Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Esboço de Figura
Antonio Candido ou
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
1 290
Carlos Drummond de Andrade
Esboço de Figura
Antonio Candido ou
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
1 290
Carlos Drummond de Andrade
Esboço de Figura
Antonio Candido ou
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
1 290
Carlos Drummond de Andrade
A Amiga Voltou
Muitas promessas não foram cumpridas nos últimos doze meses.
Eu mesmo, ativo cobrador de promessas,
terei prometido e faltado
no mínimo sete vezes por semana
e, o que é pior,
ostentando indefectível cara de pau.
Homens enganaram homens e mulheres
com voz de flauta doce:
“Vou fazer isso, vou fazer aquilo,
vocês têm de confiar neste compatriota…”
Fez? Pois sim, seu Serafim.
Mas essa amiga prometeu e cumpriu:
“Tou de volta em janeiro.”
E tá. No Parque do Flamengo;
como anunciara. E um pouco
por toda parte: Iúca
e sua branca floração em cachos.
Temia que não viesses mais,
Iúca. As coisas andam pretas,
e tuas alvas panículas contrastantes
com o negro sobrecenho
deste Rio assustado
podiam parecer provocação.
Mas sorriste do medo.
Chegaste, amiga nossa,
pontual,
lirial,
janeiramente abril.
É consolo, conforto
saber que não mudaste
e restauras em nós a matutina esperança
de ter um dia bonito à nossa frente.
Pronto, ganhei o dia,
só de te ver e de beijar com os olhos
tua florada em forma de turíbulo
ou lâmpada suspensa.
Assim fazem as plantas,
honradas, tranquilas companheiras
neste viver em grupo, conturbado.
Não seguem portarias
nem do Banco Central nem do Conselho
Interministerial de Preços Altos.
Têm seu próprio destino prefixado
(não correção incerta monetária),
e a ele são fiéis. Fiel Iúca,
a trabalhar de graça para os pobres
olhos da população carente de feijão,
de sossego, de carne e de carinho.
Não tens partido, entre os partidos
tão repartidos que hoje se emaranham
na tentativa de comprar o passe
de partidários outros e volúveis.
Iúca, tua glória
não resulta de novelas,
nem de estádios, palácios, ministérios
de trombeteada fama nacional.
És apenas tu mesma, arbusto digno
que promete florir e cumpre
na hora certa o verde prometido.
Muito obrigado, amiga.
Eu precisava bem deste reencontro.
Nós precisávamos bem deste reencontro.
A folha de rija ponta espiniforme
não molesta ninguém: prepara a flor
inumerável, ofertada
ao dia brasileiro angustiado.
17/01/1981
Eu mesmo, ativo cobrador de promessas,
terei prometido e faltado
no mínimo sete vezes por semana
e, o que é pior,
ostentando indefectível cara de pau.
Homens enganaram homens e mulheres
com voz de flauta doce:
“Vou fazer isso, vou fazer aquilo,
vocês têm de confiar neste compatriota…”
Fez? Pois sim, seu Serafim.
Mas essa amiga prometeu e cumpriu:
“Tou de volta em janeiro.”
E tá. No Parque do Flamengo;
como anunciara. E um pouco
por toda parte: Iúca
e sua branca floração em cachos.
Temia que não viesses mais,
Iúca. As coisas andam pretas,
e tuas alvas panículas contrastantes
com o negro sobrecenho
deste Rio assustado
podiam parecer provocação.
Mas sorriste do medo.
Chegaste, amiga nossa,
pontual,
lirial,
janeiramente abril.
É consolo, conforto
saber que não mudaste
e restauras em nós a matutina esperança
de ter um dia bonito à nossa frente.
Pronto, ganhei o dia,
só de te ver e de beijar com os olhos
tua florada em forma de turíbulo
ou lâmpada suspensa.
Assim fazem as plantas,
honradas, tranquilas companheiras
neste viver em grupo, conturbado.
Não seguem portarias
nem do Banco Central nem do Conselho
Interministerial de Preços Altos.
Têm seu próprio destino prefixado
(não correção incerta monetária),
e a ele são fiéis. Fiel Iúca,
a trabalhar de graça para os pobres
olhos da população carente de feijão,
de sossego, de carne e de carinho.
Não tens partido, entre os partidos
tão repartidos que hoje se emaranham
na tentativa de comprar o passe
de partidários outros e volúveis.
Iúca, tua glória
não resulta de novelas,
nem de estádios, palácios, ministérios
de trombeteada fama nacional.
És apenas tu mesma, arbusto digno
que promete florir e cumpre
na hora certa o verde prometido.
Muito obrigado, amiga.
Eu precisava bem deste reencontro.
Nós precisávamos bem deste reencontro.
A folha de rija ponta espiniforme
não molesta ninguém: prepara a flor
inumerável, ofertada
ao dia brasileiro angustiado.
17/01/1981
1 018
Carlos Drummond de Andrade
Miniversos
1
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
1 197
Carlos Drummond de Andrade
Miniversos
1
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
1 197
Carlos Drummond de Andrade
Miniversos
1
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
1 197
Carlos Drummond de Andrade
Miniversos
1
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
1 197
Carlos Drummond de Andrade
Miniversos
1
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
1 197
Carlos Drummond de Andrade
A Queda
Por que caiu o elevado?
Por deficiência do projeto
que falhou no cálculo das tensões
e não previu uma abertura
na laje superior?
Por falta de injeção
de calda de cimento?
Defeito nos aparelhos
de apoio de neoprene?
Artes da fatalidade,
que assume o ônus das catástrofes?
Por culpa de que, de quem
caiu o elevado?
Vai começar a discussão
na batalha judicial.
Os nomes técnicos espocam
em esplendor processional.
Os culpados juram inocência.
Os inocentes serão culpados?
O culpado sou eu, você,
que não sabemos uma palavra
das palavras que cruzam no ar?
Que não cursamos o curso
dos engenheiros,
não fundamos a firma
dos empreiteiros,
não integramos a equipe
dos inspetores,
e assistimos ao desabamento
de um monumento
como uma xícara
caindo das mãos
e cujos cacos
esmagam vidas, fuscas e ônibus
na — ironia —
avenida do nome ilustre
de Frontin?
De quem a culpa? Está-se apurando
entre destroços.
Se cai o resto,
antes de findo o julgamento?
E, se não cai,
ficará o colosso mutilado
entre céu e terra
no ofício de fantasma,
apavorando quem passar?
Na paz conquistada
já não correm perigo
os mortos do elevado.
E os vivos?
15/01/1972
Por deficiência do projeto
que falhou no cálculo das tensões
e não previu uma abertura
na laje superior?
Por falta de injeção
de calda de cimento?
Defeito nos aparelhos
de apoio de neoprene?
Artes da fatalidade,
que assume o ônus das catástrofes?
Por culpa de que, de quem
caiu o elevado?
Vai começar a discussão
na batalha judicial.
Os nomes técnicos espocam
em esplendor processional.
Os culpados juram inocência.
Os inocentes serão culpados?
O culpado sou eu, você,
que não sabemos uma palavra
das palavras que cruzam no ar?
Que não cursamos o curso
dos engenheiros,
não fundamos a firma
dos empreiteiros,
não integramos a equipe
dos inspetores,
e assistimos ao desabamento
de um monumento
como uma xícara
caindo das mãos
e cujos cacos
esmagam vidas, fuscas e ônibus
na — ironia —
avenida do nome ilustre
de Frontin?
De quem a culpa? Está-se apurando
entre destroços.
Se cai o resto,
antes de findo o julgamento?
E, se não cai,
ficará o colosso mutilado
entre céu e terra
no ofício de fantasma,
apavorando quem passar?
Na paz conquistada
já não correm perigo
os mortos do elevado.
E os vivos?
15/01/1972
705
Carlos Drummond de Andrade
A Queda
Por que caiu o elevado?
Por deficiência do projeto
que falhou no cálculo das tensões
e não previu uma abertura
na laje superior?
Por falta de injeção
de calda de cimento?
Defeito nos aparelhos
de apoio de neoprene?
Artes da fatalidade,
que assume o ônus das catástrofes?
Por culpa de que, de quem
caiu o elevado?
Vai começar a discussão
na batalha judicial.
Os nomes técnicos espocam
em esplendor processional.
Os culpados juram inocência.
Os inocentes serão culpados?
O culpado sou eu, você,
que não sabemos uma palavra
das palavras que cruzam no ar?
Que não cursamos o curso
dos engenheiros,
não fundamos a firma
dos empreiteiros,
não integramos a equipe
dos inspetores,
e assistimos ao desabamento
de um monumento
como uma xícara
caindo das mãos
e cujos cacos
esmagam vidas, fuscas e ônibus
na — ironia —
avenida do nome ilustre
de Frontin?
De quem a culpa? Está-se apurando
entre destroços.
Se cai o resto,
antes de findo o julgamento?
E, se não cai,
ficará o colosso mutilado
entre céu e terra
no ofício de fantasma,
apavorando quem passar?
Na paz conquistada
já não correm perigo
os mortos do elevado.
E os vivos?
15/01/1972
Por deficiência do projeto
que falhou no cálculo das tensões
e não previu uma abertura
na laje superior?
Por falta de injeção
de calda de cimento?
Defeito nos aparelhos
de apoio de neoprene?
Artes da fatalidade,
que assume o ônus das catástrofes?
Por culpa de que, de quem
caiu o elevado?
Vai começar a discussão
na batalha judicial.
Os nomes técnicos espocam
em esplendor processional.
Os culpados juram inocência.
Os inocentes serão culpados?
O culpado sou eu, você,
que não sabemos uma palavra
das palavras que cruzam no ar?
Que não cursamos o curso
dos engenheiros,
não fundamos a firma
dos empreiteiros,
não integramos a equipe
dos inspetores,
e assistimos ao desabamento
de um monumento
como uma xícara
caindo das mãos
e cujos cacos
esmagam vidas, fuscas e ônibus
na — ironia —
avenida do nome ilustre
de Frontin?
De quem a culpa? Está-se apurando
entre destroços.
Se cai o resto,
antes de findo o julgamento?
E, se não cai,
ficará o colosso mutilado
entre céu e terra
no ofício de fantasma,
apavorando quem passar?
Na paz conquistada
já não correm perigo
os mortos do elevado.
E os vivos?
15/01/1972
705
Carlos Drummond de Andrade
A Queda
Por que caiu o elevado?
Por deficiência do projeto
que falhou no cálculo das tensões
e não previu uma abertura
na laje superior?
Por falta de injeção
de calda de cimento?
Defeito nos aparelhos
de apoio de neoprene?
Artes da fatalidade,
que assume o ônus das catástrofes?
Por culpa de que, de quem
caiu o elevado?
Vai começar a discussão
na batalha judicial.
Os nomes técnicos espocam
em esplendor processional.
Os culpados juram inocência.
Os inocentes serão culpados?
O culpado sou eu, você,
que não sabemos uma palavra
das palavras que cruzam no ar?
Que não cursamos o curso
dos engenheiros,
não fundamos a firma
dos empreiteiros,
não integramos a equipe
dos inspetores,
e assistimos ao desabamento
de um monumento
como uma xícara
caindo das mãos
e cujos cacos
esmagam vidas, fuscas e ônibus
na — ironia —
avenida do nome ilustre
de Frontin?
De quem a culpa? Está-se apurando
entre destroços.
Se cai o resto,
antes de findo o julgamento?
E, se não cai,
ficará o colosso mutilado
entre céu e terra
no ofício de fantasma,
apavorando quem passar?
Na paz conquistada
já não correm perigo
os mortos do elevado.
E os vivos?
15/01/1972
Por deficiência do projeto
que falhou no cálculo das tensões
e não previu uma abertura
na laje superior?
Por falta de injeção
de calda de cimento?
Defeito nos aparelhos
de apoio de neoprene?
Artes da fatalidade,
que assume o ônus das catástrofes?
Por culpa de que, de quem
caiu o elevado?
Vai começar a discussão
na batalha judicial.
Os nomes técnicos espocam
em esplendor processional.
Os culpados juram inocência.
Os inocentes serão culpados?
O culpado sou eu, você,
que não sabemos uma palavra
das palavras que cruzam no ar?
Que não cursamos o curso
dos engenheiros,
não fundamos a firma
dos empreiteiros,
não integramos a equipe
dos inspetores,
e assistimos ao desabamento
de um monumento
como uma xícara
caindo das mãos
e cujos cacos
esmagam vidas, fuscas e ônibus
na — ironia —
avenida do nome ilustre
de Frontin?
De quem a culpa? Está-se apurando
entre destroços.
Se cai o resto,
antes de findo o julgamento?
E, se não cai,
ficará o colosso mutilado
entre céu e terra
no ofício de fantasma,
apavorando quem passar?
Na paz conquistada
já não correm perigo
os mortos do elevado.
E os vivos?
15/01/1972
705
Carlos Drummond de Andrade
Microlira
Festival da Canção
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
1 617
Carlos Drummond de Andrade
Microlira
Festival da Canção
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
1 617
Carlos Drummond de Andrade
Microlira
Festival da Canção
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
1 617
Carlos Drummond de Andrade
Microlira
Festival da Canção
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
1 617
Carlos Drummond de Andrade
O Escritor
Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem de espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem de espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
1 244
Carlos Drummond de Andrade
O Escritor
Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem de espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem de espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
1 244
Carlos Drummond de Andrade
O Escritor
Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem de espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem de espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
1 244
Carlos Drummond de Andrade
Eu Quisera Ver o Mundo
Eu quisera ver o mundo
como o vê Sérgio Bernardo:
ver, no mundo, os muitos signos
que vigiam sob as coisas.
Sentir, sob a forma, as formas,
os segredos da matéria,
mais a textura dos sonhos
de que se forma o real.
Ver a vida em plenitude
e em seu mistério mais alto;
decifrar a linha, a sombra,
a mensagem não ouvida,
mas que palpita na Terra.
Eu quisera ter os olhos
que assim penetram o arcano
e o tornam (poder da imagem)
um conhecimento humano.
como o vê Sérgio Bernardo:
ver, no mundo, os muitos signos
que vigiam sob as coisas.
Sentir, sob a forma, as formas,
os segredos da matéria,
mais a textura dos sonhos
de que se forma o real.
Ver a vida em plenitude
e em seu mistério mais alto;
decifrar a linha, a sombra,
a mensagem não ouvida,
mas que palpita na Terra.
Eu quisera ter os olhos
que assim penetram o arcano
e o tornam (poder da imagem)
um conhecimento humano.
1 241
Carlos Drummond de Andrade
Praia Palma Paz
A paz tenta pousar no Vietname,
mas só depois de cauteloso exame.
Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.
Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo
como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?
Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?
Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?
Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.
Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.
E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.
Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.
Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,
já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.
És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?
Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo
civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?
Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira
ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.
Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.
Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!
Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,
melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.
Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!
Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?
Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.
E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,
embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.
Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo
e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.
Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.
28/10/1972
mas só depois de cauteloso exame.
Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.
Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo
como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?
Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?
Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?
Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.
Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.
E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.
Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.
Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,
já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.
És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?
Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo
civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?
Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira
ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.
Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.
Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!
Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,
melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.
Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!
Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?
Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.
E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,
embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.
Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo
e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.
Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.
28/10/1972
1 313
Carlos Drummond de Andrade
Praia Palma Paz
A paz tenta pousar no Vietname,
mas só depois de cauteloso exame.
Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.
Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo
como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?
Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?
Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?
Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.
Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.
E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.
Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.
Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,
já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.
És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?
Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo
civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?
Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira
ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.
Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.
Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!
Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,
melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.
Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!
Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?
Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.
E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,
embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.
Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo
e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.
Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.
28/10/1972
mas só depois de cauteloso exame.
Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.
Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo
como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?
Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?
Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?
Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.
Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.
E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.
Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.
Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,
já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.
És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?
Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo
civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?
Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira
ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.
Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.
Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!
Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,
melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.
Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!
Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?
Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.
E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,
embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.
Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo
e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.
Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.
28/10/1972
1 313
Carlos Drummond de Andrade
Praia Palma Paz
A paz tenta pousar no Vietname,
mas só depois de cauteloso exame.
Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.
Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo
como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?
Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?
Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?
Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.
Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.
E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.
Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.
Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,
já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.
És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?
Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo
civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?
Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira
ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.
Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.
Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!
Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,
melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.
Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!
Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?
Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.
E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,
embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.
Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo
e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.
Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.
28/10/1972
mas só depois de cauteloso exame.
Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.
Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo
como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?
Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?
Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?
Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.
Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.
E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.
Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.
Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,
já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.
És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?
Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo
civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?
Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira
ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.
Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.
Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!
Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,
melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.
Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!
Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?
Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.
E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,
embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.
Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo
e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.
Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.
28/10/1972
1 313
Carlos Drummond de Andrade
Praia Palma Paz
A paz tenta pousar no Vietname,
mas só depois de cauteloso exame.
Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.
Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo
como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?
Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?
Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?
Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.
Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.
E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.
Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.
Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,
já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.
És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?
Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo
civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?
Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira
ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.
Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.
Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!
Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,
melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.
Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!
Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?
Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.
E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,
embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.
Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo
e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.
Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.
28/10/1972
mas só depois de cauteloso exame.
Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.
Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo
como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?
Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?
Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?
Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.
Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.
E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.
Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.
Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,
já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.
És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?
Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo
civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?
Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira
ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.
Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.
Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!
Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,
melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.
Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!
Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?
Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.
E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,
embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.
Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo
e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.
Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.
28/10/1972
1 313