Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Stela do Patrocínio
Não trabalho com a inteligência
Não trabalho com a inteligência
Nem com o pensamento
Mas também não uso a ignorância
Nem com o pensamento
Mas também não uso a ignorância
598
Murillo Mendes
Tempos sombrios
Servida a sinfonia
poderíamos nos sentar.
Cruel é o azul: de um buquê
de vidas
Surge a guerra.
Panejamento sinistro...
Todos pisam em crianças que
fôram.
poderíamos nos sentar.
Cruel é o azul: de um buquê
de vidas
Surge a guerra.
Panejamento sinistro...
Todos pisam em crianças que
fôram.
640
Ana Martins Marques
Relógio
De que nos serviria
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
1 910
José Saramago
13
Todo o sistema prisional foi reformado pelo ocupante incluindo os próprios edifícios
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
1 056
José Saramago
13
Todo o sistema prisional foi reformado pelo ocupante incluindo os próprios edifícios
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
1 056
José Saramago
14
Nos quatro pontos cardeais os vigias defendem o sono cansado da tribo ou rebanho de gente que vagueia pelos campos
Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher
Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo
Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria
Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada
Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs
Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram
O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo
Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher
Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo
Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria
Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada
Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs
Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram
O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo
Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
1 017
José Saramago
22
E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
1 123
Jean-Luc Godard
As pessoas gostam tanto da verdade
As pessoas gostam tanto da verdade, que mesmo aqueles que mentem querem que seja a verdade
601
José Saramago
17
A mais terrível arma da guerra do desprezo foi o elefante
Porque então haviam os ocupantes da cidade desdenhado perseguir nos campos as hordas assustadas dos homens que se arrastavam entre céu e céu
Todos os animais do jardim zoológico foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas
E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais
Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos por circuitos electrónicos que não podiam errar
E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações
Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens
Não precisavam de dormir nem comer e os homens sim
Não precisavam de descanso e o mais que o homem sabia era terror e fadiga
Foi essa guerra chamada do desprezo porque nem sequer o sangue lutava contra o sangue
Já foi dito que o elefante era a mais terrível máquina daquela guerra
Talvez quem sabe porque havia sido muitas vezes domesticado e ridicularizado nos circos quando a sua grande estatura se equilibrava numa bola absurda ou se levantava nas patas traseiras para cumprimentar o público
Entretanto o maior dos sábios do ocupante insiste em afirmar que há-de fazer rir o ordenador hipótese que não surpreenderá tendo em conta os factos relatados
Porque então haviam os ocupantes da cidade desdenhado perseguir nos campos as hordas assustadas dos homens que se arrastavam entre céu e céu
Todos os animais do jardim zoológico foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas
E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais
Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos por circuitos electrónicos que não podiam errar
E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações
Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens
Não precisavam de dormir nem comer e os homens sim
Não precisavam de descanso e o mais que o homem sabia era terror e fadiga
Foi essa guerra chamada do desprezo porque nem sequer o sangue lutava contra o sangue
Já foi dito que o elefante era a mais terrível máquina daquela guerra
Talvez quem sabe porque havia sido muitas vezes domesticado e ridicularizado nos circos quando a sua grande estatura se equilibrava numa bola absurda ou se levantava nas patas traseiras para cumprimentar o público
Entretanto o maior dos sábios do ocupante insiste em afirmar que há-de fazer rir o ordenador hipótese que não surpreenderá tendo em conta os factos relatados
1 044
José Saramago
16
Podia ter acontecido a qualquer hora do dia
Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
1 064
José Saramago
16
Podia ter acontecido a qualquer hora do dia
Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
Quando debaixo do sol a horda se deslocasse na rasa e dura planície
Ou quando à sombra de uma rocha alta acreditasse no fim dos males do mundo só porque ali uma frescura passageira os tornava distantes
Ou quando a penumbra miserável fizesse apetecer uma lenta dissolução no espaço
Mas foi de noite na negrura aflita da caverna lá onde só o olho vermelho das brasas tinha pena dos homens
Onde o cheiro dos corpos humilhados de gases de suor de descargas de sémen
E onde intermináveis insónias se resolviam em suicídios
Que subitamente um homem descobriu que não sabia ler
Em vão recordava as letras em vão as desenhava ele próprio na memória
Eram riscos cegos na escuridão desenhos de Marte Mercúrio ou Plutão ou ainda a escrita do sistema planetário da Betelgeuse
Nada que fosse humano e fraterno nada que tivesse o gosto comum do pão e do sal
Quando o sol nasceu e a horda saiu para o ar livre e para o mundo aprisionado
O homem sentou-se no chão dobrado como um feto
E prometeu morrer sem resistência se a lepra que lhe nascera durante a noite não fosse nunca descoberta pelos companheiros que talvez ainda soubessem ler
1 064
José Saramago
9
Todas as noites três vezes se faz a contagem dos habitantes que foram autorizados a viver na cidade
Por essa razão não são fechadas as portas das casas facto que levaria um observador apressado a pensar que ali se regressou à franqueza dos costumes da idade de ouro
É porém um ponto controverso
Importa sim que as casas estejam permanentemente abertas para que os recenseadores não percam tempo
Tanto mais que são três as contagens como já ficou dito
A primeira à meia-noite duas horas depois do deitar obrigatório
A segunda às três e a terceira de madrugada quando o céu ainda não clareia
De inverno ou de verão as pessoas dormem destapadas mas vestidas o mais que possam excepto uma perna a partir do joelho para baixo e a cara para respirarem
Se fosse possível tapariam a cabeça deixando apenas a perna descoberta
Porque os recenseadores precisam de tocar a pele destes adormecidos que raramente dormem
A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas
Os habitantes preferem as cobras e os ratos ainda que seja arrepiante o contacto frio e escamoso das cobras e o arranhar fino das unhas dos ratos
Mas o maior dos horrores trazem-no as aranhas
Embora sejam génios geométricos e matemáticos maliciosamente levam muito tempo a contar enquanto passeiam sobre os rostos espavoridos deslocando- se nas suas trémulas e altas patas
Todas as noites enlouquecem dois ou três habitantes da cidade
Por essa razão não são fechadas as portas das casas facto que levaria um observador apressado a pensar que ali se regressou à franqueza dos costumes da idade de ouro
É porém um ponto controverso
Importa sim que as casas estejam permanentemente abertas para que os recenseadores não percam tempo
Tanto mais que são três as contagens como já ficou dito
A primeira à meia-noite duas horas depois do deitar obrigatório
A segunda às três e a terceira de madrugada quando o céu ainda não clareia
De inverno ou de verão as pessoas dormem destapadas mas vestidas o mais que possam excepto uma perna a partir do joelho para baixo e a cara para respirarem
Se fosse possível tapariam a cabeça deixando apenas a perna descoberta
Porque os recenseadores precisam de tocar a pele destes adormecidos que raramente dormem
A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas
Os habitantes preferem as cobras e os ratos ainda que seja arrepiante o contacto frio e escamoso das cobras e o arranhar fino das unhas dos ratos
Mas o maior dos horrores trazem-no as aranhas
Embora sejam génios geométricos e matemáticos maliciosamente levam muito tempo a contar enquanto passeiam sobre os rostos espavoridos deslocando- se nas suas trémulas e altas patas
Todas as noites enlouquecem dois ou três habitantes da cidade
788
José Saramago
9
Todas as noites três vezes se faz a contagem dos habitantes que foram autorizados a viver na cidade
Por essa razão não são fechadas as portas das casas facto que levaria um observador apressado a pensar que ali se regressou à franqueza dos costumes da idade de ouro
É porém um ponto controverso
Importa sim que as casas estejam permanentemente abertas para que os recenseadores não percam tempo
Tanto mais que são três as contagens como já ficou dito
A primeira à meia-noite duas horas depois do deitar obrigatório
A segunda às três e a terceira de madrugada quando o céu ainda não clareia
De inverno ou de verão as pessoas dormem destapadas mas vestidas o mais que possam excepto uma perna a partir do joelho para baixo e a cara para respirarem
Se fosse possível tapariam a cabeça deixando apenas a perna descoberta
Porque os recenseadores precisam de tocar a pele destes adormecidos que raramente dormem
A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas
Os habitantes preferem as cobras e os ratos ainda que seja arrepiante o contacto frio e escamoso das cobras e o arranhar fino das unhas dos ratos
Mas o maior dos horrores trazem-no as aranhas
Embora sejam génios geométricos e matemáticos maliciosamente levam muito tempo a contar enquanto passeiam sobre os rostos espavoridos deslocando- se nas suas trémulas e altas patas
Todas as noites enlouquecem dois ou três habitantes da cidade
Por essa razão não são fechadas as portas das casas facto que levaria um observador apressado a pensar que ali se regressou à franqueza dos costumes da idade de ouro
É porém um ponto controverso
Importa sim que as casas estejam permanentemente abertas para que os recenseadores não percam tempo
Tanto mais que são três as contagens como já ficou dito
A primeira à meia-noite duas horas depois do deitar obrigatório
A segunda às três e a terceira de madrugada quando o céu ainda não clareia
De inverno ou de verão as pessoas dormem destapadas mas vestidas o mais que possam excepto uma perna a partir do joelho para baixo e a cara para respirarem
Se fosse possível tapariam a cabeça deixando apenas a perna descoberta
Porque os recenseadores precisam de tocar a pele destes adormecidos que raramente dormem
A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas
Os habitantes preferem as cobras e os ratos ainda que seja arrepiante o contacto frio e escamoso das cobras e o arranhar fino das unhas dos ratos
Mas o maior dos horrores trazem-no as aranhas
Embora sejam génios geométricos e matemáticos maliciosamente levam muito tempo a contar enquanto passeiam sobre os rostos espavoridos deslocando- se nas suas trémulas e altas patas
Todas as noites enlouquecem dois ou três habitantes da cidade
788
José Saramago
5
A cidade que os homens deixaram de habitar está agora sitiada por eles
Não deve passar em claro o exagero que há na palavra sitiada
Como exagero haveria na palavra cercada ou outra qualquer sinónima sem querer levantar a debatida questão da sinonimia perfeita
Os homens estão apenas em redor da cidade tão incapazes de entrarem nela como de se afastarem para longe definitivamente
São como borboletas da noite atraídas não pelas luzes da cidade que já se apagaram há muito
Mas pelo perfil desarticulado dos telhados e das empenas e também pela rede impalpável das antenas da televisão
De dia uma enorme ausência guarda as portas da cidade
E as ruas têm aquele excesso de silêncio que há no que foi habitado e agora não
Na cidade apenas vivem os lobos
Deste modo se tendo invertido a ordem natural das coisas estão os homens fora e os lobos dentro
Nada acontece antes da noite
Então saem os lobos a caçar os homens e sempre apanham algum
O qual entra enfim na cidade deixando por onde passa um regueiro de sangue
Ali onde em tempos mais felizes combinara com parentes e amigos almoços intrigas calúnias
E caçadas aos lobos
Não deve passar em claro o exagero que há na palavra sitiada
Como exagero haveria na palavra cercada ou outra qualquer sinónima sem querer levantar a debatida questão da sinonimia perfeita
Os homens estão apenas em redor da cidade tão incapazes de entrarem nela como de se afastarem para longe definitivamente
São como borboletas da noite atraídas não pelas luzes da cidade que já se apagaram há muito
Mas pelo perfil desarticulado dos telhados e das empenas e também pela rede impalpável das antenas da televisão
De dia uma enorme ausência guarda as portas da cidade
E as ruas têm aquele excesso de silêncio que há no que foi habitado e agora não
Na cidade apenas vivem os lobos
Deste modo se tendo invertido a ordem natural das coisas estão os homens fora e os lobos dentro
Nada acontece antes da noite
Então saem os lobos a caçar os homens e sempre apanham algum
O qual entra enfim na cidade deixando por onde passa um regueiro de sangue
Ali onde em tempos mais felizes combinara com parentes e amigos almoços intrigas calúnias
E caçadas aos lobos
1 168
José Saramago
Julieta a Romeu
É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
1 194
José Saramago
Julieta a Romeu
É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
1 194
José Saramago
Não Das Águas do Mar
Não das águas do mar, mas destas outras,
Dos lentos remoinhos, onde as folhas
Desprendidas e mortas se balouçam;
Do irisado gás gorgolejante,
Que o respirar do lodo vai soltando,
É que a vida dos homens se formou
De sombra e de mistério amalgamada.
Na vastidão do mar nasceram deuses:
Somos frutos da lama, a água turvada.
Dos lentos remoinhos, onde as folhas
Desprendidas e mortas se balouçam;
Do irisado gás gorgolejante,
Que o respirar do lodo vai soltando,
É que a vida dos homens se formou
De sombra e de mistério amalgamada.
Na vastidão do mar nasceram deuses:
Somos frutos da lama, a água turvada.
1 237
José Saramago
4
O interrogatório do homem que saiu de casa depois da hora de recolher começou há quinze dias e ainda não acabou
Os inquiridores fazem uma pergunta em cada sessenta minutos vinte e quatro por dia e exigem cinquenta e nove respostas diferentes para cada uma
É um método novo
Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre as cinquenta e nove que foram dadas
E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual delas seja e a sua ligação com as outras
Há quinze dias que o homem não dorme nem dormirá enquanto o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não preciso de tanto
Caso em que terá o seu definitivo sono
O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá por que saiu
E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima resposta
Entretanto a tortura continua até que o médico declare
Não vale a pena
Os inquiridores fazem uma pergunta em cada sessenta minutos vinte e quatro por dia e exigem cinquenta e nove respostas diferentes para cada uma
É um método novo
Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre as cinquenta e nove que foram dadas
E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual delas seja e a sua ligação com as outras
Há quinze dias que o homem não dorme nem dormirá enquanto o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não preciso de tanto
Caso em que terá o seu definitivo sono
O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá por que saiu
E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima resposta
Entretanto a tortura continua até que o médico declare
Não vale a pena
1 071
José Saramago
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O interrogatório do homem que saiu de casa depois da hora de recolher começou há quinze dias e ainda não acabou
Os inquiridores fazem uma pergunta em cada sessenta minutos vinte e quatro por dia e exigem cinquenta e nove respostas diferentes para cada uma
É um método novo
Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre as cinquenta e nove que foram dadas
E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual delas seja e a sua ligação com as outras
Há quinze dias que o homem não dorme nem dormirá enquanto o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não preciso de tanto
Caso em que terá o seu definitivo sono
O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá por que saiu
E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima resposta
Entretanto a tortura continua até que o médico declare
Não vale a pena
Os inquiridores fazem uma pergunta em cada sessenta minutos vinte e quatro por dia e exigem cinquenta e nove respostas diferentes para cada uma
É um método novo
Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre as cinquenta e nove que foram dadas
E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual delas seja e a sua ligação com as outras
Há quinze dias que o homem não dorme nem dormirá enquanto o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não preciso de tanto
Caso em que terá o seu definitivo sono
O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá por que saiu
E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima resposta
Entretanto a tortura continua até que o médico declare
Não vale a pena
1 071
José Saramago
Não Há Mais Horizonte
Não há mais horizonte. Outro passo que desse,
Se o limite não fosse esta ruptura,
Era em falso que o dava:
Numa baça cortina indivisível
De espaço e duração.
Aqui se juntarão as paralelas,
E as parábolas em rectas se rebatem.
Não há mais horizonte. O silêncio responde.
É Deus que se enganou e o confessa.
Se o limite não fosse esta ruptura,
Era em falso que o dava:
Numa baça cortina indivisível
De espaço e duração.
Aqui se juntarão as paralelas,
E as parábolas em rectas se rebatem.
Não há mais horizonte. O silêncio responde.
É Deus que se enganou e o confessa.
1 144
José Saramago
Criação
Deus não existe ainda, nem sei quando
Sequer o esboço, a cor se afirmará
No desenho confuso da passagem
De gerações inúmeras nesta esfera.
Nenhum gesto se perde, nenhum traço,
Que o sentido da vida é este só:
Fazer da Terra um Deus que nos mereça,
E dar ao Universo o Deus que espera.
Sequer o esboço, a cor se afirmará
No desenho confuso da passagem
De gerações inúmeras nesta esfera.
Nenhum gesto se perde, nenhum traço,
Que o sentido da vida é este só:
Fazer da Terra um Deus que nos mereça,
E dar ao Universo o Deus que espera.
1 299
José Saramago
História Antiga
Compromissos, não tinha, mas faltei;
Não prestei juramento, mas traí:
Sentir-se réu alguém, não depende
Do juízo dos outros, mas de si.
É fácil companhia a consciência
Se mansamente aceita e concilia,
Difícil é calá-la quando somos
Mais rectos afinal do que se cria.
Um dia tornarei às dores do mundo,
À luta onde talvez já não me esperam,
Antes, seja diferente outra mulher,
Companheira, não ferros que me ferram.
Não prestei juramento, mas traí:
Sentir-se réu alguém, não depende
Do juízo dos outros, mas de si.
É fácil companhia a consciência
Se mansamente aceita e concilia,
Difícil é calá-la quando somos
Mais rectos afinal do que se cria.
Um dia tornarei às dores do mundo,
À luta onde talvez já não me esperam,
Antes, seja diferente outra mulher,
Companheira, não ferros que me ferram.
1 199
José Saramago
Regra
Tão pouco damos quando apenas muito
De nós na cama ou na mesa pomos:
Há que dar sem medida, como o sol,
Imagem rigorosa do que somos.
De nós na cama ou na mesa pomos:
Há que dar sem medida, como o sol,
Imagem rigorosa do que somos.
999
José Saramago
Contracanto
Aqui, longe do sol, que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
1 348