Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Pablo Neruda
XVII
Percebeste que o outono
é como uma vaca amarela?
E como a besta outonal
é logo um escuro esqueleto?
E como o inverno acumula
tantos azuis lineares?
E quem pediu à primavera
sua monarquia transparente?
é como uma vaca amarela?
E como a besta outonal
é logo um escuro esqueleto?
E como o inverno acumula
tantos azuis lineares?
E quem pediu à primavera
sua monarquia transparente?
1 080
Pablo Neruda
III. A morte na Nicarágua
Desfalece em León o leão e o acodem e o solicitam,
os álbuns carregam as rosas do imperador desfolhado
e assim passeiam-no no seu levita de tristeza
longe do amor, entregue ao conhaque dos piratas.
É como um imenso e sonâmbulo cão que trota e coxeia por salas repletas de comovedora ignorância e ele assina e cumprimenta com mãos ausentes, aproxima-se a noite detrás dos vidros,
os montes recortam a sombra e em vão os dedos fosfóricos do bardo pretendem a luz que se extingue: não há lua, não chegam estrelas, a festa se acaba.
E Francisca Sánchez não reza aos pés amarelos de seu minotauro.
Assim, desterrado em sua pátria meu pai, teu pai, poetas, morreu.
Tiraram do crânio seus miolos sangrantes os cruéis anões
e os passearam por exposições e hangares sinistros:
o pobre perdido ali, só entre condecorados, não ouvia gastas palavras,
mas na onda do ritmo e do sonho caiu no elemento,
voltou à substância aborígine das ancestrais regiões.
E a pedreira que trouxe à história, a rosa que canta no fogo,
o alto som de seu campanário, sua luz torrencial de safira
voltou à morada na selva, voltou às suas raízes.
Assim foi como o nosso, o errante, o enigma de Valparaíso,
o beneditino sedento das Baleares,
o prófugo, o pobre pastor de Paris, o triunfante perdido,
descansa na areia da América, no berço das esmeraldas.
Honra à sua cítara eterna, à sua torre indelével!
os álbuns carregam as rosas do imperador desfolhado
e assim passeiam-no no seu levita de tristeza
longe do amor, entregue ao conhaque dos piratas.
É como um imenso e sonâmbulo cão que trota e coxeia por salas repletas de comovedora ignorância e ele assina e cumprimenta com mãos ausentes, aproxima-se a noite detrás dos vidros,
os montes recortam a sombra e em vão os dedos fosfóricos do bardo pretendem a luz que se extingue: não há lua, não chegam estrelas, a festa se acaba.
E Francisca Sánchez não reza aos pés amarelos de seu minotauro.
Assim, desterrado em sua pátria meu pai, teu pai, poetas, morreu.
Tiraram do crânio seus miolos sangrantes os cruéis anões
e os passearam por exposições e hangares sinistros:
o pobre perdido ali, só entre condecorados, não ouvia gastas palavras,
mas na onda do ritmo e do sonho caiu no elemento,
voltou à substância aborígine das ancestrais regiões.
E a pedreira que trouxe à história, a rosa que canta no fogo,
o alto som de seu campanário, sua luz torrencial de safira
voltou à morada na selva, voltou às suas raízes.
Assim foi como o nosso, o errante, o enigma de Valparaíso,
o beneditino sedento das Baleares,
o prófugo, o pobre pastor de Paris, o triunfante perdido,
descansa na areia da América, no berço das esmeraldas.
Honra à sua cítara eterna, à sua torre indelével!
1 057
Pablo Neruda
L
Quem pode convencer o mar
para que seja razoável?
De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?
E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?
Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?
Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?
para que seja razoável?
De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?
E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?
Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?
Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?
973
Pablo Neruda
II. O processo
Vive a névoa como um grande octópode inchado de gás amarelo
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.
A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.
Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.
A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.
Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
1 196
Pablo Neruda
II. O processo
Vive a névoa como um grande octópode inchado de gás amarelo
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.
A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.
Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.
A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.
Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
1 196
Pablo Neruda
II. O processo
Vive a névoa como um grande octópode inchado de gás amarelo
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.
A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.
Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.
A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.
Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
1 196
Pablo Neruda
Prólogo - Tendes Que Ouvir-Me
Eu fui cantando errante,
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
1 206
Pablo Neruda
Prólogo - Tendes Que Ouvir-Me
Eu fui cantando errante,
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
1 206
Pablo Neruda
Prólogo - Tendes Que Ouvir-Me
Eu fui cantando errante,
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
1 206
Pablo Neruda
Prólogo - Tendes Que Ouvir-Me
Eu fui cantando errante,
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
1 206
Pablo Neruda
XXIII
Converte-se em peixe voador
se transmigra a borboleta?
Então não era verdade
que vivia Deus na lua?
De que cor é o olor
do pranto azul das violetas?
Quantas semanas tem um dia
e quantos anos tem um mês?
se transmigra a borboleta?
Então não era verdade
que vivia Deus na lua?
De que cor é o olor
do pranto azul das violetas?
Quantas semanas tem um dia
e quantos anos tem um mês?
1 167
Pablo Neruda
XV
Mas é verdade que se prepara
a insurreição dos coletes?
Por que outra vez a primavera
oferece seus vestidos verdes?
Por que ri a agricultura
do pálido pranto do céu?
Como logrou sua liberdade
a bicicleta abandonada?
a insurreição dos coletes?
Por que outra vez a primavera
oferece seus vestidos verdes?
Por que ri a agricultura
do pálido pranto do céu?
Como logrou sua liberdade
a bicicleta abandonada?
1 075
Pablo Neruda
XV
Mas é verdade que se prepara
a insurreição dos coletes?
Por que outra vez a primavera
oferece seus vestidos verdes?
Por que ri a agricultura
do pálido pranto do céu?
Como logrou sua liberdade
a bicicleta abandonada?
a insurreição dos coletes?
Por que outra vez a primavera
oferece seus vestidos verdes?
Por que ri a agricultura
do pálido pranto do céu?
Como logrou sua liberdade
a bicicleta abandonada?
1 075
Pablo Neruda
III - A ilha
Antiga Rapa Nui, pátria sem voz,
perdoa a nós, os tagarelas do mundo:
viemos de todas as partes para cuspir em tua lava,
chegamos cheios de conflitos, de divergências, de sangue,
de pranto e digestões, de guerras e de pêssegos,
em pequenas fileiras de inimizade, de sorrisos
hipócritas, reunidos pelos dados do céu
sobre a mesa de teu silêncio.
Mais uma vez chegamos para ofender-te.
Saúdo primeiro a cratera, Ranu Raraku, suas pálpebras
de lodo e seus velhos lábios verdes:
é amplo, e altos muros o circundam, o encerram,
más a água lá em baixo, mesquinha, suja, negra,
vive, se comunica com a morte
como um iguana imóvel, sonolenta, escondido.
Eu, aprendiz de vulcões, conheci,
criança ainda, as línguas do Aconcágua,
o vômito incendiado do vulcão Tronador,
na noite espantosa vi cair
a luz do Villarrica fulminando as vacas,
torrencial, abrasando plantas e acampamentos,
crepitar derrubando penhascos na fogueira.
Mas se aqui minha infância tivesse me deixado,
neste vulcão morto já faz mil anos,
neste Ranu Raraku, umbigo da morte,
teria uivado de terror e teria obedecido:
teria deslizado minha vida em silêncio,
teria caído no medo verde, na boca da cratera desdentada,
transformando-me em lodo, em línguas do iguana.
Silêncio depositado no vale, terror
da boca lunária, há um minuto, uma hora
pesada como si o tempo tivesse parado
para converter-se em imensa pedra:
é um momento, logo
também dissolve o tempo sua nova estátua impossível
e fica o dia imóvel, como um encarcerado
dentro da cratera, dentro do cárcere da cratera,
dentro dos olhos do iguana da cratera.
perdoa a nós, os tagarelas do mundo:
viemos de todas as partes para cuspir em tua lava,
chegamos cheios de conflitos, de divergências, de sangue,
de pranto e digestões, de guerras e de pêssegos,
em pequenas fileiras de inimizade, de sorrisos
hipócritas, reunidos pelos dados do céu
sobre a mesa de teu silêncio.
Mais uma vez chegamos para ofender-te.
Saúdo primeiro a cratera, Ranu Raraku, suas pálpebras
de lodo e seus velhos lábios verdes:
é amplo, e altos muros o circundam, o encerram,
más a água lá em baixo, mesquinha, suja, negra,
vive, se comunica com a morte
como um iguana imóvel, sonolenta, escondido.
Eu, aprendiz de vulcões, conheci,
criança ainda, as línguas do Aconcágua,
o vômito incendiado do vulcão Tronador,
na noite espantosa vi cair
a luz do Villarrica fulminando as vacas,
torrencial, abrasando plantas e acampamentos,
crepitar derrubando penhascos na fogueira.
Mas se aqui minha infância tivesse me deixado,
neste vulcão morto já faz mil anos,
neste Ranu Raraku, umbigo da morte,
teria uivado de terror e teria obedecido:
teria deslizado minha vida em silêncio,
teria caído no medo verde, na boca da cratera desdentada,
transformando-me em lodo, em línguas do iguana.
Silêncio depositado no vale, terror
da boca lunária, há um minuto, uma hora
pesada como si o tempo tivesse parado
para converter-se em imensa pedra:
é um momento, logo
também dissolve o tempo sua nova estátua impossível
e fica o dia imóvel, como um encarcerado
dentro da cratera, dentro do cárcere da cratera,
dentro dos olhos do iguana da cratera.
1 113
Pablo Neruda
XIX
Contaram o ouro que tem
o território do milho?
Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?
Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?
De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
o território do milho?
Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?
Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?
De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
1 051
Pablo Neruda
XVIII
Como conheceram as uvas
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
1 039
Pablo Neruda
XVIII
Como conheceram as uvas
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
1 039
Pablo Neruda
XVIII
Como conheceram as uvas
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
1 039
Pablo Neruda
LXIV
Por que minha roupa desbotada
se agita como uma bandeira?
Sou um malvado alguma vez
ou todas as vezes sou bom?
É a bondade que se aprende
ou a máscara da bondade?
Não é branca a roseira do malvado
e negras as flores do bem?
Quem dá os nomes e os números
ao inocente inumerável?
se agita como uma bandeira?
Sou um malvado alguma vez
ou todas as vezes sou bom?
É a bondade que se aprende
ou a máscara da bondade?
Não é branca a roseira do malvado
e negras as flores do bem?
Quem dá os nomes e os números
ao inocente inumerável?
1 149
Pablo Neruda
XXI
E quando se fundou a luz
isto sucedeu na Venezuela?
Onde está o centro do mar?
Por que ali não vão as ondas?
É certo que aquele meteoro
foi uma pomba de ametista?
Posso perguntar a meu livro
se é verdade que eu o escrevi?
isto sucedeu na Venezuela?
Onde está o centro do mar?
Por que ali não vão as ondas?
É certo que aquele meteoro
foi uma pomba de ametista?
Posso perguntar a meu livro
se é verdade que eu o escrevi?
1 304
Pablo Neruda
XX
É verdade que o âmbar contém
as lágrimas das sereias?
Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?
Não é melhor nunca que tarde?
E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?
as lágrimas das sereias?
Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?
Não é melhor nunca que tarde?
E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?
1 083
Pablo Neruda
Primavera no Chile
Belo é Setembro em minha pátria coberto com uma coroa de vime e violetas
e com um canastro pendurado nos braços repleto de dons terrestres:
Setembro adianta seus olhos mapuches matando o inverno
e volta o chileno à ressurreição da carne e do vinho.
Amável é o Sábado e apenas se abriram as mãos da
Sexta-Feira
voou transportando ameixas e caldos de lua e peixe.
Oh amor na terra que tu percorresses e que atravessamos
não tive em minha boca um fulgor de melancia como em Talagante
e em vão busquei entre os dedos da geografia
no mar clamoroso, a veste que o vento e a pedra outorgaram ao Chile,
e não achei pêssegos de Janeiro redondos de luz e delícia
como o veludo que guarda e debulha o mel de minha pátria.
E nos matagais do Sul sigiloso conheço o orvalho
por seus penetrantes diamantes de menta, e me embriaga o aroma
do vinho central que estalou de teu cinturão de cachos
e o cheiro de tuas águas pesqueiras que te enche o olfato
porque se abrem as valvas do mar em teu peito de prata abundante,
e encimado arrastando os pés quando marcho nos montes mais duros
eu diviso na neve invencível a razão de tua soberania.
e com um canastro pendurado nos braços repleto de dons terrestres:
Setembro adianta seus olhos mapuches matando o inverno
e volta o chileno à ressurreição da carne e do vinho.
Amável é o Sábado e apenas se abriram as mãos da
Sexta-Feira
voou transportando ameixas e caldos de lua e peixe.
Oh amor na terra que tu percorresses e que atravessamos
não tive em minha boca um fulgor de melancia como em Talagante
e em vão busquei entre os dedos da geografia
no mar clamoroso, a veste que o vento e a pedra outorgaram ao Chile,
e não achei pêssegos de Janeiro redondos de luz e delícia
como o veludo que guarda e debulha o mel de minha pátria.
E nos matagais do Sul sigiloso conheço o orvalho
por seus penetrantes diamantes de menta, e me embriaga o aroma
do vinho central que estalou de teu cinturão de cachos
e o cheiro de tuas águas pesqueiras que te enche o olfato
porque se abrem as valvas do mar em teu peito de prata abundante,
e encimado arrastando os pés quando marcho nos montes mais duros
eu diviso na neve invencível a razão de tua soberania.
1 287
Pablo Neruda
IV. O coro dos mares oprimidos
Lord do mar, vem a nós, somos água e areia oprimidas!
Lord do mar, somos povos bloqueados e mudos!
Lord do mar, te chamamos cantando para a luta!
Lord do mar, a corrente espanhola fecha-nos as águas!
Lord do mar, amarra-nos os sonhos a noite espanhola!
Lord do mar, no porto te esperam o pranto e a ira!
Lord do mar, reclamam-te os Mares do Sul!
Lord do mar, somos povos bloqueados e mudos!
Lord do mar, te chamamos cantando para a luta!
Lord do mar, a corrente espanhola fecha-nos as águas!
Lord do mar, amarra-nos os sonhos a noite espanhola!
Lord do mar, no porto te esperam o pranto e a ira!
Lord do mar, reclamam-te os Mares do Sul!
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Pablo Neruda
I - Os homens
Sou o peregrino
da Ilha de Páscoa, o cavaleiro
estranho, venho para golpear as portas do silêncio:
− mais um dos que traz o ar
saltando num voo todo o mar:
aqui estou, como os outros pesados peregrinos
que em inglês amamentam e levantam as ruínas:
egrégios comensais do turismo, iguais a Simbad
e a Cristóvão, sem mais descobrimento
que a conta do bar.
Me confesso: matamosos veleiros de cinco mastros e carne deteriorada,
matamos os pálidos livros de marinheiros em extinção,
nos trasladamos em gansos imensos de alumínio,
corretamente sentados, bebendo taças ácidas,
descendo em fileiras de estômagos amáveis.
da Ilha de Páscoa, o cavaleiro
estranho, venho para golpear as portas do silêncio:
− mais um dos que traz o ar
saltando num voo todo o mar:
aqui estou, como os outros pesados peregrinos
que em inglês amamentam e levantam as ruínas:
egrégios comensais do turismo, iguais a Simbad
e a Cristóvão, sem mais descobrimento
que a conta do bar.
Me confesso: matamosos veleiros de cinco mastros e carne deteriorada,
matamos os pálidos livros de marinheiros em extinção,
nos trasladamos em gansos imensos de alumínio,
corretamente sentados, bebendo taças ácidas,
descendo em fileiras de estômagos amáveis.
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