Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Martha Medeiros
cinderela insone
cinderela insone
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
1 113
Martha Medeiros
o homem do campo
o homem do campo
sem o apelo dos neons
dos elevadores e dos aviões
consegue olhar para dentro
o homem urbano
sem ovelhas, colheitas de arroz
sem figueiras nem estrelas
prefere espiar os outros apartamentos
sem o apelo dos neons
dos elevadores e dos aviões
consegue olhar para dentro
o homem urbano
sem ovelhas, colheitas de arroz
sem figueiras nem estrelas
prefere espiar os outros apartamentos
1 072
Martha Medeiros
vestidos muito longos e justos incomodam
vestidos muito longos e justos incomodam
o beijo dos galãs não tem sabor
e Hollywood fica longe demais
do meu supermercado favorito
ser bela e calma, quanta inutilidade
mais vale um bom olhar profundo
e uma vida de verdade
dois filhos de cabeça boa
um marido bem tarado
uma empregada chamada Maria
cinema de mãos dadas
um salário legal no fim do mês
aquela viagem marcada
novela, trânsito, profissão
sexo, banho morno, musse de limão
me corrijam se eu estiver errada
a realidade é nossa maior fantasia
o beijo dos galãs não tem sabor
e Hollywood fica longe demais
do meu supermercado favorito
ser bela e calma, quanta inutilidade
mais vale um bom olhar profundo
e uma vida de verdade
dois filhos de cabeça boa
um marido bem tarado
uma empregada chamada Maria
cinema de mãos dadas
um salário legal no fim do mês
aquela viagem marcada
novela, trânsito, profissão
sexo, banho morno, musse de limão
me corrijam se eu estiver errada
a realidade é nossa maior fantasia
707
Martha Medeiros
vestidos muito longos e justos incomodam
vestidos muito longos e justos incomodam
o beijo dos galãs não tem sabor
e Hollywood fica longe demais
do meu supermercado favorito
ser bela e calma, quanta inutilidade
mais vale um bom olhar profundo
e uma vida de verdade
dois filhos de cabeça boa
um marido bem tarado
uma empregada chamada Maria
cinema de mãos dadas
um salário legal no fim do mês
aquela viagem marcada
novela, trânsito, profissão
sexo, banho morno, musse de limão
me corrijam se eu estiver errada
a realidade é nossa maior fantasia
o beijo dos galãs não tem sabor
e Hollywood fica longe demais
do meu supermercado favorito
ser bela e calma, quanta inutilidade
mais vale um bom olhar profundo
e uma vida de verdade
dois filhos de cabeça boa
um marido bem tarado
uma empregada chamada Maria
cinema de mãos dadas
um salário legal no fim do mês
aquela viagem marcada
novela, trânsito, profissão
sexo, banho morno, musse de limão
me corrijam se eu estiver errada
a realidade é nossa maior fantasia
707
Martha Medeiros
há quase meio ano
há quase meio ano
que não te vejo vibrar com um gol
que não falas nada do trabalho
que não fazes um comentário positivo
ou negativo
faz muito tempo que não ouço tua opinião
sobre um casaco na vitrine
sobre um artigo de jornal
sobre a morte de um artista
se vai chover ou não
qual foi a última vez
que você lembrou de um aniversário
diga qual é todo o meu nome
atenda uma vez o telefone
comente a sujeira do chão
faça qualquer bobagem
para mostrar que ainda está vivo
que alguma coisa ainda faz sentido
e que não existe só a televisão
transmita o que você sente
comente o fim da novela
fale do absurdo da prestação
diga se gostou do meu vestido
brigue com o zelador
elogie o feijão com arroz
se você não está mais aqui
busque seu corpo então
que não te vejo vibrar com um gol
que não falas nada do trabalho
que não fazes um comentário positivo
ou negativo
faz muito tempo que não ouço tua opinião
sobre um casaco na vitrine
sobre um artigo de jornal
sobre a morte de um artista
se vai chover ou não
qual foi a última vez
que você lembrou de um aniversário
diga qual é todo o meu nome
atenda uma vez o telefone
comente a sujeira do chão
faça qualquer bobagem
para mostrar que ainda está vivo
que alguma coisa ainda faz sentido
e que não existe só a televisão
transmita o que você sente
comente o fim da novela
fale do absurdo da prestação
diga se gostou do meu vestido
brigue com o zelador
elogie o feijão com arroz
se você não está mais aqui
busque seu corpo então
1 131
Martha Medeiros
casada, três filhos, arquiteta
casada, três filhos, arquiteta
não foi vista tomando um campari
na companhia de um turista alemão
senhor respeitável, discreto, comprometido
não foi apanhado em flagrante
com uma morena gostosa sem sutiã
filha de deputado, 17 anos, namorado firme
não foi surpreendida nos braços de outro
quando deveria estar na aula de inglês
senhora decente, viúva, cinquentona
não foi alvo de comentários
por hospedar na sua casa o marido de alguém
fidelidade é não contar pra ninguém
não foi vista tomando um campari
na companhia de um turista alemão
senhor respeitável, discreto, comprometido
não foi apanhado em flagrante
com uma morena gostosa sem sutiã
filha de deputado, 17 anos, namorado firme
não foi surpreendida nos braços de outro
quando deveria estar na aula de inglês
senhora decente, viúva, cinquentona
não foi alvo de comentários
por hospedar na sua casa o marido de alguém
fidelidade é não contar pra ninguém
1 034
Martha Medeiros
casada, três filhos, arquiteta
casada, três filhos, arquiteta
não foi vista tomando um campari
na companhia de um turista alemão
senhor respeitável, discreto, comprometido
não foi apanhado em flagrante
com uma morena gostosa sem sutiã
filha de deputado, 17 anos, namorado firme
não foi surpreendida nos braços de outro
quando deveria estar na aula de inglês
senhora decente, viúva, cinquentona
não foi alvo de comentários
por hospedar na sua casa o marido de alguém
fidelidade é não contar pra ninguém
não foi vista tomando um campari
na companhia de um turista alemão
senhor respeitável, discreto, comprometido
não foi apanhado em flagrante
com uma morena gostosa sem sutiã
filha de deputado, 17 anos, namorado firme
não foi surpreendida nos braços de outro
quando deveria estar na aula de inglês
senhora decente, viúva, cinquentona
não foi alvo de comentários
por hospedar na sua casa o marido de alguém
fidelidade é não contar pra ninguém
1 034
Martha Medeiros
não gosto de barcos
não gosto de barcos
nem nada que flutue devagar
me faz falta uma esquina
uma rua para atravessar
uma escada, uma curva em frente
uma pista, um sinal de trânsito
me faz falta direção constante
um trilho, uma ponte, um meio de chegar
barcos ficam à deriva
e eu nunca afundo no mesmo lugar
nem nada que flutue devagar
me faz falta uma esquina
uma rua para atravessar
uma escada, uma curva em frente
uma pista, um sinal de trânsito
me faz falta direção constante
um trilho, uma ponte, um meio de chegar
barcos ficam à deriva
e eu nunca afundo no mesmo lugar
1 151
Martha Medeiros
abro a lata, como
abro a lata, como
como um doce, engordo
engordo a conta, gasto
gasto o tempo, sobra
sobra o rango, guardo
guardo a chave, perco
perco o sono, saio
saio à noite, chove
chove à beça, encolhe
encolhe a grana, peço
peço o nome, anoto
anoto a placa, esqueço
esqueço a fome, fumo
fumo o troço, apanho
apanho a gata, sumo
como um doce, engordo
engordo a conta, gasto
gasto o tempo, sobra
sobra o rango, guardo
guardo a chave, perco
perco o sono, saio
saio à noite, chove
chove à beça, encolhe
encolhe a grana, peço
peço o nome, anoto
anoto a placa, esqueço
esqueço a fome, fumo
fumo o troço, apanho
apanho a gata, sumo
1 145
Martha Medeiros
se provoquei uma avalanche na minha casa
se provoquei uma avalanche na minha casa
se remexi na tua carteira ontem à noite
se deixei de responder cartas sinceras
se menti pra minha prima a respeito da família
o que vivi, o que senti, o que inventei
está tudo misturado, já não sei em que acreditar
se escondi teu passaporte a fim de te reter
se manchei de sangue a camisola ao debutar
se rolei ladeira abaixo atrás de um brinco
presenteado
se chorei enfurecida por ter sido injustiçada
o que vivi, o que senti, o que inventei
está tudo confundido, já não sei do que
lembrar
se mastiguei a hóstia depois de comungar
se matei aula de física pra fumar no
lavatório
se desertei do paraíso para me instalar
na torre
se fiz coro em passeata e ganhei um
dom de deus
o que vivi, o que senti, o que inventei
está tudo alinhavado, já não sei como datar
o que temi, o que engoli, o que enfrentei
está tudo embaralhado, o que penei, o
que ardi
o que amei, está tudo assimilado, o que sofri
o que sonhei, o que perdi, está tudo
engalfinhado
o que escrevi, o que ouvi, o que calei
está tudo amortizado, já não sei o que pagar
se remexi na tua carteira ontem à noite
se deixei de responder cartas sinceras
se menti pra minha prima a respeito da família
o que vivi, o que senti, o que inventei
está tudo misturado, já não sei em que acreditar
se escondi teu passaporte a fim de te reter
se manchei de sangue a camisola ao debutar
se rolei ladeira abaixo atrás de um brinco
presenteado
se chorei enfurecida por ter sido injustiçada
o que vivi, o que senti, o que inventei
está tudo confundido, já não sei do que
lembrar
se mastiguei a hóstia depois de comungar
se matei aula de física pra fumar no
lavatório
se desertei do paraíso para me instalar
na torre
se fiz coro em passeata e ganhei um
dom de deus
o que vivi, o que senti, o que inventei
está tudo alinhavado, já não sei como datar
o que temi, o que engoli, o que enfrentei
está tudo embaralhado, o que penei, o
que ardi
o que amei, está tudo assimilado, o que sofri
o que sonhei, o que perdi, está tudo
engalfinhado
o que escrevi, o que ouvi, o que calei
está tudo amortizado, já não sei o que pagar
1 175
Vinicius de Moraes
Sacrifício
Num instante foi o sangue, o horror, a morte na lama do chão.
— Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido
Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta.
No ódio do monstro que vinha
Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra
O homem sentiu a própria grandeza
E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.
Ele avançou.
Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.
As únicas estrelas que restavam no céu
Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.
O homem sozinho, abandonado na treva
Gritou que a treva é das almas traídas
E que o sacrifício é a luz que redime.
Ele avançou.
Sem temer ele olhou a morte que vinha
E viu na morte o sentido da vitória do Espírito.
No horror do choque tremendo
Aberto em feridas o peito
O homem gritou que a traição é da alma covarde
E que o forte que luta é como o raio que fere
E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.
No sangue e na lama
O corpo sem vida tombou.
Mas nos olhos do homem caído
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.
— Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido
Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta.
No ódio do monstro que vinha
Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra
O homem sentiu a própria grandeza
E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.
Ele avançou.
Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.
As únicas estrelas que restavam no céu
Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.
O homem sozinho, abandonado na treva
Gritou que a treva é das almas traídas
E que o sacrifício é a luz que redime.
Ele avançou.
Sem temer ele olhou a morte que vinha
E viu na morte o sentido da vitória do Espírito.
No horror do choque tremendo
Aberto em feridas o peito
O homem gritou que a traição é da alma covarde
E que o forte que luta é como o raio que fere
E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.
No sangue e na lama
O corpo sem vida tombou.
Mas nos olhos do homem caído
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.
1 197
Vinicius de Moraes
Sacrifício
Num instante foi o sangue, o horror, a morte na lama do chão.
— Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido
Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta.
No ódio do monstro que vinha
Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra
O homem sentiu a própria grandeza
E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.
Ele avançou.
Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.
As únicas estrelas que restavam no céu
Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.
O homem sozinho, abandonado na treva
Gritou que a treva é das almas traídas
E que o sacrifício é a luz que redime.
Ele avançou.
Sem temer ele olhou a morte que vinha
E viu na morte o sentido da vitória do Espírito.
No horror do choque tremendo
Aberto em feridas o peito
O homem gritou que a traição é da alma covarde
E que o forte que luta é como o raio que fere
E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.
No sangue e na lama
O corpo sem vida tombou.
Mas nos olhos do homem caído
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.
— Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido
Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta.
No ódio do monstro que vinha
Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra
O homem sentiu a própria grandeza
E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.
Ele avançou.
Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.
As únicas estrelas que restavam no céu
Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.
O homem sozinho, abandonado na treva
Gritou que a treva é das almas traídas
E que o sacrifício é a luz que redime.
Ele avançou.
Sem temer ele olhou a morte que vinha
E viu na morte o sentido da vitória do Espírito.
No horror do choque tremendo
Aberto em feridas o peito
O homem gritou que a traição é da alma covarde
E que o forte que luta é como o raio que fere
E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.
No sangue e na lama
O corpo sem vida tombou.
Mas nos olhos do homem caído
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.
1 197
Martha Medeiros
habito um castelo que cabe
habito um castelo que cabe
na página dupla de uma revista semanal
não tem piscina nem árvores centenárias
mas tem eu cozinhando um espagueti
ele experimentando outro tempero
e nossa filha encantada nos provando
tem uma cortina que se abre
e deixa entrar o sol de fevereiro
tem um tapete que compramos outro dia
uma garagem entulhada de bagulhos
e nossa filha cantando no chuveiro
habitamos um castelo de verdade
que fica entre uma casa e uma igreja
não temos uma pia de granito
nem um lustre imitando os de Versailles
mas tem eu experimentando uma camisa
ele servindo outra fatia
e nossa filha alinhavando esse segredo
na página dupla de uma revista semanal
não tem piscina nem árvores centenárias
mas tem eu cozinhando um espagueti
ele experimentando outro tempero
e nossa filha encantada nos provando
tem uma cortina que se abre
e deixa entrar o sol de fevereiro
tem um tapete que compramos outro dia
uma garagem entulhada de bagulhos
e nossa filha cantando no chuveiro
habitamos um castelo de verdade
que fica entre uma casa e uma igreja
não temos uma pia de granito
nem um lustre imitando os de Versailles
mas tem eu experimentando uma camisa
ele servindo outra fatia
e nossa filha alinhavando esse segredo
1 167
Martha Medeiros
pois não, senhor
pois não, senhor
disse assim que viu todo encurvado
com aquele paletó surrado
o cliente que acabara de entrar
estava sentado ali na praça, mocinho
nada fazia, só relembrava
quando surgiu uma dor de cabeça danada
resolvi lhe procurar
pois não, senhor
já consultou um doutor?
pior que a cabeça é o estômago
nossa, como incomoda
ainda ontem, contrariado
dormi todo contraído
pois não, senhor
sal de frutas, conta-gotas, antitérmico?
para complicar minha situação
tenho pedra nos rins
não disfarce, pode ter pena de mim
pois não, senhor
drágeas, xarope, injeção?
não vou nem lhe mostrar minha garganta
tão inflamada que mal posso lhe contar
todas as doenças que tenho
pois não, senhor
pomada, colírio, expectorante?
bem se vê que não tens experiência, rapaz
pois cá estou nesta farmácia
feliz de poder conversar
mas pra não dizer que lhe tomei o tempo
com licença, vou me pesar
disse assim que viu todo encurvado
com aquele paletó surrado
o cliente que acabara de entrar
estava sentado ali na praça, mocinho
nada fazia, só relembrava
quando surgiu uma dor de cabeça danada
resolvi lhe procurar
pois não, senhor
já consultou um doutor?
pior que a cabeça é o estômago
nossa, como incomoda
ainda ontem, contrariado
dormi todo contraído
pois não, senhor
sal de frutas, conta-gotas, antitérmico?
para complicar minha situação
tenho pedra nos rins
não disfarce, pode ter pena de mim
pois não, senhor
drágeas, xarope, injeção?
não vou nem lhe mostrar minha garganta
tão inflamada que mal posso lhe contar
todas as doenças que tenho
pois não, senhor
pomada, colírio, expectorante?
bem se vê que não tens experiência, rapaz
pois cá estou nesta farmácia
feliz de poder conversar
mas pra não dizer que lhe tomei o tempo
com licença, vou me pesar
1 121
Vinicius de Moraes
Velha História
Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias...
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.
E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
Olhou longamente para dentro de si
E voltou.
1 129
Martha Medeiros
a primeira vez que partiu foi ao Uruguai
a primeira vez que partiu foi ao Uruguai
mas sentiu falta de um clima mais temperado
depois morou três anos em San Francisco
ainda era garoto e quase saiu de lá viciado
foi acolhido por uma holandesa sardenta
deixou em Roterdam um apartamento montado
tentou a vida na Áustria
mas sentiu-se pouco sofisticado
da temporada que passou em Estoril
herdou uma paixão doentia pelo fado
e de uma praia italiana chamada Alássio
todos lhe invejaram o bronzeado
trabalhou de porteiro num hotel em Marrocos
alguma coisa o deixou contrariado
se encantou por uma ilha da Grécia
na qual bem poderia ter ficado
apaixonou-se onze meses na Índia
fez um filho e por pouco não esteve casado
cada primeira vez que aportava
era como se houvesse voltado
cada novo lugar que descobria
havia um novo homem resgatado
quando já tinha setenta e poucos anos
nem tão jovem e já um pouco cansado
voltou para a casa onde nascera
finalmente havia chegado
mas sentiu falta de um clima mais temperado
depois morou três anos em San Francisco
ainda era garoto e quase saiu de lá viciado
foi acolhido por uma holandesa sardenta
deixou em Roterdam um apartamento montado
tentou a vida na Áustria
mas sentiu-se pouco sofisticado
da temporada que passou em Estoril
herdou uma paixão doentia pelo fado
e de uma praia italiana chamada Alássio
todos lhe invejaram o bronzeado
trabalhou de porteiro num hotel em Marrocos
alguma coisa o deixou contrariado
se encantou por uma ilha da Grécia
na qual bem poderia ter ficado
apaixonou-se onze meses na Índia
fez um filho e por pouco não esteve casado
cada primeira vez que aportava
era como se houvesse voltado
cada novo lugar que descobria
havia um novo homem resgatado
quando já tinha setenta e poucos anos
nem tão jovem e já um pouco cansado
voltou para a casa onde nascera
finalmente havia chegado
1 112
Vinicius de Moraes
O Terceiro Filho
Em busca dos irmãos que tinham ido
Eu parti com pouco ouro e muita bênção
Sob o olhar dos pais aflitos.
Eu encontrei os meus irmãos
Que a ira do Senhor transformou em pedra
Mas ainda não encontrei o velho mendigo
Que ficava na encruzilhada do bom e do mau caminho
E que se parecia com Jesus de Nazaré...
Eu parti com pouco ouro e muita bênção
Sob o olhar dos pais aflitos.
Eu encontrei os meus irmãos
Que a ira do Senhor transformou em pedra
Mas ainda não encontrei o velho mendigo
Que ficava na encruzilhada do bom e do mau caminho
E que se parecia com Jesus de Nazaré...
1 264
Martha Medeiros
não tenho testemunhas
não tenho testemunhas
ninguém viu
aquele cara que me atropelou
e fugiu
ninguém viu
aquele cara que me atropelou
e fugiu
1 086
Martha Medeiros
o cenário, o oitavo distrito
o cenário, o oitavo distrito
cheguei às 3:20h da manhã
escoltada por dois policiais
para um encontro com o delegado
público muito restrito
três travestis histéricos
alguém que bebeu demais
e um casal visivelmente drogado
avaliaram o meu modelito
e me levaram pra cela
amanhã vai sair nos jornais
e nem tenho advogado
não sei qual foi meu delito
mas eles têm todas as provas
juram ser minhas as digitais
encontradas num homem casado
cheguei às 3:20h da manhã
escoltada por dois policiais
para um encontro com o delegado
público muito restrito
três travestis histéricos
alguém que bebeu demais
e um casal visivelmente drogado
avaliaram o meu modelito
e me levaram pra cela
amanhã vai sair nos jornais
e nem tenho advogado
não sei qual foi meu delito
mas eles têm todas as provas
juram ser minhas as digitais
encontradas num homem casado
1 111
Martha Medeiros
no fundo sabemos
no fundo sabemos
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
1 109
Martha Medeiros
no fundo sabemos
no fundo sabemos
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
1 109
Martha Medeiros
estarei em torno dos quarenta
estarei em torno dos quarenta
já terei passado pela Grécia e pelo Egito
e por algumas dificuldades
terei mais rugas, não morarei mais nesta rua
meus manuscritos estarão publicados
terei dois filhos e voltarei a ler os livros
que li na adolescência
terei um pouco mais de paciência, menos medo
da verdade e vou deixar de herança
um segredo enfim revelado
já terei passado pela Grécia e pelo Egito
e por algumas dificuldades
terei mais rugas, não morarei mais nesta rua
meus manuscritos estarão publicados
terei dois filhos e voltarei a ler os livros
que li na adolescência
terei um pouco mais de paciência, menos medo
da verdade e vou deixar de herança
um segredo enfim revelado
1 108
Martha Medeiros
frente a um filho, somos santos
frente a um filho, somos santos
frente a um soco, somos fracos
frente a um rosto, somos meigos
frente a um doce, somos magros
frente a um bicho, somos gente
frente a um cego, somos raros
frente a um dote, somos pobres
frente a um pobre, somos caros
frente a um soco, somos fracos
frente a um rosto, somos meigos
frente a um doce, somos magros
frente a um bicho, somos gente
frente a um cego, somos raros
frente a um dote, somos pobres
frente a um pobre, somos caros
1 199
Martha Medeiros
quando é que se decreta
quando é que se decreta
é hoje que sou feliz
quando é que se diz
que se fez a descoberta
quando é que se é indiscreta
e se põe os pingos nos is
quando é que esta força motriz
finalmente liberta
quando é que a dor não aperta
e se deixa de ouvir Elis
quando é que os sonhos juvenis
de outro modo se interpreta
quando é que de forma concreta
eu deixo de ser uma miss
quando é que eu corto a raiz
e passo a sonhar desperta
quando é que se fica esperta
e se passa a viver por um triz
quando é que eu chamo os guris
e deixo minha porta aberta
é hoje que sou feliz
quando é que se diz
que se fez a descoberta
quando é que se é indiscreta
e se põe os pingos nos is
quando é que esta força motriz
finalmente liberta
quando é que a dor não aperta
e se deixa de ouvir Elis
quando é que os sonhos juvenis
de outro modo se interpreta
quando é que de forma concreta
eu deixo de ser uma miss
quando é que eu corto a raiz
e passo a sonhar desperta
quando é que se fica esperta
e se passa a viver por um triz
quando é que eu chamo os guris
e deixo minha porta aberta
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