade,
sem que ninguém se atreva a amá-las, a conviver com elas,
e essa é minha covardia, aqui dou o testemunho:
não me senti capaz senão de transitórios
edifícios, e nesta capital sem paredes
feita de luz, de sal, de pedra e pensamento,
como todos olhei e abandonei assustado
a límpida claridade da mitologia,
as estátuas rodeadas pelo silêncio azul.
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Pablo Neruda
Preguiça
Não trabalhei em Domingo,
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou criatura preguiçosa,
contentei-me com olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou com ministérios.
Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurrava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas,
e com todas minhas mãos
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.
Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,
sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou criatura preguiçosa,
contentei-me com olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou com ministérios.
Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurrava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas,
e com todas minhas mãos
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.
Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,
sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.
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Pablo Neruda
Preguiça
Não trabalhei em Domingo,
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou criatura preguiçosa,
contentei-me com olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou com ministérios.
Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurrava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas,
e com todas minhas mãos
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.
Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,
sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou criatura preguiçosa,
contentei-me com olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou com ministérios.
Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurrava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas,
e com todas minhas mãos
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.
Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,
sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.
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Pablo Neruda
Então Te Ocultavas
Ali onde estavas, anjo da Guarda?
Eras tu a vivenda com espinhos
em que devi dormir? Eras a mesa
da pobreza que me preparavam?
Eras o ódio, arame interminável
que tive que cortar, ou talvez eras
a miséria de seres infelizes,
o que fui encontrando nos caminhos,
nas cidades, nos socavões
dos abandonados? Aí, foste invisível,
posto que só a lances de infortúnio,
só rompendo portas inumanas,
vi crescer na minha voz todas as vozes,
e saí entre as vidas ao combate.
Eras tu a vivenda com espinhos
em que devi dormir? Eras a mesa
da pobreza que me preparavam?
Eras o ódio, arame interminável
que tive que cortar, ou talvez eras
a miséria de seres infelizes,
o que fui encontrando nos caminhos,
nas cidades, nos socavões
dos abandonados? Aí, foste invisível,
posto que só a lances de infortúnio,
só rompendo portas inumanas,
vi crescer na minha voz todas as vozes,
e saí entre as vidas ao combate.
1 152
Pablo Neruda
IX - Os homens
Nos ensinaram a respeitar a igreja,
a não tossir, a não cuspir no átrio,
a não lavar roupa no altar
e não é assim: a vida rompe as religiões
e é esta ilha em que habitou o Deus Vento
a única igreja viva e verdadeira:
− vão e vêm as vidas, morrendo e fornicando −
aqui na ilha de Páscoa, onde tudo é altar,
onde tudo é oficina do desconhecido,
a mulher amamenta sua nova criatura
sobre os mesmos degraus que pisaram seus deuses.
Aqui, para viver! Más também nós?
Nós, os transeuntes, os equivocados de estrela,
naufragaríamos na ilha como em uma lagoa,
num lago em que todas as distâncias terminam,
na aventura imóvel mais difícil do homem.
a não tossir, a não cuspir no átrio,
a não lavar roupa no altar
e não é assim: a vida rompe as religiões
e é esta ilha em que habitou o Deus Vento
a única igreja viva e verdadeira:
− vão e vêm as vidas, morrendo e fornicando −
aqui na ilha de Páscoa, onde tudo é altar,
onde tudo é oficina do desconhecido,
a mulher amamenta sua nova criatura
sobre os mesmos degraus que pisaram seus deuses.
Aqui, para viver! Más também nós?
Nós, os transeuntes, os equivocados de estrela,
naufragaríamos na ilha como em uma lagoa,
num lago em que todas as distâncias terminam,
na aventura imóvel mais difícil do homem.
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Pablo Neruda
Canto XII - Os Rios do Canto
I
Carta a Miguel Otero Silva, em Caracas (1948)
Um amigo me trouxe a tua carta escrita
com palavras invisíveis, sobre sua roupa, em seus olhos.
Como és alegre, Miguel, como somos alegres!
Nada resta num mundo de úlceras estucadas
senão nós, indefinidamente alegres.
Vejo passar o corvo e não me pode fazer mal.
Tu observas o escorpião e limpas a tua guitarra.
Vivemos entre as feras, cantando, e quando tocamos
um homem, a matéria de alguém em quem acreditávamos,
e este homem se desmorona como um pastel podre,
tu em teu venezuelano patrimônio recolhes
o que pode salvar-se, enquanto eu defendo
a brasa da vida.
Que alegria, Miguel!
Me perguntarás onde estou? Te contarei
- dando só detalhes úteis ao governo -
que nesta costa cheia de pedras selvagens
unem-se o mar e o campo, ondas e pinheiros,
águias e procelárias, espumas e prados.
Já viste de muito perto e o dia todo
como voam os pássaros do mar? É como
se levassem as cartas do mundo a seus destinos.
Passam os alcatrazes como barcos do vento,
outras aves que voam como flechas e trazem
as mensagens dos reis defuntos, dos príncipes
enterrados com fios de turquesa nas costas andinas,
e as gaivotas feitas de brancura redonda,
que esquecem continuamente as suas mensagens.
Como é azul a vida, Miguel, quando pusemos nela
amor e luta, palavras que são o pão e o vinho,
palavras que eles ainda não podem desonrar,
porque nós saímos para a rua de escopeta e cantos.
Eles estão perdidos conosco, Miguel.
Que podem fazer senão matar-nos, e ainda assim
não lhes é um bom negócio, só podem
tratar de alugar um andar diante de nós e seguir-nos
para aprender a rir e a chorar como nós.
Quando eu escrevia versos de amor, que me brotavam
de todos os lados, e me morria de tristeza,
errante, abandonado, roendo o alfabeto,
me diziam: “Como és grande, ó Teócrito!”
Eu não sou Teócrito: tomei a vida,
me pus diante dela, dei-lhe beijos até vencê-la,
e logo me fui pelas vielas das minas
para ver como viviam outros homens.
E quando saí com as mãos manchadas de imundícies e dores,
eu as levantei a mostrá-las nas cordas de ouro,
e disse: “Eu não compartilho do crime”.
Tossiram, ficaram muito desgostosos, me cortaram o cumprimento,
deixaram de me chamar de Teócrito, e acabaram
por me insultar e mandar toda a polícia para prender-me,
porque eu não continuava preocupado exclusivamente de assuntos
[metafísicos.
Mas eu tinha conquistado a alegria.
Desde então me levantei para ler as cartas
que trazem as aves do mar de tão longe,
cartas que chegam molhadas, mensagens que pouco a pouco
vou traduzindo com lentidão e segurança: sou meticuloso
como um engenheiro neste estranho ofício.
E saio de repente à janela.
É um quadrado
de transparência, é pura a distância
de ervas e penhascos, e assim vou trabalhando
entre as coisas que amo: ondas, pedras, vespas,
com uma embriagadora felicidade marinha.
Mas ninguém gosta de que estejamos alegres, a ti te incumbiram
de um papel bonachão: “Mas não exagere, não se preocupe”,
e a mim me quiseram espetar num insectário, entre as lágrimas,
para que estas me afogassem e eles pudessem fazerseus discursos
[em meu túmulo.
Eu me lembro que um dia no pampa arenoso
do salitre, havia quinhentos homens
em greve.
Era a tarde abrasadora
de Tarapacá.
E quando os rostos haviam recolhido
toda a areia e o exangue sol seco do deserto,
vi chegar a meu coração, como uma taça de ódio,
a velha melancolia.
Naquela hora de crime,
na desolação das salinas, nesse minuto débil
da luta, em que poderíamos ter sido vencidos,
uma menina pequenina e pálida chegada das minas
disse com uma voz valente em que se juntavam o cristal e o aço
um poema teu, um velho poema teu que roda entre os olhos enrugados
de todos os operários e lavradores de minha pátria, da América.
E aquele pedaço de teu canto refulgiu de repente
em minha boca como uma flor purpúrea
e desceu pelo meu sangue, enchendo-o de novo
com uma alegria transbordante nascida de teu canto.
E eu pensei não só em ti, mas em tua Venezuela amarga.
Há anos, vi um estudante que tinha nos tornozelos
o sinal das cadeias que um general lhe havia imposto,
e me contou como os acorrentados trabalhavam nos caminhos
e os calabouços onde a gente se perdia.
Porque assim foi a nossa América:
uma planura com rios devoradores e constelações
de mariposas (em alguns lugares, as esmeraldas são espessas
[como maçãs),
porém sempre ao longo da noite e dos rios,
há tornozelos que sangram, antes perto do petróleo,
hoje perto do nitrato, em Pisagua, onde um déspota sujo
enterrou a flor de minha pátria para que morra, e ele
[possa comerciar com os ossos.
Por isso cantas, por isso, para que a América desonrada e ferida
faça tremer as suas mariposas e recolha suas esmeraldas
sem o espantoso sangue do castigo coagulado
nas mãos dos verdugos e dos mercadores.
Eu compreendi como estarias alegre, perto do Orenoco, cantando,
certamente, ou então comprando vinho para a tua casa,
ocupando o teu posto na luta e na alegria,
largo de ombros, como são os poetas deste tempo,
- com roupas claras e sapatos de uso para caminhar.
Desde então, fiquei pensando em escrever-te algum dia,
e quando Guillén chegou, todo cheio de histórias tuas
que se desprendiam de toda a roupa
e que sob as castanheiras de minha casa se derramaram,
me disse: “Agora”, nem assim comecei a escrever-te.
Mas hoje foi demais: passou pela minha janela
não apenas uma ave do mar, mas milhares,
e recolhi as cartas que ninguém lê e que elas levam
pelas praias do mundo, até perdê-las.
E aí, em cada uma lia palavras tuas
e eram como as que eu escrevo e sonho e canto,
e aí decidi enviar-te esta carta, que aqui termino
para olhar pela janela o mundo que nos pertence.
II
A Rafael Alberti
(Puerto de Santa María, Espanha)
Rafael, antes de chegar à Espanha me apareceu a caminho a tua poesia, rosa literal, cacho biselado,
e ela até agora tem sido para mim não uma lembrança
mas uma luz olorosa, emanação de um mundo.
A tua terra ressequida pela crueldade trouxeste
o orvalho que o tempo havia esquecido,
e a Espanha acordou contigo na cintura,
outra vez coroada de aljôfar matutino.
Recordarás o que trazia: sonhos despedaçados
por implacáveis ácidos, permanências
em águas desterradas, em silêncios
de onde as raízes amargas emergiam
como paus queimados no bosque,
Com posso esquecer, Rafael, aquele tempo?
A teu país cheguei como quem cai
em uma lua de pedra, encontrando em todas as partes
águias do agreste, secos espinhos,
mas a tua voz, marinheiro, esperava
para dar-me as boas-vindas e a fragrância
da flor de laranjeira, o mel dos frutos marinhos.
E a tua poesia estava na mesa, nua.
Os pinheirais do sul, as raças da uva
deram a teu diamante cortado suas resinas,
e ao tocar tão formosa claridade, muita sombra
da que traz ao mundo se desfez.
Arquitetura feita na luz, como as pétalas,
através de teus versos de embriagador aroma,
eu vi a água de antanho, a neve hereditária,
e a ti mais que ninguém eu devo a Espanha.
Com teus dedos toquei colméia e páramo,
conheci as praias gastas pelo povo
como por um oceano, e os degraus
em que a poesia foi rasgando
toda a sua vestimenta de safiras.
Tu sabes que só se ensina ao irmão.
E nessa
hora não só aquilo me ensinaste,
não só a apagada pompa de nossa estirpe,
mas a retidão de teu destino,
e quando mais uma vez chegou o sangue à Espanha
defendi o patrimônio do povo que era meu.
Já sabes, já todo mundo sabe estas coisas.
Eu quero somente estar contigo,
e hoje que te falta a metade da vida,
tua terra, a que tens mais direito que uma árvore,
hoje que das desgraças da pátria não só
o luto do que amamos, mas também a tua ausência cobrem
a herança da oliveira que devoram os lobos,
te quero dar, ai!, se pudesse, irmão grande,
a estrelada alegria que então me deste.
Entre nós dois a poesia
se toca como pele celeste,
e contigo gosto de recolher um cacho de uvas,
este pâmpano, aquela raiz das trevas.
A inveja que abre portas nos seres
não pôde abrir a tua porta nem a minha.
És belo
como quando a cólera do vento
desencadeia seu vestido lá fora
e estão o pão, o vinho e o fogo conosco,
deixar que uive o vendedor de fúria,
deixar que silve o que passou entre teus pés,
e levantar a taça cheia de âmbar
com todo o rito da transparência.
Alguém quer esquecer que és o primeiro?
Deixa-o navegar e encontrará o teu rosto.
Alguém quer enterrar-nos precipitadamente?
Está bem, mas tem a obrigação do vôo.
Virão, mas quem pode sacudir a colheita
que com a mão do outono foi erguida
até tingir o mundo com o tremor do vinho?
Dá-me esta taça, irmão, e escuta: estou rodeado
de minha América úmida e torrencial, às vezes
perco o silêncio, perco a corola noturna,
e me rodeia o ódio, talvez nada, o vazio
dum vazio, o crepúsculo
dum cão, duma rã,
e então sinto que tanta terra minha nos separe,
e quero ir a tua casa, em que eu sei, me esperas,
só para sermos bons como só nós
podemos sê-lo.
Não devemos nada.
E a ti, sim, é que devem, e és uma pátria: espera.
Voltarás, voltaremos.
Quero contigo um dia
em tuas ribeiras ir embriagados de ouro
até teus portos, portos do sul que então não atingi.
Me mostrarás o mar onde sardinhas
e azeitonas disputam as areias,
e aqueles campos com os touros de olhos verdes
que Villalón (amigo que também
não veio me ver, pois estava enterrado)
tinha, e os tonéis de xerez, catedrais
em cujos corações gongorinos
arde o topázio com pálido fogo.
Iremos, Rafael, aonde jaz
aquele que com suas mãos e as tuas
a cintura da Espanha sustentava.
O morto que não pôde morrer, aquele a quem guardas,
porque só a tua existência o defende.
Lá está Federico, mas há muitos que, mergulhados, enterrados,
entre as cordilheiras espanholas, tombados
injustamente, derramados,
perdido cereal nas montanhas,
são nossos, e nós estamos em sua argila.
Vives porque sempre foste um deus milagroso.
A ninguém mais que a ti procuraram, queriam
devorar-te os lobos, quebrar teu poderio.
Cada um queria ser verme em tua morte.
Pois bem, se enganaram.
É talvez a estrutura
de tua canção, intacta transparência,
armada decisão de tua doçura,
dureza, fortaleza delicada,
o que salvou teu amor para a tua terra.
Eu irei contigo para provar a água
do Genil, do domínio que me deste,
a olhar na prata que navega
as efígies adormecidas que fundaram
as sílabas azuis de teu canto.
Entraremos também nas forjas: agora
o metal dos povos aí espera
nascer nas facas: passaremos cantando
junto às redes vermelhas que move o firmamento.
Facas, redes, cantos apagarão as dores.
Teu povo levará com as mãos queimadas
pela pólvora, como loureiro dos prados,
o que o teu amor foi debulhando na desgraça.
Sim, de nossos desertos nasce a flor, a forma
da pátria que o povo reconquista com trovões,
e não é um dia só o que elabora
o mel perdido, a verdade do sonho,
mas também cada raiz que se faz canto
até povoar o mundo com as suas folhas.
Lá estás, não há nada que não mova
a lua diamantina que deixaste:
a solidão, o vento nos rincões,
tudo toca o teu puro território,
e os últimos mortos, os que caem
na prisão, leões fuzilados,
e os das guerrilhas, capitães
do coração, estão umedecendo
a tua própria investidura cristalina,
teu próprio coração com suas raízes.
Passou o tempo desde aquele dia em que compartilhamos
dores que deixaram uma ferida radiante,
o cavalo da guerra que com suas ferraduras
atropelou a aldeia destroçando as vidraças.
Tudo aquilo nasceu debaixo da pólvora,
tudo aquilo te aguarda para erguer a espiga,
e nesse nascimento te envolverão de novo
o fumo e a ternura daqueles duros dias.
Vasta é a pele da Espanha e nela a tua espora
vive como uma espada de ilustre punho,
e não há olvido, não há inverno que te apague,
irmão fulgurante, dos lábios do povo.
Assim te falo, esquecendo talvez uma palavra,
respondendo por fim às cartas de que não te lembras
e que quando os climas do leste me cobriram
como aroma escarlate, chegaram
até a minha solidão.
Que teu rosto dourado
encontre nesta carta um dia de outro tempo,
e outro tempo de um dia que virá.
Me despeço
hoje, 1948, 16 de dezembro,
em algum ponto da América na qual canto.
III
A González Carbalho
(no Rio da Prata)
Quando a noite devorou os sons humanos, e desaprumou
sua sombra linha a linha,
ouvimos, no silêncio acrescentado, além dos seres,
o rumor do rio de González Carbalho,
sua água profunda e permanente, seu transcurso que parece
imóvel como o crescimento da árvore ou do tempo.
Este grande poeta fluvial acompanha o silêncio do mundo,
com sonora austeridade, e o que desejar no meio
do tráfego ouvi-lo, que coloque (como faz nos
bosques ou nos lhanos o explorador extraviado) seu ouvido
sobre a terra: e ainda mesmo no meio da rua ouvirá subir
entre os passos do estrondo esta poesia: as vozes
profundas da terra e da água.
Então sob a cidade e seu atropelo, sob as lâmpadas
de fralda escarlate, como o trigo que nasce, irrompendo em
toda latitude, este rio que canta.
Sobre seu leito, assustadas aves de
crepúsculo, gargantas de arrebol que dividem o espaço,
folhas purpúreas que descem.
Todos os homens que se atrevam a olhar a solidão:
os que toquem a corda abandonada, todos os
imensamente puros, e aqueles que da nau escutaram
sal, solidão e noite se reunirem,
ouvirão o coro de González Carbalho surgir alto e cristalino
da sua primavera noturna.
Lembrais outro? Príncipe de Aquitânia: à sua torre abolida
substituiu na hora inicial, o rincão das lágrimas
que o homem milenário extravasou taça a taça.
E que o saiba aquele que não olhou os rostos, o vencedor
ou o vencido:
preocupados pelo vento de safira ou pela taça amarga:
além da rua e rua, além de uma hora,
tocai estas trevas, e continuemos juntos.
Então, no mapa desordenado das pequenas vidas
com tinta azul: o rio, o rio das águas que cantam,
feito da esperança, do padecer perdido,
da água sem angústia que sobe à vitória.
Meu irmão fez este rio:
de seu alto e subterrâneo canto se construíram
estes graves sons molhados de silêncio.
Meu irmão é este rio que rodeia as coisas.
Onde estiverdes, na noite, de dia, a caminho,
sobre os desvelados trens dos prados,
ou junto à empapada rosa da alva fria,
ou ainda
entre as roupas, tocando
o torvelinbo,
caí por terra, que o vosso rosto receba
este grande pulsar de água secreta que circula.
Irmão, és o rio mais longo da terra:
atrás do orbe, soa a tua voz grave de rio,
e eu molho as mãos em teu peito
fiel a um tesouro nunca interrompido,
fiel à transparência da lágrima augusta,
fiel à eternidade agredida do homem.
IV
A Silvestre Revueltas, do México, em sua morte
(Oratório menor)
Quando um homem como Silvestre Revueltas
volta definitivamente à terra,
há um rumor, uma onda
de voz e pranto que prepara e propaga sua partida.
As pequenas raízes dizem aos cereais: “Morreu Silvestre”,
e o trigo ondula o seu nome nas encostas
e logo o pão o sabe.
Todas as árvores da América já o sabem
e também as flores geladas da nossa região ártica.
As gotas d'água o transmitem,
os rios indomáveis da
Araucania já sabem a notícia.
Da nevada ao lago, do lago á planta,
da planta ao fogo, do fogo ao fumo:
tudo o que arde, canta, floresce, dança e revive,
todo o permanente, alto e profundo da nossa América o acolhem,
pianos e pássaros, sonhos e sons, a rede palpitante
que une na aragem todos os nossos climas,
treme e traslada o coro funeral.
Silvestre morreu, Silvestre entrou em sua música total,
em seu silêncio sonoro.
Filho da terra, menino da terra, desde hoje entras no tempo.
Desde hoje o teu nome cheio de música voará quando
[se toque tua pátria, como de um sino,
com um som jamais ouvido, com o som do que foste, irmão.
Teu coração de catedral nos cobre neste instante como o firmamento
e teu canto grande e grandioso, tua ternura vulcânica,
enche toda a altura como uma estátua ardendo.
Por que derramaste a vida? Por que verteste
em cada taça o teu sangue? Por que buscaste
como um anjo cego, ferindo-se pelas portas escuras?
Ah, mas de teu nome sai música
e de tua música, como de um mercado,
saem coroas de louro fragrante
e maçãs de olor e simetria.
Neste dia solene de despedida és tu o despedido,
mas já não ouves,
teu nobre rosto falta e é como se faltasse
uma grande árvore no meio da casa do homem.
Mas a luz que vemos é desde hoje outra luz,
a rua que viramos é uma nova rua,
a mão que tocamos desde hoje tem a tua força,
todas as coisas adquirem vigor em teu descanso
e tua pureza subirá das pedras
para mostrar-nos a claridade da esperança.
Repousa, irmão, o dia teu terminou,
com a tua alma doce e poderosa o encheste
de luz mais alta que a luz do dia
e de um som azul como a voz do céu.
Teu irmão e teus amigos me pediram
que repita o teu nome pelos ares da América,
que o conheça o touro do pampa, e a neve,
que o arrebate o mar, que o discuta o vento.
Agora são as estrelas da América a tua pátria
e desde hoje a tua casa sem portas é a Terra.
V
A Miguel Hernández,
Assassinado nos presídios da Espanha
Chegaste a mim diretamente do Levante, Me trazias,
pastor de cabras, tua inocência enrugada,
a escolástica de velhas páginas, um odor
de Frei Luis, de flor de laranjeira, de esterco queimado
sobre os montes, e em tua máscara
a aspereza cereal da aveia segada
e um mel que media a terra com teus olhos.
Também o rouxinol em tua boca trazias.
Um rouxinol manchado de laranjas, um fio
de incorruptível canto, de força desfolhada.
Ai, rapaz, na luz sobreveio a pólvora
e tu, com rouxinol e com fuzil, andando
sob a lua e sob o sol da batalha.
Já sabes, filho meu, o quanto não pude fazer, já sabes
que para mim, de toda a poesia, tu eras o fogo azul.
Hoje sobre a terra ponho o meu rosto e te escuto,
te escuto, sangue, música, colméia agonizante.
Não vi deslumbrante raça como a tua,
nem raízes tão duras, nem mãos de soldado,
nem vi nada mais vivo que o teu coração
a se queimar na púrpura de minha própria bandeira.
Jovem eterno, vives, comuneiro de antanho,
inundado de germes de trigo e primavera,
enrugado e escuro como o metal inato,
esperando o minuto que erga a tua armadura.
Não estou só desde que morreste.
Estou com os que te buscam.
Estou com os que um dia chegarão a vingar-te.
Reconhecerás os meus passos entre esses
que se despenharão sobre o peito da Espanha
esmagando Caim para que nos devolva
os restos enterrados.
Que saibam os que te mataram que pagarão com sangue.
Que saibam os que te deram tormento que me verão um dia.
Que saibam os malditos que hoje incluem o teu nome
em seus livros, os Dámasos, os Gerardos, os filhos
de cadela, silenciosos cúmplices do verdugo,
que não será apagado o teu martírio, e tua morte
tombará sobre toda sua lua de covardes.
E os que te negaram em seu loureiro apodrecido,
na terra americana, o espaço que cobres
com a tua fluvial coroa de raio sangrado,
deixa-me dar-lhes eu o desdenhoso esquecimento
porque a mim quiseram mutilar com a tua ausência.
Miguel, longe da prisão de Osuna, longe
da crueldade, Mao Tsé-tung dirige
tua poesia despedaçada no combate
para a nossa vitória.
E Praga rumorosa
a construir a doce colméia que cantaste,
Hungria verde limpa seus celeiros
e dança junto ao rio que despertou do sonho.
E de Varsóvia sobe a sereia nua
que edifica a mostrar sua cristalina espada.
Mais além a terra se agiganta,
a terra,
que visitou o teu canto, o aço
que defendeu a tua pátria estão seguros,
acrescentados pela firmeza
de Stálin e seus filhos.
Já se achega
a luz a tua morada.
Miguel da Espanha, estrela
de terras arrasadas, não te esqueço, filho meu,
não te esqueço, filho meu!
Mas aprendi a vida
com a tua morte: meus olhos apenas se velaram,
e encontrei em mim não o pranto
mas as armas
inexoráveis!
Espera-as! Espera-me!
Carta a Miguel Otero Silva, em Caracas (1948)
Um amigo me trouxe a tua carta escrita
com palavras invisíveis, sobre sua roupa, em seus olhos.
Como és alegre, Miguel, como somos alegres!
Nada resta num mundo de úlceras estucadas
senão nós, indefinidamente alegres.
Vejo passar o corvo e não me pode fazer mal.
Tu observas o escorpião e limpas a tua guitarra.
Vivemos entre as feras, cantando, e quando tocamos
um homem, a matéria de alguém em quem acreditávamos,
e este homem se desmorona como um pastel podre,
tu em teu venezuelano patrimônio recolhes
o que pode salvar-se, enquanto eu defendo
a brasa da vida.
Que alegria, Miguel!
Me perguntarás onde estou? Te contarei
- dando só detalhes úteis ao governo -
que nesta costa cheia de pedras selvagens
unem-se o mar e o campo, ondas e pinheiros,
águias e procelárias, espumas e prados.
Já viste de muito perto e o dia todo
como voam os pássaros do mar? É como
se levassem as cartas do mundo a seus destinos.
Passam os alcatrazes como barcos do vento,
outras aves que voam como flechas e trazem
as mensagens dos reis defuntos, dos príncipes
enterrados com fios de turquesa nas costas andinas,
e as gaivotas feitas de brancura redonda,
que esquecem continuamente as suas mensagens.
Como é azul a vida, Miguel, quando pusemos nela
amor e luta, palavras que são o pão e o vinho,
palavras que eles ainda não podem desonrar,
porque nós saímos para a rua de escopeta e cantos.
Eles estão perdidos conosco, Miguel.
Que podem fazer senão matar-nos, e ainda assim
não lhes é um bom negócio, só podem
tratar de alugar um andar diante de nós e seguir-nos
para aprender a rir e a chorar como nós.
Quando eu escrevia versos de amor, que me brotavam
de todos os lados, e me morria de tristeza,
errante, abandonado, roendo o alfabeto,
me diziam: “Como és grande, ó Teócrito!”
Eu não sou Teócrito: tomei a vida,
me pus diante dela, dei-lhe beijos até vencê-la,
e logo me fui pelas vielas das minas
para ver como viviam outros homens.
E quando saí com as mãos manchadas de imundícies e dores,
eu as levantei a mostrá-las nas cordas de ouro,
e disse: “Eu não compartilho do crime”.
Tossiram, ficaram muito desgostosos, me cortaram o cumprimento,
deixaram de me chamar de Teócrito, e acabaram
por me insultar e mandar toda a polícia para prender-me,
porque eu não continuava preocupado exclusivamente de assuntos
[metafísicos.
Mas eu tinha conquistado a alegria.
Desde então me levantei para ler as cartas
que trazem as aves do mar de tão longe,
cartas que chegam molhadas, mensagens que pouco a pouco
vou traduzindo com lentidão e segurança: sou meticuloso
como um engenheiro neste estranho ofício.
E saio de repente à janela.
É um quadrado
de transparência, é pura a distância
de ervas e penhascos, e assim vou trabalhando
entre as coisas que amo: ondas, pedras, vespas,
com uma embriagadora felicidade marinha.
Mas ninguém gosta de que estejamos alegres, a ti te incumbiram
de um papel bonachão: “Mas não exagere, não se preocupe”,
e a mim me quiseram espetar num insectário, entre as lágrimas,
para que estas me afogassem e eles pudessem fazerseus discursos
[em meu túmulo.
Eu me lembro que um dia no pampa arenoso
do salitre, havia quinhentos homens
em greve.
Era a tarde abrasadora
de Tarapacá.
E quando os rostos haviam recolhido
toda a areia e o exangue sol seco do deserto,
vi chegar a meu coração, como uma taça de ódio,
a velha melancolia.
Naquela hora de crime,
na desolação das salinas, nesse minuto débil
da luta, em que poderíamos ter sido vencidos,
uma menina pequenina e pálida chegada das minas
disse com uma voz valente em que se juntavam o cristal e o aço
um poema teu, um velho poema teu que roda entre os olhos enrugados
de todos os operários e lavradores de minha pátria, da América.
E aquele pedaço de teu canto refulgiu de repente
em minha boca como uma flor purpúrea
e desceu pelo meu sangue, enchendo-o de novo
com uma alegria transbordante nascida de teu canto.
E eu pensei não só em ti, mas em tua Venezuela amarga.
Há anos, vi um estudante que tinha nos tornozelos
o sinal das cadeias que um general lhe havia imposto,
e me contou como os acorrentados trabalhavam nos caminhos
e os calabouços onde a gente se perdia.
Porque assim foi a nossa América:
uma planura com rios devoradores e constelações
de mariposas (em alguns lugares, as esmeraldas são espessas
[como maçãs),
porém sempre ao longo da noite e dos rios,
há tornozelos que sangram, antes perto do petróleo,
hoje perto do nitrato, em Pisagua, onde um déspota sujo
enterrou a flor de minha pátria para que morra, e ele
[possa comerciar com os ossos.
Por isso cantas, por isso, para que a América desonrada e ferida
faça tremer as suas mariposas e recolha suas esmeraldas
sem o espantoso sangue do castigo coagulado
nas mãos dos verdugos e dos mercadores.
Eu compreendi como estarias alegre, perto do Orenoco, cantando,
certamente, ou então comprando vinho para a tua casa,
ocupando o teu posto na luta e na alegria,
largo de ombros, como são os poetas deste tempo,
- com roupas claras e sapatos de uso para caminhar.
Desde então, fiquei pensando em escrever-te algum dia,
e quando Guillén chegou, todo cheio de histórias tuas
que se desprendiam de toda a roupa
e que sob as castanheiras de minha casa se derramaram,
me disse: “Agora”, nem assim comecei a escrever-te.
Mas hoje foi demais: passou pela minha janela
não apenas uma ave do mar, mas milhares,
e recolhi as cartas que ninguém lê e que elas levam
pelas praias do mundo, até perdê-las.
E aí, em cada uma lia palavras tuas
e eram como as que eu escrevo e sonho e canto,
e aí decidi enviar-te esta carta, que aqui termino
para olhar pela janela o mundo que nos pertence.
II
A Rafael Alberti
(Puerto de Santa María, Espanha)
Rafael, antes de chegar à Espanha me apareceu a caminho a tua poesia, rosa literal, cacho biselado,
e ela até agora tem sido para mim não uma lembrança
mas uma luz olorosa, emanação de um mundo.
A tua terra ressequida pela crueldade trouxeste
o orvalho que o tempo havia esquecido,
e a Espanha acordou contigo na cintura,
outra vez coroada de aljôfar matutino.
Recordarás o que trazia: sonhos despedaçados
por implacáveis ácidos, permanências
em águas desterradas, em silêncios
de onde as raízes amargas emergiam
como paus queimados no bosque,
Com posso esquecer, Rafael, aquele tempo?
A teu país cheguei como quem cai
em uma lua de pedra, encontrando em todas as partes
águias do agreste, secos espinhos,
mas a tua voz, marinheiro, esperava
para dar-me as boas-vindas e a fragrância
da flor de laranjeira, o mel dos frutos marinhos.
E a tua poesia estava na mesa, nua.
Os pinheirais do sul, as raças da uva
deram a teu diamante cortado suas resinas,
e ao tocar tão formosa claridade, muita sombra
da que traz ao mundo se desfez.
Arquitetura feita na luz, como as pétalas,
através de teus versos de embriagador aroma,
eu vi a água de antanho, a neve hereditária,
e a ti mais que ninguém eu devo a Espanha.
Com teus dedos toquei colméia e páramo,
conheci as praias gastas pelo povo
como por um oceano, e os degraus
em que a poesia foi rasgando
toda a sua vestimenta de safiras.
Tu sabes que só se ensina ao irmão.
E nessa
hora não só aquilo me ensinaste,
não só a apagada pompa de nossa estirpe,
mas a retidão de teu destino,
e quando mais uma vez chegou o sangue à Espanha
defendi o patrimônio do povo que era meu.
Já sabes, já todo mundo sabe estas coisas.
Eu quero somente estar contigo,
e hoje que te falta a metade da vida,
tua terra, a que tens mais direito que uma árvore,
hoje que das desgraças da pátria não só
o luto do que amamos, mas também a tua ausência cobrem
a herança da oliveira que devoram os lobos,
te quero dar, ai!, se pudesse, irmão grande,
a estrelada alegria que então me deste.
Entre nós dois a poesia
se toca como pele celeste,
e contigo gosto de recolher um cacho de uvas,
este pâmpano, aquela raiz das trevas.
A inveja que abre portas nos seres
não pôde abrir a tua porta nem a minha.
És belo
como quando a cólera do vento
desencadeia seu vestido lá fora
e estão o pão, o vinho e o fogo conosco,
deixar que uive o vendedor de fúria,
deixar que silve o que passou entre teus pés,
e levantar a taça cheia de âmbar
com todo o rito da transparência.
Alguém quer esquecer que és o primeiro?
Deixa-o navegar e encontrará o teu rosto.
Alguém quer enterrar-nos precipitadamente?
Está bem, mas tem a obrigação do vôo.
Virão, mas quem pode sacudir a colheita
que com a mão do outono foi erguida
até tingir o mundo com o tremor do vinho?
Dá-me esta taça, irmão, e escuta: estou rodeado
de minha América úmida e torrencial, às vezes
perco o silêncio, perco a corola noturna,
e me rodeia o ódio, talvez nada, o vazio
dum vazio, o crepúsculo
dum cão, duma rã,
e então sinto que tanta terra minha nos separe,
e quero ir a tua casa, em que eu sei, me esperas,
só para sermos bons como só nós
podemos sê-lo.
Não devemos nada.
E a ti, sim, é que devem, e és uma pátria: espera.
Voltarás, voltaremos.
Quero contigo um dia
em tuas ribeiras ir embriagados de ouro
até teus portos, portos do sul que então não atingi.
Me mostrarás o mar onde sardinhas
e azeitonas disputam as areias,
e aqueles campos com os touros de olhos verdes
que Villalón (amigo que também
não veio me ver, pois estava enterrado)
tinha, e os tonéis de xerez, catedrais
em cujos corações gongorinos
arde o topázio com pálido fogo.
Iremos, Rafael, aonde jaz
aquele que com suas mãos e as tuas
a cintura da Espanha sustentava.
O morto que não pôde morrer, aquele a quem guardas,
porque só a tua existência o defende.
Lá está Federico, mas há muitos que, mergulhados, enterrados,
entre as cordilheiras espanholas, tombados
injustamente, derramados,
perdido cereal nas montanhas,
são nossos, e nós estamos em sua argila.
Vives porque sempre foste um deus milagroso.
A ninguém mais que a ti procuraram, queriam
devorar-te os lobos, quebrar teu poderio.
Cada um queria ser verme em tua morte.
Pois bem, se enganaram.
É talvez a estrutura
de tua canção, intacta transparência,
armada decisão de tua doçura,
dureza, fortaleza delicada,
o que salvou teu amor para a tua terra.
Eu irei contigo para provar a água
do Genil, do domínio que me deste,
a olhar na prata que navega
as efígies adormecidas que fundaram
as sílabas azuis de teu canto.
Entraremos também nas forjas: agora
o metal dos povos aí espera
nascer nas facas: passaremos cantando
junto às redes vermelhas que move o firmamento.
Facas, redes, cantos apagarão as dores.
Teu povo levará com as mãos queimadas
pela pólvora, como loureiro dos prados,
o que o teu amor foi debulhando na desgraça.
Sim, de nossos desertos nasce a flor, a forma
da pátria que o povo reconquista com trovões,
e não é um dia só o que elabora
o mel perdido, a verdade do sonho,
mas também cada raiz que se faz canto
até povoar o mundo com as suas folhas.
Lá estás, não há nada que não mova
a lua diamantina que deixaste:
a solidão, o vento nos rincões,
tudo toca o teu puro território,
e os últimos mortos, os que caem
na prisão, leões fuzilados,
e os das guerrilhas, capitães
do coração, estão umedecendo
a tua própria investidura cristalina,
teu próprio coração com suas raízes.
Passou o tempo desde aquele dia em que compartilhamos
dores que deixaram uma ferida radiante,
o cavalo da guerra que com suas ferraduras
atropelou a aldeia destroçando as vidraças.
Tudo aquilo nasceu debaixo da pólvora,
tudo aquilo te aguarda para erguer a espiga,
e nesse nascimento te envolverão de novo
o fumo e a ternura daqueles duros dias.
Vasta é a pele da Espanha e nela a tua espora
vive como uma espada de ilustre punho,
e não há olvido, não há inverno que te apague,
irmão fulgurante, dos lábios do povo.
Assim te falo, esquecendo talvez uma palavra,
respondendo por fim às cartas de que não te lembras
e que quando os climas do leste me cobriram
como aroma escarlate, chegaram
até a minha solidão.
Que teu rosto dourado
encontre nesta carta um dia de outro tempo,
e outro tempo de um dia que virá.
Me despeço
hoje, 1948, 16 de dezembro,
em algum ponto da América na qual canto.
III
A González Carbalho
(no Rio da Prata)
Quando a noite devorou os sons humanos, e desaprumou
sua sombra linha a linha,
ouvimos, no silêncio acrescentado, além dos seres,
o rumor do rio de González Carbalho,
sua água profunda e permanente, seu transcurso que parece
imóvel como o crescimento da árvore ou do tempo.
Este grande poeta fluvial acompanha o silêncio do mundo,
com sonora austeridade, e o que desejar no meio
do tráfego ouvi-lo, que coloque (como faz nos
bosques ou nos lhanos o explorador extraviado) seu ouvido
sobre a terra: e ainda mesmo no meio da rua ouvirá subir
entre os passos do estrondo esta poesia: as vozes
profundas da terra e da água.
Então sob a cidade e seu atropelo, sob as lâmpadas
de fralda escarlate, como o trigo que nasce, irrompendo em
toda latitude, este rio que canta.
Sobre seu leito, assustadas aves de
crepúsculo, gargantas de arrebol que dividem o espaço,
folhas purpúreas que descem.
Todos os homens que se atrevam a olhar a solidão:
os que toquem a corda abandonada, todos os
imensamente puros, e aqueles que da nau escutaram
sal, solidão e noite se reunirem,
ouvirão o coro de González Carbalho surgir alto e cristalino
da sua primavera noturna.
Lembrais outro? Príncipe de Aquitânia: à sua torre abolida
substituiu na hora inicial, o rincão das lágrimas
que o homem milenário extravasou taça a taça.
E que o saiba aquele que não olhou os rostos, o vencedor
ou o vencido:
preocupados pelo vento de safira ou pela taça amarga:
além da rua e rua, além de uma hora,
tocai estas trevas, e continuemos juntos.
Então, no mapa desordenado das pequenas vidas
com tinta azul: o rio, o rio das águas que cantam,
feito da esperança, do padecer perdido,
da água sem angústia que sobe à vitória.
Meu irmão fez este rio:
de seu alto e subterrâneo canto se construíram
estes graves sons molhados de silêncio.
Meu irmão é este rio que rodeia as coisas.
Onde estiverdes, na noite, de dia, a caminho,
sobre os desvelados trens dos prados,
ou junto à empapada rosa da alva fria,
ou ainda
entre as roupas, tocando
o torvelinbo,
caí por terra, que o vosso rosto receba
este grande pulsar de água secreta que circula.
Irmão, és o rio mais longo da terra:
atrás do orbe, soa a tua voz grave de rio,
e eu molho as mãos em teu peito
fiel a um tesouro nunca interrompido,
fiel à transparência da lágrima augusta,
fiel à eternidade agredida do homem.
IV
A Silvestre Revueltas, do México, em sua morte
(Oratório menor)
Quando um homem como Silvestre Revueltas
volta definitivamente à terra,
há um rumor, uma onda
de voz e pranto que prepara e propaga sua partida.
As pequenas raízes dizem aos cereais: “Morreu Silvestre”,
e o trigo ondula o seu nome nas encostas
e logo o pão o sabe.
Todas as árvores da América já o sabem
e também as flores geladas da nossa região ártica.
As gotas d'água o transmitem,
os rios indomáveis da
Araucania já sabem a notícia.
Da nevada ao lago, do lago á planta,
da planta ao fogo, do fogo ao fumo:
tudo o que arde, canta, floresce, dança e revive,
todo o permanente, alto e profundo da nossa América o acolhem,
pianos e pássaros, sonhos e sons, a rede palpitante
que une na aragem todos os nossos climas,
treme e traslada o coro funeral.
Silvestre morreu, Silvestre entrou em sua música total,
em seu silêncio sonoro.
Filho da terra, menino da terra, desde hoje entras no tempo.
Desde hoje o teu nome cheio de música voará quando
[se toque tua pátria, como de um sino,
com um som jamais ouvido, com o som do que foste, irmão.
Teu coração de catedral nos cobre neste instante como o firmamento
e teu canto grande e grandioso, tua ternura vulcânica,
enche toda a altura como uma estátua ardendo.
Por que derramaste a vida? Por que verteste
em cada taça o teu sangue? Por que buscaste
como um anjo cego, ferindo-se pelas portas escuras?
Ah, mas de teu nome sai música
e de tua música, como de um mercado,
saem coroas de louro fragrante
e maçãs de olor e simetria.
Neste dia solene de despedida és tu o despedido,
mas já não ouves,
teu nobre rosto falta e é como se faltasse
uma grande árvore no meio da casa do homem.
Mas a luz que vemos é desde hoje outra luz,
a rua que viramos é uma nova rua,
a mão que tocamos desde hoje tem a tua força,
todas as coisas adquirem vigor em teu descanso
e tua pureza subirá das pedras
para mostrar-nos a claridade da esperança.
Repousa, irmão, o dia teu terminou,
com a tua alma doce e poderosa o encheste
de luz mais alta que a luz do dia
e de um som azul como a voz do céu.
Teu irmão e teus amigos me pediram
que repita o teu nome pelos ares da América,
que o conheça o touro do pampa, e a neve,
que o arrebate o mar, que o discuta o vento.
Agora são as estrelas da América a tua pátria
e desde hoje a tua casa sem portas é a Terra.
V
A Miguel Hernández,
Assassinado nos presídios da Espanha
Chegaste a mim diretamente do Levante, Me trazias,
pastor de cabras, tua inocência enrugada,
a escolástica de velhas páginas, um odor
de Frei Luis, de flor de laranjeira, de esterco queimado
sobre os montes, e em tua máscara
a aspereza cereal da aveia segada
e um mel que media a terra com teus olhos.
Também o rouxinol em tua boca trazias.
Um rouxinol manchado de laranjas, um fio
de incorruptível canto, de força desfolhada.
Ai, rapaz, na luz sobreveio a pólvora
e tu, com rouxinol e com fuzil, andando
sob a lua e sob o sol da batalha.
Já sabes, filho meu, o quanto não pude fazer, já sabes
que para mim, de toda a poesia, tu eras o fogo azul.
Hoje sobre a terra ponho o meu rosto e te escuto,
te escuto, sangue, música, colméia agonizante.
Não vi deslumbrante raça como a tua,
nem raízes tão duras, nem mãos de soldado,
nem vi nada mais vivo que o teu coração
a se queimar na púrpura de minha própria bandeira.
Jovem eterno, vives, comuneiro de antanho,
inundado de germes de trigo e primavera,
enrugado e escuro como o metal inato,
esperando o minuto que erga a tua armadura.
Não estou só desde que morreste.
Estou com os que te buscam.
Estou com os que um dia chegarão a vingar-te.
Reconhecerás os meus passos entre esses
que se despenharão sobre o peito da Espanha
esmagando Caim para que nos devolva
os restos enterrados.
Que saibam os que te mataram que pagarão com sangue.
Que saibam os que te deram tormento que me verão um dia.
Que saibam os malditos que hoje incluem o teu nome
em seus livros, os Dámasos, os Gerardos, os filhos
de cadela, silenciosos cúmplices do verdugo,
que não será apagado o teu martírio, e tua morte
tombará sobre toda sua lua de covardes.
E os que te negaram em seu loureiro apodrecido,
na terra americana, o espaço que cobres
com a tua fluvial coroa de raio sangrado,
deixa-me dar-lhes eu o desdenhoso esquecimento
porque a mim quiseram mutilar com a tua ausência.
Miguel, longe da prisão de Osuna, longe
da crueldade, Mao Tsé-tung dirige
tua poesia despedaçada no combate
para a nossa vitória.
E Praga rumorosa
a construir a doce colméia que cantaste,
Hungria verde limpa seus celeiros
e dança junto ao rio que despertou do sonho.
E de Varsóvia sobe a sereia nua
que edifica a mostrar sua cristalina espada.
Mais além a terra se agiganta,
a terra,
que visitou o teu canto, o aço
que defendeu a tua pátria estão seguros,
acrescentados pela firmeza
de Stálin e seus filhos.
Já se achega
a luz a tua morada.
Miguel da Espanha, estrela
de terras arrasadas, não te esqueço, filho meu,
não te esqueço, filho meu!
Mas aprendi a vida
com a tua morte: meus olhos apenas se velaram,
e encontrei em mim não o pranto
mas as armas
inexoráveis!
Espera-as! Espera-me!
1 112
Pablo Neruda
Canto XII - Os Rios do Canto
I
Carta a Miguel Otero Silva, em Caracas (1948)
Um amigo me trouxe a tua carta escrita
com palavras invisíveis, sobre sua roupa, em seus olhos.
Como és alegre, Miguel, como somos alegres!
Nada resta num mundo de úlceras estucadas
senão nós, indefinidamente alegres.
Vejo passar o corvo e não me pode fazer mal.
Tu observas o escorpião e limpas a tua guitarra.
Vivemos entre as feras, cantando, e quando tocamos
um homem, a matéria de alguém em quem acreditávamos,
e este homem se desmorona como um pastel podre,
tu em teu venezuelano patrimônio recolhes
o que pode salvar-se, enquanto eu defendo
a brasa da vida.
Que alegria, Miguel!
Me perguntarás onde estou? Te contarei
- dando só detalhes úteis ao governo -
que nesta costa cheia de pedras selvagens
unem-se o mar e o campo, ondas e pinheiros,
águias e procelárias, espumas e prados.
Já viste de muito perto e o dia todo
como voam os pássaros do mar? É como
se levassem as cartas do mundo a seus destinos.
Passam os alcatrazes como barcos do vento,
outras aves que voam como flechas e trazem
as mensagens dos reis defuntos, dos príncipes
enterrados com fios de turquesa nas costas andinas,
e as gaivotas feitas de brancura redonda,
que esquecem continuamente as suas mensagens.
Como é azul a vida, Miguel, quando pusemos nela
amor e luta, palavras que são o pão e o vinho,
palavras que eles ainda não podem desonrar,
porque nós saímos para a rua de escopeta e cantos.
Eles estão perdidos conosco, Miguel.
Que podem fazer senão matar-nos, e ainda assim
não lhes é um bom negócio, só podem
tratar de alugar um andar diante de nós e seguir-nos
para aprender a rir e a chorar como nós.
Quando eu escrevia versos de amor, que me brotavam
de todos os lados, e me morria de tristeza,
errante, abandonado, roendo o alfabeto,
me diziam: “Como és grande, ó Teócrito!”
Eu não sou Teócrito: tomei a vida,
me pus diante dela, dei-lhe beijos até vencê-la,
e logo me fui pelas vielas das minas
para ver como viviam outros homens.
E quando saí com as mãos manchadas de imundícies e dores,
eu as levantei a mostrá-las nas cordas de ouro,
e disse: “Eu não compartilho do crime”.
Tossiram, ficaram muito desgostosos, me cortaram o cumprimento,
deixaram de me chamar de Teócrito, e acabaram
por me insultar e mandar toda a polícia para prender-me,
porque eu não continuava preocupado exclusivamente de assuntos
[metafísicos.
Mas eu tinha conquistado a alegria.
Desde então me levantei para ler as cartas
que trazem as aves do mar de tão longe,
cartas que chegam molhadas, mensagens que pouco a pouco
vou traduzindo com lentidão e segurança: sou meticuloso
como um engenheiro neste estranho ofício.
E saio de repente à janela.
É um quadrado
de transparência, é pura a distância
de ervas e penhascos, e assim vou trabalhando
entre as coisas que amo: ondas, pedras, vespas,
com uma embriagadora felicidade marinha.
Mas ninguém gosta de que estejamos alegres, a ti te incumbiram
de um papel bonachão: “Mas não exagere, não se preocupe”,
e a mim me quiseram espetar num insectário, entre as lágrimas,
para que estas me afogassem e eles pudessem fazerseus discursos
[em meu túmulo.
Eu me lembro que um dia no pampa arenoso
do salitre, havia quinhentos homens
em greve.
Era a tarde abrasadora
de Tarapacá.
E quando os rostos haviam recolhido
toda a areia e o exangue sol seco do deserto,
vi chegar a meu coração, como uma taça de ódio,
a velha melancolia.
Naquela hora de crime,
na desolação das salinas, nesse minuto débil
da luta, em que poderíamos ter sido vencidos,
uma menina pequenina e pálida chegada das minas
disse com uma voz valente em que se juntavam o cristal e o aço
um poema teu, um velho poema teu que roda entre os olhos enrugados
de todos os operários e lavradores de minha pátria, da América.
E aquele pedaço de teu canto refulgiu de repente
em minha boca como uma flor purpúrea
e desceu pelo meu sangue, enchendo-o de novo
com uma alegria transbordante nascida de teu canto.
E eu pensei não só em ti, mas em tua Venezuela amarga.
Há anos, vi um estudante que tinha nos tornozelos
o sinal das cadeias que um general lhe havia imposto,
e me contou como os acorrentados trabalhavam nos caminhos
e os calabouços onde a gente se perdia.
Porque assim foi a nossa América:
uma planura com rios devoradores e constelações
de mariposas (em alguns lugares, as esmeraldas são espessas
[como maçãs),
porém sempre ao longo da noite e dos rios,
há tornozelos que sangram, antes perto do petróleo,
hoje perto do nitrato, em Pisagua, onde um déspota sujo
enterrou a flor de minha pátria para que morra, e ele
[possa comerciar com os ossos.
Por isso cantas, por isso, para que a América desonrada e ferida
faça tremer as suas mariposas e recolha suas esmeraldas
sem o espantoso sangue do castigo coagulado
nas mãos dos verdugos e dos mercadores.
Eu compreendi como estarias alegre, perto do Orenoco, cantando,
certamente, ou então comprando vinho para a tua casa,
ocupando o teu posto na luta e na alegria,
largo de ombros, como são os poetas deste tempo,
- com roupas claras e sapatos de uso para caminhar.
Desde então, fiquei pensando em escrever-te algum dia,
e quando Guillén chegou, todo cheio de histórias tuas
que se desprendiam de toda a roupa
e que sob as castanheiras de minha casa se derramaram,
me disse: “Agora”, nem assim comecei a escrever-te.
Mas hoje foi demais: passou pela minha janela
não apenas uma ave do mar, mas milhares,
e recolhi as cartas que ninguém lê e que elas levam
pelas praias do mundo, até perdê-las.
E aí, em cada uma lia palavras tuas
e eram como as que eu escrevo e sonho e canto,
e aí decidi enviar-te esta carta, que aqui termino
para olhar pela janela o mundo que nos pertence.
II
A Rafael Alberti
(Puerto de Santa María, Espanha)
Rafael, antes de chegar à Espanha me apareceu a caminho a tua poesia, rosa literal, cacho biselado,
e ela até agora tem sido para mim não uma lembrança
mas uma luz olorosa, emanação de um mundo.
A tua terra ressequida pela crueldade trouxeste
o orvalho que o tempo havia esquecido,
e a Espanha acordou contigo na cintura,
outra vez coroada de aljôfar matutino.
Recordarás o que trazia: sonhos despedaçados
por implacáveis ácidos, permanências
em águas desterradas, em silêncios
de onde as raízes amargas emergiam
como paus queimados no bosque,
Com posso esquecer, Rafael, aquele tempo?
A teu país cheguei como quem cai
em uma lua de pedra, encontrando em todas as partes
águias do agreste, secos espinhos,
mas a tua voz, marinheiro, esperava
para dar-me as boas-vindas e a fragrância
da flor de laranjeira, o mel dos frutos marinhos.
E a tua poesia estava na mesa, nua.
Os pinheirais do sul, as raças da uva
deram a teu diamante cortado suas resinas,
e ao tocar tão formosa claridade, muita sombra
da que traz ao mundo se desfez.
Arquitetura feita na luz, como as pétalas,
através de teus versos de embriagador aroma,
eu vi a água de antanho, a neve hereditária,
e a ti mais que ninguém eu devo a Espanha.
Com teus dedos toquei colméia e páramo,
conheci as praias gastas pelo povo
como por um oceano, e os degraus
em que a poesia foi rasgando
toda a sua vestimenta de safiras.
Tu sabes que só se ensina ao irmão.
E nessa
hora não só aquilo me ensinaste,
não só a apagada pompa de nossa estirpe,
mas a retidão de teu destino,
e quando mais uma vez chegou o sangue à Espanha
defendi o patrimônio do povo que era meu.
Já sabes, já todo mundo sabe estas coisas.
Eu quero somente estar contigo,
e hoje que te falta a metade da vida,
tua terra, a que tens mais direito que uma árvore,
hoje que das desgraças da pátria não só
o luto do que amamos, mas também a tua ausência cobrem
a herança da oliveira que devoram os lobos,
te quero dar, ai!, se pudesse, irmão grande,
a estrelada alegria que então me deste.
Entre nós dois a poesia
se toca como pele celeste,
e contigo gosto de recolher um cacho de uvas,
este pâmpano, aquela raiz das trevas.
A inveja que abre portas nos seres
não pôde abrir a tua porta nem a minha.
És belo
como quando a cólera do vento
desencadeia seu vestido lá fora
e estão o pão, o vinho e o fogo conosco,
deixar que uive o vendedor de fúria,
deixar que silve o que passou entre teus pés,
e levantar a taça cheia de âmbar
com todo o rito da transparência.
Alguém quer esquecer que és o primeiro?
Deixa-o navegar e encontrará o teu rosto.
Alguém quer enterrar-nos precipitadamente?
Está bem, mas tem a obrigação do vôo.
Virão, mas quem pode sacudir a colheita
que com a mão do outono foi erguida
até tingir o mundo com o tremor do vinho?
Dá-me esta taça, irmão, e escuta: estou rodeado
de minha América úmida e torrencial, às vezes
perco o silêncio, perco a corola noturna,
e me rodeia o ódio, talvez nada, o vazio
dum vazio, o crepúsculo
dum cão, duma rã,
e então sinto que tanta terra minha nos separe,
e quero ir a tua casa, em que eu sei, me esperas,
só para sermos bons como só nós
podemos sê-lo.
Não devemos nada.
E a ti, sim, é que devem, e és uma pátria: espera.
Voltarás, voltaremos.
Quero contigo um dia
em tuas ribeiras ir embriagados de ouro
até teus portos, portos do sul que então não atingi.
Me mostrarás o mar onde sardinhas
e azeitonas disputam as areias,
e aqueles campos com os touros de olhos verdes
que Villalón (amigo que também
não veio me ver, pois estava enterrado)
tinha, e os tonéis de xerez, catedrais
em cujos corações gongorinos
arde o topázio com pálido fogo.
Iremos, Rafael, aonde jaz
aquele que com suas mãos e as tuas
a cintura da Espanha sustentava.
O morto que não pôde morrer, aquele a quem guardas,
porque só a tua existência o defende.
Lá está Federico, mas há muitos que, mergulhados, enterrados,
entre as cordilheiras espanholas, tombados
injustamente, derramados,
perdido cereal nas montanhas,
são nossos, e nós estamos em sua argila.
Vives porque sempre foste um deus milagroso.
A ninguém mais que a ti procuraram, queriam
devorar-te os lobos, quebrar teu poderio.
Cada um queria ser verme em tua morte.
Pois bem, se enganaram.
É talvez a estrutura
de tua canção, intacta transparência,
armada decisão de tua doçura,
dureza, fortaleza delicada,
o que salvou teu amor para a tua terra.
Eu irei contigo para provar a água
do Genil, do domínio que me deste,
a olhar na prata que navega
as efígies adormecidas que fundaram
as sílabas azuis de teu canto.
Entraremos também nas forjas: agora
o metal dos povos aí espera
nascer nas facas: passaremos cantando
junto às redes vermelhas que move o firmamento.
Facas, redes, cantos apagarão as dores.
Teu povo levará com as mãos queimadas
pela pólvora, como loureiro dos prados,
o que o teu amor foi debulhando na desgraça.
Sim, de nossos desertos nasce a flor, a forma
da pátria que o povo reconquista com trovões,
e não é um dia só o que elabora
o mel perdido, a verdade do sonho,
mas também cada raiz que se faz canto
até povoar o mundo com as suas folhas.
Lá estás, não há nada que não mova
a lua diamantina que deixaste:
a solidão, o vento nos rincões,
tudo toca o teu puro território,
e os últimos mortos, os que caem
na prisão, leões fuzilados,
e os das guerrilhas, capitães
do coração, estão umedecendo
a tua própria investidura cristalina,
teu próprio coração com suas raízes.
Passou o tempo desde aquele dia em que compartilhamos
dores que deixaram uma ferida radiante,
o cavalo da guerra que com suas ferraduras
atropelou a aldeia destroçando as vidraças.
Tudo aquilo nasceu debaixo da pólvora,
tudo aquilo te aguarda para erguer a espiga,
e nesse nascimento te envolverão de novo
o fumo e a ternura daqueles duros dias.
Vasta é a pele da Espanha e nela a tua espora
vive como uma espada de ilustre punho,
e não há olvido, não há inverno que te apague,
irmão fulgurante, dos lábios do povo.
Assim te falo, esquecendo talvez uma palavra,
respondendo por fim às cartas de que não te lembras
e que quando os climas do leste me cobriram
como aroma escarlate, chegaram
até a minha solidão.
Que teu rosto dourado
encontre nesta carta um dia de outro tempo,
e outro tempo de um dia que virá.
Me despeço
hoje, 1948, 16 de dezembro,
em algum ponto da América na qual canto.
III
A González Carbalho
(no Rio da Prata)
Quando a noite devorou os sons humanos, e desaprumou
sua sombra linha a linha,
ouvimos, no silêncio acrescentado, além dos seres,
o rumor do rio de González Carbalho,
sua água profunda e permanente, seu transcurso que parece
imóvel como o crescimento da árvore ou do tempo.
Este grande poeta fluvial acompanha o silêncio do mundo,
com sonora austeridade, e o que desejar no meio
do tráfego ouvi-lo, que coloque (como faz nos
bosques ou nos lhanos o explorador extraviado) seu ouvido
sobre a terra: e ainda mesmo no meio da rua ouvirá subir
entre os passos do estrondo esta poesia: as vozes
profundas da terra e da água.
Então sob a cidade e seu atropelo, sob as lâmpadas
de fralda escarlate, como o trigo que nasce, irrompendo em
toda latitude, este rio que canta.
Sobre seu leito, assustadas aves de
crepúsculo, gargantas de arrebol que dividem o espaço,
folhas purpúreas que descem.
Todos os homens que se atrevam a olhar a solidão:
os que toquem a corda abandonada, todos os
imensamente puros, e aqueles que da nau escutaram
sal, solidão e noite se reunirem,
ouvirão o coro de González Carbalho surgir alto e cristalino
da sua primavera noturna.
Lembrais outro? Príncipe de Aquitânia: à sua torre abolida
substituiu na hora inicial, o rincão das lágrimas
que o homem milenário extravasou taça a taça.
E que o saiba aquele que não olhou os rostos, o vencedor
ou o vencido:
preocupados pelo vento de safira ou pela taça amarga:
além da rua e rua, além de uma hora,
tocai estas trevas, e continuemos juntos.
Então, no mapa desordenado das pequenas vidas
com tinta azul: o rio, o rio das águas que cantam,
feito da esperança, do padecer perdido,
da água sem angústia que sobe à vitória.
Meu irmão fez este rio:
de seu alto e subterrâneo canto se construíram
estes graves sons molhados de silêncio.
Meu irmão é este rio que rodeia as coisas.
Onde estiverdes, na noite, de dia, a caminho,
sobre os desvelados trens dos prados,
ou junto à empapada rosa da alva fria,
ou ainda
entre as roupas, tocando
o torvelinbo,
caí por terra, que o vosso rosto receba
este grande pulsar de água secreta que circula.
Irmão, és o rio mais longo da terra:
atrás do orbe, soa a tua voz grave de rio,
e eu molho as mãos em teu peito
fiel a um tesouro nunca interrompido,
fiel à transparência da lágrima augusta,
fiel à eternidade agredida do homem.
IV
A Silvestre Revueltas, do México, em sua morte
(Oratório menor)
Quando um homem como Silvestre Revueltas
volta definitivamente à terra,
há um rumor, uma onda
de voz e pranto que prepara e propaga sua partida.
As pequenas raízes dizem aos cereais: “Morreu Silvestre”,
e o trigo ondula o seu nome nas encostas
e logo o pão o sabe.
Todas as árvores da América já o sabem
e também as flores geladas da nossa região ártica.
As gotas d'água o transmitem,
os rios indomáveis da
Araucania já sabem a notícia.
Da nevada ao lago, do lago á planta,
da planta ao fogo, do fogo ao fumo:
tudo o que arde, canta, floresce, dança e revive,
todo o permanente, alto e profundo da nossa América o acolhem,
pianos e pássaros, sonhos e sons, a rede palpitante
que une na aragem todos os nossos climas,
treme e traslada o coro funeral.
Silvestre morreu, Silvestre entrou em sua música total,
em seu silêncio sonoro.
Filho da terra, menino da terra, desde hoje entras no tempo.
Desde hoje o teu nome cheio de música voará quando
[se toque tua pátria, como de um sino,
com um som jamais ouvido, com o som do que foste, irmão.
Teu coração de catedral nos cobre neste instante como o firmamento
e teu canto grande e grandioso, tua ternura vulcânica,
enche toda a altura como uma estátua ardendo.
Por que derramaste a vida? Por que verteste
em cada taça o teu sangue? Por que buscaste
como um anjo cego, ferindo-se pelas portas escuras?
Ah, mas de teu nome sai música
e de tua música, como de um mercado,
saem coroas de louro fragrante
e maçãs de olor e simetria.
Neste dia solene de despedida és tu o despedido,
mas já não ouves,
teu nobre rosto falta e é como se faltasse
uma grande árvore no meio da casa do homem.
Mas a luz que vemos é desde hoje outra luz,
a rua que viramos é uma nova rua,
a mão que tocamos desde hoje tem a tua força,
todas as coisas adquirem vigor em teu descanso
e tua pureza subirá das pedras
para mostrar-nos a claridade da esperança.
Repousa, irmão, o dia teu terminou,
com a tua alma doce e poderosa o encheste
de luz mais alta que a luz do dia
e de um som azul como a voz do céu.
Teu irmão e teus amigos me pediram
que repita o teu nome pelos ares da América,
que o conheça o touro do pampa, e a neve,
que o arrebate o mar, que o discuta o vento.
Agora são as estrelas da América a tua pátria
e desde hoje a tua casa sem portas é a Terra.
V
A Miguel Hernández,
Assassinado nos presídios da Espanha
Chegaste a mim diretamente do Levante, Me trazias,
pastor de cabras, tua inocência enrugada,
a escolástica de velhas páginas, um odor
de Frei Luis, de flor de laranjeira, de esterco queimado
sobre os montes, e em tua máscara
a aspereza cereal da aveia segada
e um mel que media a terra com teus olhos.
Também o rouxinol em tua boca trazias.
Um rouxinol manchado de laranjas, um fio
de incorruptível canto, de força desfolhada.
Ai, rapaz, na luz sobreveio a pólvora
e tu, com rouxinol e com fuzil, andando
sob a lua e sob o sol da batalha.
Já sabes, filho meu, o quanto não pude fazer, já sabes
que para mim, de toda a poesia, tu eras o fogo azul.
Hoje sobre a terra ponho o meu rosto e te escuto,
te escuto, sangue, música, colméia agonizante.
Não vi deslumbrante raça como a tua,
nem raízes tão duras, nem mãos de soldado,
nem vi nada mais vivo que o teu coração
a se queimar na púrpura de minha própria bandeira.
Jovem eterno, vives, comuneiro de antanho,
inundado de germes de trigo e primavera,
enrugado e escuro como o metal inato,
esperando o minuto que erga a tua armadura.
Não estou só desde que morreste.
Estou com os que te buscam.
Estou com os que um dia chegarão a vingar-te.
Reconhecerás os meus passos entre esses
que se despenharão sobre o peito da Espanha
esmagando Caim para que nos devolva
os restos enterrados.
Que saibam os que te mataram que pagarão com sangue.
Que saibam os que te deram tormento que me verão um dia.
Que saibam os malditos que hoje incluem o teu nome
em seus livros, os Dámasos, os Gerardos, os filhos
de cadela, silenciosos cúmplices do verdugo,
que não será apagado o teu martírio, e tua morte
tombará sobre toda sua lua de covardes.
E os que te negaram em seu loureiro apodrecido,
na terra americana, o espaço que cobres
com a tua fluvial coroa de raio sangrado,
deixa-me dar-lhes eu o desdenhoso esquecimento
porque a mim quiseram mutilar com a tua ausência.
Miguel, longe da prisão de Osuna, longe
da crueldade, Mao Tsé-tung dirige
tua poesia despedaçada no combate
para a nossa vitória.
E Praga rumorosa
a construir a doce colméia que cantaste,
Hungria verde limpa seus celeiros
e dança junto ao rio que despertou do sonho.
E de Varsóvia sobe a sereia nua
que edifica a mostrar sua cristalina espada.
Mais além a terra se agiganta,
a terra,
que visitou o teu canto, o aço
que defendeu a tua pátria estão seguros,
acrescentados pela firmeza
de Stálin e seus filhos.
Já se achega
a luz a tua morada.
Miguel da Espanha, estrela
de terras arrasadas, não te esqueço, filho meu,
não te esqueço, filho meu!
Mas aprendi a vida
com a tua morte: meus olhos apenas se velaram,
e encontrei em mim não o pranto
mas as armas
inexoráveis!
Espera-as! Espera-me!
Carta a Miguel Otero Silva, em Caracas (1948)
Um amigo me trouxe a tua carta escrita
com palavras invisíveis, sobre sua roupa, em seus olhos.
Como és alegre, Miguel, como somos alegres!
Nada resta num mundo de úlceras estucadas
senão nós, indefinidamente alegres.
Vejo passar o corvo e não me pode fazer mal.
Tu observas o escorpião e limpas a tua guitarra.
Vivemos entre as feras, cantando, e quando tocamos
um homem, a matéria de alguém em quem acreditávamos,
e este homem se desmorona como um pastel podre,
tu em teu venezuelano patrimônio recolhes
o que pode salvar-se, enquanto eu defendo
a brasa da vida.
Que alegria, Miguel!
Me perguntarás onde estou? Te contarei
- dando só detalhes úteis ao governo -
que nesta costa cheia de pedras selvagens
unem-se o mar e o campo, ondas e pinheiros,
águias e procelárias, espumas e prados.
Já viste de muito perto e o dia todo
como voam os pássaros do mar? É como
se levassem as cartas do mundo a seus destinos.
Passam os alcatrazes como barcos do vento,
outras aves que voam como flechas e trazem
as mensagens dos reis defuntos, dos príncipes
enterrados com fios de turquesa nas costas andinas,
e as gaivotas feitas de brancura redonda,
que esquecem continuamente as suas mensagens.
Como é azul a vida, Miguel, quando pusemos nela
amor e luta, palavras que são o pão e o vinho,
palavras que eles ainda não podem desonrar,
porque nós saímos para a rua de escopeta e cantos.
Eles estão perdidos conosco, Miguel.
Que podem fazer senão matar-nos, e ainda assim
não lhes é um bom negócio, só podem
tratar de alugar um andar diante de nós e seguir-nos
para aprender a rir e a chorar como nós.
Quando eu escrevia versos de amor, que me brotavam
de todos os lados, e me morria de tristeza,
errante, abandonado, roendo o alfabeto,
me diziam: “Como és grande, ó Teócrito!”
Eu não sou Teócrito: tomei a vida,
me pus diante dela, dei-lhe beijos até vencê-la,
e logo me fui pelas vielas das minas
para ver como viviam outros homens.
E quando saí com as mãos manchadas de imundícies e dores,
eu as levantei a mostrá-las nas cordas de ouro,
e disse: “Eu não compartilho do crime”.
Tossiram, ficaram muito desgostosos, me cortaram o cumprimento,
deixaram de me chamar de Teócrito, e acabaram
por me insultar e mandar toda a polícia para prender-me,
porque eu não continuava preocupado exclusivamente de assuntos
[metafísicos.
Mas eu tinha conquistado a alegria.
Desde então me levantei para ler as cartas
que trazem as aves do mar de tão longe,
cartas que chegam molhadas, mensagens que pouco a pouco
vou traduzindo com lentidão e segurança: sou meticuloso
como um engenheiro neste estranho ofício.
E saio de repente à janela.
É um quadrado
de transparência, é pura a distância
de ervas e penhascos, e assim vou trabalhando
entre as coisas que amo: ondas, pedras, vespas,
com uma embriagadora felicidade marinha.
Mas ninguém gosta de que estejamos alegres, a ti te incumbiram
de um papel bonachão: “Mas não exagere, não se preocupe”,
e a mim me quiseram espetar num insectário, entre as lágrimas,
para que estas me afogassem e eles pudessem fazerseus discursos
[em meu túmulo.
Eu me lembro que um dia no pampa arenoso
do salitre, havia quinhentos homens
em greve.
Era a tarde abrasadora
de Tarapacá.
E quando os rostos haviam recolhido
toda a areia e o exangue sol seco do deserto,
vi chegar a meu coração, como uma taça de ódio,
a velha melancolia.
Naquela hora de crime,
na desolação das salinas, nesse minuto débil
da luta, em que poderíamos ter sido vencidos,
uma menina pequenina e pálida chegada das minas
disse com uma voz valente em que se juntavam o cristal e o aço
um poema teu, um velho poema teu que roda entre os olhos enrugados
de todos os operários e lavradores de minha pátria, da América.
E aquele pedaço de teu canto refulgiu de repente
em minha boca como uma flor purpúrea
e desceu pelo meu sangue, enchendo-o de novo
com uma alegria transbordante nascida de teu canto.
E eu pensei não só em ti, mas em tua Venezuela amarga.
Há anos, vi um estudante que tinha nos tornozelos
o sinal das cadeias que um general lhe havia imposto,
e me contou como os acorrentados trabalhavam nos caminhos
e os calabouços onde a gente se perdia.
Porque assim foi a nossa América:
uma planura com rios devoradores e constelações
de mariposas (em alguns lugares, as esmeraldas são espessas
[como maçãs),
porém sempre ao longo da noite e dos rios,
há tornozelos que sangram, antes perto do petróleo,
hoje perto do nitrato, em Pisagua, onde um déspota sujo
enterrou a flor de minha pátria para que morra, e ele
[possa comerciar com os ossos.
Por isso cantas, por isso, para que a América desonrada e ferida
faça tremer as suas mariposas e recolha suas esmeraldas
sem o espantoso sangue do castigo coagulado
nas mãos dos verdugos e dos mercadores.
Eu compreendi como estarias alegre, perto do Orenoco, cantando,
certamente, ou então comprando vinho para a tua casa,
ocupando o teu posto na luta e na alegria,
largo de ombros, como são os poetas deste tempo,
- com roupas claras e sapatos de uso para caminhar.
Desde então, fiquei pensando em escrever-te algum dia,
e quando Guillén chegou, todo cheio de histórias tuas
que se desprendiam de toda a roupa
e que sob as castanheiras de minha casa se derramaram,
me disse: “Agora”, nem assim comecei a escrever-te.
Mas hoje foi demais: passou pela minha janela
não apenas uma ave do mar, mas milhares,
e recolhi as cartas que ninguém lê e que elas levam
pelas praias do mundo, até perdê-las.
E aí, em cada uma lia palavras tuas
e eram como as que eu escrevo e sonho e canto,
e aí decidi enviar-te esta carta, que aqui termino
para olhar pela janela o mundo que nos pertence.
II
A Rafael Alberti
(Puerto de Santa María, Espanha)
Rafael, antes de chegar à Espanha me apareceu a caminho a tua poesia, rosa literal, cacho biselado,
e ela até agora tem sido para mim não uma lembrança
mas uma luz olorosa, emanação de um mundo.
A tua terra ressequida pela crueldade trouxeste
o orvalho que o tempo havia esquecido,
e a Espanha acordou contigo na cintura,
outra vez coroada de aljôfar matutino.
Recordarás o que trazia: sonhos despedaçados
por implacáveis ácidos, permanências
em águas desterradas, em silêncios
de onde as raízes amargas emergiam
como paus queimados no bosque,
Com posso esquecer, Rafael, aquele tempo?
A teu país cheguei como quem cai
em uma lua de pedra, encontrando em todas as partes
águias do agreste, secos espinhos,
mas a tua voz, marinheiro, esperava
para dar-me as boas-vindas e a fragrância
da flor de laranjeira, o mel dos frutos marinhos.
E a tua poesia estava na mesa, nua.
Os pinheirais do sul, as raças da uva
deram a teu diamante cortado suas resinas,
e ao tocar tão formosa claridade, muita sombra
da que traz ao mundo se desfez.
Arquitetura feita na luz, como as pétalas,
através de teus versos de embriagador aroma,
eu vi a água de antanho, a neve hereditária,
e a ti mais que ninguém eu devo a Espanha.
Com teus dedos toquei colméia e páramo,
conheci as praias gastas pelo povo
como por um oceano, e os degraus
em que a poesia foi rasgando
toda a sua vestimenta de safiras.
Tu sabes que só se ensina ao irmão.
E nessa
hora não só aquilo me ensinaste,
não só a apagada pompa de nossa estirpe,
mas a retidão de teu destino,
e quando mais uma vez chegou o sangue à Espanha
defendi o patrimônio do povo que era meu.
Já sabes, já todo mundo sabe estas coisas.
Eu quero somente estar contigo,
e hoje que te falta a metade da vida,
tua terra, a que tens mais direito que uma árvore,
hoje que das desgraças da pátria não só
o luto do que amamos, mas também a tua ausência cobrem
a herança da oliveira que devoram os lobos,
te quero dar, ai!, se pudesse, irmão grande,
a estrelada alegria que então me deste.
Entre nós dois a poesia
se toca como pele celeste,
e contigo gosto de recolher um cacho de uvas,
este pâmpano, aquela raiz das trevas.
A inveja que abre portas nos seres
não pôde abrir a tua porta nem a minha.
És belo
como quando a cólera do vento
desencadeia seu vestido lá fora
e estão o pão, o vinho e o fogo conosco,
deixar que uive o vendedor de fúria,
deixar que silve o que passou entre teus pés,
e levantar a taça cheia de âmbar
com todo o rito da transparência.
Alguém quer esquecer que és o primeiro?
Deixa-o navegar e encontrará o teu rosto.
Alguém quer enterrar-nos precipitadamente?
Está bem, mas tem a obrigação do vôo.
Virão, mas quem pode sacudir a colheita
que com a mão do outono foi erguida
até tingir o mundo com o tremor do vinho?
Dá-me esta taça, irmão, e escuta: estou rodeado
de minha América úmida e torrencial, às vezes
perco o silêncio, perco a corola noturna,
e me rodeia o ódio, talvez nada, o vazio
dum vazio, o crepúsculo
dum cão, duma rã,
e então sinto que tanta terra minha nos separe,
e quero ir a tua casa, em que eu sei, me esperas,
só para sermos bons como só nós
podemos sê-lo.
Não devemos nada.
E a ti, sim, é que devem, e és uma pátria: espera.
Voltarás, voltaremos.
Quero contigo um dia
em tuas ribeiras ir embriagados de ouro
até teus portos, portos do sul que então não atingi.
Me mostrarás o mar onde sardinhas
e azeitonas disputam as areias,
e aqueles campos com os touros de olhos verdes
que Villalón (amigo que também
não veio me ver, pois estava enterrado)
tinha, e os tonéis de xerez, catedrais
em cujos corações gongorinos
arde o topázio com pálido fogo.
Iremos, Rafael, aonde jaz
aquele que com suas mãos e as tuas
a cintura da Espanha sustentava.
O morto que não pôde morrer, aquele a quem guardas,
porque só a tua existência o defende.
Lá está Federico, mas há muitos que, mergulhados, enterrados,
entre as cordilheiras espanholas, tombados
injustamente, derramados,
perdido cereal nas montanhas,
são nossos, e nós estamos em sua argila.
Vives porque sempre foste um deus milagroso.
A ninguém mais que a ti procuraram, queriam
devorar-te os lobos, quebrar teu poderio.
Cada um queria ser verme em tua morte.
Pois bem, se enganaram.
É talvez a estrutura
de tua canção, intacta transparência,
armada decisão de tua doçura,
dureza, fortaleza delicada,
o que salvou teu amor para a tua terra.
Eu irei contigo para provar a água
do Genil, do domínio que me deste,
a olhar na prata que navega
as efígies adormecidas que fundaram
as sílabas azuis de teu canto.
Entraremos também nas forjas: agora
o metal dos povos aí espera
nascer nas facas: passaremos cantando
junto às redes vermelhas que move o firmamento.
Facas, redes, cantos apagarão as dores.
Teu povo levará com as mãos queimadas
pela pólvora, como loureiro dos prados,
o que o teu amor foi debulhando na desgraça.
Sim, de nossos desertos nasce a flor, a forma
da pátria que o povo reconquista com trovões,
e não é um dia só o que elabora
o mel perdido, a verdade do sonho,
mas também cada raiz que se faz canto
até povoar o mundo com as suas folhas.
Lá estás, não há nada que não mova
a lua diamantina que deixaste:
a solidão, o vento nos rincões,
tudo toca o teu puro território,
e os últimos mortos, os que caem
na prisão, leões fuzilados,
e os das guerrilhas, capitães
do coração, estão umedecendo
a tua própria investidura cristalina,
teu próprio coração com suas raízes.
Passou o tempo desde aquele dia em que compartilhamos
dores que deixaram uma ferida radiante,
o cavalo da guerra que com suas ferraduras
atropelou a aldeia destroçando as vidraças.
Tudo aquilo nasceu debaixo da pólvora,
tudo aquilo te aguarda para erguer a espiga,
e nesse nascimento te envolverão de novo
o fumo e a ternura daqueles duros dias.
Vasta é a pele da Espanha e nela a tua espora
vive como uma espada de ilustre punho,
e não há olvido, não há inverno que te apague,
irmão fulgurante, dos lábios do povo.
Assim te falo, esquecendo talvez uma palavra,
respondendo por fim às cartas de que não te lembras
e que quando os climas do leste me cobriram
como aroma escarlate, chegaram
até a minha solidão.
Que teu rosto dourado
encontre nesta carta um dia de outro tempo,
e outro tempo de um dia que virá.
Me despeço
hoje, 1948, 16 de dezembro,
em algum ponto da América na qual canto.
III
A González Carbalho
(no Rio da Prata)
Quando a noite devorou os sons humanos, e desaprumou
sua sombra linha a linha,
ouvimos, no silêncio acrescentado, além dos seres,
o rumor do rio de González Carbalho,
sua água profunda e permanente, seu transcurso que parece
imóvel como o crescimento da árvore ou do tempo.
Este grande poeta fluvial acompanha o silêncio do mundo,
com sonora austeridade, e o que desejar no meio
do tráfego ouvi-lo, que coloque (como faz nos
bosques ou nos lhanos o explorador extraviado) seu ouvido
sobre a terra: e ainda mesmo no meio da rua ouvirá subir
entre os passos do estrondo esta poesia: as vozes
profundas da terra e da água.
Então sob a cidade e seu atropelo, sob as lâmpadas
de fralda escarlate, como o trigo que nasce, irrompendo em
toda latitude, este rio que canta.
Sobre seu leito, assustadas aves de
crepúsculo, gargantas de arrebol que dividem o espaço,
folhas purpúreas que descem.
Todos os homens que se atrevam a olhar a solidão:
os que toquem a corda abandonada, todos os
imensamente puros, e aqueles que da nau escutaram
sal, solidão e noite se reunirem,
ouvirão o coro de González Carbalho surgir alto e cristalino
da sua primavera noturna.
Lembrais outro? Príncipe de Aquitânia: à sua torre abolida
substituiu na hora inicial, o rincão das lágrimas
que o homem milenário extravasou taça a taça.
E que o saiba aquele que não olhou os rostos, o vencedor
ou o vencido:
preocupados pelo vento de safira ou pela taça amarga:
além da rua e rua, além de uma hora,
tocai estas trevas, e continuemos juntos.
Então, no mapa desordenado das pequenas vidas
com tinta azul: o rio, o rio das águas que cantam,
feito da esperança, do padecer perdido,
da água sem angústia que sobe à vitória.
Meu irmão fez este rio:
de seu alto e subterrâneo canto se construíram
estes graves sons molhados de silêncio.
Meu irmão é este rio que rodeia as coisas.
Onde estiverdes, na noite, de dia, a caminho,
sobre os desvelados trens dos prados,
ou junto à empapada rosa da alva fria,
ou ainda
entre as roupas, tocando
o torvelinbo,
caí por terra, que o vosso rosto receba
este grande pulsar de água secreta que circula.
Irmão, és o rio mais longo da terra:
atrás do orbe, soa a tua voz grave de rio,
e eu molho as mãos em teu peito
fiel a um tesouro nunca interrompido,
fiel à transparência da lágrima augusta,
fiel à eternidade agredida do homem.
IV
A Silvestre Revueltas, do México, em sua morte
(Oratório menor)
Quando um homem como Silvestre Revueltas
volta definitivamente à terra,
há um rumor, uma onda
de voz e pranto que prepara e propaga sua partida.
As pequenas raízes dizem aos cereais: “Morreu Silvestre”,
e o trigo ondula o seu nome nas encostas
e logo o pão o sabe.
Todas as árvores da América já o sabem
e também as flores geladas da nossa região ártica.
As gotas d'água o transmitem,
os rios indomáveis da
Araucania já sabem a notícia.
Da nevada ao lago, do lago á planta,
da planta ao fogo, do fogo ao fumo:
tudo o que arde, canta, floresce, dança e revive,
todo o permanente, alto e profundo da nossa América o acolhem,
pianos e pássaros, sonhos e sons, a rede palpitante
que une na aragem todos os nossos climas,
treme e traslada o coro funeral.
Silvestre morreu, Silvestre entrou em sua música total,
em seu silêncio sonoro.
Filho da terra, menino da terra, desde hoje entras no tempo.
Desde hoje o teu nome cheio de música voará quando
[se toque tua pátria, como de um sino,
com um som jamais ouvido, com o som do que foste, irmão.
Teu coração de catedral nos cobre neste instante como o firmamento
e teu canto grande e grandioso, tua ternura vulcânica,
enche toda a altura como uma estátua ardendo.
Por que derramaste a vida? Por que verteste
em cada taça o teu sangue? Por que buscaste
como um anjo cego, ferindo-se pelas portas escuras?
Ah, mas de teu nome sai música
e de tua música, como de um mercado,
saem coroas de louro fragrante
e maçãs de olor e simetria.
Neste dia solene de despedida és tu o despedido,
mas já não ouves,
teu nobre rosto falta e é como se faltasse
uma grande árvore no meio da casa do homem.
Mas a luz que vemos é desde hoje outra luz,
a rua que viramos é uma nova rua,
a mão que tocamos desde hoje tem a tua força,
todas as coisas adquirem vigor em teu descanso
e tua pureza subirá das pedras
para mostrar-nos a claridade da esperança.
Repousa, irmão, o dia teu terminou,
com a tua alma doce e poderosa o encheste
de luz mais alta que a luz do dia
e de um som azul como a voz do céu.
Teu irmão e teus amigos me pediram
que repita o teu nome pelos ares da América,
que o conheça o touro do pampa, e a neve,
que o arrebate o mar, que o discuta o vento.
Agora são as estrelas da América a tua pátria
e desde hoje a tua casa sem portas é a Terra.
V
A Miguel Hernández,
Assassinado nos presídios da Espanha
Chegaste a mim diretamente do Levante, Me trazias,
pastor de cabras, tua inocência enrugada,
a escolástica de velhas páginas, um odor
de Frei Luis, de flor de laranjeira, de esterco queimado
sobre os montes, e em tua máscara
a aspereza cereal da aveia segada
e um mel que media a terra com teus olhos.
Também o rouxinol em tua boca trazias.
Um rouxinol manchado de laranjas, um fio
de incorruptível canto, de força desfolhada.
Ai, rapaz, na luz sobreveio a pólvora
e tu, com rouxinol e com fuzil, andando
sob a lua e sob o sol da batalha.
Já sabes, filho meu, o quanto não pude fazer, já sabes
que para mim, de toda a poesia, tu eras o fogo azul.
Hoje sobre a terra ponho o meu rosto e te escuto,
te escuto, sangue, música, colméia agonizante.
Não vi deslumbrante raça como a tua,
nem raízes tão duras, nem mãos de soldado,
nem vi nada mais vivo que o teu coração
a se queimar na púrpura de minha própria bandeira.
Jovem eterno, vives, comuneiro de antanho,
inundado de germes de trigo e primavera,
enrugado e escuro como o metal inato,
esperando o minuto que erga a tua armadura.
Não estou só desde que morreste.
Estou com os que te buscam.
Estou com os que um dia chegarão a vingar-te.
Reconhecerás os meus passos entre esses
que se despenharão sobre o peito da Espanha
esmagando Caim para que nos devolva
os restos enterrados.
Que saibam os que te mataram que pagarão com sangue.
Que saibam os que te deram tormento que me verão um dia.
Que saibam os malditos que hoje incluem o teu nome
em seus livros, os Dámasos, os Gerardos, os filhos
de cadela, silenciosos cúmplices do verdugo,
que não será apagado o teu martírio, e tua morte
tombará sobre toda sua lua de covardes.
E os que te negaram em seu loureiro apodrecido,
na terra americana, o espaço que cobres
com a tua fluvial coroa de raio sangrado,
deixa-me dar-lhes eu o desdenhoso esquecimento
porque a mim quiseram mutilar com a tua ausência.
Miguel, longe da prisão de Osuna, longe
da crueldade, Mao Tsé-tung dirige
tua poesia despedaçada no combate
para a nossa vitória.
E Praga rumorosa
a construir a doce colméia que cantaste,
Hungria verde limpa seus celeiros
e dança junto ao rio que despertou do sonho.
E de Varsóvia sobe a sereia nua
que edifica a mostrar sua cristalina espada.
Mais além a terra se agiganta,
a terra,
que visitou o teu canto, o aço
que defendeu a tua pátria estão seguros,
acrescentados pela firmeza
de Stálin e seus filhos.
Já se achega
a luz a tua morada.
Miguel da Espanha, estrela
de terras arrasadas, não te esqueço, filho meu,
não te esqueço, filho meu!
Mas aprendi a vida
com a tua morte: meus olhos apenas se velaram,
e encontrei em mim não o pranto
mas as armas
inexoráveis!
Espera-as! Espera-me!
1 112
Pablo Neruda
Buscar
Do ditirambo à raiz do mar
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
1 136
Pablo Neruda
Henri Martin
Henri Martin escuta
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
1 190
Pablo Neruda
Henri Martin
Henri Martin escuta
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
1 190
Pablo Neruda
Henri Martin
Henri Martin escuta
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
1 190
Pablo Neruda
Henri Martin
Henri Martin escuta
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
1 190
Pablo Neruda
Henri Martin
Henri Martin escuta
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
1 190
Pablo Neruda
De Uma Viagem
De uma viagem volto ao mesmo ponto,
por quê?
Por que não volto aonde antes vivi,
ruas, países, continentes, ilhas,
onde tive e estive?
Por que será este lugar a fronteira
que me elegeu, que tem este recinto
senão um látego de ar vertical
sobre meu rosto, e umas flores negras
que o longo inverno morde e despedaça?
Ai, que me assinalam:
— este é o preguiçoso,
o senhor enferrujado,
daqui não se moveu,
deste duro recinto
foi ficando imóvel
até que endureceram seus olhos
e cresceu-lhe uma hera no olhar.
por quê?
Por que não volto aonde antes vivi,
ruas, países, continentes, ilhas,
onde tive e estive?
Por que será este lugar a fronteira
que me elegeu, que tem este recinto
senão um látego de ar vertical
sobre meu rosto, e umas flores negras
que o longo inverno morde e despedaça?
Ai, que me assinalam:
— este é o preguiçoso,
o senhor enferrujado,
daqui não se moveu,
deste duro recinto
foi ficando imóvel
até que endureceram seus olhos
e cresceu-lhe uma hera no olhar.
1 312
Pablo Neruda
Mais Outro
Eu voltei do fundo do mar
odiando as coisas molhadas:
me sacudi como os cachorros
das ondas que me queriam
e de repente me senti
contente de meu desembarque
e unicamente terrestre.
Os jornalistas dirigiram
sua maquinaria extravagante
contra meus olhos e meu umbigo
para que lhes contasse coisas
como se eu estivesse morto,
como se eu fosse um vulgar
cadáver especializado,
sem levar em conta meu ser
que me exigia caminhar
antes de que eu regressasse
a meus costumes espantosos:
estive a ponto de voltar
a submergir na maré.
Porque minha história se duplica
quando em minha infância descobri
meu depravado coração
que me fez cair no mar
e acostumar-me a ser submarino.
Ali estudei para pintor,
ali tive casa e peixe,
sob as ondas me casei,
já não me lembro quais foram
minhas noivas das profundezas
e o certo é que tudo aquilo
era uma incólume rotina:
me aborrecia com os peixes
sem incidências nem batalhas
e eles pensaram que talvez
eu era um monótono cetáceo.
Quando por imaginação
pisei a areia de Ilha Negra
e vivi como todo o mundo,
me tocam tanto a sineta
e perguntam coisas idiotas
sobre os aspectos remotos
de uma vida tão comum
não sei que fazer para espantar
estes estranhos bisbilhoteiros.
Peço a um sábio que me diga
onde posso viver tranquilo.
odiando as coisas molhadas:
me sacudi como os cachorros
das ondas que me queriam
e de repente me senti
contente de meu desembarque
e unicamente terrestre.
Os jornalistas dirigiram
sua maquinaria extravagante
contra meus olhos e meu umbigo
para que lhes contasse coisas
como se eu estivesse morto,
como se eu fosse um vulgar
cadáver especializado,
sem levar em conta meu ser
que me exigia caminhar
antes de que eu regressasse
a meus costumes espantosos:
estive a ponto de voltar
a submergir na maré.
Porque minha história se duplica
quando em minha infância descobri
meu depravado coração
que me fez cair no mar
e acostumar-me a ser submarino.
Ali estudei para pintor,
ali tive casa e peixe,
sob as ondas me casei,
já não me lembro quais foram
minhas noivas das profundezas
e o certo é que tudo aquilo
era uma incólume rotina:
me aborrecia com os peixes
sem incidências nem batalhas
e eles pensaram que talvez
eu era um monótono cetáceo.
Quando por imaginação
pisei a areia de Ilha Negra
e vivi como todo o mundo,
me tocam tanto a sineta
e perguntam coisas idiotas
sobre os aspectos remotos
de uma vida tão comum
não sei que fazer para espantar
estes estranhos bisbilhoteiros.
Peço a um sábio que me diga
onde posso viver tranquilo.
1 225
Pablo Neruda
Meio-Dia - LIII
Aqui está o pão, o vinho, a mesa, a morada:
o ofício do homem, a mulher e a vida:
a este lugar corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a comum queimadura.
Honra a tuas duas mãos que voam preparando
os brancos resultados do canto e a cozinha,
salve! a inteireza de teus pés corredores,
viva! a bailarina que baila com a escova.
Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,
aquele atormentado pavilhão da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes
são hoje este repouso de teu sangue no meu,
este leito estrelado e azul como a noite
esta simplicidade sem-fim da ternura.
o ofício do homem, a mulher e a vida:
a este lugar corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a comum queimadura.
Honra a tuas duas mãos que voam preparando
os brancos resultados do canto e a cozinha,
salve! a inteireza de teus pés corredores,
viva! a bailarina que baila com a escova.
Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,
aquele atormentado pavilhão da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes
são hoje este repouso de teu sangue no meu,
este leito estrelado e azul como a noite
esta simplicidade sem-fim da ternura.
584
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
576
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
576
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
576
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
576
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
576